quinta-feira, 15 de maio de 2008

O pão dos pobres; fortuna dos ricos

Caros Amigos,
A Folha Online informa, em matéria da editora-assistente de Dinheiro, Karen Camacho, que "o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) elaborou um levantamento que aponta as desigualdades no Brasil. Um dos dados mostra que os 10% mais ricos concentram 75,4% da riqueza do país.
Os dados, obtidos pela Folha Online, serão apresentados pelo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, nesta quinta-feira ao CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). O objetivo, segundo ele, é oferecer elementos para a discussão da
reforma tributária.
A pesquisa também mostra como é essa concentração em três capitais brasileiras. Em São Paulo, a concentração na mão dos 10% mais ricos é de 73,4%, em Salvador é de 67% e, no Rio, de 62,9%.
Para Pochmann, a
injustiça do sistema tributário é uma das responsáveis pelas diferenças. "O dado mostra que o Brasil, a despeito das mudanças políticas, continua sem alterações nas desigualdades estruturais. O rico continua pagando pouco imposto", afirmou.
Apenas para efeito de comparação, ao final do século 18, os 10% mais ricos concentravam 68% da riqueza no Rio de Janeiro --único dado disponível."

..........
Como se vê, a injusta e secular divisão de renda no Brasil é um dado histórico alarmante. Nesse complexo, reúnem-se aspectos que vão desde o puramente econômico, passam pela geração de preconceitos étnicos e de gênero, forjam comunidades corporativas no âmbito político-administrativo e deságuam na miséria e na pobreza, na violência e no banditismo, na corrupção e dilapidação de valores relativos à cidadania.

A mobilização por uma reforma tributária é, assim, além de um fato de política fiscal, a fundação de um novo ethos, uma nova forma de convivência social, obrigando-se aqueles que têm mais a pagar para poder ter esse mais. É preciso uma taxação direcionada às grandes fortunas, é preciso redirecionar o poder do Estado sobre as elites, a fim de que estas se entendam como co-responsáveis pelo estado de coisas que aí está posto. O problema é que o Estado é feito pelas elites e para as elites. Assim, fica difícil a busca de justiça social. Mas, de qualquer maneira, que venha uma reforma tributária.
Emanoel Barreto
Foto: Martha Albuquerque - Favela da Rocinha-Rio

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O afeto que se encerra

Caros Amigos,
Com a saída da ministra Marina Silva, encerra-se o período de presença de alguém que tinha compromissos com a floresta, com o meio ambiente, com a vida. Conhecedora profunda da Amazônia, até porque de lá, foi aos poucos sendo cerceada pelos colegas de ministério, até chegar ao ponto da renúncia. Não que Carlos Minc venha a desmerecer o cargo. Ao contrário, tem perfil e biografia que a isso o credenciam.

O problema é que, com a saída da Ministra, as forças que a ela se opunham dão demonstrativo da capacidade de fazer valer seus interesses. As serras comemoram, rosnando seu grito de corte. E, com a saída de Marina, é o afeto que se encerra.
Emanoel Barreto

terça-feira, 13 de maio de 2008

Bendito é o fruto

Caros Amigos,
Em meio ao caos em que se transformou sua vida, o atacante Ronaldo está em vias de, num lance de dados da boa fortuna, começar a inverter a situação: o anúncio de que sua namorada Bia Antony está grávida, chega como uma bênção a quem tanto já se penitenciou ao deus da mídia, ou como uma daquelas bolas que somente rolavam para Romário empurrar ao gol.

Hoje, no programa de Ana Maria Braga, ele compareceu e foi alvo de paparicos; recebeu declarações de apoio e incentivo, ante uma apresentadora reverencial e prestativa. Tanto o programa de Ana Maria, quanto a entrevista no Fantástico, semana passada, não passam, estou certo, de uma poderosa ação de markrting pessoal a fim de reavivar Ronaldo enquanto marca. Ele é, além de uma pessoa, um produto, um ser midiátido, do qual os grandes conglomerados econômicos ligados ao esporte se nutrem e engordam. Esses podem engordar, Ronaldo, não.

Tal é a lógica do grande capital que o financia e dele aufere seus dividendos. Detalhe: na entrevista ao Fantástico, Ronaldo estava, podemos até dizer, malvestido. Abatido, roupas com aparência de coisa já muito usada, chinelos simples. Tudo, tudo para compor o tipo; expor, via vestuário, o que estaria se passando no interior, no intimus do craque. É admissível que ele estivesse mesmo acabrunhado. A roupa foi apenas o complemento, o cosmético feioso que ajudou a formar a imagem do sofredor arrependido. A estética da depressão como artifício dramático.

Agora, quando se fala num filho, a trilha, roteiro que rege a vida das pessoas de mídia, funcionará como a água purificadora do pecado impensado. Será uma sinfonia mágica, um tilintar suave de sininhos a sinalizar que o pesadelo está para acabar. Shhhhhhhhhhhhhh.... Silêncio, vem aí um bebezinho... Bendito é o fruto do vosso ventre, Bia.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Desumanidade: o patrocinador oficial do Caso Isabella

Caros Amigos,
O Caso Isabella. Não há mais o que dizer.
Todas as lágrimas já foram choradas.
Só falta a Globo assinar contrato de exclusividade
para entrevistas com familiares.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Aquele abraço...

Caros Amigos,
Estou impossibilitado de atualizar o blog. Creio que até sábado próximo voltarei a fazê-lo.
Abraços.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 30 de abril de 2008

"Não sois máquinas; homens é que sois"*

Caros Amigos,
No Dia do Trabalho, injustos e hipócritas se reúnem para as libações de praxe, em homenagem ao homem-máquina, ao trabalhador obscuro e honesto. Vinícius de Moraes lhes trago, com o seu O operário em construção.
Abraços,
Emanoel Barreto

O operário em construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.E Jesus, respondendo, disse-lhe:– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.Lucas, cap. V, vs. 5-8.


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!

E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pãoO operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.

Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção

E olhando bem para ela
Teve uma segunda a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.F
oi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não
.E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrã
oQue sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário

Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vêsSerá teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.

E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
*Charles Chaplin

- Eu prometo!

Caros Amigos,
Obama e Hillary, nesse auge de campanha, apelam para a sensibilidade dos americanos pobres e se dizem preocupados com a sua situação. As coisas de jornal informam que nos EUA existem mais de 36 milhões de pessoas em estado de pobreza, ou 12,5 por cento da população.

Entendo que a questão do discurso em relação aos pobres é universal; é um conteúdo único, prêt à porter e instrumentalizado pelas elites das democracias formais - lá, como aqui e alhures, os pobres são, sempre, massa de manobras e motivo de promessas.

Como se ser governo fosse um prêmio às elites e suas benesses sociais fossem o pagamento - minguado, é claro -, que se dá ao eleitor, como retribuição ao voto.

A ação social como óbolo àquele que permancerá, a vida toda, pobre e desvalido. Desvalido, mas recebendo um pão ou algo assim, até a próxima eleição.
É isso. Eles são todos iguais.
EmanoelBarreto

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Nem tudo são flores

Caros Amigos,
O anúncio do envolvimento de Ronaldo com travestis, exatamente num período em que o jogador vive momentos de recuperação de uma cirurgia, mais uma, exibe o lado perigoso, lamacento da fama. O craque, que teve a carreira já interrompida várias vezes por acidentes sofridos em campo, já não ostenta mais a aura de melhor do mundo e, parece, vê sua trajetória encaminhar-se para escanteio.

Esse é o preço a pagar pela celebridade, pela exposição de mídia intensa e voraz. Quando se atinge tais alturas, a pessoa célebre anexa à sua personalidade, mesmo sem querer, a figuração do ídolo, do perfeito. Torna-se um apolo, especialmente quando se trata de atletas, de quem se exige arrojo, ímpeto e coragem nas disputas. As vitórias são os louros olímpicos, a consagração perante as multidões a quem se dá pão e circo. Esquece-se que uma coisa é o atleta, o mágico da bola; outra, o homem, a pessoa, falível e efetivamente falha.

Então, a juventude passa, a boa forma escasseia, vêm os reveses e o ídolo, se não busca preservar-se, resvala para a condição de mortal comum, despido das vestes falsas do esporte olimpiano. Ronaldo, com a vida pessoal exposta às coisas de jornal, parece prenunciar que a decadência começa a pesar-lhe aos ombros.
Emanoel Barreto

domingo, 27 de abril de 2008

Uma lágrima pela menina morta

Caros Amigos,
A lembrança triste da menina morta
ecoa como som de sino que bate numa noite eterna.

Espiões malignos lhe relembram o nome
e fazem um festim estranho,
espetáculo escuro na tela da TV.

As lágrimas histéricas, o alvoroço, os gritos,
seguem em procissão sombria.
A dor transformada em audiência.

A lembrança triste da menina morta
agora é curiosidade mórbida,
escancarado préstito, patíbulo de trevas.

Não há mais o que dizer: tudo já se sabe,
mas querem o detalhe deplorável,
o cantar mais horrendo
das megeras carpideiras.

É tempo de parar. É tempo.
Mas ainda se deseja mais.
A multidão é o arauto desabrido
de tanta curiosidade louca.

É tempo de parar. É tempo.
Que não se aceite esse regougar, agouro.
Que se acenda, em lugar disso, pelo menos,
a vela de uma lágrima sincera
pelo fim dessa menina morta.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 25 de abril de 2008

De como bebi uísque com Canhoto da Paraíba no palco de um teatro, foi no Alberto Maranhão

Caros Amigos,
A morte de Canhoto da Paraíba, além de marcar o início de uma saudade bem brasileira, nordestinamente inteira, feita por sina, e por fado, me relembra de uma coisa que aconteceu em Natal: ele ia se apresentar no Alberto Maranhão e eu estava por lá. Pois então, quando cheguei, já muita gente havia; teatro quase lotado, e um rapaz me abordou: "Você é Emanoel Barreto, que escreve no jornal?"

Eu lhe respondi que sim e ele me convidou: "Aceita ficar no palco, ao lado do tocador? Vamos botar umas mesas, é como se fosse um bar. Conhoto fica tocando, você e os outros bebem, o garçom fica servindo, é festa para arrombar."

Aceitei na mesma hora; fui levado lá pra cima, fiquei numa mesa boa; Canhoto virou o mundo nas cordas do violão. Mestre feito e engenhoso, gênio limpo, gesto claro, Canhoto - casa lotada - derramava até ao chão, um mar de acordes perfeitos.

Só não gostei de uma coisa: quando eu ia me animando, eu e meus companheiros, uísque de copo cheio, chegou ao fim o espetáculo; terminava o show de Canhoto, mestre sem par nem parelha, tocador de regra inteira, do tamanho de um trovão.

E agora, no jornal, vem a nota triste e fala, e diz que ele morreu. Morreu nada, só partiu. Depois, um dia ele volta. Volta em cada violão, em cada acorde fechado, no sentimento alargado, tocando o mundo virado, como virava o violão.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O Brasil não quer apito

Caros Amigos,
Transcrevo parte de matéria publicada pelo Estadão, dando conta de que ONGs estrangeiras com atuação na Amazônia serão controladas militarmente, a fim de prevenir ações contrárias aos interesses nacionais. Eis o que o jornal divulga: "Muitas ONGs internacionais, como o grupo ambientalista Greenpeace, têm escritórios na Amazônia e fazem campanhas contra o desmatamento provocado por madeireiros e fazendeiros.

Também há grupos de direitos humanos que ajudam índios e camponeses numa área de muitos conflitos fundiários. Na quarta-feira, o ministro da Justiça, Tarso Genro, disse que muitas ONGs estão envolvidas com a biopirataria e tentam influenciar a cultura indígena para expropriar suas terras. Os ministérios da Justiça e da Defesa pretendem enviar em junho ao Congresso uma nova Lei de Estrangeiros, para impedir que as ONGs sirvam como fachada para atividades ilegais na Amazônia. Por esse projeto, indivíduos e grupos estrangeiros precisariam de autorização do Ministério da Justiça e de cadastro no Comando Militar da Amazônia para atuar na região.

Quem for apanhado sem as devidas autorizações estará sujeito a revogação de visto, deportação e multa de 5.000 a 100 mil reais. O governo brasileiro é sempre sensível a críticas de estrangeiros à suas políticas para a Amazônia, onde há pouca presença do poder público para conter o desmatamento, a grilagem e a exploração de recursos.

As Forças Armadas também se preocupam com hipotéticos cenários de invasão e ocupação da Amazônia por uma potência estrangeira. "Não estamos cientes de nenhuma ameaça pendente. Não temos disputas fronteiriças com nossos vizinhos, mas por que esperar até que alguma coisa aconteça? Precisamos estar preparados para proteger nossos recursos", disse Jobim."

Trata-se, sem dúvida, de uma atitude acertada, que já chega com algum atraso. Afinal, não é de hoje que, sob o mando de ações humanitárias, desinteressadas, entidades e cidadãos de outras nacionalidadedes chegam à Amazônia manifestando pios interesses e as melhores intenções, quando, na verdade, são bem outros seus propósitos.

Também não é de hoje que os países de centro buscam internacionalizar a Amazônia, sob a alegação de que o Estado brasileiro não tem competência, disposição ou capacidade de atuar naquela estensa área do nosso território. Com essa atitude, o Governo demonstra de forma bem clara suas intenções de reverter esse quadro.

Não é meta fácil de ser atingida, porém deve ser um objetivo nacional permanente. Os países do Norte estão destruindo suas reservas naturais. Não é preciso ser um sábio ou alguém dotado de poderes de vidência para perceber-se que, em muito poucos anos, estarão ainda mais dispostos a fazer-se presentes ali, a fim de consolidar sua presença e hegemonia.

A ilustração do Padre Vieira catequizando índios é bem demonstrativa do quanto de mal foi perpetrado, sob a bandeira da "civilização" e da "redenção" dos "gentios". A ação da Igreja abriu caminho para todo um panorama de desvirtuação e redução de culturas aborígenes belíssimas à condição de subalternidade, perdendo-se para sempre povos e valores. É o que os grupos estrangeiros, hoje, também pretendem: sob o pálio largo de propostas humanitárias, promove-se a biopirataria e instilam-se junto aos índios costumes e culturas que em nada dizem respeito às coisas mesmas do Brasil, sua soberania e direitos territoriais.

Como nação emergente, o Brasil precisa afirmar-se ainda neste quadrante da história como capaz de atuar em seu território, preservar o meio ambiente e proteger os povos da floresta. Ou faz-se isto agora, ou veremos, na prática, que a Amazônia será, efetivamente, um Inferno Verde.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Idade para ser feliz...


Caros Amigos,
Um instante, dos muitos instantes que passamos em Porto de Galinhas-PE.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A moral é mais embaixo

Caros amigos,
O deputado Djalma Marinho costumava dizer que um homem pode considerar-se amadurecido quando encara, com serenidade, os atos mais insanos da humanidade. Acho que ainda não estou amadurecido. Ainda fico perplexo com as humanas coisas. Lendo o restante do texto, vocês verão porque.

Djalma, para quem não lembra, era presidente da Câmara quando a ditadura quis cassar, em setembro de 1968, o deputado Márcio Moreira Alves, que houvera pronunciado um discurso considerado ofensivo pelas Forças Armadas e pelo presidente Costa e Silva.

Djalma era do partido do governo, a Arena, mas, insurgindo-se contra o ato de força que, caso fosse aceito, colocaria a Casa de cócoras, evocou Calderón de la Barca, quando disse: "Ao meu Rei tudo, menos a honra" - e não encaminhou a votação. O resto já se sabe, Congresso fechado, ditadura rugindo.

Entre o gesto de Djalma e a realidade de hoje, quanta diferença: o presidente da Casa, Arlindo Chinaglia, entorna sobre a sociedade um aumento da verba de gabinete. A verba de gabinete sofreu aumento de 18%: passou de R$ 50,815 mil para R$ 60 mil. Alegação do deputado: "É um ato de justiça." A "justiça", representará um aumento na folha de pagamento da Câmara em cerca de R$ 54 milhões.

Não, não é um ato de justiça. Os deputados já ganham muito e muito bem e disso não se envergonham; mas deveriam.

Ao tomar conhecimento do reajuste, passei a procurar na net outras informações a respeito da Câmara e o que acho? Uma informação, datada de 8 de novembro de 2007, relativa a uma exposição do fotógrafo Luiz Garrido. Uma das fotos mostrava o travesti Rogéria envergando apenas camisa e gravata.

A foto foi censurada e a exposição suspensa, a fim de não "ofender" a dignidade da Casa. Mas, não é ali, costumeiramente, onde, a porta fechadas, são feitos acertos e conchavos, entendimentos e esbulhos aos interesses da sociedade? Não é ali que corruptos dão vazão aos seus mais baixos instintos peculatários?

Entendo que a foto ainda hoje seria polêmica. Mas, não é nas casas políticas que se dá a convivência de contrários? A foto foi censurada, não pelo seu discurso erótico-satírico. Mas, foi impedida de ser mostrada, pois a vestimenta de Rogéria era uma alusão ao que se convencionou chamar de classe política. Era, literalmente, a encarnação da velha fábula "O rei está nu". Os deputados, de alguma maneira, se sentiriam ali representados. Sua nudez moral estava ali, naquela foto insolente e desabusada - como insolentes e desabusados são muitos dos atos dos parlamentares.

A Câmara, agora, fica outra vez como o rei da fábula, quando sai esse novo aumento aos deputados. E disso eles não têm vergonha. É porque, para eles, a moral fica mais embaixo.
Emanoel Barreto
PS: Estarei ausente de Natal até terça. Se der, atualizo o blog.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Respeito, beleza, amizade...


Caros Amigos,
Publico agora um poema de minha neta Eduarda, de oito anos. Avô tem dessas coisas: esses encantamentos, uma espécie de revivescência, uma volta, um reencontro com sua própria infância. São momentos de uma ingênua alegria, pingos de vida orvalhando instantes.
Emanoel Barreto

A importância do respeito

É preciso respeitar
Para cooperar.
Respeitar os velhinhos,
Até os bichinhos.

Sem respeito
A amizade não tem conceito.
A confiança é delicada,
Mas podemos perdê-la.

Com o respeito ganhamos amizade,
Que encontramos na sociedade.
Cuidado com a humanidade,
Pois é melhor contar a verdade.
Eduarda Barreto Manso

A casa da noite eterna

Caros Amigos,
Recebi, há uns dois, três dias, um e-mail lacônico, algo enigmático, assinado apenas por "Tereza". Ela fazia observações a uma matéria que publiquei em 2006, janeiro, dia 24. O título, "A casa da noite eterna". Então, rememorava um acontecimento que abalou Natal, quando um homem, José Vilarim Neto, por motivos até hoje nunca explicados, trucidou uma família e tentou, horas depois, matar a mãe, a alemã Ruth Looman e uma filha, ainda bem criança. Entre as vítimas, relatei haver uma empregadinha grávida, também morta por Vilarim.

Pois bem: Tereza fez as seguintes observações: Ruth não era alemã e a "empregadinha" - ela colocou a palavra entre aspas - não estava grávida e tinha 12 anos. À época, 1975, todos nós, da imprensa, fomos informados que Ruth era alemã e que a mocinha estava grávida. E assim foi publicado no Diário, Tribuna e A República, jornal que há muito deixou de circular.

Mas, meu olhar de repórter, ao ler aquele e-mail, logo percebeu que a referência à jovem assassinada, pelo fato mesmo de vir entre aspas, revelava algo como um sentimento de dor, de descontentamento, vindo uma pessoa que, de alguma forma, havia sido ofendida. Entendi tudo: o termo "empregadinha" soou-lhe, estou certo, como um depreciativo, uma adjetivação infeliz a uma pessoa simples. Uma menininha que, pela sua condição social, precisava trabalhar, prestando serviços domésticos.

Sou um jornalista acostumado às mais diversas coberturas, que já viveu as mais inusitadas situações. Procuro, sempre, usar as palavras certas, martelar no teclado como se fora um piano, onde, ao menor erro, à mais simples falha, perde-se toda a sinfonia. No caso, depois de já muito tempo, descubro que feri alguém. Toquei a nota errada no meu teclado. E feri a uma pessoa que se deu ao trabalho de palmilhar intensamente este jornal, descobrindo o que entendeu ser uma falha. E foi. Se ela sentiu-se ofendida, a composição não foi executada com perfeição.

Cara Tereza,
Agora, uma explicação: o uso do termo no diminutivo, teve exatamente o seguinte propósito: passar ao leitor a idéia de alguém muito jovem. Não foi um diminutivo que amesquinhasse sua condição de trabalhadora; mas uma palavra que, no contexto em que foi colocada, buscou dar uma idéia da juventude agredida, juventude que, circunstancialmente, era encontrada na pessoa de uma pequena prestadora de serviços do lar. Em nenhum momento, uma "empregadinha", alguém minúsculo, desimportante, dispensável, inferior.

Se você ler este texto, Tereza, gostaria que o recebesse como a expressão mais sincera de um repórter. Que já viu e ouviu, senão de tudo, mas muito do que o mundo, vasto mundo, tem a nos dar de pior e mais cruel. Até mesmo quando um repórter, na busca de fazer o certo, acaba ferindo alguém que, por motivos que desconheço, termina por sentir-se ofendida.
Um abraço,
Emanoel Barreto

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Os atos secretos de Marilyn Monroe

Caros Amigos,
O dia 5 de agosto de 1962 entrou para a memória do cinema como uma data trágica: era encontrada morta, nua, Marilyn Monroe. Até hoje, uma morte nunca esclarecida. Quem já leu algo a respeito sabe que ela tivera envolvimento simultâneo com os irmãos Kennedy, Robert e John, e isso teria levado a que setores da segurança americana, CIA e assemelhados, se apressassem em acabar com o affair. Era melhor evitar um escândalo, coisas assim...


Agora, uma revelação acerca da atriz traz sua imagem - literalmente -, de volta à cena do jornalismo. A Folha Online informa: "Para quem acha que os vídeos com cenas de sexo de famosos é algo típico da atualidade, um filme com imagens de Marilyn Monroe (1926-1962) em cenas quentes feito nos anos 50 comprova que esta cultura existe há tempos.
Vídeo de Marilyn Monroe, fazendo sexo oral foi vendido por R$ 2,6 milhões nos EUA
Segundo o jornal norte-americano "The New York Post", a cópia de um vídeo da célebre atriz loira fazendo sexo oral em um homem não-identificado foi vendido para um empresário nova-iorquino pela quantia de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 2,6 milhões)."

Pergunta-se: qual, efetivamente, a importância desse filmete? O que tem isso de extraordinário? Se formos ver pelo ângulo do fato em si, nenhuma importância. Agora, olhando-o a partir de quem o praticou, o acontecimento ganha outros contornos: trata-se da exposição de uma figura mundialmente famosa, cuja vida foi marcada por escândalos e muito sex appeal.

Norma Jean Baker, seu nome de batismo, agregou à sua imagem todos os valores da mulher-objeto, os tiques e maneirismos das bombshells, os gestos construídos pelo star sistem hollywoodiano. Mas, vendo-se por um terceiro enquadramento, o que fica, o que fica mesmo, é a demonstração de como as pessoas de mídia passam, por isso mesmo, a compor no imaginário coletivo a posição que vou chamar de tipo marcante: aquele em que a passoa midiatizada passa a reunir em si todos os atributos dessa tipificação, sejam estes positivos ou negativos, ou até mesmos os dois.

Com isso, suas atitudes passam a ser alvo de uma curiosidade mórbida, obsessiva, especialmente quando o assunto em pauta são comportamentos de cunho sexual. A curiosidade do público, alimentada pela mídia, despertada por esta, incentivada pelo sistema de comunicação que trabalha em regime de tempo integral, resulta na manifestação degradante, em que massa e mídia são, em essência, uma equipe que age consorciada. Não há, no fim, diferenciação entre espetáculo e público; um e outro são partícipes do mesmo ato socialmente monumentalizado. O espetáculo está no, e é o público.

E os olhos desse grande todo querem ter um olhar penetrante. Querem os atos secretos, querem o que escondido; querem ser senhores de todos os silêncios.
Emanoel Barreto

sábado, 12 de abril de 2008

Um olhar voltado para o Nada

Grizar Junior/Futura Press - publicada pela Folha de S. Paulo
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá deixam de carro o IML, onde foram submetidos a exames após terem sido libertados

Caros Amigos,
No olhar distante, um instante da Queda.
A vida esvaziada,
perdida em sentimentos pasmos,
enlaçada de momentos turvos.
Movimentos parados,
como um pêndulo estático.

Quem? Quem? Quem?
O coração de todos quer uma resposta.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A crise de alimentos e Tio Patinhas

Caros Amigos,
Os Grandes do mundo estão manifestando preocupações com a subida dos preços dos alimentos.

Entendidos em economia e políticas públicas dizem que os preços estão numa corrida para o alto devido ao fato de que, no mundo, milhões e pessoas saíram da linha de probreza absoluta, ou melhor, da miséria, e estão podendo comer. Ou seja: gente deixando de passar fome para atender não apenas a uma necessidade fisiológica, mas a um direito universal de cidadania, a um direito humano, o direito à vida.

E os Grandes, com isso, estão preocupados. Estão temerosos com o fato de que, com o aumento dos preços, poderá resultar numa espiral inflacionária via conexão da produção alimentícia inflacionada com outros fatores socioeconômicos, formando-se então uma crise; estão preocupados, como se vê, é com o dinheiro, o capital, o lucro e a possibilidade de que eles, os Grandes, venham a, de alguma forma, perder poder e fortuna; milhares, milhões, bilhões de dólares escorrendo de suas grandes e gananciosas mãos.

Observando-se tal expectativa, o Grupo G8, e a Rússia, estão marcando uma reunião de emergência, para discutir o assunto. Não, não estão preocupados em como manter as pessoas se alimentando, ganhando corpo, saindo da desnutrição. Querem encontrar uma fórmula para que Tio Patinhas continue a dar mergulhos em dinheiro, nadando em seu cofre platinado.
Emanoel Barreto

terça-feira, 8 de abril de 2008

Aquela coisa que se chama morte

Caros Amigos,
A morte da menina Isabella, cujo anúncio e ênfase pelas coisas de jornal causa comoção a todo o País, leva a uma indagação: por que isso? Por que surge esse sentimento coletivo de pasmo, deprimente perplexidade, uma espécie de caos emocional que enche de vazio a alma? Por que esse grito no olhar, quando se vêem as manchetes?

A explicação: um psiquiatra disse na TV que esse tipo de ocorrência é chamada de crime inusitado, ou seja: uma ação infracional que atinge fundamente, além da pessoa vitimada, poderosos e antigos sentimentos, convicções arraigadas geração a geração e que, mesmo com as admissíveis mudanças sociais, permanecem ainda como valores fundamentais. Pelo menos foi isso o que entendi.

E o que foi atingido, quando alguém praticou o crime? Atingiu-se, na essência, essa coisa a que chamamos lar; aquela unidade familial que encerra e emana carinho, proteção, aconchego, intimidade, conforto, paz, menininhas dormindo no silêncio da noite calma. E, sendo o ataque à criança praticado sob o teto de um lar, onde a liturgia do amor e da comunhão se faz todos os dias, ou pelo menos se deveria fazer, agrediu-se de maneira incomum, esmerilhadamente cruel, a infância, a vida, o respeito ao lar. Houve, para o inconsciente coletivo, um sacrilégio, uma violação, uma profanação.

É por isso que, até mesmo estimulada pelas coisas de jornal, as pessoas esperam que se descubra quem matou a menina Isabella. E, como diziam as mulheres antigas, rezando seu terço ao entardecer e olhando ao longe o sol que se punha, "cada um que reze para que isso não venha a lhe acontecer." É o ser humano, pequeno e pobre, temendo que venham da vida, para lhe atacar, terrores e medos, aquele frio que arrepia e aquela coisa que se chama morte.

Emanoel Barreto
Foto: Agência Estado - Aledandre Nardonni e Ana Carolina, pai e madastra de Isabella.

domingo, 6 de abril de 2008

Goodbye, Ben Hur


Caros Amigos,
Com a morte do ator Charlton Heston, cujo papel mais representativo foi o do príncipe judeu Judá Ben Hur, uma superprodução de 1959 que ainda hoje é referência mundial, vai-se um artista que tinha, para mim, como que uma missão - claro que não era, mas, na minha visão de menino de oito anos, em 1959, era sim: interpretar personagens que encarnavam valores como dignidade, honradez, coragem, honestidade e, acima de tudo, heroicidade. Em El Cid, não foi diferente. Em Planeta dos Macacos, a mesma coisa. Também não se pode esquecer Os dez mandamentos.

Ben Hur é um clássico do cinema épico. E, sendo um épico hollywoodiano, é claramente um trabalho de comunicação de massa em seu sentido mais exato. Mas, apesar de ser obra de comunicação de massa - que em si é despretensiosa e eminentemente comercial -, de alguma maneira saúda a capacidade do ser humano de resistir ante os mais desastrosos, até mesmos trágicos acontecimentos.
Quando vi o filme, ou seja, quando conheci Ben Hur, ele logo tornou-se meu amigo. Como assim também o eram Jerônimo, o Herói do Sertão; os Doze Pares de França; o Zorro; Roy Rogers; os Trezentos de Esparta; os Três Mosqueteiros e o Duque de Caxias. Claro que eu tinha muitos outros amigos, mas não daria para reuni-los todos neste texto.
No meu imaginário infantil, a condição de herói, de defensor dos fracos e oprimidos, fazia-me aliar o Duque de Caxias e Rolando, um dos Doze de França, a personagens de cinema e histórias em quadrinhos. Uma aliança onírica, clara, brilhante; um campo vasto, para grandes campanhas de combate e largas e velozes cavalgadas.
Claro que o menino que eu fui sabia que, uns e outros, estavam divididos pelas suas condições de pessoas e de personagens. Mas suas essências, para mim, significavam muito. Eram a expressão da minha corajosa ingenuidade: o uso da força a favor do Bem.
Mas o tempo passou, meus amigos foram partindo um a um, recolhendo-se aos escaninhos mais distantes de minha memória e ali, de alguma forma, adormecendo. Mas, pensando bem, quem sabe, eles não estão montando guarda e me incentivando a enfrentar desvios e tormentas? Quem sabe?
Mas, a gente vive no mundo, e o mundo é real. E, com a morte de verdade deste velho companheiro de aventuras, tenho de dizer adeus. Hoje, já não mais enfrento bandidos ou legiões. Mas, como o Prisioneiro 41 do filme, o incansável remador Ben Hur, continuo no mesmo compasso, ao ritmo binário que rege todo galé. Goodbye, Ben Hur.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Eis aqui o cordeiro imolado

Caros Amigos,
A curta e afinal trágica vida da menina Isabella é exemplo gritante, emocionalmente ensurdecedor, de como é frágil a existência humana, especialmente quando se trata de um ser indefeso e esplendorosamente inocente. Não quero questionar quem foi ou foram os criminosos. Isso será apurado pela polícia e depois as coisas de jornal vão noticiar.

Quero apenas expressar e compartilhar perplexidade, estranhamento e luto pela forma cruel, bárbara e perversamente requintada como foi morta. Que tipo de mente produziu tão deplorável brutalidade? É meia noite, quando redijo esta nota. A humanidade vem perpetrando, ao longo de séculos de horror, seus atos de martírio, trucidamento, dor; imposições de iniqüidades inscritas em códigos sangrentos e gestos de malignidade tão grande que superam o imaginário humano.

A grande noite do mal, que habita o coração dos homens inclementes, é eterna como o tempo em situação estática: ela, essa noite de brumas e de trevas, não "existe": ela, simplesmente, é. E, naquele apartamento, naquele microcosmo onde se deu a tragédia, o derramamento daquele sangue inocente e frágil, é prova de que a rudeza da alma dos degenerados, somente se contenta quando ceva seus instintos sobre a singeleza do belo.

Com toda a certeza, a respeito da menina Isabella, podemos dizer, à nossa sociedade neurótica e moralmente gelatinosa: eis aqui o cordeiro imolado.
Emanoel Barreto
Foto: reprodução do álbum de família

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Jornalismo grotesco. Jornalismo?

Caros Amigos,
A Folha Online está com uma enquete em que procura saber qual o melhor programa de jornalismo-deboche. Trata-se, evidentemente, de um paradoxo, senão uma espécie de equívoco mal-intencionado. No mínimo.

Como pode ser bom jornalismo aquele que se dedica ao deboche, ao achicalhe, a um certo tipo de humilhação grotesca, burlesca, cujo único objetivo é expor em situações ridículas, em rede nacional de TV, figuras públicas?

São elencados pelo jornal os programas "CQC" "Pânico na TV" "Casseta e Planeta", além da possibilidade "Nenhum dos anteriores". Esses programas, que em nada contribuem para o jornalismo em sentido estrito, não passam de grotesquerias arranjadas. Num deles, por acaso, vi uma "reportagem" com o ministro Gilberto Gil, que comparecera ao casamento de uma filha, Morena Marina. Tentou-se de todas as formas envolvê-lo com perguntas tolas, grosseiras, inúteis.

Calmo, com um olhar fulminante, Gil limitou-se a encarar seus detratores por alguns instantes. Notava-se perfeitamente o sentimento de alguém que se sente ofendido publicamente, uma pessoa que, por ser midiática, deveria, na ótica do programa, ter a obrigação de participar da farsesca representação.


Ele entrou calado e saiu mudo. A péssima qualidade da programação de TV aberta, que vem privilegiando de forma contumaz a estética do grotesco, abriu largos espaços temporais e tais produções, voltadas todas para o senso comum, o espectador sendo incentivado a agir como populacho, saco vazio a ser preenchido com esse tipo de lixo.

O Brasil já tem problemas demais. Não seria o caso de abrir-se um programa para os grandes cantores como Gil e Cia., em vez de dar larga às vozes fanhas que formam um coral de abusados?
Emanoel Barreto

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Assim caminha a humanidade

Caros Amigos,
Não sou dos que acreditam que uma imagem diz mais que mil palavras. A angulação, o uso de lentes especiais, o desfoque, enfim, técnicas de posicionamento e edição, podem performatizar uma foto de tal maneira que sua publicação venha a ser interpretada de forma totalmente diversa do acontecimento que a gerou.

A foto acima, entretanto, se encaixa perfeitamente na afirmativa generalizante de que a imagem fala mais que a palavra pronunciada ou redigida. Aí, cabe bem essa afirmativa do senso comum. Trata-se, inequivocamente, de um flagrante monstruoso da fome na África negra, abandonada e explorada pelos países centrais.

A imagem é um dado alarmente, pelo poder de síntese e argumentação imagética. É um grito e um protesto. Uma acusação à humanidade enquanto suposta instância ética coletiva; humanidade que se desetizou e se distanciou de sua essência de humanização e compaixão. Seria mesmo a denúncia da calamitosa situação dos povos africanos de um modo geral, não fora um problema: o fotógrafo, Kevin Carter, que ganhou o Pulitzer de fotografia em 1994, esperou friamente que o abutre se aproximasse da criança faminta, nas terras áridas do Sudão, para captar o momento. Depois, partiu e deixou a criança à própria sorte. O menino estava a, apenas, um quilômetro de um campo de atendimento a famintos, mantido pelas Nações Unidas.

Movido pelo objetivo de obter um grande flagrante, esqueceu que, antes de ser jornalista, ele, o fotógrafo, era um ser humano. Faltou-lhe a compaixão. Sua ação aética embasou-se unicamente na captação do instante preciso para a obtenção da foto. Com isso, aliou-se à grande indiferença aos deserdados, aos invisíveis que sofrem e caminham todos os dias em avenidas, ruas, becos, lama e territórios tórridos.

A indiferença, que se tornou sinônimo de insensibilidade e inumanidade, rege os destinos do mundo e dos que buscamapenas o lucro, o individualismo, o bem estar privativo e doce das bonanças e privilégios.

Do menino, não se sabe o que aconteceu, mas é fácil imaginar. De Carter, pode-se informar: suicidou-se três meses após ter feito a foto, sucumbindo a profunda depressão. Assim caminha a humanidade.
Emanoel Barreto

terça-feira, 1 de abril de 2008

O navio, o cais, a beleza...

Caros Amigos,
O poeta e jornalista Walter Medeiros, amigo de velhas datas, enviou este belo "O cais", que trago a vocês.
Abraços,
Emanoel Barreto

O cais

Walter Medeiros

Carregado de sonhos, o navio
Singra, leve, a barra potiguar;
E em seu branco silêncio secular
Atraca sob as bênçãos desse rio.

O Forte é a eterna testemunha
De tudo que a história aqui faz,
Aliado com o mais belo cais
Canguleiro sem qualquer alcunha.

E os encontros se sucedem, felizes,
Uns chegando, outros indo seu destino
Pelas águas do formoso Potengi;

Corações de amor e cicatrizes,
Qualquer adulto parece um menino,
Cá, olhando o navio a seguir.

segunda-feira, 31 de março de 2008

31 de março: o dia que aconteceu em 1º de abril

Caros Amigos,

Foi triste, foi feio,
foi sórdido demais.
Foi um tempo longo,
gelado, cruel.
Inumado, indecente,
brutal, lamacento.

Foi triste, foi feio,
foi dor, foi tormento.
Foram facas longas,
sangrentas, ferozes.

A morte a cavalo
pisou sobre a Vida.
E gritos contidos
percorreram prisões.

Lamentos selados
surgiam de corpos.
Despedaçados corpos
em tantos porões.

Foi triste, foi feio,
insano terror.
Instantes, instintos
estavam ali.

Carrascos escuros
tramavam nas trevas.
E faziam vítimas,
caladas, morrer.

Quanto horror.
Quanta desonra.
Carrascos armados; amados, não.
A Pátria não quis aqueles filhos.
Abortos pardacentos.

E a história guardou seus nomes
nos escaminhos
mais sujos
do esquecimento.
Emanoel Barreto
Foto: O jornalista Vladimir Herzog, morto nas dependências do Doi-Codi

sexta-feira, 28 de março de 2008

"Irne tana absus,tare met die mor"

Caros Amigos,
O País estava sendo varrido por uma enorme onda noticiosa, um tsunami informativo a respeito de um certo Banco de Dados, que revelaria casos e tramas de um governo passado e suas tenebrosas transações presidenciais. O Banco de Dados, entretanto, ninguém sabia aonde ficava. Não tinha registro no Banco Central, não tinha agências em nenhuma parte do território nacional, nem funcionários, nem correntistas. Tratava-se, assim, de um mistério.

Como ninguém, nem mesmo os mais experimentados repórteres conseguiam ter acesso ao Banco de Dados, e com o agravamento da situação - gente na rua pedindo para saber se por acaso não teria algum dinheirinho por lá, pessoas querendo pedir empréstimos, outros pensando em praticar algum assalto -, foi convocada uma comissão se sábios, para descobrir aonde e como funcionava o tal Banco.

Os sábios, então, começaram uma grande peregrinação pelo mundo, consultando centenários documentos, sítios arquelógicos antiquíssimos, inscrições em cavernas e furnas, tumbas e locais absolutamente secretos. Mas, até então, nada fora encontrado. Enquanto isso, o noticiário explodia, como se um terremoto político-nacional fosse acontecer: uma suposta reunião de acusações a um ex-presidente era transformado quase numa tragédia.

Mas os sábios continuavam sua árdua tarefa. A mulher, a única do grupo - eles eram três -, afinal conseguiu decifrar uma intrigante inscrição rupestre, que dizia assim: "Irne tane absus, tare met die mor." Imediatamente após a descoberta, eles puseram-se a voltar ao País.

Chegando, foram recebidos pelos políticos e pela imprensa. A mulher foi chamada a falar, e afirmou: "A inscrição diz que, irne tana absus, tare met die mor, quer dizer: 'Jos ert mat, buat dole mur'. Essa a grande realidade que eu constatei." E, então, os jornalistas perguntaram: "E o que significa a segunda frase?"

Ela virou-se para eles: "Trata-se de grande mistério e eu não sei dizer o que é." Mas, pelo sim, pelo não, vamos todos continuar a buscar o Banco de Dados; é bem provável que ele exista e a gente possa abrir, pelo menos, uma caderneta de poupança.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 27 de março de 2008

A imensa paisagem do mundo

Caros Amigos,
A imensa paisagem
da dor dos homens é interna e,
mesmo habitando o território escuro
e oculto da alma de cada um,
entra em contato
com a grande paisagem livre,
a grande paisagem da vida
que vive fora de cada um de nós.

É isso que ainda nos faz crer na possibilidade,
no passo seguinte,
no próximo amanhecer...
Emanoel Barreto
Foto: Autor não identificado.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Poder e pudor

Caros Amigos,
A adorável Carla Bruni, cantora e ex-modelo, mulher do presidente francês Nicolas Sarkozy, volta às manchetes com a divulgação de uma foto sua feita em 1993, quando era era top model e uma das mais bem pagas do mundo. Na foto, ela não faz o extilo femme fatale; está mais para ninfeta, uma espécie de inocência postiça, um convite ao lobo-mau.


Seguinte: o casal está em Londres, em visita oficial; sua união foi formalizada exatamente para evitar problemas com o protocolo: como poderia, por exemplo, a Rainha receber em Buckingham e deixar dormir sob o mesmo teto um casal presidencial não casado? E mais: em viagem a um emirado, o chefe de governo árabe mandou claros sinais de sua insatisfação em ter sob a sombra de sua respeitável figura a visita de um presidente modernete e de sua irriqueata companheira. Então, às pressas, providenciou-se a cerimônia nupcial. E Nicolas e Carla passaram de amantes a nubentes e de nubentes a marido e mulher. Só que, agora, explode a foto, exatamente quando eles visitam a Rainha.

Então, o que proponho é o seguinte: examinar a difícil convivência entre o mundo da diplomacia e da política, com seus ademanes e regras de bom-tom, ditames e procedimentos fixados, gestualidades e casuísmos comportamentais cifrados, homenagens administradas e saudações calculadas, frente à realidade humana e falível dos mortais que ocupam, circunstancialmente os altos cargos, especialmente aqueles que, também circunstancialmente, poderão vir a ser chamados a decidir os destinos do mundo. É uma mistura de hipocrisia litúrgico-política, com a decadência inata ao homem.

So para lembrar: o governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer, perdeu o cargo após ser descoberto seu envolvimento com uma rede de prostituição. Seu substituto, David Paterson, por precaução, já declarou que traiu e foi traído pela mulher e, um ou dois dias depois, revelou: já fomou maconha e usou cocaína. Foi uma ação preventiva, sem dúvida orientada por sua assessoria de imprensa, a fim de evitar males futuros.



Estados e Governos, sempre, cercaram as figuras de seus representantes máximos de pompa e rituais, liturgias do cargo, a fim de enaltecer sua heroicidade, representatividade e legitimidade para representar - e comandar - o comum dos mortais, a massa, a patuléia, a burguesia e as elites que os cercam. Com isso, naturalizou-se a suposição de que a tais figuras deveriam necessariamente estar impregnadas de uma situação moral personalíssima e impoluta, uma aura de respeitabilidade incontestável. Como se ali, naquela pessoa, não fervessem os mesmos sentidos, sentimentos, desejos - sempre os desejos - fraquezas e pulsões dos demais.


E então, quando ocorrem os escândalos, o mitos se desfazem, imagens se desmancham e pudor e poder se distanciam, revelando-se a condição humana dos dirigentes. Somos destinados à queda e, mesmo que não devamos nos distanciar da ética, da honradez e da moral, é preciso saber que os atos das pessoas públicas, quando não interferem em seu desempenho, em seu papel de dirigente, legislador, o que seja, é unicamente uma questão pessoal. Tudo bem que as coisas de jornal alardeem a falta de pudor. Mas, insisto, pudor e poder não são as duas faces da mesma moeda. Não, em se tratando de vida pessoal. Mas, por precaução, é melhor evitar o falariço...
Emanoel Barreto
Foto: AP
*A Foto, segundo o Estadão Online, será vendida em leilão, para o qual se espera lance máximo de quatro mil dólares.