Mostrando postagens com marcador homem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homem. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Aritmética do trabalho ou teorema social tosco
Emanoel Barreto

O trabalho enobrece o homem.
O trabalho enobrece o homem?

O trabalho enriquece o homem.
O trabalho enriquece o homem?

O trabalho engrandece o homem.
O trabalho engrandece o homem?

Respostas parciais:
O trabalho embrutece o homem.
O trabalho empobrece o homem.
O trabalho enlouquece o homem.

Respostas finais:
O trabalho enobrece um homem. E só um.
O trabalho enriquece um homem. Um único homem.
O trabalho engrandece um homem. E apenas um homem.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

Meu caminho e o barro
Emanoel Barreto

 Retiro do barro do meu caminho a estátua que de mim construirei.

E depois, como é de barro, minha estátua beberá de toda chuva.
E molhada se desfará abundantemente
E voltará a ser o barro por onde continuarei a caminhar.
E então reconstruirei uma nova estátua.

E assim será sempre. Dantes e depois.
E depois já não saberei quando sou dantes ou depois.
Não saberei se sou estátua, barro ou caminho.

E o caminho barrará os passos da sempre estátua.
Estarei ao mesmo tempo morto e imortal.
Pois o barro é a eternidade que se prende aos nossos pés.

sábado, 31 de julho de 2010

DEUS O LIVRE DO PCL-84

Você sabe o que é PCL-84?
Emanoel Barreto

O homem penetrou na imponência atemorizante da Repartição Pública. Construção pesada, com mais de cem andares de altura, era inteiramente pintada de cinzento. Ar de contrito, cabisbaixo, caminhava entre filas e filas de pedintes do serviço público. Agia assim cumprindo plano que tinha considerado como ardiloso: "Se eu demonstrar humilhação acho que vou ser mais bem atendido."

Dirigiu-se a uma senhora sentada a uma mesinha e disse: "Olhe", a mulher não olhou, estava lendo uma revistinha de moda, "eu queria saber..." - "se quiser saber tem que tirar ficha para poder saber. Ficha para poder saber não é comigo. É com aquela ali", e apontou um longo dedo em direção a um guichê onde havia enorme fila.

O homem, paciente, entrou na filha  e após mais de três horas foi atendido. Tirou ficha para quem queria saber. Entrou noutra filha. Afinal, mais duas horas e chegou ao guichê. "Olhe", o funcionário também não olhou; lia o noticiário de futebol. "Olhe, é o seguinte: recebi em casa esse comunicado - e mostrou o papel onde estava o comunicado - dizendo que, pela lei n. 8.789.998.000, de 1767, fui multado com base no artigo 5º do despacho PCL-84. Como não sei o que é isso..."

O funcionário, ainda de cabeça baixa, anunciou:"Veio ao lugar certo". Isso animou muito o homem, quero dizer, o paciente, o pobre, o coitado, o miserável: "Então, o que é PCL-84?". Resposta: "Não sei. Isso é assunto da diretoria, informação sigilosa, entende? Precisa de ficha para ter acesso ao seu processo. Agora, uma coisa adianto: se é coisa do PCL-84, deve ser coisa séria. Tome essa ficha. Ela dá direito de usar o elevador.Vá ao centésimo décimo sétimo andar e lá eles lhe informam."

O pobre pegou a ficha e esperou mais uma hora até entrar no elevador. Elevador moderno, cabiam mais de 100 pessoas. E, nele, todos estavam implicados ao PCL-84, foi o que apurou nas mais de duas horas que o elevador levou, até chegar ao centésimo décimo sétimo andar. Gente muita, não é?, por isso a demora; peso grande, a máquina funcionava devagar.

Chegando, todos foram à Diretoria Especializada em PCL-84. Decepção: o diretor tinha dado uma saidinha. "Uma saidinha?". Todos ficaram desesperados: funcionários públicos quando dão uma saidinha demoram muito, é o costume, é regra consuetudinária, tem de ser respeitada. Mais dez horas de espera e o diretor chegou.

Todos foram levados à sua sala, explicaram a que vinham e pediram explicações. "Explicações? Ora, explicações... Nem eu mesmo sei o que é PCL-84. É uma lei tão antiga e tão complicada que nem mesmo os legisladores do tempo a compreenderam por inteiro. Vejam: só para pensar em pagar o sujeito precisa recolher taxas e emolumentos. Depois, tem acesso ao processo e paga a dívida toda."

"Onde se pagam as taxas e os emolumentos?"
"Vão direto à Coordenadoria de Taxas e Emolumentos que lá eles explicam."
"Isso fica aqui, neste edifício?"

"Não. Fica do outro lado da cidade e, detalhe: não podem ir de carro. Têm que ir em nossos ônibus especiais para devedores de Taxas e Emolumentos. Mas aviso: esses ônibus só funcionam de mil em mil anos."
Todos fizeram: "OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!........."

Mas, bondoso, o diretor disse: "Tiveram sorte. Hoje faz mil anos do último funcionamento e vocês vão embarcar sem problemas. Isto é, se passarem pela Polícia Especial de Taxas e Emolumentos devidos à Lei do PCL-84. Quem sai daqui devendo eles prendem."

"E se a gente não passar?"
"Problema de vocês."

Cabisbaixos, os pobres desceram pelo elevador. Quando se dirigiam para o ônibus e já iam sendo presos, o homem do início desta história teve uma ideia. Gritou: "Vocês da Polícia Especial: já pagaram seus emolumentos do PCL-84?"

Os guardas embranqueceram. Pálidos, fizeram que não com a cabeça. A turba então os atacou e todos foram surrados. Achando pouco, os homens invadiram o grande edifício, expulsaram todos os funcionários, o diretor e quantos mais e se apoderaram da burocracia. Agora mandavam em tudo.

Pouco depois chegou um homem, que perguntou: "Posso saber o que é PCL-84?"
Foi imediatamente dominado e entregue aos novos guardas da Polícia Especial e nunca mais se ouviu falar dele.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O amigo invisível e uma enigmática viagem pelos ventos

 http://www.google.com.br/imgres?
O senhor dos ventos
Emanoel Barreto

Tenho um amigo que, diz-me, é senhor dos ventos; ou melhor, amigo deles. Com eles dialoga, discursa, debate, briga até. Para em seguida fazer as pazes e viajar. Sim, ele viaja, garantiu-me. Deitado nos ventos, sem qualquer perigo de cair. Mesmo nas alturas mais deslumbrantes vai, flutuando em paz.

A tal dom alia outra maravilha: torna-se como o vento fluido e invisível. Assim, quando aragem mansa, invade ambientes ocultos, é voyeur de casais intensos, mulheres em pelo, cenas de famílias em aniversário de 15 anos, solidões de desesperados, delírios de loucos e de mandatários em sede de poder.

Sim, ele ouve tudo, vê tudo.

Dia desses saí com ele. "Posso?", perguntei. "Posso" no sentido inglês de "May". E ele respondeu: "Yes, quer dizer sim". E convocando um vento forte, mas não um simum, um siroco, um mistral, tornado, ciclone, tufão ou furacão, fomos calmamente, sem temor de provocar os desmandos que tais ventos determinam.

Evocou vento poderoso o suficiente para nos elevar e voar. Invisíveis, e impregnados ao ar em movimento, subimos. Fomos tão algo que a Terra ficou lá embaixo, azul e linda, como dissera Gagarin.

Depois, descemos. O que vi, nessa passagem, foram as plagas terríveis e mais belas da condição humana. Praias sensacionais, vigorosas paisagens, coisas das mais belas.

Passamos também pela miséria de Benares, os esconsos de Tegucigalpa, a miséria terrível dos subúrbios de Bogotá, a perversa vida nas favelas do Rio, os soluços ignaros dos moradores dos esgotos de Bali, ruelas de toda a Ásia, becos de toda a Europa, etc..., etc..., etc...

Vi-me invadido por uma sensação que oscilava entre alegre e pesarosa. O homem, o pobre homem em seu dilema. O homem como situação coadjuvante do seu próprio drama.

Voltamos tarde da noite.
Agradeci.

Quando já saía, voltei-me para perguntar quando iríamos viajar de novo.
O canto mais limpo. Ele tinha desaparecido.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

http://www.bicodocorvo.com.br/wp-content/gallery/tubarao-branco/foto-tubarao-branco-06.jpg

E o homem foi.
Viajando o léu, o acaso, o improvável possível.
E se era possível virou realidade.
A Fera Vida o acossou e veio.
E o homem...