domingo, 16 de maio de 2010

http://www.sertao24horas.com.br/cute/data/upimages/marina-da-silva.jpg
A vida de Marina Silva ou, com Serra na presidência, não
Emanoel Barreto

Leio na Folha ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1605201016.htm ) pungente matéria que aborda perfil da senadora Marina Silva, candidata do PV à presidência da República. Cidadã norte-rio-grandense e natalense há poucos dias agraciada, trata-se de ser humano incomparável. Na Câmara Municipal de Natal recordou suas origens nordestinas, recitou poemas, falou de improviso, num pronunciamento comovente.

Disse que ela, Lula, Pelé, pelas suas origens sociais humílimas, são exceções. Não, não foi ato de autolouvação. Apenas constatou histórias de vida ímpares, querendo dizer que tais casos, atributos personalíssimos, devem ser compensados com políticas públicas de inclusão, não se deixando ao destino, essa entidade aleatória e implausível, a vida de milhares, talvez de milhões que não têm, como os três personagens citados, resiliênia suficiente para a superação dos descaminhos da existência, suas dores  e incertezas.

Temo que  matéria da Folha não tenha intenção de dar o destaque - merecido - a uma candidata, digamos assim, de esquerda - com licença desse jargão já surrado. Não: creio que há uma intenção de agendamento, quem sabe o início de processo de ênfase da figura respeitável de Marina visando tirar votos da candidata do PT, o que redundaria em voto útil a José Serra.

De qualquer forma foi válida a publicação, trazendo a público o vulto de uma mulher que é um ser universal, digno, honrado, confiável e, sem dúvida, capacitado a ocupar a presidência. Entenda, por favor, que estas linhas são apenas abordagens ao sabor do momento. Especulação, no melhor sentido do termo, ante os fatos que estão a correr.

Não sou sectário, partidário, no sentido de seguir organicamente uma linha ou discurso partidário. Não voto em Serra pelo fato de ser um neoliberal - com todas as acepções e decorrências negativas que esse tipo de político e de política traz para os trabalhadores.

A campanha está em fase inicial. Que venham os discursos e os embates de campo. Numa coisa concordo com Serra: o Brasil pode mais. Pode sim. Mas, com ele na presidência, não.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

 http://agualisa.blogs.sapo.pt/arquivo/tumulo%5B1%5D.jpg
A mulher que queria me vender um túmulo
Emanoel Barreto

Caminhando hoje pelo Centro ouvi, a meu lado, uma voz de mulher: "O senhor já tem seu túmulo?". A pergunta, inesperada e louca, me fez gelar. Já vivi muitas situações, digamos, estranhas nesses mais de 30 anos de jornalismo - como o caso de um sujeito que quase era linchado na redação da Tribuna do Norte após ser perseguido por multidão enfurecida. Ele havia surrado o pai e tinha corrido das Rocas até o jornal, em busca de abrigo. Depois conto em detalhes.

Mas essa de alguém querer me vender um lugarzinho em cemitério... Mal refeito do susto, a corretora da morte não me deu trégua. Entregou-me um folder e mostrou-me a conveniência de uma atitude "precavida e sábia", dizia ela.

Muito séria, compenetrada em sua soturna missão, continuou dissertando sobre o assunto com tanta e tamanha autoridade que quase pensei em aderir a um de seus planos de financiamento. Dizia que o terreno "era bom e muito bem situado".

Retomando o fôlego e o bom senso disse-lhe que não, que ainda não estava pensando em assunto de tão grande e profunda relevância e, a muito custo, consegui dela me desvencilhar. Apressei o passo, olhei firme para a frente, mas ainda ouvi, enquanto me afastava: "Olhe, se comprar seu túmulo, nós lhe daremos de graça um caixão."

quinta-feira, 13 de maio de 2010

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O resto é pleonasmo
Emanoel Barreto

Em texto de Kenneth Maxwell, sob o título "Resgate", diz a Folha a respeito da crise na Grécia:


OS "MERCADOS" se recuperaram depois do anúncio do imenso pacote europeu de assistência aos membros do sul do continente que vêm encontrando dificuldades.


A despeito das medidas de austeridade anunciadas pelo governo grego, dos tumultos nas ruas de Atenas e da morte de três funcionários em um banco atacado com coquetéis molotov, os membros da UE que usam o euro não haviam conseguido entrar em acordo quanto a medidas para conter a crise financeira. Os alemães, especialmente, se opunham a qualquer "resgate".


O problema básico era a crescente incapacidade da Grécia para manter o serviço de sua imensa dívida pública pagando juros de mercado. Os europeus e o FMI, sob intensa pressão, aprovaram um resgate que oferecerá US$ 140 bilhões à Grécia em prazo de três anos.


Com apoio relutante da Alemanha, os ministros das Finanças da UE, agindo com o apoio do FMI e do banco central dos Estados Unidos, aprovaram também o equivalente a quase US$ 1 trilhão em garantias de empréstimos, o que inclui um compromisso de aquisição de títulos de dívida nacionais pelo Banco Central Europeu a fim de impedir que o "contágio" se expanda e de ajudar a sustentar a situação financeira da Grécia, bem como a de Portugal e Espanha.


Vai funcionar? A Grécia assumiu o compromisso de reduzir as bonificações de Páscoa, verão e Natal de seus funcionários públicos e aposentados, vai elevar os impostos sobre combustível, tabaco e álcool, elevar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos e impor o uso de medicamentos genéricos no sistema estatal de saúde.


Mas o "Washington Post" relata que uma avaliação interna do FMI é pessimista. O estudo aponta que o choque social ainda não se fez sentir no país em toda a sua profundidade.


Até mesmo ligeiras variações de comportamento no crescimento, inflação, medidas de austeridade e elevação de impostos farão com que a carga da dívida grega aumente, a despeito dos esforços internacionais para reduzi-la. O FMI projeta anos de queda nos salários e padrões de vida e desemprego ampliado. O quadro não é bonito.


Já diante da crescente indignação quanto ao acordo, a chanceler alemã, Angela Merkel, sofreu sério revés em eleições regionais importantes e foi forçada a abandonar seus planos de cortar impostos.


Josef Schlarmann, líder regional da União Democrata Cristã, partido de centro-direita de Merkel, acusou a chanceler de "fazer pouco para resistir ao resgate à Grécia".


Seria desnecessário dizer que os bancos continuam a ser pagos.
.........

O autor, que nem de longe poderia ser "acusado" de "ser de esquerda", portanto um perigoso ser que pensa de forma de forma "divergente", acentua em observação irônica no final do texto que os bancos continuarão a ser pagos.

Mais claramente eu digo que os bancos, leia-se as elites do dinheiro, do capital improdutivo, rapinante, os parasitas do trabalho dos outros, serão mantidos em seus panteões de exploradores, ricos e gozando do ócio e do negócio.

Continuarão a fomentar crises, levar pessoas ao desespero, à fome, à depressão, ao suicídio. E também continuarão impunes e premiados pelos governos, que em hipótese alguma se voltam contra as elites. E por um simples motivo: o Estado é povoado por esses tipos, o Estado coloca-se a serviço do privado.

Quanto ao povo, esse ser coletivo que às vezes vai às ruas protestar quando as coisas estão acima do insuportável, continuará a sofrer os efeitos históricos de atos que não praticou. E a apanhar, apanhar muito da polícia - que também é povo mas disso parece não se dar conta.

Então, o povo se cala e vai sucumbir a algum soluço trôpego, escondido no fundo de sua alma desesperançada. Depois, bom, depois é o povo e o resto é pleonasmo...



quarta-feira, 12 de maio de 2010

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 Cuidado com os alienígenas
Emanoel Barreto

Deu na Folha, em texto de Ranier Bragon:

As associações que representam os maiores jornais e canais de TV do país anunciaram ontem ter ingressado na Procuradoria-Geral da República com representação em que pedem investigação e adoção de medidas contra o possível controle, por empresas estrangeiras, de órgãos de comunicação no país.

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) pedem que o Ministério Público adote providências para que o governo faça cumprir a determinação constitucional que limita a 30% a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação e reserva a brasileiros natos (ou naturalizados há mais de dez anos) a responsabilidade administrativa e editorial.


O presidente da Abert, Daniel Slaviero, afirmou haver dezenas de casos de violação da regra constitucional. "Há dezenas de casos, mas os mais notórios são o portal Terra e o portal iG, que têm conteúdo jornalístico operando na internet", afirmou Slaviero.

"Entramos com a representação com base em duas premissas: que a internet não é uma terra sem lei e que algum órgão público tem que fazer valer uma regra constitucional que está sendo flagrantemente desrespeitada", disse Slaviero, em entrevista antes de seminário no Congresso que discutiu direito autoral na internet.

Material distribuído pela Abert durante o evento aponta também outros órgãos de imprensa, como o jornal "Brasil Econômico", lançado no país pelo grupo português Ongoing.

"Acreditamos que o Ministério Público irá adotar a iniciativa de defender a execução do artigo 222 da Constituição, flagrantemente desrespeitado", afirmou Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ.
..........

É correta e urgente a ação dos órgãos de comunicação. O manejo de conteúdo em qualquer veículo, especialmente no que diz respeito à ênfase, ou seja à contínua veiculação de um determinado tipo de mensagem, é algo que pode ser preocupante, em função exatamente dos enquadramentos trabalhados em caráter contínuo.

Uma determinada forma de representação de mundo, mais claramente, um certo tipo de noticiário que favorece assuntos ou temas, pode terminar não apenas determinando sobre o que pensar, mas, especialmente, como pensar.

Isso em função de que o auditório desprovido de um determinado tipo de informação em proveito de outro pode ser encaminhado a supor que o certo, a verdade é aquilo que está em processo de veiculação continuada e ressaltada.

A, digamos, invasão de grupos multinacionais, seja em território jornalístico ou em aspectos diversionais, termina por formular uma determinada imagem que interessa aos que detêm esse poder de elaborar e  veicular símbolos.

Em suma, trata-se de questão também política, também de poder. Já basta o domínio, por exemplo, que os EUA têm no segmento de filmes em cinema e TV. Tal situação favorece a predominância de mensagens que privilegiam interesses alienígenas, obscurecendo a paisagem e os temas nacionais.

Trata-se de atitude que vem a tempo. De uma mobilização que precisa e deve continuar.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

http://esfolando.files.wordpress.com/2009/09/dinheiro-2.jpg
É interessante, não é?
Emanoel Barreto

Deu no UOL: Bolsa dos EUA tem maior alta diária em mais de um ano



Da Redação, em São Paulo


As Bolsas de Valores tiveram altas no mundo todo nesta segunda-feira, após o anúncio do pacote de € 750 bilhões para a zona do euro. Os índices acionários dos Estados Unidos registraram o maior ganho diário em mais de um ano. Na Europa, o principal índice de ações europeias teve a maior alta em 17 meses. A Bovespa encerrou com a maior elevação desde outubro. As Bolsas asiáticas também fecharam com ganhos expressivos.

O Dow Jones, referência da Bolsa de Nova York, avançou 3,9%, para 10.785 pontos. O termômetro de tecnologia Nasdaq disparou 4,81%, para 2.374 pontos. O Standard & Poor's 500 teve alta de 4,4%, a 1.159 pontos. Os três principais índices registraram a apreciação mais forte desde 23 de março de 2009, quando os Estados Unidos divulgaram detalhes de um plano para compra de ativos tóxicos de bancos, após uma expressiva queda das bolsas algumas semanas antes, que levou as ações à mínima em 12 anos.
....

Interessante, a economia parasitária faz a crise, toma dinheiro da sociedade, leva essa mesma sociedade ao caos e depois sai comemorando. É interessante, não é?



domingo, 9 de maio de 2010

Quando o jornalismo é bem feito
Emanoel Barreto

A reportagem da capa da Revista IstoÉ apresenta a candidata Dilma Rousseff como destaque. Faz tempo não via, ou lia, um jornalismo tão bem feito. Indagações pertinentes cujas respostas dão um retrato de corpo inteiro do ator político Dilma Rousseff. Ou quase: digo isso porque sei que ela, como candidata, dá respostas sob medida, a fim de assegurar a construção do seu capital político.

 Explico: Dilma luta para retirar de si a imagem de gerentona dura, mulher inflexível, imperiosa, arrogante. Pode até nem ser isso, mas sua imagem midiática confere com esse padrão. Por isso, a mudança de hábito no declartório à revista. Leia a matéria e você compreenderá porque. Não quer dizer, contudo, que inexista sinceridade nesse declaratório.

Na IstoÉ, a representação da entrevistada - em foto e texto -, é bem diferente da imagem de Serra em recente capa da Veja. Que também apresentou Dilma, em edição bem anterior, com a figuração de personagem de matéria policial - foto em preto e branco, aspecto soturno.

Com Serra, a capa foi trabalhada para que ele parecesse empático, politicamente atraente, ideologicamente belo. Foi um erro crasso: a face do ex-governador de São Paulo não se presta a reformulação. Não se trata de um efebo e pronto. Nem assumiu a feição de condottiero, se fora essa a intenção. Resultado: trabalho perdido.

Na IstoÉ, ao contrário, respeitou-se a imagem da pessoa entrevistada e dela se obtiveram respostas jornalisticamente aceitáveis. Ou seja: um tipo de assertividade em que o ator declarante repassa ao interlocutor com clareza aquilo que supostamente reflete aquilo que pensa. A objetividade jornalística obteve seu grau relativo de representação linguístico-iconográfica, permanecendo adstrita ao real do qual teve origem. Isso é bom jornalismo.

sábado, 8 de maio de 2010

 http://www.astormentas.com/florbela.htm
Lendo Florbela Espanca
Emanoel Barreto

A poesia estranha e bela de Florbela é êxtase, passagem, porta aberta, céu intenso, nuvem que nunca se esvai. Golpe de florete, elegante cinzel leve e preciso. Dela os poemas abaixo.

Languidez

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,



Que poisam sobre duas violetas,


Asas leves cansadas de voar...


 
E a minha boca tem uns beijos mudos...


E as minhas mãos, uns pálidos veludos,


Traçam gestos de sonho pelo ar...

Os versos que te fiz


Deixe dizer-te os lindos versos raros


Que a minha boca tem pra te dizer !


São talhados em mármore de Paros


Cinzelados por mim pra te oferecer.



Tem dolencia de veludo caros,


São como sedas pálidas a arder...


Deixa dizer-te os lindos versos raros


Que foram feitos pra te endoidecer !



Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...


Que a boca da mulher é sempre linda


Se dentro guarda um verso que não diz !



Amo-te tanto ! E nunca te beijei...


E nesse beijo, Amor, que eu te não dei


Guardo os versos mais lindos que te fiz.




Beija-mas bem!... Que fantasia louca


Guardar assim, fechados, nestas mãos,


Os beijos que sonhei pra minha boca!...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

 http://ourspiritwillliveon.files.wordpress.com/2009/02/utopia.jpg
Transcrevo texto do grande Mauro Santaya.(EB)
Dialética da utopia

Por Mauro Santayana

O documentário de Silvio Tendler Utopia e barbárie é referência necessária ao exame da história contemporânea, ao lado de outros estudos marcantes, como os livros de Chomsky e de Bárbara Tuchman – sem falar nas análises filosóficas mais profundas de Hannah Arendt e dos expoentes da Escola de Frankfurt. Como trabalho cinematográfico, a obra de Tendler se identifica com o clássico Mourir à Madrid, de Frédéric Rossif, de 1963. Mas Silvio nos espicaça com inquietação explícita: até onde a barbárie pode alimentar-se no combate à utopia?


A discussão não é nova, mas muitos procuram evitá-la, nutridos do sumo de justiça e da busca de seus sonhos proféticos. A mais bela e forte das utopias é a do cristianismo, que nos promete a realização do Reino de Deus entre os homens. Sem ela, a vida no Ocidente teria sido insuportável, mas sua associação ao poder temporal, com Constantino e Ambrósio, trouxe o conformismo e a frustração.

Ao organizar o seu caminho, a utopia corre o risco de perdê-lo. Isso parece dar razão aos anarquistas puros do século 19, que reduziam a utopia à atualidade destruidora: toda tentativa de ordenar a vida social em estados era, para eles, violência intolerável. Tendler fala de Hitler, de Stalin, de Pol Pot, e de suas vítimas, como portadores de utopias singulares. A de Hitler, desde o início, não se dissimulava, porque o nazismo é identificado com a morte. Seu mundo ideal Hitler o desenhou a partir de Mein Kampf: um mundo dominado pelos alemães, herdeiros da Terra pela força e pela beleza, ou, seja, pela sua superioridade como animais predadores.

Quando as melhores utopias se valem da violência, a fim de se tornarem viáveis, elas se pervertem, é a conclusão dos espectadores do filme de Tendler e dos estudiosos da história. Em suma: as utopias políticas de igualdade e justiça devem ser fiéis a si mesmas, ainda que permaneçam sempre utopias, ou seja, irrealizáveis. Se assim for, cumprem o seu papel ontológico, o de, ao conservar a esperança no absoluto, permitir a realização do relativo. Ou, na linguagem de Marcuse, construir a história como a realização do possível no interior do necessário.

No seu estudo sobre o alvorecer do século 20, Bárbara Tuchman mostra como o apogeu do poder e do fausto do Império Britânico, durante a hipócrita sociedade vitoriana, correspondeu à mais dramática situação de seus trabalhadores. Trinta por cento dos ingleses viviam em pobreza inimaginável, apesar do saqueio colonial, trabalhando sete dias por semana, de 12 a 16 horas por dia, dizimados pela tuberculose, enquanto nos palácios ducais as recepções perdulárias e insolentes se repetiam. Quando os trabalhadores começaram a organizar-se, o governo ameaçou excluí-los de tudo, e importar mão de obra chinesa, quase escrava. Foi exatamente nesse período que os anarquistas passaram a agir: seu terrorismo era a resposta da justiça utópica contra as pétreas estruturas do poder. Em menos de duas décadas, reis, rainhas, duques, primeiros-ministros europeus e o presidente dos Estados Unidos, McKinley, foram assassinados. Os anarquistas atuavam quase sempre sozinhos, ou associados a dois ou a três companheiros, quando muito.

O documentário de Tendler se encerra com uma nota forte de esperança, que se funda na experiência. Mesmo tendo sido o século mais sangrento da História, com mais de 60 milhões de mortos nas guerras sucessivas, os últimos cem anos contribuíram para a libertação dos homens, embora novas etnias sociais, como as dos moradores de rua, tenham surgido da economia neoliberal, essa teologia dos banqueiros. Tendler cita como sinais da esperança a eleição do operário Lula, no Brasil, e a de um negro, Obama, para presidir os Estados Unidos.

As utopias, em todos os tempos, são a denúncia da injustiça e o ânimo para a resistência. Elas se realizam pouco a pouco; a cada passo trazem novas esperanças e se distanciam, como as linhas do horizonte, quando delas nos aproximamos. São inalcançáveis, como os arcos-íris. Ao mesmo tempo, suas conquistas açulam as contrautopias, para a violenta reação que conhecemos. Nesse jogo dialético entre a barbárie e a utopia, se faz a história, com a grandeza e a miséria da condição humana.
 momhttp://blogdofavre.ig.com.br/tag/henri-cartier-bresson
O momento preciso
Emanoel Barreto

A foto é de autoria de Henry Cartier Bresson, artista que marcou não apenas o século passado, mas toda a história do foto-jornalismo desde então e para sempre. Dele, já li que definia seu trabalho como a captação do que chamava de "o momento preciso" - aquele instante mágico em que o olhar sensível percebe um dado de mundo e seu congelamento exato em imagem-emocionada.

O momento preciso é aquele instante em que o fotógrafo sente-se implicado à cena, é parte dela enquanto orbservador-participante. Participante no exato instante em que ela o impressiona e a trans-forma em depoimento histórico.

Histórico como aquilo que terá relevo nos registros da grande vida social, como os feitos da humanidade em suas grandiosas ou degradadas manifestações, ou histórico enquanto captação de momentos públicos íntimos, como o encontro do casal.

Tudo é história, tudo é vida. Tudo pode ser o momento preciso. Basta dar-lhe significação. O problema é a genialidade para expressar esse momento.



quarta-feira, 5 de maio de 2010

Uma charge do Henfil, só para matar a saudade.
De frente pro crime ou o sorriso da Mona Lisa
Emanoel Barreto

Em minhas aulas sobre formas de comunicação disruptivas, como atos de protesto e ações terroristas, cujo objetivo imediato é abrir espaço midiático literalmente à força, costumo lembrar aos alunos que, no respeitante ao terrorismo, trata-se, além da forma abjeta da ação, de algo que obtém efetivo resultado - lamentavelmente, pela mídia, eles conseguem levar adiante a sua mensagem bombástica - perdão pelo trocadilho.

Mesmo que não sejam experts em comunicação, do ponto de vista teórico, os terroristas têm, pela própria experiência, uma certeza: aquilo que irão perpetrar encontrará espaço no mundo da mídia. Isso em função de algo que intuitivamente percebem: tudo o que quebra a planura do cotidiano, afasta-se do comum e do normal, chama a atenção dos jornalistas.

Desta forma, terroristas dão andamento às suas ações, que em si são discursos, são formas de dizer ao outrem, ao terceiro, no caso a sociedade ameaçada, que suas atitudes serão levadas avante a despeito de esquemas de segurança, precauções e cuidados militares ou policiais. Ou seja: a mensagem terrorista "informa" que eles, os terroristas, têm a possibilidade de alguma forma de invisibilidade - chegar sorrateiramente ao núcleo social visado e ali praticar o objetivo pretendido com obstinação e destemor.

É como se dissessem: "Nós estamos aqui. Ninguém está a salvo. Podemos agir a qualquer momento, em qualquer lugar, contra qualquer pessoa. E essa pessoa pode ser você, sua mulher, seus filhos, seu marido, qualquer um..."

Essa a essência do terror: infundir um sentimento coletivo de perplexidade, de desequilíbrio. As ações do terror são um grande discurso comportamental, um ato frasal escrito com sangue e destroços, uma ameaça que paira, amparada pelo pálio do sectarismo.

Na foto de capa da Folha a cara do terrorista sorri sutilmente. É o mesmo mistério que emoldura o enigma da Mona Lisa. Ela talvez nos perguntando quo vadis; ele com o cinismo dos que sabem que, olhando para si, estamos de frente pro crime em sua mais terrível e intiminadora acepção.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

A notinha contra Serra ficou bem escondidinha
Emanoel Barreto

Preste atenção à primeira página da Folha. Prestou? Não viu nada de errado? Não? Vou explicar: Quem entende de jornal de forma mais aprofundada não deixará de notar que a notícia intitulada "Ato com apoio a Serra recebe R$ 540 mil em verba pública" foi diagramado no canto superior direito da página. 

Por que isso? Muito simples: é por demais conhecido no meio jornalístico que matérias nessa configuração visual tendem a ser relegadas pelo leitor, cuja visão está condicionada a fazer o reconhecimento da página da esquerda para a direita e de cima para baixo.

Logo, o olhar busca a matéria seguinte após a manchete, que é a notícia sobre a Grécia.Claro que a unidade gráfico-noticiosa abordando Serra será lida. Mas, ao contrário do noticiário sobre o PT, não foi a manchete.

Interpretando o fato temos que a Folha cumpriu com a essência do seu projeto político-editorial: deu a notícia, mas sem o grito manchetesco.  Ou seja: com isso não poderá ser acusada de imparcialidade, já que está "noticiando os dois lados", com material de valência negativada seja para Serra seja para o PT ao longo das edições.

A observação do recurso, todavia, nos mostra o discurso enviesado do jornal e como joga com o leitor. Trata-se de um trabalho dissimulado, contínuo. Um agendamento lento, seguro e gradual. Ao longo da próxima campanha presidencial esse comportamento deverá ficar mais claro e será possível perceber o apoio do jornal ao tucanato.

Se é que você ainda não o descobriu...









domingo, 2 de maio de 2010

http://www.kikareichert.com.br/inspirations/wp-content/uploads/2009/01/2wduef6.jpg
UMA NOITE
--- Walter Medeiros

Havia barulho do mar,
Atravessando a vidraça,

Havia um par de taças,

E um desejo de amar.

Havia olhares felizes,

Pela penumbra da noite,

E muitos gestos afoitos,

Alguns até sem matrizes.

Era o primeiro encontro

De um amor alimentado

Desde os dias da infância.

O desejo era tanto

Que findaram entregados

Na alcova, sem distâncias.
Burlesca, bela e nua
Emanoel Barreto

Transcrevo o texto abaixo, obtido no UOL Educação, sobre Josephine Baker. Só para não ficar falando de política o tempo inteiro. Ou melhor: é melhor falar sobre uma diva que sobre as dívidas - públicas, sociais, morais...

                http://wpcontent.answers.com/wikipedia/commons/thumb/e/e6/JosephineBakerBurlesque.JPG/170px-
Não foi à toa que ela recebeu os apelidos de "Vênus negra" e "Deusa de ébano" e arrancou elogios de grandes personalidades. Extravagante e sensual, sempre se apresentando em trajes ousados, conquistou Paris e deixou muitos homens e mulheres apaixonados.


Seu nome verdadeiro era Frida Josephine McDonald, filha de Carrie McDonald e Eddie Carson, músico. Teve uma infância pobre, no sul dos Estados Unidos, em Saint Louis, e às vezes dançava nas ruas para ganhar algumas moedas. Como a mãe e a irmã, trabalhou como lavadeira na casa de senhoras malvadas (uma delas chegou a lhe escaldar as mãos porque tinha gasto muito sabão).

Um dia arrumou o emprego de camareira da diva negra Clara Smith, e conseguiu a oportunidade de substituir uma corista. Aos 15 anos, casou- se com William Howard Baker e ganhou seu sobrenome, mas deixou-o dois anos depois, quando saiu de St. Louis, devido à grande discriminação racial que havia na cidade. Aos 19, arrumou uma vaga num show da Broadway. Achavam que ela fazia muitas caretas e que tinha olhos vesgos. Por sorte, foi selecionada para participar de "Revue Nègre" em Paris.

Desembarcou na cidade luz no ano de 1925 e na noite de estréia, no Teatro Champs Ellysées, tinha os artistas Léger e Jean Cocteau na platéia. As atrações do show eram os bailados exóticos e os negros zulus. Josephine fazia uma dança selvagem, com as plantas do pé no chão e as pernas arqueadas, com os seios de fora e uma tanga de penas.Desbocada e sexy, tornou-se estrela no ano seguinte, no Folies Bergères e no Cassino de Paris, conquistando a fama logo em seguida. Sua primeira performance foi a famosa dança da banana, em que se apresentava vestida somente com uma tanga feita com as frutas. Ela rapidamente tornou-se a favorita da França. Ficou casada algum tempo com Pepito di Abatino.


Em 1929, após uma turnê na América do Sul, no navio que levava Josephine Baker - "a mulher mais famosa do mundo" - para a Europa, conheceu o brilhante arquiteto Le Corbusier. Segundo a biografia escrita por Phyllis Rose, os dois talvez tenham sido amantes. É possível, porque o que não faltaram na vida de Josephine foram maridos e amantes. Além de Baker e Abatino, casou-se com Jean Lion, Joe Bouillon e Robert Brady. A lista de admiradores incluía Georges Simenon, Pablo Picasso, Alexander Calder, E. E. Cummings e outros.

A participação de Josephine na Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial e sua luta contra o racismo lhe valeu as duas mais altas condecorações da França, a Cruz de Guerra e a Legião de Honra.

A partir de 1950, começou a adotar crianças órfãs durante suas turnês pelo mundo, passando a criá-las em seu castelo, Les Milandes, nas vizinhanças de Paris. Também adotava animais, de todas as raças. Chegou a passear por Paris com um leopardo (Chiquita) que, de vez em quando, escapava da coleira dentro de um teatro, quando ela insistia em levá-lo para assistir a uma peça.

No final dos anos 1960, passou por dificuldades financeiras e parou de se apresentar em 1968. A princesa Grace de Mônaco ofereceu a ela uma casa no Principado, quando soube dos seus problemas. Baker apresentou-se então em Mônaco, com grande sucesso, em 1974. No mesmo ano fez apresentações em Nova York. Estava se preparando para comemorar, em Paris, os 50 anos de palco, quando entrou em coma e morreu aos 68 anos, em 12 de abril de 1975. Seu funeral foi em Paris e ela foi enterrada em Mônaco.

Josephine Baker esteve no Brasil pela primeira vez em 1929. Apresentou-se no Teatro Cassino, no Rio de Janeiro. Voltou em 1952 e contracenou com Grande Otelo no show "Casamento de Preto", onde cantava "Boneca de Piche" em português. Em 1963 fez uma temporada no Copacabana Palace e apresentou-se no Teatro Record, em São Paulo. Esteve pela última vez no Brasil em 1971, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Porto Alegre.


sábado, 1 de maio de 2010

http://notasaocafe.files.wordpress.com/2007/06/quixote1.jpg
Você é louco? Deveria ser
Emanoel Barreto

Você é louco? Deveria ser, afirmam os que fizeram essa escolha. Segundo dizem, é possível cavalgar ao lado do Quixote, galopar em pleno espaço com as Valquírias, montar Pégaso e Bucéfalo e participar de uma  tauromaquia com o grande Manolete, já pensou?

Viu só o que é loucura?: Quixote é um personagem de ficção, as Valquírias mitologia germânica, Pégaso mitologia grega e Bucéfalo o cavalo de Alexandre. Manolete já morreu, em terras d'Espanha. Ou seja: você mistura tudo e, apesar da realidade, consegue viver momentos especiais. Só você vê, só você acredita. Quer coisa melhor?

Para ser um louco, é o que consta, é preciso apenas capacidade de solidão em maio à multitude, observar formigas trabalhando e olhar de vez em quando para coisa nenhuma. Fazendo assim, asseguram insanos sábios, será possível ser um grande e irreconhecido louco, pronto.

Não se trata de delírio. Apenas realidade paralela, se é que me entende...
Não é o rei quem está nu. Nós estamos nus
Emanoel Barreto

A foto é de Spencer Tunick, que dedica a sua arte a fotografias de nus massivos. Seu trabalho provoca um certo estranhamento a respeito de nós mesmos.

O ser humano é sujeito e objeto de si mesmo, sua objetividade é engendrada, seus referentes e azimute ilusórios.

Criamos nossa própria realidade a partir de planos que, no fim, se revelam côncavos ou convexos.

E o que é o côncavo senão o próprio convexo? E o que é o homem senão, muitas vezes, a própria desumanidade?
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Oração do Dia do Trabalho
Emanoel Barreto

Escrevo em finzinho de tarde, quase noite, esta oração ao Dia do Trabalho.

Bendito o trabalhador que me dá tanto lucro sem que eu precise trabalhar.
Benditas sejam as suas mãos, pés, pensamentos, gestos e atos,
pois são todos meus, comprados ao preço de miserável soldo.

Bendito aquele que me alimenta, me dá casa, carro e festins.
Aquilo que lhe falta em casa seja, perpetuamente, aquilo que tenho a mais.
Abençoada a carteira que lhe assino, porque isso me dá direito
sobre o seu corpo enquanto esteja no chão de minha fábrica.

Benditas sejam as leis que me garantem ter tudo
para que eles, os trabalhadores, os desgraçados filhos de Eva,
tenham tão pouco, enquanto eu, descansado e rico, seja sempre rico.
Amém.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Suzana em foto de Marisa Cauduro
Nova ombusaman da Folha diz que é preciso jornalismo ficar antenado com o leitor
Emanoel Barreto

O texto abaixo é da jornalista Suzana Singer, nova ombudsman da Folha de S. Paulo, em substituição a Carlos Eduardo Lins da Silva.

PARECE HAVER hoje apenas uma certeza na imprensa mundial: a de que o jornal impresso corre risco de extinção. A cada novo gadget, as trombetas do apocalipse jornalístico soam mais fortes. Neste mês, o frenesi aumentou com a chegada do iPad, capaz até de exterminar os livros.



"Para jornais, a metáfora que vem à mente é a da areia caindo na ampulheta", o tempo se esgotando, decretou relatório recente sobre a mídia dos EUA.


Esse haraquiri coletivo é, no fundo, um jogo de adivinhação inútil ao leitor. Enquanto houver jornal, o importante para quem paga por ele é que seja benfeito. E é para isso que estarei aqui.


Depois de 23 anos fazendo a Folha, colocando a mão na massa todos os dias, chegou a hora de sair de campo para observar o jogo e apontar erros/ acertos da equipe que faz o diário de maior circulação no país (considerada a média de 2009).


Assumo como ombudsman em um ano difícil, com coberturas importantes: a Copa do Mundo, que coloca a imprensa diante da encruzilhada de "criticar demais e ser vista como derrotista" ou "tecer só elogios e cair no ufanismo", e a eleição presidencial, que promete ser acirradíssima.


Em sua coluna de despedida, meu antecessor, o veterano Carlos Eduardo Lins da Silva disse que não suportaria a eleição presidencial, quando "se exercitarão com força total os piores instintos de parcela pequena mas nefasta do eleitorado engajada na guerra sectária de partidos políticos".


No que depender de mim, os "trogloditas de espírito", como descreve Carlos Eduardo, ficarão em segundo plano. O Fla-Flu político, que tem sua expressão máxima na guerra de blogs radicais, interessa a poucos, basicamente seus autores e uns convertidos que se regozijam em reiterar suas convicções.


Estou em busca do leitor silencioso, que se irrita com a Folha, mas se esquece dela antes de ter tempo de mandar um e-mail reclamando.


Em um jornal com mais de 290 mil exemplares, o leitor acaba se tornando um ente volátil, fictício, fala-se em nome dele para defender teses A, B ou C. Ou, o que é pior, sucumbe-se ao erro narcisista de ignorar quem nos lê e escrever para colegas, fontes (quem passa informações) e especialistas.


Para a Folha, ouvir o homem comum será especialmente importante nos próximos meses, quando estreia um novo projeto gráfico, com mudanças visuais e editoriais, que inclui extinção e criação de cadernos.


Participei de vários processos como esse e sei que, apesar das especificidades técnicas e das pesquisas de opinião, prevalecem em muitas decisões o "eu acho assim mais bonito" ou o "aposto que vão gostar de uma seção desse jeito". Arbitrário mesmo.


Com a ajuda de você, leitor, tentarei levar demandas reais para a Redação. Afinal, toda mudança deveria ter apenas um objetivo: deixá-lo mais satisfeito com o seu jornal.
............

Já publiquei minha opinião sobre o ombudsmanato: é apenas função performativa, cujo objetivo é dar ao leitor a ideia de que o jornal tem controle interno movido por sentido ético de compromisso com a sociedade.

O jornal, ela anuncia, fará nova reforma gráfico-editorial, visando certamente adequar-se ao mercado, senão gerar mercado, já qwue o jornalismo impresso passa por crise suponho nunca vista. É preciso sim formar leitores, especialmente entre os jovens.

Como é preciso ser mais sincero o jornalismo, deixando às claras suas pretensões e apoios a determinados atores políticos. Ou você ainda não percebeu que a Folha apoia Serra?









quinta-feira, 29 de abril de 2010

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Lula se destaca. Serra faz que aplaude
Emanoel Barreto

A revista Time, peso pesado da mídia internacional, apresenta o presidente , por exemplo. A FolhaOnline deu a lista completa dos personalidades em destaque, registrando que "Serra parabenizou Lula."

A princípio dá a impressão de que o adversário de Dilma fez algum tipo de pronunciamento retumbante, telefonou ao petista ou algo assim. Nada disso, logo depois diz o jornal: Serra apenas disse, no twitter, que "isso foi bom para o Brasil." E só.

A apresentação de Serra como adversário que reconhece os méritos do concorrente - em sentido amplo e historicamente falando ele é adversário de Lula - sugere homem de largueza de espírito, sereno e desataviado de sentimentos menores.

Ou seja: veja que homem bom, de princípios e digno do nosso voto. É isso. Para você ver como são as coisas de jornal..

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Voltarei a escrever neste final de semana.
Emanoel Barreto

sábado, 24 de abril de 2010

Quem vê capa vê coração? Depende.
Emanoel barreto

A penúltima edição da revista Veja trouxe o ex-governador José Serra em posição assemelhada à de Barack Obama na Time, quando da eleição deste a presidente dos Estados Unidos. A respeito do fato, pode-se lembrar que nas redações é muito comum uma brincadeira, que diz: "No jornalismo brasileiro nada se perde, nada se cria, tudo se copia".

O exemplo é claríssimo, vendo-se as duas fotos. Mas a cópia não coincidiu com o original, menos ainda com o objetivo desejado pela revista - expor Serra como se a partir de sua face se visse o seu interior: confiabilidade, serenidade, uma espécie de bonomia humanizadora da função política.

Observe bem: na imagem de Obama vemos um " nice guy", um cara, um "young man" jovial e amigável, um sujeito com visual convicente, o tipo do bom moço: carismático e portador de discurso credível, acessível e simples.

Na foto de Serra o que vemos? Uma figura algo sinistra, um "old man" com traços a que se tentou dar algo de extremamente humano, percebe? Mas o efeito resulta desastroso. Temos um homem com crânio escalvado, sorriso factício. Do que tanto estaria ele sorrindo? Por sua vez, Obama inspira um certo "ar de bondade", um jovem generoso, disponível, acessível. Está sugerido que ele estaria olhando para o outro lado da mesa onde repousa o braço que lhe sustenta o queixo. Desse outro lado estaria, virtualmente, o leitor da Time.

Obama não é bonito, mas é simpático, empático, assertivo em seu sorriso entalhado para convencer o leitor de que esse sorriso expressa o seu interior. Serra, ao contrário, além de não ter empatia, carisma e flama, está numa conjuntura iconográfica que não cumpre, exatamente por ele não ter empatia, com o propósito de chamar à si, na imagem, a confiança do leitor.

A atmosfera sombria da foto somente deve ter agradado a quem lhe seja seguidor. Há algo de cínico e falso neste reino da Dinamarca que foi a capa da Veja. Maiores detalhes com estudiosos de fisiognomonia...





sexta-feira, 23 de abril de 2010

 Serra: vestido para ganhar
Emanoel Barreto

A entrevista ontem do ex-governador de S. Paulo José Serra à TV Tropical revelou um homem que sabe cumprir com o que lhe diz sua assessoria de marketing: foi comedido nas declarações a respeito do PT, admitiu que o governo Lula foi correto com sua administração - não o discriminando no repasse de verbas - e, habilidosamente, refluiu ao ser indagado a respeito do seu vice: é coisa lá para maio, sentenciou.

Um aspecto, contudo, merece realce: o modo como o ex-governador apareceu vestido: sem gravata e de camisas de mangas curtas. Isso lhe deu um ar de despojado; homem simples, desapegado da vaidade de vestir elegante camisa de mangas compridas, optando por um look tipo "estou apressado, tenho mais o que fazer."

Manifestou, para quem quisesse acreditar, conhecimentos a respeito do Rio Grande do Norte: falou sobre a importante fábrica de barrilha, defendeu o aeroporto de São Gonçalo e, pasme-se, citou até a necessidade de construção da barragem de Oiticica.

Aos desavidados isso parece o dircurso de quem sabe tudo a respeito do Rio Grande do Norte. Tanto, que chegou a mencionar as UPAs da então prefeita Rosalba Ciarlini em Mossoró, dizendo em seguida que quando prefeito de São Paulo fizera obra semelhante.

Resumindo: Serra está vestido para ganhar. Sabe ser um bom fingidor. Isso, em campanha, é o que importa.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://1.bp.blogspot.com

Brasília e a Sagrada Família
Emanoel Barreto

Há um quê de clamor cabisbaixo nessa foto de família anônima. Perplexidade compartilhada ante a Brasília recém-inaugurada, 50 anos comemorados hoje. A foto, documento instantâneo, momento preciso, é tragicamente biográfica. Nela, de alguma forma, estão todas as vidas anuladas de brasileiros desconhecidos, multidão de sonhos incompletos - pesadelos, pelo fato mesmo da incompletude.

A Sagrada Família do trabalhador honesto e maltratado olha a monumental obra, epopéia pulsante em cimento e utopia. Cinquenta pesados anos se passaram. Mil vidas vividas nessa travessia.
Brasília, festa de portentosos monumentos; arquitetura erguida no espaço grande do planalto central.

E essa família, meu Deus? Que fim levou? Onde estarão o pai, a mãe e os quatro filhos? Perdidos, quem sabe, na multidão parda onde as sobras e as sombras se encontram, enquanto se constroi a tragédia brasileira.

A foto em si é poema, é elegia. O homem pequeno diante do destino. Perplexo e maravilhado, vive uma espécie de medo ungido de humilde esperança. É como se o dobre de um sino dissesse: "Brasil, capital Brasília... Brasil, capital Brasília. Para onde vai você, José, com sua Sagrada Família? Brasil, capital Brasília, Brasil, capital Brasília"

Eu nao pergunto nada, porque o resto o sino não sabe; o resto o sino não sabe... o resto... bom, é melhor parar por aqui. Porque, o resto, o sino não sabe.
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjmX6Sg-JZ94tNdtC0Rcx8m7TDgzkNSVXeIdXWdFzHp2avtq5vplZn4hIekP8axsEmi46EFEyvWAlIkI9ektGkncQiF005Vt87fckQGWwnrm19q2nX5jCNJ4uCsruOUj37wyMVWXQ/s400/Bruno+Giorgi+candangos.jpg
Sentir Brasília

 Walter Medeiros*
waltermedeiros@supercabo.com.br

Cinqüenta anos, Brasília! Cinqüenta anos de vida, a mais intensa. Cinqüenta anos que surgiste da natureza para ser o grande ponto de encontro da humanidade, com a tua energia envolvente e contagiante. Cinqüenta anos de convergências e divergências pela criação de um Brasil melhor. Cinqüenta anos hospedando o mundo, na tua beleza transcendente e sideral. Cinqüenta anos de mudança para além do trivial. Cinqüenta anos, Brasília! Oh! Amada capital!


Muitas vezes explorei tuas entranhas, no Venâncio 2000, no Conjunto Nacional, nas tesourinhas, na W3, Rodoviária, Aeroporto e na bela Praça dos Três Poderes, de gritos contidos, de gritos gritados, de cacetetes e gás lacromogêneo, de tantas flores, de tantas festas, de tanto amor à Pátria. Brasília, és a casa dos brasileiros, por isto precisamos cuidar de ti, como se cuida dos entes mais queridos. E neste teu novo aniversário, tão importante, refletir pelo melhor, pela tua grandeza, pela tua história.


Nestes tantos anos abrigaste tantos momentos, de todos os tipos, mas que te fizeram amadurecer e firmar-se como quimera. Daqueles que não sabem viver em cidades desorganizadas, mas também daqueles outros que findaram começando a te desorganizar. Daqueles que querem ser enterrados debaixo das lajes das tuas super-quadras. Daqueles poetas da 304 – “a namorada foi para o Rio / e fiquei aqui a ver ministérios”.


Brasília, cidade elegante, cidade do futuro, cidade de todos, dos que crescem na vida e dos que não têm rumo, de corações que bateram e batem nas lutas da nossa história, de celas que prendiam os revolucionários ao ecumenismo da Torre de TV, da orla do Lago encantado às efervescências das cidades satélites.


Brasília, o mundo todo te reverencia, por seres a prova de que é possível construir os próprios destinos e mudar paradigmas. És mais que o teu todo, pois teu significado é mais amplo até que os escândalos que levam para dentro de ti.


Vez por outra tenho saudade de cada vez que te vi, Brasília. Saudade dos primeiros dias, nos quais tua beleza era total, dos dias sem medo, dos dias contemplativos, dos sonhadores que te completavam a cada dia. Auxiliadora Targino, Amantino Teixeira, Alexandre Cavalcanti, Monte Filho, Meira Filho, Chico Pereira, Chico Maia, Arlete Azevedo, João Heredício Pinto, Paulo Cunha, Dona Ceci e tantos outros.


Nos teus cinqüenta anos dou esse testemunho humílimo de quem pisou teu chão vermelho e em ti deixou e tem muitos amigos que se encantaram com as flores do cerrado. Amigos que em dias e noites inesquecíveis por ti circularam em tua culinária universal, em tua arte de vanguarda, em tua atmosfera inexplicável.


Brasília, não dá para bem te descrever, pois para te entender precisa, mais que tudo, te sentir.
*Jornalista – Natal/RN (Residiu em Brasília no ano de 1979 e retornou várias vezes a serviço ou em trânsito)

terça-feira, 20 de abril de 2010

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 Estou calado e não quero falar
Emanoel Barreto

Não, não foi bem assim, senhores. Eu não cheguei dizendo que sabia tudo; eu só pedi licença pra falar.

Como não deram, eu fechei os olhos, pra não ver tudo o que se fazia. Olhar, somente olhar, já seria ser criminoso, comparsa e ladrão.

Fechei os olhos mas fiquei atento.
E agora e hoje que me sinto mudo, só quero ver o que voces fizeram.
E então lhes digo que não sei de tudo.
Nesta assembléia não quero falar.

Suas palavras os levarão bem fundo.
E eu insisto não quero falar.
Vocês vão ver e vão sentir de tudo - e eu calado não quero falar.

Que horror, que horror, Brasília...
Emanoel Barreto

A charge do Bennet, na Folha, antecipa em um dia o aniversário de Brasília, 50 anos. A imagem diz tudo: a cor amarelada, a face de aspecto doentio deambulando entre o criminal e o louco, o furtivo ameaçador, insano e temível.

Os dentes mastigam, na metáfora medonha, aquela grande construção brasiliense que tem a forma de um H. E dos beiços pinga uma espécie de sangue sujo; o sangue maculado do povo do Brasil.

Que horror, que horror, Brasília...





segunda-feira, 19 de abril de 2010

http://images.google.com.br/imgres?imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEim88-DwvoY-LwXh6xDOeTQEAuoqZgCXy9qY_8FFirLoS_oSY10_hMv01avXJXxg4oKwX1xivlWs1dwlsTp6nYDjDc3xbFpqnuJESB7YV4n9Ul8QxAXlwOpchywvJk3A0yw1hqpmw/s400/dilma-e-serra
O povo, na frente da televisão, esquece...
Emanoel Barreto

A próxima campanha presidencial levará aos pontos mais altos o sentido da política como espetáculo. Nas mídias eletrônicas, TV e internet, então, esse sentido se dará de maneira total, pelo menos na totalidade dos telespectadores que também tenham acesso à net.

Tanto Dilma quanto Serra não são candidatos carismáticos, arrebatadores. Assim, suas equipes de marketing terão grande trabalho em colocá-los, enfeixá-los, seria a palavra certa, em pacotes midiático-discursivos expondo-os como se fossem semideuses.

Capazes de, com apenas palavras, edulcoradas em cenários de convencimento, afirmar-se como aptos a ser vistos como grandes timoneiros da grande nau chamada Brasil.

Há, é claro, em uma e outro, uma essência bem própria e peculiar: suas convicções, visões de mundo. Até mesmo, quem sabe, utopias, intenções efetivamente boas. Mas aos diversos tipos de eleitorado a que se dirigirão será preciso vender o que entendem como sendo "bom para o Brasil" e, especialmente, "bom para aquela parcela de eleitorado".

É aí que entram em cena as bruxarias dos marqueteiros, suas fórmulas miraculosas de perfectibilidade das candidaturas, ajustadas milimetricamente ao senso comum de cada classe, cada segmento de classe, cada eleitorado.

Dilma sairá embalada pelo prestígio histórico de Lula, Serrá deverá desenvolver um discurso que o apresente como capaz de manter a atual situação de aparente equilíbrio da situação sócio-econômica. Tanto isso foi percebido, que sua assessoria já engendrou, de empréstimo ao americano Obama, o lema "o Brasil pode mais".

Isso admite a estabilidade vivida pelo país, mas acena que será preciso um grande condottiero a fim de que tudo continue seguindo bem. Ele, não Dilma, seria esse ser especial, dotado de competência e experiência administrativa suficientes e necessárias a tão grande empresa.

Haverá uma grande batalha de símbolos, discursos e propostas midiáticas. O probema é que, entre o alarde da propaganda, o anúncio de uma era fabulosa de paz, progresso e prosperidade, e a realidade dura e fervente, há um grande abismo.

O povo talvez até saiba disso, mas, na frente da televisão, esquece...

domingo, 18 de abril de 2010

http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=20204364&postID=7720942960738589146
Os lamentos do Estadão: do heroico ao ridículo
Emanoel Barreto

O Estadão, em seus lamentos diários, registra que está "há 261 dias sob censura". Claro que censura de jornal em uma democracia é um atentado à liberdade de imprensa, atentado que também se volta contra o público. A censura é exercida contra a sociedade, sendo o jornal o artefato que se emudece para atender aos interesses dos censores.


Fica-me uma indagação: o Estadão não conta com assessoria jurídica suficientemente competente para reverter o quadro? O que acontece no mundo jurídico, que tal situação não se altera?  Agora, vejamos outro aspecto: o jornal não está, em seu sentido mais amplo, "sob censura"; o que está em tal condição é a abordagem de material noticioso mostrando negociatas da família Sarney.

Não estou, absolutamente, defendendo essa censura tópica. Antes, questiono se, por trás disso, não estaria o Estadão querendo assumir um falso heroísmo, como se estivesse em cruzada. Se até agora não conseguiu reverter o quadro que busque explicações do seu setor jurídico uma vez que, notoriamente, trata-se de um ato atentarório à liberdade de expressão.

Encerrando, uma abordagem paradoxal: e se a censura tópica não for sustada, ficará o jornal a dizer, por exemplo: "Sob censura há 10.340 dias? De heróico, estaria resvalando ao ridículo. Ao que parece, o que falta é apenas um bom advogado.