quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Discurso, discurso, discurso...
Emanoel Barreto

O discurso, a mensagem como expressão sincera  - nem sempre -, do falante, é preocupação desde a ágora dos gregos. Essa elocução, para efeito de convencimento, manifesta-se na retórica, no entusiasmo vigoroso que dá às palavras, às orações, seu sentido social mais forte de cativar e convencer. Conquistar aliados e eleitores.

A charge de Angeli dá bem uma ideia disso. A busca do PSDB por um discurso que se contraponha à larga figura presidencial de Lula, cuja simples presença, em si, já é significante. É que o líder, o príncipe, traz agregada à sua figura uma espécie de fala presencial que alude a tudo o que já disse ou fez. Quem não atingiu esse ápice sabe bem o que é buscar um discurso.

Os tucanos têm em José Serra seu possível candidato. Mas a este falta o discurso histórico, a memória social quanto a seus feitos, a relevância do seu vulto nas paredes do grande museu vivo que é o tempo histórico.

Daqui a cem anos, só para citar um exemplo, quem será lembrado e estudado por historiadores, cientistas políticos e cientistas sociais: Serra ou Lula? Nem preciso responder. É esse o discurso que falta a Serra, a falta de vínculos públicos com todo um passado recente, quando o País ainda se revolve ante os resquícios de memória relativos à ditadura.

Tanto é verdade, que mesmo incensado pelos seus correligionários, o governador de São Paulo até hoje não se atreveu a dizer-se candidato, o campeão do tucanato. Espera, pacientemente, o desenrolar das pesquisas que agora sinalizam Dilma como aquela que poderá, pelos artifícios do marketing e pelas mãos do seu pai eleitoral, se apresentar como vacacionada a vencer.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

http://adevidacomedia.files.wordpress.com/2009/10/jornais-iv.jpeg
Como se (des)equilibra o jornalismo
Emanoel Barreto

Informação que me chega tendo como fonte a publicação Meio&Mensagem indica que a circulação dos maiores jornais brasileiros caiu 6,9% em 2009. Abaixo:


1. Caiu 6,9% a circulação somada dos 20 maiores jornais diários brasileiros em 2009. Onze títulos viram seus números encolherem durante 2009. Os dois que mais caíram foram os do Grupo O Dia, do Rio de Janeiro: O Dia (-31,7%) e Meia Hora (-19,8%). Também tiveram quedas Diário de S. Paulo (-18,6%), Jornal da Tarde (-17,6%), Extra (-13,7%), O Estado de S. Paulo (-13,5%), Diário Gaúcho (-12%), O Globo (-8,6%), Folha de S. Paulo (-5%), Super Notícia (-4,5) e Estado de Minas (-2%).

2. A liderança continua com a Folha de S. Paulo (média diária incluindo domingo, de 295 mil exemplares), seguida por Super Notícia (289 mil), O Globo (257 mil) e Extra (248 mil). Em quinto lugar está O Estado de S. Paulo (213 mil), à frente do Meia Hora (186 mil) e dos gaúchos Zero Hora (183 mil), Correio do Povo (155 mil) e Diário Gaúcho (147 mil). O top 10 se completa com o Lance (125 mil).

3. Apenas seis conseguiram melhorar seus desempenhos de acordo com dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC). São eles: Daqui (31%), Expresso da Informação (15,7%), Lance (10%), Correio Braziliense (6,7%), Agora São Paulo (4,8%) e Zero Hora (2%). Mantiveram-se estáveis: Correio do Povo, A Tribuna e Valor Econômico, que encerraram o ano passado com circulações bem próximas às do fechamento de 2008.
.....
A crise que afeta o jornalismo diário traz à tona problema antigo, agora salientado em função de que os números tornam-se alarmantes. Somando-se as tiragens de todos os jornais chega-se ao total de 2.098.000, para uma população 192.430.790, segundo dados que obtive junto ao IBGE.

Trata-se de circulação mínima, sem dúvida propiciadora de preocupação. Primeiro, pelo fato mesmo de a imprensa diária não ter a penetração que deveria; segundo, em decorrência da inexistência de público leitor fidelizado, o que significa gente desinformada. Não levo em conta aqui questões ideológicas apensas às informações e opiniões ou seja: questionamento a respeito da qualidade informativa e opinativa e sua credibilidade.

Sei, todavia, que a imprensa, mesmo com todos os seus erros, é um dos pilares de qualquer sistema social organizado e democrático, ao lado do Direito, Medicina e Pedagogia.

Mas, o que revela não apenas a queda das circulações e o históricamente baixo número de leitores? Implica que, para milhões de brasileiros, a imprensa diária virtualmente não existe ou pior: nunca existiu.

O jornalismo, aqui entendido com as empresas, precisa e deve mobilizar-se em estratégias de marketing, que vão desde questões de conteúdo e forma, até o estabelecimento de uma política de credibilidade - este, sem dúvida, importante fator para que um jornal fidelize leitores.

Vale lembrar que o leitor de jornal não é apenas consumidor, mas, antes de tudo, cidadão. E jornal, ao lidar com a mercadoria notícia, dá trânsito também  a conteúdo político-ideológico cujo tratamento ético deve ser o primeiro dentre os muitos que devem preocupar a uma boa imprensa.

Entendo que não estamos nos preâmbulos da morte do jornal impresso - como jornalista da área teria dificuldade em entender o mundo sem esse veículo ao qual dediquei toda a minha vida profissional -, mas temo que o mundo globalizado e os multimeios informativos, como esta internet da qual me valho, pode sim, em futuro distante, chegar a constituir-se em ameaça ao jornal impresso.
Olá, atualizo Coisas de Jornal ao longo da tarde.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/dermiazevedo/dermi1b.jpg
O terror da ditadura
Emanoel Barreto

O amigo João Maria Alves, repórter-fotográfico e cidadão da vida, me envia ests texto da  IstoÉ que tem como assunto o pungente depoimento do jornalista Dermi Azevedo, meu amigo. Trata-se de registro jornalístico que, mesmo com o passar dos anos, a memória nacional não pode esquecer. Talvez a leitura se torne até mesmo casnsativa, pois o artefato internet não incentiva a uma leitura demorada. Mas vale a pena. (EB)

Carlos Alexandre Azevedo, 37 anos, torturado quando era bebê
Solange Azevedo

Ele tem olhos de aflição e feições de dor. Suas palavras saem cadenciadas, são quase sussurros. “Minha família nunca conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura”, diz. “Os meus pais foram presos e eu fui usado para pressioná-los.” Carlos Alexandre Azevedo tinha 1 ano e 8 meses quando policiais invadiram a casa da família, na zona sul de São Paulo, e o levaram para a sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops). Era 15 de janeiro de 1974. Bem armados e truculentos, os agentes da repressão o encontraram na companhia da babá – uma moça de origem nordestina conhecida como Joana. Chegaram dando ordens. Exigiram que os dois permanecessem imóveis no sofá. Apenas Joana obedeceu. Como castigo pelo choro persistente, Carlos Alexandre levou uma bofetada tão forte que acabou com os lábios cortados. Foram mais de 15 horas de agonia. O drama de Carlos Alexandre – um dos mais surpreendentes dos anos de chumbo – veio à tona no momento em que o governo brasileiro discute a criação da Comissão Nacional da Verdade para apurar casos de tortura, sequestros, desaparecimentos e violações de direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985).

Carlos Alexandre decidiu revelar sua história, com exclusividade, à ISTOÉ depois que o seu processo de anistia foi julgado pelo Ministério da Justiça. No dia 13 de janeiro, ele foi declarado “anistiado político”. Deve receber uma indenização de R$ 100 mil por ter sido vítima dos militares. “Muita gente ainda acha que não houve ditadura nem tortura no Brasil. No julgamento, em Brasília, me senti compreendido.

As pessoas sabiam que o que eu vivi foi verdade”, alega. “A indenização não vai apagar nada do que aconteceu na minha vida. Mas a anistia é o reconhecimento oficial de que o Estado falhou comigo. Para mim, a ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social.” Fragmentos da vida de Carlos Alexandre, hoje com 37 anos, estão guardados na memória do pai, o jornalistae cientista político Dermi Azevedo. Outros ficaram entre as lembranças da mãe, a pedagoga Darcy Andozia. “Minha família sempre foi muito retraída, sem diálogo. Não costumávamos falar sobre tortura. Esse assunto sempre foi tabu entre nós”, conta Carlos Alexandre.

Ele descobriu o próprio passado ao remexer em gavetas, aos 10 ou 11 anos de idade. Misturado a fotografias antigas e a uma porção de papéis, encontrou o desenho de uma vaquinha, conhecida na época por simbolizar a “esperança”, com o seguinte recado: “Deops 1974: Quando você ficar mais velho, seus pais vão te contar a sua história.” Parte do sofrimento da infância lhe foi revelada pela mãe. “Cacá apanhou porque estava chorando de fome.

Os policiais falavam que, naquela idade, ele já era doutrinado e perigoso”, lamenta Darcy. Presas políticas disseram ao pai que o menino fora torturado no Deops. “Meses depois de sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vítima de choques elétricos e outras sevícias. Ele foi jogado no chão e bateu a cabeça”, afirma Dermi. “Maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade.” Quando os agentes levaram Carlos Alexandre e a babá, Darcy não estava em casa – seria trancafiada no Deops horas depois.


“Até hoje sofro os efeitos da ditadura. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social”


Ela havia saído cedo em busca de ajuda para o marido preso. Aquela era a segunda invasão à residência dos Azevedo. Na noite anterior, policiais vasculharam todos os cômodos em busca de “material subversivo”. Encontraram um livro intitulado “Educação Moral e Cívica & Escalada Fascista no Brasil” e o consideraram uma injúria às autoridades. Dermi, Darcy e a educadora Maria Nilde Mascellani foram processados – e absolvidos – sob a acusação de tentar difamar o Estado brasileiro. Dermi e Darcy eram ligados aos padres dominicanos e a uma das principais vozes que lutavam contra a ditadura, o então cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. Faziam parte da retaguarda do movimento de resistência – abrigavam militantes que se preparavam para embarcar para o Exterior.

O período de cárcere foi tenso e doloroso. Darcy permaneceu mais de 40 dias na cadeia. Foi pressionada psicologicamente, mas não sofreu violência física. Dermi ficou cerca de quatro meses no xadrez. Apanhou muito. Quando já não suportava mais a dor, invocava o nome d’Ele: “Ai, meu Deus. Meu Deus.” Enquanto Darcy esteve atrás das grades, Carlos Alexandre foi cuidado pelos avós – e continuou a sofrer as consequências de escolhas que não foram suas. “Em certos momentos, tive raiva porque meus pais expuseram os filhos. Mas depois senti orgulho porque eles lutaram contra os abusos dos militares e fazem parte da história do Brasil”, diz. Carlos Alexandre padece de um transtorno chamado pela ciência de fobia social: um medo excessivo e persistente de se expor à avaliação alheia. Quem tem esse distúrbio se esquiva sistematicamente de contatos interpessoais – principalmente com pessoas do sexo oposto, desconhecidas ou autoridades – porque teme ser humilhado ou rejeitado.

O diagnóstico foi mencionado pela psicóloga Ana Maria Falvino, que tratou de Carlos Alexandre, num documento encaminhado à Comissão de Anistia. No texto, a psicóloga detalha a evolução do transtorno no paciente e situações relatadas pela família Azevedo. Mas não afirma categoricamente que o problema dele é consequência direta de tortura. As situações vividas por CarlosAlexandre, no entanto, o inserem no grupo de risco descrito pela medicina. De acordo com o médico Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, cerca de 30% dos casos de fobia social têm origem genética. Os outros 70% se devem a vivências complexas.Os pais são o primeiro modelo para a criança.

Observar como eles lidam com as adversidades, se enxergam o ambiente social como fonte de prazer e alegria ou como algo desconfortável e ameaçador, se são tímidos ou têm muitos amigos, é de extrema importância para o bom desenvolvimento infantil. Bernik afirma que crianças provocadas e maltratadas por colegas e que vivem experiências marcantes de rejeição e de sofrimento são mais suscetíveis à fobia social na vida adulta. Logo que Dermi deixou a prisão, em maio de 1974, a família toda se mudou para a sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Primeiro foi para Currais Novos, no interior do Estado. Em seguida para a capital, Natal. A violência psicológica e as agressões físicas – como as intermináveis sessões no pau de arara e os repetidos golpes na cabeça, chamados nos porões da ditadura de “telefone” – derrubaram Dermi. Durante um bom período, ele não foi capaz sequer de sair da cama. Passava o tempo todo coberto. Teve crises de paranoia e medo de tudo. Não podia trabalhar. O aperto financeiro desestabilizava ainda mais a família. Ele foi recuperando devagar a coragem de se levantar, ir à esquina, andar sozinho.

“Dermi não se destruiu. Transformou o trauma numa batalha pela vida e continua lutando pela dignidade humana”, avalia a psicanalista Miriam Schnaiderman, codiretora do documentário “Sobreviventes”, que narra experiências de pessoas que passaram por situações-limite. Enquanto Dermi tentava se recuperar, Darcy tinha de se desdobrar para dar conta da casa e dos filhos – do primogênito e de dois meninos que vieram depois. Carlos Alexandre demonstrou os primeiros sinais de isolamento já em Currais Novos. Não interagia comoutras crianças, tornou-se agressivo e andava sempre triste.

Às vezes, acordava agitado procurando pela mãe: “Mamãe, onde é o barulho do trem?” A sede do Deops, onde ele esteve detido durante algumas horas, era na região da Estação da Luz. De lá, dava para ouvir o som do vai e vem das composições. Apesar de a família estar longe de São Paulo, onde a perseguição seria mais severa, os Azevedo eram constantemente vigiados pelos militares locais e discriminados pela vizinhança. Viviam sendo apontados como “bandidos”, “terroristas” e tratados como se tivessem alguma doença contagiosa. Carlos Alexandre cresceu sob intensa pressão, testemunhando as crises do pai e a inquietude da mãe. Chorava para não ir à escola. Não suportava ficar distante dos pais. A instabilidade e a dinâmica familiar contribuíram para aumentar o afastamento de Carlos Alexandre. “A perseguição afetou os outros filhos, mas não de maneira tão intensa quanto ele”, relata Dermi. As mudanças de casa e de cidade eram constantes a ponto de os meninos não serem capazes de criar laços de amizade ou se adaptar completamente à escola.

O único período de relativa calmaria e imobilidade durou cerca de quatro anos – entre 1981 e o início de 1985, quando os Azevedo moraram em Piracicaba, no interior paulista. A filha mais nova nasceu lá. Todos eram respeitados. Darcy e Dermi tinham vínculo com uma universidade do município – já não eram encarados como “bandidos” ou “terroristas”, mas como intelectuais. E a ditadura militar caminhava para o fim. A saída de Piracicaba foi traumática para Carlos Alexandre. “Era o único lugar em que eu tinha amigos. Foi aí que me isolei de vez. Parei de estudar e me tranquei em casa”, lembra. Carlos Alexandre tinha acabado de entrar na adolescência. No interior paulista, costumava brincar na rua, jogar bola e frequentar festinhas vestindo short e camiseta. Não se importava muito com o figurino.

Os novos desafios da cidade grande o fizeram submergir no medo. Ele já não era mais convidado para festas, se sentia incapaz de dançar com as meninas e apanhava dos garotos cotidianamente. Quando tentava revidar, era pior. Apanhava mais. “Por ser introvertido, não ser muito bonito nem me vestir como eles, eu era humilhado e vivia sendo alvo de chacotas”, afirma. Carlos Alexandre sucumbiu à crueldade adolescente e se enterrou nas próprias fragilidades. Afirma ter passado cerca de sete anos (dos 13 aos 20) praticamente sem sair de casa. Tentou frequentar a escola. Não conseguiu. Nos momentos de nervosismo intenso, quebrava tudo o que encontrasse pela frente. Engordou 40 quilos em seis meses. Tentou o suicídio “algumas vezes”. Quando decidiu enfrentar o medo da rua, trabalhou como auxiliar de escritório.

Ficou um ano no emprego – seu recorde com carteira assinada. Depois atuou como operador de microcomputador e diagramador. Interagir era tão penoso que Carlos Alexandre pediu demissão e foi demitido diversas vezes porque não suportava conviver com os colegas de trabalho. “As pessoas começavam a perguntar da minha vida: o que eu fazia, se tinha estudado, se tinha namorada, quem eu era, aonde eu ia. Acabava ficando um clima ruim”, conta. “Estar no meio de muitas pessoas é muito cansativo para mim. Falar também. Sair de casa e sentar num bar é um incômodo muito grande. Mas hoje já não entro em pânico porque estou em tratamento.” Um ou dois amigos visitam Carlos Alexandre esporadicamente. Vão ao apartamento que ele divide com a mãe na região central de São Paulo. Seus outros – raros – amigos são todos virtuais. Ao optar pela rede, ele se protege da sociedade.

 “Quando rompo o ciclo vicioso, consigo até ter uma vida. Mas tenho muito medo de recaídas”, diz. Atualmente, ele costuma sair três vezes por semana para ir à academia. De vez em quando, vai à banca comprar gibis japoneses. Sua rotina é singela. Mas Carlos Alexandre quer mais. “Não sou feliz. Sinto vergonha de não trabalhar. Também gostaria de ter uma família minha, com mulher e filhos. Mas tenho consciência de que devo dar um passo de cada vez. Talvez, com um pouco de sorte, eu consiga recomeçar. Mesmo estando com 37 anos.”

sábado, 30 de janeiro de 2010


Dilma, Maquiavel e Branca de Neve
Emanoel Barreto

Maquiavel ensina que, na política, o Príncipe precisa de virtù e fortuna. Esta como conjunção de fatores históricos positivos que parecem conspirar favoravelmente àquele que deseja ganhar força ou graça perante o povo. Aquela, como atributos pessoais, o carisma, conjunto de competências que o fazem incrndiar as multidões com discurso candente e as alianças com outros poderosos. Simplificadamente, é isso.

No caso da sucessão presidencial, a ministra Dilma parece padecer de alguma falta de virtù, apesar de afortunadamente estar amparada pelo mais poderoso príncipe da nossa política - um ator que por muito tempo merecerá, queiram ou não seus adversários, estudos e análises quanto à sua vida na política brasileira.

O que o divino Maquiavel não previu, nem poderia, foi o surgimento de algo chamado marketing  e especialmente marketing eleitoral, essa ferramenta de argumentação aplicada à publicidade e, especialmente no caso, à propaganda.

Não que o marketing seja algo milagroso, capaz de fazer e desfazer imaginários coletivos. Não, muito pelo contrário. Vide o caso do candidato tucano Alckmin, que patinou muito até perder para Lula no último pleito à presidência.

Mas o marketing, quando aplicado a certas situações potencialmente tendenciais, ou seja, quando lança sua semente junto a um determinado público passível de sensibilização, pode sim operar esse milagre comunicacional que é construir uma imagem de virtù.

Tendência significa "propensão a" e, em sua raiz marqueteira, inclui o despertar mesmo dessa tendência onde antes ela inexistia. Aí o grande segredo, aí a visão do marqueteiro como bruxo esquivo e invisível, tratador de fórmulas secretas, poções e tisanas de comunicação para restabelecer o paciente que padece de carência de virtù e fazer dele um novo príncipe.

A Ministra cresce paulatinamente, pela exposição midiática massiva, sempre à tiracolo do príncipe Lula. Se sua osmose política funcionar, é possível que ele a faça a princesa desse terrível conto de fadas que é a política. Sua Branca de Neve a sua sucessora.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Haiti não é mais aqui
Emanoel Barreto

Ao contrário do que diz a letra da canção de Caetano Veloso, o Haiti, aos poucos, não está mais aqui. Jornalisticamente, não é mais aqui. Aos poucos, com lentidão que agrava o sentido de que aquele país começa a deixar de existir midiaticamente, sua tragédia e hecatombe começam a se esmaecer no noticiário.

A isso se juntará, não haja dúvida, o processo de decantação das emoções chocadas com a dor e o horror. E, passado o período de luto social, o mundo retornará à sua cotidianidade, à terrível normalidade da indiferença.

Aos poucos o Haiti irá se defazendo no ar das Redações, no ar dos gabinetes e governo e o Haiti não será mais aqui.

 
O povo à imagem e semelhança do poder
Emanoel Barreto
 
Dois momentos em charge. O primeiro no traço de Henfil, à época da ditadura. Angeli, em seguida, fixa o crescimento da urbanização em seu processo de desumanização. A ação desnaturante sobre a natureza. O hifen que une os dois momentos: a sociedade, o povo, no dizer de Henfil, sempre como massa de manobra num e noutro casos.
 
Antes a ditadura, representada pelo seu dadopolítico-capitalista, maquinando para eleições em que o povo é que será "escolhido", ou seja, ajustado pela legislação aos desejos dos poderosos. Hoje, a mesma massa humana domesticada ao consumismo, outra forma ditatorial que ensina como as pessoas devem ser.
 
 
 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

 Brasileiro teme ser esquecido em corredor da morte e presidente Lula apela ao Governo da Indonésia (Reuters)
A morte como "pena para sempre'
Emanoel Barreto

A Folha traz matéria informando que o brasileiro Marco Archer Moreira, traficante de drogas, será executado na Indonésia. Abaixo:

RICARDO GALLO
da Folha de S.Paulo


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem um apelo ao governo da Indonésia a fim de evitar a execução do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, 48, condenado à pena de morte no país asiático.
Em carta, Lula pediu "generosidade" ao presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, e disse que a morte do brasileiro afetaria a relação entre os dois países.


"Peço licença para tratar de um assunto de interesse humanitário (...) Conto com a sua generosidade para que o assunto não crie uma reação na opinião pública brasileira que teria, possivelmente, efeitos no nosso relacionamento, que tanto queremos estreitar", disse o presidente, que classificou o caso de "especialmente urgente".


A carta, que exalta a boa relação entre Brasil e Indonésia, foi enviada após Marco pedir nova intervenção de Lula. "Vou cair no esquecimento aqui", disse ele à Folha no dia 17.


Trata-se de uma nova tentativa para que Yudhoyono dê clemência ao brasileiro. É a última chance de Marco escapar da execução --ele quer a conversão da pena para prisão perpétua ou para 20 anos.


Pelas leis locais, o condenado tem direito a dois pedidos de clemência -o presidente da Indonésia já negou o primeiro em 2006 e ainda não se pronunciou sobre o segundo. Na Justiça, não cabe mais recurso.


Yudhoyono foi reeleito em 2009 com posição favorável à pena de morte. A punição é apoiada pela maior parte dos políticos e pela população local.


O brasileiro foi preso em 2003 ao tentar entrar na Indonésia com 13,4 kg de cocaína escondidos em sua asa delta. A condenação de morte ocorreu no ano seguinte. Ele disse que aceitou o serviço em troca de dinheiro para pagar uma dívida; segundo Marco, foi a primeira vez que ele fez isso.


A Folha vem tentando falar com o governo da Indonésia, mas ainda não obteve resposta.
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A pena de morte, como tudo no direito penal, é retributiva. É uma espécie de olho por olho, dente por dente. Até mesmo no direito civil esse princípio, de alguma maneira, sobrevive. Se você não paga reiteradamente o aluguel da casa será despejado, no prazo legal.


Com a pena de morte dá-se o mesmo: aos olhos da sociedade indonésia o tráfico de drogas deve ser punido com a morte. De maioria muçulmana, religião cujos preceitos permitem larga dose de fundamentalismo e, consequentemente, intolerância, a Indonésia vê nas pessoas em tal situação alguém que deve ser, fisicamente, afastado do convívio social. É uma espécie de "pena para sempre".


Tenho ensinado a meus alunos que o jornalismo, em termos de noticiabilidade, se rege pelo princípio da proximidade espacial ou emocional-afetiva, em relação aos acontecimentos. Ou seja: acontecimento distante pode nos levar a interesse em função de um sentimento, uma ligação subjetiva que estabelece liame afetivo com o fato. No caso, um brasileiro condenado à pena de morte.


Entendo que um traficante é alguém perigoso. Alguém que distribui infelicidade e dor a muita gente. Que o diga quem tem um filho, um marido ou esposa ou parente viciado. Que o diga quem seja viciado. Mas uma reflexão, mesmo rápida, a respeito da pena de morte, nos leva a um limite angustiante: a eliminação a sangue frio de alguém, a execução de um ser humano pela mão inumana do Estado.

A pena de morte é uma espécie de degradação trazida à forma da lei. Representa um sentido de moral absoluta, que não reconhece limites à sua aplicação. Assim, é perigosa. Profundamente perigosa. Até mesmo porque, em caso de erro judicial, alguém falsamente culpado pode ser atingido por essa "pena para sempre".

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010



http://kiosko.net/br/np/br_estado_spaulo.html
Artilharia da imprensa
Emanoel Barreto

Valho-me do título da obra clássica de James Reston para analisar as manchetes do Estadão e a Folha, encontrando no subtexto da segunda a ação do jornal como partido político. Gramsci deixava disso bem claro, quando enunciava que jornais podem inserir vilegiatura política em seu noticiário e opinião, desde que assumindo atitude proselitista, doutrinária, assemelhada à de partido político.

E isso a partir de uma constatação: o comportamento agressivo dos sem-terra, prática censurável é verdade, serve de deixa para que o jornal, que nos tempos da ditadura emprestava viaturas para ações repressivas de grupos paramilitares e parapoliciais, pratique ato de partido político. Como? Pelo simples fato de que, primeiro, nota-se um dado de júbilo na assertiva textual do título; segundo, essa asserção toma contornos opinativos, por consequência mesma do júbilo.

Trata-se de discurso que infere à existência de movimento popular contestador, cuja práxis, eivada de atos agressivos, permite aos setores da conservação emitir mensagens que se contrapõem a esse movimento. Que, a despeito da justeza de sua causa, incorre em falha que permite a adversários como a Folha obscurecerem a necessidade de uma reforma agrária, coocando o MST quase que em igualdade de contições com criminosos.

A isso acrescanta-se detalhe de relevo: o fato em si não mereceria jamais uma manchete de primeira página, em função de que jornalisticamente está distanciasdo no tempo (o tempo jornalístico é muito fugidio. Vide a situação do Haiti, que já começa a perder espaço editorial) e suas repercussões sociais foram bastante limitadas.

Quanto ao Estadão, a manchete está certíssima. A distribuição de lucros pelas empresas a seus funcionários, em percentual de cinco por cento (li isso no Estadão) gera evidentemente expectativa social generalizada quanto a seus possíveis desdobramentos.

Não que o Estadão também não seja de alguma forma um jornal com ação assemelhada à de partido político. Bem distante disso. Mas, tecnicamente, a escolha foi a mais acertada. Então, porque a Folha não divulgou com destaque o mesmo evento, deixando ao concorrente caminho livre para tratar de assunto efetivamente de importância?

Resposta: pela militância. Pela atitude de confronto jornalístico com os sem-terra. Por ver aí, na falha do método de ocupação, fator que permitirá, a longo prazo, o contínuo estilolar da imagem desse movimento, que é justo, mas metodicamente equivocado. Sua artilharia, sem dúvida, continuará com fogo pesado.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010


http://conexaoambiental.zip.net/images/aventura.jpg
Que bom: os americanos estão dando uma ajudazinha aos índios brasileiros
Emanoel Barreto

O Jornal do Brasil traz matéria em que aborda a ação de ONGs que facilitam a ação de entidades estrangeiras que pretendem "ajudar" os índios da Amazônia. Abaixo.

Vasconcelo Quadros , Jornal do Brasil



BRASÍLIA - A Fundação Nacional do Índio (Funai) está terceirizando para Organizações Não-Governamentais (ONGs) a gestão de ações em aldeias indígenas. Duas delas, o Centro de Trabalho Indígena (CTI) e o Instituto Sócio-Ambiental (ISA), estrelas gigantes do setor, estão sendo acusadas por indigenistas e organizações de utilizar a proximidade com a Funai para atrair parcerias e recursos de governos e entidades internacionais. O CTI, por exemplo, é hoje responsável pelo contato e proteção aos índios isolados – como são chamados os selvagens sobre as quais pouco se sabe.


A ampliação do papel das ONGs veio à tona na semana passada com a crise deflagrada pelo decreto baixado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no final do ano passado. A reestruturação chegou de surpresa e acabou desencadeando uma onda de protestos e conflitos, cujo ato mais insólito foi uma briga de bordunas entre índios das tribos xavante e kayapó, com um ferido, durante a invasão da sede da Funai, em Brasília, na semana passada. Era para ser uma reação conjunta contra a extinção de 22 administrações executivas regionais e 334 postos indígenas, mas os kaiapó aceitaram negociar isoladamente com a Funai.

Em fevereiro do ano passado, durante reunião em Brasília, CTI, Funai e Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) acertaram os detalhes para iniciar as ações com índios isolados. Os críticos reconhecem que as ONGs têm em seus quadros profissionais competentes e dedicados, mas reclamam que, até para evitar interferência externa num setor sensível e frágil, esse é um papel de Estado, a ser executado por indigenistas e sertanistas dos quadros da autarquia, e chamam a atenção para o apelo financeiro embutido nas parcerias.
........
A ação das ONGs, aliadas a parceiros internacionais, revela como, diligentemente, e como o apoio de brasileiros, a Amazônia vai sendo tomada e administrada por interesses entrangeiros. Trata-se, não resta dúvida, de uma nova e sui generis forma de colonização quando, à semelhança da presença dos jesuítas, se presta "assistência" aos índios, aos "gentios", como diziam os sacerdotes.

Então, os padres queriam "catequizar" aqueles pobres pagãos. Agora, sob o pálio de levar-se "civilização" aos povos da floresta, realmente o que se faz é a preparação tática, o amaciamento regional, preparando-se o terreno para, em futuro ainda não dimensionado, permitir aos países centrais o apoderamento de toda a região em nome do internacionalismo.

O argumento, frenter à devastação da floresta é simpleas como abrir-se uma torneira: o Brasil não soube cuidar dessa dádiva da natureza e, ante um mundo poluído, deve-se entregar às potências todo o imenso território. Quem viver, verá.

domingo, 24 de janeiro de 2010


http://www.vaimanticoravem.net/wp-content/estranha.jpg
Estranha Gênese
Emanoel Barreto

O tempo passou.
Passou-se tanto, que um dia acabou-se - o tempo.
Em seguida veio a eternidade, que é o tempo sem
fim e sem começo.

E houve paz porque, sem tempo, os homens
não sabiam a horar de ir guerrear.

Mas depois se inventaram os relógios,
a girar continuamente as mesmas horas.
E assim foi descoberto: a eternidade é muito cansativa.

Então, numa curva do mostrador, um homem,
um, ele sempre, o mais esperto, descobriu o tempo escondido.

E o dono do relógio apoderou-se do tempo
e o trouxe de volta e bem depressa.

E o dono do relógio tornou-se
dono do tempo e transformou o tempo em dinheiro.

Todos o invejaram e queriam ter tempo e dinheiro.
Começou tudo novamente e não há tempo para terminar.

sábado, 23 de janeiro de 2010


Silêncio intenso. É Você.
Emanoel Barreto

A Mulher é Ela que me chega
no momento de combate terno
e intenso.

Que se imerge em coisas
que só Nós podemos entender.

Faquinha: o menino que nos faz ter medo
Emanoel Barreto

A charge do Glauco, na Folha Ilustrada, não é humor. Não, não é. A charge jamais foi humor. É editorial, é ponto de vista. Tanto mais crítica quanto mais crítica seja a situação sócio-política sobre a qual se remete. Se o leitor quiser aceitar, chega ao lamento.

A rigor Faquinha é uma vítima. Cumpre, no universo delimitado pelos quadrinhos, sua sina de ser brasileiro, pobre, nascido em metrópole que tem na exclusão seu ponto máximo e seu fulcro. Perdão pelo "fulcro". Parece coisa de processo, coisa de linguagem de advogado. Mas foi o que me ocorreu.

Mas, vendo bem, acho que acertei. Faquinha é um "criminoso", é um "menor". Está envolvido pela malha da "justiça".

E "menor" é o termo jurídico-assistencialista com que se define a condição da criança desassistida, filha de família humilhada, faminta, desfeita, onde o álcool e outras drogas são o cotidiano.

Tecnicamente, o nome do personagem é perfeito. "Faquinha". Sugere agressividade, mesmo que agressividade pequenina, mas, mesmo assim, agressividade, fervor ferino de quem, de alguma forma se percebendo excluído - pela fome que sente, por não ter nada -, parte para a agressão.

Faquinha é esse brasileirinho malvado, dependende de valores desvirtuados, viciado em roubar, furtar, ofender, ferir, bater. Desrespeitar a lei e atacar até mesmo outros inocentes: o trabalhador, o assalariado, a pessoa de classe média.  É esse o seu mundo, como é esse o mundo de muitos outros faquinhas.

Esse é o Brasil. Que vivemos e sentimos. Quer dizer: nem todos. Os acima-da-lei estão impunes, empunhando seus mandatos e seu dinheiro. E o que falta nas famílias pobres garante que teremos, não sei por quanto tempo, muitos e outros "Faquinhas."

Triste, né?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010




Thiago Felipe
Terrível mundo blue
Emanoel Barreto

Não há justiça ou bem ou lado bom.
Não é justo alguém ter direito a tudo. De ser dono de
uma empresa de aviação e o outro não ter
direito a comer um pão.

Não já grandeza em saquear o inferno.
E trazer ao mundo tão torpe festim.

A loucura chegou há tempos velhos
e as lágrimas log se fizeram foices - ferinas, firmes e ferozes.

O massacre dos inocentes é coisa do comum,
mas não é por ser comum que deve ser normal.

E não há normalidade quando o gesto humano
é só intensa besta
que transforma a tola humanidade
no esgarçado sudário que vestimos.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010



João Miguel Junior/Tv Globo
A urina da bela
Emanoel Barreto

A Folha Online registra: a atriz Alinne Moraes, 28,está internada no Rio, na clínica São Vicente, na zona sul da cidade. O hospital informa que ela está com infecção renal e não há previsão de alta.


Alinne é protagonista da novela "Viver a Vida", da Globo. Ela interpreta a modelo Luciana, que ficou tetraplégica após um acidente de ônibus.

Ontem, a atriz se sentiu mal durante as gravações da novela. Ela foi atendida no Projac, o estúdio da Globo, e terminou de fazer suas cenas.

Já em casa, Alinne continuou sentindo dores e procurou a clínica, segundo sua assessoria de imprensa. A atriz fez alguns exames, que constataram a infecção renal, e continua internada por precaução.

De acordo com a Central Globo de Comunicação, Manoel Carlos, autor de "Viver a Vida", vai fazer com que a personagem Luciana sofra de infecção urinária para que a atriz possa ficar o tempo necessário afastada das gravações.
.....
O sistema de mídia, desde que constituiu-se como tal, sempre elevou aos níveis do Olimpo pessoas, especialmente artistas, como se diferentes fossem do comum dos mortais. Isso porque é lucrativo ter pessoas icônicas povoando o imaginário coletivo bom para o sistema. Dá lucro.

Com isso, fica sugerido que são pessoas especiais, até que a morte, ou doenças, os apresentam em toda a sua fragilidade. O que, aliás, é o comum na espécie humana, claro. Quando isso acontece, a doença também é apresentada como algo extraordinário, já que atingiu uma pessoa extraordinária.

Infecções urinárias acontecem todos os dias. Nem por isso os comuns, os cotidianos são alvo de atenção midiática. É que o sistema funciona de forma perversa e ganha até mesmo quando seus ícones, sucumbindo à condição humana, se mostram falíveis e fracos. Sua dor é compartilhada socialmente e gera expectativas: "Quando ficará curado?"

A farsa da mídia continua a lucrar, mesmo em nosso vale de lágrimas.









 Luiz Lhacer
Deixo com você este poema de Pablo Neruda. (EB)

Angela Adonica


Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.


Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.


http://www.agenciabrasil.gov.br/media/imagens/2007/08/01/1400AC0090.jpg
O jeitinho de Gabeira
Emanoel Barreto

Transcrevo texto do Blog do Fernando Rodrigues, comprovando o que é a lamentável cena política brasileira, um caldo de cultura que chega ao nível do sórdido. Nas palavras do jornalista encontro a incoerência do deputado verde Fernando Gabeira, que se apresenta à cena política como vestal. Você lê. Abaixo, eu comento. Veja só:

PSOL desiste de Marina e lança candidato próprio

O PSOL abandonou oficialmente a pré-candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) à Presidência. A decisão foi anunciada hoje (21.jan.2010) pelo Secretário Geral do partido, Afrânio Boppré, após reunião da direção do PSOL em Brasília.

De acordo com Boppré, o principal motivo para o racha foi a declaração do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) que em 12.jan.2010 disse que poderia se candidatar ao governo do Rio por uma aliança PV-PSDB. A aproximação de Gabeira com PSDB e DEM no Rio motivou o PSOL a desistir da aliança nacional e abandonar a pré-candidatura de Marina Silva.

Abandonadas as negociações com o PV, uma corrente do partido, da qual fazem parte a ex-senadora Heloísa Helena e a deputada federal Luciana Genro (PSOL-RS), lançou o nome de Martiniano Cavalcanti, presidente do PSOL em Goiás, como pré-candidato à presidência.


Martiniano disputará a indicação do partido com outros dois pré-candidatos, o ex-deputados Babá e Plínio Arruda Sampaio. A candidatura oficial será lançada na convenção nacional do PSOL no dia 11 de abril, no Rio. A expectativa é de que o peso de Heloísa Helena garanta a indicação de Martiniano Calvanti como candidato oficial do PSOL.
.......
Gabeira pratica com desenvoltura o jeitinho brasileiro. É um ex-guerrilheiro agora amaciado, que pratica a diplomacia político-partidária para garantir-se em cena. Pessoas mudam, é claro. Amaduretem, o que é bom. Perdem o sectarismo e passam ao exercício de outros tipos de comportamentos, na vida pessoal e na política, o que pode ser bom.

Mas, praticar um tipo de discurso para o público da TV Câmara e outro nos escaninhos do Poder, é prova  de hipocrisia. Pior que isso, é constatação de que está plenamente inserido no processo político brasileiro, que tem na pequena política, na baixa política, aquela dos corredores e cochicos, acertos e manobras, sua essência e, por isso mesmo, falta de credibilidade.

O pior é que essa cordialidade, essa falta de limites para se chegar aonde se deseja, é algo comum na sociedade brasileira. E, enquanto formos assim, teremos políticos assim.

E o PSOL

O Partido Socialismo e Liberdade não poderia ficar de fora desta análise. representaria no processo a faceta política coerente com seus princípios. São radicais os seus membros. Radicais no sentido de presos às suas raízes e delas não abrindo mão.

Até o momento, o PSOL não constitui uma perspectiva de poder. Nem o será, mesmo a prazo longo, uma vez que seu discurso não encontra eco no social, mesmo que represente os reais interesses desse social.

Sua pragmática está voltada para uma visão de confronto de classes, ou seja, um impasse histórico a ser resolvido conflituosamente. Respeito a integridade de pessoas como a ex-senadora Heloísa Helena. Mas, mudanças pela via do conflito aberto já demonstraram historicamente que não garantem ao povo sua condição de ator protagonista, resultando apenas em ditaduras.


A mentira e a verdade na fotografia
A falsificação do presente
Emanoel Barreto

A foto acima, de autoria do espanhol José Luiz Rodriguez, vencedora prêmio Wildlife Photographer of the Year, foi desclassificada após especialistas constarem que se tratava de animal treinado, habitante de um zooólogico.

Antes da descoberta fora tida como de extraordinária perícia técnica do fotógrafo. Diz a Folha Online, citando declaração de especalista à BBC Brasil, quando a manobra do autor da foto ainda era desconhecida: "A foto, escolhida entre mais de 43 mil concorrentes, foi descrita por um dos juízes como sendo uma imagem que "fala por si mesma - milhares de anos de história estão congelados neste momento executado com maestria. Esta é uma fotografia mais tecnicamente complexa de se conseguir do que alguém possa imaginar".

A falsificação da realidade na fotografia, seja pelo enquadramento, pelo uso de recursos de manobras laboratoriais na manipulações de filmes ou com o photoshop, é uma forma de fraude do real a partir mesmo de uma antiga afirmativa: "Uma foto diz mais que mil palavras."

Afinal, a foto "mostra" o real visível e isso seria suficiente para a sua credibilidade. O ditador Stalin "retirava" de fotos aliados ou subordinados caídos em desgraça, quando a pessoa, na verdade, havia sido riscada do mapa político da União Soviética por morte ou confinamento num gulag. Se não estava na foto não estava no mundo.

A falsificação do presente atende a muitos propósitos e isso interessa, e muito, a todos os que se aproveitam de alguma forma de poder para manipular os demais.

O poder de alguém de mostrar o mundo, figurando-o a seu bel prazer, é algo perigoso porque dá a esse alguém a possibilidade de fragmentar o mundo, dizendo porém que o mundo inteiro está nessa foto.

A representação real do presente




Aqui, na foto de João Maria Alves, demonstração perfeita de captação do momento preciso. Trata-se de composição, verdadeiro texto significando um dado de mundo. Trata-se de momento poético-político, porque mostra o humano, em sua consciência de ser diminuto e perplexo com as dores do mundo, buscando, pelo divino, a purgação de suas angústias sociais.

A mão humana clama o que a mão política, invisível e fria, não atende.

Democracia e neurose obsessiva

Olgária Mattos

Treanscrevo artigo da professora Olgária. Uma reflexão em profundidade sobre o momento que vivemos e sua dimensão midiática e política. (EB)

A idéia de “processo civilizatório” diz respeito ao abrandamento dos costumes e, no Ocidente, surge na oposição gregos e bárbaros. Na tragédia Medéia, de Eurípedes, a oposição entre o grego Jasão e a bárbara Medéia se faz entre o logos ou a palavra racional e o mito ou o irracional.


Irracional são os ritos religiosos com derramamento de sangue humano e, também, o uso do assassinato para decidir conflitos. Assim, quando Aquiles, na Ilíada, quer se vingar do comandante da Guerra de Tróia Agamêmnon - que se apoderou de sua companheira e escrava Briseida - não o mata, mas pronuncia palavras de cólera. O rei ilustre substituía à violência a palavra que se encontra, por isso, na origem da própria civilização.

Civilização e vida civil referem-se ao convívio entre indivíduos, às formas de organização política na polis e, na democracia, à “comunidade dos iguais”. Esta baseava-se em práticas de atenção ao Outro, de estima, respeito e consideração de que nasceram os escritos sobre as “maneiras”, a delicadeza e a graça, como parte da democracia ateniense. Não que os gregos desconhecessem as guerras com outros povos, a guerra civil e o horror dos campos de batalha, mas a política, a filosofia e a tragédia foram construídas por eles como um esforço - nada fácil - e uma barreira contra a violência.

As modalidades de convívio político são tão mais bem sucedidas quanto seus representantes são legais e legítimos. Por isso, na democracia,a noção de autoridade significa mais do que força e poder pois comporta apego aos senhores legítimos e à liberdade. O governante nada faz sem consultar toda a cidade. Não lhe dá ordens, mas pede seu apoio e todos o concedem: artesãos, mercadores, guerreiros, com dedicação alegre e completa. Este remanescente “cavalheiresco” na democracia representativa fazia o servidor igual ao mestre por uma fidelidade voluntária.


A democracia de massa contemporânea é o lugar de uma metamorfose antropológica em que a democracia, onde ela existe, é dominada pelo capitalismo e pela ciência, pelo mercado e pelo especialista que não se ocupa de questões éticas, ambos, mercado e ciência, sucedendo ao declínio da autoridade no mundo contemporâneo. Assim, se Berlusconi se apresenta, na Itália, como um empresário midiático, ele é o “homem sem qualidades”, nada há nele de “ exemplar”, a não ser seu prestígio com as mulheres, sua vida de prazeres e divertimentos. O espectador, como o espetáculo, se apóia em pulsões imediatas, em “estado bruto”, segundo um consumo fugaz e ilusório.

Neste espetáculo total, carregado de informação e comunicação, cada qual seleciona o que lhe apraz, escuta o que lhe convém e acredita no que bem entende. Alimentado pela ideologia do consumo - de bens e de alegrias -,e entretido com seus gadgets,o espectador político é acalentado pela promessa de bem-estar permanente difundida por um “tirano racional”, prestidigitador que promove a beleza,o dinamismo e o sucesso. Diante disso, a angústia do perdedor só pode aumentar e eclode na agressão ao rosto do Presidente italiano.

Na democracia moderna o governante se constrói como alguém que é próximo das massas, como “seu igual e irmão”. Por isso adota a informalidade em palavras e gestos e a promove, operando no espaço público como modelo de pensamento e de ação.

Na neurose obsessiva da igualdade abstrata, não é mais possível diferenciar valores. Dos estudantes que utilizam roupas de festa para ir à escola ao professor autorizado a usar bermudas e havaianas na sala-de-aula, do espancador que atacou com um taco de beisebol a cabeça de um cliente de livraria ao agressor de Berlusconi, das investidas a bengaladas de que foi vítima o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula às pedradas contra o governador Mário Covas nos anos 1990, revela-se que a democracia moderna é “passagem ao ato” e desrecalque generalizado.

Com o fim do simbólico - cuja expressão foi a autoridade do governante, do professor, dos pais, do médico, do sacerdote, as práticas de contenção da agressividade e da violência cedem ao linchamento - físico ou moral - por parte daqueles que decidem, em seu pequeno e frágil ego, eliminar o concorrente idealizado pelo capitalismo consumista e seu tédio espetacular.
(A autora é filósofa e professora titular da USP)



http://jacacarambola.files.wordpress.com/2008/02/300_tv2.jpg
Informação é poder
Emanoel Barreto

A coluna Panorama Político, assinada pela jornalista Ana Ruth Dantas, na Tribuna do Norte, informa:

 A capital do Oeste ganhará um canal de TV aberta. O processo de concorrência já foi deflagrado.


Estão disputando a concessão 12 grupos, sendo dois potiguares, o ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado (marido da senadora Rosalba Ciarlini) e o ex-deputado federal Laíre Rosado (marido da deputada federal Sandra Rosado).

O assunto é notícia hoje na coluna de César Santos, do jornal De Fato. Veja a nota:


Concorrência…

Das 24 propostas iniciais para um canal de televisão aberta em Mossoró, apenas 12 continuam no páreo. A outra metade foi eliminada nas duas primeiras etapas, entre elas a TV Princesa do Vale, projetada pelo reitor Milton Marques. A última etapa da licitação está prevista para o mês de março, quando serão abertos os envelopes com as propostas econômicas.

acirrada

Das 12 habilitadas, apenas três são do Rio Grande do Norte: Costa Branca, do grupo InterTV; TV Potiguar, do ex-deputado Carlos Augusto e do empresário Elviro Rebouças; e a TV Resistência, do ex-deputado Laíre Rosado, representado pelo professor Pedro Almeida. As outras nove são de todo o país.
....
Os registros jornalísticos confirmam o aforismo de que informação é poder. Não é à toa que os ex-deputados Laíre e Carlos Augosto Rosado estão na disputa. Representantes de um grupo político-familiar que desmembrou-se em processo de guerra intestina, buscam agregar capital midiático que facilitaria enormemente sua capacidade proselitista naquela região do Estado.

Oficialmente, atores políticos não podem deter controle de empresas de comunicação no segmento TV e rádio. Oficialmente. Na prática, todos sabemos que no Brasil há, por trás de todo sistema de comunicação, interesses políticos bastante ponderáveis.

E mesmo quando TV, rádio e jornal não estão sob controle direto de políticos com ou sem mandato, têm ligações orgânicas com o sistema de mídia. A Rede Globo que o diga. É o Sistema Globo, em seu todo, um poderoso organismo atuante na sociedade civil, mesmo não tendo entre seus diretores alguém com assento em qualquer parlamento.

A concentração de mídia nas mãos de políticos é histórica e traz, não tenha dúvida, perigosas consequências à democracia, uma vez que as vozes dos segmentos despossuídos não se fazem ouvir em sua cotidianidade editorial. A disputa em Mossoró é apenas mais um passo na reprodução desse sistema.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Voltarei a atualizar o Coisas de Jornal nesta quinta. Estou impossibilitado de postar fotos.
Emanoel Barreto

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


O olhar, aquele instante...
Emanoel Barreto

E então aquele olhar chegou e trouxe todos os azuis. E ninguém imaginava que pudesse haver tantos azuis.







Carolyn Cole / Los Angeles Times
Clausewitz vive
Emanoel Barreto

A tragédia do Haiti, passado o impacto inicial e suas consequências mais terríveis, tenderá a ingressar na cotidianidade da vida como coisa consumada. Seja para seus cidadãos, seja para os países que estão se propondo a, no momento, socorrê-los. O grande problema, a sombria indagação é: até quando permanecerá essa ajuda? Até que dia os países centrais contiribuirão para o refazimento daquele povo como sociedade política e quais os interesses que dirigirão sua presença ali.


Uma análise superficial permite uma constatação: com a tragédia, os Estados Unidos, de forma unilateral, assumiram o controle do aeroporto da capital, deixando claro, para quem puder entender, que sua presença ali esconde algo mais que o de simples ajuda humanitéria.


A ação americana cumpre papel tático. Não é preciso ser Clausewitz para perceber isso. A ocupação do aeroporto, sem qualquer consulta à presidência do país e às nações integrantes da Minustah, demonstra à larga o que afirmo. Por que os americanos não se juntaram ao esforço humanitário propriamente dito, optando por deter o controle aeroportuário? Resposta: pelo fato simples de que, com isso, eles detêm literalmente, manu militari, o poder de controlar esse aspecto vital.


A presença americana não se fez a partir da chegada das tropas da Minustah, já que o gigante do norte supunha que a situação do povo haitiano, com toda a sua cruel realidade histórica, seria mantida em fogo brando. Todavia, com o desastre, e com o desmantelamento do já enfraquecido Estado haitiano, os países componentes da Minustah passariam a assumir presença hegemônica, já que em sequência trata-se não apenas de socorrer pessoas desvalidas, mas trabalhar para a reconstrução de uma sociedade e de um Estado.


Obama, desta forma, agiu rápido, determinando a suas tropas essa invasão em nome de um socorro humanitário, quando, na verdade, estas atuam na preservação da presença americana no Caribe. O quadro permite a suposição de que os Estados Unidos vieram para ficar, tendo a seu favor a desculpa da "ajuda humanitária". Com isso, preservam sua situação hegemônica e colocam na manga uma carta preciosa em seu baralho de política externa para a bacia do Caribe. Clausewitz vive.



O olhar do mestre
Na foto de João Maria Alves, o Johnguardacosta no Twitter, o olhar treinado de um mestre, pintor de cenas da vida. Como um impressionista ajusta lentes e olhar e dá forma pulsante ao cotidiano que nos cerca.

Pensando em voz alta


http://www.blogzinho.com/img_post/semsaida_www.blogzinho.com.jpg
Faça tudo, não faça nada. Não pense, não tente endender. Os sinais estão todos fechados. A vida parou num carrossel estranho ou estrada sem ida ou volta. 



segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


Foto: http://www.latimes.com/news/local/photography/la-fg-haiti-hires-html,0,7123168.htmlstory
A culpa condena
Emanoel Barreto

O olhar jornalístico-fotográfico trabalha o momento preciso, na genial concepção de Henry Cartier Bresson: aquele instante único, fugaz, limitadíssimo, curto e paradoxalmente abrangente, que abarca todo o tempo do mundo.

Na foto de Carolyn Cole, do Los Angeles Times, a demonstração perfeita do que disse o grande mestre equivale a todo um editorial, engloba até mesmo uma tese. Deixo com você a conclusão. Da minha parte, entendi assim: "A culpa condena".

Phil McCarten/Reuters

O "Terceiro Mundo", a fome e o riso sarcástico de um imbecil
Emanoel Barreto

A Folha Online Ilustrada publicou matéria registrando que o comediante Ricky Gervais manifesta visão preconceituosa a respeito do "Terceiro Mundo". Leia abaixo.

Apresentador do Globo de Ouro é criticado por piada sobre "Terceiro Mundo"



ALEX DOBUZINSKIS
da Reuters, em Los Angeles


A NBC viu a sua  transmissão do Globo de Ouro atrair perto de 17 milhões de espectadores no domingo, um salto de 14 por cento em relação a 2009, apesar de uma apresentação criticada de Ricky Gervais.


Gervais, um comediante britânico mais conhecido como co-criador do seriado televisivo "The Office", causou excitação quando foi indicado para apresentar o Globo de Ouro em outubro. Seu humor afiado parecia apropriado para o público do evento.


Mas ele recebeu críticas mistas, com alguns dizendo que suas piadas foram de mau gosto depois do terremoto devastador no Haiti.

A certa altura, Gervais brincou que os habitantes do "Terceiro Mundo" se sentiam melhor quando viam uma estrela de Hollywood, e que uma criança asiática pobre está inclinada a pensar "mamãe!" quando vê fotos da atriz Angelina Jolie, que adotou órfãos do Camboja, Etiópia e Vietnã.

Em resposta, o "Chicago Sun-Times" escreveu: "Dada a tragédia que caiu sobre o Haiti na semana passada, a piada de Gervais sobre Angelina Jolie e crianças do Terceiro Mundo foi uma gafe".
....

Não, não foi uma gafe. Foi manifestação preconcebida, elitista e desrespeitosa aos países pobres. Melhor dizendo, àquela parcela da humanidade que é rotulada pelos países centrais como "Terceiro Mundo". Foi a expressão também de como uma celebridade, inculta e vazia, um tipo que trabalha para a indústria cultural mais inescrupulosa, e se utiliza dessa mesma indústria cultural para destilar um certo e odioso tipo de visão de mundo.

A "gafe" na verdade pode ser considerada ato falho, uma vez que desvelou, a título de blague, a crueldade dos que exploram o "Terceiro Mundo" e lhes impõem pesadas dívidas junto ao FMI, somente para citar um aspecto da questão.

É assim que somos vistos: como "pobres", "negros", "esfomeados". O discurso do comediante mereceria do jornal americano um editorial firme, assertivo, acusador. Seu pronunciamento infamante chocou até mesmo uma parte do público que assistia à sua apresentação.

Sem dúvida, ele confundiu a ficção dos filmes premiados com o Globo de Ouro com a realidade sombria dos povos levados à periferia global por ação dos países ricos. E quiz dar uma risada na cara da Humanidade.

Pensando em voz alta voz alta
 
Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjgYwy_ulcSqHQsp9iwOcyLySDqdTZ-9qz_P3HZhIv4UNf2IKKHkZCmVXIrWse0QoBnmmLQeGcIUfhPwxgIPyCN9-KsT3GbqZmNRZ-kHiirQBG5hWVrABT2wp4MJ6oGwaqpTEF3Kg/s320/lingeria3.jpg

As aparências enganam.
As transparências encantam.
O olhar de esguelha não transparece,
mas a alegria do olhar é olhar o que
o que a visão vê e não esquece.
Nem pode...