sábado, 20 de dezembro de 2008

Uma saudade a mais

Amigo, poeta a jornalista, Walter Medeiros vez por outra me envia seus textos, belos, como o que se lê a seguir:

Uma saudade e mais

A jornalista e professora Nadja Lyra, coordenadora pedagógica da Escola Municipal Santa Catarina, localizada no conjunto que tem este mesmo nome, convidou-me para proferir a Aula da Saudade dos alunos do 5º ano e sugeriu que falasse sobre “Saudade”. Que coisa! Passei uma semana refletindo sobre esse tema tão fascinante, a partir de experiências próprias e versos dos poetas e músicos que tanto mexem com o nosso coração.

De cara fui logo aos anos 50, quando aprendia a ler no Grupo Escolar Professor Demócrito Gracindo (homenagem ao pai de Paulo Gracindo) em Mata Grande, cidade do alto sertão de Alagoas aonde meu pai foi parar matando mosquito da dengue, após passar pela guerra sem matar nenhum alemão. Depois que aprendi a juntar as letras e sílabas, era belo entender o que estava escrito no pára-choque branco do caminhão de Nezinho, meu vizinho: “A saudade me fez voltar”. Ficava imaginando a saudade que le sentia a cada viagem que fazia com aquelas cargas altas de antigamente.

Em seguida, veio à mente uns versos que não poderia deixar de citar na aula: “Itabira é apenas uma fotografia na parede / mas como dói!”, escritos por Drummond no seu poema “Confidências de Itabirano”. E o significado da palavra – substantivo feminino abstrato - segundo Aurélio: “Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia.”

Aí veio mais uma coisa interessante para aumentar a saudade, que tanto espaço ocupa nesse mundo: ela tem um dia para ser lembrada e comemorada. O Dia da Saudade – 30 de janeiro. Para lembrar que essa palavra não tem similar em nenhuma outra língua e que espanhóis, ingleses, franceses, alemães e outros tentam expressar o sentimento de falta com frases inteiras, tipo “ich vermisse dish” (alemães).

Aquela platéia me reconduzia mesmo era à minha sala de aula, onde Professora Josefina Canuto me ensinava e, depois, no Externato Saturnino – já em Natal, a professora Maria das Neves trazia novidades. Coincidentemente a professora de uma das turmas se chama Neves. Impossível não lembrar de Ataulfo Alves, exclamando: “Que saudade da professorinha / que me ensinou o be-a-bá!”.

Para falar de saudade não poderia deixar de citar o Fado – gênero que tanto me toca e que tocou até Roberto Carlos, ao cantar Coimbra: “Aprende-se a dizer saudade”. Fernando Pessoa, em texto saudoso: “Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: quem são aquelas pessoas? Diremos... Que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!” E é claro que citei Casimiro de Abreu , cujos poemas eu os tinha decorados, e que versificou sua saudade da infância: "Oh! que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!".
Agora estou, sem dúvida, com uma saudade a mais.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A festa de Ali Babá; a farra dos 40 ladrões
Emanoel Barreto

O Projeto Ali Babá - A Câmara dos Deputados barrou o projeto que aumenta o número de vereadores dos atuais 51.924 para 57.267 em todo o território nacional. A alegação é que isso implicaria em aumento de despesas para os municípios, o que é uma aterradora verdade para a pobre cidadania brasileira.

As coisas de jornal que andei lendo na Folha e Estadão indicam que, agora, senadores e deputados estudam como farão para abrir novas vagas nos legislativos municipais, sem que isso represente ônus para o contribuinte.

Sinceramente, minha matemática ou até mesmo aritmética é rudimentar, é do tempo do ábaco, imagine. Assim, não sei dar resposta a tal pergunta, questão de alta indagação: como atulhar as Câmaras Municipais, sem que isso resulte em despesa?
Na verdade, a pergunta seria outra. A pergunta é a seguinte: para que mais vereadores? Para quê? Precisamos tanto assim de novos cérebros privilegiados, pessoas da mais alta compostura moral e estatura intelectual para decidir os destinos dos nossos burgos? Que assuntos de tamanha complexidade estão postos, para que se chamem novos sábios, demiurgos, estrategos e adivinhos do bem-comum?

Não, não. Não precisamos de mais gente na rinha política. Precisamos, isso sim, de seriedade, ética, sentido histórico da missão política. O que está posto, pelos farristas do Senado e da Câmara, é o chamamento de mais gente para esbulhar os dinheiros públicos. Uma gentalha que vai pilhar verbas que deveriam ser empregadas para aquele homem, honrado e pobre, lá nos arrabaldades da vida, que tanto precisa de um posto de saúde funcionando, escola decente para os filhos, moradia digna...

Essa proposta, esse trambolho, é o tipo da coisa a que podemos chamar de Projeto Ali Babá. Quando for aprovado, virão os quarenta ladrões, em busca dos trinta dinheiros.
* Quando eu era criança, a Rádio Rural de Natal tinha aos domingos um programa infantil. Sempre, sempre, eles colocavam um disco que que se contava a história de Ali Babá. Os quarenta ladrões cantavam bem assim: "Nós somos ao todo quarenta/Quarenta famosos ladrões/Roubar o ouro não compensa/Nós só queremos milhões."

ZOORÓSCOPO

VERME - É o zoosigno de todos os deputados e senadores que vão aprovar o Projeto Ali Babá. Todos os nascidos sob tal casa astral nasceram sem escrúpulos, não temem enterrar as mãos nos mais sórdidos esgotos da podridão moral e, o que é pior, serão sempre bafejados pela fortuna. Ditarão as leis e serão sagrados aos mais altos postos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O chope, o champanhe e o que virá
Emanoel Barreto

É isso, é isso aí - Vida velha, tempo besta. Natal, alegria cronometrada no tempo do ano, é festa sazonal. Obrigatório ser feliz. Depois réveillon, para lavar com champanhe as tristezas passadas e estimular na imaginação que o Bem virá no próximo ano, montado no cavalo branco da esperança.

Esperança, não. Expectativa. O que há em nós, em todos nós, é expectativa; seja aquela incerteza quanto àquilo que virá a nos assediar, ou vontade de que o ano tenha momentos de cristal. Dúvida. O ritual de finalização do ano é um grande ato coletivo em torno de uma pergunta: o que virá?

Sei que esta crônica nasceu antes do tempo. Deveria ter sido escrita dia 31. Mas é que hoje ouvi, num shopping, uma conversa entre dois senhores. Elegantes, mais de sessenta anos, bebiam chope. Um deles virou-se para o outro e disse, colocando a mão em seu ombro: "Amigo, esse negócio de festa de final de ano é sempre a mesma coisa. A gente se alegra de véspera. Depois, é rezar, para ver se a alegria se lembra de ficar."

ZOORÓSCOPO

Zebra - Zoosigno típico dos indecisos, dos tímidos, dos que não sabem escolher qual o caminho. Mas também é encontrado entre os falsos, disfarçados, hipócritas e vendilhões da honestidade. Como são indefinidos, podem meter-se em qualquer ambiente e tirar partido, querendo levar vantagem em tudo. As previsões para 2009 são as piores possíveis: se os tímidos não tomarem um rumo, se os espertinhos não se emendarem, podem dar de cara com alguém de Coruja. Aos primeiros, punirá com sua exclusão da vida competitiva, pois não têm coragem de lutar; aos segundos, dará a punição que suas patifarias exigem. É o que afirmam os grandes áugures da zooroscopia.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


O velho Marx ainda tem razão
Emanoel Barreto

Grita a Crise, louca, venenosa.
Grita e diz não saber porque
seu dinheiro se foi e a conta é alta.

Grita e se diz vítima fatal, injustiçada,
de todos a quem, tanto, já prejudicou.
O Mercado, pai amado e louco,
bebeu demais, gastou, se embriagou.

E agora, ao berros, desesperado,
pede à filha amparo, um abraço, um teto.
Sabe que errou, jogou, irresponsável...

Sabe que não sabe tudo.
E que, no fundo, bem no fundo,
o velho Marx ainda tem razão.

ZOORÓSCOPO

Garça - Eis que encontramos o zoosigno dos calmos, serenos, bem resolvidos. Sua placidez muitas vezes é confundida com desconcentração ou até mesmo fraqueza. Ledo, grande engano.
Os de Garça sabem, sempre, o momento exato de levantar o vôo. E os laços e teias ficam para trás, embaixo e esquecidos.

domingo, 14 de dezembro de 2008

É dinheiro do povo? Então, mete bala!
Emanoel Barreto

Dá para acreditar? - O UOL, do Grupo Folha, diz: O Ministério da Defesa prevê investir R$ 1,27 bilhão na realização de uma olimpíada militar. Os chamados Jogos Mundiais Militares, que ocorrem a cada quatro anos, terão a quinta edição em 2011, no Rio de Janeiro. As provas serão realizadas nos estádios e ginásios do Pan-2007, como o parque aquático, o velódromo, o centro de tiro e o Maracanãzinho. Essa economia de infra-estrutura, no entanto, não evitará que o orçamento projetado pelo governo alcance a cifra bilionária.O evento, que o Brasil sedia pela primeira vez, custará mais que a conclusão do programa nuclear da Marinha (R$ 1,04 bilhão), considerado estratégico para colocar o país no seleto grupo dos que dominam o ciclo do combustível nuclear. Ainda para efeito de comparação, o valor da olimpíada da caserna é três vezes o que o Brasil já pôs na missão de paz no Haiti em quatro anos (R$ 431 milhões) e um quarto do pacote de reaparelhamento da Força Aérea, o FX2, estimado em R$ 4,5 bi.

Vamos gastar, vamos gastar
No mínimo lamentável a iniciativa do Governo. Ou muito me engano, ou há gente no país precisando de mais escolas, hospitais, polícia e as próprias Forças Armadas mais bem remuneradas e preparadas, universidades federais com mais verbas, e por aí vai. Um acontecimento bilionário como esse é, no mínimo, um tiro no pé. E tiro de canhão.

ZOORÓSCOPO

MOSQUITO - Incômodos, renitentes, ferinos, os mosquitianos sentem-se muito felizes em fazer a pequena pirraça do dia-a-dia, o inferno medíocre da difamação menor, o prejudicar alguém até mesmo tomando-lhe o lugar na fila. Previsões: como trabalham sempre na arraia-miúda, serão sempre facilmente destrutíveis por alguém com mais força e valor moral. E depois de desmoralizados, serão permanentemente excluídos e vistos como lamentáveis.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008


A corrupção, bicho que não se vê,
mas que está solto por aí
Emanoel Barreto

Coisas para se pensar - O caso da "venda" da cadeira de Barack Obama e a prisão do desembargador presidente do Tribunal de Justiça do estado do Espírito Santo, somente para citar dois casos mais recentes, é um demonstrativo de como a corrupção é algo preocupante e se instala, se alastra nos patamares do Poder.

A corrupção é como que um ente, algo incorpóreo, uma instância espiritual, intangível e vivo, impalpável mas presente. A rigor, de substantivo existem apenas os corruptores e os corrompidos. São pessoas, são materiais. Mas a corrupção, da forma como institucionalizou-se, ganhou a forma intocável de algo; a corrupção tornou-se um ser.

Em todos os países ela está presente. Suas conseqüências são sempre danosas e agravam o patrimônio público e, por decorrência, a sociedade, especialmente junto aos que dependem do Estado enquanto entidade de assistência.

O grande problema que gera, decorre do fato de que corruptores e corrompidos utilizam o Estado como coisa sua. Encontram-se taticamente instalados em postos-chave, de maneira que podem manipular verbas públicas em proveito próprio. Trata-se de grave questão de ataque à moral e à ética e, aparentemente, não há como fazer a limpeza, a sua retirada do corpo social.

Ser corrupto ou corrompido é hoje quase um estilo de vida, uma profissão, uma atividade marginal - no sentido de estar ao lado, paralelo -, do Poder Público. A sociedade civil deve estar atenta, ou então esses bandoleiros da nação tenderão a crescer em número e em eficácia, roubando da sociedade um dos seus bens mais preciosos, a honradez.

ZOORÓSCOPO

PAPAGAIO - São os bonachões, faladores, contadores de piada, brincalhões e boa gente. Como muitas vezes são críticos mordazes, podem dar uma grande contribuição na luta pela queda de ídolos-de-pés-de-barro. Devem porém ter cuidado, como muitas vezes os tais ídolos gostam de tender prendê-los com aquelas correntinhas a algum poleiro somente para ouvi-los falar, devem acautelar-se. O bom papagaiano não deve aprender o que lhe dizem, mas dizer o que muitos não querem escutar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008


Veja só como são belas, tolas, fulgurantes
Emanoel Barreto

Enfeitadas, mas não, nunca são loucas: é assim o mundo, o mundo mesmo.
Risíveis, mas já foram elegantes.
Ridículas, mas então eram beldades.

E muitas viviam e vivem ainda hoje,
como se o ridículo que um dia serão,
seja belo, intenso, magnífico.
Pois esse é o pálido destino de
muitas vidas que em vão, se vão.


ZOORÓSCOPO

Libélula - É o tolo, inconstante, gazeteiro. Em nada pára e flutua pelo ar. Fala muito e nada diz. Seu futuro é apenas o momento que vive. As previsões não são nada alvissareiras: pela sua inconstância jamais terão amigos leais, pela sua frivolidade são também péssimos amigos ou amigas. Quem for de Corcel jamais deverá unir-se a Libélula.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Foto: Folha de S. Paulo
As mãos sobre o sangue derramado
Emanoel Barreto

O direito de ser humano - Há 60 anos a ONU aprovava a Declaração dos Direitos do Homem. Com 48 votos a favor e duas abstenções, o plenário reconhecia a necessidade de valorização do ser humano, após a barbárie nazista e a explosão de duas bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroxima a Nagasáqui.

Trata-se de lei de profundo conteúdo ético, um alarma, um grito agudo e penetrante em favor do respeito à vida. Assim, a declaração estabelece que "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos", e coloca o homem como centro da história, definido por sua humanidade e não mais por sua classe social.


À vida em sociedade nem sempre correspondeu o respeito à vida enquanto valor inalienável e supremo. E vida, aqui encarada em seu sentido mais largo, pungente, belo, abrange as condições de trabalho, moradia, assistência aos que precisam, cuidados aos que se encontram em situação degradante e humilhante, promoção da pessoa em todos os sentidos.

Vivemos um momento especialmente dramático. As condições históricas nos encaminharam a dilemas universais, cujas conseqüências podem ser o armagedon, hecatombe sócio-bélica ou o Holocausto advindo da imersão de sociedades inteiras na miséria mais hedionda, resultado da exploração desses povos por nações mais poderosas e economicamente concupiscentes. A África é o exemplo mais clamoroso, ante o silêncio criminoso e omisso das grandes potências.
Se olharmos para trás, estendendo esse olhar às origens mais enevoadas do nosso gregarismo, veremos que o homem sempre esteve envolvido com enfrentamentos que resultaram em sacrifícios de vidas humanas, crueldades, morticínios. A par disso, a constituição das sociedade em classes contribuiu decisivamente para a formação de guetos, favelas, zonas de exclusão social, vivendo-se ali uma existência de privações e crueldades sociais inaceitáveis.

A Declaração dos Direitos do Homem é um documento que é moral em sua essência e ético em suas conseqüências. Diariamente, entretanto, é desrespeitado e muitos sucumbem em meio ao maremoto social mais repulsivo.

É preciso viver a vida em plenas condições de dignidade. E se não for dado ao homem a possibilidade de ser humano, que isso seja conseguido pela sua conscientização e progresso da democracia. Pela sua mobilização e movimento coletivo de protesto.

Não há mais como conviver com o escárnio das elites perante os desvalidos, com o cinismo dos poderosos em detrimento dos fracos, com o lamentoso pântano das injustiças, com a sufocação da decência, com o clamor dos inocentes. Não podemos mais nos dessangrar, bater, tripudiar. O Homem deve ter o destino da Paz.


ZOORÓSCOPO


CONDOR - São aqueles que pensam alto, lideram com firmeza e têm larga visão; são bons amigos, sérios e nunca faltam a quem deles precisa. Previsões: como pessoas raras, habitam um mundo truculento e cheio de abismos. Não raro, são vítimas de indignidades e traições. Devem ter cuidado com Lacrau, Cobra e Hiena.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Coisas de Jornal voltará a ser atualizado amanhã.
Emanoel Barreto

sábado, 6 de dezembro de 2008

Foto: Thaís Emy Ohata
De como resolver as coisas num país, calando-se a palavra
Emanoel Barreto

Tempos difíceis - As coisas no País não estavam nada boas. A inflação campeava, o desemprego crescia e a violência tornava-se institucional. As pessoas não agüentavam mais e cresciam os protestos proporcionalmente à ascensão do descalabro. Os partidos de oposição, minoritários, pouco ou quase nada podiam fazer.

Insatisfeito com as mobilizações, atos públicos, passeatas, gritos e manifestações do povo desesperado, o Governo fez aprovar uma lei: por ela, ficava determinado que cada pessoa teria um limite máximo de palavras em seu repertório. E quanto mais se falasse mal do governo, mais o estoque de palavras iria se acabando, até que todos ficariam mudos. Claro, quem falasse a favor, ganharia bônus e até aumentaria o vocabulário, passando até a conhecer termos sofisticados, já pensou?

Sim: depois de mudo, previa a lei, ninguém poderia se comunicar usando aquele sistema dos surdos-mudos, lembra? Era pena de morte na certa. Quem quisesse experimentar, que tentasse. Todos se curvaram.

E assim, a lei entrou em vigor logo depois de ser aprovada. Em menos de seis meses todo o povo estava mudo. Até os bandidos ficaram sem poder falar. Os bandidos não gostavam da ação da polícia, que mesmo corrompida os atacava. E como os bandidos reclamavam, ficaram também mudos. Resultado: ninguém escapou, até que afinal o Governo sentiu-se satisfeito.

Mas conseqüências não-programadas logo se fizeram ouvir: como a comunicação dos surdos-mudos estava proibida e somente os gestos básicos, esses que a gente faz para chamar alguém ou dar adeus, não conseguem uma comunicação muito eficiente, instalou-se o caos.

As fábricas pararam, os bancos deixaram de funcionar e escolas, hospitais, lojas enfim, tudo desmoronou. Os únicos lugares que ainda funcionavam eram bares, boates, motéis e bordéis, onde a voz não é essencial. Nos bares e etc, os músicos, impedidos de cantar, tocavam e isso garantia o público. Ou seja: somente em ambientes de baderna as coisas funcionavam bem.

O Governo então compreendeu que não poderia mais conviver com aquela situação. Todos bêbados e sem trabalhar. Prestes a chegar à bancarrota, o Governo decidiu: revogue-se a lei do silêncio. Todos poderão falar. Mas, de agora em diante, estarão impedidos de pensar.

ZOORÓSCOPO

TARTARUGA - Em matéria de preguiça são imbatíveis. Portanto, os prenúncios indicam que jamais chegarão a ganhar dinheiro, a não ser em loterias ou jogos de azar. No trabalho serão excelentes incapazes; na vida, eternos sonolentos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Eles querem matar a Amazônia
Emanoel Barreto

Veja só - A bancada ruralista tenta aprovar, com apoio do Ministério da Agricultura, proposta que libera a plantação de mudas de dendê na Amazônia e anistia todos os grandes agricultores que plantaram em áreas de preservação permamente até 31 de julho do ano passado.

A ação brutalizadora sobre a amazônia é reflexo do tipo da mentalidade que tem hegemonia nos patamares dirigentes da sociedade, seja do ponto de vista privado, seja da parte do Poder. Ou seja: uma compreensão estreita de que a natureza é um recurso, não um patrimônio da humanidade.

Nossa sociedade civil não é forte, é difusa e alienadiça, não tem porta-vozes suficientemente capazes de arregimentar a opinião pública para o crime de lesa-humanidade que está em curso. As conseqüências dessa ação predatória já se fazem funebremente sentir: aumento da temperatura, chuvas ácidas, degelo no pólo, destruição de rios e florestas.

Mentes voltadas somente para o capital e o lucro têm as rédeas do mundo e farão, sim, elas farão, do mundo um grande inferno. Lamentável, não?

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ZOORÓSCOPO

Beija-flor - É o zoosigno das mulheres belas, belíssimas; encantadoras fadas das mais lindas visões. Elas são alegres, sua presença reluz, tem tonalidades furta-cor nos cabelos e os olhos são meigos como a formosa dos cantares de Salomão. Mas, saibamos: podem ser, pela própria natureza do seu zoosigno, inconstantes, volúveis, voluntariosas. É um perigo uma mulher somente bela.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008


Cadeia para quem precisa de cadeia
Emanoel Barreto

A Folha informa - O ministro Tarso Genro (Justiça) comemorou nesta quarta-feira a decisão do Judiciário de condenar o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, a dez anos de prisão por corrupção ativa. Sem entrar no mérito da decisão, Tarso afirmou que o país vive um momento de "harmonia" entre as instituições, que cumprem suas funções, sem diferenciar os denunciados. "O Brasil não estava acostumado a ver figurões [condenados]. E aqui não estou julgando se ele é culpado ou não", disse.

Mas, em nota, a defesa de Dantas afirmou já ter pedido a anulação do julgamento e que as provas são "fraudadas".


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A decisão do juiz Fausto de Santis, é reveladora de sua postura de magistrado que age segundo o que dele espera a sociedade. É preciso que alguém neste país, alguém com poder decisório de punir as elites, tome a decisão, e a ponha em prática, de mandar para a cadeia criminosos ricos.

O processo deverá demorar ainda, como é comum, quando gente de colarinho branco está metida com a Justiça. Mas, de alguma maneira, aplaudo a ação do juiz de Sanctis.

O Brasil cultiva uma cultura solidamente afixada a uma estrutura: a de que figurões são virtualmente impuníveis. Essa impunidade se transforma em impunibilidade, ou seja: impunidade diz respeito a que alguém, mesmo devendo ser punido, não o é, pela negligência ou cumplicidade da autoridade; a impunibilidade, decorrência reiterada da impunidade, coloca como que acima da lei aquele que a infringiu repetidamente.

Seria assim uma imunidade social, uma espécie de salvo-conduto, decorrente do status do autor de crimes. O caldo de cultura que privilegia as elites até nesse ponto é algo infamante que precisa ser eliminado. É preciso, sim, pôr na cadeia todos os criminosos. Todos.

..ZOORÓSCOPO

Burro - Zoosigno predominante na população brasileira, nossas previsões são funestas: trabalharás a vida inteira, sofrerás nas filas e amargarás o fardo da pobreza, da dor, da fome, do temor pelo dia seguinte.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O lobo simpático e sua pele de cordeiro
Emanoel Barreto


Se o lobo tem pele de cordeiro, cara mansa, jeito meigo e cordial, tem calma, ó leigo viajante, que a fera não é feita de papel. Para fugir é preciso engenho e arte. Sutilezas de grande espertalhão.

Foge agora, quando ainda tens o tempo. Amanhã, estará a te atacar.E quando, por incauto, caíres na emboscada, lembra o conselho que antes te diziam: "É um lobo em pele de cordeiro." Mas será tarde, ó tolo desvairado. Os lobos, como ninguém, sabem ser os mais ternos e lindos cordeirinhos. E como mordem.

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...ZOORÓSCOPO

Abelha - Zoosigno das pessoas que são equilibradas: sabem trabalhar, mas também divertir-se, viajar. Podem parecer inconstantes, mas, na verdade, são apenas bastante ativos. Ou então, estão viajando. São corretos, prestativos, cumpridores de seus deveres. Mas, se são explorados ou ofendidos, ninguém se engane: o abelhinano sabe como ninguém se defender. Previsão de vida: saberão gozar das delícias do mel, pois trabalharam muito para ter esse direito.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

sábado, 29 de novembro de 2008

Os piratas e a crueldade dos civilizados
Emanoel Barreto


É lamentável - Os recentes episódios envolvendo piratas somális trazem às coisas de jornal a evocação de tempos nebulosos, nuvens do passado aventureiro, brumas e canhões. Tempos em que os galeões eram mina de ouro navegantes e os velejantes bandidos eram o terror dos mares.

Agora, todavia, temos uma realidade dramática, que o noticiário das coisas de jornal não aborda: a terrível e desumana condição do povo somáli, uma nação onde o Estado praticamente não mais existe e a sociedade se rege pelo terror e pela força sem controle. Brutalidade. E ali, a pirataria, como que num passe de mágica macabro, está de volta.

Não há dúvida de que o criminosos devem ser combatidos. Duramente. Mas o mundo não pode esquecer que eles são o indício de que todo um povo, historicamente explorado, agora está à deriva. A fome grassa descontroladamente, a criminalidade se impõe com desenvoltura; doenças, angústia e total descontrole assolam tudo por lá.

E o mundo ocidental, "civilizado" está de costas não apenas para a Somália, mas para a África como um todo. Os países africanos não têm importância geopolítica e, assim, aqueles negrinhos devem ser deixados à sua própria sorte. Ou azar.

A África é um grande clamor a céu acerto. A África é um mergulho no inferno. Seus piratas são, nada mais, nada menos, que a folha-corrida da injustiça, da degradação que ali foi implantada pelas grandes potências coloniais, que agora lhes dão o esquecimento e o estupor. Nem Barba Negra teria praticado tanta estupidez.

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ZOORÓSCOPO

PULGA - Cara ou caro consulente: se você tem uma incontrolável tendência a aferrar-se às pessoas, ficar insistindo em coisinhas miúdas, medíocres, piadinhas que humilham e enojam, discutir trivialidades como se fosse coisas importantes e gosta, mas gosta messo de ferir, fincar-se em alguém, esteja certa ou certo: você é de Pulga, com ascendente em Carrapato. Faça um exame de consciência e, se possível, evolua. Quem sabe, poderá migrar de casa zooastrológica e chegar a ser de Beija-Flor.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Quando a guerra é santa, quem vence é o diabo
Emanoel Barreto
É isso - Os acontecimentos na Índia mostram o quanto o fundamentalismo pode levar o mundo a atitudes de loucura, Não é o primeiro nem será o último perpetrado por terroristas islâmicos, certos de que estão em guerra santa contra o Ocidente.

A rigor, matar em nome de Deus é algo tão velho quanto a própria humanidade. Os povos antigos atiravam-se a guerras de conquistas e uma das conseqüências de domínio sobre outros povos era o banimento dos deuses dos vencidos.

As Cruzadas não tinham por propósito "libertar das mãos dos infiéis a Terra Santa"? Pra você ver...

O fundamentalismo diversificado, a servidão a deuses tão loucos quanto seus adoradores, são uma marca dos nossos tempos. Por exemplo: a crise monetária que está corroendo as grandes economias resultou, não tenho dúvida, da adoração de fundamentalistas financeiros ao deus dinheiro.

Sua adoração, com o vende-que-vende de papéis que não valiam nada, acabou na crise. E o ídolo dos pés de barro, o mercado, mostrou-se um deus miserável e indigno; e atirou seus adoradores ao abismo.

Na verdade, não é bem assim: os adoradores, que são os banqueiros, vão se dar vem, já estão se dando. O inferno do deus dinheiro ficará para a sociedade. E assim, de loucura em loucura, caminhamos. E a cada tiro, explosão ou medo, a serenidade continua ao deus-dará.

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ZOORÓSCOPO

POMBO - Pessoas sociáveis, amáveis, gostam de fazer amigos e participar de grandes grupos, como fazem os pombos nas praças. São prestativos como os pombos-correio e necessários como a pomba da paz. O problema é que os nascidos em Falcão, ou pior, Abutre, os perseguem sem trégua. Um conselho: se você é de Pombo, reúna-se a quem seja de Andorinha ou Golfinho e, neste fim de semana, seja muito feliz.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Me dá um dinheiro aí!
Emanoel Barreto

Para meditar - Não existe o bom médico, o bom engenheiro, o bom advogado, etc... etc... etc...? Pois bem, existe também o bom ladrão. Os estudos sociológicos mais recentes informam essa nova tendência e em Oxford, Cambridge e Coimbra, diligentes estudiosos debruçam-se sobre tal tema com a dedicação de sábios e diligentes doutores.

Ao que fui informado, o bom ladrão deve inscrever-se no perfil abaixo. Quanto mais próximo do padrão, maior sua qualificação, destreza, apuro técnico, confiabilidade, presteza e, veja só, ética. Já pensou, um ladrão ético? Isso é bom, muito bom. Abaixo, veremos porquê.

Agora, os tópicos que definem um bom ladrão:
Agilidade: o bom ladrão, especialmente se for batedor de carteira, deve ser rápido, imperceptível e apoderar-se da bolsa sem que a vítima perceba. Agindo assim, terá menos chances de ser notado e preso e, melhor, a vítima não ficará traumatizada por uma ação contundente. Só depois perceberá o furto e agradecerá aos céus por não ter sido espancada.

Objetividade: tem objetividade o ladrão que, sendo assaltante, não usa de meios termos e surpreende seu alvo de forma clara, precisa e, em alto e bom som, anuncia: "Assalto!". Isso assegura que a ação será rápida, reduzindo em muito a possibilidade de agressão. Bom para o assaltado, que logo, logo, se verá livre da situação.

Frieza: pode ser medida pelo domínio que o ladrão tenha da situação. Deve ser considerado frio aquele que a despeito do perigo de ser capturado auxilia sua vítima e orienta como deve agir. Podem ser encontrados entre os que atacam motoristas em sinal de trânsito e dizem: "Passa a carteira! Mas, devagar, que o sinal ainda demora a abrir..."

Confiabilidade: decorrência imediata da frieza, é confiável o ladrão que age segundo aquele padrão e, portanto, deixa implícito ao assaltado que ele não será molestado, desde que (o desde que é importantíssimo!) aja segundo o que determina o profissional.

Ética: é ético o ladrão que jamais assalta outro ladrão ou não maltrata os infelizes que, circunstancialmente, mantenha em cativeiro após seqüestro. É essencial que, nesse caso, liberte o aprisionado após receber o resgate.

Seriedade: sério é todo ladrão que, estando em conluio com policiais, repasse a estes aquilo que foi acertado. Afinal, trata-se de uma organização. E, como hoje todas as empresas, portanto organizações, se apresentam como "tendo uma missão" o crime organizado também precisa de uma missão, qual seja: trabalhar ininterruptamente para manter os policiais honestos em ação. Caso desapareçam os ladrões, a polícia deixa de ser necessária. Portanto, um bom ladrão precisa continuar trabalhando, a fim de assegurar o emprego desses funcionários públicos armados. Em conseqüência, também terão empregabilidade garantida juízes, promotores, serventuários da justiça, carcereiros, pedreiros que trabalham na construção de presídios, engenheiros que projetam os presídios e empregados de fábricas que produzem armas. A continuar, a lista seria praticamente interminável.

Como vimos, do aperfeiçoamento dessa inestimável categoria profissional depende muito o bom funcionamento da sociedade como um todo. Afinal, uma esperança de luz no fim do túnel, quando eu já pensava que tudo estava perdido. Se encontrar um bom ladrão, dê-lhe os parabéns e, se for o caso, até mesmo uma goa gorjeta.

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ZOORÓSCOPO

Pavão - São aquelas ou aqueles que se julgam os maiorais. Se homens, são metrossexuais, meticulosos, pernósticos, abusados. Se mulheres, gastam fortunas com perfume, roupas de grife, futilidades. Em ambos os casos, têm o destino dos fogos de artifício: brilham muito por poucos instantes e depois ninguém sabe aonde foram parar. São facilmente encontráveis nas fotos de colunas sociais. Nascidas ou nascidos em formiga, não devem com aqueles manter vínculo demorado.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A aranha que vai salvar o mundo

Emanoel Barreto
A Folha informa: Parece que os atuais moradores da ISS (Estação Espacial Internacional) perderam um convidado para a festa de dez anos do projeto. A cerca de 350 quilômetros da Terra, os astronautas não sabem onde uma aranha foi parar.

No alto, à direita, uma das aranhas que foram enviadas para a Estação Espacial Internacional como parte de uma experiência.

Dois aracnídeos foram mandados para o laboratório da ISS pela Endeavour, há cerca de dez dias, para experimentos científicos. Mas um deles desapareceu.

O sumiço foi notado quando astronautas abriram o recipiente em que a aranha deveria estar, informa o "The Times". Segundo funcionários da Nasa, a aranha não está perdida, apenas "não pôde ser encontrada".

"Não acreditamos que ela tenha deixado o módulo", disse Kirk Shireman, da Nasa, ao jornal. "Estou certo de que a encontraremos nos próximos dias."

A equipe que está na ISS suspeita que a aranha esteja junto da outra, no recipiente vizinho --que ficou repleto de uma densa teia, provavelmente construída como proteção devido à confusão da aranha com a gravidade zero.

Sally Magnus, uma das oficiais da missão, destacou que a estrutura criada pelo animal é diferente da que ele fazia em terra. "A teia formada é mais ou menos tridimensional e toma todo o recipiente da aranha", disse. Os controladores em Houston descreveram a estrutura como "uma teia complicada e desorganizada".
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Questão de alta indagação - Com certeza, não há com o que nos preocuparmos. Sem dúvida, a aranha deve estar, nesse momento, oculta em algum canto, absorta em profundos pensamentos sobre como salvar a Terra.
O negócio foi o seguinte, informou-me um cientista amigo: deslumbrada com a gravidade zero, certamente medita em como trazê-la para cá. Imagine: com a Terra sem gravidade, acabarão todos os problemas, pois todos serão reduzidos a... gravidade zero. E, quando algo não tem gravidade, não tem problema, pois todo problema tem algum tipo de gravidade. É só uma questão de implicação, percebe?
Assim, essa bondosa aranha, ao trazer a gravidade zero, aliviará o peso na consciência de todos os culpados, vilões, mandriões e escroques. Sem culpa, todos serão bons e trabalharão pelo bem-comum. Isso desencadeará um círculo virtuoso o qual, por sua vez, elevará os bons pensamentos, hoje presos ao chão por nossa velha e pesada gravidade. É isso: um pequeno passo para a aranha, um grande salto para a humanidade.
...ZOORÓSCOPO
Galinha - É preciso entender, galiniano amigo, que o mundo não é só o seu terreiro, poleiro, milho. O mundo, vasto mundo, é composto também por gaviões, carcarás, cobras e lagartos. Quem nasce em Galinha é pacífico, meio bobo, prestativo.Sua ingenuidade poderá levá-lo ao alçapão e daí à panela.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O luxo não está nem aí para a crise
Emanoel Barreto
Deu na Folha - Os dois maiores centros de comércio de luxo do país, a Daslu e o shopping Iguatemi, prevêem desaceleração de consumo no ano que vem como conseqüência dos desdobramentos da crise financeira mundial.

A Daslu planeja trabalhar com estoques mais baixos, reduzir a oferta de importados e se concentrar nos produtos com mais saída. Já o presidente do grupo que controla o Iguatemi diz que em um primeiro momento o setor sai beneficiado pela crise, com a troca de despesas de longo prazo pelas de médio e curto, e pretende atrair clientes com grifes cobiçadas no país.

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O que a Daslu e o Iguatemi não previram, nem lhes interessava, foi a redução da oferta de empregos ao mundo, aos habitantes do mundo real, que a jogada malandra dos banqueiros americanos provocou. Mas, para eles, tudo, parece, está de ajustando. E, no fim, cada coisa estará no seu lugar.

É chocante como as elites atuam: seu cinismo sádico e devorador, comprador, adquirente, parece não levar em conta que a vida não se resume a seu nicho de mercado, estreito e privilegiado. As elites parecem não entender que, para manter sua usura, preguiça e improdutividade, milhões têm que trabalhar em todo o mundo. Muitos sofrem para que uma madame use seu diamante.

Aos pobres, aos muitos pobres, cabe o exercício do subemprego, da venda de produtos baratos, até mesmo de lixo, que, para eles, é, ironia, luxo: a única coisa que conseguiram fazer na vida, para se tornar necessários. E o fazem com tanta dignidade, tanto empenho e senso de dever, que tornam-se exemplo, merecem respeito e, de fato, se fazem respeitar.

..ZOORÓSCOPO
POLVO - É aquela pessoa pegajosa, que cola, gruda em você. É invejosa, má e sempre tem tentáculos espalhados. De tal forma, que sempre estarão pegando no seu pé. Podem ser vistas em todos os ambientes, desde reuniões familiares, até os mais altos escalões de empresas, públicas ou privadas. O polvolino é rápido, desloca-se com facilidade por todos os ambientes, e ninguém melhor que ele para espalhar uma fofoca. Mas são covardes e, com sua grande habilidade em se esconder, fogem, sempre que são confrontados. Homens nascidos em Tigre não devem se meter com mulheres em Polvo.

domingo, 23 de novembro de 2008

A moça tão bonita e o belo gato azul
Emanoel Barreto

O domingo era belo por inteiro.
Só faltava uma moça e um gato azul.
E de tanto chegarem reluzentes.
Fizeram o mundo ser melhor.
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..Zooróscopo
Formiga - Zoosigno que predomina entre os trabalhadores, o formiguiano é diligente, ativo, prestativo, obediente, cumpridor de horários, de regras, respeita as leis e paga suas dívidas. Sem dúvida, pelo seu próprio fazer, o formiguiano sempre é levado para o buraco pelos nascidos em Tubarão e Onça, zoosignos dos sabidões e quejandos. Mulheres nascidas em Pavão, que desejem ter uma vida de perfume e prazer, não devem jamais se casar com homens de Formiga. Serão levadas ao mais atroz desespero e acabarão completamente loucas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Inferno Verde e sua folhagem de dor
Emanoel Barreto

As coisas de jornal da Folha informam: A floresta amazônica deixará de existir se mais 30% dela forem destruídos. A afirmação foi feita ontem em Manaus, durante a conferência científica Amazônia em Perspectiva."O número agora está consolidado. Se 50% de toda a Amazônia for desmatada, um novo estado de equilíbrio vai existir no bioma", afirma Gilvan Sampaio, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Hoje, aproximadamente 20% de toda a floresta amazônica, que tem mais de 8 milhões de quilômetros quadrados, já sumiram "No Brasil, esse número está ao redor de 17%."E pode chegar aos 50% até o meio do século. Um estudo de 2006 da Universidade Federal de Minas Gerais prevê que, se o ritmo do corte raso continuar, quase metade da floresta que sobra hoje, tombará até 2050.

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O relacionamento do homem com a natureza nos encaminha a passos largos para uma hecatombe. Trata-se de uma ação predatória, insana e voltada para a exploração de tudo o que for possível: árvores, animais, rios, metais preciosos.

O que deveria ser um estado de espírito, um ato reverencial frente às forças naturais, convivência pacífica do homem com o seu meio, torna-se uma ação de barbárie, um ato coletivo de incivilidade e desrespeito.

Nossa civilização pautou-se historicamente pela visão da natureza como "recurso natural", ou seja: um patrimônio a ser utilizado economicamente, sem levar-se em conta que somos parte desse meio; e se o destruímos, destruimo-nos conseqüentemente.

Os governos, as grandes corporações empresariais, não têm qualquer atitude ética perante o planeta. A beleza natural não inspira comportamentos voltados para que a presença do animal homem se ajuste ao delicado sistema que somente agride. E o que vemos, no final, é um ato invasivo, cruel e danoso. E que se dane a Vida, o Bem, o grandioso instante de reverência à selva e todos os seus habitantes.

..ZOORÓSCOPO

Crocodilo - Os nascidos sob esse zoosigno são espertalhões. Têm ascendente em Tubarão e sabem como ninguém postar-se nas águas calmas da preguiça, somente com os olhos de fora, para atacar no momento exato. São encontradiços especialmente às margens de rios e lagos governamentais, de onde retiram sua dieta: dinheiro fraudado. Recomenda-se a mulheres nascidas sob Beija-Flor a não contrair matrimônio com homens em Crocodilo. Conselho: prezado crocodiliano, se em suas investidas der de cara com gente de Dragão, faça meia volta: já entrou na disputa perdendo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Nem adianta flauta: no fim, o rato sempre vence
Emanoel Barreto
Ironias da vida: A cidade de Hamelin, no norte da Alemanha, poderá precisar novamente dos serviços do lendário flautista para afastar uma nova infestação de ratos.

O problema agora se concentra em um lote de terra abandonado nos limites da cidade que se transformou no foco da infestação, com ratos passeando por alimentos jogados fora e pelo lixo que está no local.

Ao invés de atrair os ratos para o rio da cidade com música, como o flautista teria feito segundo a lenda, as autoridades municipais pretendem colocar armadilhas em volta do lote abandonado.

Segundo a lenda, em 1284 a cidade de Hamelin foi invadida por ratos, mas um flautista os atraiu com sua música para o rio. O flautista também teria atraído para o rio as crianças da cidade, pois a cidade não pagou pelo serviço.

Em 2009, a cidade planeja marcar o 725º aniversário da lenda do flautista de Hamelin com vários eventos, incluindo um grande desfile de crianças pelas ruas da cidade. (informação da BBC-Brasil)
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No Brasil, assim como em Hamelin, também estamos com falta de flautistas. Nossa orquestra da moralidade está desafinada e ratos de todos os tamanhos rondam, penetram, roem, fazem túneis e sempre dão um jeito de chegar aos cofres públicos.
Espertos, esses ratos. Quando um deles cai na ratoeira, é tão rico que consegue torcer, ou distorcer a realidade de suas ações funestas, que chega a se apresentar como vítima. E o policial que o prendeu, esse passa a ser visto como o criminoso.
Este país sofre com uma histórica e vasta epidemia de ratos. São falazes, alguns são cultos, vestem-se com roupas de grife, têm sempre planos ousados para surrupiar verbas e têm muitos, mas muitos contatos no Poder. Às vezes, até fazem parte dele. É..., são ratos respeitáveis.
Soube que, certa vez, alguém tentou contratar o flautista para erradicar a ratunagem no Brasil. Foi infeliz: o músico já havia sido subornado pelos ratos. E aí, dizem as lendas, aproximou-se do pobre sujeito que o havia chamado e tocou a flauta, tão linda e docemente, que o homem ficou enfeitiçado.
E de tal maneira foi alumbrado, que assinou papéis em branco. O flautista foi embora. Passado o encantamento, o homem voltou a si: tinha perdido tudo. Com os papéis assinados, os ratos foram a cartório e passaram todas as propriedades do homem para eles.
Desesperado, o homem tornou-se o primeiro sem-teto deste país. E hoje, quando tenta provar que ratos tomaram tudo o que ele tinha, é tido como louco. "Como é que um rato pode roubar um homem?", é o que lhe perguntam
Soube que ontem, depois de um ataque de nervos tentando provar que fora roubado por ratos, foi internado. Atacou um médico e meteram-lhe uma camisa-de-força. Moral da história: jamais desafie um rato...
..Zooróscopo
Tubarão - Os nascidos em Tubarão são gananciosos, astutos e sabem como ninguém agir em proveito próprio. É signo fartamente encontrado entre políticos, empresários inescrupulosos e até mesmo em funcionários de baixo escalão. Seu salário chama-se propina, comissão ou "por fora". Seus bancos trabalham com o caixa dois e jamais fecham para balanço.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008


Luzes de mentira

Emanoel Barreto

Eles querem ver você feliz com o décimo-terceiro. Eles querem ver você contente gastando, sentindo-se alegre, de uma alegria saltitante e súbita. E tão forte e contagiante, que você fica a se perguntar: "Mas por que, de repente, todas a lojas ficaram tão boazinhas, lembrando que somos irmãos e devemos festejar essa fraternidade?"

É porque Eles, viu bem?, Eles querem que todos estejamos contaminados pelo espírito do Natal, na verdade um velho e rabugento fantasma que gosta de amealhar alegrias artificiais, que transforma em lucro; efusão em todas as lojas de departamento, o que Eles chamam de aquecimento de mercado.

Há toda uma farsa em andamento. Um mundo em crise porque alguns banqueiros americanos perderam o controle sobre sua ganância e, enlouquecidos como tios patinhas, queriam porque queriam ganhar rios de dinheiro sem produzir nada. Deu no que deu.

Mas, é isso: assim caminha a humanidade. Malignos e corruptos berram dizendo que todos devem ser felizes. Sim, desde que deixem dinheiro, e muito, nas mãos do velho e avaro fantasma que acende nas ruas luzes de mentira.

terça-feira, 18 de novembro de 2008


Coisas de Jornal será atualizado amanhã.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O olhar, o velho e o seu tempo
Emanoel Barreto

No olhar, o tempo paralítico.
Na vida, o homem se perdeu
Desbotado num canto do passado.

Para ele, uma vida cancelada.
Numa vida, a visão despedaçada.
Seu caminho desceu lento, inexorável.

E depois, seu depois foi todo ontem.
E em torno dessa reta re-tornou.
E tornou-se tanto, tanto pesaroso,
Que sequer se quer se relembrar.

sábado, 15 de novembro de 2008




Ele queria liberdade; a família, dinheiro
Emanoel Barreto

Tornou-se bastante comum a utilização, pelo establishment, da memória de pessoas que lhes foram contestatárias, em proveito ideológico ou econômico do próprio sistema. O caso mais evidente é Guevara, na foto imortal de Alberto Korda, em 5 de março de 1960, Cuba. A reprodução que você vê acima é da foto original, da qual foi realçada unicamente a imagem de Guevara, excluindo-se a figura do homem a seu lado.
O guerrilheiro teve a imagem ampliada, ganhou discursividade visual, tornou-se penetrante, enigmática, desafiadora às interpretações. Expressa uma grandeza humana e trágica, um destino brotado na alma e palmilhado à força da coragem e doação. Guevara, o olhar perdido, encarnando o mito rebelde. O comandante traz um semblante crístico, revestido de aura heroicizada; o homem cara a cara com os desafios de sua existência e da sina de existir e combater - paixão.
Hoje, essa foto pode ser vista em milhares de camisetas e posters em todo o mundo. Como já se distancia no tempo sua epopéia guerrilheira, muitos não sabem exatamente quem foi, o que fez, como se desenrolou o seu calvário. Mas, mesmo assim, jovens o vestem como uma figura enigmática; vestígio de algo que não compreendem, mas, maquinalmente, cultuam; é moda, é fashion. Rende lucro a tudo o que ele combateu.
Quanto à outra foto, a de Martin Luther King, diga-se: ele, que foi um lutador pelos direitos civis dos negros americanos, certamente estaria cabisbaixo e meditando a respeito do que os seus familiares estão fazendo: como muitas fotos suas estão sendo estampadas em buttons e camisetas pelos Estados Unidos, ao lado de fotos de Obama, seus filhos, ao invés de verem nisso uma reverência à figura histórica do pai, reclamam: querem direitos de herança sobre a sua imagem, literalmente direitos autorais, querem... dinheiro.
É sempre assim: pessoas exponenciais, revolucionárias, são transformadas em ícones de causas que historicamente já não mais se postam e não mais ameaçam o sistema. Isso se dá porque os objetivos de tais causas ou foram alcançadas, como é o caso dos direitos civis dos negros, ou não mais se justificam, como é a questão de Guevara, uma vez que a questão da luta pelos direitos dos oprimidos se faz por outras vias que não a da luta armada.
Assim, esses vultos são anexados, indexados aos valores da sociedade de mercado e de consumo, e passam a ser vendidas fotos ou outras representações suas, estimulando os apetites até mesmo de quem lhes deve respeito, como é o caso dos familiares de King.
Mas é assim mesmo: o que é transgressão hoje, passa amanhã a ser algo institucionalizado, rende lucros, dividendos e ganância remunerada de quem sabe com isso lidar.
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República e Liberdade Walter Medeiros
O auditório do Centro de Convenções de Natal repleto de advogados e convidados, todos de pé aplaudindo emocionadamente. No ar uma mensagem ecoava alvissareiramente; o Estado Brasileiro acabara de pedir desculpas pelo que foi feito ao cidadão perseguido número um na ditadura militar. E nos telões espalhados naquele imenso salão uma voz latina cantava em tom de bravura, enquanto eram exibidas imagens através das quais a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça homenageava o ex-presidente Jango.
Bela forma de comemorar o aniversário da Proclamação da República. Era o evento que precedia o encerramento da XX Conferência Nacional dos Advogados do Brasil, uma reunião da Comissão de Anistia com a presença do Ministro da Justiça, o Presidente do Congresso Nacional, o Presidente da Câmara dos Deputados, a Governadora do Rio Grande do Norte e o Prefeito de Natal, cidade tão presente nas lutas libertárias. A Caravana da Anistia fazia-se presente agora entre advogados, depois de passar por momentos importantes na ABI, UNE e CNBB, entre outras entidades.
Momento histórico, uma aula prática de História do Brasil. João Belchior Marques Goulart e Maria Tereza Fontella Goulart seriam anistiados na forma do conceito de Justiça da Transição, que subentende a idéia da verdade, a reparação do Estado pelas perseguições e injustiças, aplicação do princípio da justiça e reforma das instituições, tudo através da incorporação dos valores dos Direitos Humanos e da Democracia.
O processo de anistia de Jango registra as marcas do seu governo, destacadamente as reformas de base e o fortalecimento das empresas nacionais. Mostra que ele foi deposto e banido, tendo de deixar o país de forma precária e arriscada, com a mulher e dois filhos menores. E propõe a reparação pelo que ele passou no exílio, vivendo no Uruguai e na Argentina. O requerimento foi acatado pelo relator, conselheiro Egmar José de Oliveira e a anistia concedida por unanimidade.
Ao proclamar o resultado do julgamento, o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão asseverou que “valor nenhum paga a dor e o sofrimento do cidadão banido”. Recebeu aplausos demorados de uma platéia que viu em seguida o Ministro Tarso Genro formalizar o pedido de desculpas no qual o Estado Brasileiro reconhece os erros do passado perante a família de Jango, diante do seu neto Christopher Goulart, de 32 anos, também advogado. “Um dia dos mais importantes para a nossa história”, considerou o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Cezar Britto.
Naquele auditório encontravam-se pessoas emocionadas, olhos marcados pelo fato vivo, que as remetia ao passado de arbítrio, deportações, banimentos, perseguições, prisões, tortura, demissões. Um passado de incertezas para quem lutava pelas liberdades democráticas e pelo Estado de Direito. Um passado que mudou pela violência o rumo da vida de tantos brasileiros. Um passado, segundo o documentário da Comissão de Anistia, para não esquecer, um passado para nunca se repetir. Um passado no qual era proibido cantar o Hino da República, porque nele é feito o apelo maior: “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Xuxa, estranha Xuxa
Emanoel Barreto
Xuxa está movendo ação em que cobra à Band indenização de cinco milhões, alegando danos morais pelo fato de que a emissora veiculou imagens dela nua no programa "Atualíssima". As imagens fazem parte de ensaio fotográfico da época em que ela posava para revistas masculinas.
A Band recorreu e a Justiça acatou pedido da TV para que ela se submeta a exame psicológico, a fim de constatar se, realmente, ficou tão abalada como afirma na ação. Ela pode negar-se a fazer os exames.
A foto acima é de cena do filme "Amor, estranho amor", produção de 1982 do cineasta Walter Hugo Khoury, onde Xuxa contracena com um menino. Xuxa, há tempos, conseguiu na Justiça que a fita não mais seja exibida. No mercado pirata de DVDs, entretanto, é possível encontrar cópias da produção, bem como no You Tube.
É estranho esse comportamento: ela efetivamente participou de produções eróticas (cinema e revista), até encontrar o filão do mercado infantil, projetando-se como a "Rainha dos Baixinhos". Não há como renegar o seu passado, fugir do que fez, até mesmo pelo fato de que isso não prejudicou sua ascensão em seu atual segmento de mercado.
Agora, quando isso é mencionado, ela se apresenta como vítima. Xuxa encarna com perfeição a hipocrisia: busca encarnar a figura de alguém que as crianças idealizam como sendo angelical, quando na verdade é apenas um ente de mercado, um produto que vende outros produtos, com a marca Xuxa.
Há tempos deu entrevista a Amaury Jr., quando disse que, no filme, seu personagem ganhou preeminência sobre os de Vera Fischer e Tarcício Meira, atores principais. Reclama disso, sem razão. Os dois atores não fogem de sua atuação no filme, jamais reclamaram de sua exibição.
Ora, se ela não era a personagem principal, por que reclamar? O problema é unicamente de mercado: ela não quer mesclar seu passado com seu presente. Mas, se ela não mais participa de produções eróticas, por que a preocupação? O que foi feito, foi feito; passou, acabou.
Estranha, essa Xuxa: renega seu passado de ninfa, sua cena libidinosa com um menino, enquanto manipula milhões de crianças para quem comprem seus produtos. Xuxa, estranha Xuxa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Mãos ao alto, cidadão!
Emanoel Barreto
A polícia civil de São Paulo encerrou greve que já durava 59 dias. Uma cidade como aquela, complexa, violenta como um tornado, perigosa como um escorpião, deixada de lado por uma categoria que trabalha com serviço essencial.
São compreensíveis os motivos, mas inaceitáveis os procedimentos para a obtenção de reajuste salarial. O Estado precisa e deve acionar mecanismos de reajuste aos policiais; sem trocadilhos, uma espécie de gatilho salarial justo sério, disparado sempre e quando a categoria reivindicar.
Seria algo como uma mesa de negociação permanente, dialogando com a categoria e sensibilizando-se com seus reclamos. Não seria uma sucumbência prévia do Estado perante a sua Força. Não, mas uma atitude de bom senso, frente às características salariais das polícias civil e militar.
O que não se pode admitir é que uma categoria funcional armada entre em estado de greve, permitindo que criminosos de todos os tipos venham a agir com impunidade e desenvoltura.
Mas este país é assim: juiz faz greve, promotor faz greve e, no fim, obtêm, com a criação de um estado de coisas descontrolado, aquilo que pretendem. Quando os policiais fazem greve, quem fica de mãos ao alto é a sociedade.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008


Acaba a guerra do Iraque
Emanoel Barreto

Ativistas de um grupo auto-intitulado Yes Man, distribuíram hoje, em Nova Iorque e Los Angeles, uma edição falsa do New York Times. Nada menos que 1,5 milhão de exemplares, mesma tiragem do jornal.

O título é impactante, diz: "Acaba a guerra do Iraque". O jornal vem com a data de 4 de julho de 2009 e traz notícias indicando que o Tesouro anuncia um plano justo de impostos, a revogação do Ato Patriota e, pasme, George W. Bush sendo julgado como autor de crimes de guerra.

Quatro de julho é o dia da independência dos Estados Unidos. O Ato Patriota "é uma lei dos Estados Unidos que foi aprovada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Seus objetivos são reforçar a segurança interna e aumentar os poderes das agências de cumprimento da lei para identificar e parar os terroristas. A aprovação e a renovação do Ato Patriota foram extremamente controversas", é o que explica o site "Como tudo funciona".

Quanto aos impostos e a Bush, é óbvio: não há mais quem agüente a ação de um Estado que taxa seus cidadãos com voracidade, nem um presidente como aquele.

O ato é uma manifestação de que parcela da sociedade civil está atenta e tem condições, sim, de manifestar seu descontentamento ante o cinismo e a hipocrisia de um sistema de poder voltado para a impiedade e a barbárie.

A história não se repete, mas irrupções de rebeldia e insatisfação brotam sempre e quanto as circunstâncias de poder chegam a limites do inaceitável. Vivemos este dilema hoje: interesses das grandes corporações mesclam-se com decisões de Estado, promovendo guerras e devastação ambiental, insegurança e horror.

As sociedades convivem com o fenômeno do banditismo, comércio ilegal de armas como nunca se viu e com o crime organizado, especialmente em torno das drogas. O protesto do Yes Man deve ser levado em conta. É um grito que deverá tornar-se suficientemente forte para atrair para seu lado outras vozes e outros clamores.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cansados e feridos
Emanoel Barreto

Nesta terça, o presidente-eleito Barack Obama fez uma parada em seu trabalho com a equipe de transição para prestar homenagens aos soldados americanos mortos, feridos ou mutilados nas muitas guerras que o país protagonizou ou leva adiante.

É que hoje, nos EUA, é o Dia do Veterano. Ou seja: um ser humano que, sob o lema de amor à pátria-mãe, é levado literalmente a carregar armas e bagagens e atirar-se a lutas onde a crueldade é norma básica e a desumanidade linha mestra. Depois, voltando para casa, é um homem ou mulher destroçado física e emocionalmente.

Como compensação é chamado de herói, defensor da pátria, guerreiro que retorna ao lar...

É esse o legado, a herança maldita das guerras, de todas as guerras: envolver pessoas em conflitos que somente atendem aos interesses das elites, sob o véu de que estarão defendendo relevante valor moral. Quando as guerras são, em essência, imorais, uma degenesrescência histórica, uma contra-mão no processo civilizatório.

Quanto aos americanos, a ideologia que os norteia vale-se de um patriotismo tornado socialmente genético e a partir daí alastram, cobertos pela artilharia do terror, o sangue, a brutalidade, o morticínio.

Ao final, o ser humano, solitário em sua condição de mutilado ou emocionalmente desfeito, volta ao silêncio de sua vida, às indagações sobre o seu sofrimento em campo de batalha, e se queda em meio aos demônios que foi levado a cultivar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Coisas de Jornal voltará a ser atualizado amanhã.
Emanoel Barreto