"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sábado, 29 de maio de 2010
Hopper, à esquerda da foto, Fonda e, quase oculto, Nicholson. (Divulgação)
Good Bye, Dennis Hopper
Emanoel Barreto
Morreu hoje o ator Dennis Hopper, que os da minha geração lembram como o motorider que corria as estradas dos Estados Unidos ao lado de Peter Fonda e Jack Nicholson no clássico Easy Rider, 1969. Então, o sonho estava acabando e nós não percebíamos. A onda de protestos que varria o mundo dava a todos os jovens a ideia de que havia algo de internacional, melhor dizendo universal, à condição de jovem. Ou seja: havia o ingênuo consenso de que todos nós éramos jovens, ao invés de estarmos passageiramente jovens.
A ilusão do ser jovem, aliada à também fantasiosa circunstância de que o mundo juvenil era o mundo mesmo, uma espécie de mundo à parte daquele outro mundo, o mundo dos velhos, se completava e nos unia a partir dos Estados Unidos, de onde o vagalhão de protestos contra o status quo irmanava a polifonia de rebeldia na verdade infante.
E a juventude se transformava em causa, e aqui havia mesmo uma canção de Marcos e Paulo César Valle que dizia "Não confie em ninguém com mais de 30 anos". Em Paris, Daniel Cohn-Bendit proclamava, em 1968, no grande motim de maio: "Seja realista: peça o impossível". E todos queríamos esse maravilhoso impossível, esse não-sei-quê que, mesmo antes de nós, havia iluminado, por exemplo, Proust em sua busca pelo tempo perdido.
Mas, era de Hopper que falava. Trabalhou em mais de 200 produções em TV e cinema. Agora, um velhinho, ele se foi, partiu. E nós, os que ocasionalmente ficamos, estamos, proustianamente, em busca do tempo perdido. Good Bye, Dennis Hopper, os que ainda estão e ainda vão morrer te saúdam.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
http://arrastao.weblog.com.pt/arquivo/burning-n05.jpg
O refúgio dos canalhas
Emanoel Barreto
Diz a Folha: Além da cúpula tucana, empresários paulistas ligados ao pré-candidato José Serra querem tentar convencer o ex-governador Aécio Neves a desistir da candidatura ao Senado e ser o vice na chapa do PSDB à Presidência.
Em conversas reservadas, empresários disseram que vão enviar recados ao ex-governador mineiro sobre a "importância" de ele aceitar o convite para formar chapa puro-sangue com Serra.
Alguns chegam a dizer que seria "falta de patriotismo" de Aécio não sair candidato a vice, principalmente num momento em que a candidatura precisa de fôlego novo.
........
A Pátria é sempre lembrada quando os dominantes se sentem em perigo. A Pátria é o elemento invisível, imponderável, inefável, o soluto social usado ocasionalmente para tornar equiparadas, por hipóstase, as classes sociais. Sempre que se quer mandar um trabalhador para a guerra ele está "a serviço da pátria".
O que os empresários querem dizer, na verdade, é que Aécio está traindo não a Pátria, mas os sacros interesses do lucro e do mercado que o PSDB representa. A Pátria entra, fetichizada, como elemento de valor universal para o apassivamento espetacular das lutas de classe.
É quando lembro de Samuel Johnson, dizendo ainda no Século 18: "A pátria é o último refúgio dos canalhas."
Tinha toda razão.
O refúgio dos canalhas
Emanoel Barreto
Diz a Folha: Além da cúpula tucana, empresários paulistas ligados ao pré-candidato José Serra querem tentar convencer o ex-governador Aécio Neves a desistir da candidatura ao Senado e ser o vice na chapa do PSDB à Presidência.
Em conversas reservadas, empresários disseram que vão enviar recados ao ex-governador mineiro sobre a "importância" de ele aceitar o convite para formar chapa puro-sangue com Serra.
Alguns chegam a dizer que seria "falta de patriotismo" de Aécio não sair candidato a vice, principalmente num momento em que a candidatura precisa de fôlego novo.
........
A Pátria é sempre lembrada quando os dominantes se sentem em perigo. A Pátria é o elemento invisível, imponderável, inefável, o soluto social usado ocasionalmente para tornar equiparadas, por hipóstase, as classes sociais. Sempre que se quer mandar um trabalhador para a guerra ele está "a serviço da pátria".
O que os empresários querem dizer, na verdade, é que Aécio está traindo não a Pátria, mas os sacros interesses do lucro e do mercado que o PSDB representa. A Pátria entra, fetichizada, como elemento de valor universal para o apassivamento espetacular das lutas de classe.
É quando lembro de Samuel Johnson, dizendo ainda no Século 18: "A pátria é o último refúgio dos canalhas."
Tinha toda razão.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Fotos: Blog do Senadinho
Às vezes penso conversar com mortos
Emanoel Barreto
Às vezes penso conversar com mortos. Mas não me intimido. São amigos meus, fantasmas cordiais que me chegam à noite ao escritório, assentam-se e ficam a me olhar, como que deles cobrando as lembranças - querem saber se não os esqueci. Há pouco chegou-me o Majó Theodorico Bezerra, rajado gato do mato sertanejo, homem do velho PSD. Perguntou-me então do que dele me lembrava.
Contei que um dia, ele, já então sem mandato, a política dobrada para sempre em seu embornal catingueiro, aparentava ter a memória abalada pelo outono pesado e denso da velhice. Caminhava pelo salão nobre do então Palácio Potengi apoiado em rústico cajado. A seu lado, um jovem carrancudo e de de aspecto agreste lhe servia de amparo e guia. O Majó balbuciava uma algaravia de sons sem sentido. Perguntei se se lembrava daquilo: fez que sim com a cabeça, um sorriso irônico pintado em sua boca, como que dizendo: fantasmas, ao contrário dos vivos, nunca ficam caducos.
Mas, voltemos ao assunto: eu era repórter político da Tribuna do Norte e o segui naquela caminhada. O ano em que isso aconteceu não lembro. Mas recordo que ele estava muito velho. O Imperador do Sertão andava cambaleante. O título lhe fora concedido em 1978 pela Rede Globo, num documentário de Eduardo Coutinho. Mas o Imperador não mais tinha aquele pisar rijo, de velho feito de aroeira-do-sertão. O Majó riu muito quando lembrei do fato: - É verdade, é verdade...
Ele deambulava pelo salão, olhava os lustres, observava o assoalho de madeira nobre. Chegou-se a uma janela e de lá esteve olhando a Ribeira onde vivia encastelado no Grande Hotel, que dirigira há muit'anos, pagando ao Estado uma ninharia de arrendamento. Sorriu outra vez. Um sorriso névoas. Coisa que a que só um espectro é dada.
Depois foi a um salão menor, onde um enigmático piano repousava mudo. Nunca entendi aquele piano no Palácio Potengi. Talvez tocasse, à noite, sonatas para a escuridão do poder que dormia. O Majó aproximou-se do grande instrumento e percutiu uma de suas teclas. Foi o único som que ouvi daquele ser solitário, todo feito de madeira preta, criteriosamente preta.
Após, apoiando-se no seu servo, ele caminhou passos tardos até a larga escada de madeira, forte passarela que dava acesso ao Poder. Desceu-a e perdeu-se para sempre da minha visão. Morreu dia 4 de setembro de 1994.
E hoje, quando a mim chegou, como outros fantasmas, que são mais relembranças que espectros, pude afinal com ele fazer a última entrevista:
- Majó, o que o senhor fazia naquele dia, lá no Palácio?
E ele, com um riso de meia-lua, olhou-me bem nos olhos e respondeu placidamente:
- Barreto, fui homem que teve de tudo, fui a Paris e lá estive em Pigalle e no Moulin Rouge, andei pela Índia e por outros cantos do mundo. Aqui, fui de tudo: fui Majó e Imperador, mandei e desmandei nas minhas festas na fazenda Irapuru, o povo dançando com a minha banda de música. Irapuru é o pássaro que canta e Tangará, cidade também minha, é o pássaro que dança. Também mandei em Natal e mandei ali, ali mesmo, no Palácio Potengi. Sabe o que eu estava fazendo lá, Barreto? Lá, naquele dia em que você, notando que eu estava caduco, me acompanhou calado?
- Não, Majó - respondi.
- Eu estava procurando o meu passado, Barreto. Um homem tem que ser dono do seu passado. Eu estava olhando ali se o passado tinha parado no tempo. Se não tinham bulido naquelas coisas, naquele salão, naqueles cortinados, nos lustres, naquele piano, na porta que dava para o gabinete do governador. No chiado do chão de madeira. Eu estava vendo, Barreto, se o passado estava em dia.
- E estava, Majó?
Estava, Barreto, estava. O passado estava em dia. Estava tudo no seu lugar. E outra coisa: em política não há gratidão nem reconhecimento. Em política é o acerto, é o acordo e é o dinheiro. Depois, é andar ligeiro. Em política, aprenda, o passado sempre está em dia...
Deu boa noite e esfumaçou-se no silêncio do meu jardim. Um vento frio invadiu o escritório e me gelou a alma. Fui obrigado a beber um dose de uísque caubói.
Às vezes penso conversar com mortos
Emanoel Barreto
Às vezes penso conversar com mortos. Mas não me intimido. São amigos meus, fantasmas cordiais que me chegam à noite ao escritório, assentam-se e ficam a me olhar, como que deles cobrando as lembranças - querem saber se não os esqueci. Há pouco chegou-me o Majó Theodorico Bezerra, rajado gato do mato sertanejo, homem do velho PSD. Perguntou-me então do que dele me lembrava.
Contei que um dia, ele, já então sem mandato, a política dobrada para sempre em seu embornal catingueiro, aparentava ter a memória abalada pelo outono pesado e denso da velhice. Caminhava pelo salão nobre do então Palácio Potengi apoiado em rústico cajado. A seu lado, um jovem carrancudo e de de aspecto agreste lhe servia de amparo e guia. O Majó balbuciava uma algaravia de sons sem sentido. Perguntei se se lembrava daquilo: fez que sim com a cabeça, um sorriso irônico pintado em sua boca, como que dizendo: fantasmas, ao contrário dos vivos, nunca ficam caducos.
Mas, voltemos ao assunto: eu era repórter político da Tribuna do Norte e o segui naquela caminhada. O ano em que isso aconteceu não lembro. Mas recordo que ele estava muito velho. O Imperador do Sertão andava cambaleante. O título lhe fora concedido em 1978 pela Rede Globo, num documentário de Eduardo Coutinho. Mas o Imperador não mais tinha aquele pisar rijo, de velho feito de aroeira-do-sertão. O Majó riu muito quando lembrei do fato: - É verdade, é verdade...
Ele deambulava pelo salão, olhava os lustres, observava o assoalho de madeira nobre. Chegou-se a uma janela e de lá esteve olhando a Ribeira onde vivia encastelado no Grande Hotel, que dirigira há muit'anos, pagando ao Estado uma ninharia de arrendamento. Sorriu outra vez. Um sorriso névoas. Coisa que a que só um espectro é dada.
Depois foi a um salão menor, onde um enigmático piano repousava mudo. Nunca entendi aquele piano no Palácio Potengi. Talvez tocasse, à noite, sonatas para a escuridão do poder que dormia. O Majó aproximou-se do grande instrumento e percutiu uma de suas teclas. Foi o único som que ouvi daquele ser solitário, todo feito de madeira preta, criteriosamente preta.
Após, apoiando-se no seu servo, ele caminhou passos tardos até a larga escada de madeira, forte passarela que dava acesso ao Poder. Desceu-a e perdeu-se para sempre da minha visão. Morreu dia 4 de setembro de 1994.
E hoje, quando a mim chegou, como outros fantasmas, que são mais relembranças que espectros, pude afinal com ele fazer a última entrevista:
- Majó, o que o senhor fazia naquele dia, lá no Palácio?
E ele, com um riso de meia-lua, olhou-me bem nos olhos e respondeu placidamente:
- Barreto, fui homem que teve de tudo, fui a Paris e lá estive em Pigalle e no Moulin Rouge, andei pela Índia e por outros cantos do mundo. Aqui, fui de tudo: fui Majó e Imperador, mandei e desmandei nas minhas festas na fazenda Irapuru, o povo dançando com a minha banda de música. Irapuru é o pássaro que canta e Tangará, cidade também minha, é o pássaro que dança. Também mandei em Natal e mandei ali, ali mesmo, no Palácio Potengi. Sabe o que eu estava fazendo lá, Barreto? Lá, naquele dia em que você, notando que eu estava caduco, me acompanhou calado?
- Não, Majó - respondi.
- Eu estava procurando o meu passado, Barreto. Um homem tem que ser dono do seu passado. Eu estava olhando ali se o passado tinha parado no tempo. Se não tinham bulido naquelas coisas, naquele salão, naqueles cortinados, nos lustres, naquele piano, na porta que dava para o gabinete do governador. No chiado do chão de madeira. Eu estava vendo, Barreto, se o passado estava em dia.
- E estava, Majó?
Estava, Barreto, estava. O passado estava em dia. Estava tudo no seu lugar. E outra coisa: em política não há gratidão nem reconhecimento. Em política é o acerto, é o acordo e é o dinheiro. Depois, é andar ligeiro. Em política, aprenda, o passado sempre está em dia...
Deu boa noite e esfumaçou-se no silêncio do meu jardim. Um vento frio invadiu o escritório e me gelou a alma. Fui obrigado a beber um dose de uísque caubói.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiwv2_sBTXq-qrbGfnSlf-qkyb2OUbDhobiA1tfP7jmlFvYln5pg1jsF8aVUnz93K9yZIoIRcgVP2C0S1owmSGq52y5B2sBCSnIBtnJ6BwdnFvv6oaeQM07R42BBpX5gLqj02ci/s400/calice+de+vinho.jpg
Um cálice de vinho
Emanoel Barreto
Derrame um cálice de vinho
E você jamais saberá
As Alegrias que ali estavam postas.
Prepare um cálice de pétalas
E descrobrirá
Um cálice de vinho.
Um cálice de vinho
Emanoel Barreto
Derrame um cálice de vinho
E você jamais saberá
As Alegrias que ali estavam postas.
Prepare um cálice de pétalas
E descrobrirá
Um cálice de vinho.
domingo, 23 de maio de 2010
Folha: mudança de hábito
Emanoel Barreto
A Folha está de roupagem visual nova. Ainda não vi a edição de papel, mas, pelo que o jornal anunciou e comentei aqui, as mudanças serão na forma e no conteúdo - que ganhará contornos analíticos ao lado de textos informativos mais curtos, afirma o jornal.
A Folha antes e depois, graficamente, você vê nos símiles de duas edições. Note e diferença na tipologia. Sem entrar em detalhismos técnicos, note a diferença visual entre as letras dos títulos "Governo perde.." e "Lula articula seu...". Títulos, ou melhor letras, digo isso sempre a meus alunos, também são imagem. Tanto quanto uma foto podem puxar o olhar do leitor. Assim, na nova Folha, veja a diferença: a nova tipagem é mais cheia, portanto mais chamativa.
Outra coisa: a diagramação anterior era mais horizontal. Isso prejudica de alguma forma a leitura. Na versão de agora está veticalizada e ganhou uma bossa: vê aquele ponto de interrogação na matéria logo abaixo da notícia sobre a Al Qaeda? A última palavra da frase está maior que o restante do título, outra forma de fortalecer a visualidade. O jornal faz concessões gráficas sem perder o ar sisudo que se exige a uma publicação "séria".
Vou esperar para ler. O conteúdo será mesmo mais analítico? E o que significa esse analítico num jornal que esconde dos leitores as intenções desse mesmo conteúdo? É sabido que a Folha é tida como um ninho da mídia tucana. Não creio que isso mude de uma hora para outra. Vamos observar.
sábado, 22 de maio de 2010
Foto: Cartier Bresson. https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh2lwSWDnzUcnogIjPaLmm1jk3FBKnYMuYmrW7vF52FY_K5j90MDeo-fUIU2nOTkB8LkSDrLQLTw2W0KbibRjUxVc0YQfXz_ps_JpfL3_eNOYvEDz4dAbtwz68nn8vSB7LM4hEP/s400/cartie+bresson+rudnik,+servia+jugosl%C3%A1via+1965.jpg
O olhar do século
Emanoel Barreto
Leio "Cartier Bresson: o olhar do século", obra-prima de Pierre Assouline a respeito do gênio poderoso do grande fotógrafo francês, autor daquilo que chamam de "teoria do momento decisivo" na foto. O instante perfeito, sintético, de um momento maior. Captado na ação das lentes pelo olhar perplexo, extasiado ou alumbrado do fotógrafo.
Recomendo a todos os que se interessam por jornalismo, teoria da comunicação ou fotografia. Além do texto primoroso, precioso, exato - e que por ser exato é total e completo de infinitude - há o registro da biografia daquele complexo ser humano, que captou como ninguém o século 20 em toda a sua paleta de maravilhas e loucuras, perversidades e grandezas.
O livro contém têmpera como se fosse pintura. Afinal, palavras são, à sua maneira, quando combinadas em arranjo de interlocução sensível, uma espécie de grande pintura. Um mural. Uma conversa, quando vai além e acima do que se espera desse ato trivial, cotidiano, banal, se transforma em escultura intátil. Pulsação.
Pois bem: para mim, que costumo conversar com livros, encontrar nas páginas o autor, a autora, o ator daquelas palavras, esse trabalho de letras emotivas está sendo um grande momento. Aventura. Estou ainda começando a leitura. Mas já piloto minha máquina do tempo para visitar todo o território narrado por Assouline.
O olhar do século
Emanoel Barreto
Leio "Cartier Bresson: o olhar do século", obra-prima de Pierre Assouline a respeito do gênio poderoso do grande fotógrafo francês, autor daquilo que chamam de "teoria do momento decisivo" na foto. O instante perfeito, sintético, de um momento maior. Captado na ação das lentes pelo olhar perplexo, extasiado ou alumbrado do fotógrafo.
Recomendo a todos os que se interessam por jornalismo, teoria da comunicação ou fotografia. Além do texto primoroso, precioso, exato - e que por ser exato é total e completo de infinitude - há o registro da biografia daquele complexo ser humano, que captou como ninguém o século 20 em toda a sua paleta de maravilhas e loucuras, perversidades e grandezas.
O livro contém têmpera como se fosse pintura. Afinal, palavras são, à sua maneira, quando combinadas em arranjo de interlocução sensível, uma espécie de grande pintura. Um mural. Uma conversa, quando vai além e acima do que se espera desse ato trivial, cotidiano, banal, se transforma em escultura intátil. Pulsação.
Pois bem: para mim, que costumo conversar com livros, encontrar nas páginas o autor, a autora, o ator daquelas palavras, esse trabalho de letras emotivas está sendo um grande momento. Aventura. Estou ainda começando a leitura. Mas já piloto minha máquina do tempo para visitar todo o território narrado por Assouline.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
http://user.img.todaoferta.uol.com.br/Q/B/IA/IBLUZM/1240786759448_bigPhoto_0.jpg
Televisão, câncer e um traficante morto em confronto com a polícia
Emanoel Barreto
Como todo dia ela saiu de casa para trabalhar. Diarista, Maria passava o dia todo fora, somente voltando ao cair da noite. Chegando em casa, deu por falta do televisor. Velho, imagem em preto e branco, antena cheia de buchas de bombril. Como alguém iria roubar aquilo? Mas roubaram. O tempo fechou, choveu, a noite cobriu tudo.
De sua casa, no escuro, Maria viu, do outro lado da rua enlameada, que na casa de Dona Quininha estava clom TV ligada. Mas Dona Quininha não tinha televisão. Aquele miserável mistério foi logo resolvido. Maria correu até a casa da velha. Na sala, ela via novela. E a TV era a TV de Maria.
- Dona Quininha, o que é isso?
- É a sua televisão, minha filha. Mandei roubar.
- Mandou o quê?
- Roubar. Não tinha televisão em casa, nem dinheiro para comprar, mandei roubar.
- E quem...
- Roubou? Meu filho. Josedéquio. Ele até hoje só me deu tristeza com roubos, droga e brigas. Assim, pedi a ele para fazer um roubo bom. Um roubo do bem.
- A senhora chama a isso de roubo do bem?
- Sim...
- Não!
- Sim...
- Não!
- Sim, porque ele roubou a televisão para mim, que estou doente de câncer e devo viver no máximo mais um ano, no máximo. Como estou desenganada, pedi a ele um presente e o presente foi sua televisão. Ele nunca tinha me dado um presente. Agora eu tenho o que fazer, enquanto espero a morte.
- Mas, a senhora não sabe que roubou apenas a minha TV.
- O que mais eu lhe roubei?
- A senhora roubou todos os meus amigos: os atores das novelas, os jornalistas, o povo das propagandas, os apresentadores dos programas de domingo. Eu perdi meus amigos, entende?
A confusão, todavia, não rendeu muito. Acabou-se logo que Maria concordou em ficar, toda noite, assistindo TV na casa da velha senhora.
Uma noite, a novela em cena tensa. De repente o programa é suspenso para edição extraordinária do Jornal do Povo: era anunciado que o perigoso traficante Josedéquio Silva Lima, conhecido como Francão, havia sido morto em confronto com a polícia.
Maria ficou parada, trêmula. Dona Quininha, gelada.
Pouco depois o televisor pifou.
-
Televisão, câncer e um traficante morto em confronto com a polícia
Emanoel Barreto
Como todo dia ela saiu de casa para trabalhar. Diarista, Maria passava o dia todo fora, somente voltando ao cair da noite. Chegando em casa, deu por falta do televisor. Velho, imagem em preto e branco, antena cheia de buchas de bombril. Como alguém iria roubar aquilo? Mas roubaram. O tempo fechou, choveu, a noite cobriu tudo.
De sua casa, no escuro, Maria viu, do outro lado da rua enlameada, que na casa de Dona Quininha estava clom TV ligada. Mas Dona Quininha não tinha televisão. Aquele miserável mistério foi logo resolvido. Maria correu até a casa da velha. Na sala, ela via novela. E a TV era a TV de Maria.
- Dona Quininha, o que é isso?
- É a sua televisão, minha filha. Mandei roubar.
- Mandou o quê?
- Roubar. Não tinha televisão em casa, nem dinheiro para comprar, mandei roubar.
- E quem...
- Roubou? Meu filho. Josedéquio. Ele até hoje só me deu tristeza com roubos, droga e brigas. Assim, pedi a ele para fazer um roubo bom. Um roubo do bem.
- A senhora chama a isso de roubo do bem?
- Sim...
- Não!
- Sim...
- Não!
- Sim, porque ele roubou a televisão para mim, que estou doente de câncer e devo viver no máximo mais um ano, no máximo. Como estou desenganada, pedi a ele um presente e o presente foi sua televisão. Ele nunca tinha me dado um presente. Agora eu tenho o que fazer, enquanto espero a morte.
- Mas, a senhora não sabe que roubou apenas a minha TV.
- O que mais eu lhe roubei?
- A senhora roubou todos os meus amigos: os atores das novelas, os jornalistas, o povo das propagandas, os apresentadores dos programas de domingo. Eu perdi meus amigos, entende?
A confusão, todavia, não rendeu muito. Acabou-se logo que Maria concordou em ficar, toda noite, assistindo TV na casa da velha senhora.
Uma noite, a novela em cena tensa. De repente o programa é suspenso para edição extraordinária do Jornal do Povo: era anunciado que o perigoso traficante Josedéquio Silva Lima, conhecido como Francão, havia sido morto em confronto com a polícia.
Maria ficou parada, trêmula. Dona Quininha, gelada.
Pouco depois o televisor pifou.
-
quinta-feira, 20 de maio de 2010
http://www.cyrilstudio.ch/photos/05-5bn-4.jpg
Um poema de Neruda
Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.
Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.
Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!
Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.
http://evangelizafuerte.com.mx/wp-content/uploads/2010/02/odio-salvador-dali-fd.jpg
A Folha e a perversa política editorial do amor/odio
Emanoel Barreto
Transcrevo e abaixo comento parte de notícia da Folha, em que anuncia reforma gráfico-editorial para este fim de semana.
A partir de domingo, quando estreia o novo projeto gráfico e editorial da Folha, o jornal passa a contar com um grande elenco de novos colunistas. Cadernos estão sendo reformulados e alguns deles também terão novos nomes.
O atual caderno Brasil passa a se chamar Poder. Dedicado aos interesses do cidadão e à esfera pública, o caderno faz a cobertura dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de tratar de assuntos relacionados à religião, ao meio ambiente, aos movimentos sociais e às diversas organizações da sociedade civil.
Este ano, Poder, editado pela jornalista Vera Magalhães, tem na cobertura das eleições gerais (para presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual) o seu principal foco de atenção.
A atriz Fernanda Torres, que estreou como dramaturga em 2009 com a peça "Deus É Química", passa a escrever em Poder quinzenalmente, aos sábados, sobre as eleições. Dividirá o espaço com o diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo.
O caderno Dinheiro, editado pelo jornalista Raul Juste Lores, passa a se chamar Mercado. E vai receber 15 novos colunistas em suas páginas.
Entre eles, o empresário Eike Batista, empreendedor das áreas de mineração e siderurgia, hoje o brasileiro mais rico segundo a revista "Forbes", que escreverá mensalmente.
Como ele, também escreverão todo mês Fábio Barbosa, presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e do Banco Santander no Brasil, e o deputado Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda do governo Luiz Inácio Lula da Silva e coordenador da campanha de Dilma Rousseff à Presidência.[...]
........
A Folha é jornal nacional de referência que mais tem procupação em crescer e afirmar-se como hegemônico em seu campo. O Projeto Folha é bem sucedido em termos de marketing e sob o aspecto político. É o jornal mais influente do país. Seleciona cuidadosamente articulistas de renome e, frente a um mercado que se torna dia a dia mais difícil para o jornalismo impresso, começa a dar destaque mitigado ao noticiário policial. Claro, para abarcar o leque de leitorado que se interessa por esse tipo de informação.
O jornal vive, entretanto, um paradoxismo: é o mais lido e o mais odiado do país. Como? Simples: faz parte da política editorial a manutenção desse vínculo esquizofrênico com o leitorado. O professor Carlos Eduardo Lins da Silva, um dos epígonos do Projeto Folha, detalha como isso se dá no livro "Mil dias, seis mil dias depois".
A política do amor/ódio funciona assim: o jornal publica notícias que "ofendam" determinados segmentos do seu público de forma deliberada - está no livro. Exemplo: quando foi exibido no Brasil o filme "Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard, abriu espaços para não só noticiar como expor textos de crítica favorável à fita, com o objetivo programado de susitar sentimentos de insatisfação junto a leitores católicos conservadores. Na mosca! Houve uma enxurrada de protestos.
Era isso mesmo o pretendido - também está no livro de Silva. O leitor, revoltado, repudia o jornal mas não deixa de continuar lendo suas edições, numa espécie de efeito reverso. Isso a fim de manter-se informado a respeito de como o impresso contesta seus valores. Idem, no livro. Mas, diz Silva, tal é cumprido de forma cautelosa, a fim de não afrontar em demasia o leitor perdendo-se mercado.
E, como uma fênix, a Folha se renova a cada seis anos mais ou menos. Com isso passa a ideia de entidade que não se ossifica, escapa aos rigores do envelhecimento editorial, é arrojada e deve ser assim acompanhada em suas mutações.
O projeto é tático enquanto proposta editorial e mercadológica, e estratégico em termos de grande política, já que seus controladores buscam influir historicamente no processo comunicacional e ideológico vivivo por esta pátria amada, salve, salve.
A Folha e a perversa política editorial do amor/odio
Emanoel Barreto
Transcrevo e abaixo comento parte de notícia da Folha, em que anuncia reforma gráfico-editorial para este fim de semana.
A partir de domingo, quando estreia o novo projeto gráfico e editorial da Folha, o jornal passa a contar com um grande elenco de novos colunistas. Cadernos estão sendo reformulados e alguns deles também terão novos nomes.
O atual caderno Brasil passa a se chamar Poder. Dedicado aos interesses do cidadão e à esfera pública, o caderno faz a cobertura dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de tratar de assuntos relacionados à religião, ao meio ambiente, aos movimentos sociais e às diversas organizações da sociedade civil.
Este ano, Poder, editado pela jornalista Vera Magalhães, tem na cobertura das eleições gerais (para presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual) o seu principal foco de atenção.
A atriz Fernanda Torres, que estreou como dramaturga em 2009 com a peça "Deus É Química", passa a escrever em Poder quinzenalmente, aos sábados, sobre as eleições. Dividirá o espaço com o diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo.
O caderno Dinheiro, editado pelo jornalista Raul Juste Lores, passa a se chamar Mercado. E vai receber 15 novos colunistas em suas páginas.
Entre eles, o empresário Eike Batista, empreendedor das áreas de mineração e siderurgia, hoje o brasileiro mais rico segundo a revista "Forbes", que escreverá mensalmente.
Como ele, também escreverão todo mês Fábio Barbosa, presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e do Banco Santander no Brasil, e o deputado Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda do governo Luiz Inácio Lula da Silva e coordenador da campanha de Dilma Rousseff à Presidência.[...]
........
A Folha é jornal nacional de referência que mais tem procupação em crescer e afirmar-se como hegemônico em seu campo. O Projeto Folha é bem sucedido em termos de marketing e sob o aspecto político. É o jornal mais influente do país. Seleciona cuidadosamente articulistas de renome e, frente a um mercado que se torna dia a dia mais difícil para o jornalismo impresso, começa a dar destaque mitigado ao noticiário policial. Claro, para abarcar o leque de leitorado que se interessa por esse tipo de informação.
O jornal vive, entretanto, um paradoxismo: é o mais lido e o mais odiado do país. Como? Simples: faz parte da política editorial a manutenção desse vínculo esquizofrênico com o leitorado. O professor Carlos Eduardo Lins da Silva, um dos epígonos do Projeto Folha, detalha como isso se dá no livro "Mil dias, seis mil dias depois".
A política do amor/ódio funciona assim: o jornal publica notícias que "ofendam" determinados segmentos do seu público de forma deliberada - está no livro. Exemplo: quando foi exibido no Brasil o filme "Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard, abriu espaços para não só noticiar como expor textos de crítica favorável à fita, com o objetivo programado de susitar sentimentos de insatisfação junto a leitores católicos conservadores. Na mosca! Houve uma enxurrada de protestos.
Era isso mesmo o pretendido - também está no livro de Silva. O leitor, revoltado, repudia o jornal mas não deixa de continuar lendo suas edições, numa espécie de efeito reverso. Isso a fim de manter-se informado a respeito de como o impresso contesta seus valores. Idem, no livro. Mas, diz Silva, tal é cumprido de forma cautelosa, a fim de não afrontar em demasia o leitor perdendo-se mercado.
E, como uma fênix, a Folha se renova a cada seis anos mais ou menos. Com isso passa a ideia de entidade que não se ossifica, escapa aos rigores do envelhecimento editorial, é arrojada e deve ser assim acompanhada em suas mutações.
O projeto é tático enquanto proposta editorial e mercadológica, e estratégico em termos de grande política, já que seus controladores buscam influir historicamente no processo comunicacional e ideológico vivivo por esta pátria amada, salve, salve.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
http://media.photobucket.com/image/cam%25C3%25B5es/ameliapais/autores/CAMOES/camoes3-1.jpg
Louvor camoniano à lei do ficha limpa
Emanoel Barreto
De Camões o canto mais sentido,os Lusíadas, poema épico-guerreiro,
Diz ao mundo que d'agora por diante no Brasil, pátria merencória de inglórios navegantes
Só com ficha limpa pode o político impetrar rompante e lograr assumir douto mandato.
Rui Barbosa proclama hosana nas alturas e diz que destarte o honrado poderá gabar-se de não mais ser servil ao vil vilão.
(Abaixo, a versão revista e contextualizada dos Novos Lusíadas)
As armas dos ladrões assinalados
Que da Ocidental praia Brasiliana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Propaganda,
Em perigos e marketings esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Velho Reino, que tanto solaparam;
Mas agora as memórias ingloriosas
Daqueles Corruptos que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
Da Pátria, de África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras tenebrosas
Se vão à lei da Morte acorrentando
Cantando os encarcerarei por toda a parte
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Louvor camoniano à lei do ficha limpa
Emanoel Barreto
De Camões o canto mais sentido,os Lusíadas, poema épico-guerreiro,
Diz ao mundo que d'agora por diante no Brasil, pátria merencória de inglórios navegantes
Só com ficha limpa pode o político impetrar rompante e lograr assumir douto mandato.
Rui Barbosa proclama hosana nas alturas e diz que destarte o honrado poderá gabar-se de não mais ser servil ao vil vilão.
(Abaixo, a versão revista e contextualizada dos Novos Lusíadas)
As armas dos ladrões assinalados
Que da Ocidental praia Brasiliana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Propaganda,
Em perigos e marketings esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Velho Reino, que tanto solaparam;
Mas agora as memórias ingloriosas
Daqueles Corruptos que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
Da Pátria, de África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras tenebrosas
Se vão à lei da Morte acorrentando
Cantando os encarcerarei por toda a parte
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://ebicuba.drealentejo.pt/ebicuba/jornal/jornal07/fotos
Um belo poema de Florbela Espanca.
Princesa desalento
Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!
É frágil como o sonho dum momento,
Soturna como preces d'agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh'alma é a Princesa Desalento…
Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!
O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta…
Um belo poema de Florbela Espanca.
Princesa desalento
Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!
É frágil como o sonho dum momento,
Soturna como preces d'agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh'alma é a Princesa Desalento…
Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!
O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta…
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Eternamente instante
Emanoel Barreto
Inesperada forma de beleza fêmea,
Instigante desafio a uma nova porta.
Marfim guardado em gaveta secreta,
Anil branco a tilintar.
Não, não é.
Não sei se não é.
E, não sendo, é aquilo que não sei.
Noturno para Tânia
Transcrevo poema de Walflan de Queiroz, exposto no Azulão da UFRN.
Noturno para Tânia
"Se, durante a noite, não sentires,
Cair sobre a tua face, uma lágrima,
Não, não sou eu.
Se, durante a noite, não ouvires,
O grito do pássaro pousando em tuas mãos,
Não, não sou eu.
Mas, se caminhares, pelo invisível,
E vires então o anjo inclinar-se sobre ti,
Sou eu, Tânia, sou eu."
.........
Walflan de Queiroz (1930 - 1995)
Nasceu em São Miguel (RN). Influenciado por Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Hart Crane, sua obra se inscreve na tradição da poesia mística ocidental, dotada de permanente inquietude metafísica, advinda de uma alma angustiada. Seus últimos anos foram passados em hospital.
domingo, 16 de maio de 2010
http://1.bp.blogspot.com/_0ru2ybbVen0/SISOOauhUSI/AAAAAAAAAEk/CtWsOvBWGDU/s400/luta_livre.jpg
Obscena violência
Emanoel Barreto
Só um registro, pouco mais que uma legenda: obscena em toda a exatidão da palavra, a violência ganha foros de esporte, gera milhões em lucro, desperta os sentidos mais baixos. Dois machos atracados, suarentos, sórdidos. Imorais na mais forte acepção que tenha a imoralidade, exultada pelos violentos e seu pegajoso resfolegar.
Obscena violência
Emanoel Barreto
Só um registro, pouco mais que uma legenda: obscena em toda a exatidão da palavra, a violência ganha foros de esporte, gera milhões em lucro, desperta os sentidos mais baixos. Dois machos atracados, suarentos, sórdidos. Imorais na mais forte acepção que tenha a imoralidade, exultada pelos violentos e seu pegajoso resfolegar.
http://www.sertao24horas.com.br/cute/data/upimages/marina-da-silva.jpg
A vida de Marina Silva ou, com Serra na presidência, não
Emanoel Barreto
Leio na Folha ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1605201016.htm ) pungente matéria que aborda perfil da senadora Marina Silva, candidata do PV à presidência da República. Cidadã norte-rio-grandense e natalense há poucos dias agraciada, trata-se de ser humano incomparável. Na Câmara Municipal de Natal recordou suas origens nordestinas, recitou poemas, falou de improviso, num pronunciamento comovente.
Disse que ela, Lula, Pelé, pelas suas origens sociais humílimas, são exceções. Não, não foi ato de autolouvação. Apenas constatou histórias de vida ímpares, querendo dizer que tais casos, atributos personalíssimos, devem ser compensados com políticas públicas de inclusão, não se deixando ao destino, essa entidade aleatória e implausível, a vida de milhares, talvez de milhões que não têm, como os três personagens citados, resiliênia suficiente para a superação dos descaminhos da existência, suas dores e incertezas.
Temo que matéria da Folha não tenha intenção de dar o destaque - merecido - a uma candidata, digamos assim, de esquerda - com licença desse jargão já surrado. Não: creio que há uma intenção de agendamento, quem sabe o início de processo de ênfase da figura respeitável de Marina visando tirar votos da candidata do PT, o que redundaria em voto útil a José Serra.
De qualquer forma foi válida a publicação, trazendo a público o vulto de uma mulher que é um ser universal, digno, honrado, confiável e, sem dúvida, capacitado a ocupar a presidência. Entenda, por favor, que estas linhas são apenas abordagens ao sabor do momento. Especulação, no melhor sentido do termo, ante os fatos que estão a correr.
Não sou sectário, partidário, no sentido de seguir organicamente uma linha ou discurso partidário. Não voto em Serra pelo fato de ser um neoliberal - com todas as acepções e decorrências negativas que esse tipo de político e de política traz para os trabalhadores.
A campanha está em fase inicial. Que venham os discursos e os embates de campo. Numa coisa concordo com Serra: o Brasil pode mais. Pode sim. Mas, com ele na presidência, não.
A vida de Marina Silva ou, com Serra na presidência, não
Emanoel Barreto
Leio na Folha ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1605201016.htm ) pungente matéria que aborda perfil da senadora Marina Silva, candidata do PV à presidência da República. Cidadã norte-rio-grandense e natalense há poucos dias agraciada, trata-se de ser humano incomparável. Na Câmara Municipal de Natal recordou suas origens nordestinas, recitou poemas, falou de improviso, num pronunciamento comovente.
Disse que ela, Lula, Pelé, pelas suas origens sociais humílimas, são exceções. Não, não foi ato de autolouvação. Apenas constatou histórias de vida ímpares, querendo dizer que tais casos, atributos personalíssimos, devem ser compensados com políticas públicas de inclusão, não se deixando ao destino, essa entidade aleatória e implausível, a vida de milhares, talvez de milhões que não têm, como os três personagens citados, resiliênia suficiente para a superação dos descaminhos da existência, suas dores e incertezas.
Temo que matéria da Folha não tenha intenção de dar o destaque - merecido - a uma candidata, digamos assim, de esquerda - com licença desse jargão já surrado. Não: creio que há uma intenção de agendamento, quem sabe o início de processo de ênfase da figura respeitável de Marina visando tirar votos da candidata do PT, o que redundaria em voto útil a José Serra.
De qualquer forma foi válida a publicação, trazendo a público o vulto de uma mulher que é um ser universal, digno, honrado, confiável e, sem dúvida, capacitado a ocupar a presidência. Entenda, por favor, que estas linhas são apenas abordagens ao sabor do momento. Especulação, no melhor sentido do termo, ante os fatos que estão a correr.
Não sou sectário, partidário, no sentido de seguir organicamente uma linha ou discurso partidário. Não voto em Serra pelo fato de ser um neoliberal - com todas as acepções e decorrências negativas que esse tipo de político e de política traz para os trabalhadores.
A campanha está em fase inicial. Que venham os discursos e os embates de campo. Numa coisa concordo com Serra: o Brasil pode mais. Pode sim. Mas, com ele na presidência, não.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
http://agualisa.blogs.sapo.pt/arquivo/tumulo%5B1%5D.jpg
A mulher que queria me vender um túmulo
Emanoel Barreto
Caminhando hoje pelo Centro ouvi, a meu lado, uma voz de mulher: "O senhor já tem seu túmulo?". A pergunta, inesperada e louca, me fez gelar. Já vivi muitas situações, digamos, estranhas nesses mais de 30 anos de jornalismo - como o caso de um sujeito que quase era linchado na redação da Tribuna do Norte após ser perseguido por multidão enfurecida. Ele havia surrado o pai e tinha corrido das Rocas até o jornal, em busca de abrigo. Depois conto em detalhes.
Mas essa de alguém querer me vender um lugarzinho em cemitério... Mal refeito do susto, a corretora da morte não me deu trégua. Entregou-me um folder e mostrou-me a conveniência de uma atitude "precavida e sábia", dizia ela.
Muito séria, compenetrada em sua soturna missão, continuou dissertando sobre o assunto com tanta e tamanha autoridade que quase pensei em aderir a um de seus planos de financiamento. Dizia que o terreno "era bom e muito bem situado".
Retomando o fôlego e o bom senso disse-lhe que não, que ainda não estava pensando em assunto de tão grande e profunda relevância e, a muito custo, consegui dela me desvencilhar. Apressei o passo, olhei firme para a frente, mas ainda ouvi, enquanto me afastava: "Olhe, se comprar seu túmulo, nós lhe daremos de graça um caixão."
A mulher que queria me vender um túmulo
Emanoel Barreto
Caminhando hoje pelo Centro ouvi, a meu lado, uma voz de mulher: "O senhor já tem seu túmulo?". A pergunta, inesperada e louca, me fez gelar. Já vivi muitas situações, digamos, estranhas nesses mais de 30 anos de jornalismo - como o caso de um sujeito que quase era linchado na redação da Tribuna do Norte após ser perseguido por multidão enfurecida. Ele havia surrado o pai e tinha corrido das Rocas até o jornal, em busca de abrigo. Depois conto em detalhes.
Mas essa de alguém querer me vender um lugarzinho em cemitério... Mal refeito do susto, a corretora da morte não me deu trégua. Entregou-me um folder e mostrou-me a conveniência de uma atitude "precavida e sábia", dizia ela.
Muito séria, compenetrada em sua soturna missão, continuou dissertando sobre o assunto com tanta e tamanha autoridade que quase pensei em aderir a um de seus planos de financiamento. Dizia que o terreno "era bom e muito bem situado".
Retomando o fôlego e o bom senso disse-lhe que não, que ainda não estava pensando em assunto de tão grande e profunda relevância e, a muito custo, consegui dela me desvencilhar. Apressei o passo, olhei firme para a frente, mas ainda ouvi, enquanto me afastava: "Olhe, se comprar seu túmulo, nós lhe daremos de graça um caixão."
quinta-feira, 13 de maio de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEix7LorOeInDbkvxRHWeRyEACNFQ67U9BZEd7VmNEuri0QdJYnjyOyicEhX1VQLAo6g9kb2Et8o8E6nRGwpzWxX_8FyZcXON7Ikde4Iqvy3FkJnljUmb4YLfSLJsWmOvKx7Kw/s400/povo_.jpg
O resto é pleonasmo
Emanoel Barreto
Em texto de Kenneth Maxwell, sob o título "Resgate", diz a Folha a respeito da crise na Grécia:
OS "MERCADOS" se recuperaram depois do anúncio do imenso pacote europeu de assistência aos membros do sul do continente que vêm encontrando dificuldades.
A despeito das medidas de austeridade anunciadas pelo governo grego, dos tumultos nas ruas de Atenas e da morte de três funcionários em um banco atacado com coquetéis molotov, os membros da UE que usam o euro não haviam conseguido entrar em acordo quanto a medidas para conter a crise financeira. Os alemães, especialmente, se opunham a qualquer "resgate".
O problema básico era a crescente incapacidade da Grécia para manter o serviço de sua imensa dívida pública pagando juros de mercado. Os europeus e o FMI, sob intensa pressão, aprovaram um resgate que oferecerá US$ 140 bilhões à Grécia em prazo de três anos.
Com apoio relutante da Alemanha, os ministros das Finanças da UE, agindo com o apoio do FMI e do banco central dos Estados Unidos, aprovaram também o equivalente a quase US$ 1 trilhão em garantias de empréstimos, o que inclui um compromisso de aquisição de títulos de dívida nacionais pelo Banco Central Europeu a fim de impedir que o "contágio" se expanda e de ajudar a sustentar a situação financeira da Grécia, bem como a de Portugal e Espanha.
Vai funcionar? A Grécia assumiu o compromisso de reduzir as bonificações de Páscoa, verão e Natal de seus funcionários públicos e aposentados, vai elevar os impostos sobre combustível, tabaco e álcool, elevar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos e impor o uso de medicamentos genéricos no sistema estatal de saúde.
Mas o "Washington Post" relata que uma avaliação interna do FMI é pessimista. O estudo aponta que o choque social ainda não se fez sentir no país em toda a sua profundidade.
Até mesmo ligeiras variações de comportamento no crescimento, inflação, medidas de austeridade e elevação de impostos farão com que a carga da dívida grega aumente, a despeito dos esforços internacionais para reduzi-la. O FMI projeta anos de queda nos salários e padrões de vida e desemprego ampliado. O quadro não é bonito.
Já diante da crescente indignação quanto ao acordo, a chanceler alemã, Angela Merkel, sofreu sério revés em eleições regionais importantes e foi forçada a abandonar seus planos de cortar impostos.
Josef Schlarmann, líder regional da União Democrata Cristã, partido de centro-direita de Merkel, acusou a chanceler de "fazer pouco para resistir ao resgate à Grécia".
Seria desnecessário dizer que os bancos continuam a ser pagos.
.........
O autor, que nem de longe poderia ser "acusado" de "ser de esquerda", portanto um perigoso ser que pensa de forma de forma "divergente", acentua em observação irônica no final do texto que os bancos continuarão a ser pagos.
Mais claramente eu digo que os bancos, leia-se as elites do dinheiro, do capital improdutivo, rapinante, os parasitas do trabalho dos outros, serão mantidos em seus panteões de exploradores, ricos e gozando do ócio e do negócio.
Continuarão a fomentar crises, levar pessoas ao desespero, à fome, à depressão, ao suicídio. E também continuarão impunes e premiados pelos governos, que em hipótese alguma se voltam contra as elites. E por um simples motivo: o Estado é povoado por esses tipos, o Estado coloca-se a serviço do privado.
Quanto ao povo, esse ser coletivo que às vezes vai às ruas protestar quando as coisas estão acima do insuportável, continuará a sofrer os efeitos históricos de atos que não praticou. E a apanhar, apanhar muito da polícia - que também é povo mas disso parece não se dar conta.
Então, o povo se cala e vai sucumbir a algum soluço trôpego, escondido no fundo de sua alma desesperançada. Depois, bom, depois é o povo e o resto é pleonasmo...
O resto é pleonasmo
Emanoel Barreto
Em texto de Kenneth Maxwell, sob o título "Resgate", diz a Folha a respeito da crise na Grécia:
OS "MERCADOS" se recuperaram depois do anúncio do imenso pacote europeu de assistência aos membros do sul do continente que vêm encontrando dificuldades.
A despeito das medidas de austeridade anunciadas pelo governo grego, dos tumultos nas ruas de Atenas e da morte de três funcionários em um banco atacado com coquetéis molotov, os membros da UE que usam o euro não haviam conseguido entrar em acordo quanto a medidas para conter a crise financeira. Os alemães, especialmente, se opunham a qualquer "resgate".
O problema básico era a crescente incapacidade da Grécia para manter o serviço de sua imensa dívida pública pagando juros de mercado. Os europeus e o FMI, sob intensa pressão, aprovaram um resgate que oferecerá US$ 140 bilhões à Grécia em prazo de três anos.
Com apoio relutante da Alemanha, os ministros das Finanças da UE, agindo com o apoio do FMI e do banco central dos Estados Unidos, aprovaram também o equivalente a quase US$ 1 trilhão em garantias de empréstimos, o que inclui um compromisso de aquisição de títulos de dívida nacionais pelo Banco Central Europeu a fim de impedir que o "contágio" se expanda e de ajudar a sustentar a situação financeira da Grécia, bem como a de Portugal e Espanha.
Vai funcionar? A Grécia assumiu o compromisso de reduzir as bonificações de Páscoa, verão e Natal de seus funcionários públicos e aposentados, vai elevar os impostos sobre combustível, tabaco e álcool, elevar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos e impor o uso de medicamentos genéricos no sistema estatal de saúde.
Mas o "Washington Post" relata que uma avaliação interna do FMI é pessimista. O estudo aponta que o choque social ainda não se fez sentir no país em toda a sua profundidade.
Até mesmo ligeiras variações de comportamento no crescimento, inflação, medidas de austeridade e elevação de impostos farão com que a carga da dívida grega aumente, a despeito dos esforços internacionais para reduzi-la. O FMI projeta anos de queda nos salários e padrões de vida e desemprego ampliado. O quadro não é bonito.
Já diante da crescente indignação quanto ao acordo, a chanceler alemã, Angela Merkel, sofreu sério revés em eleições regionais importantes e foi forçada a abandonar seus planos de cortar impostos.
Josef Schlarmann, líder regional da União Democrata Cristã, partido de centro-direita de Merkel, acusou a chanceler de "fazer pouco para resistir ao resgate à Grécia".
Seria desnecessário dizer que os bancos continuam a ser pagos.
.........
O autor, que nem de longe poderia ser "acusado" de "ser de esquerda", portanto um perigoso ser que pensa de forma de forma "divergente", acentua em observação irônica no final do texto que os bancos continuarão a ser pagos.
Mais claramente eu digo que os bancos, leia-se as elites do dinheiro, do capital improdutivo, rapinante, os parasitas do trabalho dos outros, serão mantidos em seus panteões de exploradores, ricos e gozando do ócio e do negócio.
Continuarão a fomentar crises, levar pessoas ao desespero, à fome, à depressão, ao suicídio. E também continuarão impunes e premiados pelos governos, que em hipótese alguma se voltam contra as elites. E por um simples motivo: o Estado é povoado por esses tipos, o Estado coloca-se a serviço do privado.
Quanto ao povo, esse ser coletivo que às vezes vai às ruas protestar quando as coisas estão acima do insuportável, continuará a sofrer os efeitos históricos de atos que não praticou. E a apanhar, apanhar muito da polícia - que também é povo mas disso parece não se dar conta.
Então, o povo se cala e vai sucumbir a algum soluço trôpego, escondido no fundo de sua alma desesperançada. Depois, bom, depois é o povo e o resto é pleonasmo...
quarta-feira, 12 de maio de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgd0OyexXgsgNvVtZ-HyBrx3nF8bKRD0tjJ7sUtQ98hyopPEk9mo8EnuVXmdiX-4DKlu4vqirTx7l7el-ZQ_j_IG6BP950EEzA3u1exCO8jsN8Qv4EiY_tLRpw6yAQMzOeuTjGKdQ/s400/alien-midway.jpg
Cuidado com os alienígenas
Emanoel Barreto
Deu na Folha, em texto de Ranier Bragon:
As associações que representam os maiores jornais e canais de TV do país anunciaram ontem ter ingressado na Procuradoria-Geral da República com representação em que pedem investigação e adoção de medidas contra o possível controle, por empresas estrangeiras, de órgãos de comunicação no país.
A ANJ (Associação Nacional de Jornais) e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) pedem que o Ministério Público adote providências para que o governo faça cumprir a determinação constitucional que limita a 30% a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação e reserva a brasileiros natos (ou naturalizados há mais de dez anos) a responsabilidade administrativa e editorial.
O presidente da Abert, Daniel Slaviero, afirmou haver dezenas de casos de violação da regra constitucional. "Há dezenas de casos, mas os mais notórios são o portal Terra e o portal iG, que têm conteúdo jornalístico operando na internet", afirmou Slaviero.
"Entramos com a representação com base em duas premissas: que a internet não é uma terra sem lei e que algum órgão público tem que fazer valer uma regra constitucional que está sendo flagrantemente desrespeitada", disse Slaviero, em entrevista antes de seminário no Congresso que discutiu direito autoral na internet.
Material distribuído pela Abert durante o evento aponta também outros órgãos de imprensa, como o jornal "Brasil Econômico", lançado no país pelo grupo português Ongoing.
"Acreditamos que o Ministério Público irá adotar a iniciativa de defender a execução do artigo 222 da Constituição, flagrantemente desrespeitado", afirmou Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ.
..........
É correta e urgente a ação dos órgãos de comunicação. O manejo de conteúdo em qualquer veículo, especialmente no que diz respeito à ênfase, ou seja à contínua veiculação de um determinado tipo de mensagem, é algo que pode ser preocupante, em função exatamente dos enquadramentos trabalhados em caráter contínuo.
Uma determinada forma de representação de mundo, mais claramente, um certo tipo de noticiário que favorece assuntos ou temas, pode terminar não apenas determinando sobre o que pensar, mas, especialmente, como pensar.
Isso em função de que o auditório desprovido de um determinado tipo de informação em proveito de outro pode ser encaminhado a supor que o certo, a verdade é aquilo que está em processo de veiculação continuada e ressaltada.
A, digamos, invasão de grupos multinacionais, seja em território jornalístico ou em aspectos diversionais, termina por formular uma determinada imagem que interessa aos que detêm esse poder de elaborar e veicular símbolos.
Em suma, trata-se de questão também política, também de poder. Já basta o domínio, por exemplo, que os EUA têm no segmento de filmes em cinema e TV. Tal situação favorece a predominância de mensagens que privilegiam interesses alienígenas, obscurecendo a paisagem e os temas nacionais.
Trata-se de atitude que vem a tempo. De uma mobilização que precisa e deve continuar.
Cuidado com os alienígenas
Emanoel Barreto
Deu na Folha, em texto de Ranier Bragon:
As associações que representam os maiores jornais e canais de TV do país anunciaram ontem ter ingressado na Procuradoria-Geral da República com representação em que pedem investigação e adoção de medidas contra o possível controle, por empresas estrangeiras, de órgãos de comunicação no país.
A ANJ (Associação Nacional de Jornais) e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) pedem que o Ministério Público adote providências para que o governo faça cumprir a determinação constitucional que limita a 30% a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação e reserva a brasileiros natos (ou naturalizados há mais de dez anos) a responsabilidade administrativa e editorial.
O presidente da Abert, Daniel Slaviero, afirmou haver dezenas de casos de violação da regra constitucional. "Há dezenas de casos, mas os mais notórios são o portal Terra e o portal iG, que têm conteúdo jornalístico operando na internet", afirmou Slaviero.
"Entramos com a representação com base em duas premissas: que a internet não é uma terra sem lei e que algum órgão público tem que fazer valer uma regra constitucional que está sendo flagrantemente desrespeitada", disse Slaviero, em entrevista antes de seminário no Congresso que discutiu direito autoral na internet.
Material distribuído pela Abert durante o evento aponta também outros órgãos de imprensa, como o jornal "Brasil Econômico", lançado no país pelo grupo português Ongoing.
"Acreditamos que o Ministério Público irá adotar a iniciativa de defender a execução do artigo 222 da Constituição, flagrantemente desrespeitado", afirmou Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ.
..........
É correta e urgente a ação dos órgãos de comunicação. O manejo de conteúdo em qualquer veículo, especialmente no que diz respeito à ênfase, ou seja à contínua veiculação de um determinado tipo de mensagem, é algo que pode ser preocupante, em função exatamente dos enquadramentos trabalhados em caráter contínuo.
Uma determinada forma de representação de mundo, mais claramente, um certo tipo de noticiário que favorece assuntos ou temas, pode terminar não apenas determinando sobre o que pensar, mas, especialmente, como pensar.
Isso em função de que o auditório desprovido de um determinado tipo de informação em proveito de outro pode ser encaminhado a supor que o certo, a verdade é aquilo que está em processo de veiculação continuada e ressaltada.
A, digamos, invasão de grupos multinacionais, seja em território jornalístico ou em aspectos diversionais, termina por formular uma determinada imagem que interessa aos que detêm esse poder de elaborar e veicular símbolos.
Em suma, trata-se de questão também política, também de poder. Já basta o domínio, por exemplo, que os EUA têm no segmento de filmes em cinema e TV. Tal situação favorece a predominância de mensagens que privilegiam interesses alienígenas, obscurecendo a paisagem e os temas nacionais.
Trata-se de atitude que vem a tempo. De uma mobilização que precisa e deve continuar.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
http://esfolando.files.wordpress.com/2009/09/dinheiro-2.jpg
É interessante, não é?
Emanoel Barreto
Deu no UOL: Bolsa dos EUA tem maior alta diária em mais de um ano
Da Redação, em São Paulo
As Bolsas de Valores tiveram altas no mundo todo nesta segunda-feira, após o anúncio do pacote de € 750 bilhões para a zona do euro. Os índices acionários dos Estados Unidos registraram o maior ganho diário em mais de um ano. Na Europa, o principal índice de ações europeias teve a maior alta em 17 meses. A Bovespa encerrou com a maior elevação desde outubro. As Bolsas asiáticas também fecharam com ganhos expressivos.
O Dow Jones, referência da Bolsa de Nova York, avançou 3,9%, para 10.785 pontos. O termômetro de tecnologia Nasdaq disparou 4,81%, para 2.374 pontos. O Standard & Poor's 500 teve alta de 4,4%, a 1.159 pontos. Os três principais índices registraram a apreciação mais forte desde 23 de março de 2009, quando os Estados Unidos divulgaram detalhes de um plano para compra de ativos tóxicos de bancos, após uma expressiva queda das bolsas algumas semanas antes, que levou as ações à mínima em 12 anos.
....
Interessante, a economia parasitária faz a crise, toma dinheiro da sociedade, leva essa mesma sociedade ao caos e depois sai comemorando. É interessante, não é?
É interessante, não é?
Emanoel Barreto
Deu no UOL: Bolsa dos EUA tem maior alta diária em mais de um ano
Da Redação, em São Paulo
As Bolsas de Valores tiveram altas no mundo todo nesta segunda-feira, após o anúncio do pacote de € 750 bilhões para a zona do euro. Os índices acionários dos Estados Unidos registraram o maior ganho diário em mais de um ano. Na Europa, o principal índice de ações europeias teve a maior alta em 17 meses. A Bovespa encerrou com a maior elevação desde outubro. As Bolsas asiáticas também fecharam com ganhos expressivos.
O Dow Jones, referência da Bolsa de Nova York, avançou 3,9%, para 10.785 pontos. O termômetro de tecnologia Nasdaq disparou 4,81%, para 2.374 pontos. O Standard & Poor's 500 teve alta de 4,4%, a 1.159 pontos. Os três principais índices registraram a apreciação mais forte desde 23 de março de 2009, quando os Estados Unidos divulgaram detalhes de um plano para compra de ativos tóxicos de bancos, após uma expressiva queda das bolsas algumas semanas antes, que levou as ações à mínima em 12 anos.
....
Interessante, a economia parasitária faz a crise, toma dinheiro da sociedade, leva essa mesma sociedade ao caos e depois sai comemorando. É interessante, não é?
domingo, 9 de maio de 2010
Quando o jornalismo é bem feito
Emanoel Barreto
A reportagem da capa da Revista IstoÉ apresenta a candidata Dilma Rousseff como destaque. Faz tempo não via, ou lia, um jornalismo tão bem feito. Indagações pertinentes cujas respostas dão um retrato de corpo inteiro do ator político Dilma Rousseff. Ou quase: digo isso porque sei que ela, como candidata, dá respostas sob medida, a fim de assegurar a construção do seu capital político.
Explico: Dilma luta para retirar de si a imagem de gerentona dura, mulher inflexível, imperiosa, arrogante. Pode até nem ser isso, mas sua imagem midiática confere com esse padrão. Por isso, a mudança de hábito no declartório à revista. Leia a matéria e você compreenderá porque. Não quer dizer, contudo, que inexista sinceridade nesse declaratório.
Na IstoÉ, a representação da entrevistada - em foto e texto -, é bem diferente da imagem de Serra em recente capa da Veja. Que também apresentou Dilma, em edição bem anterior, com a figuração de personagem de matéria policial - foto em preto e branco, aspecto soturno.
Com Serra, a capa foi trabalhada para que ele parecesse empático, politicamente atraente, ideologicamente belo. Foi um erro crasso: a face do ex-governador de São Paulo não se presta a reformulação. Não se trata de um efebo e pronto. Nem assumiu a feição de condottiero, se fora essa a intenção. Resultado: trabalho perdido.
Na IstoÉ, ao contrário, respeitou-se a imagem da pessoa entrevistada e dela se obtiveram respostas jornalisticamente aceitáveis. Ou seja: um tipo de assertividade em que o ator declarante repassa ao interlocutor com clareza aquilo que supostamente reflete aquilo que pensa. A objetividade jornalística obteve seu grau relativo de representação linguístico-iconográfica, permanecendo adstrita ao real do qual teve origem. Isso é bom jornalismo.
Emanoel Barreto
A reportagem da capa da Revista IstoÉ apresenta a candidata Dilma Rousseff como destaque. Faz tempo não via, ou lia, um jornalismo tão bem feito. Indagações pertinentes cujas respostas dão um retrato de corpo inteiro do ator político Dilma Rousseff. Ou quase: digo isso porque sei que ela, como candidata, dá respostas sob medida, a fim de assegurar a construção do seu capital político.
Explico: Dilma luta para retirar de si a imagem de gerentona dura, mulher inflexível, imperiosa, arrogante. Pode até nem ser isso, mas sua imagem midiática confere com esse padrão. Por isso, a mudança de hábito no declartório à revista. Leia a matéria e você compreenderá porque. Não quer dizer, contudo, que inexista sinceridade nesse declaratório.
Na IstoÉ, a representação da entrevistada - em foto e texto -, é bem diferente da imagem de Serra em recente capa da Veja. Que também apresentou Dilma, em edição bem anterior, com a figuração de personagem de matéria policial - foto em preto e branco, aspecto soturno.
Com Serra, a capa foi trabalhada para que ele parecesse empático, politicamente atraente, ideologicamente belo. Foi um erro crasso: a face do ex-governador de São Paulo não se presta a reformulação. Não se trata de um efebo e pronto. Nem assumiu a feição de condottiero, se fora essa a intenção. Resultado: trabalho perdido.
Na IstoÉ, ao contrário, respeitou-se a imagem da pessoa entrevistada e dela se obtiveram respostas jornalisticamente aceitáveis. Ou seja: um tipo de assertividade em que o ator declarante repassa ao interlocutor com clareza aquilo que supostamente reflete aquilo que pensa. A objetividade jornalística obteve seu grau relativo de representação linguístico-iconográfica, permanecendo adstrita ao real do qual teve origem. Isso é bom jornalismo.
sábado, 8 de maio de 2010
http://www.astormentas.com/florbela.htm
Lendo Florbela Espanca
Emanoel Barreto
A poesia estranha e bela de Florbela é êxtase, passagem, porta aberta, céu intenso, nuvem que nunca se esvai. Golpe de florete, elegante cinzel leve e preciso. Dela os poemas abaixo.
Languidez
Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...
E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...
Os versos que te fiz
Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Tem dolencia de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !
Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz.
Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...
Lendo Florbela Espanca
Emanoel Barreto
A poesia estranha e bela de Florbela é êxtase, passagem, porta aberta, céu intenso, nuvem que nunca se esvai. Golpe de florete, elegante cinzel leve e preciso. Dela os poemas abaixo.
Languidez
Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...
E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...
Os versos que te fiz
Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Tem dolencia de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !
Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz.
Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...
quinta-feira, 6 de maio de 2010
http://ourspiritwillliveon.files.wordpress.com/2009/02/utopia.jpg
Transcrevo texto do grande Mauro Santaya.(EB)
Dialética da utopia
Por Mauro Santayana
O documentário de Silvio Tendler Utopia e barbárie é referência necessária ao exame da história contemporânea, ao lado de outros estudos marcantes, como os livros de Chomsky e de Bárbara Tuchman – sem falar nas análises filosóficas mais profundas de Hannah Arendt e dos expoentes da Escola de Frankfurt. Como trabalho cinematográfico, a obra de Tendler se identifica com o clássico Mourir à Madrid, de Frédéric Rossif, de 1963. Mas Silvio nos espicaça com inquietação explícita: até onde a barbárie pode alimentar-se no combate à utopia?
A discussão não é nova, mas muitos procuram evitá-la, nutridos do sumo de justiça e da busca de seus sonhos proféticos. A mais bela e forte das utopias é a do cristianismo, que nos promete a realização do Reino de Deus entre os homens. Sem ela, a vida no Ocidente teria sido insuportável, mas sua associação ao poder temporal, com Constantino e Ambrósio, trouxe o conformismo e a frustração.
Ao organizar o seu caminho, a utopia corre o risco de perdê-lo. Isso parece dar razão aos anarquistas puros do século 19, que reduziam a utopia à atualidade destruidora: toda tentativa de ordenar a vida social em estados era, para eles, violência intolerável. Tendler fala de Hitler, de Stalin, de Pol Pot, e de suas vítimas, como portadores de utopias singulares. A de Hitler, desde o início, não se dissimulava, porque o nazismo é identificado com a morte. Seu mundo ideal Hitler o desenhou a partir de Mein Kampf: um mundo dominado pelos alemães, herdeiros da Terra pela força e pela beleza, ou, seja, pela sua superioridade como animais predadores.
Quando as melhores utopias se valem da violência, a fim de se tornarem viáveis, elas se pervertem, é a conclusão dos espectadores do filme de Tendler e dos estudiosos da história. Em suma: as utopias políticas de igualdade e justiça devem ser fiéis a si mesmas, ainda que permaneçam sempre utopias, ou seja, irrealizáveis. Se assim for, cumprem o seu papel ontológico, o de, ao conservar a esperança no absoluto, permitir a realização do relativo. Ou, na linguagem de Marcuse, construir a história como a realização do possível no interior do necessário.
No seu estudo sobre o alvorecer do século 20, Bárbara Tuchman mostra como o apogeu do poder e do fausto do Império Britânico, durante a hipócrita sociedade vitoriana, correspondeu à mais dramática situação de seus trabalhadores. Trinta por cento dos ingleses viviam em pobreza inimaginável, apesar do saqueio colonial, trabalhando sete dias por semana, de 12 a 16 horas por dia, dizimados pela tuberculose, enquanto nos palácios ducais as recepções perdulárias e insolentes se repetiam. Quando os trabalhadores começaram a organizar-se, o governo ameaçou excluí-los de tudo, e importar mão de obra chinesa, quase escrava. Foi exatamente nesse período que os anarquistas passaram a agir: seu terrorismo era a resposta da justiça utópica contra as pétreas estruturas do poder. Em menos de duas décadas, reis, rainhas, duques, primeiros-ministros europeus e o presidente dos Estados Unidos, McKinley, foram assassinados. Os anarquistas atuavam quase sempre sozinhos, ou associados a dois ou a três companheiros, quando muito.
O documentário de Tendler se encerra com uma nota forte de esperança, que se funda na experiência. Mesmo tendo sido o século mais sangrento da História, com mais de 60 milhões de mortos nas guerras sucessivas, os últimos cem anos contribuíram para a libertação dos homens, embora novas etnias sociais, como as dos moradores de rua, tenham surgido da economia neoliberal, essa teologia dos banqueiros. Tendler cita como sinais da esperança a eleição do operário Lula, no Brasil, e a de um negro, Obama, para presidir os Estados Unidos.
As utopias, em todos os tempos, são a denúncia da injustiça e o ânimo para a resistência. Elas se realizam pouco a pouco; a cada passo trazem novas esperanças e se distanciam, como as linhas do horizonte, quando delas nos aproximamos. São inalcançáveis, como os arcos-íris. Ao mesmo tempo, suas conquistas açulam as contrautopias, para a violenta reação que conhecemos. Nesse jogo dialético entre a barbárie e a utopia, se faz a história, com a grandeza e a miséria da condição humana.
Transcrevo texto do grande Mauro Santaya.(EB)
Dialética da utopia
Por Mauro Santayana
O documentário de Silvio Tendler Utopia e barbárie é referência necessária ao exame da história contemporânea, ao lado de outros estudos marcantes, como os livros de Chomsky e de Bárbara Tuchman – sem falar nas análises filosóficas mais profundas de Hannah Arendt e dos expoentes da Escola de Frankfurt. Como trabalho cinematográfico, a obra de Tendler se identifica com o clássico Mourir à Madrid, de Frédéric Rossif, de 1963. Mas Silvio nos espicaça com inquietação explícita: até onde a barbárie pode alimentar-se no combate à utopia?
A discussão não é nova, mas muitos procuram evitá-la, nutridos do sumo de justiça e da busca de seus sonhos proféticos. A mais bela e forte das utopias é a do cristianismo, que nos promete a realização do Reino de Deus entre os homens. Sem ela, a vida no Ocidente teria sido insuportável, mas sua associação ao poder temporal, com Constantino e Ambrósio, trouxe o conformismo e a frustração.
Ao organizar o seu caminho, a utopia corre o risco de perdê-lo. Isso parece dar razão aos anarquistas puros do século 19, que reduziam a utopia à atualidade destruidora: toda tentativa de ordenar a vida social em estados era, para eles, violência intolerável. Tendler fala de Hitler, de Stalin, de Pol Pot, e de suas vítimas, como portadores de utopias singulares. A de Hitler, desde o início, não se dissimulava, porque o nazismo é identificado com a morte. Seu mundo ideal Hitler o desenhou a partir de Mein Kampf: um mundo dominado pelos alemães, herdeiros da Terra pela força e pela beleza, ou, seja, pela sua superioridade como animais predadores.
Quando as melhores utopias se valem da violência, a fim de se tornarem viáveis, elas se pervertem, é a conclusão dos espectadores do filme de Tendler e dos estudiosos da história. Em suma: as utopias políticas de igualdade e justiça devem ser fiéis a si mesmas, ainda que permaneçam sempre utopias, ou seja, irrealizáveis. Se assim for, cumprem o seu papel ontológico, o de, ao conservar a esperança no absoluto, permitir a realização do relativo. Ou, na linguagem de Marcuse, construir a história como a realização do possível no interior do necessário.
No seu estudo sobre o alvorecer do século 20, Bárbara Tuchman mostra como o apogeu do poder e do fausto do Império Britânico, durante a hipócrita sociedade vitoriana, correspondeu à mais dramática situação de seus trabalhadores. Trinta por cento dos ingleses viviam em pobreza inimaginável, apesar do saqueio colonial, trabalhando sete dias por semana, de 12 a 16 horas por dia, dizimados pela tuberculose, enquanto nos palácios ducais as recepções perdulárias e insolentes se repetiam. Quando os trabalhadores começaram a organizar-se, o governo ameaçou excluí-los de tudo, e importar mão de obra chinesa, quase escrava. Foi exatamente nesse período que os anarquistas passaram a agir: seu terrorismo era a resposta da justiça utópica contra as pétreas estruturas do poder. Em menos de duas décadas, reis, rainhas, duques, primeiros-ministros europeus e o presidente dos Estados Unidos, McKinley, foram assassinados. Os anarquistas atuavam quase sempre sozinhos, ou associados a dois ou a três companheiros, quando muito.
O documentário de Tendler se encerra com uma nota forte de esperança, que se funda na experiência. Mesmo tendo sido o século mais sangrento da História, com mais de 60 milhões de mortos nas guerras sucessivas, os últimos cem anos contribuíram para a libertação dos homens, embora novas etnias sociais, como as dos moradores de rua, tenham surgido da economia neoliberal, essa teologia dos banqueiros. Tendler cita como sinais da esperança a eleição do operário Lula, no Brasil, e a de um negro, Obama, para presidir os Estados Unidos.
As utopias, em todos os tempos, são a denúncia da injustiça e o ânimo para a resistência. Elas se realizam pouco a pouco; a cada passo trazem novas esperanças e se distanciam, como as linhas do horizonte, quando delas nos aproximamos. São inalcançáveis, como os arcos-íris. Ao mesmo tempo, suas conquistas açulam as contrautopias, para a violenta reação que conhecemos. Nesse jogo dialético entre a barbárie e a utopia, se faz a história, com a grandeza e a miséria da condição humana.
momhttp://blogdofavre.ig.com.br/tag/henri-cartier-bresson
O momento preciso
Emanoel Barreto
A foto é de autoria de Henry Cartier Bresson, artista que marcou não apenas o século passado, mas toda a história do foto-jornalismo desde então e para sempre. Dele, já li que definia seu trabalho como a captação do que chamava de "o momento preciso" - aquele instante mágico em que o olhar sensível percebe um dado de mundo e seu congelamento exato em imagem-emocionada.
O momento preciso é aquele instante em que o fotógrafo sente-se implicado à cena, é parte dela enquanto orbservador-participante. Participante no exato instante em que ela o impressiona e a trans-forma em depoimento histórico.
Histórico como aquilo que terá relevo nos registros da grande vida social, como os feitos da humanidade em suas grandiosas ou degradadas manifestações, ou histórico enquanto captação de momentos públicos íntimos, como o encontro do casal.
Tudo é história, tudo é vida. Tudo pode ser o momento preciso. Basta dar-lhe significação. O problema é a genialidade para expressar esse momento.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
De frente pro crime ou o sorriso da Mona Lisa
Emanoel Barreto
Em minhas aulas sobre formas de comunicação disruptivas, como atos de protesto e ações terroristas, cujo objetivo imediato é abrir espaço midiático literalmente à força, costumo lembrar aos alunos que, no respeitante ao terrorismo, trata-se, além da forma abjeta da ação, de algo que obtém efetivo resultado - lamentavelmente, pela mídia, eles conseguem levar adiante a sua mensagem bombástica - perdão pelo trocadilho.
Mesmo que não sejam experts em comunicação, do ponto de vista teórico, os terroristas têm, pela própria experiência, uma certeza: aquilo que irão perpetrar encontrará espaço no mundo da mídia. Isso em função de algo que intuitivamente percebem: tudo o que quebra a planura do cotidiano, afasta-se do comum e do normal, chama a atenção dos jornalistas.
Desta forma, terroristas dão andamento às suas ações, que em si são discursos, são formas de dizer ao outrem, ao terceiro, no caso a sociedade ameaçada, que suas atitudes serão levadas avante a despeito de esquemas de segurança, precauções e cuidados militares ou policiais. Ou seja: a mensagem terrorista "informa" que eles, os terroristas, têm a possibilidade de alguma forma de invisibilidade - chegar sorrateiramente ao núcleo social visado e ali praticar o objetivo pretendido com obstinação e destemor.
É como se dissessem: "Nós estamos aqui. Ninguém está a salvo. Podemos agir a qualquer momento, em qualquer lugar, contra qualquer pessoa. E essa pessoa pode ser você, sua mulher, seus filhos, seu marido, qualquer um..."
Essa a essência do terror: infundir um sentimento coletivo de perplexidade, de desequilíbrio. As ações do terror são um grande discurso comportamental, um ato frasal escrito com sangue e destroços, uma ameaça que paira, amparada pelo pálio do sectarismo.
Na foto de capa da Folha a cara do terrorista sorri sutilmente. É o mesmo mistério que emoldura o enigma da Mona Lisa. Ela talvez nos perguntando quo vadis; ele com o cinismo dos que sabem que, olhando para si, estamos de frente pro crime em sua mais terrível e intiminadora acepção.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
A notinha contra Serra ficou bem escondidinha
Emanoel Barreto
Preste atenção à primeira página da Folha. Prestou? Não viu nada de errado? Não? Vou explicar: Quem entende de jornal de forma mais aprofundada não deixará de notar que a notícia intitulada "Ato com apoio a Serra recebe R$ 540 mil em verba pública" foi diagramado no canto superior direito da página.
Por que isso? Muito simples: é por demais conhecido no meio jornalístico que matérias nessa configuração visual tendem a ser relegadas pelo leitor, cuja visão está condicionada a fazer o reconhecimento da página da esquerda para a direita e de cima para baixo.
Logo, o olhar busca a matéria seguinte após a manchete, que é a notícia sobre a Grécia.Claro que a unidade gráfico-noticiosa abordando Serra será lida. Mas, ao contrário do noticiário sobre o PT, não foi a manchete.
Interpretando o fato temos que a Folha cumpriu com a essência do seu projeto político-editorial: deu a notícia, mas sem o grito manchetesco. Ou seja: com isso não poderá ser acusada de imparcialidade, já que está "noticiando os dois lados", com material de valência negativada seja para Serra seja para o PT ao longo das edições.
A observação do recurso, todavia, nos mostra o discurso enviesado do jornal e como joga com o leitor. Trata-se de um trabalho dissimulado, contínuo. Um agendamento lento, seguro e gradual. Ao longo da próxima campanha presidencial esse comportamento deverá ficar mais claro e será possível perceber o apoio do jornal ao tucanato.
Se é que você ainda não o descobriu...
Assinar:
Postagens (Atom)



























