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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Acabo de chegar da morte

Pois é: acabo de chegar da morte. Vi o corpo de um amigo no calar impenetrável da vida ausente no corpo. Acabo de chegar da morte. A missa as orações, os cânticos; o choro da filha dele, hoje mulher que vi menina ao lado das minhas meninas, filhas do meu amor de pai, tudo isso me emocionou poderosamente. 
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Acabo de chegar da morte. E me pergunto o que é aquele silêncio de vida no corpo calado. 

Acabo de chegar da morte enquanto a chuva cai numa espécie de choro que vem do Alto e nos banha com sua sentença: sois todos homens. E ser homem é já nascer julgado, é ser em si uma prisão, é ser estrangeiro a habitar passos, caminhos desvãos. 

Acabo de chegar da morte. 

Mas o choro da chuva de alguma forma me diz que quem acaba de chegar da morte termina sempre por encontrar motivos para entender que antes da morte, e depois dela, a Vida  é o lume sempre que vem e nos habita.

 Então, se acabo de chegar da morte é porque estou permanentemente envolto em Vida. E o meu amigo de alguma forma está cantando na chuva. Abraço grande, meu amigo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A capa da noite e o soluço

Aos poucos a capa da noite se desembainha e se espalha, 
Marco Santos
enquanto pássaros cantam uma plenária de gritos. 

A noite é um grande sussurro de escuridão, 
esse ser intocável que se esconde da luz
quando a luz começa a soluçar mais um dia.

Somos habitantes dessa eterna elegia.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

 Encontrar a coragem da luz na rua escura
Emanoel Barreto

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   Temor, insegurança, a rua escura, a chuva fria ventando, o passo seguinte, o cigarro apagado pela chuva, a esquina amedrontadora, marquises pingando, o vento mais forte ainda, a chuva mais forte ainda, a roupa encharcada, a noite adentro, a luz da cidade que se apagou toda, o caminhar na treva densa, o rosnar de um cão em meio ao medo, a incerteza do outro passo, a parada na marquise seguinte, a espera, outro passo, um carro que passa zunindo e espalhando água, o frio entrando na roupa, o corpo tremendo, a incerteza de estar no caminho certo, por que demorou tanto a sair de onde estava se sabia que a chuva vinha e com a chuva vinham o vento, o frio e o medo, o cão rosnando que persegue, correr não adianta, temor, não há nada a fazer senão andar, andar a esmo porque o escuro é uma coisa que não tem rumo certo, onde estará mesmo a casa, norte, sul, leste ou oeste, o que são mesmo norte, sul, leste e oeste se não há luz para dizer onde eles estão, caminhar, caminhar, caminhar, perder-se para afinal encontrar a coragem da luz.