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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Acabo de chegar da morte

Pois é: acabo de chegar da morte. Vi o corpo de um amigo no calar impenetrável da vida ausente no corpo. Acabo de chegar da morte. A missa as orações, os cânticos; o choro da filha dele, hoje mulher que vi menina ao lado das minhas meninas, filhas do meu amor de pai, tudo isso me emocionou poderosamente. 
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Acabo de chegar da morte. E me pergunto o que é aquele silêncio de vida no corpo calado. 

Acabo de chegar da morte enquanto a chuva cai numa espécie de choro que vem do Alto e nos banha com sua sentença: sois todos homens. E ser homem é já nascer julgado, é ser em si uma prisão, é ser estrangeiro a habitar passos, caminhos desvãos. 

Acabo de chegar da morte. 

Mas o choro da chuva de alguma forma me diz que quem acaba de chegar da morte termina sempre por encontrar motivos para entender que antes da morte, e depois dela, a Vida  é o lume sempre que vem e nos habita.

 Então, se acabo de chegar da morte é porque estou permanentemente envolto em Vida. E o meu amigo de alguma forma está cantando na chuva. Abraço grande, meu amigo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A sensata loucura
Aquela ponte sempre tivera sobre aquele homem o sentido de um desafio e despertara estranha sensação de complementaridade: a ponte sobre o rio fora partida ao meio por uma grande chuva. Assim, só tinha metade da pista. Ele também havia sido destruído em parte; somente tinha movimentos da cintura para cima. Acidente de carro. A sensação de proximidade se dava na lamentável condição de aleijados, ele e a ponte. O desafio era cruzar o rio mesmo sem a ponte. Ou seja: ele queria chegar ao outro lado do rio, voltar de alguma forma e contar à ponte como era chegar ao outro lado. Devia isso à ponte. A ela sentia-se apegado e amigo.

http://www.google.com.br/imgres?q=uma+ponte+destruida
Passou a fazer planos: contratar um homem forte que o atirasse até à outra margem do rio; ser puxado por uma corda até lá; pessoas em fila o iriam passando de mão em mão, cruzando a correnteza; esperar por um milagre ou o pior de tudo: desistir. Mas, entendeu, desistir não era exatamente planejar: desistir é uma forma de acovardar-se.


E ele já tinha duas pernas covardes e uma ponte aleijada. Não dava para desistir. Foi assim que resolveu assumir o risco. Um velho amigo o empurraria em sua cadeira de rodas a toda velocidade e ele sairia planando de um lado a outro do rio. Seria uma grande vitória: dele e da ponte que de alguma maneira teria atravessado o rio com sua pista inexistente.


Então, no dia aprazado, o velho amigo apareceu para ajudá-lo. Mas era um velho autêntico. Setenta anos. Com grande dificuldade empurrava a  cadeira de rodas, que movia-se centímetro a centímetro sobre a ponte mutilada. Aquela pobre e corajosa cena comoveu a um jovem que passava nas imediações. Aproximou-se e lhe foi contada a aventura que ali claudicava. 
O jovem era um louco e dizia caminhar nas nuvens. Assim, depois de reafirmar sua loucura, tirou o homem da cadeira e começou a caminhar em direção ao final da pista. Ali chegou, meteu começou a caminhar nos ares e continuou a andar até chegar ao outro lado do rio. Ato contínuo fez a volta, sempre caminhando no ar.


Chegando à ponte depositou o homem em sua cadeira de rodas e sumiu. E o homem, o velho e a ponte comemoraram aquela grande vitória: acreditar no que ninguém mais acredita; acreditar especialmente naquilo que ninguém sequer suponha que exista. Esse o segredo da sensata loucura.

sábado, 25 de dezembro de 2010

 Leio na Folha e compartilho esta impressionante matéria:

Medalhista paraolímpica volta a andar após dez anos e quer disputar Ironman do Havaí

DA ASSOCIATED PRESS
A holandesa Monique van der Vorst pode dizer que vive, hoje, uma terceira vida.
Ex-atleta paraolímpica, aos 26 anos, ela passou neste ano o que muitos diriam que é impossível: voltar a andar depois de mais de dez anos, quando médicos davam como irreversível uma paralisia nas duas pernas. 

A história de superação de Monique começou há 13 anos, quando ela, sonhando em ser uma atleta profissional, torceu o tornozelo jogando hóquei.
Após um erro médico, uma simples lesão resultou, primeiro, na paralisia da perna esquerda e um ano depois na da direita.

Bas Czerwinski/AP
ORG XMIT: AMS104 Monique van der Vorst poses near her wheelchair at the Olympic stadium in Amsterdam, Netherlands, Tuesday, Dec. 21, 2010. Almost half her life, van der Vorst was wheelchair bound until a freak accident in spring training 2010 sent uncontrollable, spastic shudders through her legs. It was as if a jumper cable set her old body in motion again, the body she had before she became paralyzed barely a teenager. Now at 26, she is starting a third life, literally learning how to walk and, hopefully, run again, dealing with fortitude she no longer held possible. (AP Photo/Bas Czerwinski)
Monique van der Vorst caminha ao lado da cadeira de rodas no estádio olímpico de Amsterdã, na Holanda    
"Na época, vi que depois da consulta minha perna ficou roxa e fria. Dias depois parou de fazer qualquer movimento, e nenhum médico conseguiu me explicar o motivo", disse a holandesa.
"Minha família tentou tudo o que era possível para eu voltar a andar. Fomos a dezenas de médicos, mas ninguém entendia o que acontecia com minhas pernas", comentou.
Após um grande período deprimida, tentando se adaptar a nova vida, Monique conheceu o esporte paraolímpico, mais precisamente as corridas de cadeira de rodas e o handcycle (corrida de bicicleta onde se pedala com as mãos). 

Aos 15 anos participou da primeira competição nas modalidades.
"Na época, o esporte me deu autoestima. Aprendi a pensar em possibilidades e não em limitações", disse ela. 

Com o passar do tempo, Monique não pensava mais em voltar a correr. A atleta aprendeu, com o esporte, a viver com independência.
Mathilde Dusol - 12.set.2010/AP
Nos Jogos de Pequim, em 2008, Monique compete no handcycle, prova que foi medalha de prata
Nos Jogos de Pequim, em 2008, Monique compete no handcycle, prova que foi medalha de prata

Depois de muito treino, ela conseguiu atingir um de seus objetivos: a medalha nos Jogos Paraolímpicos de Pequim-2008.
A atleta foi prata nas duas modalidades, sendo que no handcyle o ouro não foi conquistado na prova de 40km de estrada por apenas 0,13s.
Em 2009, ela também foi destaque do Ironman 2009 no Havaí, como uma das poucas atletas da modalidade paraolímpica a completar a prova

O Ironman do Havaí é uma das provas mais difíceis do mundo e consiste em um triatlo de 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida (equivalente a uma maratona).
Na temporada de 2010, Monique começou a preparação para os Jogos de Londres, em 2012. O objetivo era deixar a segunda colocação para trás e conquistar dois ouros.
Mas o sonho, novamente, não será possível. 

Dois acidente mudaram a vida da atleta. Um primeiro em março deste ano, quando estava treinando e uma companheira se chocou contra ela. O impacto a fez cair no chão e, surpreendentemente, as pernas reagiram com espasmos. 

"No começo fiquei muito triste com o acidente porque minha preparação para a temporada tinha sido afetada e temia não poder estar bem nos Jogos de Londres", revelou a ex-atleta.
O outro acidente ocorreu em junho e resultou em um momento único na vida de Monique. Durante o treino, ela foi atingida por um carro e sofreu danos na medula espinhal. Neste momento, as pernas voltaram a formigar e em poucos dias ela já podia senti-las.
No primeiro momento, ter a possibilidade de voltar a andar foi um choque.
Mathilde Dusol/AP
ORG XMIT: AMS106 In this photo taken Sept 12, 2008 Monique van der Vorst shows her silver medal in the time trial handbike event at the 2008 Paralympic Games in Beijing, China. Almost half her life, van der Vorst was wheelchair bound until a freak accident in spring training 2010 sent uncontrollable, spastic shudders through her legs. It was as if a jumper cable set her old body in motion again, the body she had before she became paralyzed barely a teenager. Now at 26, she is starting a third life, literally learning how to walk and, hopefully, run again, dealing with fortitude she no longer held possible. (AP Photo/Mathilde Dusol) MANDATORY CREDIT
Monique exibe sua medalha de prata conquistada nos Jogos Paraolímpicos de Pequim-2008
"Não foi fácil para ela abandonar a possibilidade competir nos Jogos Paraolímpicos. Tivemos que apoia-la muito para fazer esta transição", disse André Gatos, chefe da missão paraolímpica da Holanda.
Os resultados dos exames foram tão fora do comum, que todos os médicos que cuidavam de Monique ficaram surpresos com o novo quadro. 

"Milhares de pessoas tem lesões na medula óssea, cada uma com sensações diferentes no corpo. Mas é incomum poder andar de novo", o médico John Ridwell, especializado em lesões da medula espinhal na Universidade de Glasgow.
Em julho começou a fazer fisioterapia e em dezembro a ex-atleta se emociona por poder dar seus primeiros passos nesta nova vida. 

"Competir foi uma grande paixão. Agora é difícil porque eu preciso encontrar um novo propósito na vida. Mas sei que vou superar", falou Monique
Nesta nova fase da vida, a holandesa já tem um novo objetivo também:
"Seria um sonho poder participar do Ironman, mas desta vez como uma atleta comum", finalizou.

sábado, 30 de outubro de 2010

Aos meus Alunos e Alunas, para que a luta seja feita de Coragem
Emanoel Barreto

A Vocês que empalmaram comigo a luta pelo Jornal Universitário; a Vocês que desejam um Jornal Livre, cidadão e forte, dedico o texto magnífico de Leonardo Boff. Eu, que sou o VelhoBarreto no Twitter, também experimento como o Mestre Boff a passagem da Vida e da Luta. Ao lado da sua Generosidade e Confiança, Coragem e Desapego, Juventude e Força. Queremos um jornal.
Compartilho o que se segue:

OFICIALMENTE VELHO (Texto de Leonardo Boff)

Por Leonardo Boff - Adital - do Rio de Janeiro

Neste mês de dezembro completo 70 anos: diz Leonardo Boff.

Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira.

Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas.
De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas.

Mas há um outro lado, mais instigante.
A velhice é a última etapa do crescimento humano.
Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino.

Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer e, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer; quando então entramos no silêncio e morremos.

A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer.
Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: "NA MEDIDA QUE DEFINHA O HOMEM EXTERIOR, NESTA MESMA MEDIDA REJUVENESCE O HOMEM INTERIOR"(2Cor 4,16).

A velhice é uma exigência do homem interior.
Muitas vezes perguntamos: Que é o homem interior?
O homem interior é o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical.  Identidade esta que devemos encará-la face a face.

Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe.
Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis:
Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, (inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano), submetido ao "silêncio obsequioso" e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha. Quando então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos:

Afinal, quem sou eu?
Que sonhos me movem?
Que anjos que habitam?
Que demônios me atormentam?
Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério?

Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações vem à lume o homem interior e a resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável.
Este é o verdadeiro desafio para a etapa da velhice.
Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina.

Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida.
Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria.

É ilusão pensar que esta sabedoria vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.

Por fim, o que importa preparar o grande Encontro.
A vida não é estruturada para terminar na morte, mas para se transfigurar através da morte.
Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia.
Aí saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.
Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: "contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade".

Por fim, este jovem ancião alimenta dois sonhos: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa:
"eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver". Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus.
Parafraseando Camões, completo: Mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.

Leonardo Boff é teólogo

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

 Encontrar a coragem da luz na rua escura
Emanoel Barreto

http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://1.bp.blogspot.com

   Temor, insegurança, a rua escura, a chuva fria ventando, o passo seguinte, o cigarro apagado pela chuva, a esquina amedrontadora, marquises pingando, o vento mais forte ainda, a chuva mais forte ainda, a roupa encharcada, a noite adentro, a luz da cidade que se apagou toda, o caminhar na treva densa, o rosnar de um cão em meio ao medo, a incerteza do outro passo, a parada na marquise seguinte, a espera, outro passo, um carro que passa zunindo e espalhando água, o frio entrando na roupa, o corpo tremendo, a incerteza de estar no caminho certo, por que demorou tanto a sair de onde estava se sabia que a chuva vinha e com a chuva vinham o vento, o frio e o medo, o cão rosnando que persegue, correr não adianta, temor, não há nada a fazer senão andar, andar a esmo porque o escuro é uma coisa que não tem rumo certo, onde estará mesmo a casa, norte, sul, leste ou oeste, o que são mesmo norte, sul, leste e oeste se não há luz para dizer onde eles estão, caminhar, caminhar, caminhar, perder-se para afinal encontrar a coragem da luz.