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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Tiririca chega à Câmara. Encontrou um sapato no chão e devolveu. Daqui a mais uns tempos isso não acontece. Vão querer levar o rapaz para o mau caminho...

"Cheguei em um bom dia", diz Tiririca

Humorista faz visita guiada pelo Congresso pela primeira vez depois de ser eleito o deputado mais votado do país

Palhaço chama reajuste aprovado ontem de "bacana" e diz que não usará fantasia porque Câmara "é coisa séria"

Sergio Lima/Folhapress

O humorista e deputado eleito, Tiririca (esq.), conversa com Temer, presidente da Câmara

DE BRASÍLIA

Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, chegou para sua primeira visita à Câmara dos Deputados, ontem, no mesmo momento em que o plenário da Casa analisava projeto de reajuste dos salários para o Legislativo e o Executivo.

O humorista e deputado federal mais votado do país elogiou a proposta que elevou os salários para R$ 26,7 mil. "Cheguei em um bom dia, dei sorte. Acho [o aumento] bacana, acho legal."
Logo depois de chegar à Câmara, Tiririca, eleito pelo PR de São Paulo, disse que já tinha aprendido o que faz um deputado, mas aprenderá mais com seus colegas.

Um dos slogans usados em sua campanha foi: "O que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto".

O deputado eleito afirmou que não vai abandonar a sua personagem, mas disse que não vai usar sua fantasia, "porque aqui é coisa séria".

Segundo ele, sua vida artística não será deixada de lado. "Ainda tenho quatro anos de contrato [como comediante com a Rede Record]", afirmou.

O novo deputado, que será diplomado amanhã em São Paulo, negou que esteja sentindo preconceito com a sua chegada ao Congresso e citou o presidente Lula como o político que mais admira.

VISITA GUIADA
Tiririca chegou à Câmara por volta das 14h ontem e fez um tour pelas dependências do Congresso, ciceroneado por Sandro Mabel (PR-GO).
Ele foi acompanhado por inúmeros jornalistas e fotógrafos -um deles chegou até a perder o sapato. O humorista o devolveu ao dono.

O novo deputado também foi alvo de atenção dos próprios congressistas. Inocêncio de Oliveira (PR-PE) pediu o apoio para continuar integrando a Mesa da Casa.

Questionado se estava espantado com o assédio, Tiririca disse que já tinha ocorrido o mesmo quando lançou a música "Florentina".

Eleito com 1,3 milhão de votos, o deputado foi acusado pelo Ministério Público foi acusado de apresentar declarações falsas sobre sua alfabetização e sobre seus bens à Justiça Eleitoral, mas foi absolvido. (MCC)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ô, abestado...
Emanoel Barreto

Começo a duvidar seriamente do estado de sanidade mental do promotor Maurício Lopes, que vai recorrer da sentença que garantiu a posse de Tiririca como deputado federal. Parece até coisa de perseguição, tipo a do Tenente Gerard, aquele que perseguia obsessivamente o Fugitivo, famoso personagem da série dos anos 60, refilmado há alguns anos.

Imagtem: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http
O juiz que liberou o palhaço, ator, farsante (no sentido teatral), clown, pantomimeiro, o que seja, o fez seguindo uma coisa chamada bom-senso. São nada menos que 1 milhão, 300 mil votos, o que não é pouca coisa, a respaldar o mandato. A isso dá-se o nome de legitimidade. 

Chega a ser ridículo, perigosamente ridículo o comportamento arrogante e preconceituoso. Será que esse promotor não tem mais nada a fazer?

Não há bandidos demais, corruptos demais, gente que não presta demais na nossa vida pública para ele exercitar sua ludicidade jurídica? Ou será que o promotor é um abestado?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Se balançar cai. E pode ser bem podre
Emanoel Barreto

Esse promotor Maurício Lopes parece não perceber o ridículo em que está se metendo ao literalmente perseguir o palhaço Tiririca.

Veja só, o que diz a Folha: "O promotor Maurício Lopes pediu à Justiça que o deputado eleito Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), o Tiririca, seja condenado a cinco anos de prisão. Essa é a pena máxima para o crime de falsidade ideológica, do qual o humorista é acusado".

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Discriminação e preconceito: Tiririca tem de provar que é gente
Emanoel Barreto
 
Nordestino, mestiço, feio. Já foi pobre. À exceção do fato de que não é mais pobre, Tiririca, aliás deputado eleito Francisco Everardo Oliveira Silva, não podia esperar outra coisa que não o preconceito da elite branca e jurídica de S. Paulo. E não deu outra: foi obrigado a provar que tinha direito sim de assumir o mandato que lhe foi outorgado por bem mais de um milhão de votos. 

 Hoje à tarde, após ser constrangido a ler e escrever, foi afinal tido como gente e admitido a assentar-se às impolutas cadeiras da nossa Câmara dos Deputados. A presença de Tiririca em plenário tem um sentido simbólico que supera em muito sua evidentemente acanhada figura de futuro parlamentar: ele é legitimamente um representante do povo, pois deste veio e sobreviveu a duras penas. 

Sem a fidalguia e a eruditismo de alguns de seus próximos pares, a figura de Tiririca será como uma sombra viva, passos de acusação, zumbi vindo dos manguezais e caatingas da pobreza mais aviltante, que muitos dos que na Câmara se encontram ajudam a perpetuar com seus gestos de corrupção e conluios.

Tiririca é o gol de placa feito por time de várzea em seleção de Primeiro Mundo. É o gemido do povo dizendo "eu existo", é o grito, a denúncia viva do escárnio que é tão solertamente prepetrado pelos membros da elite que resfolegam, obscenos, nos escaninhos do parlamento.

Tiririca pensa, apesar de tudo, pensa. Logo, existe.
Foto:Apu Gomes/Folhapress

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Tiririca chamado a provar que sabe ler e escrever
Emanoel Barreto

Leio na Folha: A Justiça Eleitoral convocará o humorista Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), o palhaço Tiririca, para a realização de um ditado e a leitura de um texto simples para verificação da condição dele de alfabetizado.


Segundo o juiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Aloísio Sérgio Rezende Silveira, a medida servirá para que "o juízo possa analisar melhor a defesa apresentada pelo humorista na ação penal".

O juiz afirmou que Tiririca poderá se recusar a comparecer à audiência para realização dos testes ou negar-se a participar deles, pois "a lei penal estabelece que ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo".

A estranha legislação eleitoral permite que analfabetos possam votar, mas os impede de ser ser votados. Somos hoje 16 milhões de analfabetos que podem votar em candidatos da elite, mas não podem ser votados, eleitos e emparelhar-se às elites em plenários que vão desde câmaras municipais ao senado.

Um analfabeto pode ter sim diminuída sua compreensão de determinados problemas, em face de não ter tomado conhecimento das diversas realidades do mundo social via livros. Mas não se lhes pode negar acesso aos plenários e às decisões. São eles parte legítima para as discussões, porque povo são em essência.
 

Ou alguém pensa que, por exemplo, Collor de Mello seja povo na acepção aqui proposta? Tiririca obteve mais, bem mais de um milhão de votos. Portanto, está legitimado por expressivo contingente desse ser colativo a quem chamamos povo. Foi eleito. Deve tomar posse e exercer o seu mandato.

Como o fará, aí é outra coisa. Mas, permita-me: por que não se pede idoneidade moral aos muitos vilões e vilãs que ocupam respeitáveis cadeiras nos ricos plenários? Por que, heim?

domingo, 24 de outubro de 2010

Um belo e análitico texto que encontro na revista Aliás, do Estadão:  

Tiririca se escreve com...   

LILIA MORITZ SCHWARCZ

Se o tema do momento é o segundo turno, ninguém parece disposto a abrir mão de comentar os resultados “escandalosos” do primeiro, como o “crime de falsidade ideológica” pelo qual está sendo acusado o humorista Tiririca. Num país conhecido por seu imenso colégio eleitoral, de 135.800.433 votantes, ele se sagrou vencedor absoluto. Francisco Everardo Oliveira Silva filiou-se faz pouco ao Partido da República e foi eleito deputado federal com o segundo maior número de votos ao cargo que o Estado de São Paulo já conheceu. Antes dele, apenas Enéas, do igualmente estranho Prona, havia chegado a tão alta apuração. Se o doutor Enéas contou com 1.57 milhão de votos, Tiririca obteve 1.348.295 (6,35% do eleitorado paulista) e representa um enigma que, ao contrário do que garantem os adjetivos fáceis, é difícil de resolver.


Paulo Liebert/AE
À paisana, o palhaço assina-se Francisco Everardo Oliveira Silva depois de votar
É fato que muitos eleitores votaram nele para reagir à política brasileira, mas a atitude nada tem de original. Em 1959, surgiu Cacareco, um pacato e idoso rinoceronte do zoológico de São Paulo, eleito vereador com 100 mil votos. Caso famoso é o do ator Grande Otelo, candidato a vereador em 1958 e que só não levou o cargo porque eleitores votaram no seu apelido, e não no nome da cédula: Sebastião Bernardes de Souza Prata. E a lista de candidatos inexistentes ou estranhos à política profissional não para por aí.

Mas não há ingenuidade na candidatura de Tiririca. Ao contrário, recursos consideráveis foram investidos na campanha, com intenção de transformá-lo num campeão de votos, levando consigo outros deputados do partido. O PR utilizou-se do complicado cálculo da nossa legislação, que procura balancear a distribuição de votos em eleições proporcionais, e fez mais três deputados na conta das cédulas endereçadas à Tiririca, dentre eles o controverso delegado Protógenes. Tiririca não é, pois, apenas um Cacareco. 

Se a indicação do humorista representa um voto de protesto, é também termômetro para entender como se negociam as brechas deixadas pelas regras eleitorais. Mas essa massa de adesões representa mais: quem sabe simpatia. Tiririca é figura de linguagem e expressão populares, e parte de seus votos vem justamente de uma camada que estranha os candidatos à disposição e se identifica com os termos e o humor de nosso palhaço. Não há de ser mera alienação!

Impressiona a reação de Tiririca diante da acusação que recebeu. Impressiona mais ainda que a comoção geral vise ao eleito, e não ao eleitorado. Frente à denúncia da perícia técnica do Instituto de Criminalística, que apurou “discrepâncias na grafia” do documento apresentado pelo candidato (sim, porque no ato de inscrição é possível incluir comprovante de escolaridade ou declaração de próprio punho provando alfabetização), o acusado se vexa e o eleitorado mostra-se pasmo. Em primeiro lugar, o problema de Tiririca não é exótico ou particular. 

É antes decorrência de um atraso estrutural e histórico. Em segundo, vale refletir sobre a complexidade de nosso sistema eleitoral que, à sua maneira, reflete enigma bem brasileiro. Neste país, marcado por índices altos de analfabetismo, a legislação reconhece à essa população o direito de voto, mas não o de candidatura. Podem eleger, não serem eleitos.
Tal paradoxo deveria chamar atenção para o problema do analfabetismo e para a questão de como o eleitor escolhe seus representantes. 

O Brasil está entre os 10 países mais desiguais do mundo, contando com 16. 295 milhões de analfabetos (9,7% da população). Se levarmos em conta a definição de analfabetismo funcional – que inclui aqueles com menos de quatro séries concluídas –, o número salta para 33 milhões. Estudos revelam, ainda, que aproximadamente 8 milhões dos analfabetos concentram-se em 586 cidades, sobretudo nas capitais. Só na cidade de São Paulo são mais de 383 mil pessoas. O Estado do Ceará, já que Tiririca nasceu em Itapipoca, aparece na lanterninha no que se refere a índices de alfabetização: em 23º lugar, apenas na frente de Maranhão, Paraíba, Piauí e Alagoas.

Pesquisas recentes comprovam que o ator não foi registrado em escolas locais. Parentes e vizinhos afirmam, porém, que Tiririca tinha aulas e fazia seus “deveres” em casa, um costume tão brasileiro. Mesmo se desconfiarmos dos depoimentos dos amigos seria possível lembrar que, caso Tiririca fosse um analfabeto funcional, a exposição à leitura e redação públicas poderia lhe causar sério constrangimento.

Não quero trocar o seguro pelo inseguro e optar pela história do “talvez”. Até porque Tiririca foi o primeiro a declarar: “Eu não leio nada; minha mulher lê para mim”. Na sequência, porém, deixou mensagem no site afirmando que “anda chateado por ter de provar que sabe ler”. Fico pensando nas várias humilhações a que submetemos os destituídos de cultura letrada. O fato é que o artista pode mesmo ser incluído no artigo 350, que prevê como crime eleitoral “omitir, em documento público ou particular, declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, para fins eleitorais”.

No entanto, melhor do que apenas lamentar a ignorância alheia, é pensar sobre o destino dessa montanha de votos e acerca das intenções do eleitorado do comediante. Tiririca se sagrou deputado numa eleição em que políticos tradicionais não se reelegeram e na qual, em compensação, vários candidatos igualmente afastados do dia a dia de Brasília constam entre os mais votados. O que fazer com a danada da realidade?

Enquanto esperamos pela resolução, sugiro uma olhada nas propostas dos candidatos à Presidência, em especial na maneira como pretendem lidar com esse problema chamado analfabetismo, resultado perverso de séculos de exclusão social. Quem sabe o caso de Tiririca seja menos causa; é mais consequência.

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS, 2008)
Foto: Paulo Liebert/AE

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Algumas considerações sobre Tiririca e a carnavalização

O Abestado no picadeiro de Brasília
Emanoel Barreto

Vejo na Folha: A Justiça Eleitoral de São Paulo rejeitou a denúncia oferecida pelo Ministério Público Eleitoral contra o palhaço Tiririca (PR) por causa do suposto analfabetismo do candidato.
O juiz Aloísio Sérgio Rezende Silveira, se baseou no entendimento do TRE (Tribunal Regional Eleitoral), durante o processo de registro de candidatura, de que não não havia qualquer causa de inelegibilidade, inclusive quanto à instrução mínima.

Agiu bem a Justiça. A presença de Tiririca no cenário político nacional já foi notícia até no Le Monde, de Paris, quando o jornal francês afirma que ele deverá ter uma votação "formidável", ajudando a eleger mais uns dois deputados do seu partido, o PR.

Tiririca será, na Câmara, poderosa presença da carnavalização da vida brasileira; metafórica presença do povo, pobrinho, a se contrapor às elites, aos grandes, aos bem-vestidos, aos sepulcros caiados. Será a figuração viva do Abestado, do homem comum, em meio ao happening dos falastrões e endinheirados. 


Ele é a contraface de tudo aquilo lá. O avesso do avesso do avesso  do avesso. Não, não será eloquente nem consciente do papel que representa; sequer vai perceber o quanto sua figura oriunda da grotesqueria causará impacto.


Sem dúvida, foi movido pelo oportunismo de embolsar uma boa nota no fim do mês. Se souber poupar, terá uma bela aposentadoria. 


Mas é importante a ascensão desse palhaço, não pelo que posse objetivamente fazer, mas como valor simbólico, como um tapa na cara dos bandidos de gravata, perfumados e podres. Ele viverá a farsa do poder como o escrachado, o malandro, o moleque, o Macunaíma se aproveitando da preguiça que enseba o plenário, os gabinetes, as farras, os roubos vestidos de decência.


No voto a Tiririca há uma forma de protesto bruto, regado a cachaça e a gritos de gol, galinha com farofa e arroto. Como Chacrinha, ele vem para confundir, não para explicar.

Agora, uma ligeira explicação a respeito da carnavalização. Visão que foge do senso comum a respeito do carnaval e da carnavalização diz o seguinte: 
1. Em seu livro, hoje clássico, e já traduzido para português, "Problemas da Poética de Dostoiewski", Mikhail Bakhtin lançou as bases da teoria crítica da carnavalização. 
 
Esta forma crítica de pesquisa veio dizer-nos que há textos literários que foram elaborados sob o signo da carnavalização. Esses textos mostram a cultura de um povo em seus efeitos cômicos e paródicos proporcionados pelo insconsciente social manifestados nos rituais de máscaras, no riso, na busca do grotesco, nas festas, nas orgias, no carnaval, nos rituais religiosos, etc. 

 
2. A carnavalização, segundo Bakhtin, pode ser um desvio e também uma inversão dos costumes consagrados, como fez a geração hippie, que sobrepôs o sacro e o profano, o velho e o novo, sem atender a certas normas de interdição social. A carnavalização é de alguma maneira o mundo às avessas e pode ter a leitura de uma parodização. 


3. A história nos mostra momentos de carnavalização. Esse mundo às avessas está na Idade Média, na pintura "O velho" de Breughel como na de Jerônimo Bosch e pode ser interpretado, conforme os casos, como desvio, como paródia, como estilização, como apropriação,como contra-estilo e até como contra-cultura, conforme já mostrou Affonso Romano Sant’Ana no capítulo "Carnavalização" do livro "Paródia, Paráfrase & Cia." publicado pela Ática, São Paulo(série Princípios), em 1985. 
 
O livro de Mikhail BAKHTIN, "Problemas da Poética de Dostoewski", saiu no Rio de Janeiro, pela Forense Universitária,em 1981. Quem estiver interessado na temática encontrará também em Nontgomery J. de VASCONCELOS, o capítulo "As funções da carnavalização na literatura”, inserida no livro "A Poética carnavalizada de Augusto dos Anjos". São Paulo, Editora Annablume, 1996, pp.29-50.Também Jorge SCHWARTZ, em "Um texto carnavalizado". In: Vanguarda e cosmopolitismo. São Paulo: Editora Perspectiva (Estudos 82),, 1983, pp.117-152, pode ajudar a pesquisa desta temática.

João Ferreira
outubro de 2001


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

É Tiririca ou não é?
Emanoel Barreto

Francisco Everaldo Oliveira Silva, o Tiririca, caso eleito poderá não assumir o mandato, sob alegação de que é analfabeto.A Procuradoria Regional Eleitoral (PRE) solicitou para revisão a documentação aoresentada pelo candidato. 

Não sei se se poderia chamar a isso excesso de zelo ou preconceito. Os ficha-suja estão livres para buscar nova eleição, enquanto um brasileiro ignorante, um palhaço pode ser impedido de assomar o púlpito e proferir seu discurso classe E.

Claro que a figura de Tiririca nada acrescenta ao panorama da Câmara. Como também não acrescenta nada a essa mesma Casa uma figura tipo Paulo Maluf. E mesmo assim não é ele seguidamente eleito? O que quero dizer é o seguinte: a presença de Tirrica no palco, perdão plenário da Câmara, seria a exibição mais poderosa do senso comum e da realidade brasileira.

Será uma espécie de matáfora a expor esse pobrinho como legítimo, é isso mesmo, legítimo representante popular. Pois não é o povo, em boa parte, analfabeto funcional? Por que, de repente, se insurgem os senhores da lei contra esse pobrezinho, esse ignorantezinho, ex-palhaço de circo mambembe?

A suposta votação que terá, expressiva ao que se diz, comprova o que digo: as pessoas que nele votarão sentem-se representadas. Ele é um igual e como igual àqueles deverá comparecer às sessões.

O Rio Grande do Norte já teve uma representante de origem humilde, o senador Agenor Nunes de Maria. Claro, Agenor, apesar de faltarem-lhe as letras, era um homem bem mais experiente e qualificado que Tiririca. Tinha um bom vocabulário e vinha de ser marinheiro.

Tornou-se conhecido no Congresso como "o gemido do povo" e costumava levar pequenos sacos de arroz ou feijão para exibir quando fazia pronunciamentos alertando quando a inflação fustigava os pobres. Era do MDB e ainda vivíamos a ditadura.

Entrevistei-o várias vezes. Era muito boa a convivência com aquele homem simples e carismático. Mas,voltemos a Tiririca: espero que seja eleito e, como metáfora ambulante do que seja povo, denuncie com a sua simples presença o que é o povo, ilustre povo em sua paixão e via sacra de sofrimentos.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

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Até que o circo pegue fogo
Emanoel Bareto

Ao tomar conhecimento da candidatura de Tiririca a deputado federal - o que não estranhei, somente lamentei - veio-me uma dúvida: mas não é a Câmara, exatamente, a Casa do Povo? E em assim sendo não deveria eu regozijar-me, pois não é ele, exatamente, povo?

Povo na mais objetiva acepção da palavra em seu sentido de alguém nascido, vivido e vivificador do cotidiano, explítico ator do senso comum, copartícipe do ato diário do experimentar o que seja o brasileiro?, o brasileiro das ruas, becos, filas, dores e medos desse ser brasileiro?

Sim, ele o é. Mas, então, porque eu e outros deploramos essa presença - essa e outras, como o ex-jogador Bebeto - inscritos formalmente à cena público-parlamentar? Haveria aí um contrassenso, um paradoxo?

Na verdade, não. O problema, a questão, está no fato de que Tiririca, Bebeto, Romário, Agnaldo Timóteo - que é vereador em S. Paulo - e quejandos, assomam ao palco político-partidário exatamente em função do que ele tem de palco - em seu sentido de proscênio, de espetáculo.

Estão ali literalmente como atores de seus próprios papéis midiáticos, arrimando-se espertamente da política para nutrir seus rendimentos pessoais. E o fazem em função de que a política, a que se pratica no Brasil, permite a sua assunção enquanto participantes de uma mascarada.

E assim eles se candidatam e têm, certamente têm, possibilidades de embolsar um mandato, pelo menos um, ganhando um agrado no fim do mês. E que agrado. E assim somos e assim vivemos. No Brasil, senhoras e senhores, sempre tem marmelada. Até que, um dia, o circo pegue fogo.