sexta-feira, 2 de abril de 2021

 O Satânico Dr. No e a pandemia no RN

Por Emanoel Barreto

O governo do Estado cedeu à pressão de grandes empresários, religiosos e rede privada de ensino e abriu as porteiras para que as pessoas possam, mas de maneira educada, cortês e com toda a finesse necessária, digamos assim, conviver com o perigo do coronavírus. Afinal, o corona é muito respeitoso das regras sociais, sabia?

As bondosas prescrições estão todas no decreto 30.458/2012.

A etiqueta para tal convivência com a ameaça, of course, reúne os ademanes e bons modos necessários a desestimular a covid de intentar a invasão de corpos, destroçá-los física e psicologicamente para, afinal, para lhes tirar a vida.

Tais primores de educação e respeito ao outro incluem: distanciamento social, limitação de horário de funcionamento de shoppings e academias e permissão de aulas até o quinto ano do ensino fundamental.

Sinceramente: qualquer pessoa minimamente capacitada a entender os perigos dessa pandemia sabe que isso não vai funcionar. Lembre que após a deflagração do Pacto pela Vida as coisas melhoraram um pouco. Agora, quando temos um mínimo de alento os mesmos atores voltam à carga e conseguem realizar seus intentos como se fosse possível negociar com um vírus fatal e em fase de mutação. Só que ninguém combinou com o corona.

Hipocrisia e má-fé. As tais medidas de segurança não asseguram, garantem ou impedem contaminações. As aglomerações são acontecimentos sociais dinâmicos e por si só  implicam em deslocamentos dos seus participantes, ampliando-se os riscos especialmente em ambientes fechados. Falando claro: ou enfrentamos essa covid com firmeza e coragem ou a pandemia somente será superada após muito tempo e mais perdas de vidas.

Acrescentemos o seguinte: a sociedade, por estupidez ou ignorância, comparece a tais locais públicos e tem sua parcela de culpa – na verdade grande culpa – uma vez que cada um nesse grande todo social deveria ter equilíbrio e juízo analítico para pensar em seus atos e nas consequências que advirão de tais comportamentos coletivos.

As flexibilizações vêm sempre com o carimbo de uma equipe científica, que avaliza e dá o imprimatur aos decretos que a rigor têm o mesmo conteúdo da soturna saudação dos gladiadores quando entravam no Coliseu, ou seja: “Ave César, os que vão morrer te saúdam.”

Lamento muito tudo isso. E chego a me permitir uma sombria e lúgubre licença poética e supor que os tais membros da equipe científica são nada menos que os tristemente famosos personagens Dr. Mabuse, Dr. Caligari, Dr. Frankenstein, o Satânico Dr. No e, claro, o Dr. Jekyll, de O médico e o monstro.

O decreto é hipócrita e deplorável. E todo mundo sabe disso.

sábado, 27 de março de 2021

 A máquina fotográfica e o gás aberto
Por Emanoel Barreto

 
Não gosto de lembrar que o Diário de Natal faliu. A redação funcionava na avenida Deodoro num local onde hoje para mim só existe saudade. Naquele tempo, quero dizer em 1974, o DN tinha um suplemento dominical, o Módulo 3,  onde os repórteres exercitavam seu lado mais criativo, com textos trabalhados, matérias escolhidas para uma boa leitura de fim de semana.

Pois bem, foi numa tarde qualquer que apareceu na redação, vindo-se sei lá de onde, o fotógrafo Paulo Saulo trazendo uma pequena escultura em vidro de lâmpada fluorescente. Uma pequena cegonha cheia de água colorida, que ele exibia todo orgulhoso. E contou, cheio de si: “Isso é feito à base de fogo. O cara, o artista que faz esses bichinhos, trabalha o vidro a quente e faz qualquer coisa com o vidro. Quer fazer uma matéria com ele?”

É claro que aceitei na hora. Seria uma bela matéria para o Módulo. E lá me fui eu, na sacolejante Kombi do jornal, rumo à Ribeira onde ficava a oficina do tal artista. Chegando, Paulo Saulo, hoje falecido, saltou rápido da Kombi e indicou onde iríamos fazer a matéria: “É ali. Naquela casa. Vamos fazer a matéria com o cara.”

Gostaria de lembrar que naquele tempo as máquinas fotográficas usavam filme.

Chegamos, nos apresentamos e o artista, alegre com a possibilidade de ficar conhecido, recebeu-nos de braços abertos. Eu perguntei: “Onde vai ser a entrevista?” Ele respondeu “ali” e apontou para a sua “oficina”. Olhei e confesso que não gostei do que vi: um quartinho apertado, quentíssimo, cheio de bujões de gás – lembre-se de que o homem trabalhava com fogo. Intimamente comecei a ficar preocupado com aquela reportagem.

Fogo, local apertado, gás, nenhuma segurança. Mas, afinal, eu estava ali para fazer a matéria. E entrei. O homem fechou a portinha do quarto, acendeu o maçarico, pegou uma lâmpada fluorescente de onde tinha retirado toda aquela tinta branca que recobre o vidro, que, assim, ficou completamente transparente. Claro, tinha que ser transparente, para ser possível ver a água colorida dentro da escultura.

Fez isso e começou a trabalhar. O calor foi aumentando até se tornar insuportável. O homem era realmente um mestre: tornava o vidro incandescente e trabalhava com rapidez. Paulo Saulo, encapetado, saltava de um lado para o outro, escolhia ângulos, colocava a objetiva em planos mais altos, mais baixos, fechava nas mãos do artesão, pegava planos gerais da cena.


Eu, que já havia feito um quem-é-quem com o homem, suava em bicas, até que ele afinal deu por concluído o seu trabalho, apresentando-nos uma estatueta de não-sei-lá-o-quê. Não lembro mais.

Terminamos tudo. Dei graças quando saí incólume do quartinho; até mesmo porque nos minutos finais pensei estar sentindo cheiro de gás. Agradecemos, fomos para a redação e fui preparar o texto. Ficou bom, bom mesmo, para a minha alegria de foca.

Saulo embrenhou-se no laboratório fotográfico do jornal e toca a demorar, a demorar, a demorar, até que, cansado de esperar, fui até lá e o encontrei: “E aí, Paulo, as fotos ficaram boas?”
“Não”, foi a resposta.
“Mas por que não ficaram?”

Ele olhou para mim com a cara mais lambida do mundo: “A máquina estava sem filme.”

sexta-feira, 12 de março de 2021

Carlos Eduardo e Eliseu Satanás
Por Emanoel Barreto

Quando muito jovem o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves teve passagem pela redação da Tribuna do Norte levado pelo seu pai, jornalista Agnelo Alves. Creio que foi em 1982, permanecendo no jornal mais alguns anos.


Eu ocupava a editoria de Cidades e lembro como se fosse hoje: eram mais ou menos três e meia da tarde quando Agnelo aproximou-se e me chamou: “Barreto.” 

Eu me virei e ele continuou: “Esse é meu filho Carlos Eduardo. Vai trabalhar aqui no jornal. Trate como você trata qualquer um dos outros repórteres.” Não conversou  mais e saiu.

Carlos Eduardo, que nesse tempo tinha o apelido de Tata, entrou em ação dia seguinte: como não tinha qualquer experiência foi enviado para cumprir pauta abordando assuntos mais simples.

Coisas como reclamações comunitárias, poste com lâmpadas queimadas, buraqueira em bairros distantes. À medida que ganhava experiência foi assumindo questões mais difíceis, que exigiam do repórter mais atenção e disposição para que os fatos ficassem bem apurados.

Uma dessas matérias envolveu a perigosíssima figura de um tipo conhecido como Eliseu Satanás. O apelido já diz tudo. Era famoso no noticiário policial: truculento e brutal, dizia não ter medo de nada. 

Vendia gasolina estocada ilegalmente em grandes tonéis, fazia desocupação violenta de terrenos por posseiros e reagia quando a polícia o buscava. Dizia não recuar nem mesmo diante do Mão Branca, o matador – ou matadores – de bandidos que quase diariamente abandonava corpos de criminosos em terrenos baldios de Natal.

Pois bem: Carlos entrevistou Eliseu Satanás a respeito de uma de suas tropelias. O enquadramento da matéria, como não poderia deixar de ser, era francamente desfavorável ao medonho entrevistado.

Pronto o texto foi publicado na página cinco. Foi assinado e ocupou a manchete do jornal. Dia seguinte Eliseu Satanás riscou na portaria da Tribuna. Perguntou:“Aqui tem um repórter chamado Carlos Eduardo?”

O rapaz da portaria confirmou: “Tem sim.”
Satanás quis saber: “E quem é ele?”
Resposta: “É o filho do dono do jornal.”

Diante da resposta a perigosa criatura preferiu não levar adiante seus certamente terríveis intentos contra o jovem repórter Tata e desabafou:“Diga a ele que escapou de boa!” – e foi-se embora. 

Somente vim a saber dessa história anos depois, Carlos já prefeito, primeiro ou segundo mandato. Encontramo-nos num shopping por acaso; ele falou a respeito e disse: “Rapaz, você quase que me põe num rabo de foguete...”




quarta-feira, 10 de março de 2021

 Lula está voltando e assombra Bolsonaro

Por Emanoel Barreto

A volta de Lula como potencial candidato à presidência da República está assombrando os becos mais escuros e os esconsos mais abjetos e viscosos do bolsonarismo. Desde seus mais brutos e ignorantes servidores e seguidores até os mais cínicos e mal-intencionados membros da sua elite.

Nunca nenhum governo levou este país a situação que chegasse a esse nível de indignidade: a morte literalmente se espalhando e um sujeito sem qualquer preparo no cargo de presidente.

O retorno de Lula ocorre em meio a uma conjuntura que foi sendo construída sob a liderança do então juiz Sérgio Moro, que como enxadrista do direito moveu as peças no tabuleiro político-jurídico até chegar à inelegibilidade e depois prisão do petista.

Quando, todavia, o jogo da democracia é usado contra a democracia a dialética do processo histórico entra em ação e termina por reverter o quadro, mesmo que pouco, ou pouco a pouco. E é isso o que está acontecendo: passo a passo caem os muros da Jericó de Moro, dando passagem a Lula.  

Junte-se a isso a desgraça da pandemia, a inação, as atitudes broncas de Bolsonaro e temos o quadro que hoje vivemos – a  hecatombe mais perfeitamente repulsiva porque bastante previsível e, portanto, evitável; o desespero de milhões, o medo de morrer. Tudo isso faz de Lula uma esperança.

Quanto à pandemia nada foi feito e tudo de ruim está acontecendo. Em meio a isso a política segue seu curso, Lula está voltando e assombra Bolsonaro. Pode até nem voltar ao fim do processo jurídico. Mas está dando um grande susto.

 

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

 Fim da era  Trump

Do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente

Por Emanoel Barreto

O título deste artigo, inspirado nos versos belíssimos de Juízo Final, composição de Nelson Cavaquinho, servem à perfeição para empalmar o fim da Era  Trump e uma possível mudança de rumos históricos dos Estados Unidos, superando-se a política de ódio, embuste e perversidade de Trump.

Ao ver a imagem do Minotauro seguindo para o helicóptero que o levaria da Casa branca me veio a sensação de um certo alívio. Sei que sua semente é forte, os loucos que o seguem não desistirão de repente. Mas o tempo, o seguir dos acontecimentos, fará com que seja queimada sua sementeira de horrores. Tudo passa...

O Minotauro tem seguidores no Brasil. Tanto que o mestre dos desastres, aquele que ocupa a presidência da República, o estima como a um ídolo e vê nele exemplo a ser imitado.

O mestre dos desastres transformou o país no grande, perigoso, profundo e escuro labirinto, com milhares de quilômetros de confusão de idiotices, desgraçadas idiotices.

 A última delas é o perigo de ficarmos ao léu, esperando a continuidade da vacinação, dependentes que somos da China contra quem o mestre dos desastres conseguiu construir uma muralha de desentendimentos.

A queda do Minotauro deverá ter consequências aqui. O novo presidente americano está em total desalinho com a pauta desvairada do mestre dos desastres, e já manifestou preocupação com a terrível realidade da Amazônia hoje sob ameaça de vir a ser terra arrasada.

Esperemos que com o início da um novo mandado, sob Joe Biden, tenha início também uma nova era, melhor, menos cáustica e turbulenta. Claro que os Estados Unidos não têm o Brasil como prioridade, somos geopoliticamente desimportantes.

A América do Sul como um todo é desimportante. Mas a mudança de presidente já é algo positivo. E quem sabe, com o fim do governo do mestre dos desastres o amor será eterno novamente.

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Vacina: o uso emergencial do direito à vida

Por Emanoel Barreto

Quando o Butantan pedia à Anvisa autorização emergencial para o uso da vacina pedia na verdade autorização para o uso emergencial do direito à vida. 

Quanto mais demorava a decisão maior eram a angústia e o temor das pessoas dignas de ser reconhecidas como seres humanos dotados de escrúpulos e respeito pelo seu semelhante. Enquanto isso a pandemia, a pandemia, a pandemia...

Por sua vez, o outro lado, a banda sombria, o flanco trevoso e lúgubre apostavam na improvável vinda de uma vacina originária da Índia – e deu no que deu: Bolsonaro falhou miseravelmente em seus planos e nada conseguiu pois o governo do país asiático negou-lhe qualquer apoio, prestígio ou apreço.

Sai pra lá. Índia acima de tudo, foi o que de alguma forma lhe foi atirado na cara. Se fosse por Bolsonaro estaríamos sem nada.

E mais: sem o Butantan estaríamos sem vacina. Temos tecnologia de ponta e ficamos mendigando como dalits, segmento social vigente na Índia e composto pelos últimos dos últimos, pelos intocáveis, mulheres e homens cercados de preconceitos e injusta rejeição.

Afinal, venceu o bom senso e o uso emergencial do direito à vida está em vigor. Bolsonaro vergou-se à realidade e cambaleou, foi derrotado.  

A vacinação é algo tão bom e tão justo que acolhe até mesmo os que defendem que sejamos como os dalits. Essa é outra face daquilo a que se chama democracia, ou ética, ou humanidade, ou solidariedade – você escolhe.

 Para encerrar: chegada a vez dos que defendem que sejamos como os  dalits tais indivíduos terão também direito à vacina, vale dizer terão direito à vida. Espero que vivam em paz.


domingo, 17 de janeiro de 2021

 A ética dos monstros

Por Emanoel Barreto

A ética dos monstros da pandemia tem por base o livre arbítrio e se manifesta em  sorrisos que explodem em gargalhadas noite adentro em festas monumentais. A alegria dos monstros lhes justifica qualquer coisa bastando invocar, insisto, o livre arbítrio.Ele escolhe ir ao rega-bofe e quem quiser que morra. Literalmente.

O monstro da pandemia é alguém que caminha pelas ruas calmamente, não tem os aleijões cinematográficas típicos, pode até ser afável, elegante e sabe todas as novidades do que seja fútil e lhe traga alguma forma de felicidade empacotada.

De dia a besta fera usa seus disfarces sociais de elegância e até finesse e ninguém a percebe como perigosa - até porque essências são invisíveis. Mas o monstro, a aberração, pode ser visto à noite. Sua brutalidade se manifesta quando vai a uma grande festa. Notou que estão muito em moda festas monumentais, acontecimentos extravagantes, gente correndo para aglomerações insanas e insólitas?

É nessas festas que os monstros são vistos em toda a sua crueza de alegria disparatada. A farra sempre é garantida como "segura e dentro das normas sanitárias", e aí vêm "informações" que todos sabemos hipócritas e mentirosas: haverá distanciamento social, álcool em gel para todos, medição de temperatura, blá-blá-blá. Tudo mentira.

É aí que entram as autoridades, ou melhor: é aí onde se omitem as autoridades – ninguém faz nada para impedir tais acontecimentos, como se vivêssemos o melhor dos tempos.

As autoridades omissas são parte cúmplice da ética dos monstros. Foi assim no Amazonas. Pode vir a ser aqui também. Depois não se poderá reclamar. Mas pode ser de tirar o fôlego.

 

sábado, 16 de janeiro de 2021

 Ave César, os que vão morrer te saúdam

Por Emanoel Barreto

Há os loucos sublimes e maravilhosos, há os poetas; existem os caminhantes  noturnos e os visionários – são alegres ou tristes de uma alegria de magnífica alucinação de fazer e produzir, ou tristes da tristeza de descobrir no Homem a fera de si mesmo, a besta que fere e mata e canta – e  se alegra em ferir e matar e por isso mesmo matou e cantou.

Há também os loucos da loucura irada, da fúria bruta e vil, acoitados nas tocas e nos buracos e esgotos, de onde saem para fazer o mal a quem vier. E não são poucos.

Vivemos no Brasil a insana realidade da morte misturada a festas sujas, instantes da mais sórdida manifestação do que somos como humanidade.

Pior: o País está entregue a tipos da mais baixa estatura moral, insensíveis, cruéis e deploráveis. Para lhes fazer frente, afinal começaram os gritos pelo impeachment de Bolsonaro.

É preciso vencer essa loucura. Há como que um plano de psicopatas, ansiosos pelo descalabro como forma de vida em sociedade, dementes que acreditam em sua própria monstruosidade como manifestação de algum tipo de crença depravada e mórbida.

No ponto mais escuro do abismo temos a realidade de Manaus que chegou a tal ponto em decorrência de fatos que convergiram para chegarmos à situação desesperadora atualmente vivida.

Primeiro, a atitude de fraqueza do governador do Amazonas, Wilson Lima, que se dobrou aos empresários e reabriu o comércio mesmo frente à visível iminência do desastre; depois, a participação da sociedade que acorreu às ruas também querendo  o comércio funcionando, e afinal a  inegável e estúpida omissão do governo federal frente ao agravamento da situação.

Foi o caldo perfeito para que o desplante e o desastre se instalassem. Infelizmente isso é o Brasil. No Rio Grande do Norte parece que estamos no mesmo caminho.

A morte comanda a festança enquanto os bacantes parecem cantar a plenos pulmões o soturno lema dos gladiadores, que na Roma antiga faziam para as elites a festa da morte e diziam: “Ave César, os que vão morrer te saúdam.”

 

 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

 O gol do centrefó

Por Emanoel Barreto 

De repente veio a lembrança do Colégio São João. O colégio e seus dois campos de futebol. Anos 60. O colégio era uma lembrança grande, larga como o passado. O primeiro campo, verdadeiro forno com seu chão de areia calcinada, servia para partidas improvisadas. O outro campo, não: gramado, com medidas oficiais, era usado para prélios renhidos, jogadores com posições definidas. Os professores eram os técnicos. 

Era o tempo de Pelé, Vavá, Zagalo, Garrincha, Gilmar, Djalma Santos, Didi, Nilton Santos. O Brasil bicampeão. Goleiros eram chamados de goalkeeper, valendo também guarda-valas, mas também se aceitava dizer arqueiros. 

O menino tinha uma decisão: entrar para o time da classe e disputar o campeonato do colégio. Munido de uma vontade secreta e firme começou a treinar. Depois de muito esforço foi aceito no time. E mais: ia ser o “centrefó”. Quando o professor anunciou sua posição no time, ele quase caiu. Já pensou? Ele ia ser o centrefó. Era o máximo. 
 
A expressão inglesa center for ward, absolutamente impronunciável para aqueles meninos dos anos 60 acabou virando isso mesmo, centrefó. Ele jamais imaginaria que, anos depois, todos estariam chamando centrefó de... centro-avante.

E ele ia ser o centrefó. A posição na equipe, vista como algo quase heróico, o jogador avançado que rompia defesas com seus dribles mágicos, era o sonho afinal realizado. Chegou em casa, contou aos pais, riu e, na rua, com os colegas, gritou: – Eu sou o centrefó! Eu sou o centrefó! Era o sonho calçando chuteiras. Sentiu-se completo. A vitória antecipada. O gol, guardado na gaveta das vontades, afinal iria brotar dos seus pés.

Veio então o jogo. Antes de entrar para a equipe principal ele somente havia jogado no campo de areia. Era o que os meninos chamavam de futebol de poeira. Ali, ninguém tinha posição definida, os pés afundavam e cada chute levantava uma nuvem, daí o nome futebol de poeira. Detalhe: naquele campinho de areia, ele jamais havia marcado o “seu gol.” Mas agora, não: faria muitos gols, e gols de classe, gols marcados num campo de verdade.

Afinal veio o jogo. O juiz apitou. Na tela das lembranças a partida foi lembrada quadro a quadro. Os lances duros, as jogadas corajosas, até mesmo aquela bicicleta que quase vira um gol. Tudo, tudo foi devidamente revisto com os olhar retrasado da saudade. Seu time ganhou. Cinco a um. Mas não deu para ele fazer o “seu gol”. Nem naquele jogo, nem nos outros. Jogava bem, mas não conseguiu o gol.

A vida escorreu sob os seus pés, acabou o ano, acabou-se o tempo de colégio, tudo passou. O colégio São João virou aquela lembrança travada na alma. Um dia tomou uma decisão: aquele gol não podia ser apenas uma vontade com sabor de derrota, um passe malfeito num jogo que dentro dele nunca tinha fim. Então, num final de tarde entrou numa loja de material esportivo, comprou a melhor bola e dirigiu-se ao colégio.

Ali todos estranharam ao ver aquele senhor: paletó e gravata, cabelos grisalhos, entrando colégio adentro, segurando uma bola. Ele escolhera o momento de maior movimentação no colégio. Era final de aula. Centenas de meninos deixavam as salas em meio a gritos de estopim, livres de professores chatíssimos.

Ele cruzou a curiosidade geral como um tiro de meta batido por Bellini em 1962 e dirigiu-se ao campo. Todos o acompanharam. Mais e mais meninos o seguiam. Ele passou pelo campo de futebol de poeira, já seguido por uma multidão e pronto: chegou ao campo gramado.

Dirigiu-se à marca do pênalti e ajeitou a bola. Os meninos ficaram ao redor, deixando a trave ao fundo. Ele estava em meio a um largo círculo de expectativa. Todos perceberam que viviam ali um momento especial e intenso. O rigor na face severa daquele homem, a luz do crepúsculo, a seriedade de cada gesto seu, tudo dava à cena uma composição litúrgica, ritual. Todos respiravam compassadamente; ninguém entendia nada, mas havia respeito em todos os olhares.

Ele afastou-se da bola, esperou um pouco e correu. O chute bateu na bola com força, uma força de raiva alegre e solene. A bola partiu. Como se fosse em câmera lenta cravou o gol no ângulo direito. Balançou a rede e desceu, belíssima, até se esconder lá no fundo.

O estranho saltou e deu um soco no ar. Nesse instante explodiu uma fagulha de emoção feito rastilho de pólvora. Fascinados, todos os meninos gritaram: – Gooooooooool! – e se abraçaram. Em silêncio, tal como chegara, o homem retirou-se. Deixou a bola lá, no cantinho da rede. Ao sair, ouvia aplausos, aplausos antigos, ecos que somente agora chegavam, tão tarde, depois de tanto tempo...

Nunca mais foi visto no Colégio São João; mas agora estava realizado; agora ele era realmente o centrefó.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

 Brasil: país odioso, lamentável, cruel e muito podre

Por Emanoel Barreto

O Brasil superou 200 mil mortos pela covid ante um constrangedor silêncio de entidades da sociedade civil como OAB, ABI E CNBB, tradicionais bastiões da defesa das grandes causas nacionais.

Por outra parte, multidões em festa reúnem bacantes frívolos e a estas se juntam negacionistas alucinados e descrentes do perigo da pandemia; um indivíduo amalucado preside o país, incentiva decididamente a aglomeração de pessoas, zomba da ciência e do bom senso e   agride os que ousam contrapor-se às suas atitudes escrachadas.

Temos um pandemônio. Reina a desinformação. Mortes se acumulam.

As vergonhosas multidões que acorreram ao chamamento da festa e da esculhambação são o resultado dessa situação de incúria e má-fé. Não há mais como ficar em silêncio covarde e conivente. É preciso uma ação de sociedade civil vigorosa e altiva, é preciso que alguém diga: “Eu acuso!” e parta para o enfrentamento da barbárie como fez Émile Zola em defesa jornalística do capitão Alfred Dreyfus – judeu e por isso vítima de perseguição pela nobreza militar francesa.

No caso, é preciso que alguém faça a acusação da ominosa omissão das autoridades de Brasília, uma vez que não há mais como esperar que cresça tanto sofrimento.

Nada justifica que o país continue postergando uma solução. É hipócrita e sórdida a atitude de quem se posta contra a exigência de que somente funcionem as atividades essenciais. O manto esfarrapado que serve de bandeira à alusão da perda de empregos e possibilidade de fechamento de empresas rasteja ante a perda de vidas, essas sim importantes e insubstituíveis.

O silêncio será sinônimo de conivência e o disfarce da tibieza, o silêncio será a supressão do gesto corajoso de desatar os nós e fazer navegar a nau da denúncia e da acusação. Mas há uma verdade que se faz presente e tal verdade é esta: não há como continuar nessa marcha louca de mortes sobre mortes.

Em Manaus o inferno da covid voltou. O jornal El País noticiou: “Cento e dez pessoas foram sepultadas em um único dia em Manaus. A marca, 233% maior que a média de antes da pandemia, foi atingida nesta quarta-feira (ontem) após quatro meses de registros de aumento no número de internações por covid-19 na cidade. Dezenove pessoas morreram em casa. As mortes fora do ambiente hospitalar mostram o tamanho do problema: sem vagas na rede privada e com a rede pública operando com média acima de 90% de taxa de ocupação de leitos de UTI e leitos clínicos nas duas últimas semanas, a capital amazonense enfrenta a segunda onda da pandemia, iniciando o ano de 2021 na fase mais grave do plano de contingenciamento da doença: a fase roxa, onde a previsão de esgotamento de leitos de UTI é em até seis dias.”

É muito horror e grande o número de mãos que se lavam diante das vidas perdidas. O comércio em Manaus só foi fechado por ordem judicial pois o governo local havia se ajoelhado à pressão dos empresários. É deplorável e nojento o espetáculo. É muito sujo o silêncio omisso da sociedade civil.

Citando Zola enfatizo o que ele escreveu antes do prefácio de J’accuse! Disse ele “a verdade está em marcha e nada a deterá.” No Brasil que pode se confundir com uma espécie de campo de concentração a céu aberto a verdade fará o julgamento histórico. E haverá a constatação de que aqui se passou algo de odioso, lamentável, cruel e muito podre. Mas já será muito tarde. O silêncio foi o cúmplice feroz e calado de tudo o que se passou.

Sou apenas um cidadão. Mas eu acuso!

 

 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O compasso dos pés faz o caminho

Por Emanoel Barreto

Talvez seja difícil encontrar caminhos, mas havendo pés existirá sempre a possibilidade de uma partida e uma chegada. O que estiver no meio da caminhada é o caminho: e ele será sempre será único para cada um, para cada tipo de situação, para cada instante, cada pequena eternidade da espera até que se cumpra a intenção de chegar.

Caminho não é estrada; a vereda que cada um percorre pode ser alterada a qualquer instante; basta mudar de ponto de vista, quebrar o compromisso inicial da viagem e pronto: muda-se o caminho, esse destino incerto e não sabido.

Estrada é diferente de caminho. Na estrada há um caudal de rodas, há pressa, velocidade, ânsia de chegar. Já o trajeto feito a pé, o andar, é coisa de cada um, tem a haver com o que é vivido na solidão humana, no pensamento calado, no que foi superado ou perdido e precisa ser substituído ou mudado.

Os caminhos, especialmente aqueles que fazem ziguezague num terreno largo, são mapas, registros, latitude e longitude de pessoas que se passaram, gente que foi ou está voltando.

A senda, na floresta ou em campo aberto é desafio, chamamento ou escolha. É a vida mesma que se vive ao compasso dos pés e da coragem.

sábado, 2 de janeiro de 2021

O Brasil é uma sala escura

e sua História 

um pano sujo exposto no varal


Por Emanoel Barreto

Ingresso em 2021 como quem chega a uma sala escura e grande.  E sem saber exatamente como combater/enfrentar/conviver/superar/aceitar o que já existe lá dentro.

Sei somente que há restos a pagar de 2020, dívidas humanas contraídas por equívocos tão nossos, dúvidas quanto ao que virá, a certeza da incerteza, o possível passo em falso na escuridão que nos cerca, a vida rasurada e encardida, gente morrendo, pano sujo exposto no varal da História.

Ao que tenho visto não vão se abrandar os ânimos nem se acalmar os intentos ou se aclarar no Homem o sentido de humanidade, aqui proposta como alguma forma respeitosa de convivência de contrários. Entendo que até inimigos podem ser leais.

E por entender essa forma de lealdade – e defendê-la –, lembro John Lennon e cito verso de Imagine, sua composição mais emblemática da fase pós-Beatles: “You may say I’m a dreamer/ But I’m not the only one”.

Sei, todavia, que estamos num tempo de cólera e ódios sinceros. Espero que a sala escura vá aos poucos se aclarando e os passos venham a se encaminhar a um rumo certo e a navegação a um bom porto. Espero, não tenho certeza. Na verdade, desejo; e em vez de esperar prefiro esperançar mesmo sabendo o quão difícil será chegarmos a algo de bom e de justo.

Mas volto ao meu acorde em tom maior e insisto, com a pequena ajuda de Lennon: “You may say I’m a  dreamer/ But I’m not the only one.”

 

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

A quarta-feira de cinzas do réveillon

Por Emanoel Barreto

Hoje é a quarta-feira de cinzas do réveillon. Muitos dos que festejaram o Ano-Novo estão espichados nas areias das praias ou espojados em suas camas, enevoados pela  ressaca da insensatez. Depois vão acordar para a realidade.

E a realidade é a seguinte: em mais alguns dias muitas dessas pessoas estarão nas redes sociais alarmadas com os sintomas da covid, pedindo orações e clamores para escapar das previsíveis consequências de ajuntamentos em tempos de peste.

As multidões que acorreram ao chamamento pelos festejos são explicáveis, enquanto fenômeno, por múltiplos conhecimentos acadêmicos que vão da sociologia à psicologia social, da antropologia social às teorias de comunicação e, claro, dos estudos sobre ideologia.

Não é o caso deste artigo tratar do fenômeno da alegria descontrolada e aluada enquanto objeto de interesse acadêmico. Estou aqui para expressar não só  indignação com  tal comportamento – e lamentar a omissão das autoridades de todo o país na repressão aos ajuntamentos – mas especialmente para manifestar minha perplexidade.

E faço uma pergunta: por que uma pessoa adulta e informada a respeito do perigo busca esse perigo? Vale a pena morrer por uma taça de champanhe, uma caneca de chopp, uma boa dose de cachaça, um uísque, um brinde?

Creio que os valores de uma sociedade voltada para o ter acredita de forma difusa que esse ter significa possuir até mesmo o tempo – o tempo da festa, no caso – como se fosse possível, nesse tempo, haver felicidade e segurança na busca do estar alegre e sentir-se indomável e vencedor: senhor da vida, parelha da mesquinha  eternidade daquela glória boba e seus momentos de euforia que tanto iludiram o inebriado herói de Baco.

O pior é que o preço a pagar será cobrado também aos que não foram às festanças, a conta irá aos que vão lotar hospitais e UTIs, às famílias que perderão filhos, pais, mães e avós.

As multidões de pessoas vazias se desfizeram. A festa acabou. O estado socialmente líquido de tais encontros escorreu pelo esgoto do cansaço e da exaustão dos bacantes e agora eles dormem.

O tempo não para e amanhã vai ser outro dia. E esteja certo: por causa do réveillon cuidado, há perigo na esquina.

 

 

 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

 Vamos viver ao sol da Vida

Por Emanoel Barreto

Observando nossa vida em perspectiva reversa, ou seja, olhando o nosso passado e o que fizemos ao longo do percurso podemos perceber o quanto tudo se modificou depressa. Em nós e à nossa volta tudo mudou muito rápido – talvez depressa demais, para desespero de alguns.

A incapacidade de aceitar a impermanência das coisas, a mutação silenciosa e implacável dos nossos corpos no envelhecimento diário, o desfazimento de laços de afeto, a perda de bens materiais, o fracasso de sonhos – só para citar alguns casos – tudo isso pode trazer sofrimento e dor a quem não se preparou para perdas e mudanças que a imaturidade de muitos entende como inaceitáveis.

A mutabilidade de tudo em direção ao fim é o grande problema. Somos impotentes, não conseguimos impedir de mudar aquilo que foi feito para se desfazer e finar.

O inverso desses apegos a coisas e pessoas a quem desejamos ter a nosso lado diz respeito ao apego a coisas e pessoas que nos fazem mal.

Refiro ao quanto é difícil nos livrarmos do ódio a alguém, do ciúme de alguém, do medo do outro, da submissão ao opressor – aqui não no plano ideológico, mas pessoal – da falta de atitude frente àqueles que nos ferem ou ameaçam. 

O apego à saudade, o acorrentar-se a velhas ofensas, a insistência em não perdoar são formas terríveis e ilusórias de experienciar nosso processo existencial na cotidianidade do pó que escorre na ampulheta da vida. Pura perda de tempo.

Suspeito, todavia, que talvez seja mais fácil superar a perda de alguém a quem amamos que nos desvencilharmos do ódio pelo outro. O abraço ao ódio é terrível e faz mal, muito mais mal a quem o sente do que àquele a quem é dirigido. Porque o ódio é vivido somente por quem o interiorizou. É impossível fazê-lo chegar em essência ou  toque corporal àquele que é alvo de tal sentimento. O ódio é um sofrimento em vão. Mas, quanto apego existe por ele.

Essa valorização do negativo é mero fruto de construções mentais. A pessoa passa a acreditar na importância do ódio como objetivo de vida e no despeito como forma de compensação. O mesmo se diz da inveja, da frustração, do sentimento de culpa por não ter atingido um certo propósito, seja sucesso pessoal ou vingança a quem o magoou.

Tudo isso porém, analisado friamente, revela-se como algo tolo e desnecessário, pueril e gerador de mais sofrimento aos que têm no negativo seu referente e o carrega como coisa própria e essencial. Mas esse sofrimento é passível e possível de superação. Basta refletir. Com método e decisão é possível livrarmo-nos de tais situações e viver cada dia com consciência de cada momento.

Viver passo a passo creio que seja o melhor caminho para ficar em paz. A idade, para quem já envelheceu, deve ser tida como resultado de todo um processo de vivências e aprendizados.

Se a idade nos sinaliza a proximidade do ocaso não é preciso apegar-se à saudade. Mas sorrir às lembranças de tudo o que nos fez chegar até onde chegamos e ao tudo que somos. Sem medo, sem lamentar tempo perdido. Não há perda de tempo quando se soube viver ao sol da Vida.