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sábado, 12 de fevereiro de 2011

A palavra que faltou

A grande imprensa mundial acompanhou passo a passo a derrubada de Mubarak. A multidão como protagonista, as declarações dos novos detentores do poder no Egito, sua anunciada intenção de realizar eleições, a importância das redes sociais para a mobilização de milhões. Anunciou, da mesma forma, que Mubarak encontra-se refugidao confortavelmente no próprio Egito. Houve, contudo, uma falha: ningém ouviu Mubarak a respeito dos acontecimentos.
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://bikyamasr.com

Sei que não seria coisa fácil nem prioritária, ante a velocidade dos acontecimentos dos últimos 18 dias. Mas, agora, quando se acalma o tsunami, seria importante que um bom repórter conseguisse entrevista com ele. Declarações a quente, pulsantes de história, a emoção do personagem da notícia por ele mesmo. Mubarak iria se defender? Claro. Iria dizer que estava certo, que deveria continuar até o fim do mandato? Sim, iria. 

Mas, jornalismo é isso: não se trata da velha fórmula de "ouvir os dois lados", como falsa manifestação de isenção e credibilidade. Seria para esgotar o assunto mesmo, dar à história um registro necessário, a palavra de quem foi o pivô de tudo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O day after do Egito

Após a queda de Mubarak, sucedido de fato pelo general e ministro de Defesa, Mohamed Hussein Tantawi, as expectativas se voltam para futuro imediato do país. A situação do Egito é complexa: o quadro instalado resulta de um cadinho de forças sociais diversas, momentaneamente unidas em torno do objetivo conquistado: a expulsão do ditador agora em desgraça e com os bens congelados na Suíça. 
Master Sgt. Jerry Morrison/AP - General Mohamed Husseim Tantawi (E)

Na sequência, a conjução de forças começará a mostrar as suas tendências. Os militares, ator social ativo no processo, certamente gostarão de ter presença proativa. O nó górdio da questão, assim, chama-se consenso. No caso, o consenso possível será  a convergência, por aliança, em trorno de objetivos comuns: reordenar o país economica e socialmente. 

Muitos interesses estão em jogo: a presença americana, do ponto de vista geopolítico, o que inclui os interesses econômicos; a efetiva democratização do país; as relações do Egito com Israel; urgentes reformas que permitam a promoção de expressivas camadas da população. Não é pouca coisa.

O passo seguinte, a realização de eleições, serão o indício de como os fatos se encaminharão, sinalizando perspectivas de poder e, afinal, poder de fato, poder que possa ser instalado para conviver com o lento,demorado processo histórico de encaminhamento à democracia.

Da Folha:

Exército elogia saída de Mubarak e promete mediar transição

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DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Revolta ÁrabeAtualizado às 18h07.
O Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito afirmou nesta sexta-feira que não pretende substituir "a legitimidade desejada pelo povo" egípcio e que irá anunciar em breve medidas para uma fase de transição no país.
A afirmação foi feita em breve comunicado na emissora de TV estatal, horas depois de o vice-presidente do país, Omar Suleiman, ter anunciado a renúncia do ditador Hosni Mubarak, que ficou 30 anos no poder.
Na nota, a cúpula militar, que comandará a transição até realização de eleições, elogia ainda a saída de Mubarak, dizendo que a medida está de acordo com "os interesses do país". Os militares também saudaram os "mártires que perderam suas vidas" durante os violentos confrontos e protestos, que entraram hoje no 18º dia.

Tara Todras-Whitehill/AP
Egípcios celebram o anúncio de que o ditador do país, Hosni Mubarak, renunciou ao poder após 30 anos
Egípcios celebram o anúncio de que o ditador do país, Hosni Mubarak, renunciou ao poder após 30 anos
"Sabemos a extensão da gravidade e da seriedade desse assunto e as demandas do povo para iniciar mudanças radicais", dizia o texto. "O Conselho Supremo das Forças Armadas está estudando o tema para atingir as esperanças de nosso grande povo."
"O conselho irá soltar um comunicado detalhando os passos e procedimentos e diretivas que serão tomadas, confirmando ao mesmo tempo que não há nenhuma alternativa para a legitimidade aceitável pelo povo."
Na nota, o conselho também cumprimentou Mubarak "por tudo o que deu ao país em tempos de guerra e paz, e por seu patriotismo, priorizando os mais altos interesses da nação".

Mohammed Abed/AFP
Garoto egípcio beija soldado após renúncia de Mubarak; Exército elogia medida e promete mediar transição
Garoto egípcio beija soldado após renúncia de Mubarak; Exército elogia medida e promete mediar transição
NOVO LÍDER
O ministro de Defesa do Egito, Mohamed Hussein Tantawi, deve ser o novo chefe de governo. Segundo a agência de notícias Reuters, que cita fontes militares, Tantawi é o chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas, a quem Mubarak entregou a administração do país.
Ele fez um tour pela área do palácio presidencial que pertencia a Mubarak nesta sexta-feira, de acordo com a rede de TV Al Arabyia.
Anteriormente, o vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, anunciou a saída do ditador e disse que o poder foi entregue às Forças Armadas. "O presidente Hosni Mubarak decidir renunciar como presidente do Egito", disse Suleiman, em um breve anúncio, acrescentando que a decisão foi tomada diante das "difíceis circunstâncias pelas quais o país passa".
Autoridades dos Estados Unidos veem Tantawi como um aliado empenhado em evitar uma nova guerra contra Israel, mas no passado o criticaram reservadamente por ser resistente a mudanças políticas e econômicas. Ele conversou por telefone em cinco ocasiões com o secretário americano de Defesa, Robert Gates, desde o início da crise, em 25 de janeiro. A última conversa ocorreu nesta quinta-feira à noite.

Master Sgt. Jerry Morrison/AP
O ministro egípcio da defesa Mohamed Hussein Tantawi (à esq.); ele deve chefiar governo egípcio, diz agência
As relações com o Exército egípcio são tradicionais e importantes para Washington, que fornece cerca de US$ 1,3 bilhão por ano em ajuda militar ao país.
Fontes do Pentágono se mantêm mudas a respeito das discussões entre Tantawi e Gates, mas o secretário de Defesa tem feito elogios públicos aos militares egípcios por serem uma força estabilizadora em meio à crise. Na terça-feira, Gates disse que os militares do Egito haviam dado "uma contribuição à democracia".
Mas, reservadamente, autoridades dos EUA caracterizam Tantawi como alguém "relutante com mudanças" e desconfortável com a ênfase americana no combate ao terrorismo, segundo um documento de 2008 do Departamento de Estado, divulgado pelo site WikiLeaks.
Tantawi, 75, serviu em três conflitos contra Israel - na crise de Suez, em 1956, e nas guerras de 1967 e 73.
O comunicado interno do Departamento de Estado dizia que o comandante estava "comprometido em prevenir que outra [guerra] aconteça um dia".
Apesar disso, diplomatas alertaram, antes de uma visita dele a Washington em 2008, que as autoridades dos EUA deveriam se preparar para encontrar "um Tantawi envelhecido e resistente a mudanças".
"Charmoso e cortês, ele está, não obstante, preso a um paradigma militar pós-Camp David, que tem servido aos estreitos interesses da sua corte nas últimas três décadas", dizia o documento, referindo-se ao acordo de paz entre Egito e Israel, assinado em 1979 na residência de veraneio da Presidência americana.
Washington há muito tempo cobrava mudanças no Cairo. Mas o documento afirma que Tantawi "tem se oposto tanto às reformas econômicas quanto políticas, as quais ele percebe como uma erosão do poder do governo central".
FESTA NAS RUAS
O anúncio -- feito no 18º dia seguido de intensos e violentos protestos que tomaram diversas cidades do Egito-- foi recebido com gritos de comemoração, cantos e bandeiras sendo agitadas na praça Tahrir, centro do Cairo, que foi o epicentro dos protestos públicos contra o regime de Mubarak, que estava no poder desde 1981.

Dylan Martinez /Reuters
Criança levanta os braços em comemoração pela renúncia de Mubarak na praça Tahrir, centro do Cairo
Criança levanta os braços em comemoração pela renúncia de Mubarak na praça Tahrir, centro do Cairo
A renúncia ocorre menos de 24 horas depois de fortes rumores de sua saída imediata do poder. Na noite de quinta-feira, Mubarak discursou à nação e disse que passava parte de seu poder a Suleiman, mas permaneceria até setembro --quando estão previstas eleições presidenciais. O discurso de "fico" causou fúria nos manifestantes que marcharam em direção ao Palácio Presidencial aos gritos para que deixasse o poder.
Mais cedo, o porta-voz do partido de Mubarak havia confirmado que o mandatário e sua família viajaram para o balneário de Sharm el-Sheikh, no mar Vermelho. "Ele está em Sharm el-Sheikh", afirmou Mohammed Abdellah, do Partido Nacional Democrático.
Pouco antes, fontes ligadas ao governo informaram que Mubarak e a família haviam deixado o Cairo nesta sexta-feira, mas sem deixar claro qual era o destino.
Os violentos protestos registrados no Egito por mais de duas semanas registraram quase 300 mortes, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), além da morte de jornalistas e diversos ataques à imprensa.
Iniciadas no Cairo, as manifestações se espalharam por outras cidades, como Alexandria e Suez.
O Exército teve um papel crucial desde o início da crise, por vezes apoiando a população mas em algumas ocasiões também abrindo fogo contra os manifestantes.
+ Canais
Egito: a aparente revolução sem líderes

O monumental movimento de sociedade civil no Edigo derrubou Hosni Mubarak. O grito das ruas, pacífico mas incisivo, durou 18 dias e expôs ao mundo um ditador bruto, detentor de fortuna de 70 bilhões de dólares, usufrutuário do Estado em proveito de si, da família e de acólitos. O Egito foi o segundo dominó a cair no mundo árabe, logo depois da Tunísia cujo movimento popular recebeu o nome de Revolução do Jasmin.

Khaled El Fiqi/Efe
O grande fator, o rastilho da revolução foram sem dúvida as redes sociais, a comunicação da perplexidade, da indignação, de repulsa a um regime que mantinha firmes relações com os Estados Unidos, velho incentivador dos sistemas de poder instalados naquela parte do mundo. 

A revolução do Egito é um movimento idiossincrático: não se ouviu falar um só instante em qualquer lider, qualquer personalidade-chave a clamar. Se diz sempre algo sobre a respeito da Irmandade Islâmica e o prêmio Nobel da Paz Mohammed El Baradei e sua importância dentro do movimento, mas nenhum foi apresentado como ator proativo determinante no caso. Todavia, por trás do movimento há sim pessoas com capacidade de mobilização e profundamente ligadas com os anseios e as crises. Sejam pessoas progressitas ou os piores representantes de uma certa teocracia muçulmana.

Mas, para o público, o que parece é que o grande ser coletivo a quem chamamos povo reuniu-se nessa empreitada e lá se foi, grito na boca, bandeiras às mãos, coragem fervendo. Trezentos foram mortos, mas a marcha não parou. 

O Exército domina o Estado agora, uma vez que não se pode considerar o vice de Mubarak, Omar Suleiman presidente de fato. Este e figura talvez com alguma representatividade, mas emblemática. Apenas isso.

A expectativa é que o poder, em futuro próximo, venha a ser assumido por partido laico e democrático. Que saiba gerir os acontecimentos imediatos e, na sequência, não se curve aos americanos nem mantenha relações próximas com, por exemplo, o regime teocrático dos Aiatolás. Seria péssimo sair de uma ditadura e cair nas mãos de fanáticos.

Abaixo, matéria da Folha a respeito da queda de Mubarak.

Após 30 anos no poder, ditador Hosni Mubarak renuncia no Egito

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Revolta Árabe.
Após 18 dias de intensos e violentos protestos que tomaram diversas cidades do Egito, o ditador Hosni Mubarak, 82, renunciou ao poder depois de comandar uma ditadura com mão de ferro durante 30 anos. O anúncio foi feito pelo vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, na TV estatal. Em poucos minutos, centenas de milhares estavam em festa e aos gritos na praça Tahrir, epicentro das manifestações de oposição.
"Presidente Hosni Mubarak decidir renunciar como presidente do Egito", disse Suleiman, em um breve anúncio, acrescentando que o poder foi entregue às Forças Armadas.
Segundo Suleiman, a decisão foi tomada diante das "difíceis circunstâncias pelas quais o país passa". 

A saída de Mubarak solidifica a crise no mundo árabe, sendo a segunda ditadura a ruir na região em menos de um mês. Ainda no dia 14 de janeiro a Revolução do Jasmim levou o ditador da Tunísia, Zine el Abidine Ben Ali, a abandonar o país, em meio ao movimento que se alastrou para outros países, causando protestos na Mauritânia, Argélia, Jordânia e Iêmen.
Após o anúncio, uma explosão de alegria tomou as ruas do Cairo. Centenas de milhares de egípcios agitaram bandeiras, choraram e se abraçaram em celebração. "O povo derrubou o regime", cantavam em coro. 


AFP
Manifestantes antigoverno tomam as ruas da litorânea Alexandria, segunda maior cidade do Egito, no 18º dia de protestos
Manifestantes antigoverno tomam as ruas da litorânea Alexandria, segunda maior cidade do Egito, no 18º dia de protestos

A renúncia ocorre menos de 24 horas depois de fortes rumores de sua saída imediata do poder. Na noite de quinta-feira, Mubarak discursou à nação e disse que passava parte de seu poder a Suleiman, mas permaneceria até setembro --quando estão previstas eleições presidenciais. O discurso de "fico" causou fúria nos manifestantes que marcharam em direção ao Palácio Presidencial aos gritos para que deixasse o poder. 

O ditador Mubarak ascendeu na Força Áérea --principalmente pelo seu desempenho na guerra de Yom Kippur com Israel-- e tornou-se vice-presidente em 1975. Ele assumiu a Presidência quando islamitas mataram a tiros seu antecessor, Anwar Sadat, em um desfile militar em 1981. 

Mubarak se beneficiou de artigos da Constituição egípcia que ditam mandatos presidenciais de seis anos com um número de reeleições indefinidas. Além disso, alterações à lei fizeram com que a vitória de candidatos de outro partido que não o seu fosse praticamente impossível.
Sob denúncias de corrupção e em meio a diversas acusações de abusos de autoridade e prisões tornadas possíveis devido ao estado de emergência, em vigor há 30 anos no país, a imagem de Mubarak deteriorou-se ao longo dos anos.

Amr Nabil-8.fev.2011/AP
Aos 82 anos, Hosni Mubarak renunciou ao comando do Egito após três décadas à frente da ditadura no país
Aliado de Washington na região, o ditador usufruía de boas relações com o Ocidente embora fosse fato conhecido de que seu governo era uma ditadura de mão de ferro.
Mubarak também era bem visto por ter mantido um acordo de paz com Israel, assinado em 1979, país com o qual o Egito travou três guerras.
Nas eleições legislativas de novembro passado, o partido de Mubarak ganhou cerca de 90% dos assentos no Parlamento, que viu a principal oposição islâmica perder todos os seus 88 lugares, garantindo ao partido de Mubarak as decisões do Parlamento e apertando o punho Mubarak no poder. 

SAÍDA DO CAIRO
Em uma tentativa de acalmar os manifestantes, Mubarak anunciou dias atrás que não concorreria às eleições presidenciais de setembro próximo, mas alertou que ficaria no poder até lá para evitar o "caos" no país. Ele mandou ainda seu vice, Omar Suleiman, negociar com a oposição --oferta que foi rejeitada. Os manifestantes exigiam que Mubarak deixasse o poder antes de iniciar qualquer diálogo.
Mais cedo, o porta-voz do partido de Mubarak havia confirmado que o mandatário e sua família viajaram para o balneário de Sharm el-Sheikh, no mar Vermelho.
"Ele está em Sharm el-Sheikh", afirmou Mohammed Abdellah, do Partido Nacional Democrático. 

Pouco antes, fontes ligadas ao governo informaram que Mubarak e a família haviam deixado o Cairo nesta sexta-feira, mas sem deixar claro qual era o destino.
A TV estatal egípcia informou também que uma importante declaração de Mubarak será transmitida em breve, mas não deu mais detalhes.
A edição digital do jornal pró-governo "Al Ahram" afirma, citando fontes próximas às Forças Armadas, que Mubarak esteve em uma base militar durante as últimas 48 horas para garantir sua segurança. 


AP
Guardas presidenciais egípcios observam manifestantes rezando na entrada do palácio presidencial, no Egito
Guardas presidenciais egípcios observam manifestantes rezando na entrada do palácio presidencial, no Egito

O jornal diz ainda que, "devido à situação na capital, foi impossível para o presidente mover-se com segurança com sua comitiva habitual".
A informação sobre a viagem de Mubarak também foi divulgada pelas redes de TV árabes Al Arabiya e Al Jazeera. Sharm el-Sheikh, localizado no extremo sul da península do Sinai, é o local em que Mubarak costuma receber personalidades estrangeiras e realizar conferências internacionais.
PROTESTOS
Os violentos protestos registrados no Egito por mais de duas semanas registraram quase 300 mortes, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), além da morte de jornalistas e diversos ataques à imprensa.
Iniciadas no Cairo, as manifestações se espalharam por outras cidades, como Alexandria e Suez.
O Exército teve um papel crucial desde o início da crise, por vezes apoiando a população mas em algumas ocasiões também abrindo fogo contra os manifestantes.

Pedro Ugarte/AFP
Egípcios gritam frases contra o ditador Hosni Mubarak durante protesto na praça Tahrir, centro do Cairo
Egípcios gritam frases contra o ditador Hosni Mubarak durante protesto na praça Tahrir, centro do Cairo

Nesta sexta-feira, centenas de milhares de pessoas fizeram orações na praça Tahrir, onde clérigos traçaram paralelos entre a luta dos manifestantes contra Mubarak e a do profeta Moisés com o antigo faraó. "Que Deus force os opressores para fora!", os clérigos diziam. "Amém, amém", respondiam os fiéis. Depois, seguiram para o palácio presidencial.
Do lado de fora do prédio, homens rezavam atrás de veículos blindados. Os militares não interferiram, apesar de eles terem bloqueado as principais ruas que levam ao palácio, um grande complexo onde Mubarak conduz a maioria de suas tarefas oficiais. 

"Abaixo, abaixo Hosni Mubarak!", cantavam os manifestantes. Centenas deles andaram por mais de uma hora para chegar até o palácio na noite de quinta-feira, saindo do epicentro dos protestos, a praça Tahrir, no centro do Cairo. 

"Saia! Por que você continua?", gritavam cinco mulheres idosas. "Trinta anos é o suficiente", elas diziam ao ditador, de 82 anos de idade. O número de manifestantes no palácio já era de 2.000 no início da tarde.
"Não sairemos até que Mubarak renuncie e, se Deus quiser, o protesto de hoje será pacífico", disse Yasmine Mohamed, 23, uma estudante universitária. "Tudo ficará bem e ele renunciará com certeza."

Suhaib Salem/Reuters
Manifestantes antigoverno participam das orações de sexta-feira na praça Tahrir, Cairo, no 18º dia de protestos
Manifestantes antigoverno participam das orações de sexta-feira na praça Tahrir, Cairo, no 18º dia de protestos

Um membro de um dos movimentos jovens por trás protestos, que começaram em 25 de janeiro, disse que os manifestantes iriam "tomar o palácio". "Teremos massas de egípcios após as orações de sexta-feira para tomá-lo", disse Ahmed Farouk, 27. 

Na segunda maior cidade egípcia, Alexandria, na costa mediterrânea, centenas de milhares de pessoas foram às ruas após as orações. O xeque Ahmed al Mahalawi, em seu sermão na principal mesquita da cidade, pediu aos fiéis para não desistirem. 

"Não recuem de sua revolução porque a história não irá recuar", afirmou o xeque em um sermão transmitido pela rede Al Jazeera. Mahalawi disse aos fiéis que eles estavam derrubando um "regime corrupto" que não serve para governar.

Mubarak está em balneário egípcio, confirma porta-voz do partido

Do UOL Notícias
Em São Paulo
 

O porta-voz do PND (Partido Nacional Democrático), Mohammed Abdellah, confirmou que o presidente egípcio Hosni Mubarak deixou o Cairo, capital do Egito, com a família na manhã desta sexta-feira (11), com destino ao balneário Sharm el-Sheikh.
Abdelllah, membro do PND (Partido Nacional Democrático), disse à Al-Jazeera que Mubarak delegou seus poderes ao vice-presidente, Omar Suleiman, na noite de sexta-feira.
A TV estatal do Egito informou que a presidência divulgará, em breve, um comunicado "importante e urgente".

Pouco depois da confirmação de que Mubarak havia deixado o Cairo, o Exército egípcio, por meio do general Talat Musallam, disse que irá anunciar um novo comunicado nesta sexta-feira, informando que "cumprirá com as reivindicações do povo". "As massas não estão satisfeitas", afirmou o general à emissora de televisão "Al Jazeera".

Em outro comunicado divulgado nesta sexta-feira, pela manhã, o Exército já havia se comprometido a garantir as reformas prometidas pelo presidente e encerrar a Lei de Emergência, vigente no país desde 1981, "imediatamente depois que se termine a situação atual", referindo-se aos protestos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Egito: a força contra o povo

Leio na Folha: O Exército egípcio poderá ser obrigado a intervir para proteger o país caso os protestos contra o regime provoquem um "estado de caos", advertiu nesta quarta-feira o ministro das Relações Exteriores, Ahmed Abdul Gheit, citado pela agência estatal Mena.
"Nós temos que preservar a Constituição, mesmo que esta seja alterada", disse Abul Gheit à emissora de TV Al Arabiya, de acordo com a agência Mena. 

"Ele afirmou que caso o caos ocorra, as forças armadas intervirão para controlar o país, um passo, segundo ele, que poderá levar a uma situação muito perigosa", informou a agência, citando o entrevistado. 
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Mohammed Abou Zaid/AP - Cartaz fala da fortuna de Mubarak
Que tal se fosse invertida a compreensão do problema e se passasse a dizer assim: o povo egípcio foi obrigado a intervir contra uma ditadura de 30 anos, que permitiu a seu usufrutuário o acúmulo de fortuna estimada em 70 bilhões de dólares?


A culpa, é bem mais fácil assim, é colocada no povo, nos milhões de famintos, nos que não têm direito a comer um pão. A persistência do ditador Mubarak é o empecilho a uma suposta e desejável democratização do país. Ele é o problema, não aqueles que protestam.

A "intervenção" do exército será um exercício de temeridade. Mesmo sob a consigna de defesa da Constituição, o uso de força armada contra multidão resulta em banho-de-sangue. Nada parece sugerir que o grito das ruas venha a se calar. A não ser que venha a ser calado.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Deu na Carta Capital:

Egito: o fiel da balança para Israel e Irã

O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, acena aos árabes e promete aceitar construções palestinas em Jerusalém Oriental; o líder religioso iraniano, Ali Khamenei, garante que o protesto no Egito é “despertar islâmico”

Israel e Irã, dois países no Oriente Médio formados por uma maioria de não-árabes, observam com atenção à crise política no Egito. Por um lado, o governo do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, teme que a queda da ditadura do egípcio Hosni Mubarak abra caminho para um governo radical islâmico que dê fim ao tratado de paz entre Israel e Egito, um dos poucos países árabes que reconheceu suas fronteiras. Por outro, de olho na oposição interna, o regime islâmico do Irã tenta convencer o mundo de que a onda de protestos no Egito se deve “ao acordar do Islã” no Oriente Médio. “Os faraós costumam ouvir a voz da nação quando já é muito tarde”, disse no fim de janeiro o líder da oposição iraniana, Mir Hossein Mousavi, para quem o atual sistema em Teerã também correria o risco de ser derrubado.

Procurado pela Carta Capital, o analista iraniano residente em Tel Aviv, Meir Javendanfar, destacou que o fato de milhares de egípcios desafiarem as forças de segurança e irem para as ruas para exigir mais posto de trabalho “deve ter deixado os líderes iranianos nervosos”. “A situação econômica no Irã está se deteriorando. Mudanças recentes no programa de subsídios aumentaram o preço dos alimentos e de outras commodities”, diz Javendanfar. No âmbito político, o analista iraniano recorda que o presidente Mahmud Ahmadinejad foi reeleito em um processo controverso, visto por milhões como fraudulento. “Há um número crescente de iranianos que também consideram viver sob uma ditadura”, compara.

Em Israel, a preocupação da coalização de governo de Netanyahu é com a segurança das fronteiras. Em entrevista à CNN na quinta-feira, o porta-voz da Irmandade Muçulmana no Egito, Mohamed Morsy, se esquivou de afirmar se o grupo opositor à ditadura de Mubarak estava de acordo em manter o tratado de paz do Egito com Israel, mencionando apenas que Israel falhou em honrar o tratado.

Em artigo publicado pelo Asian Times, o embaixador indiano M.K Bhadrakumar ressalta que o acordo de paz entre Israel e Egito assinado em 1979 permitiu a Israel aumentar os gastos com defesa e concentrar as forças armadas “no chamado front norte –Síria, Líbano e Irã– e nos assentamentos palestinos”. “A incerteza no Egito os leva a necessitar um maior deslocamento de forças no sul, especialmente no corredor entre o Sinai e Gaza, que as guerrilhas palestinas utilizam como fonte de abastecimento”, afirma Bhadrakumar. 

O fornecimento de gás é outro tema que preocupa Israel. Na sexta-feira, Netanyahu garantiu que as reservas de Leviatã e Tamar satisfaziam as necessidades do país para os próximos 10 anos, mas reconheceu que ainda dependiam do gás proveniente do Egito. No dia seguinte, desconhecidos explodiram o gasoduto egípcio que fica no monte Sinai e abastecia Israel.

Islã na política

Para o filósofo esloveno, Slavoj Žižek, cujo artigo foi publicado na íntegra pela Carta Capital, as revoltas na Tunísia e no Egito refletem a “conspícua ausência do fundamentalismo muçulmano”. “Na melhor tradição secular democrática, o povo simplesmente se revoltou contra um regime opressor, sua corrupção e pobreza, e exigiu liberdade e esperança econômica”, diz. No entanto, nas palavras do supremo líder religioso do Irã, aiatolá Ali Khamenei, os eventos no norte da África, Egito e Tunísia tem um “significado especial”. “É o mesmo que o ‘despertar islâmico’, que resultou na vitória da grande revolução da nação iraniana”, disse Khamenei hoje, de acordo com a agência de notícias oficial Irna.

Para o professor de Ciências Políticas da Universidade de Teerã, Mohamed Marandi, a Irmandade Muçulmana é atualmente o ator político mais organizado do Egito. “A Irmandade Muçulmana é o grupo opositor mais importante no país e tem desempenhado um papel chave no atual levante. Então, obviamente eles jogarão um papel central no futuro político do Egito”, disse Marandi em entrevista à Carta Capital. “Se o atual regime cair, eles provavelmente liderarão o Egito para longe da hegemonia ocidental e americana e advogarão uma maior independência cultural e intelectual do Ocidente”, completou.

Marandi considera ainda que os iranianos veem os eventos no Egito, Tunísia e Líbano como o enfraquecimento da hegemonia ocidental no Oriente Médio e no norte da África e fortalecer os laços do Irã na região. Os iranianos esperam melhorar o diálogo com o Egito após a queda do ditador. Em telegramas diplomáticos vazados pelo Wikileaks em 2010, Mubarak teria dito que os líderes iranianos são “grandes, gordos mentirosos” e que apoiariam o terrorismo.
Netanyahu, por sua vez, tenta evitar o completo isolamento e acena melhorar o diálogo de Israel com os árabes palestinos. 

Em encontro com o Quarteto para o Oriente Médio (EUA, Rússia, União Europeia e ONU) na sexta-feira, mesmo sem o apoio do chanceler Avigdor Lieberman, Netanyahu concordou com a proposta de construção de mais residências para palestinos na parte leste de Jerusalém e aliviar o bloqueio em Gaza para entrada de materiais de construção. Hoje, o secretário de Defesa britânico, Liam Fox, explicitou o argumento de que a “solução de dois Estados – um seguro e universalmente reconhecido Israel, junto como o estado palestino contíguo – é importante para dissipar a influência política maligna do Irã na região”.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Na Folha:
REVOLTA ÁRABE

Perda de aliados coloca EUA em alerta

Analistas ouvidos pela Folha dizem que os americanos estão preocupados com petróleo e situação de Israel

Agitações sociais nos países árabes deixam em 2º plano luta contra os grupos terroristas instalados na região

ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

Enquanto vê crescer o risco de perder influência pela queda de aliados no mundo árabe, os EUA vêm se preparando para enfrentar problemas em outros pontos críticos: o fluxo de petróleo e a situação de Israel.

Muito mais do que a luta contra o terrorismo, são essas questões as mais importantes nas avaliações de Washington sobre como agir diante das revoltas árabes, segundo analistas consultados pela Folha.
No primeiro caso, a questão é que os países em turbilhão ou sob seu risco atualmente influenciam a política regional dos produtores de petróleo, como a Arábia Saudita -a começar pelo Egito.

"A maior preocupação dos EUA no Oriente Médio é o controle do petróleo", disse o analista Robert Dreyfuss.
Andrew Terrill, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA, acredita que petróleo só seria problema no longo prazo.
"Arábia Saudita e Kuait estão tratando de amenizar quaisquer insatisfações para evitar agitação social. O Egito certamente tem influência na Arábia Saudita, mas não imagino que os sauditas mudarão suas políticas por enquanto", disse à Folha.

Para Terrill, o ponto mais premente dentre os dois críticos é Israel. "Líderes americanos temem que o acordo de paz de 1979 entre Israel e Egito possa ser rechaçado por um futuro governo egípcio, o que criaria instabilidade no Oriente Médio."

É quase certo que um novo governo egípcio será mais anti-Israel do que o atual e que será mais difícil tê-lo como parceiro em relação aos palestinos ou a Gaza.

Além disso, o governo de Barack Obama se vê na delicada posição de mudar uma política que privilegia a estabilidade regional. "Mubarak oferecia isso", afirma Mohamad Bazzi, analista do Council on Foreign Relations.
A situação aumenta a preocupação com a agitação na Jordânia, que tem acordo de paz com Israel.

O contraterrorismo tem ficado em segundo plano. Um dos motivos é a esperança de que reformas democráticas sejam mais benéficas contra o extremismo do que prejudiciais pela potencial perda de parceiros diretos.

Em relação ao declínio da influência americana, para muitos, a situação é inexorável. Terril, porém, tem tom otimista. "Há sentimento anti-EUA, mas não é comparável ao que houve na revolução islâmica de 1979 no Irã."

GANHADORES
Se os EUA são considerados perdedores com as revoltas, Irã e Turquia estão sendo apontados cada vez mais como ganhadores.

Ambos seriam alternativas para ocupar possíveis vácuos de poder regional, algo que já vêm tentando em anos recentes. A Turquia está lucrando com um percebido declínio do poder do Egito.

Já sobre o Irã, há quem discorde da visão generalizada. "Acho que estão apavorados", diz Terril. "Tiveram seus problemas com movimentos de massa recentemente. Ver governos próximos caírem é exemplo temeroso para sua população."

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A lenta derrocada de um ditador

Diz a Folha:

Mubarak deve permanecer durante transição, diz enviado dos EUA

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Revolta Árabe O ditador egípcio, Hosni Mubarak, um "velho amigo" dos Estados Unidos, deve seguir em seu posto durante a transição democrática, disse neste sábado o enviado especial para o Egito do presidente Barack Obama, Frank Wisner. 

"Necessitamos chegar a um consenso nacional em torno das condições prévias para dar um próximo passo à frente. O presidente deve permanecer em seu cargo para liderar essas mudanças', disse Wisner, a um encontro sobre segurança em Munique, sul da Alemanha, através de uma videoconferência. "A continuidade da liderança de Mubarak é decisiva", acrescentou. 

Segundo o enviado especial de Obama, que nesta semana reuniu-se com Mubarak, para o ditador egípcio "é a oportunidade de escrever seu próprio legado. Ele dedicou 60 anos de sua vida a serviço do país, este é o momento ideal para ele mostrar o caminho a seguir". 
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A participação dos Estados Unidos no episódio tem um objetivo: assegurar sua hegemonia na região; nada de garantir "a continuidade da liderança de Mubarak" em meio ao processo de transição. Mubarak, a rigor, não lidera mais nada, nem está mostrando qualquer "caminho a seguir". Ninguém lidera sua própria débâcle ou aponta qual o melhor caminho para o seu fim.
Corrente de soldados na praça Tahrir, no centro de Cairo;  Mohammed Abe/AFP


Assim, é preciso dar às coisas um certo ar de organização e de grande política, uma espécie de respeitabilidade mofada. É a farsa do poder em sua mais abjeta expressão. 

O ditador do Egito, desde o início das mobilizações, já dava mostras de que não teria forças para se impor aos que o contestavam: dada a magnitude dos protestos, e com a real ameaça à sua perpetuação no comando, poderia simplesmente ter determinado às tropas que dissolvessem as multidões à bala, e isso teria sido fácil. Por que não o fez? Simples: não conseguiria suportar a pressão da opinião pública mundial e isso, ao invés de mantê-lo à testa do governo, apressaria sua derrubada. O banho de sangue o levaria de roldão.

Desta forma, Mubarak esperou que os protestos arrefecessem, o que não aconteceu. Os Estados Unidos perceberam que seu "velho amigo" estava mumificado e resolveram passá-lo ao museu da história, mas de forma o mais amena possível. Retirar Mubarak pura e simplesmente seria dar ao movimento força suficiente para atirar longe o jugo e assumir o protagonismo. Logo, foi melhor buscar uma saída lenta, retirando à voz das ruas sua condição revolucionária.

Saindo ele em meio a processo político negociado fica para a história que foi isso mesmo, uma saída. O contrário seria deposição. E tudo o que os americanos não querem é um novo governo que não lhe seja obediente. Um governo que chegou a se constituir como tal pela força popular. O que se deseja, do ponto de vista americano, é um governo com quem possa, no day after, manter algum tipo de relacionamento estável.  

O Egito, do ponto de vista geopolítico, é importante demais para que os EUA negligenciem com ele um bom relacionamento. A história, contudo, está a se fazer. Os passos a seguir serão de importância vital para o futuro próximo. O novo governo, se merecer mesmo esse nome, tem a seu encargo a administração de um espólio de pobreza e miséria extremos e com essa situação o povo egípcio disse que não quer mais conviver. Que o novo governo seja mesmo novo. Não mais uma praga do Egito.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Flagrantes da revolta no Egito


A interferência dos EUA nos protestos do Egito

Lefteris Pitarakis/AP - Exército está presente na Praça Tahrir, no centro do Cairo, mas não interfere nos confrontos
Americanos já manobram para saída de Mubarak

Deu no Estadão:

O governo americano está discutindo com oficiais egípcios um plano para que o presidente Hosni Mubarak entregue imediatamente o poder a um governo de transição encabeçado pelo vice-presidente Omar Suleiman, informou o jornal The New York Times nesta quinta-feira. O plano busca respaldo do Exército egípcio, diz a nota, que cita funcionários americanos e árabes.
O artigo afirma ainda que apesar da resistência do presidente Mubarak em deixar o poder, oficiais de ambos os governos conversam sobre um plano em que Suleiman, apoiado pelas forças armadas egípcias, começaria imediatamente um processo de reforma constitucional. Ele seria apoiado nessa missão pelo chefe das Forças Armadas egípcias, Sami Enan, e pelo ministro da Defesa, o marechal de Infantaria Mohamed Tantawi.

O jornal afirma ainda que a proposta é para que o governo de transição convide membros de um amplo espectro de grupos opositores, incluindo integrantes da Irmandade Muçulmana, a fim de que se inicie um processo que leve às eleições livres em setembro.  
As informações são da Dow Jones.
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O protagonismo americano revela-se mais uma vez: trata-se de inferferência indébita na autodeterminação do Egito e uma espécie de golpe na busca de evitar que grupo setores realmente democráticos, que não se curvem aos EUA assumam o proscênio político e almejem hegemonia. Contrariamente às negociações americanas, o povo nas ruas quer a saída imediata de Mubarak. Sem meios- termos.

É plausível que, vindo a prevalecer a pressão americana, os ânimos não sejam serenados, uma vez que as multidões não querem conviver com quaisquer vestígios da era Mubarak. A serenidade desejada pelos altos escalões é uma serenidade de conveniência, nao resultado do atendimento ao que se exige nas ruas.

O que os americanos querem é manter hegemonia naquela região, que do ponto de vista geopolítico é essencial para a manuntenção dos seus interesses frente ao mundo árabe.
O que se espera é o ascenso de setores realmente comprometidos com a democracia, não a substituição de uma ditadura por uma teocracia à lá Irã. Nada porém garante uma democracia após a revolta, mas é preciso dar curso à história para que tais setores consigam chegar ao poder.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O prefácio de grandes mudanças ou ninguém sabe o que virá

Hosni Mubarak
No Egito o povo parece ter aberto as comportas de uma assuã social, cujas multidões caudalosas inundam as ruas de Cairo.Vive-se, tudo leva a supor, o prefácio de grandes mudanças, mesmo que não se possa falar em revolução: o que se busca é uma espécie de restauração especulada, a implantação de algo que venha a se aproximar do que seja uma democracia, estado social somente conhecido dos egípcios por ouvir dizer.

Eles querem sarjar do poder o embalsamado político que atende por Hosni Mubarak, encastoado ali há 30 anos. As estruturas do regime estalam, rangem suas roldanas mais enferrujadas, trincam-se as estruturas de dominação e o povo vai às ruas. O exército, dizem as coisas de jornal na internet e nas folhas, não mais se porá contra os que gritam fora Mubarak. A posição do exército se dá frente à marcha de um milhão de pessoas programada para hoje.

Caindo, Mubarak pode ser substituído por alguma facção político-teocrática como a Irmandade Muçulmana, o que não garante, sequer sinaliza democracia na forma como o Ocidente, pelos seus condutores e intelectuais orgânicos, a compreendem.

Está aí temor dos Estados Unidos: o surgimento de um Estado islâmico cujo alinhamento com frações radicais maometanas pode ser tido como algo bastante provável. 

Será preciso uma solução histórica de equilíbrio, sem adesão a setores muçulmanos possuídos de sectarismo. A humanidade não precisa de mais uma manifestação de estupidez sob a alegação de contrapor-se ao imperialismo americano - que existe, é ruim e também brutal. O estabelecimento de alguma guerra santa junto a um povo já embebido de sofrimento será fácil dadas as condições vigentes: a queda de um ditador travestido de presidente e a suposta deposição do jugo dos ombros do povo.

 Havendo isso, a queda do ditador e sua substituição por um governo teocrático salvacionista, nem o Egito ingressará em alguma forma de governo que vise a realização de uma democracia no mundo árabe, nem o mundo poderá pensar em sossego, pois as chamas da sua revolta - justa e compreensível em si - poderão chamuscar ainda mais as mãos dos que pedem paz e um pouco de bom senso.

O blog de Gustavo Chacra, repórter do Estadão, acompanha em tempo real os acontecimentos e traz a seguinte avaliação: 

Análise - "Cenários possíveis" – Há quatro cenários possíveis, de acordo com a consultoria de risco político Stratfor. No primeiro, o regime consegue sobreviver, ainda que sem Mubarak. No segundo, são convocadas eleições e um candidato moderado como Mohammad El Baradei vence. No terceiro, também com fim do regime e votação, a Irmandade Muçulmana conquista a vitória. E, no último, o Egito caminha para um caos político."