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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Se é a mentira verdadeira ela sim é a verdade

Os mentirosos começaram a mentir enlouquecidamente. E diziam que se era verdade que era mentira verdade era que era verdade de mentira e que verdadeiramente todos mentiam e assim a verdadeira mentira deveria ser honrada, seguida e tornada lei e ordem. E assim foi dito e assim foi feito.
http://www.google.com.br/imgres?q=a+mentira&hl=pt-BR&safe=off&client

E nos mais respeitáveis plenários, câmara secretas de governos e justiça estabeleceu-se a mentira como valor máximo e base de todos os procedimentos. Multidões se reuniram e adoraram a mentira e a ela construíram ídolos que não eram falsos exatamente por serem falsos.

Quando foi um dia um mentiroso cometeu a loucura de dizer uma verdade ao admitir em plenário que estava mentindo. Logo foi preso e levado ao patíbulo; e então ele gritou que seu julgamento fora falso por ter sido dirigido por leis falsificadas. 

E então as pessoas ficaram pasmas ao encontrar-se com a verdade de que estavam todos mentindo. Mas estavam tão acostumadas com a mentira que disseram que a verdade era uma impostura e não era verdade que era mentira mentir e sendo assim as leis falsificadas eram verdadeiras. E sendo verdadeiras, deviam condenar o homem que havia admitido mentir. E veio a carrasco e ele foi verdadeiramente morto. 

Mas ninguém acreditou em sua morte porque, diziam, se ele afirmava que as leis que o haviam condenado eram falsas, também falsa fora a sua morte. E assim tudo foi esquecido e a mentira pôde imperar sem ser crime nem nada. Porque, se a mentira não era nada, nada havia acontecido. 

sábado, 31 de julho de 2010

DEUS O LIVRE DO PCL-84

Você sabe o que é PCL-84?
Emanoel Barreto

O homem penetrou na imponência atemorizante da Repartição Pública. Construção pesada, com mais de cem andares de altura, era inteiramente pintada de cinzento. Ar de contrito, cabisbaixo, caminhava entre filas e filas de pedintes do serviço público. Agia assim cumprindo plano que tinha considerado como ardiloso: "Se eu demonstrar humilhação acho que vou ser mais bem atendido."

Dirigiu-se a uma senhora sentada a uma mesinha e disse: "Olhe", a mulher não olhou, estava lendo uma revistinha de moda, "eu queria saber..." - "se quiser saber tem que tirar ficha para poder saber. Ficha para poder saber não é comigo. É com aquela ali", e apontou um longo dedo em direção a um guichê onde havia enorme fila.

O homem, paciente, entrou na filha  e após mais de três horas foi atendido. Tirou ficha para quem queria saber. Entrou noutra filha. Afinal, mais duas horas e chegou ao guichê. "Olhe", o funcionário também não olhou; lia o noticiário de futebol. "Olhe, é o seguinte: recebi em casa esse comunicado - e mostrou o papel onde estava o comunicado - dizendo que, pela lei n. 8.789.998.000, de 1767, fui multado com base no artigo 5º do despacho PCL-84. Como não sei o que é isso..."

O funcionário, ainda de cabeça baixa, anunciou:"Veio ao lugar certo". Isso animou muito o homem, quero dizer, o paciente, o pobre, o coitado, o miserável: "Então, o que é PCL-84?". Resposta: "Não sei. Isso é assunto da diretoria, informação sigilosa, entende? Precisa de ficha para ter acesso ao seu processo. Agora, uma coisa adianto: se é coisa do PCL-84, deve ser coisa séria. Tome essa ficha. Ela dá direito de usar o elevador.Vá ao centésimo décimo sétimo andar e lá eles lhe informam."

O pobre pegou a ficha e esperou mais uma hora até entrar no elevador. Elevador moderno, cabiam mais de 100 pessoas. E, nele, todos estavam implicados ao PCL-84, foi o que apurou nas mais de duas horas que o elevador levou, até chegar ao centésimo décimo sétimo andar. Gente muita, não é?, por isso a demora; peso grande, a máquina funcionava devagar.

Chegando, todos foram à Diretoria Especializada em PCL-84. Decepção: o diretor tinha dado uma saidinha. "Uma saidinha?". Todos ficaram desesperados: funcionários públicos quando dão uma saidinha demoram muito, é o costume, é regra consuetudinária, tem de ser respeitada. Mais dez horas de espera e o diretor chegou.

Todos foram levados à sua sala, explicaram a que vinham e pediram explicações. "Explicações? Ora, explicações... Nem eu mesmo sei o que é PCL-84. É uma lei tão antiga e tão complicada que nem mesmo os legisladores do tempo a compreenderam por inteiro. Vejam: só para pensar em pagar o sujeito precisa recolher taxas e emolumentos. Depois, tem acesso ao processo e paga a dívida toda."

"Onde se pagam as taxas e os emolumentos?"
"Vão direto à Coordenadoria de Taxas e Emolumentos que lá eles explicam."
"Isso fica aqui, neste edifício?"

"Não. Fica do outro lado da cidade e, detalhe: não podem ir de carro. Têm que ir em nossos ônibus especiais para devedores de Taxas e Emolumentos. Mas aviso: esses ônibus só funcionam de mil em mil anos."
Todos fizeram: "OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!........."

Mas, bondoso, o diretor disse: "Tiveram sorte. Hoje faz mil anos do último funcionamento e vocês vão embarcar sem problemas. Isto é, se passarem pela Polícia Especial de Taxas e Emolumentos devidos à Lei do PCL-84. Quem sai daqui devendo eles prendem."

"E se a gente não passar?"
"Problema de vocês."

Cabisbaixos, os pobres desceram pelo elevador. Quando se dirigiam para o ônibus e já iam sendo presos, o homem do início desta história teve uma ideia. Gritou: "Vocês da Polícia Especial: já pagaram seus emolumentos do PCL-84?"

Os guardas embranqueceram. Pálidos, fizeram que não com a cabeça. A turba então os atacou e todos foram surrados. Achando pouco, os homens invadiram o grande edifício, expulsaram todos os funcionários, o diretor e quantos mais e se apoderaram da burocracia. Agora mandavam em tudo.

Pouco depois chegou um homem, que perguntou: "Posso saber o que é PCL-84?"
Foi imediatamente dominado e entregue aos novos guardas da Polícia Especial e nunca mais se ouviu falar dele.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O DIÁRIO DE BICALHO - CONTINUAÇÃO


Dona Zulma, a mulher protetora


A Conspiração, Diário Sábio, está em andamento. Para enfrentá-la, a Ordem dos Homens Bons mobiliza notáveis e valorosos esforços. Imagine você, que temos Departamentos especializados nessa proteção.

Temos, por exemplo, a Diretoria de Álibis. Importantíssima. Trata-se de órgão que confecciona, e isso diariamente, documentos e mais documentos a respeito de todos os nossos afiliados com o intuito de, caso seja preciso, a qualquer momento serem sacados e exibidos às terríficas autoridades que compõem a Conspiração.

Quando um Homem Bom é acusado de estar num determinado local onde houve qualquer coisa que perfidamente o incrimine, logo comparece advogado e exibe o álibi, mostrando que ele estava em outro local, incluindo fotos e testemunhos assinados.

Existe também a Diretoria de Passes e Fugas. Outro grande serviço. Com ela, temos passagens de avião, ônibus, canoas, catraias, botes, balões, asa delta, carrinho de supermercado, qualquer coisa que ande ou voe. E escapamos, caso o álibi não seja acatado.

Outra coisa: a Diretoria de Disfarces. Ah!, meu amigo, essa é incrível. Temos à disposição todo tipo de disfarce. Simulação e dissimulação garantidas. Grande e humanitária obra. Ontem mesmo experimentei um deles.

Vesti-me de arcebispo. Assim paramentado dirigi-me a importante repartição onde fui recebido com honras e deferências. Incrível, amigo, o que a desfaçatez pode nos proporcionar. O fingimento, caríssimo, é essencial hoje em dia. Enganei a todos e ainda fui agraciado pelas virtudes da minha enganação. Enganar, meu caro, é essencial.

Afinal, a Ordem nos proporciona a Diretoria Geral de Obscurecimentos, que comanda todas as demais. Trata de tudo o que se possa imaginar: manipula documentos, providencia desaparecimento de outros que sejam inconvenientes, redige cartas, apelos e convocações à representação internacional da nossa Ordem para que nos ajude.

E tudo, tudo isso, sincero diário, é comandado por uma mulher. Sim!, a única mulher que teve permissão para ingressar na Ordem. Falo da Senhora Dona Zulma, a Altaneira. É ela quem providencia tudo e nos garante total segurança em nosso agir. Quero dizer, em nossas defesas.

Assim, colendo diário, estou em total amparo. Há pouco, só para citar um exemplo, recebi estranho telefonema. Ouvi uma voz de pessoa péssima. Voz soturna e gutural de homem  que procurava por um certo Obdonaldo. Imagine só! Obdonaldo? Boa coisa não deve ser.

Quando me identifiquei, a voz desculpou-se e disse que era ligação errada. Entrei em pânico. Alguém me confundindo com um Abdonaldo? Não, jamais, em tempo algum! É a Conspiração. É a Conspiração que está em meu encalço.

Liguei para Dona Zulma que em quinze minutos descobriu tudo: era o dono de uma agência funerária. Mas, pressurosa, aquela magnífica dama me tranquilizou: já havia providenciado para que ele fosse enviado à Birmânia e aeli entregue a estranhas gentes. Estou livre, escapei dessa, mas atento sou.

Afinal, agentes funerários, segundo soube, são representantes da Morte e com ela têm comércio. Ganham por cada caixão que vendem e ainda levam dez por cento. Dizem que a Morte faz parte da Conspiração.

Agora, Dona Zulma está prestando atenção é nos filhos do agente funerário. Podem querem vingança, ela disse, e assim providenciou para mim disfarce de... agente funerário.

Vestido como um, posso passear entre eles e jamais serei capturado e enterrado vivo. Grande Dona Zulma. Talvez eu até mesmo abra uma agência funerária.

Um abraço,
Bicalho