Mostrando postagens com marcador burocracia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador burocracia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A história do Pobre que virou zumbi



Ele só queria um atestado de óbito; mas acabou na cadeia


Era uma vez Pobre. Pobre era um sem-teto, sem-tudo, sem-nada; sem lenço e principalmente sem documento. E, esse, foi seu grande erro: não ter documentos. Mas, também, pra quê? Ninguém sabia mesmo quem ele era...


E assim foi que certa noite, deitado ao lado de amigos, sentindo o cheiro forte da cachaça de Marimba, velho companheiro de dias de fome, noites de frio, relento e abandono, Pobre morreu. Simplesmente, morreu. Esquecido e anônimo, Pobre foi recolhido como indigente e despejado numa vala. Sem nome, sem choro, nem vela.
Chegando ao Outro Mundo encaminhou-se ao Departamento de Recepção onde uma simpática velhinha o recebeu. 

Ela deu-lhe boas-vindas, garantiu que ali finalmente ele seria feliz e disse para se encaminhar ao Setor de Cadastro. Pobre obedeceu, cabisbaixo e calado como sempre. Lá chegando o funcionário, um tipo grandão, olhar de desagrado, pediu:"Documento." O problema é que pobre, lembra?, não tinha documento.

O homem insistiu:"Documento."
Pobre então respondeu: "Tenho não. Que documento o senhor quer?"

O outro disse: "Certidão de óbito. Sem isso, nem vem que não entra."

Pobre quis saber se poderia conseguir algo, um registro provisório, alguma coisa assim. A resposta foi "não. Aqui é a eternidade, sabia? Aqui é tudo para sempre ou nunca mais. Não tem meio termo, nada é provisório."

Pobre perguntou então o que deveria fazer. Era muito simples, disse o homem: "Você volta e, lá no mundo, você consegue o atestado de óbito. Vá logo, que a eternidade não espera por ninguém."

Pobre fez um esforço enorme para sair da cova rasa e, quando conseguiu chegar à superfície, estava em meio a um temporal. Calado, acostumado a privações, sofrido e abatido, encaminhou-se a uma rua deserta e ali passou a noite, deitado sob uma marquise. Dia seguinte saiu perambulando pela cidade, à procura de uma certidão de óbito.

Foi primeiro a uma repartição pública onde eram atendidos mendigos e explicou sua situação. Disse que tinha morrido, estava com pressa para ir para o Outro Mundo, mas os funcionários disseram que, mesmo entendendo sua situação, nada podiam fazer. 

Não dava para atender quem já tinha morrido. Gente morta era com o pessoal da Intendência, que cuidava de enterrar desvalidos. Sentiam muito. Pobre foi até um Departamento qualquer da Intendência, e nada; também ali não atendiam os mortos. Pobre saiu caminhando, caminhando, até chegar a outra repartição. Ali, causou sensação. 

Uma funcionária, toda apressadinha, anunciou aos colegas que ali estava um morto legítimo, já pensou? Juntou gente, formou-se confusão. Um vereador que ia passando manifestou-se sensibilizado e disse que faria um pronunciamento na Câmara, em favor dos mortos sem documento. O pessoal de uma ONG se propôs a fazer uma manifestação de protesto, pois os mortos também têm direitos e não podem ficar por aí, largados. O alarido era enorme, até que uma radiopatrulha que passava, parou. 

Os soldados queriam saber o que se passava e logo chegaram até Pobre, que já estava desesperado e queria fugir, pois o vereador já conclamava a multidão a uma passeata reivindicatória e gritava: "Os mortos/Unidos/Jamais serão vencidos!" Pobre entrou em pânico e dizia: "Eu só quero meu atestado de óbito." Mas, de nada adiantava. As pessoas só queriam saber "como era o Outro Mundo e como ele havia voltado." 

O sargento que comandava a radiopatrulha, vendo que se tratava de um morto e, pior, de um morto desordeiro, resolveu prendê-lo. Mas foi advertido pelo pessoal da ONG de que Pobre não estava promovendo o tumulto, era vítima dele. Assim, não poderia ser preso. Se fosse em cana, tome protesto. Nisso, o sargento teve uma ideia, a solução para prender Pobre e acabar com a confusão. E disse: "O senhor está preso."Mas como?, quis saber o vereador. Este morto não fez nada. Morrer é crime?" 

O sargento insistiu: "Morrer, pode. Morrer não é crime. Morrer no Brasil é até um direito. Todo pobre tem o direito de morrer o mais rápido possível. Mas zumbi no Brasil é proibido de acordo com a lei número 9989-00000.9987655--876534444. Zumbi só é permitido no Haiti. O senhor é um zumbi, está dando alteração, está fora da lei. Portanto, está preso."
.................
Foto: https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTJ20AkcDffPNHZYDE9T3GD0NBqNc14d3IHhWfwaUM1ch0R2TmPig


sábado, 31 de julho de 2010

DEUS O LIVRE DO PCL-84

Você sabe o que é PCL-84?
Emanoel Barreto

O homem penetrou na imponência atemorizante da Repartição Pública. Construção pesada, com mais de cem andares de altura, era inteiramente pintada de cinzento. Ar de contrito, cabisbaixo, caminhava entre filas e filas de pedintes do serviço público. Agia assim cumprindo plano que tinha considerado como ardiloso: "Se eu demonstrar humilhação acho que vou ser mais bem atendido."

Dirigiu-se a uma senhora sentada a uma mesinha e disse: "Olhe", a mulher não olhou, estava lendo uma revistinha de moda, "eu queria saber..." - "se quiser saber tem que tirar ficha para poder saber. Ficha para poder saber não é comigo. É com aquela ali", e apontou um longo dedo em direção a um guichê onde havia enorme fila.

O homem, paciente, entrou na filha  e após mais de três horas foi atendido. Tirou ficha para quem queria saber. Entrou noutra filha. Afinal, mais duas horas e chegou ao guichê. "Olhe", o funcionário também não olhou; lia o noticiário de futebol. "Olhe, é o seguinte: recebi em casa esse comunicado - e mostrou o papel onde estava o comunicado - dizendo que, pela lei n. 8.789.998.000, de 1767, fui multado com base no artigo 5º do despacho PCL-84. Como não sei o que é isso..."

O funcionário, ainda de cabeça baixa, anunciou:"Veio ao lugar certo". Isso animou muito o homem, quero dizer, o paciente, o pobre, o coitado, o miserável: "Então, o que é PCL-84?". Resposta: "Não sei. Isso é assunto da diretoria, informação sigilosa, entende? Precisa de ficha para ter acesso ao seu processo. Agora, uma coisa adianto: se é coisa do PCL-84, deve ser coisa séria. Tome essa ficha. Ela dá direito de usar o elevador.Vá ao centésimo décimo sétimo andar e lá eles lhe informam."

O pobre pegou a ficha e esperou mais uma hora até entrar no elevador. Elevador moderno, cabiam mais de 100 pessoas. E, nele, todos estavam implicados ao PCL-84, foi o que apurou nas mais de duas horas que o elevador levou, até chegar ao centésimo décimo sétimo andar. Gente muita, não é?, por isso a demora; peso grande, a máquina funcionava devagar.

Chegando, todos foram à Diretoria Especializada em PCL-84. Decepção: o diretor tinha dado uma saidinha. "Uma saidinha?". Todos ficaram desesperados: funcionários públicos quando dão uma saidinha demoram muito, é o costume, é regra consuetudinária, tem de ser respeitada. Mais dez horas de espera e o diretor chegou.

Todos foram levados à sua sala, explicaram a que vinham e pediram explicações. "Explicações? Ora, explicações... Nem eu mesmo sei o que é PCL-84. É uma lei tão antiga e tão complicada que nem mesmo os legisladores do tempo a compreenderam por inteiro. Vejam: só para pensar em pagar o sujeito precisa recolher taxas e emolumentos. Depois, tem acesso ao processo e paga a dívida toda."

"Onde se pagam as taxas e os emolumentos?"
"Vão direto à Coordenadoria de Taxas e Emolumentos que lá eles explicam."
"Isso fica aqui, neste edifício?"

"Não. Fica do outro lado da cidade e, detalhe: não podem ir de carro. Têm que ir em nossos ônibus especiais para devedores de Taxas e Emolumentos. Mas aviso: esses ônibus só funcionam de mil em mil anos."
Todos fizeram: "OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!........."

Mas, bondoso, o diretor disse: "Tiveram sorte. Hoje faz mil anos do último funcionamento e vocês vão embarcar sem problemas. Isto é, se passarem pela Polícia Especial de Taxas e Emolumentos devidos à Lei do PCL-84. Quem sai daqui devendo eles prendem."

"E se a gente não passar?"
"Problema de vocês."

Cabisbaixos, os pobres desceram pelo elevador. Quando se dirigiam para o ônibus e já iam sendo presos, o homem do início desta história teve uma ideia. Gritou: "Vocês da Polícia Especial: já pagaram seus emolumentos do PCL-84?"

Os guardas embranqueceram. Pálidos, fizeram que não com a cabeça. A turba então os atacou e todos foram surrados. Achando pouco, os homens invadiram o grande edifício, expulsaram todos os funcionários, o diretor e quantos mais e se apoderaram da burocracia. Agora mandavam em tudo.

Pouco depois chegou um homem, que perguntou: "Posso saber o que é PCL-84?"
Foi imediatamente dominado e entregue aos novos guardas da Polícia Especial e nunca mais se ouviu falar dele.