http://ipt.olhares.com/data/big/11/118260.jpg
O amor à pátria nos salvará, irmãos: eia!
Emanoel Barreto
Está na Folha Online: Ao lançar sua campanha à Presidência da República, o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), não poupou críticas indiretas a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em várias áreas e voltou a repetir seu slogan de que o "Brasil pode mais", que tem sido rejeitado por petistas.
Serra arrancou aplausos dos militantes ao dizer que o Brasil precisa de "coragem para construir o Brasil melhor, o Brasil da União". "Ninguém deve esperar que joguemos o governo contra a oposição, porque não o faremos. Jamais rotularemos os adversários como inimigos da pátria ou do povo. Em meio século de militância política nunca fiz isso. E não vou fazer. Eu quero todos juntos, cada um com sua identidade, em nome do bem", disse.
O ex-governador disse ainda que defende um país sem exclusão. "Não aceito o raciocínio do nós contra eles. Não cabe na vida de uma Nação. Somos todos irmãos na pátria. Lutamos pela união dos brasileiros e não pela sua divisão. Pode haver uma desavença aqui outra acolá, como em qualquer família. Mas vamos trabalhar somando, agregando. Nunca dividindo. Nunca excluindo", afirmou.
...
A transcrição de trechos do discurso indica que o slogan de campanha é notoriamente inspirado na recriação do lema de Barack Obama "Sim, nós podemos". Todavia, uma coisa preocupa no discurso de Serra: o recurso do chamamento ao "patriorismo".
A pátria, como elemento chave a unir falsamente todos, como se a pátria fosse um território libertário, é na verdade comportamento retórico nebuloso e vago. A pátria como instância moral-afetiva, induz a um sentimento coletivo de respeito a um passado antigo, heróico, atrator de todos e dissolvente de conflitos de classe e de interesses.
Seria ela, a pátria, uma espécie de liga social a solidificar artificialmente laços de irmanação, diluindo classes e fabricando uma situação histórica que, em si, não se posta: a igualdade absoluta, magicamente instaurada pelo simples momento de sermos todos irmãos na pátria.
É falso, é falacioso e caviloso o chamamento ao patriotismo. Não há convergência histórica entre trabalhadores e capital.
Ao que percebo, a campanha será centrada na evocação de um patriotismo atávico e apassivador. A pedra de toque será a consigna da campanha, convocando a um passo adiante, já que o Brasil "pode mais".
Dá para antever que a proposta será uma atitude salvacionista, como se de repente um césar tivesse surgido das brumas para, com sua poderosa legião, levar o país à condição de pátria: aquele território da felicidade plena, da irmandade política, bondosa e mansa.
Vamos conferir. Será uma campanha de mídia à rédea solta, trabalhando-se o imaginário coletivo a partir de material simbólico voltado para a emoção reducionista, maniqueísta e avassaladora. Vamos conferir.
* Só para lembrar, o escritor inglês Samuel Johnson já dizia: "A pátria é o último refúgio de um canalha."
"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sábado, 10 de abril de 2010
Rio Industrial João Motta
A gravação foi feita em um celular. Isso, de alguma forma, amplia a sensação de objetividade e proximidade ante o problema da inundação da minha rua, onde a Prefeitura vem fazendo obras de drenagem.
Mas, se as "obras" ficarem do jeito que estão, com a pista acima das calçadas e as calçadas fechadas por meio-fios que funcionam como se fossem diques, as casas serão invadidas pela água. Dizem os maiorais da Prefeitura que vão dar um jeito, rebaixando a pista. Espero, rezo, oro, desejo e imploro. (Emanoel Barreto)
A gravação foi feita em um celular. Isso, de alguma forma, amplia a sensação de objetividade e proximidade ante o problema da inundação da minha rua, onde a Prefeitura vem fazendo obras de drenagem.
Mas, se as "obras" ficarem do jeito que estão, com a pista acima das calçadas e as calçadas fechadas por meio-fios que funcionam como se fossem diques, as casas serão invadidas pela água. Dizem os maiorais da Prefeitura que vão dar um jeito, rebaixando a pista. Espero, rezo, oro, desejo e imploro. (Emanoel Barreto)
quarta-feira, 7 de abril de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiECHLwHgs-0qI-Az1KisSN7dhkK36gmrR1x1IuDLleVYoqyRVTPMutDeCW14xUUC15JREKV4yHj5etA3kF-XTMZIfUSB5siDI3-OADkicCGfoB2TpLNLvr4dmBE4ITut-bHFHZ/s320/depressao2.jpg
Alea jacta est...
Emanoel Barreto
Um dia, tirou a sorte grande.
Mas como era muito grande
a sorte se quebrou porque era feita de fina porcelana.
As pessoas pegaram os pedaços da sorte pensando que
iam ser felizes.
Mas como era muito pouca sorte para cada um
chegamos ao mundo em que hoje vivemos.
Alea jacta est...
Emanoel Barreto
Um dia, tirou a sorte grande.
Mas como era muito grande
a sorte se quebrou porque era feita de fina porcelana.
As pessoas pegaram os pedaços da sorte pensando que
iam ser felizes.
Mas como era muito pouca sorte para cada um
chegamos ao mundo em que hoje vivemos.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
http://fotos.sapo.pt/ZuNwsYkjpRjSkZ7ygreW/
Volto a escrever amanhã
Emanoel Barreto
Volto a escrever amanhã.
Hoje estou sem assunto.
Volto a escrever amanhã.
Mandei comprar uns assuntos, mas assunto é coisa que está em falta. De tanto se repetirem corrupções, escândalos, conchavos e que tais, os assuntos deixam de ser novidade e já são velhos, tão velhos, quando nascem...
Assim, volto a escrever amanhã.
Ah! Se você tiver um assunto, mande para mim. E me diga onde estão depositados os novos assuntos, os grandes temas, as discussões candentes, questões de alta indagação, conteúdos dignos de nota. Os indignos já ocuparam espaço demais. Assim, volto a escrever amanhã. Hoje es...
Volto a escrever amanhã
Emanoel Barreto
Volto a escrever amanhã.
Hoje estou sem assunto.
Volto a escrever amanhã.
Mandei comprar uns assuntos, mas assunto é coisa que está em falta. De tanto se repetirem corrupções, escândalos, conchavos e que tais, os assuntos deixam de ser novidade e já são velhos, tão velhos, quando nascem...
Assim, volto a escrever amanhã.
Ah! Se você tiver um assunto, mande para mim. E me diga onde estão depositados os novos assuntos, os grandes temas, as discussões candentes, questões de alta indagação, conteúdos dignos de nota. Os indignos já ocuparam espaço demais. Assim, volto a escrever amanhã. Hoje es...
domingo, 4 de abril de 2010
Jessica Rinaldi/Reuters
Compre seu iPad, seja idiota e seja feliz
Emanoel Barreto
A jornalista Cristina Fibe, da Folha, informa de Nova Iorque:
Depois de invenções como o iPod e o iPhone, Steve Jobs, fundador da Apple, diz que agora, sim, criou um produto "mágico e revolucionário": o iPad. Versão simplificada de um laptop, o "tablet" permite navegar na internet, ler livros e gerenciar arquivos como música, fotos e filmes.
A expectativa em torno do iPad, lançado ontem nos EUA, fez com que a empresa vendesse mais de 200 mil aparelhos antes mesmo de ele chegar às lojas. Não há previsão de data para estreia no Brasil.
Segundo estimativas, no primeiro ano o iPad deve vender algo entre 2,7 milhões e 5 milhões de unidades, ao custo mínimo de US$ 499 (pouco menos de R$ 900).
Isso porque a Apple, os poucos que conheceram o iPad antes de seu lançamento oficial e a maior parte da mídia americana o propagandearam como um artefato que privilegia a simplicidade e a relação intuitiva com o consumidor.
O iPad, como o iPhone, não tem teclado ou mouse acoplados, sua tela obedece ao toque do dono. E, embora não funcione como telefone nem possua câmera, tem as outras facilidades com que os usuários do iPhone já se acostumaram, só que com mais velocidade e tela muito maior, de 24 cm por 19 cm, e só 1,25 cm de espessura.
Com acesso permanente à internet (Wi-Fi), bateria com durabilidade de dez horas e cerca de 700 gramas, o aparelho une e-mails, música, filmes, games, e-books, GPS, agenda, fotos -e, é claro, o navegador Safari e a loja do iTunes, que garante à Apple que o usuário continue rendendo mesmo depois de desembolsar mais de US$ 499 no aparelho.
O pacote causou alvoroço na mídia americana. Capa da "Newsweek" de 5 de abril questiona: "What's so great about the iPad?" -o que é tão formidável no iPad?, em tradução livre-, e responde: "Tudo".
Nas seis páginas internas, afirma que o produto "mudará o jeito como você usa computadores, lê livros e assiste à TV, desde que esteja disposto a fazê-los à maneira de Steve Jobs". A revista diz ainda que o executivo da Apple tem a habilidade para criar aparelhos "que não sabíamos que precisávamos, mas sem os quais de repente não podemos viver".
A revista "Time" chegou às bancas com o mesmo assunto na capa. Enviado em nome do veículo, o ator e comediante Stephen Fry pareceu deslumbrado depois de conversar com Steve Jobs e manipular o iPad durante dez minutos.
Ontem, o jornal "The New York Times" organizou um "live blogging" com repórteres de plantão para relatar as filas nas lojas da Apple (e na Best Buy, aonde o aparelho também chegou) e consumidores comentando o iPad.
O "Washington Post" foi um dos poucos a reagir e publicar que, com tudo isso, Steve Jobs pouco precisaria investir em publicidade -além do fato de que os jornais e as revistas também estão interessados em transformar os seus conteúdos para a leitura no aparelho.
No YouTube, consumidores postaram vídeos ontem para mostrar o iPad sendo desempacotado e fazer os primeiros comentários sobre a novidade. Entre os poucos defeitos apontados pela "Newsweek", o fato de que Steve Jobs subverte a liberdade de escolha característica da internet, fechando o sistema e obrigando os usuários a navegar no Safari e a fazer as compras no iTunes.
Outra reclamação é o fato de não ler imagens desenvolvidas com a plataforma Flash, da Adobe, responsável por cerca de 75% dos vídeos na internet. E um defeito do iPhone que por ora se repetirá: o novo computador da Apple não é multifuncional, ou seja, só é possível abrir um aplicativo de cada vez.
.......
O texto, a rigor um comercial disfarçado de notícia "objetiva", traz em sua - perdão pela palavra - semiose, uma espécie de cântico, um louvor dócil e delicadamente fanático: tens porque tem de comprar ao iPad, senão não serás feliz. O iPad será teu bezerro de ouro e somente a ele adorarás.
Lamentavelmente, nós, brasileiros, tristes trópicos,vira-latas do neoliberalismo e da globalização, ainda estamos sem data para a bênção de termos acesso, respeitoso e parvo, ao iPad. Mas o paraíso demora, irmãos. É preciso fé e esperança. Oremos.
Outra coisa: o comercial, enquanto texto jornalístico, falha em seu lide. Lide, para você que não é jornalista, é o primeiro parágrafo de uma notícia, aquele que, em tese, reúne o que há de mais importante em um fato e o relata de forma direta, clara e concisa.
O mais importante não é o lançamento em si, entende? E por que não? Porque o mais importante está no parágrafo que coloquei em itálico. Ou seja: que o usuários continuem rendendo aos donos da marca iPad. Está aí o "x" da questão: a criação de um mercado ávido por novidades, quaisquer novidades. E, desde que sejam ditas e tidas como importantes ("nós nem mesmo sabíamos que precisávamos"), passando a delas depender quase existencialmente.
O lide seria a denúncia da criação de um mercado cativo, o que a rigor não é mercado, pois mercado pressupõe competição entre marcas e produtos. O lide seria a exposição da faceta perversa desse processo comunicacional que em si, mercadologicamente, é um sistema de arquitetura fechada: as pessoas "precisam render" aos donos do iPod. Foram "feitas para isso": para gastar e dar lucro - e ninguém percebe nem se insurge ante essa atitude inumana, que é ao mesmo tempo tão humana.
Para encerrar: você acha que alguém, alguém que seja um leitor, um leitor na expressão da palavra, alguém que goste de livro, que veja no livro um ser vivo, um amigo, um parceiro, alguém refinado e de mente inquieta vai perder tempo "lendo" um livro nessa traquitana? Creia em Deus, amigo; creia em Deus...
Compre seu iPad, seja idiota e seja feliz
Emanoel Barreto
A jornalista Cristina Fibe, da Folha, informa de Nova Iorque:
Depois de invenções como o iPod e o iPhone, Steve Jobs, fundador da Apple, diz que agora, sim, criou um produto "mágico e revolucionário": o iPad. Versão simplificada de um laptop, o "tablet" permite navegar na internet, ler livros e gerenciar arquivos como música, fotos e filmes.
A expectativa em torno do iPad, lançado ontem nos EUA, fez com que a empresa vendesse mais de 200 mil aparelhos antes mesmo de ele chegar às lojas. Não há previsão de data para estreia no Brasil.
Segundo estimativas, no primeiro ano o iPad deve vender algo entre 2,7 milhões e 5 milhões de unidades, ao custo mínimo de US$ 499 (pouco menos de R$ 900).
Isso porque a Apple, os poucos que conheceram o iPad antes de seu lançamento oficial e a maior parte da mídia americana o propagandearam como um artefato que privilegia a simplicidade e a relação intuitiva com o consumidor.
O iPad, como o iPhone, não tem teclado ou mouse acoplados, sua tela obedece ao toque do dono. E, embora não funcione como telefone nem possua câmera, tem as outras facilidades com que os usuários do iPhone já se acostumaram, só que com mais velocidade e tela muito maior, de 24 cm por 19 cm, e só 1,25 cm de espessura.
Com acesso permanente à internet (Wi-Fi), bateria com durabilidade de dez horas e cerca de 700 gramas, o aparelho une e-mails, música, filmes, games, e-books, GPS, agenda, fotos -e, é claro, o navegador Safari e a loja do iTunes, que garante à Apple que o usuário continue rendendo mesmo depois de desembolsar mais de US$ 499 no aparelho.
O pacote causou alvoroço na mídia americana. Capa da "Newsweek" de 5 de abril questiona: "What's so great about the iPad?" -o que é tão formidável no iPad?, em tradução livre-, e responde: "Tudo".
Nas seis páginas internas, afirma que o produto "mudará o jeito como você usa computadores, lê livros e assiste à TV, desde que esteja disposto a fazê-los à maneira de Steve Jobs". A revista diz ainda que o executivo da Apple tem a habilidade para criar aparelhos "que não sabíamos que precisávamos, mas sem os quais de repente não podemos viver".
A revista "Time" chegou às bancas com o mesmo assunto na capa. Enviado em nome do veículo, o ator e comediante Stephen Fry pareceu deslumbrado depois de conversar com Steve Jobs e manipular o iPad durante dez minutos.
Ontem, o jornal "The New York Times" organizou um "live blogging" com repórteres de plantão para relatar as filas nas lojas da Apple (e na Best Buy, aonde o aparelho também chegou) e consumidores comentando o iPad.
O "Washington Post" foi um dos poucos a reagir e publicar que, com tudo isso, Steve Jobs pouco precisaria investir em publicidade -além do fato de que os jornais e as revistas também estão interessados em transformar os seus conteúdos para a leitura no aparelho.
No YouTube, consumidores postaram vídeos ontem para mostrar o iPad sendo desempacotado e fazer os primeiros comentários sobre a novidade. Entre os poucos defeitos apontados pela "Newsweek", o fato de que Steve Jobs subverte a liberdade de escolha característica da internet, fechando o sistema e obrigando os usuários a navegar no Safari e a fazer as compras no iTunes.
Outra reclamação é o fato de não ler imagens desenvolvidas com a plataforma Flash, da Adobe, responsável por cerca de 75% dos vídeos na internet. E um defeito do iPhone que por ora se repetirá: o novo computador da Apple não é multifuncional, ou seja, só é possível abrir um aplicativo de cada vez.
.......
O texto, a rigor um comercial disfarçado de notícia "objetiva", traz em sua - perdão pela palavra - semiose, uma espécie de cântico, um louvor dócil e delicadamente fanático: tens porque tem de comprar ao iPad, senão não serás feliz. O iPad será teu bezerro de ouro e somente a ele adorarás.
Lamentavelmente, nós, brasileiros, tristes trópicos,vira-latas do neoliberalismo e da globalização, ainda estamos sem data para a bênção de termos acesso, respeitoso e parvo, ao iPad. Mas o paraíso demora, irmãos. É preciso fé e esperança. Oremos.
Outra coisa: o comercial, enquanto texto jornalístico, falha em seu lide. Lide, para você que não é jornalista, é o primeiro parágrafo de uma notícia, aquele que, em tese, reúne o que há de mais importante em um fato e o relata de forma direta, clara e concisa.
O mais importante não é o lançamento em si, entende? E por que não? Porque o mais importante está no parágrafo que coloquei em itálico. Ou seja: que o usuários continuem rendendo aos donos da marca iPad. Está aí o "x" da questão: a criação de um mercado ávido por novidades, quaisquer novidades. E, desde que sejam ditas e tidas como importantes ("nós nem mesmo sabíamos que precisávamos"), passando a delas depender quase existencialmente.
O lide seria a denúncia da criação de um mercado cativo, o que a rigor não é mercado, pois mercado pressupõe competição entre marcas e produtos. O lide seria a exposição da faceta perversa desse processo comunicacional que em si, mercadologicamente, é um sistema de arquitetura fechada: as pessoas "precisam render" aos donos do iPod. Foram "feitas para isso": para gastar e dar lucro - e ninguém percebe nem se insurge ante essa atitude inumana, que é ao mesmo tempo tão humana.
Para encerrar: você acha que alguém, alguém que seja um leitor, um leitor na expressão da palavra, alguém que goste de livro, que veja no livro um ser vivo, um amigo, um parceiro, alguém refinado e de mente inquieta vai perder tempo "lendo" um livro nessa traquitana? Creia em Deus, amigo; creia em Deus...
sábado, 3 de abril de 2010
Na Folha falta até ombudsman
Emanoel Barreto
Dia 21 de fevereiro o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva assinou sua última coluna como ombudsman da Folha, sob o título "Um é pouco, dois é bom, três é demais", aludindo ao fato de que não permaneceria no posto por mais um ano, o terceiro. O cargo que o desencantou, em si não tem qualquer força ou expressividade já que não pode interferir diretamente no comando de Redação, alterar política editorial ou criticar ideologicamente o posicionamento da empresa.
Dizia o jornalistra que a iminência de um processo eleitoral em que trogloditas irão se digladiar não o interessa, por não "ter instrumental" para compartilhar situações de antropofagia política. Não com estas palavras, mas como este sentido.
Não acredito no cargo de ombudsman. Por isso, termino não acreditanto nos ombudsman. Eles são intelectuais orgânicos à empresa, fazem parte de um processo de fortalecimento de sua imagem junto ao mercado, colocando o jornal como "sério". Tanto, que sofreria uma espécie de "auditagem noticiosa" materializada na figura daquele profissional.
Não é verdade tal auditagem. Os ombudsman, a rigor, apenas ouvem reclamações de leitores e as repassam à chefia de Redação ou até mesmo à Direção do jornal. Que podem acatar a reclamação no todo ou em parte e fazer, em edição posterior, alguma retificação a respeito da matéria reclamada. Só isso.
O ombudsman é uma espécie de ornamento mercadológico regiamente pago, e integra a retórica do marketing da empresa jornalística, que com isso busca se reafirmar em termos de credibilidade. E credibilidade é coisa que falta, e muito, à Folha. No momento falta até ombusaman.
Emanoel Barreto
Dia 21 de fevereiro o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva assinou sua última coluna como ombudsman da Folha, sob o título "Um é pouco, dois é bom, três é demais", aludindo ao fato de que não permaneceria no posto por mais um ano, o terceiro. O cargo que o desencantou, em si não tem qualquer força ou expressividade já que não pode interferir diretamente no comando de Redação, alterar política editorial ou criticar ideologicamente o posicionamento da empresa.
Dizia o jornalistra que a iminência de um processo eleitoral em que trogloditas irão se digladiar não o interessa, por não "ter instrumental" para compartilhar situações de antropofagia política. Não com estas palavras, mas como este sentido.
Não acredito no cargo de ombudsman. Por isso, termino não acreditanto nos ombudsman. Eles são intelectuais orgânicos à empresa, fazem parte de um processo de fortalecimento de sua imagem junto ao mercado, colocando o jornal como "sério". Tanto, que sofreria uma espécie de "auditagem noticiosa" materializada na figura daquele profissional.
Não é verdade tal auditagem. Os ombudsman, a rigor, apenas ouvem reclamações de leitores e as repassam à chefia de Redação ou até mesmo à Direção do jornal. Que podem acatar a reclamação no todo ou em parte e fazer, em edição posterior, alguma retificação a respeito da matéria reclamada. Só isso.
O ombudsman é uma espécie de ornamento mercadológico regiamente pago, e integra a retórica do marketing da empresa jornalística, que com isso busca se reafirmar em termos de credibilidade. E credibilidade é coisa que falta, e muito, à Folha. No momento falta até ombusaman.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Charge do Laerte, na Folha
Vamos todos, irmãos
Emanoel Barreto
Vamos todos, irmãos,seguir as leis.
Vamos comprar, usar e consumir.
Pois é bom o que nos mandam os Senhores.
Desta pátria amada e mãe gentil.
Pois, se não somos o que eles determinam,
o que mais poderemos um dia ser?
Nada, a não ser tolos vazios,
que perderam de cumprir dócil destino. Eia!
Vamos todos, irmãos
Emanoel Barreto
Vamos todos, irmãos,seguir as leis.
Vamos comprar, usar e consumir.
Pois é bom o que nos mandam os Senhores.
Desta pátria amada e mãe gentil.
Pois, se não somos o que eles determinam,
o que mais poderemos um dia ser?
Nada, a não ser tolos vazios,
que perderam de cumprir dócil destino. Eia!
Bert Stern
Segredos e malícias de Marilyn Monroe
Vi esse material na Folha. Interessante registro sobre Marilyn Monroe.(EB)
"A Vida Secreta de Marilyn Monroe" (Planeta, 2010), do biógrafo de celebridades J. Randy Taraborrelli, conta a história da atriz não somente sob a luz dos holofotes e dos escândalos amorosos, mas agrupa acontecimentos dramáticos, como a esquizofrenia de sua mãe e o próprio declínio mental de Marilyn durante o processo.
O volume chegará às livrarias no dia 15 de abril. Segundo o autor, suas fontes de referência e consulta foram historiadores, chamados de "verdadeiros especialistas", atores, atrizes e até mesmo agentes do serviço secreto americano. Biógrafo de personalidades como Michael Jackson, Madonna, Grace Kelly, Diana Ross, Elizabeth Taylor e Frank Sinatra, Taraborrelli também consultou notas e matérias da década de 1950 para construir um relato preciso e esclarecedor.
Um deles é sobre o affair entre Marilyn e Sinatra. No trecho abaixo, extraído do livro, vemos uma atriz que se esforçava em chamar a atenção de um homem que havia acabado de perder a mulher (Ava Gardner). Percebemos também um artista excepcional que tentava lidar com a impotência sexual dividindo o mesmo teto com um dos símbolos sexuais de Hollywood.
Marilyn, que tinha o costume de andar nua em seu lar, perdeu aos poucos o hábito. Veja abaixo como se deu o processo, influenciado pelo próprio cantor.
Tempos difíceis
Quando passaram a morar juntos, Frank e Marilyn admitiram que ainda eram apaixonados pelos ex-parceiros. Portanto, por um tempo, não houve nenhuma ligação sexual entre eles. Apenas dividiam uma vasta solidão comum aos dois. Frank não estava interessado em nada além disso, embora fosse difícil para os amigos dele entenderem que, mesmo tendo no apartamento uma das estrelas do cinema mais assediadas, não havia nada entre eles.
O que se conta é que Marilyn havia adquirido o hábito de não se vestir quando estava em casa. Todos que a conheciam bem sabiam dessa mania. Sempre dizia que preferia ficar nua; amigos e criados estavam acostumados a vê-la au naturel. Quando se hospedou com Frank nessa época, Marilyn não alterou seus hábitos. Certa manhã, de acordo com um amigo de Sinatra, ele acordou, foi para a cozinha vestindo apenas um short, e encontrou Marilyn parada diante do refrigerador aberto, com o dedo mínimo na boca, tentando decidir se bebia suco de laranja ou de grapefruit. Estava nua. "Oh, Frankie", teria dito, provavelmente fingindo constrangimento. "Não sabia que você acordava tão cedo."
"Esse foi o fim de tudo que havia de platônico entre eles", relatou Jimmy Whiting. "Ele me contou que fez sexo com ela ali mesmo, na cozinha, contra a porta do refrigerador. 'Homem', ele comentou, 'nunca havia feito sexo daquele jeito. É uma mulher fantástica'."
"Na verdade, Frank enfrentava problemas de impotência naquele tempo. Muita bebida. O álcool estava arruinando sua vida sexual. Estava ficando velho demais para beber daquela maneira e ainda esperar uma boa performance na cama. E estava frustrado com isso, porque uma coisa de que Frank sempre se orgulhara era da habilidade de satisfazer uma mulher."
Aparentemente, Marilyn curou Sinatra de sua impotência, pelo menos por um tempo. Ela disse que não se importava com o tempo necessário para isso; estava decidida a se divertir na cama com ele. Os dois eram sexualmente inovadores. Por exemplo, de acordo com amigos de Sinatra, ele e Marilyn tinham intimidades à noite no telhado do Sands Hotel, sobre a faixa de Las Vegas. Curiosamente, um memorando datado de 30 de maio de 1959 e assinado por Jack Entratter para a equipe de segurança de hotel confirma essa história. O documento concede: "Permissão integral ao senhor Frank Sinatra para ir ao telhado do Sands Hotel nas 24 horas do dia. O senhor Sinatra se compromete a ser discreto ao entreter qualquer outro hóspede nesse local. Obrigado".
"O que ouvi no escritório foi que Marilyn e Frank tiveram uma discussão quando ela, bêbada, confessou que, enquanto tentava curá-lo da impotência, frequentemente 'fingia', não tendo obtido ela mesma satisfação sexual", lembrou Wesley Miller da Wright, Wright, Green & Wright. "Frank ficou muito aborrecido com a revelação e, aparentemente, disse: 'Jesus, se não posso satisfazê-la, então que diabos estou fazendo com ela? Por que ela tinha de me dizer isso? Precisava saber? Inferno, não, não precisava'." (Frank considerou a confissão de Marilyn uma afronta a sua masculinidade, mas outros que a conheciam bem afirmavam que ela raras vezes sentia prazer durante as relações sexuais, e que o problema era consequência dos inúmeros problemas psicológicos.)
Apesar de todos os problemas que tinha com ela, Frank sempre achara Marilyn inteligente, espirituosa, sexy e excitante. "Frank dizia que Marilyn era como um meteoro", observou a atriz Esther Williams, "e era impossível não ficar fascinado com sua jornada. Sabia-se que ela ia se chocar e se queimar, mas não se sabia como. Mas era certo que a jornada seria cintilante e incrível. A única razão que impedia Frank Sinatra de assumir um relacionamento mais sério com Marilyn, declarou, era o sofrimento que ainda experimentava com a perda de Ava. Era cedo demais. Além disso, nunca mais se envolveria com outra atriz. Prometera a si mesmo."
Mesmo se entendendo muito bem, Frank e Marilyn discutiam de vez em quando. Uma vez, ela apareceu distraída e nua em um jogo de pôquer de Frank com os amigos, algo que o enfureceu. "Leve esse traseiro gordo de volta para o quarto", explodiu. Mas não conseguia ficar zangado com ela por muito tempo. De fato amava Marilyn - embora não estivesse apaixonado por ela - e entendia suas fraquezas. Era frágil e delicada, características que Frank não apreciava em uma mulher. Jamais permitiria a nenhuma de suas mulheres o luxo da vulnerabilidade, mas, com Marilyn, era diferente. Era especial.
Depois daquele jogo de pôquer, quando os amigos foram embora, Sinatra voltou para o quarto dela, segundo recordações de Marilyn: "beijou-me no rosto, e fez que me sentisse muito especial. Daquele dia em diante, sempre me vesti para ele, mesmo que não houvesse mais ninguém em casa".
Segredos e malícias de Marilyn Monroe
Vi esse material na Folha. Interessante registro sobre Marilyn Monroe.(EB)
"A Vida Secreta de Marilyn Monroe" (Planeta, 2010), do biógrafo de celebridades J. Randy Taraborrelli, conta a história da atriz não somente sob a luz dos holofotes e dos escândalos amorosos, mas agrupa acontecimentos dramáticos, como a esquizofrenia de sua mãe e o próprio declínio mental de Marilyn durante o processo.
O volume chegará às livrarias no dia 15 de abril. Segundo o autor, suas fontes de referência e consulta foram historiadores, chamados de "verdadeiros especialistas", atores, atrizes e até mesmo agentes do serviço secreto americano. Biógrafo de personalidades como Michael Jackson, Madonna, Grace Kelly, Diana Ross, Elizabeth Taylor e Frank Sinatra, Taraborrelli também consultou notas e matérias da década de 1950 para construir um relato preciso e esclarecedor.
Um deles é sobre o affair entre Marilyn e Sinatra. No trecho abaixo, extraído do livro, vemos uma atriz que se esforçava em chamar a atenção de um homem que havia acabado de perder a mulher (Ava Gardner). Percebemos também um artista excepcional que tentava lidar com a impotência sexual dividindo o mesmo teto com um dos símbolos sexuais de Hollywood.
Marilyn, que tinha o costume de andar nua em seu lar, perdeu aos poucos o hábito. Veja abaixo como se deu o processo, influenciado pelo próprio cantor.
Tempos difíceis
Quando passaram a morar juntos, Frank e Marilyn admitiram que ainda eram apaixonados pelos ex-parceiros. Portanto, por um tempo, não houve nenhuma ligação sexual entre eles. Apenas dividiam uma vasta solidão comum aos dois. Frank não estava interessado em nada além disso, embora fosse difícil para os amigos dele entenderem que, mesmo tendo no apartamento uma das estrelas do cinema mais assediadas, não havia nada entre eles.
O que se conta é que Marilyn havia adquirido o hábito de não se vestir quando estava em casa. Todos que a conheciam bem sabiam dessa mania. Sempre dizia que preferia ficar nua; amigos e criados estavam acostumados a vê-la au naturel. Quando se hospedou com Frank nessa época, Marilyn não alterou seus hábitos. Certa manhã, de acordo com um amigo de Sinatra, ele acordou, foi para a cozinha vestindo apenas um short, e encontrou Marilyn parada diante do refrigerador aberto, com o dedo mínimo na boca, tentando decidir se bebia suco de laranja ou de grapefruit. Estava nua. "Oh, Frankie", teria dito, provavelmente fingindo constrangimento. "Não sabia que você acordava tão cedo."
"Esse foi o fim de tudo que havia de platônico entre eles", relatou Jimmy Whiting. "Ele me contou que fez sexo com ela ali mesmo, na cozinha, contra a porta do refrigerador. 'Homem', ele comentou, 'nunca havia feito sexo daquele jeito. É uma mulher fantástica'."
"Na verdade, Frank enfrentava problemas de impotência naquele tempo. Muita bebida. O álcool estava arruinando sua vida sexual. Estava ficando velho demais para beber daquela maneira e ainda esperar uma boa performance na cama. E estava frustrado com isso, porque uma coisa de que Frank sempre se orgulhara era da habilidade de satisfazer uma mulher."
Aparentemente, Marilyn curou Sinatra de sua impotência, pelo menos por um tempo. Ela disse que não se importava com o tempo necessário para isso; estava decidida a se divertir na cama com ele. Os dois eram sexualmente inovadores. Por exemplo, de acordo com amigos de Sinatra, ele e Marilyn tinham intimidades à noite no telhado do Sands Hotel, sobre a faixa de Las Vegas. Curiosamente, um memorando datado de 30 de maio de 1959 e assinado por Jack Entratter para a equipe de segurança de hotel confirma essa história. O documento concede: "Permissão integral ao senhor Frank Sinatra para ir ao telhado do Sands Hotel nas 24 horas do dia. O senhor Sinatra se compromete a ser discreto ao entreter qualquer outro hóspede nesse local. Obrigado".
"O que ouvi no escritório foi que Marilyn e Frank tiveram uma discussão quando ela, bêbada, confessou que, enquanto tentava curá-lo da impotência, frequentemente 'fingia', não tendo obtido ela mesma satisfação sexual", lembrou Wesley Miller da Wright, Wright, Green & Wright. "Frank ficou muito aborrecido com a revelação e, aparentemente, disse: 'Jesus, se não posso satisfazê-la, então que diabos estou fazendo com ela? Por que ela tinha de me dizer isso? Precisava saber? Inferno, não, não precisava'." (Frank considerou a confissão de Marilyn uma afronta a sua masculinidade, mas outros que a conheciam bem afirmavam que ela raras vezes sentia prazer durante as relações sexuais, e que o problema era consequência dos inúmeros problemas psicológicos.)
Apesar de todos os problemas que tinha com ela, Frank sempre achara Marilyn inteligente, espirituosa, sexy e excitante. "Frank dizia que Marilyn era como um meteoro", observou a atriz Esther Williams, "e era impossível não ficar fascinado com sua jornada. Sabia-se que ela ia se chocar e se queimar, mas não se sabia como. Mas era certo que a jornada seria cintilante e incrível. A única razão que impedia Frank Sinatra de assumir um relacionamento mais sério com Marilyn, declarou, era o sofrimento que ainda experimentava com a perda de Ava. Era cedo demais. Além disso, nunca mais se envolveria com outra atriz. Prometera a si mesmo."
Mesmo se entendendo muito bem, Frank e Marilyn discutiam de vez em quando. Uma vez, ela apareceu distraída e nua em um jogo de pôquer de Frank com os amigos, algo que o enfureceu. "Leve esse traseiro gordo de volta para o quarto", explodiu. Mas não conseguia ficar zangado com ela por muito tempo. De fato amava Marilyn - embora não estivesse apaixonado por ela - e entendia suas fraquezas. Era frágil e delicada, características que Frank não apreciava em uma mulher. Jamais permitiria a nenhuma de suas mulheres o luxo da vulnerabilidade, mas, com Marilyn, era diferente. Era especial.
Depois daquele jogo de pôquer, quando os amigos foram embora, Sinatra voltou para o quarto dela, segundo recordações de Marilyn: "beijou-me no rosto, e fez que me sentisse muito especial. Daquele dia em diante, sempre me vesti para ele, mesmo que não houvesse mais ninguém em casa".
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Um poema com o sentido do mundo
Emanoel Barreto
Garimpando a net encontrei o poema "Proa" de Edival Perrini.Uma pérola que compartilho, neste tempo de páscoa.
O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Que venham as tormentas, que venha o que vier,
tenho o sonho comigo, o sonho é meu pastor.
O mundo da aparência não me engolirá.
Conheço bem suas manhas, meu ofício é interior:
girassol que é girassol tem proa pro amanhecer.
O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Com ele eu teço o mundo, reinvento a via-láctea.
Mistérios são bem-vindos, o sonho é meu pastor.
Ou eu busco a verdade ou ela não me achará.
Minha verdade, o sonho, é pomar e é brasão.
Seu universo, os versos, fio do sim e do não.
O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Encontro nele a luz, meu alimento e cor.
Que escorra a ampulheta, o sonho é meu pastor.
Emanoel Barreto
Garimpando a net encontrei o poema "Proa" de Edival Perrini.Uma pérola que compartilho, neste tempo de páscoa.
O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Que venham as tormentas, que venha o que vier,
tenho o sonho comigo, o sonho é meu pastor.
O mundo da aparência não me engolirá.
Conheço bem suas manhas, meu ofício é interior:
girassol que é girassol tem proa pro amanhecer.
O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Com ele eu teço o mundo, reinvento a via-láctea.
Mistérios são bem-vindos, o sonho é meu pastor.
Ou eu busco a verdade ou ela não me achará.
Minha verdade, o sonho, é pomar e é brasão.
Seu universo, os versos, fio do sim e do não.
O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Encontro nele a luz, meu alimento e cor.
Que escorra a ampulheta, o sonho é meu pastor.
segunda-feira, 29 de março de 2010
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u713589.shtml
Ao mestre, com carinho
Emanoel Barreto
O mestre Armando Nogueira deixa os gramados da vida para encaminhar-se a outros maracanãs. No jornalismo, destacou-se como o homem que criou o Jornal Nacional. O jornalismo é assim: uma atividade para a qual parece que já nascemos talhados, pensando de um determinado modo, agindo de um certo jeito. O jornalista nasce para acompanhar a louca aventura do homem no mundo.
Quando a Globo revolucionou o telejornalismo, começando a implantar sua hegemonia, Armando foi o técnico e o artilheiro. Literalmente, gostava de alçar voos altos. Era piloto de ultraleve, águia do texto, viajor da música que tocava em sua gaita.
Viveu muito e viveu bem. Deixa uma lacuna e uma grande lição do que é ser um repórter.
Três olhares sobre minha casa
Emanoel Barreto
Ontem à noite, após 20 minutos de chuva, as "obras" de drenagem na zona sul mostraram seu resultado perverso. Fui obrigado a tirar o carro da garagem. Caso continuasse a chover, viria a inundação. E o carro, bom, o carro...
Emanoel Barreto
Minha casa vista por mim
Minha casa vista pelo avaliador, depois do que fez a Prefeitura e a sua "drenagem"
Minha casa vista pelo IPTU da Prefeitura
Ontem à noite, após 20 minutos de chuva, as "obras" de drenagem na zona sul mostraram seu resultado perverso. Fui obrigado a tirar o carro da garagem. Caso continuasse a chover, viria a inundação. E o carro, bom, o carro...
00:15 - madrugada do dia 29/03/2010, hora de colocar o carro na rua e abrir espaço para a água.
Lado interno
O gramado sumiu
A água invade a garagem
A calçada sumiu
A rua também
Lado interno - água invade a contenção de alagamento
A enchente lá fora
A enchente do lado interno
Isto foi só uma amostra daquilo que poderemos enfrentar durante o inverno.
domingo, 28 de março de 2010
http://pluralidade.files.wordpress.com/2009/03/caso-nardoni.jpg
O silêncio dos desgraçados
Emanoel Barreto
Passsada a fase sencacionalista do julgamento e condenação de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, o casal entrará para o que poderia ser chamado de o silêncio dos desgraçados. Trata-se, em todos os casos, de um acontecimento perverso: das suas origens hediondas até o comportamento jornalístico, que elevou a níveis de histeria a comoção do senso comum.
De alguma forma houve uma catarse coletiva, quando todos os males da nossa sociedade foram como que purgados na condenação dos dois. Crime houve, punição deve haver. Todavia, não é papel do jornalismo exarcerbar o tumulto dos ânimos populares. Se o Direito é manifestação de civilidade, o grito das multidões não deve servir, como mercadoria, às empresas jornalísticas para faturar audiência.
O silêncio dos dois desgraçados, seu calabouço social, deveria ser a pena em si. Jamais a imprensa agindo como falsa consciência desse mesmo social.
O silêncio dos desgraçados
Emanoel Barreto
Passsada a fase sencacionalista do julgamento e condenação de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, o casal entrará para o que poderia ser chamado de o silêncio dos desgraçados. Trata-se, em todos os casos, de um acontecimento perverso: das suas origens hediondas até o comportamento jornalístico, que elevou a níveis de histeria a comoção do senso comum.
De alguma forma houve uma catarse coletiva, quando todos os males da nossa sociedade foram como que purgados na condenação dos dois. Crime houve, punição deve haver. Todavia, não é papel do jornalismo exarcerbar o tumulto dos ânimos populares. Se o Direito é manifestação de civilidade, o grito das multidões não deve servir, como mercadoria, às empresas jornalísticas para faturar audiência.
O silêncio dos dois desgraçados, seu calabouço social, deveria ser a pena em si. Jamais a imprensa agindo como falsa consciência desse mesmo social.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Amigas e Amigos,
Tenho andado muito ocupado. Assim, não posso atualizar o Coisas de Jornal diariamente. Espero voltar a fazê-lo a partir deste fim de semana.
Abraços,
Emanoel Barreto
Tenho andado muito ocupado. Assim, não posso atualizar o Coisas de Jornal diariamente. Espero voltar a fazê-lo a partir deste fim de semana.
Abraços,
Emanoel Barreto
terça-feira, 23 de março de 2010
Acredito
Emanoel Barreto
Acredito na força das mãos que trabalham
o silêncio cúmplice dos que querem viver a sós.
Acredito nesse silêncio que
fala vozes invisíveis.
domingo, 21 de março de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg5Rvf-60cHFV6DXHbc5GiU-uvs4W-nf1N8eCoxZnK0ghOba0PEZ2s6ZouBwVyA1Vw7j9-lvNwWLUT7p7f1eiXCnkpLm04FiiKAZcOuBm3vZ_v9nnzUB3LuJaVMLYzT_T3F4BHS/s400/pobreza+67.jpg
Caras Amigas,
Caros Amigos,
Era uma vez, Pobre. Pobre era um sem-teto, sem-tudo, sem-nada, sem lenço e, principalmente, sem documento. "Sem documento", terrível e essencial detalhe. Esse foi seu grande erro: nunca ter tirado documento. Mas também pra quê? Ninguém sabia mesmo quem era ele...
Mas foi assim que, certa noite, deitado ao lado de amigos, sentindo o cheiro forte da cachaça de Marimba, velho companheiro de dias de fome, noites de frio, relento e abandono, Pobre morreu. Simplesmente, morreu. Esquecido e anônimo, foi recolhido como indigente e despejado numa vala. Sem nome, sem choro nem vela.
Chegando ao Outro Lado, encaminhou-se ao Departamento de Recepção, onde uma simpática velhinha o recebeu. Deu-lhe as boas-vindas, garantiu que ali finalmente ele seria feliz e disse para ele se encaminhar ao Setor de Cadastro. Pobre obedeceu, cabisbaixo e calado, como sempre. Lá chegando, o funcionário, um fantasma grandão, olhar de desagrado, pediu:"Documento." O problema é que Pobre, lembram?, não tinha documento algum.
Disse: "Tenho não."
O homem insistiu:"Documento."
"Que documento o senhor quer?"
O outro repondeu: "Certidão de óbito. Sem isso, nem vem que não entra."
Pobre quis saber se poderia conseguir algo, um registro provisório, alguma coisa assim. A resposta foi "não. Aqui é a eternidade, sabia? A eternidade é o para sempre do nunca mais. Não tem meio termo, nada é provisório."
Pobre perguntou então o que deveria fazer. Era muito simples, disse o homem: "Você volta, e lá no mundo você consegue o atestado de óbito. Vem para cá e entra. Vá logo, que a eternidade não espera por ninguém."
Pobre fez um esforço enorme para sair da cova rasa e, quando conseguiu chegar à superfície, estava em meio a um temporal. Calado, acostumado ao sofrimento, sofrido e abatido, encaminhou-se a uma rua deserta e ali passou a noite, deitado sob uma marquise. Dia seguinte, saiu perambulando pela cidade, à procura de uma certidão de óbito.
Foi primeiro a uma repartição pública, onde eram atendidos mendigos e explicou sua situação. Disse que tinha morrido, estava com pressa para ir para o Outro Mundo, mas os funcionários disseram que, mesmo entendendo sua situação, nada podiam fazer. Não dava para atender quem já tinha morrido. Gente morta era com o pessoal da Prefeitura, que cuidava de enterrar desvalidos. Sentiam muito.
Pobre foi até um Departamento qualquer da Prefeitura e nada. Também ali não atendiam os mortos. Pobre saiu caminhando, caminhando, até chegar a outra repartição. Ali causou sensação. Uma funcionária, toda apressadinha, anunciou aos colegas que ali estava um "morto legítimo, já pensou? Juntou gente, formou-se confusão. Um vereador que ia passando manifestou-se sensibilizado e disse que faria um pronunciamento na Câmara, em favor dos mortos sem documento. O pessoal de uma ONG se propôs a fazer uma manifestação de protesto, pois os mortos também têm direitos humanos e não podem ficar por aí, largados.
O alarido era enorme, até que uma radiopatrulha que passava, parou. Os soldados queriam saber o que se passava e logo chegaram até Pobre, que já estava desesperado e queria fugir, pois o vereador já conclamava a multidão a uma passeata reivindicatória e gritrava: "Os mortos/Unidos/Jamais serão vencidos!" Gente já pensava em se suicidar para unir-se organicamente à mobilização mortuária.
Pobre entrou em pânico e dizia: "Eu só quero meu atestado de óbito." Mas de nada adiantava. As pessoas só queriam saber "como era do outro lado e como ele havia voltado." O sargento que comandava a radiopatrulha, vendo que se tratava de um morto e, pior, de um morto desordeiro, resolveu prendê-lo. Mas, foi advertido pelo pessoal da ONG de que Pobre não estava promovendo o tumulto, era vítima dele. Assim, não poderia ser preso. Se fosse em cana, tome protesto.
Nisso, o sargento teve uma idéia, a solução para prender Pobre e acabar com a confusão. E disse: "O senhor esteje preso."
"Mas como?", quis saber o vereador. Este morto não fez nada. Morrer é crime?"
O sargento insistiu: "Morrer, pode. Morrer não é crime. Mas, no caso, trata-se de um zumbi. Zumbi é proibido. Zumbi só é permitido no Haiti e nosso país não quebrou essa patente nem tem verba para comprar os direitos de produzir zumbis. O senhor é um zumbi. Está dando alteração. Portanto, esteje preso."
Emanoel Barreto
Caras Amigas,
Caros Amigos,
Era uma vez, Pobre. Pobre era um sem-teto, sem-tudo, sem-nada, sem lenço e, principalmente, sem documento. "Sem documento", terrível e essencial detalhe. Esse foi seu grande erro: nunca ter tirado documento. Mas também pra quê? Ninguém sabia mesmo quem era ele...
Mas foi assim que, certa noite, deitado ao lado de amigos, sentindo o cheiro forte da cachaça de Marimba, velho companheiro de dias de fome, noites de frio, relento e abandono, Pobre morreu. Simplesmente, morreu. Esquecido e anônimo, foi recolhido como indigente e despejado numa vala. Sem nome, sem choro nem vela.
Chegando ao Outro Lado, encaminhou-se ao Departamento de Recepção, onde uma simpática velhinha o recebeu. Deu-lhe as boas-vindas, garantiu que ali finalmente ele seria feliz e disse para ele se encaminhar ao Setor de Cadastro. Pobre obedeceu, cabisbaixo e calado, como sempre. Lá chegando, o funcionário, um fantasma grandão, olhar de desagrado, pediu:"Documento." O problema é que Pobre, lembram?, não tinha documento algum.
Disse: "Tenho não."
O homem insistiu:"Documento."
"Que documento o senhor quer?"
O outro repondeu: "Certidão de óbito. Sem isso, nem vem que não entra."
Pobre quis saber se poderia conseguir algo, um registro provisório, alguma coisa assim. A resposta foi "não. Aqui é a eternidade, sabia? A eternidade é o para sempre do nunca mais. Não tem meio termo, nada é provisório."
Pobre perguntou então o que deveria fazer. Era muito simples, disse o homem: "Você volta, e lá no mundo você consegue o atestado de óbito. Vem para cá e entra. Vá logo, que a eternidade não espera por ninguém."
Pobre fez um esforço enorme para sair da cova rasa e, quando conseguiu chegar à superfície, estava em meio a um temporal. Calado, acostumado ao sofrimento, sofrido e abatido, encaminhou-se a uma rua deserta e ali passou a noite, deitado sob uma marquise. Dia seguinte, saiu perambulando pela cidade, à procura de uma certidão de óbito.
Foi primeiro a uma repartição pública, onde eram atendidos mendigos e explicou sua situação. Disse que tinha morrido, estava com pressa para ir para o Outro Mundo, mas os funcionários disseram que, mesmo entendendo sua situação, nada podiam fazer. Não dava para atender quem já tinha morrido. Gente morta era com o pessoal da Prefeitura, que cuidava de enterrar desvalidos. Sentiam muito.
Pobre foi até um Departamento qualquer da Prefeitura e nada. Também ali não atendiam os mortos. Pobre saiu caminhando, caminhando, até chegar a outra repartição. Ali causou sensação. Uma funcionária, toda apressadinha, anunciou aos colegas que ali estava um "morto legítimo, já pensou? Juntou gente, formou-se confusão. Um vereador que ia passando manifestou-se sensibilizado e disse que faria um pronunciamento na Câmara, em favor dos mortos sem documento. O pessoal de uma ONG se propôs a fazer uma manifestação de protesto, pois os mortos também têm direitos humanos e não podem ficar por aí, largados.
O alarido era enorme, até que uma radiopatrulha que passava, parou. Os soldados queriam saber o que se passava e logo chegaram até Pobre, que já estava desesperado e queria fugir, pois o vereador já conclamava a multidão a uma passeata reivindicatória e gritrava: "Os mortos/Unidos/Jamais serão vencidos!" Gente já pensava em se suicidar para unir-se organicamente à mobilização mortuária.
Pobre entrou em pânico e dizia: "Eu só quero meu atestado de óbito." Mas de nada adiantava. As pessoas só queriam saber "como era do outro lado e como ele havia voltado." O sargento que comandava a radiopatrulha, vendo que se tratava de um morto e, pior, de um morto desordeiro, resolveu prendê-lo. Mas, foi advertido pelo pessoal da ONG de que Pobre não estava promovendo o tumulto, era vítima dele. Assim, não poderia ser preso. Se fosse em cana, tome protesto.
Nisso, o sargento teve uma idéia, a solução para prender Pobre e acabar com a confusão. E disse: "O senhor esteje preso."
"Mas como?", quis saber o vereador. Este morto não fez nada. Morrer é crime?"
O sargento insistiu: "Morrer, pode. Morrer não é crime. Mas, no caso, trata-se de um zumbi. Zumbi é proibido. Zumbi só é permitido no Haiti e nosso país não quebrou essa patente nem tem verba para comprar os direitos de produzir zumbis. O senhor é um zumbi. Está dando alteração. Portanto, esteje preso."
Emanoel Barreto
sexta-feira, 19 de março de 2010
Caras Amigas,
Caros Amigos,
Volto a escrever na próxima semana.
Emanoel Barreto
Caros Amigos,
Volto a escrever na próxima semana.
Emanoel Barreto
domingo, 14 de março de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiJwS0KTh4wT6SI_4zFzAmKv_X6dNbuApEznrV-Woy6n6avVRTZhbcq1da29M0JgT7yHFmlCyRoEqy2Na2NTPgJb8QXQ2ZdkDz7QueniYeemaVt2uA6LaLMTcz1lxR_lKhmVnGUzg/s320/serra,+dilma+e+lula.bmp
A política é dama mobile
Emanoel Barreto
O anúncio de que quarta-feira próxima será divulgada pesquisa em Dilma está um ponto acima de Serra demonstra o quanto é fátua e volúvel a opinião social a respeito do que sejam a política e seus atores principais.
Tudo varia entre a visibilidade e reconhecimento de alguém no cenário como enquadrado a um perfil positivo, em detrimento de outrem antes visto como dotado de virtù, muito embora tal virtù fosse algo difuso e não bem especificado ante o olhar público.
Quero dizer: quando Dilma ainda era uma espécie de desconhecida coroada, Serra, por já contar com capital simbólico, estava na dianteira. Após, quando a mesma Dilma passou a ser ocupante do pálio presidencial, cujas virtù e fortuna a beneficiaram, ela ascende aos refletores principais e começa a cantar a sua ária.
Tudo, entretanto, é volúvel. A política, como na ária famosa, é dama mobile; e, claro, os embates estão apenas começando. Todavia, é preciso, quanto ao momento atual, a constatação: Dilma, imantada pelo prestígio de Lula, agora passa a encarnar um ator político onde o olhar social encontra refletido o prestígio e as qualidades que, do líder, passaram à liderada.
O ser coletivo chamado povo, com isso, encontra, de forma gasosa, não bem especificada, alguém com potencial de confiabilidade. Quanto a Serra, o que o levara até então a obter bons resultados nas pesquisas? O que já foi dito: capital simbólico, coisa que faltava a Dilma.
Serra detém exposição midiática reiterada e bem anterior à de Dilma. Por isso, ser famoso, tinha vantagem. Não por uma mensagem específica, que o apresentasse como um condottiero salvacionsta ante um governo de desacerto - até porque o governo tem-se saído bem no enfrentamento de crises.
Agora, quando ela ascende e traz agregada a si a figuração de um governo que, queiram ou não, vem dando certo, será preciso um discurso forte para fazer a sua contestação. É de conteúdo que estou falando. Vamos esperar os números da pesquisa e, o mais importante em termos de comunicação, uma nova pesquisa.
A política é dama mobile
Emanoel Barreto
O anúncio de que quarta-feira próxima será divulgada pesquisa em Dilma está um ponto acima de Serra demonstra o quanto é fátua e volúvel a opinião social a respeito do que sejam a política e seus atores principais.
Tudo varia entre a visibilidade e reconhecimento de alguém no cenário como enquadrado a um perfil positivo, em detrimento de outrem antes visto como dotado de virtù, muito embora tal virtù fosse algo difuso e não bem especificado ante o olhar público.
Quero dizer: quando Dilma ainda era uma espécie de desconhecida coroada, Serra, por já contar com capital simbólico, estava na dianteira. Após, quando a mesma Dilma passou a ser ocupante do pálio presidencial, cujas virtù e fortuna a beneficiaram, ela ascende aos refletores principais e começa a cantar a sua ária.
Tudo, entretanto, é volúvel. A política, como na ária famosa, é dama mobile; e, claro, os embates estão apenas começando. Todavia, é preciso, quanto ao momento atual, a constatação: Dilma, imantada pelo prestígio de Lula, agora passa a encarnar um ator político onde o olhar social encontra refletido o prestígio e as qualidades que, do líder, passaram à liderada.
O ser coletivo chamado povo, com isso, encontra, de forma gasosa, não bem especificada, alguém com potencial de confiabilidade. Quanto a Serra, o que o levara até então a obter bons resultados nas pesquisas? O que já foi dito: capital simbólico, coisa que faltava a Dilma.
Serra detém exposição midiática reiterada e bem anterior à de Dilma. Por isso, ser famoso, tinha vantagem. Não por uma mensagem específica, que o apresentasse como um condottiero salvacionsta ante um governo de desacerto - até porque o governo tem-se saído bem no enfrentamento de crises.
Agora, quando ela ascende e traz agregada a si a figuração de um governo que, queiram ou não, vem dando certo, será preciso um discurso forte para fazer a sua contestação. É de conteúdo que estou falando. Vamos esperar os números da pesquisa e, o mais importante em termos de comunicação, uma nova pesquisa.
sábado, 13 de março de 2010
Raphael Falavigna/Folha Imagem
A morte de Glauco
Emanoel Barreto
A Folha, onde editava seus cartuns, deixou em branco todos os espaços destinados a esse tipo de material, incluindo a charge editorial. Isso, num jornal cerebral como a Folha, não é pouco. Dá para avaliar o sentimento de perda. Sentimento também manifesto em editorial que, contrariando todos os padrões desse tipo de texto, manifestou-se em um olhar pungente, bastante próximo a uma crônica.
Perdeu-se o poeta, o homem religioso, seguidor do Santo Daime. Perdeu-se, enfim, um ator político. Sim, pois suas charges e cartuns eram pronunciamentos vigorosos, perplexos, revoltados. De alguma forma, como é comum ocorrer com todos os que sentem-se ligados a alguém a quem nunca vimos, mas de cuja convivência participamos na quase interação jornalística diária, sinto que perdi um amigo que sempre me brindava com o toque magistral do seu talento.
quinta-feira, 11 de março de 2010
http://amdpc.files.wordpress.com/2008/03/celular-robo.jpg
Tecnologia – Nokia e Samsung – Exemplos para o Brasil
Publicado por Arnobio Rocha em março 10, 2010
Chegamos mais uma vez a período eleitoral nacional e entramos no debate sobre projetos políticos, ideológicos, agora muito mais com a dupla queda dos muros:Berlim x Washington, abre-se uma oportunidade impar de discutirmos o futuro para nosso país. Gostaria de introduzir aqui uma reflexão que fiz em 2002,mas que vejo que está bem atualizada, sobre tecnologia e como o Brasil pode se inserir neste novo marco mundial, superando as mazelas de nosso passado recente.
Trago dois casos na área de Telecomunicações, em que tenho mais familiaridade.Para entarmos entender como países extremamente “secundário” no mercado mundial, conseguiram ter empresas tão importantes, tornando-se marcas vencedoras em determinados campos que olhando a bem pouco tempo nem se imaginaria ocuparem este espaço.
Nokia – A Finlândia no mundo
No início dos anos 90, a Nokia não passava de uma empresa secular de papel e celulose da fria e
distante Finlândia. Nem o país , muito menos esta empresa seria notícia em qualquer jornal de tecnologia. Como em poucos mais de 6 anos eles mudaram de foco e viraram a verdadeira força motriz deste país? A primeira sem dúvida foi a decisão estratégica do governo finlandês de focar boa parte do seu dinheiro de investimento em Pesquisa e Desenvolvimento, numa área que se
expandiria como nenhum outra na história da humanidade em tão pouco tempo,como foram a Telefonia Celular e a Internet. Com esta visão eles concentraram todo seu aporte na Nokia, com incentivos fiscais, ajuda logística e científica e transformou-a na empresa que todos nós conhecemos e admiramos, no caso onde governo e iniciativa privada, mudaram a realidade
de um país e de um povo em tão pouco tempo. Hoje a Finlândia e a Nokia são sinônimos de tecnologia, inovação, modernidade, esquecemos até o quanto é fria a realidade deles, eles estão presentes em praticamente em todo o mundo. Neste aspecto o GSM como padrão majoritário internacionalmente foi fundamental, mas principal lição é esta: O Governo Finlandês apostou no novo e transformou o país.
Samsung – A Coréia do Sul
O segundo caso, é o da Samsung, mais precisamente o caso Coréia do Sul, este país dividido, em semi-ocupação, vindo de uma guerra terrível, subjugado seguidamente por vários séculos, ou por ocupação chinesa ou japonesa, consegue finalmente ser “livre”, porém logo a seguir mergulha em nova guerra e se divide, surgindo duas Coreias. A do sul entra num modelo de acumulação de capital e desenvolvimento seguindo a “proteção” americana, porém com uma
profunda consciência nacional, de que só com a resolução de suas mazelas (fome, miséria extrema, pais atrasadíssimo, cuja única importância era localização geográfica, nas disputas geopolítica de outrora), fizeram uma verdadeira revolução. Ao contrário da Finlândia, lá eles não tinham desenvolvimento econômico que pudessem fazer aquela “virada” deles.
Aqui eles construiram passo-a-passo o seu modelo, gastaram todas as suas economias na educação, com suas jornadas de até 10 horas por dia de aula e 300 dias letivos. Os vários governos priorizaram os 10 maiores conglomerados econômicos do país e lá fundiram iniciativas públicas e privadas, para que a Coréia superasse a sua defasagem histórica em pouco mais de 20 anos eles hoje têm uma vida mais digna. Calma pessoal, estou dando o panorama geral coreano, porque muito nos lembra do nosso, estou chegando no caso Samsung.
Em 1993 houve uma profunda crise nos tigres asiáticos que quase abateu a experiência coreana, após grande ajuste o Governo e iniciativa privada voltam-se para escolher onde investir e com certeza de retorno para o país.
A Samsung é uma das Players eleita para esta nova fase, a empresa passa de apenas produção de manufaturados à grande desenvolvedora de chips e componentes. Sua virada mais significa se dará nas telecomunicações, a ação que o GSM teve para Nokia, o CDMA foi o motor para Samsung, eles rapidamente desenvolveram infraestrutura, e investiram em Aparelhos, com sofisticação e sempre à frente de todos os outros concorrente(CDMA), todo e qualquer novo chipset Qualcomn encontraram vida e função nos aparelhos da Samsung. O design ousado
a inventividade, a tecnologia com olhos no futuro, lembro que 2002 eles colocaram em funcionamento o EVDO(3G modelo americano), antes da copa do mundo, e foi uma jogada de mestre, porque eles foram vistos por todo o mundo como povo inovador, criativo, superando a imagem de produto “segunda linha” do Japão, e hoje com a perspectiva do CDMA (WCDMA, CDMA2000) ser a tecnologia da telefonia obviamente eles estão com um pé à frente.
Brasil: Qual caminho?
Apresentei dois casos apenas para mostrar que o Brasil pode também mudar sua realidade,nós juntamos num mesmo país características da Finlândia e da Coréia, temos que dar um “salto” para que possamos chegar no mesmo estágio deles, como???
Arriscaria umas 4 áreas de tecnologia de ponta:
Área de Telecomunicações ( TV Digital, Software aplicado);
Área química ( exploração e refino de petróleo);
Área de pesquisas Genéticas ( Projeto Genoma, medicina ortomulecular, células tronco,Biodiversidade);
Área ambiental (novamente a biodiversidade, água potável, turismo ecológico, produção agrícola com proteção ambienta)
Por fim vejo que sempre podemos ter lições mais profundas de fenômenos e se tivermos a ousadia de fazer diferente, em 20 anos este será um país muito mais desenvolvido e mais justo.
Tecnologia – Nokia e Samsung – Exemplos para o Brasil
Publicado por Arnobio Rocha em março 10, 2010
Chegamos mais uma vez a período eleitoral nacional e entramos no debate sobre projetos políticos, ideológicos, agora muito mais com a dupla queda dos muros:Berlim x Washington, abre-se uma oportunidade impar de discutirmos o futuro para nosso país. Gostaria de introduzir aqui uma reflexão que fiz em 2002,mas que vejo que está bem atualizada, sobre tecnologia e como o Brasil pode se inserir neste novo marco mundial, superando as mazelas de nosso passado recente.
Trago dois casos na área de Telecomunicações, em que tenho mais familiaridade.Para entarmos entender como países extremamente “secundário” no mercado mundial, conseguiram ter empresas tão importantes, tornando-se marcas vencedoras em determinados campos que olhando a bem pouco tempo nem se imaginaria ocuparem este espaço.
Nokia – A Finlândia no mundo
No início dos anos 90, a Nokia não passava de uma empresa secular de papel e celulose da fria e
distante Finlândia. Nem o país , muito menos esta empresa seria notícia em qualquer jornal de tecnologia. Como em poucos mais de 6 anos eles mudaram de foco e viraram a verdadeira força motriz deste país? A primeira sem dúvida foi a decisão estratégica do governo finlandês de focar boa parte do seu dinheiro de investimento em Pesquisa e Desenvolvimento, numa área que se
expandiria como nenhum outra na história da humanidade em tão pouco tempo,como foram a Telefonia Celular e a Internet. Com esta visão eles concentraram todo seu aporte na Nokia, com incentivos fiscais, ajuda logística e científica e transformou-a na empresa que todos nós conhecemos e admiramos, no caso onde governo e iniciativa privada, mudaram a realidade
de um país e de um povo em tão pouco tempo. Hoje a Finlândia e a Nokia são sinônimos de tecnologia, inovação, modernidade, esquecemos até o quanto é fria a realidade deles, eles estão presentes em praticamente em todo o mundo. Neste aspecto o GSM como padrão majoritário internacionalmente foi fundamental, mas principal lição é esta: O Governo Finlandês apostou no novo e transformou o país.
Samsung – A Coréia do Sul
O segundo caso, é o da Samsung, mais precisamente o caso Coréia do Sul, este país dividido, em semi-ocupação, vindo de uma guerra terrível, subjugado seguidamente por vários séculos, ou por ocupação chinesa ou japonesa, consegue finalmente ser “livre”, porém logo a seguir mergulha em nova guerra e se divide, surgindo duas Coreias. A do sul entra num modelo de acumulação de capital e desenvolvimento seguindo a “proteção” americana, porém com uma
profunda consciência nacional, de que só com a resolução de suas mazelas (fome, miséria extrema, pais atrasadíssimo, cuja única importância era localização geográfica, nas disputas geopolítica de outrora), fizeram uma verdadeira revolução. Ao contrário da Finlândia, lá eles não tinham desenvolvimento econômico que pudessem fazer aquela “virada” deles.
Aqui eles construiram passo-a-passo o seu modelo, gastaram todas as suas economias na educação, com suas jornadas de até 10 horas por dia de aula e 300 dias letivos. Os vários governos priorizaram os 10 maiores conglomerados econômicos do país e lá fundiram iniciativas públicas e privadas, para que a Coréia superasse a sua defasagem histórica em pouco mais de 20 anos eles hoje têm uma vida mais digna. Calma pessoal, estou dando o panorama geral coreano, porque muito nos lembra do nosso, estou chegando no caso Samsung.
Em 1993 houve uma profunda crise nos tigres asiáticos que quase abateu a experiência coreana, após grande ajuste o Governo e iniciativa privada voltam-se para escolher onde investir e com certeza de retorno para o país.
A Samsung é uma das Players eleita para esta nova fase, a empresa passa de apenas produção de manufaturados à grande desenvolvedora de chips e componentes. Sua virada mais significa se dará nas telecomunicações, a ação que o GSM teve para Nokia, o CDMA foi o motor para Samsung, eles rapidamente desenvolveram infraestrutura, e investiram em Aparelhos, com sofisticação e sempre à frente de todos os outros concorrente(CDMA), todo e qualquer novo chipset Qualcomn encontraram vida e função nos aparelhos da Samsung. O design ousado
a inventividade, a tecnologia com olhos no futuro, lembro que 2002 eles colocaram em funcionamento o EVDO(3G modelo americano), antes da copa do mundo, e foi uma jogada de mestre, porque eles foram vistos por todo o mundo como povo inovador, criativo, superando a imagem de produto “segunda linha” do Japão, e hoje com a perspectiva do CDMA (WCDMA, CDMA2000) ser a tecnologia da telefonia obviamente eles estão com um pé à frente.
Brasil: Qual caminho?
Apresentei dois casos apenas para mostrar que o Brasil pode também mudar sua realidade,nós juntamos num mesmo país características da Finlândia e da Coréia, temos que dar um “salto” para que possamos chegar no mesmo estágio deles, como???
Arriscaria umas 4 áreas de tecnologia de ponta:
Área de Telecomunicações ( TV Digital, Software aplicado);
Área química ( exploração e refino de petróleo);
Área de pesquisas Genéticas ( Projeto Genoma, medicina ortomulecular, células tronco,Biodiversidade);
Área ambiental (novamente a biodiversidade, água potável, turismo ecológico, produção agrícola com proteção ambienta)
Por fim vejo que sempre podemos ter lições mais profundas de fenômenos e se tivermos a ousadia de fazer diferente, em 20 anos este será um país muito mais desenvolvido e mais justo.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Amigos, volto a escrever amanhã.
Emanoel Barreto
Emanoel Barreto
segunda-feira, 8 de março de 2010
http://arenapublica.files.wordpress.com/2009/08/serra.jpg
A graça de mil deuses
Emanoel Barreto
A proximidade, quase iminência da eleição presidencial, intensificará o processo de espetacularização da política - atividade que sempre teve seu dado espetacular desde a ágora grega. Candidatos se apresentarão como a imagem viva da salvação, expressas suas mensagens em fragmentos televisivos cujos apelos ao emocional suplantarão em muito o racional e o político propriamente dito.
A campanha política, paradoxalmente, despolitiza a política, fulaniza a campanha: é Dilma ou não é? É Serra ou não é? - Marina, ao que se supõe, é que não é. Ciro, também.
A graça de mil deuses
Emanoel Barreto
A proximidade, quase iminência da eleição presidencial, intensificará o processo de espetacularização da política - atividade que sempre teve seu dado espetacular desde a ágora grega. Candidatos se apresentarão como a imagem viva da salvação, expressas suas mensagens em fragmentos televisivos cujos apelos ao emocional suplantarão em muito o racional e o político propriamente dito.
A campanha política, paradoxalmente, despolitiza a política, fulaniza a campanha: é Dilma ou não é? É Serra ou não é? - Marina, ao que se supõe, é que não é. Ciro, também.
Correligionários e simpatizantes ficarão com os ânimos exaltados e, de um lado e de outro, encontrarão mil motivos para encontrar na petista e no tucano as melhores e as piores qualidades do mundo, depende do olhar.
É claro que nenhum dos dois é o salvador; é óbvio que integram entidades partidárias onde militantes, detentores de mandados e outros quejandos são criminosos (corruptos, espertalhões, sabidinhos, etc...); é inegável que, eleito, um outro não conseguirá "salvar" o país. Nenhuma simples presença humana jamais o fará. Vide Obama e seu "yes, we can".
Mesmo assim o marketing de cada um o apresentará como a personificação da graça de mil deuses, devendo o eleitorado estar grato a cada um desses deuses por existirem Dilma e Serra.
Não voto nele por desconfiar de seus propósitos neoloberais, lesivos aos trabalhadores; tampouco acredito nela como se fora sacerdotisa. Voto, mas sem fé. Em matéria de fé política sou agnóstico.
Às minhas mulheres, no seu Dia
Emanoel Barreto
Há um gesto, que vai do inocente pedido de um brinquedo ou um sorvete, ao mais alentado e afetuoso abraço. É o gesto que brota e que se aninha nas mãos femininas que me cercam: minha neta feita de azul, minhas filhas sempre meninas e Minha Mulher e seus passos - em nossa secreta e delicada eternidade.
Emanoel Barreto
Há um gesto, que vai do inocente pedido de um brinquedo ou um sorvete, ao mais alentado e afetuoso abraço. É o gesto que brota e que se aninha nas mãos femininas que me cercam: minha neta feita de azul, minhas filhas sempre meninas e Minha Mulher e seus passos - em nossa secreta e delicada eternidade.
domingo, 7 de março de 2010
Volto a escrever nesta segunda.
Emanoel Barreto
Emanoel Barreto
sexta-feira, 5 de março de 2010
http://www.assis.unesp.br/egalhard/imagens3/darwin2.gif
Carta de um animal à Promotora Gilka da Mata
O signatário desta missiva, para os fins a que se propõe, abdica de sua condição humana e se coloca sob a proteção do Estatuto de Proteção dos Animais, já que pelas leis humanas não foi assim tratado. A semiose do texto explicará à larga os motivos para tanto.
Anamnese social: o animal signatário vive no bioma urbano localizado na cidade do Natal, Nordeste do Brasil, mais especificamente à Rua Industrial João Mota, onde compartilha com semelhantes da espécie um tratamento bárbaro e desumano por parte da Prefeitura do Natal, atividade perpetrada por construtora que realiza obras de drenagem na área. O animal signatário, que se considera ameaçado em sua normalidade de vida durante períodos chuvosos, acusa os autores da obra de agir contra o interesse da preservação de seres silvestres como o mencionado signatário, já que o bom senso e a condição humana não foram suficientes para sensibilizar a Prefeitura, resultando daí o apelo ao Estatuto.
Requerimento: Requer o animal que Vossa Excelência, como defensora do meio ambiente, o que inclui flora e fauna, e consequentemente o missivista, tome providências visando embargar a citada e malsinada obra. A descrição da mesma, sucintamente, relata: meio-fio mais alto que as calçadas, pista de rolamento também mais alta que a calçada, acesso a garagens prejudicado por montes de areia, péssima qualidade urbanística, que fere até mesmo ao mais inculto olhar.
Consequências da obra: estima o ser silvestre ameaçado que os maléficos efeitos poderão ser sentidos durante os períodos chuvosos, pois a implacável lei da gravidade levará a água das chuvas às casas.
Desta forma, o animal que vos fala, respeitosamente, invoca vossa proteção e vossa graça no sentido de fazer Prefeitura e iniciativa privada sentirem o peso da lei humana sobre ambos e o amparo do Estatuto dos Animais voltar-se a favor de si. Fotos do desastre, recentes e mais antigas, podem ser encontradas no blog Coisas de Jornal (http://coisasdejornal.blogspot.com). Mas, uma visita seria extremamente benéfico a este animal, bem como aos seus assemelhados e co-partícipes da grotesca e terrível obra.
Sob as bênçãos de São Francisco, padroeiro dos animais a quem entrego a minha sorte, mas contando antes com a serenidade de vossa inteligência jurídica e sensibilidade de pessoa culta, requeiro: que as obras sejam paralisadas, desmanchadas e refeitas em parâmetros aceitáveis. Somente assim poderei sentir-me humano novamente, ao deixar de me sentir cercado por ambiente urbano perigoso e hostil.
Respeitosamente,
Emanoel Barreto
Carta de um animal à Promotora Gilka da Mata
O signatário desta missiva, para os fins a que se propõe, abdica de sua condição humana e se coloca sob a proteção do Estatuto de Proteção dos Animais, já que pelas leis humanas não foi assim tratado. A semiose do texto explicará à larga os motivos para tanto.
Anamnese social: o animal signatário vive no bioma urbano localizado na cidade do Natal, Nordeste do Brasil, mais especificamente à Rua Industrial João Mota, onde compartilha com semelhantes da espécie um tratamento bárbaro e desumano por parte da Prefeitura do Natal, atividade perpetrada por construtora que realiza obras de drenagem na área. O animal signatário, que se considera ameaçado em sua normalidade de vida durante períodos chuvosos, acusa os autores da obra de agir contra o interesse da preservação de seres silvestres como o mencionado signatário, já que o bom senso e a condição humana não foram suficientes para sensibilizar a Prefeitura, resultando daí o apelo ao Estatuto.
Requerimento: Requer o animal que Vossa Excelência, como defensora do meio ambiente, o que inclui flora e fauna, e consequentemente o missivista, tome providências visando embargar a citada e malsinada obra. A descrição da mesma, sucintamente, relata: meio-fio mais alto que as calçadas, pista de rolamento também mais alta que a calçada, acesso a garagens prejudicado por montes de areia, péssima qualidade urbanística, que fere até mesmo ao mais inculto olhar.
Consequências da obra: estima o ser silvestre ameaçado que os maléficos efeitos poderão ser sentidos durante os períodos chuvosos, pois a implacável lei da gravidade levará a água das chuvas às casas.
Desta forma, o animal que vos fala, respeitosamente, invoca vossa proteção e vossa graça no sentido de fazer Prefeitura e iniciativa privada sentirem o peso da lei humana sobre ambos e o amparo do Estatuto dos Animais voltar-se a favor de si. Fotos do desastre, recentes e mais antigas, podem ser encontradas no blog Coisas de Jornal (http://coisasdejornal.blogspot.com). Mas, uma visita seria extremamente benéfico a este animal, bem como aos seus assemelhados e co-partícipes da grotesca e terrível obra.
Sob as bênçãos de São Francisco, padroeiro dos animais a quem entrego a minha sorte, mas contando antes com a serenidade de vossa inteligência jurídica e sensibilidade de pessoa culta, requeiro: que as obras sejam paralisadas, desmanchadas e refeitas em parâmetros aceitáveis. Somente assim poderei sentir-me humano novamente, ao deixar de me sentir cercado por ambiente urbano perigoso e hostil.
Respeitosamente,
Emanoel Barreto
quinta-feira, 4 de março de 2010
Vereadores silenciam ante o terrremoto que a Prefeitura promove em Capim Macio
Emanoel Barreto
O post anterior é a transcrição de e-mail que mandei aos vereadores de Natal, hoje de manhã. Até agora, 15h47, não recebi qualquer telefonema ou resposta via net. Não sei os motivos, mas, temo, um deles deve ser falha nas assessorias de gabinete, que, por sinal, não é lugar para somente se beber cafezinho. Vou aguardar.
Emanoel Barreto
O post anterior é a transcrição de e-mail que mandei aos vereadores de Natal, hoje de manhã. Até agora, 15h47, não recebi qualquer telefonema ou resposta via net. Não sei os motivos, mas, temo, um deles deve ser falha nas assessorias de gabinete, que, por sinal, não é lugar para somente se beber cafezinho. Vou aguardar.
Carta aberta aos Vereadores de Natal
Sras. Vereadores,
Srs. Vereadores
É com indignação, e alguma esperança no trabalho e consciência cívica de Vossas Excelências, que lhes envio esta denúncia à ação que a Prefeitura do Natal perpetra contra os moradores da Rua Industrial João Mota, Capim Macio, a pretexto de acabar com as inundações na área – especificamente na citada rua, onde moro.
Trata-se de trabalho de engenharia vergonhoso, onde não se respeita a mais comezinha lei do mundo, inderrogável e apolítica: a lei da gravidade. Explico: a pista de rolamento ficará bem mais alta que as calçadas, o que sem dúvida encaminhará as enxurradas em período chuvoso para dentro de nossas casas. É uma possibilidade que, posso lhes assegurar, é aterradora.
Além disso, esteticamente é um desastre, pois o meio-fio, também muito alto em relação às mesmas calçadas é um insulto até mesmo ao mais ingênuo olhar sobre como que deveria ser um processo bem feito de urbanização. Um lugar bom para se morar. As fotos podem ser vistas neste blog e dão uma dimensão bem clara do que digo.
Ontem (dia 3), ao chegar à minha casa, cerca de 17h, deparei-me, estarrecido, com um amontoado de areia jogado à entrada da garagem. Resultado: o carro, para entrar, encostava no chão. Se estiver com todos os ocupantes e se for sair não sai; da mesma forma, se for entrar, não entra. Outras casas também enfrentam problemas semelhantes. Só vendo para crer.
Trata-se de uma violência à cidadania. Repito: só vendo para crer. Assim, o motivo desta carta é cobrar desta Casa que tome posicionamento apartidário, sereno, firme e íntegro e, se necessário implacável, em defesa da comunidade. Aquilo não é uma obra de engenharia, antes é uma aberração brutal, grotesca, tosca e descabida.
O que temo? Temo que, caso a Câmara Municipal tenha comportamento de indiferentismo, omitindo-se, a construtora dará os trabalhos por terminados, a fiscalização das obras os aceitará como “excelentes” e ficaremos jogados à própria sorte. A iniciativa privada, claro, atenta apenas aos seus lucros, jamais irá refazer o trabalho se não for impedida a tempo por Vossas Excelências, que desta forma estariam em apoio inercial à complacência do Município.
Desta forma, como cidadão e como jornalista, cobro dos Srs. e Sras. Vereadores e Vereadoras alguma ação. É preciso embargar essa obra e obrigar Prefeitura a refazer tudo, rebaixando o nível da pista. Peço, inicialmente, que venham à Industrial João Mota presenciar o lastimável espetáculo a que estamos submetidos. Mas, se tiverem a sensibilidade ou pelo menos disposição de agir, que o façam logo, que o façam hoje, pois a pavimentação que está sendo implantada é um logro e uma brutalidade. Uma obra sem qualquer compromisso com atitude de governo municipal regida pelo mais elementar senso de compromisso e responsabilidade social. Aquilo não é uma obra, insisto: é um insulto.
Já denunciei à imprensa e a outros jornalistas que, como eu, têm blogs, Ricardo Rosado e Blog do Barbosa, são exemplos. Manifestaram indignação. Falta agora a palavra dos representantes do povo. Está sendo anunciada reunião com os moradores, às 19h30 de hoje, na Faculdade Maurício de Nassau. Cobro que algum representante da Câmara esteja presente.
Falo de sociedade civil organizada, entendem? E os vereadores têm obrigações para com esta. Sabem disso, não é?
Espero poder confiar na sinceridade de propósito de Vossas Excelências, tão vigorosamente exposta em vossas campanhas eleitorais.
Saudações,
Emanoel Barreto
Jornalista, professor do Curso de Comunicação Social da UFRN
Sras. Vereadores,
Srs. Vereadores
É com indignação, e alguma esperança no trabalho e consciência cívica de Vossas Excelências, que lhes envio esta denúncia à ação que a Prefeitura do Natal perpetra contra os moradores da Rua Industrial João Mota, Capim Macio, a pretexto de acabar com as inundações na área – especificamente na citada rua, onde moro.
Trata-se de trabalho de engenharia vergonhoso, onde não se respeita a mais comezinha lei do mundo, inderrogável e apolítica: a lei da gravidade. Explico: a pista de rolamento ficará bem mais alta que as calçadas, o que sem dúvida encaminhará as enxurradas em período chuvoso para dentro de nossas casas. É uma possibilidade que, posso lhes assegurar, é aterradora.
Além disso, esteticamente é um desastre, pois o meio-fio, também muito alto em relação às mesmas calçadas é um insulto até mesmo ao mais ingênuo olhar sobre como que deveria ser um processo bem feito de urbanização. Um lugar bom para se morar. As fotos podem ser vistas neste blog e dão uma dimensão bem clara do que digo.
Ontem (dia 3), ao chegar à minha casa, cerca de 17h, deparei-me, estarrecido, com um amontoado de areia jogado à entrada da garagem. Resultado: o carro, para entrar, encostava no chão. Se estiver com todos os ocupantes e se for sair não sai; da mesma forma, se for entrar, não entra. Outras casas também enfrentam problemas semelhantes. Só vendo para crer.
Trata-se de uma violência à cidadania. Repito: só vendo para crer. Assim, o motivo desta carta é cobrar desta Casa que tome posicionamento apartidário, sereno, firme e íntegro e, se necessário implacável, em defesa da comunidade. Aquilo não é uma obra de engenharia, antes é uma aberração brutal, grotesca, tosca e descabida.
O que temo? Temo que, caso a Câmara Municipal tenha comportamento de indiferentismo, omitindo-se, a construtora dará os trabalhos por terminados, a fiscalização das obras os aceitará como “excelentes” e ficaremos jogados à própria sorte. A iniciativa privada, claro, atenta apenas aos seus lucros, jamais irá refazer o trabalho se não for impedida a tempo por Vossas Excelências, que desta forma estariam em apoio inercial à complacência do Município.
Desta forma, como cidadão e como jornalista, cobro dos Srs. e Sras. Vereadores e Vereadoras alguma ação. É preciso embargar essa obra e obrigar Prefeitura a refazer tudo, rebaixando o nível da pista. Peço, inicialmente, que venham à Industrial João Mota presenciar o lastimável espetáculo a que estamos submetidos. Mas, se tiverem a sensibilidade ou pelo menos disposição de agir, que o façam logo, que o façam hoje, pois a pavimentação que está sendo implantada é um logro e uma brutalidade. Uma obra sem qualquer compromisso com atitude de governo municipal regida pelo mais elementar senso de compromisso e responsabilidade social. Aquilo não é uma obra, insisto: é um insulto.
Já denunciei à imprensa e a outros jornalistas que, como eu, têm blogs, Ricardo Rosado e Blog do Barbosa, são exemplos. Manifestaram indignação. Falta agora a palavra dos representantes do povo. Está sendo anunciada reunião com os moradores, às 19h30 de hoje, na Faculdade Maurício de Nassau. Cobro que algum representante da Câmara esteja presente.
Falo de sociedade civil organizada, entendem? E os vereadores têm obrigações para com esta. Sabem disso, não é?
Espero poder confiar na sinceridade de propósito de Vossas Excelências, tão vigorosamente exposta em vossas campanhas eleitorais.
Saudações,
Emanoel Barreto
Jornalista, professor do Curso de Comunicação Social da UFRN
quarta-feira, 3 de março de 2010
Emanoel Barreto
Varia entre a estupidez, o desrespeito e o grotesco o que a Prefeitura de Natal está fazendo com os moradores da Rua Industrial João Motta, em Capim Macio. As obras de drenagem não levam em conta a assimetria entre as calçadas e a pista de rolamento. Em outras palavras: a rua ficará mais alta que as calçadas. Não é preciso ser um gênio em engenharia para entender que uma lei inderrogável, a lei da gravidade, fará com que a enxurrada, em período de inverno, avance para dentro das casas.
Na minha casa, então, chegou-se ao nível da brutalidade: colocaram o meio-fio bem alto, largaram um monte de areia na entrada da minha casa e o resultado foi o seguinte: para entrar, o carro arrasta no chão. Se estiver com a lotação completa simplesmente não entra.
Já fui ao Ministério Público e lá, na presença da promotora Gilka da Mata, o engenheiro Demétrio Torres prometeu, há cerca de 15 dias, que enviaria um engenheiro para ver a situação: ninguém apareceu. A situação não estava tão clamorosa quanto hoje. Pior para mim: afinal, cidadão foi feito para isso mesmo: para ser achincalhado, agredido e desrespeitado em seus direitos. E isso mesmo pagando o IPTU em dia. E IPTU caro!
Paciência: estão prometendo para amanhã uma "reunião" com os moradores. Vou rezar. Sou um homem de fé. Acredito em Deus, quero bem a Nossa Senhora, tenho medo de lobisomem. Os dois primeiros são do Bem. O problema, meu amigo, é o lobisomem...
terça-feira, 2 de março de 2010
Olá, não pude atualizar o blog nos últimos dias. Volto a escrever nesta quinta.
Emanoel Barreto
Emanoel Barreto
sábado, 27 de fevereiro de 2010
http://wrightpattersondui.com/images/common/lone-ranger.jpg
O filho de Francisco ou ai-ooo-Silver, avante!
Emanoel Barreto
Quinta-feira passada tive a alegria de participar de banca de mestrado do jornalista Fagner Torres de França. Dono de texto precioso e belo, aliou estilo ao acadêmico e produziu obra importante a respeito da figura do ator político Wilma de Faria. Analisa sua participação na política do Estado, quando deixou de ser dona de casa para se transformar na figura midiática de "guerreira". Publicada a dissertação, será texto indispensável a quem quiser estudar Wilma como fenômeno político-midiático.
Fagner foi aprovado com louvor. À alegria de conhecer esse talento, juntou-se outra, retirada de uma das gavetas da memória afetiva: ele é filho de um grande amigo de infância, Francisco, menino comigo nos anos 60. Tínhamos, eu e Francisco, uma espécie de clube de leitura de revistas em quadrinhos. Antes de proceder à minha avaliação da dissertação, pedi permissão à banca para registrar esse momento de reencontro com o menino Francisco, ali presente e imensamente feliz.
Éramos amigos, veja só, de Roy Rogers, Tarzan, Super Homem, Fantasma, Zorro e Tondo, Príncipe Valente, Mandrake, Rex Allen, David Crockett e Daniel Boone, só para citar os que me vêm à memória.
E ali soube que Francisco, ao contrário de mim, preservou revistas, muitas revistas, que contam as aventuras dos nossos amigos caubóis, todos afinal "superes". Foi bom, muito bom, reencontrar o menino Francisco e saber que o filho de Francisco é um jornalista de talento e um estudioso das ciências sociais.
Estou certo de que nossa legião de amigos também vibrou e ganhou novo animo para continuar percorrendo as pradarias do Velho Oeste. Ai-OO- Silver, Avante!
O filho de Francisco ou ai-ooo-Silver, avante!
Emanoel Barreto
Quinta-feira passada tive a alegria de participar de banca de mestrado do jornalista Fagner Torres de França. Dono de texto precioso e belo, aliou estilo ao acadêmico e produziu obra importante a respeito da figura do ator político Wilma de Faria. Analisa sua participação na política do Estado, quando deixou de ser dona de casa para se transformar na figura midiática de "guerreira". Publicada a dissertação, será texto indispensável a quem quiser estudar Wilma como fenômeno político-midiático.
Fagner foi aprovado com louvor. À alegria de conhecer esse talento, juntou-se outra, retirada de uma das gavetas da memória afetiva: ele é filho de um grande amigo de infância, Francisco, menino comigo nos anos 60. Tínhamos, eu e Francisco, uma espécie de clube de leitura de revistas em quadrinhos. Antes de proceder à minha avaliação da dissertação, pedi permissão à banca para registrar esse momento de reencontro com o menino Francisco, ali presente e imensamente feliz.
Éramos amigos, veja só, de Roy Rogers, Tarzan, Super Homem, Fantasma, Zorro e Tondo, Príncipe Valente, Mandrake, Rex Allen, David Crockett e Daniel Boone, só para citar os que me vêm à memória.
E ali soube que Francisco, ao contrário de mim, preservou revistas, muitas revistas, que contam as aventuras dos nossos amigos caubóis, todos afinal "superes". Foi bom, muito bom, reencontrar o menino Francisco e saber que o filho de Francisco é um jornalista de talento e um estudioso das ciências sociais.
Estou certo de que nossa legião de amigos também vibrou e ganhou novo animo para continuar percorrendo as pradarias do Velho Oeste. Ai-OO- Silver, Avante!
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
http://mywordpress2.files.wordpress.com/2006/12/adamastor_palaciopena.jpg
A crise da razão política e a maldição de Brasília
Por Mauro Santayana
Todos os pensadores políticos, de Aristóteles a Hans Kelsen, passando por Maquiavel e os filósofos moralistas ingleses e franceses, advertem contra o mau exemplo dos grandes. Uma sociedade apodrece quando seus líderes perdem a virtude do mando. Perón usou – em meio à conspiração que o derrubaria – uma boa frase, quando descobriu que seu cunhado, depois da morte de Evita, estava praticando falcatruas: “Los gobiernos, como el pescado, empiezan a pudrirse por la cabeza”.
Aristóteles, em Ética a nicômaco, assegura que o comportamento ético se adquire com o hábito de agir corretamente. O habito da virtude fortalece e aumenta a virtude, qualquer virtude, e ele dá o exemplo da coragem: é com o hábito de enfrentar o perigo que nos tornamos corajosos; e é quando nos tornamos corajosos que nos encontramos no máximo grau de enfrentar qualquer perigo. A mesma ideia serve para o processo septicêmico das sociedades políticas. É quando nos sentimos covardes que tememos até mesmo os ratos: e é a ousadia dos grandes corruptos que torna as sociedades lenientes com a corrupção.
“Há muito tempo se diz que a boa-fé é a alma de um grande governo”, assim Montesquieu inicia uma de suas Cartas persas, que serviram de modelo às Cartas chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga. Ele se refere, em seguida, a uma hipotética nação das Índias, naturalmente generosa, “pervertida em um instante, do menor de seus indivíduos ao maior deles, pelo mau exemplo de um ministro”. Montesquieu vai adiante: “Vi nascer, de repente, uma sede insaciável de riquezas. Vi formar-se, em um momento, detestável conjuração em busca do enriquecimento, não por um trabalho honesto e uma indústria generosa mas, sim, pela ruína do Estado e de seus concidadãos”.
O que define a ética de um homem de Estado é sua ação na defesa da sociedade que lidera, na busca da igualdade e da justiça. Mas, mesmo se for senhor das mais excelsas virtudes pessoais, ele terá que obedecer a uma vontade maior e acima de seus próprios valores: a lei.
Os legisladores estão fugindo dos princípios e valores aos quais se atavam. Esse é o caso, por exemplo, da situação de Brasília. Durante o governo militar, a cidade foi feudo de contubérnios entre os ditadores de turno, empreiteiros, jornalistas acomodados e servidores públicos de alto nível. O sistema de mordomias tornava a cidade a Ilha da Fantasia. Os grandes jantares, oferecidos pelos ministros, eram de invejar armadores gregos, com faisões, caviar Beluga, vinhos importados. Não havia limites para a ostentação. Um dos ministros, morando em residência do governo, mandou fazer uma piscina em forma de J, porque se chamava Jost.
Assim como o hábito da virtude consolida a virtude, o vício infla o vício, e Brasília se tornou cidade assolada pela corrupção. As “mordomias” deixaram de existir com a redemocratização de 1985, por prévia determinação de Tancredo. Só o presidente e o vice-presidente têm hoje sua despensa abastecida pelos contribuintes. Mesmo assim, durante seu curto governo, Itamar foi cuidadoso com esse direito. Quando seus auxiliares almoçavam com o presidente, as despesas eram quase sempre divididas. Seu governo só ofereceu jantares protocolares aos chefes de Estado estrangeiros, nas visitas e reuniões oficiais, como as do Mercosul.
O fato é que a Constituição de 1988, com a autonomia, facilitou o incremento da corrupção em Brasília. Durante os últimos 20 anos – e devemos excetuar o governo de Cristovam Buarque – a infecção aumentou, até chegar à calamidade atual. Só a intervenção, como primeiro passo, e o retorno da situação política de Brasília à Lei 3.751, de 13 de abril de 1960, que definiu os estatutos da nova capital, poderão recuperar a cidade e, assim, ajudar no saneamento ético da política brasileira. A lei, cujo cumprimento foi, em parte, interrompido pelo governo militar, determinava a nomeação de um prefeito pelo governo federal e a eleição de uma câmara municipal com 20 vereadores. Hoje, todos agem como se Brasília fosse um estado de plenos direitos federativos. Cresce o consenso nos meios políticos e jurídicos de Brasília que a intervenção é medida que se impõe na urgência, até que se revogue a amaldiçoada autonomia
A crise da razão política e a maldição de Brasília
Por Mauro Santayana
Todos os pensadores políticos, de Aristóteles a Hans Kelsen, passando por Maquiavel e os filósofos moralistas ingleses e franceses, advertem contra o mau exemplo dos grandes. Uma sociedade apodrece quando seus líderes perdem a virtude do mando. Perón usou – em meio à conspiração que o derrubaria – uma boa frase, quando descobriu que seu cunhado, depois da morte de Evita, estava praticando falcatruas: “Los gobiernos, como el pescado, empiezan a pudrirse por la cabeza”.
Aristóteles, em Ética a nicômaco, assegura que o comportamento ético se adquire com o hábito de agir corretamente. O habito da virtude fortalece e aumenta a virtude, qualquer virtude, e ele dá o exemplo da coragem: é com o hábito de enfrentar o perigo que nos tornamos corajosos; e é quando nos tornamos corajosos que nos encontramos no máximo grau de enfrentar qualquer perigo. A mesma ideia serve para o processo septicêmico das sociedades políticas. É quando nos sentimos covardes que tememos até mesmo os ratos: e é a ousadia dos grandes corruptos que torna as sociedades lenientes com a corrupção.
“Há muito tempo se diz que a boa-fé é a alma de um grande governo”, assim Montesquieu inicia uma de suas Cartas persas, que serviram de modelo às Cartas chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga. Ele se refere, em seguida, a uma hipotética nação das Índias, naturalmente generosa, “pervertida em um instante, do menor de seus indivíduos ao maior deles, pelo mau exemplo de um ministro”. Montesquieu vai adiante: “Vi nascer, de repente, uma sede insaciável de riquezas. Vi formar-se, em um momento, detestável conjuração em busca do enriquecimento, não por um trabalho honesto e uma indústria generosa mas, sim, pela ruína do Estado e de seus concidadãos”.
O que define a ética de um homem de Estado é sua ação na defesa da sociedade que lidera, na busca da igualdade e da justiça. Mas, mesmo se for senhor das mais excelsas virtudes pessoais, ele terá que obedecer a uma vontade maior e acima de seus próprios valores: a lei.
Os legisladores estão fugindo dos princípios e valores aos quais se atavam. Esse é o caso, por exemplo, da situação de Brasília. Durante o governo militar, a cidade foi feudo de contubérnios entre os ditadores de turno, empreiteiros, jornalistas acomodados e servidores públicos de alto nível. O sistema de mordomias tornava a cidade a Ilha da Fantasia. Os grandes jantares, oferecidos pelos ministros, eram de invejar armadores gregos, com faisões, caviar Beluga, vinhos importados. Não havia limites para a ostentação. Um dos ministros, morando em residência do governo, mandou fazer uma piscina em forma de J, porque se chamava Jost.
Assim como o hábito da virtude consolida a virtude, o vício infla o vício, e Brasília se tornou cidade assolada pela corrupção. As “mordomias” deixaram de existir com a redemocratização de 1985, por prévia determinação de Tancredo. Só o presidente e o vice-presidente têm hoje sua despensa abastecida pelos contribuintes. Mesmo assim, durante seu curto governo, Itamar foi cuidadoso com esse direito. Quando seus auxiliares almoçavam com o presidente, as despesas eram quase sempre divididas. Seu governo só ofereceu jantares protocolares aos chefes de Estado estrangeiros, nas visitas e reuniões oficiais, como as do Mercosul.
O fato é que a Constituição de 1988, com a autonomia, facilitou o incremento da corrupção em Brasília. Durante os últimos 20 anos – e devemos excetuar o governo de Cristovam Buarque – a infecção aumentou, até chegar à calamidade atual. Só a intervenção, como primeiro passo, e o retorno da situação política de Brasília à Lei 3.751, de 13 de abril de 1960, que definiu os estatutos da nova capital, poderão recuperar a cidade e, assim, ajudar no saneamento ético da política brasileira. A lei, cujo cumprimento foi, em parte, interrompido pelo governo militar, determinava a nomeação de um prefeito pelo governo federal e a eleição de uma câmara municipal com 20 vereadores. Hoje, todos agem como se Brasília fosse um estado de plenos direitos federativos. Cresce o consenso nos meios políticos e jurídicos de Brasília que a intervenção é medida que se impõe na urgência, até que se revogue a amaldiçoada autonomia
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