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sexta-feira, 19 de novembro de 2010


De como o Baronete Alberany, o Abominável, parte para enfrentar o Duque de Hermida y Aragão, mas, antes, se defronta com situação de grande injustiça, que será de bom alvitre resolver. Eis sua nova carta, relato dos seus grandes gestos.
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Terra Brasilis, 15 de junho de 1730

Ó leitor bondoso, nada temais que a mim me possa afligir. Sou astuto, intenso e reprovável, e c’os malévolos posso contender. Eis o que vos narro logo agora e a partir daqui.


Lembrai-vos de que, em certa noite, apoderamo-nos eu, o Marquês de Camisão y Astúrias e os biltres que me seguem, de um velho, tabelião e usurário, extirpamos-lhe os bens e o metemos bem e posto a ferros? Pois, bem, depois de assumir perante o Marquês a ingente missão de enfrentar o Duque de Hermida y Astúrias, que, dizem, mantém comércio com o Cão, descobri-me, apavorado, em meio a terrível dilema: como tomar-lhe as terras se é homem malsão e desalmado? Como enfrentar tão tenebrosa criatura? Perdido em meus pensamentos, eis que passo frente ao cárcere do citado velho. E sem meias palavras resolvi-me a lhe pedir conselhos. Não vos quedeis perplexo pela consulta a quem pusera em situação vil e degradada, que é de mim usar e aproveitar, especialmente daqueles a quem posso, sem medo e meio gesto, submeter a tudo o que desejo. 

Munido de meus solertes propósitos dele me aproximei e disse: Sois por certo vilão de grande monta, senão não estaríeis aqui calado e preso. Mas vos faço agora proposta e trato, e se souberdes comigo tratar, vos tirarei do calabouço e vos livro do garrote vil.
Eis que ele respondeu tão prontamente, que a mim até mesmo surpresou: Sim, disse, entro em trato convosco e bem depressa, já que nada mais tenho a perder. Aí, mandei que o livrassem e contei-lhe a desgraça que vivia. Ele, célere, celerado intenso, logo então a falar aconselhou: Vinde em minha companhia, ó velhaco, que juntos faremos cousas grandes. Traze então vossos mais astuciosos servos, carpideiras, velhas e bruacas, que com o Cão não se pode arrefecer. Traze também desordeiros e homens de força rude, para o caso de algum confronto. Enfrentaremos o Duque e seus algozes e os poremos a todos a servir. De senhores virarão labéu de homens, de poderosos a serviçais dobrados. 

Fiz isso e logo partiu toda a terrível comitiva. E pelos caminhos se promoveram insultos, aterrando os pobres passantes. E do povo aqueles sem prestar logo a nós se aliavam, que é do ordinário aos seus se ajuntar. Mas então perguntei ao usurário qual o plano que estava a urdir. Disse-me ele: Não ficou certo com o Marquês que quando um grande não pode do povo tirar se atira sobre outro seu igual e o expropria, para ser assim monopolista? Sim, confirmei. Pois bem, continuou ele. Para tanto é preciso pois, fazer o nobre, em aparência de bandido tornado, ser tido em tal situação. E de augusto a torpe proclamado, e assim merecer penas da lei: seja por amplo e sórdido desacato ou discrepância e torpe sedição. E isso é bem fácil de fazer, pois que o nobre já traz em si tão crimes lestos, que basta uma folha que o desabe. 

Como faremos isso, mente perniciosa, como provaremos que o Duque é homem vil?, quis saber. A resposta deixou-me atônito e parvo: Não sei. E continuou: pelos caminhos encontraremos, até chegar-lhe ao castelo, a solução aos nossos mui percalços. E eu, como já não podia recuar, atirei-me ao lado daquele louco e proclamávamos cousas sem sentido, atraindo grande multidão. Seguia o nosso préstito à larga quando aos longes se nos divisou: lá vinha em sentido oposto, outra grande e enorme procissão. E lhes ouvíamos os gritos, baldões e pronunciação de injúrias.
Afinal se encontraram os dois séquitos e no meio do que vinha encontrava-se amarrado homem. Coberto e feridas, macerado por torturas mais cruéis, gemia o pobre, mas não era ouvido. E estava-lhe na lomba o chicote, que diziam lhe ser punição. A seu lado vinha homem togado, que logo se apresentou como juiz. Perguntei-lhe o que se passava, mas foi a voz do forçado que falou: Foi furto famélico, meu Senhor! Furto famélico! Apoderei-me de três pomos para a fome matar dos filhos meus e da molher que comigo é minha esposa! Nada mais! E por isso então estou punido e temo até que à forca vá! 

Nesse momento o tabelião usurário demonstrou grande escrutínio. Disse-me: Não tendes, como o Marquês, um camisão que, se usado, ele flutua? Sim. Foi a resposta. Então, continuou, vistamo-los eu um e Vossa Mercê outro. E saltemos a fluir aos olhos vedores e deixai o resto à minha conta. 

Vestimos os camisões e nossos patifes nos atiraram ao alto. E os olhos pararam maravilhados: dois homens a voar bem bonançosos. Tomou então a palavra o usurário e gritou ao juiz e aos demais: Este homem aqui não é culpado! Mas o juiz então lhe redarguiu: É culpado sim, de culpa plena, que sentença até lhe perpetrei. Rebateu assim o usurário: Quem dentre vós que não tem fome? Quem dentre vós compareceu ao carrasco e ao verdugo, ao janízaro e ao cruel beleguim porque fome sentia e pão não tinha? É crime pois então buscar comida? 

A multidão virou-se contra o juiz e a favor do homem. Mas os prebostes do juiz o cercaram de apoios e puxaram o preso perto a si. E então o usurário foi rasante e pasmou a todos seu saber. Apoderou-se do juiz e o elevou e o trouxe para perto de mim. Falou-lhe então o grave usurário: seu tabelião e bem me conheceis. Sabeis dos meus tratos e negócios e conheço-vos todos os vossos. Somos iguais e estamos empatados. Vilanagens e todas as baixezas formam nossos catálogos precedentes. Assim,preciso-vos para dois intentos: primeiro, liberai aquele pobre indivíduo. Três pomos não matarão o dono de clamor. E depois ide a nosso lado, prender outro, esse sim, vil e lamentável. Se não, proclamarei vossos males a esta patuléia e sabeis bem qual o resultado. 

O juiz respondeu e foi enfático: Se é assim, se é para o bem de Têmis e justiça geral e amplidão, designo que o pobre seja solto e partamos ao mal subjugar. Eu e o usurário descemos, soltamos o juiz e este proclamou que se fosse solto aquele que estava a sofrer. E afinal convocou todo o seu povo a com ele a se nos ajuntar, a fim de dar cabo a grande injusto, cujos crimes haveria de punir. O povo urrou e aplaudiu a tão ilustre magistrado. E todos se apressaram então a nos comboiar, que nobre missão nos esperava.

Eis que agora vos deixo, meu leitor, que comigo tempo já perdestes. Mas esperai porém que muito breve, boas novas logo vos trarei.

Curvo-me a vosso serviço e me posto e mui,
Baronete Alberany, o Abominável

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Após encotrar-se com o Marquês de Camisão y Astúrias, o Baronete Alberany,o Abominável, traça com seu anfitrião ilustre conversação, fixando planos para aquele que pretende tornar-se Faraó. Nesta carta ele narra o que então se passou.

Terra Brasilis, 14 de junho de 1730

Ilustre leitor, grande letrado, eis agora o que se vos passo a relatar de minha convivência com Sua Graça, o Marquês de Camisão y Astúrias. Caso tenhais paciência de me ler até o fim, vereis quantas cousas boas e dignos projetos estamos a fabular.

Eis o que vois falo: 
após tornar-me apto a conhecer as instâncias da ciência e pôr- me a par de altos conhecimentos, Sua Graça envidou-me a sérios planos. Eis o que se deu: Estais pronto a ajudar-me no intento de logo logo tornar-me Faraó?, disse-me ele.

Ao que de pronto respondi, contrito: Com todo o fito do meu ser e todas as forças que do corpo e mente me acudirem. Ó, exultou, então, tomai saber do que se passa em minh'alma gentil e industriosa. É missão minha e empenho pessoal chegar a tão subida posição. E tornar o povo tão feliz, por servir de bom grado a mim Senhor, que não posso abdicar das lutas, ingentes esforços que já se me avizinham. Meu primeiro passo, já o sabeis, será construir, erguer e erigir magnífica pirâmide, dossel  de eterna pedra onde repousará magnífico o meu sarcófago.

Encantado pela distinta honra de trabalhar com aquele iluminado ser, expus então o que se deu e vos dou agora a saber: Vossa Graça, indaguei, para a construção da pirâmide não precisaremos de extensas terras e de muita mão de obra? Sim, ele concordou de imediato.

Então, disse-lhe eu, mandemos vossos trabalhadores e escravos já a vossa terra repartir, delimitando o local de tão grande obra, feito grande e a ser inigualado. Mas a resposta que me deu calou-me a boca e entonteceu o meu raciocínio. Disse-me: Não. Mas por quê, Vossa Graça?, indaguei. Sem as terras não teremos obra, sem obra crescimento, sem crescimento pirâmide alguma, e tereis a vossa glória desabada.

Ele insistiu: Não. E explicou-me. Suas terras eram para o cultivo e as austeras produções, amanho e belíssimas colheitas. E como faremos?, quis saber então. Teremos terras, assegurou-me. Ante tal declaração logo intuí e disse: Já sei, tomaremos a terra ao povo, que a não nunca soube cultivar? Também não, asseverou, cenho cerrado. Também não, porque o povo não tem terra. E a quem a tem, quando a tem, está em área de paul que a nada serve, a não ser a nuvens de pernilongos e outros insetos malfazejos. O povo, Baronete, não tem nada. Nada a não ser os próprios braços, que esses nem mesmo lhes são seus, pois que vive a mendigar trabalho, implorando uma códea de pão. Pão preto e de travoso gosto.

Então, como faremos, Vossa Graça: ergueremos a pirâmide nos ares? Ele sorriu blandícias e demonstrou sabença: Baronete, tiraremos as terras de outro nobre. Que como eu não é bondoso e justo. Mas avaro e entesourador, não as cultivando com carinho intenso, como faço eu em meu saber.


Ó, Vossa Graça, que carinho, que grandeza de espírito. Deixa ao povo as suas pobres terras para que nelas possam com os mosquitos estar em serena convivência e temperança. E tomareis a um nobre igual a vós aquilo do qual não aproveita. Grande senso de justiça tendes! Eia!

Vistes, vistes como age de bom grado um grande Faraó? Eis aqui toda a minha justiça. Mas, ó, que infeliz sou - surpreendeu-me. E eu disse: Sois infeliz, Vossa Graça? Mas, como, se tendes um futuro eminente? Ao que ele respondeu: As terras que predendo, Baronete, pertencem a sórdido vilão, o Duque de Hermida y Aragão. E, dizem, e afirmou isso com olhar de medo, dizem que tem comércio com o diabo. E ante tais coisas mesmo um Faraó, um ser divino,deve atuar com cautela e parcimônia.

Percebendo o altivo sofrimento de Sua Graça, assumi postura varonil: Ah! Quer dizer que temos aqui um tratante que mantém contatos e presta serviços a Belzebu, heim? Diante de minhas palavras, o grandioso homem admitiu que sim e o fez com um triste acenar de cabeça.

Mas eis que então eu reagi de pronto: Não temais, nobre senhor, assegurei: Irei enfrentá-lo em seus próprios domínios. Esqueceis que tenho comigo súcia de velhacos de grande porte, homens loucos afeitos ao perigo? Esqueceis que me acompanham molheres feiticeiras e macabras, adivinhos falantes e terríveis, videntes e profetas embusteiros? Ó, nobre senhor, considerai vosso intento coisa feita. Deixai-me liderar a minha grei e ao fim e ao cabo vos trarei as alvíssaras mais lucentes e hermosas e daremos a nosso ofício mãos à obra, construindo monumental pirâmide.

E dizendo assim pedi licença, e de sua presença me saí. Reuni meu bando de ordinários, atirando-me à grande empreitada: enfrentar e vencer o Duque de Hermida y Aragão, abrindo ao meu senhor largos espaços.

Mas, eis que agora vos deixo leitor meu, ilustre anfitrião de mis palavras. Em breve retorno em outra carta, vos narrando o que se assucedeu.

Deste que vos honra e preza,
Baronete Alberany, o Abominável.

sábado, 13 de novembro de 2010


Após receber carta do Marquês de Camisão, Alberany, o abominável, toma contato com estranha e refulgente floresta, misteriosa e encantadora e recebe ilustres explicações sobre o humano gênero. Em carta que agora chega, eis o que ele diz:

Terra Brasilis, 13 de junho de 1730 

A quem me lê, eis o que se passa e que agora vos digo,


Após receber, sumamente gratificado, nobilíssima carta do Marquês de Camisão y Astúrias, que agregou a seu digno nome tal  onomástica, devo dizer, gracioso leitor, recobri-me de alegrias e pulsa meu coração deveras.

Após isso, vesti-me de roupas amplas e cordiais ao meu título de Baronete, emplumado que agora sou da nobreza concedida, e dirigi-me a seus aposentos. Ali não estava o Marquês. Apenas algumas mucamas, belamente negras e desnudas, que o serviram à noite a bom prazer. Adonde está Sua Graça?, indaguei. E as vozes argentinas mo informaram: Encontra-se na sala central da casa, bom senhor.

A lá me encaminhei. Passos rápidos e pressurosos pensamentos a Sua Graça me levaram. Chegando à sala ali o achei: encontrava-se empoleirado à grande árvore que ali floresce, na companhia douta do papagaio e da anta, ambos bem próximos de si.

Antes de tratar dos grandes assuntos que mo levavam à augusta e sobeja criatura excelsa, busquei esclarecer a uma curiosidade e perguntei: Por que, Vossa Graça, tão luxuriante árvore encontra-se aqui plantada? 

Ah!, respondeu o Marquês de Camisão y Astúrias, eis que sou homem telúrico e aprendi desde cedo a preservar a terra e seus valores. Esta árvore é-me grandemente grata e a mim representa esta Terra Brasilis. Não vedes acima a claraboia feita no mais fino cristal da Boêmia? Respondi: Sim, eu o vejo. Então, continuou o venerável, que valorizo o sol que recobre toda esta pátria e assim o quero para bem cuidar da árvore onde nela me empoleiro. Há nesta Terra Brasilis tal fartura, de tudo e de algo mais, que aquele que dela se souber aproveitar será grande e obrará atos prodisiosos. Esta terra, Senhor Baronete, é uma grande fantasia. Por isso, dou-me o direito de flanar em meio aos seus dourados, fluir em meio às réstias que reluzem e sentir-me prazeroso em meio a matas gentis, povoadas de duendes tropicais, delícias delicadas e gentis mistérios. Ó, como amo esta terra!, disse, e vi-lhe a cair dos olhos verdes lágrima cortez e fidalga mui. Ó!

Após essa epifania percebi então: o Marquês era realmente homem de amor à terra e aos seus chãos e matas, animais e outros viventes. Eis o que vi: toda a sala havia sido transformada em floresta tropical e linda. A luz do sol refulgia nos matos e em outras plantas e o verde resplandecia em miríades de matizes. Pássaros formosos volteavam a meu retor, felinos de bom porte caminhavam mansos. Ó, disse eu, pasmo de mim mesmo. Ó, eminente senhor de muitos talentos, quão grandiosos são vossos misteres e ilustres desígnios, ó!

Logo em seguida, todavia, eis o que se mo deparou: notei que dentre os animais caminhavam seres estranhos, todos de penas revestidos. E quem são, disse, tais seres, machos e fêmeas, todos nus a caminhar acá? 

Disse o Marquês: Tais animais são chamados índios e deles trouxe alguns espécimes para meu refrigério e prazer intelectual, a fim de os estudar. São, posso-vos dizer, estranhemente inteligentes e se comunicam em alguma forma de linguagem e isso dá-me a obscura sensação de que são alguma espécie de humanos, mas, sinceramente, não o creio...

Mas, Vossa Graça, disse eu, não falais com a anta e com o papagaio? Seriam eles mais humanos que tais bestas? Não há aí, respeitosamente vos inquiro, algo de paradoxo e estranho? Respondeu-me o magistral senhor: Caro Baronete, eis aí o vosso engano. Homens são aqueles a quem os poderosos assim o reconhecem e lhes apõem direito. Quem não tem direitos homem não é. Não vedes que o papagaio repete tudo o que digo?, e que a anta cumpre tudo o que lhe determino? Sim, garanti. Vejo. E ouço, acima de tudo, ouço.
 
Pois, bem, redarguiu. Só é bom e justo, equânime e eficaz, aceitável e justo, aquele que me concorda e faz de tudo o que me apetece. O diferente é errado e mau, é sedição e reboliço, ameaçador e duvidoso e portanto proscrito está. Assim, se digo que são índios e não homens, são índios e não homens. Para comprovar o que afirmam meus conhecimentos e ciência, digo-vos: já os vi em combate e matanças. Munidos de lanças e de arcos e de frechas e de clavas, agridem-se cruelmente e tais armas produzem ferimentos horríveis, esmigalham crânios e outros malfazeres. 

Nem devo dizer que ante tais atrocidades determino a minha guarda que os domine, a fim de que não se extingam, já que é de interesse da ciência estudar a tais entidades da selva. Além do mais, devo mencionar, fornicam à vista clara, como fazem os cães e as cadelas, os touros e as vacas. E se uma coisa é igual à outra, quem as perpetra é o mesmo em si, mesmo que de aparência diferente.

Tomado de espanto, e reunindo minha pouca coragem, quis saber: Mas, Vossa Graça, se eles se atacam e se insultam, se ferem e se matam, isso não é a prova maior de que são homens? Não é nosso também, que somos brancos, o exercício do mutilar e ofender, esganar e estripar, maçar e esfaquear? E também não fornicamos, às vezes nem mesmo às escondidas? Isso não estabelece a ligação nossa com os animais? Não foi esse o vosso raciocínio? E se os índios sendo animais e igual a nós agindo, não são eles gente também? Ou então nós também somos animais...

O bondoso Marquês riu-se e riu-se muito. E justificou sua teoria, no que concordei imediatamente: Meu caro Baronete, não vedes que nossas armas são muito mais evoluídas? Não temos o trabuco e o canhão? Sabeis que as peças de fogo foram inventadas ainda no ano 1300? E que conclusão disso tirai?

Vi-me perdido e sem argumentos, a não ser a suposição íntima de que uma arma é uma arma. Seja na mão nossa de brancos ou na mão do animal índio. Mas, digo-vos, não tive coragem de contraditar, quando o Marquês asseverou: 

Isso, nobre Baronete, comprova que no homem o poder da morte é evoluído e sagaz, ao contrário dos índios. E que tal proceder resulta de nosso enorme saber porque pensamos e, pensando, agimos segundo uma óptica racional e é racional matar com métodos avançados, não com maças e frechas. Nossas armas, que usam pólvora, resultam da ciência. E a ciência não tem lado ou tratos com opiniões. A ciência é isenta e criadora e não para nunca. A ciência é a feitiçaria do cérebro virtuoso do civilizado. E se por acaso dela resultam morticínios e guerras é tudo em nome da humanização e da civilização e de novas descobertas. Assim, a pólvora, meu estimado Baronete, é o símbolo maior da humanização. A pólvora, digo-vos, permitiu-nos criar o canhão, o arcabuz, a pistola e o pistolete. E o que disso resultou? Resultou que os mais inteligentes, portanto mais humanos, dominaram os que tal ciência não tinham, e digo-vos agora uma das  maiores conclusões da minha ciência plena: em sociedade há os que são mais humanos e menos humanos.Os mais humanos predominam pois dominam a pólvora e o canhão. Os menos humanos, não. E é assim e assim que deve ser. Daí porque há pobres e ricos, dominadores e dominados. Comprendeis vós? 

Sim, disse, eu o compreendia. As armas evoluídas provavam nossa superioridade humana e a diversidade de humanos na própria humanidade.

Mas, ai, nobre leitor, alonguei-me demasia nestas narrativas, pois que muito me impressionaram a floresta do Marquês e seus estranhos animais. E em assim fazendo negligenciei meu intento primeiro, que era vos contar os planos que tinha ido a traçar com o Marquês, para a construção de sua pirâmide, agora que se considerava faraó e queria todo o povo a nela trabalhar. 

Se lestes minha missiva anterior, sabeis do que estou a vos falar. Se não, fazeio-o agora, que já me apresto a vos enviar novo comunicado em breve. Logo logo tereis então a continuidade do que vos tenho a dizer.

Saudações a Vossa Mercê, ilibado leitor.
Deste que vos preza e mui,

Baronete Alberany, ainda o abominável

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Alberany, o abominável, continua suas tropelias na Terra Brasilis

Terra Brasilis, 11 de junho de 1730

Aos que me leem, ensinamentos e mistificações de um biltre. Eis o que se segue:

 Após apoderar-me dos bens de um velho enfermo e tratante, e de enviá-lo aos piratas para ser vendido como escravo, segui, juntamente com malta insana e insensata que me acompanha, a novos ultrajes.

Tenho a meu lado o bandido que chefia tal grei, chamado Peró, e um estalajadeiro que a nós se consorciou. Buscamos outro enfermo rico, enquanto boa parte dos maganos que nos seguem pedem esmolas pela cidade alegando que tudo irá para os doentes pobres, os órfãos e as viúvas. Dizem que obras pias e sacros intentos os movem.

Caminhando por bairro formado por belas vivendas logo nos deparamos com casa de aspecto imponente a destacar-se das demais. É essa, logo decidimos. E nos aproximamos dos altos portões que cerram e protegem a imensa moradia. 

Batemos palmas e aparece um criado bem vestido, com peruca e roupas formais. Curva-se ante nós e pergunta-nos o que queremos. Somos médicos e bondosos homens, garantimos. Estamos a procurar a quem esteja precisando de nossos conhecimentos e altas sabenças, vindos recém da Europa. Ó, diz o homem. Sim, respondemos nós. E perguntamos: por que manifestais tanto espanto? Porque, afirmou, meu amo e senhor encontra-se agravado na cama, sofrendo como um mártir.

E que doenças porta o vosso amo? Todas, assegura. Todas? Sim, todas. E como sofre aquela infeliz criatura de Deus. Então, logo convoco, dê-nos entrada a fim de que possamos atender tão insigne justo. E completo: temos carpideiras e rezadores para compor com seus cânticos e rezarias maior força aos nossos emplastros, poções e tisanas. Doente conosco já está curado. Ó, exulta o lacaio, e nos abre o portão. Um coro de carpideiras nos segue e logo começamos a caminhar em direção à casa.

Então, precavido, pergunto, como se quisesse realmente curar o amo da casa: e quais as atividades do vosso senhor? Indago, pois sei que muitas responsabilidades vividas ao mesmo tempo resultam em várias enfermidades, especialmente em pessoas sensíveis e honradas como certamente o é este industrioso senhor.

Sim, diz o empregado. Meu senhor zela com cuidado infindável para que homens e mulheres sejam levados ao trabalho, dedica-se com grande pertinência à agricultura e trata de dar às pessoas do comum acesso ao dinheiro, comerciando também com ouro.

Entendo tudo num instante: trata-se de um velho que comercia com escravos, explora trabalhadores na agricultura e, acima de tudo, é um usurário meléfico e tenaz, além de contrabandear ouro. 

Percebo que o lacaio está muito magro, assim como também magros são todos os serviçais e os braçais da agricultura. Pergunto o motivo e ele me diz: nosso amo todo mês nos mostra o dinheiro que deveríamos receber, tilinta as moedas mas não n'as dá. Porquê?, busco saber. Ah, é para que não as gastemos em gulodices, perfumes e roupas; frivolidades, entendeis?, isso, para que possamos ter um ocaso tranquilo e um fim de vida honroso. Bondoso, não é mesmo?. Concodo com um aceno de cabeça e já então nos encaminhamos ao quarto do amo.

O servo parte na frente, abre as portas do quarto e encontramos a seguinte cena: ele está acomodado entre as coxas de uma negra opulenta e sua cama enorme range e está recoberta de mulheres fabulosas. Geme como um safado e, ao ouvir do aio que ali se encontram médicos de renome, bondosas criaturas da arte de Hipócrates, sai da mulher e começa a dizer-se imensamente cansado, doendo-lhe todo o corpanzil. Ó, como sou alvo de terríveis males, choraminga.

Fazemos profunda reverência e nos anunciamos: somos doutores caridosos e buscamos idosos enfermos a fim de os aliviar. Então, diz ele, ajudai-me. Eis que encontro-me em estado lastimável. Olho ao lado da cama e vejos garrafas e garrafas de vinho. Mando que as carpideiras entrem e também os rezadores. Espanta-se ele: o que é isto? Por acaso sois líderes de algum funeral? Estais a me agourar a morte? Tais cantares trazem nefandos sortilégios, exclama. 

É grande o alarido, rezas e cantos místicos dominam o ambiente.

E então eu digo: não. Tais viventes apenas clamam aos céus a vosso favor. Ah, exulta. Então, viestes me curar? Sim, afianço. E logo digo: deitai-vos de bruços para que iniciemos a cerimônia curadora. Sem suspeitar de nada o tenebroso explorador deu-nos as costas. Então, sem pensar duas vezes, vibro-lhe potente golpe de vara nas costas. Ele tenta saltar, mas e dominado por dois dos meus sequazes que o mantêm de costas. E a vara flexível e firme desce mais e mais em seu espinhaço gordo. O bandido brame como um louco e pergunta: a serviço de qual entidade maligna estais? Sois servidores de Satã, de Baal, de Moloch? Tendes as mãos de Mefistófeles, horríveis doutores.

Não, responde Peró. Não, responde o estalajadeiro. Somos refinadíssimos patifes que salteiam as ruas a roubar e espoliar. E a vara continuava a descer. Grita ele: se sois patifes deveríeis estar sob o guante da polícia e sob a ameaça do carrasco-mor. Aqui, d'El Rey, aqui d'El Rey!, assopra, sob a velocidade dos golpes.

Peró então retruca: não sois melhor que nós. Apenas tendes sido dissimulado e hipócrita, explorando os pobres e desamparados. Trazeis ao mundo a miséria e o opróbrio, a solidão e a treva. Sois iguais a nós. 

E continua o castigo. Até que, cansado, meu braço para. E ordeno que o estafermo seja levado aos piratas para a escravidão junto a povos distantes e maléficos. Ele desaparece em meio às mãos calosas de nossos sicários.

Apoderamo-nos de tudo. Vendemos a grande casa a gente de péssima reputação e pensamos no próximo golpe. O estalajadeiro nos informa: devemos ir à casa do Marquês de Camisão. E o que faz ele?, pergunta Peró. Usa um camisão, explica o estalajadeiro. Então, digo, deve ser homem de boas referências e sábios procederes. Vamos então para lá.

Após meia hora a caminho, todos montados nos homens-cavalos - lembrai-vos de que nos apoderamos de homens tolos e os fizemos de cavalos - chegamos. O esplêndido palacete é cercado de jardins que fariam inveja a Semíramis. Somos recebidos ao portão por um servo. Pergunta quem somos, mas já não nos dizemos médicos e sim grandes comerciantes d'além mar. Sabemos que o Marquês é homem envolvido com grandes negócios e muito próximo a El Rey e assim preferimos não nos arriscar. Os outros eram plebeus ricos; aquele, aristocrata. E com essa gente é preciso ter prestimosos cuidados.

Somos levados à mansão. Cruzamos um comprido corredor iluminado e elegante. Chegamos afinal à grande sala da casa. Ali, vimos: no meio da sala havia uma grande árvore. Num dos seus galhos, empoleirado, estava o Marquês de Camisão, que vestia um camisão. A seu lado, imperiais, um papagaio e uma anta, também empoleirados.

O nobre com eles travava animada conversa e parecia pedir conselhos.
(Continua)

imagem: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgAqHNND641Ib_g8_8FK-rMybWxejzYcElmPpTO9l-D2ynPV3fk_E2xQtbxwGXBR_EAQXZYMw4mUAF_LITeN3EeynXaN5OOzunXxChWtT1jv3wzMbNv33iBvb7XTRIyI5qC4PrQ2Q/s400/Rev.+Francesa+-+sociedade+de+ordens+-+caricatura.jpg&imgrefurl=http://bgtblog-quiksilver.blogspot.com/2010/03/revolucao-francesa-sociedade-francesa.html&usg=__ixzgqrX2gfQaetYDJpUxIWWH2SE=&h=400&w=298&sz=51&hl=pt-br&start=0&zoom=1&tbnid=HUs3EL0xceXnjM:&tbnh=139&tbnw=104&prev=/images%3Fq%3Dnobreza%2Bcaricaturas%26um%3D1%26hl%3Dpt-br%26client%3Dfirefox-a%26hs%3DkwI%26sa%3DN%26rls%3Dorg.mozilla:pt-BR:official%26biw%3D1024%26bih%3D407%26tbs%3Disch:1&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=134&ei=yt_ITO6-FoSclgfi2fD2Ag&oei=Y9_ITOP-NoOglAeVhtXoAQ&esq=25&page=1&ndsp=12&ved=1t:429,r:0,s:0&tx=55&ty=48

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Nova carta de Alberany, o abminável, que começa a viver a Terra Brasilis

A quem tem estultice de me ler, eis o que digo,
 
Após desembarcar de miserável nau na Terra Brasilis envolvi-me em tropelias e, junto a magote de exploradores e vilões, ataquei uma procissão que se temia fosse movimento sedicioso. Não era. Mesmo assim, aplicamos àquelas vítimas golpes de bordão e bastonadas, para que aprendessem que eram povo e como tal deveriam ser tratados.

Devo lembrar que eu e meus sórdidos amigos, vilões em alto grau, temos por montaria homens fortes e tolos que se deixaram por nós dominar e agora relincham como se cavalos fossem. Para comemorar a surra que demos no povo combinamos de nos divertir largamente em uma estalagem, ambiente pouco recomendável e cheio de barulho.

Montamos e nos atiramos em direção ao antro, onde esperamos encontrar prazeres da mais reles alegria. Em meio ao caminho vamos atropelando quem seja louco o suficiente para ficar ao alcance da nossa cavalgada de insanos.

Ao chegar somos recebidos pelo estalajadeiro. Homem de aspecto asqueroso, tem a barba preta batendo no peito e uma perna de pau que, alegra-se, foi obtida quando participava de navio que atacava galeões espanhois lotados de ouro. Faz um gesto obsequioso e nos introduz no covil.

Ali reina a mais perfeita desordem. Afinal, somente se encontram no salão esfumaçado tipos da mais perniciosa origem. Entro ao lado do chefe da minha tropa de infames. Sentados a uma mesa, vinho da mais terrível procedência nos é servido. Logo pergunto como podemos lucrar à custa de tolos e afins. 

O atroz indivíduo, que atende por Peró, diz-me que devemos atacar velhos enfermos e nos apoderar de todos os seus bens, casas inclusive, e desta forma malvada acumular grandes cabedais. E o que fazemos com os velhos?, perguntei. Serão vendidos a comerciantes de escravos que os colocarão em suas naus tormentosas e os venderão a canibais, responde-me prontamente. 

Como se vê, é ideia excelente. Nisso, chega o estalajadeiro e se põe conosco a conversar. Ouvira de soslaio nossas velhacarias e se propõe a ser nosso sócio. Diz que, além do ataque a velhos enfermos, devemos fazer o inverso. Inverso, como assim?, quero saber. Simples, afirma, formaremos grupos que irão por toda a cidade pedindo ajudas para os pobres, mas que serão desviadas para nossa empreitada fraudulenta. 

Ótimo!, exclamo. Agindo desta forma ganharemos fama de bondosos e ninguém suspeitará dos sequestros dos anciães e do roubo de seus dinheiros e propriedades. Com isso, comemora o estalajadeiro, teremos acesso aos poderosos, anunciando a estes que estamos em grande campanha e nobre causa. E, detalha, se os nobres forem tolos, nos darão vultosas contribuições. Se forem maus, se unirão a nós e ampliarão enormemente o nosso poder. 

Subo a uma mesa, já sentindo os efeitos do álcool e anuncio ao conciliábulo de infames que nos seguem tão grande e alta boa-nova. Sou aplaudido e carregado nos ombros. Passamos o resto do dia bebendo e comemorando nossos planos. Varamos a noite em grande bebedeira e augusta bandidagem. 

Dia seguinte, montados em nossos homens-cavalos partimos para a rapinagem. Atacamos primeiro a casa de um rico e doente cidadão, que acumulara fortuna à custa de viúvas e órfãos, e também com o tráfico de escravos. Ao invadir o seu quarto está ele emitindo horrendos gritos. Apresentamo-nos como médicos e ele pensa que conosco terão fim ali os seus males. Fala-nos de seus achaques e de como se sente molestado.

Então, para sua surpresa, tomo de um relho e desço em seu lombo gordo uma série de brutais açoites. Que tipo de médicos são vocês?!, grita o infeliz. Estão sob as ordens de Belzebu?, diz em desespero. Não, respondo eu, somos patifes da mais baixa ordem e estamos a dar-lhe um pouco do seu próprio remédio. Ai, como é triste o meu penar!, berra o maldito enquanto é carregado para ser vendido aos mercadores de escravos.

A turba que me acompanha, enquanto isso, está a roubar tudo o que está a seu alcance.  O velho já foi entregue aos carniceiros que o venderão, e partimos para a próxima surtida. Iremos à casa de um nobre, conforme fora planejado. A patuleia de malfazejos que nos acompanha já se espalhou pela cidade pedindo óbolos e ajudas aos necessitados, tudo como fora programado.

Como vedes, somos rápidos e insignes representantes do saque e da espoliação, malfazejos dos mai indignos propósitos.

Fico por aqui, prometendo vos contar nossas vis artimanhas, ardis e malefícios. Tenho certeza que haveis de concordar: na Terra Brasilis tudo conspira a favor dos inclementes e dos abusadores, dos néscios de toda ordem, bem como dos pilantras e malvados. Agora, paro de escrever e parto para novo embuste.

Deste que vos respeita e quer,
Alberany, o abominável
Imagem http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www2.uol.com.br/historiaviva/dossie/img/bandidos6.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nova carta de Alberany, o abominável, em seu primeiro contato com a Terra Brasilis

A quem leia esta, eis o que sucede.

Após encomedar uma sela a sinistra figura que habita o porão do horrendo navio onde me encontro, singrando em direção à Terra Brasilis, tracei meus planos: conluiar-me a quem possa garantir a mim e a meus intentos lucros e benesses. Se não vos lembrais, a sela que encomendei é parte de meus intentos, que somente revelarei à hora certa. 

O navio viajava há já muitos dias quando afinal o gajeiro anuncia terra à vista. É a Terra Brasilis.
Logo após chegarmos ao porto observei grande movimentação. Negros fortes carregavam pesos descomunais, homens em charretes e em liteiras dão ordens e são obedecidos. 

Pego a minha cela e o bridão e desço do navio. Dirigindo-me a um homem alto, forte e andrajoso, pergunto sois do povo? Mal ele me respondeu que sim, atirei-me às costas da infeliz criatura, apliquei-lhe aos ombros a cela e o bridão à boca. Ele saltou a corcoveou como um cavalo mas isso não me põe abaixo. Comprovo que sou excelente ginete. Era essa a minha intenção, encontrar um tolo que me servisse docilmente.


Multidão de parvos me aplaude o que é muito bom para a minha alegria. Enfim, cravando esporas, faço o homem galopar. Parto a grande velocidade, e para meu gáudio encontro outros homens montados em outros homens. Todos levam lanças e varapaus e a eles me ajundo naquela empreitada de loucos que não sei aonda vai dar.


Logo alguém me dá uma lança e pergunto para onde vamos. Iremos atacar o povo que parece rebelar-se foi a resposta. Após trinta minutos de galope deparamo-nos com a multidão. As pessoas não parecem enfurecidas. Na verdade trata-se de uma procissão. Pergunto se ainda levaremos a cabo nossa intentona que que não há motivos para o ataque. 


O chefe do magote ao no qual havia me metido diz que não. Mesmo quando está em paz o povo deve ser advertido. E partimos para cima da procissão, distribuindo formidáveis golpes em todos. Espavoridas, aquelas pobres criaturas berram e se atiram ao chão, pedindo clemência. Afinal todos fogem e a minha malta para de distribuir estocadas. 


Apeamos de nossas montarias humanas e entabulo conversa com nosso chefe. Pergunto da Terra Brasilis, seus costumes ou falta disso. Ele me fala do povo e das riquezas. Diz-me do poder e como se estrutura. Fala-me que existem senadores. E quem são?, quero saber. Representantes do povo, é a resposta. Imagino como trabalham e suponho como agem, ouvindo-me atentamente o farsante com quem falo. 

Eis o que digo a ele: devem ser pobres criaturas esses senadores. Imagino-os no plenário que frequentam. Esmolambados, suarentos, barbas por fazer, esmolam entre si e uma única e pobre moeda é passada de mão em mão, que aqueles homens são bons e repartem entre si o pouco que têm. Como aquelas criaturas bondosas conseguem sobreviver, já que são representantes do povo e do povo são seus iguais e sendo iguais ao povo nada têm de seu?, pergunto. E mais: não tendes compaixão de tais famintos?


O tipo, maroto e sórdido, ri-se de mim e me explica que ser representante do povo é apenas uma metáfora, na verdade uma grande e cara brincadeira. Os senadores são homens de escol e vivem em mansões. A nosso lado as montarias humanas relincham. Sim, já relincham como cavalos. 


Sinto que estou à larga e é grande o meu viver. Montamos e seguimos em direção a uma taberna, a fim de comemorar nossa desprezível vitória. 


Na próxima carta vos contarei mais.


Saudações deste patife,
Alberany, o abominável

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Alberany, o abominável, traça planos para quando chegar à Terra Brasilis

Navio em trânsito, 10 de junho de 1730


A quem cometa insensatez de acompanhar as minhas palavras, eis o que se segue,

Estou em navio, sórdida embarcação que tem em seus antros acolhidos elementos de notável indignidade e que muito se exaltam e se gabam de seguir à Terra Brasilis, onde, garantem, obterão grandes fortunas a troco de socapas e malandragens. Todavia, temo por mim, eis que sou sabedor de que ali reina grande balbúrdia - e súcias de variada estirpe do que há de pior em maus intentos campeiam de roldão.


Falam os mequetrefes que me cercam neste navio infecto que naquela terra não é raro ver-se homens andando de cabeça para baixo, para não gastar os pés. Devo dizer que o temor que me assola se dá porque, sabedor alguém de que meu cérebro tem mestria em organizar estrondos e vigarices, venha a capturar-me e pôr-me a seu escravo, aproveitando-se de minhas periculosas ideias e tornando-se rico ou mais rico ainda, se rico já o for, às custas de minhas matreirices.

Soube porém, para meu alívio, que neste navio sinistro e obscuro vive um ser execrável, um velho que se oculta nas mais profundas do porão e ali vive e exerce sua proficiência. Perguntei do que se trata e me disseram que é artífice precioso e grande fazedor de selas e arreios, bridões e outras traquitanas que se apõem a um cavalo.

Isso deu-me força aos instintos de aproveitador e logo urdi plano que mais tarde sabereis. Munido de tais intentos malignos e malsãos dirigi-me com cuidado ao seleiro. Fui recebido a fogo de pistola, que o indivíduo é homem de poucos amigos. A muito custo consegui dele aproximar-me. Com tenho comigo algum dinheiro, tilintei os dobrões e ele, ouvindo aquele hino à cupidez, desfez-se em meneios e reverências. Trata-se, como vedes, de vilão igual a mim.

O que quereis?, indagou-me o reles. E pedi-lhe que me fizesse uma sela especial, menor que as comumente usadas em alimárias e dei-lhe as espeficirações. E pedi rédeas, também de igual teor. Ele prometeu-me entregar tudo a tempo hábil, o que muito acalmou minha alma que tanto se alegra quando vê colapsos e hacatombes, desastres e pesares de que sempre aufiro bons proveitos.

Mas, não vos falo agora das minhas ignóbeis pretensões. Na próxima carta sabereis qual o meu plano e como tem tudo para dar certo na Terra Brasilis.

Deste patife e mal-falador,
Alberany, o abominável