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terça-feira, 5 de julho de 2011


De Leonardo Boff, na Carta Maior, transcrevo:

Crise terminal do capitalismo?


Leonardo Boff

Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As ruas de vários países europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumossacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Transcrevo artigo da Agência Adital (EB)
 
Desafios para a Presidenta Dilma Rousseff





Leonardo Boff *

Adital -
Celebramos alegremente a vitória de Dilma Rousseff. E não deixamos de folgar também pela derrota de José Serra que não mereceu ganhar esta eleição dado o nivel indecente de sua campanha, embora os excessos tenham ocorrido nos dois lados. Os bispos conservadores que, à revelia da CNBB, se colocaram fora do jogo democrático e que manipularam a questão da descriminalização do aborto, mobilizando até o Papa em Roma, bem como os pastores evangélicos raivosamente partidizados, sairam desmoralizados. Post festum, cabe uma reflexão distanciada do que poderá ser o governo de Dilma Rousseff.

Esposamos a tese daqueles analistas que viram no governo Lula uma transição de paradigma: de um Estado privatizante, inspirado nos dogmas neoliberais para um Estado republicano que colocou o social em seu centro para atender as demandas da população mais destituida. Toda transição possui um lado de continuidade e outro de ruptura.

A continuidade foi a manutenção do projeto macroeconômico para fornecer a base para a estabilidade política e exorcizar os fantasmas do sistema. E a ruptura foi a inauguração de substantivas políticas sociais destinadas à integração de milhões de brasileiros pobres, bem representadas pela Bolsa Familia entre outras. Não se pode negar que, em parte, esta transição ocorreu pois, efetivamente, Lula incluiu socialmente uma França inteira dentro de uma situação de decência. Mas desde o começo, analistas apontavam a inadequação entre projeto econômico e o projeto social. Enquanto aquele recebe do Estado alguns bilhões de reais por ano, em forma de juros, este, o social, tem que se contentar com bem menos.

Não obtante esta disparidade, o fosso entre ricos e pobres diminuiu o que granjeou para Lula extraordinária aceitação. 
 
Agora se coloca a questão: a Presidenta aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social onde estão as maiorias ou manterá a equação que preserva o econômico, de viés monetarista, com as contradições denunciadas pelos movimentos sociais e pelo melhor da inteligentzia brasileira?

Estimo que, Dilma deu sinais de que vai se vergar para o lado do social-popular. Mas alguns problemas novos como aquecimento global devem ser impreterivelmente enfrentados. Vejo que a novel Presidenta compreendeu a relevância da agenda ambiental, introduzida pela candidata Marina Silva. O PAC (Projeto de Aceleração do Crescimento) deve incorporar a nova consciência de que não seria responsável continuar as obras desconsiderando estes novos dados. E ainda no horizonte se anuncia nova crise econômica, pois os EUA resolveram exportar sua crise, desvalorizando o dólar e nos prejudicando sensivelmente.

Dilma Rousseff marcará seu governo com identidade própria se realizar mais fortemente a agenda que elegeu Lula: a ética e as reformas estruturais. A ética somente será resgatada se houver total transparência nas práticas políticas e não se repita a mercantilização das relações partidárias("mensalão").

As reformas estruturais é a dívida que o governo Lula nos deixou. Não teve condições, por falta de base parlamentar segura, de fazer nenhuma das reformas prometidas: a política, a fiscal e a agrária. Se quiser resgatar o perfil originário do PT, Dilma deverá implementar uma reforma política. Será dificil, devido os interesses corporativos dos partidos, em grande parte, vazios de ideologia e famintos de benefícios. A reforma fiscal deve estabelecer uma equidade mínima entre os contribuintes, pois até agora poupava os ricos e onerava pesadamente os assalariados. A reforma agrária não é satisfeita apenas com assentamentos. Deve ser integral e popular levando democracia para o campo e aliviando a favelização das cidades.

Estimo que o mais importante é o salto de consciência que a Presidenta deve dar, caso tomar a sério as consequências funestas e até letais da situação mudada da Terra em crise sócio-ecológica. O Brasil será chave na adaptação e no mitigamento pelo fato de deter os principais fatores ecológicos que podem equilibrar o sistema-Terra. Ele poderá ser a primeira potência mundial nos trópicos, não imperial mas cordial e corresponsável pelo destino comum. Esse pacote de questões constitui um desafio da maior gravidade, que a novel Presidenta irá enfrentar. Ela possui competência e coragem para estar à altura destes reptos. Que não lhe falte a iluminação e a força do Espírito Criador.

* Teólogo, filósofo e escritor

sábado, 30 de outubro de 2010

Aos meus Alunos e Alunas, para que a luta seja feita de Coragem
Emanoel Barreto

A Vocês que empalmaram comigo a luta pelo Jornal Universitário; a Vocês que desejam um Jornal Livre, cidadão e forte, dedico o texto magnífico de Leonardo Boff. Eu, que sou o VelhoBarreto no Twitter, também experimento como o Mestre Boff a passagem da Vida e da Luta. Ao lado da sua Generosidade e Confiança, Coragem e Desapego, Juventude e Força. Queremos um jornal.
Compartilho o que se segue:

OFICIALMENTE VELHO (Texto de Leonardo Boff)

Por Leonardo Boff - Adital - do Rio de Janeiro

Neste mês de dezembro completo 70 anos: diz Leonardo Boff.

Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira.

Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas.
De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas.

Mas há um outro lado, mais instigante.
A velhice é a última etapa do crescimento humano.
Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino.

Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer e, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer; quando então entramos no silêncio e morremos.

A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer.
Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: "NA MEDIDA QUE DEFINHA O HOMEM EXTERIOR, NESTA MESMA MEDIDA REJUVENESCE O HOMEM INTERIOR"(2Cor 4,16).

A velhice é uma exigência do homem interior.
Muitas vezes perguntamos: Que é o homem interior?
O homem interior é o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical.  Identidade esta que devemos encará-la face a face.

Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe.
Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis:
Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, (inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano), submetido ao "silêncio obsequioso" e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha. Quando então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos:

Afinal, quem sou eu?
Que sonhos me movem?
Que anjos que habitam?
Que demônios me atormentam?
Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério?

Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações vem à lume o homem interior e a resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável.
Este é o verdadeiro desafio para a etapa da velhice.
Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina.

Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida.
Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria.

É ilusão pensar que esta sabedoria vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.

Por fim, o que importa preparar o grande Encontro.
A vida não é estruturada para terminar na morte, mas para se transfigurar através da morte.
Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia.
Aí saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.
Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: "contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade".

Por fim, este jovem ancião alimenta dois sonhos: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa:
"eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver". Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus.
Parafraseando Camões, completo: Mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.

Leonardo Boff é teólogo

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Transcrevo texto extraído de http://www.leonardoboff.com/ (EB).

Ecologia Social, segundo Leonardo Boff


A segunda _a ecologia social_ não quer apenas o meio ambiente. Quer o ambiente inteiro. Insere o ser humano e a sociedade dentro da natureza. Preocupa-se não apenas com o embelezamento da cidade, com melhores avenidas, com praças ou praias mais atrativas. Mas prioriza o saneamento básico, uma boa rede escolar e um serviço de saúde decente. A injustiça social significa uma violência contra o ser mais complexo e singular da criação que é o ser humano, homem e mulher. Ele é parte e parcela da natureza.

A ecologia social propugna por um desenvolvimento sustentável. É aquele em que se atende às carências básicas dos seres humanos hoje sem sacrificar o capital natural da Terra e se considera também as necessidades das gerações futuras que têm direito à sua satisfação e de herdarem uma Terra habitável com relações humanas minimamente justas.

Mas o tipo de sociedade construída nos últimos 400 anos impede que se realize um desenvolvimento sustentável. É energívora, montou um modelo de desenvolvimento que pratica sistematicamente a pilhagem dos recursos da Terra e explora a força de trabalho.

No imaginário dos pais fundadores da sociedade moderna, o desenvolvimento se movia dentro de dois infinitos: o infinito dos recursos naturais e o infinito do desenvolvimento rumo ao futuro. Esta pressuposição se revelou ilusória. Os recursos não são infinitos. A maioria está se acabando, principalmente a água potável e os combustíveis fósseis. E o tipo de desenvolvimento linear e crescente para o futuro não é universalizável. Não é, portanto, infinito. Se as famílias chinesas quisessem ter os automóveis que as famílias americanas têm, a China viraria um imenso estacionamento. Não haveria combustível suficiente e ninguém se moveria.

Carecemos de uma sociedade sustentável que encontra para si o desenvolvimento viável para as necessidades de todos. O bem-estar não pode ser apenas social, mas tem de ser também sociocósmico. Ele tem que atender aos demais seres da natureza, como as águas, as plantas, os animais, os microorganismo, pois todos juntos constituem a comunidade planetária, na qual estamos inseridos, e sem os quais nós mesmos não viveríamos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Transcrevo artigo de Leonardo Boff a respeito do processo eleitoral para a presidência da República. (EB)
 A mídia comercial em guerra




Leonado Boff*

Sou profundamente a favor da liberdade de expressão, em nome da qual fui punido com
o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e
torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais”
onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que
acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida me avaliza a fazer as críticas que ora faço ao atual
enfrentamento entre o presidente Lula e a midia comercial, que reclama ser tolhida
em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de
interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da
liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma
guerra acirrada contra o presidente e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale
tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus
interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como famiglia
mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo o Brasil e manter sob
tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da
Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica
e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um
bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não
aceita um presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para
a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se
comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quase desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos,
editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade
do pais, ao presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da
palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes
aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da
pobreza, chegasse a ser presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a
eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do
complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo
mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica, produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma)
“a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada,
antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou
com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria
que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao
país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que
o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo
de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres
que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre
que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula.
Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em
baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o presidente de todos
os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta
de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vêm
Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coronéis e de “fazedores de
cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão
distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente
arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva
da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e
televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo, cansado de ser governado pelas classes dominantes, resolveu votar em si
mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no governo, operou uma
revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo,
mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de
brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se
fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média.

Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a
ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.
Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão social e distribuição de
renda. Antes, havia apenas desenvolvimento/crescimento, que beneficiava aos já
beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora, ocorreu
visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a
esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no governo atual há um
déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi
fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais
marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de
mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste,
assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais
manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil.
Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta
abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das
classes opulentas e ao seu braço ideológico, que é a mídia comercial. A democracia
participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST),
odiado especialmente pela Veja (que faz questão de não ver…), protagonista de
mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e
às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a
questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocolonial, neoglobalizado e no
fundo, retrógrado e velhista? Ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes
sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas, para construir um
Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.

Esse Brasil é combatido na pessoa do presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes
representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das
má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de
Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construído com suor e sangue por
tantas gerações de brasileiros.

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa
Internacional da Carta da Terra.