Ele só queria um atestado de óbito; mas acabou na
cadeia
![]() |
Era uma vez Pobre. Pobre era um sem-teto, sem-tudo,
sem-nada; sem lenço e principalmente sem documento. E, esse, foi seu grande
erro: não ter documentos. Mas, também, pra quê? Ninguém sabia mesmo quem ele
era...
E assim foi que certa noite, deitado ao lado de
amigos, sentindo o cheiro forte da cachaça de Marimba, velho companheiro de
dias de fome, noites de frio, relento e abandono, Pobre morreu. Simplesmente,
morreu. Esquecido e anônimo, Pobre foi recolhido como indigente e despejado
numa vala. Sem nome, sem choro, nem vela.
Chegando ao Outro Mundo encaminhou-se ao
Departamento de Recepção onde uma simpática velhinha o recebeu.
Ela deu-lhe boas-vindas, garantiu que ali finalmente ele seria feliz e disse para se
encaminhar ao Setor de Cadastro. Pobre obedeceu, cabisbaixo e calado como
sempre. Lá chegando o funcionário, um tipo grandão, olhar de desagrado,
pediu:"Documento." O problema é que pobre, lembra?, não tinha
documento.
O homem insistiu:"Documento."
Pobre então respondeu: "Tenho não. Que documento o senhor quer?"
O outro disse: "Certidão de óbito. Sem isso, nem vem que não entra."
Pobre quis saber se poderia conseguir algo, um registro provisório, alguma coisa assim. A resposta foi "não. Aqui é a eternidade, sabia? Aqui é tudo para sempre ou nunca mais. Não tem meio termo, nada é provisório."
Pobre perguntou então o que deveria fazer. Era muito simples, disse o homem: "Você volta e, lá no mundo, você consegue o atestado de óbito. Vá logo, que a eternidade não espera por ninguém."
Pobre fez um esforço enorme para sair da cova rasa e, quando conseguiu chegar à superfície, estava em meio a um temporal. Calado, acostumado a privações, sofrido e abatido, encaminhou-se a uma rua deserta e ali passou a noite, deitado sob uma marquise. Dia seguinte saiu perambulando pela cidade, à procura de uma certidão de óbito.
Foi primeiro a uma repartição pública onde eram atendidos mendigos e explicou sua situação. Disse que tinha morrido, estava com pressa para ir para o Outro Mundo, mas os funcionários disseram que, mesmo entendendo sua situação, nada podiam fazer.
O homem insistiu:"Documento."
Pobre então respondeu: "Tenho não. Que documento o senhor quer?"
O outro disse: "Certidão de óbito. Sem isso, nem vem que não entra."
Pobre quis saber se poderia conseguir algo, um registro provisório, alguma coisa assim. A resposta foi "não. Aqui é a eternidade, sabia? Aqui é tudo para sempre ou nunca mais. Não tem meio termo, nada é provisório."
Pobre perguntou então o que deveria fazer. Era muito simples, disse o homem: "Você volta e, lá no mundo, você consegue o atestado de óbito. Vá logo, que a eternidade não espera por ninguém."
Pobre fez um esforço enorme para sair da cova rasa e, quando conseguiu chegar à superfície, estava em meio a um temporal. Calado, acostumado a privações, sofrido e abatido, encaminhou-se a uma rua deserta e ali passou a noite, deitado sob uma marquise. Dia seguinte saiu perambulando pela cidade, à procura de uma certidão de óbito.
Foi primeiro a uma repartição pública onde eram atendidos mendigos e explicou sua situação. Disse que tinha morrido, estava com pressa para ir para o Outro Mundo, mas os funcionários disseram que, mesmo entendendo sua situação, nada podiam fazer.
Não dava para atender quem já tinha
morrido. Gente morta era com o pessoal da Intendência, que cuidava de enterrar
desvalidos. Sentiam muito. Pobre foi até um Departamento qualquer da
Intendência, e nada; também ali não atendiam os mortos. Pobre saiu caminhando,
caminhando, até chegar a outra repartição. Ali, causou sensação.
Uma funcionária, toda apressadinha, anunciou aos
colegas que ali estava um morto legítimo, já pensou? Juntou gente, formou-se
confusão. Um vereador que ia passando manifestou-se sensibilizado e disse que
faria um pronunciamento na Câmara, em favor dos mortos sem documento. O pessoal
de uma ONG se propôs a fazer uma manifestação de protesto, pois os mortos
também têm direitos e não podem ficar por aí, largados. O alarido era enorme,
até que uma radiopatrulha que passava, parou.
Os soldados queriam saber o que se passava e logo
chegaram até Pobre, que já estava desesperado e queria fugir, pois o vereador
já conclamava a multidão a uma passeata reivindicatória e gritava: "Os
mortos/Unidos/Jamais serão vencidos!" Pobre entrou em pânico e dizia:
"Eu só quero meu atestado de óbito." Mas, de nada adiantava. As
pessoas só queriam saber "como era o Outro Mundo e como ele havia
voltado."
O sargento que comandava a radiopatrulha, vendo que
se tratava de um morto e, pior, de um morto desordeiro, resolveu prendê-lo. Mas
foi advertido pelo pessoal da ONG de que Pobre não estava promovendo o tumulto,
era vítima dele. Assim, não poderia ser preso. Se fosse em cana, tome protesto.
Nisso, o sargento teve uma ideia, a solução para prender Pobre e acabar com a
confusão. E disse: "O senhor está preso."Mas como?, quis saber o
vereador. Este morto não fez nada. Morrer é crime?"
O sargento insistiu: "Morrer, pode. Morrer não
é crime. Morrer no Brasil é até um direito. Todo pobre tem o direito de morrer o mais rápido possível. Mas zumbi no Brasil é proibido de acordo com a lei número
9989-00000.9987655--876534444. Zumbi só é permitido no Haiti. O senhor é um
zumbi, está dando alteração, está fora da lei. Portanto, está preso."
.................
Foto: https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTJ20AkcDffPNHZYDE9T3GD0NBqNc14d3IHhWfwaUM1ch0R2TmPig
Nenhum comentário:
Postar um comentário