domingo, 19 de janeiro de 2014

O debate sobre as drogas



Neusa, onde 
está você, Neusa?

Vi recentemente vídeo em que uma jovem completamente drogada, experienciando uma espécie de alucinação ou algo que o valha, diz não saber aonde está e procura desesperadamente por uma mulher chamada Neusa. Tem movimentos descontrolados e recebe ajuda de um rapaz para recompor a saia. Esse, aliás, é o único gesto de solidariedade que recebe: no mais, o que se ouve são vozes de rapazes e moças que, sem manifestar qualquer atitude de amparo ou compaixão, ficam, como se diz hoje, zoando a moça.

Ouve-se claramente a voz de uma jovem que pergunta “quem é você guria, quem é você?”, mas não notei, digamos assim, da parte dela, comunhão com o ser humano ali fragilizado. Não ouvi ninguém dizer, por exemplo, “vamos pegar essa menina e levar a um hospital.” Em síntese: se não recebeu violência física, pelo menos até aonde o vídeo mostra, ficou como que sendo jogada de um lado para o outro.

Essa a situação de um drogado. Essa a situação de quem perde o controle sobre si próprio e fica nas mãos de desconhecidos. Fui repórter policial por cerca de onze meses e vi nas delegacias homens presos por uso de drogas. Pessoas largadas ao chão, tremendo, encolhidas. Isso foi em 1975, época em que não havia qualquer movimento pedindo a liberação de drogas. 

Creio que isso não seria uma boa medida. Os discursos de hoje, chamados de anti-proibicionistas, são, tenho certeza, bem intencionados. São pronúncias de intelectuais, pessoas com capacidade crítica. São assertivas bem assentadas teoricamente e têm, não resta dúvida, a intenção de atitude humanista e libertária. 

Mas, quem já tem ou teve um parente ou amigo dominado pelas drogas sabe bem que a realidade é muito diversa do discurso. Na vida de cada casa, na intimidade dos relacionamentos, é possível perceber a devastadora ação das drogas quando levadas às últimas consequências: desde o álcool à cocaína, da maconha ao crack e por aí vai. Nessa convivência afundam o viciado e toda a família. 

Ao longo de meus 39 anos de jornalismo acompanhei vários casos. Pelo menos dois morreram em situação miserável ou quase isso. Tenho plena consciência de que há alguma tendência social favorável à liberação das drogas, ou seja, há um consenso parcial em processo o que indicia claramente uma crise no modelo da proibição.

Sei que o assunto, de forma inescusável, já está em debate no fórum da cotidianidade, no ritmo das ruas, nas festas, no hedonismo que, no fundo, é um direito. A questão também é o fato de que a droga está entranhada ao crime organizado e, parece-me, o simples fato de liberar sua venda não irá inibir a ação dos traficantes. 

Acato o direito às decisões individuais. Espero que a humanidade saiba lidar com os desafios que ela própria criou. Mas tenho medo, tenho muito medo, de ver outros jovens à procura de Neusa. Esse o grande problema: aonde está Neusa.





sábado, 18 de janeiro de 2014

As sombras estão chegando



O manifesto das sombras

Nós, sombras, vimos anunciar que é chegado o tempo de superaram-se todas as formas de opressão e preconceito, domínio e crueldade. Sombras são todos os que vêm das favelas e dos guetos, arrabaldes e ruelas, esgotos e locais ermos. Somos também feitos das mais diversas formas de sofrimento e abandono, equívocos e perpetrações. 
 
http://fragmentosydeooga.blogspot.com.br/2011/08/nas-sombras.html
Nós, sombras, estamos também nos pequenos serviços e na invisibilidade, nos trabalhos humilhantes e tarefas perigosas; sob o sol e a chuva, nas filas e no desprezo.
Nós, sombras, reivindicamos o direito de escapar das grades e das sentenças, das más leis ominosas e dos poderosos e outros infames. Exigimos que tenhamos direito à luz, pois é da essência da luz chegar a todos os pontos não podendo, portanto, ser negada sua luminosidade aos que são socialmente distanciados

Comunicamos que de todos os lados, nós, sombras, sairemos. E assim como fomos postas à escuridão, como se dela fizéssemos parte, cobraremos o preço de nossa presença com a presença de nossa dignidade e da nossa indignação.

Nós, sombras, já estamos ao lado de vocês. Somente não perceberam porque estão na mais sólida escuridão. Nós, sombras, algum dia mandaremos em vocês. E lhes daremos direito à nossa luz.




quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Discurso Colação de Grau 2013.2 - Comunicação Social - UFRN




Caros colegas jornalistas,
Caros colegas radialistas,
Caros colegas publicitários,

Estais aqui cumprindo rito de passagem que é ao mesmo tempo solene e formal, necessário e exigível pelas normas da academia. Mas tal ato é também vivaz e luminoso, alegre e juvenil; representa a última fronteira de vossas mais recentes conquistas e abre ante vosso olhar o limiar desafiador de novos começos. Este ato é um brinde e uma celebração. É gesto, é sagração.

Chegastes até aqui após cumprida intensa maratona, superados todos os obstáculos, vencidos os muitos instantes de incerteza. Enfrentastes as avaliações semestrais, os terrores noturnos da redação do TCC e a chegada ofegante à banca; a banca essa pequena Santa Inquisição que as universidades criaram para vos testar. E ante tudo isso, e apesar de tudo isso estais aqui e estais aprovados. Sois, portanto, vencedores.

Diante disso e em razão do pleno merecimento de todos vós, peço aos pais e familiares que levantem-se e aplaudam seus filhos e filhas, afilhados e afilhadas.
Por favor.

Quanto aos formandos fiquem todos sentados.
Obrigado. Voltai a vossos lugares.

Caríssimos, estamos aqui vivendo um grande momento. E digo: precisamos ter consciência de quando vivemos um grande momento. Para tanto, é preciso ter sensibilidade, pois os grandes momentos são indefiníveis, intangíveis, são com luzes dentro de nós. Somente podem ser compreendidos pela emoção.

Eles não podem ser contados como as horas ou os minutos; não cabem dentro dos relógios. Eles só podem ser vividos; unicamente vividos. Os grandes momentos são dotados de encantador mistério, como a paradoxal poética de Zeca Baleiro quando nos diz: “Eu não sei dizer/O que quer dizer/ O que eu vou dizer.”

Então, sem tentar explicar, eu vos digo: eu não sei dizer o que são os grandes momentos; mas sei dizer que eles são isso que todos vocês estão sentindo agora: a lágrima brotando, que na verdade é uma lagrima sorridente; uma sensação de aperto no peito que no fundo, no fundo, é alegria. Não precisa explicar. Basta viver. Podem viver.

E como exemplo essencial disto que agora experienciamos temos a reunião de três grandes vertentes da comunicação: a publicidade, o jornalismo, o radialismo. Profissões de arrojo e de grandes momentos. Jovens recém-formados por uma universidade federal cujo compromisso histórico é com o social.

Jovens que vivenciaram uma universidade que se empenha na busca da excelência, jovens que tiveram dos professores a convocação ao aprendizado técnico e às descobertas teóricas. Todos unidos pelo liame central da ética e do respeito à cidadania.

Sei que não há como negar a presença e a necessidade do mercado. Mas acima do mercado está o social, estão a cidadania e o ser humano. Sois, jornalistas, radialistas, publicitários, de uma geração que sem dúvida alguma saberá entender que o processo histórico tem pressa e cobra de cada um força, sensibilidade, decisão, habilidade e coragem.

Isso porque, na complexidade da existência humana, deverá haver sempre lugar para o poema e para o trabalho, para o silêncio e para o brado, para a conciliação e para a resistência, para a serenidade e para o enfrentamento.

Às vezes tudo isso ao mesmo tempo, em notável convergência de conflitos dentro de cada um. É a condição humana em sua magnífica e contraditória expressão.

É a mistura de nossas decisões e indecisões que nos faz buscar o caminho, mesmo sabendo que este pode ser uma senda estreita em meio à escuridão. E aí está a grandeza do radialista, do jornalista, do publicitário: trazer luz à missão que cada um escolheu. Criar é da essência mesma de todos vós. E quem cria ilumina. E se a criação e o caminhar são solitários, a luz é sempre compartilhada.

Tem sido sempre assim sobre a face da Terra apesar da condição humana, apesar dos temores, das incertezas, apesar de tudo. De tudo o que somos, de tudo o que não podemos ser, de tudo o que não pudemos ser, de tudo o que não pudermos ser. Mas, apesar de tantas limitações, tentaremos, vamos continuar tentando.

Vossos textos, áudios e vídeos luminosos serão a prova do que digo: esse trabalho reluzirá na medida exata da responsabilidade e da ética aliadas à perfeição do estilo, ao delineamento dos cases e das imagens, à beleza da sonoplastia.

Mas, atenção: vossas produções vos encaminharão inevitavelmente ao viés político e histórico, ao instante de dizer não ao não; ao momento, ao grande momento de gritar eu não aceito a injustiça, eu renego os maus governantes, eu me levanto contra a exploração do homem pelo homem, eu repudio a corrupção neste país.

E direis então, como o grande Bob Dylan em sua canção-poema: “Eu bato à porta do céu. Está ficando escuro demais para ver. E eu preciso de luz.”

E direis: quero luz para um mundo que se fez escuridão além da conta, tornou-se temível demais, traiçoeiro demais. Eu exijo que se abram e se derrubem todas as portas da opressão e da desigualdade, da injustiça e das diversas manifestações da brutalidade. Quero luz, quero mais luz.

E com mais rigor afirmareis: como ser humano tenho o direito de cobrar uma existência digna para mim e para meus iguais. Como pessoa tenho a obrigação de ter direitos. Como cidadão e cidadã quero uma sociedade que resgate o sentido de honradez. Como dizia Goethe, em Fausto, "a lei é poderosa; mais poderosa, porém, é a necessidade."

Assim, que a necessidade do homens prevaleça sobre as leis injustas. E nessa luta contra a injustiça devereis erguer as vossas vozes e dizer que é preciso comunicar ao mundo que chegou a hora de mudar.

E para que venham as mudanças proponho que sigais batendo na porta da democracia e da justiça social, da solidariedade substituindo o materialismo, do abraço em lugar da frieza. Batereis na porta da coragem e direis “estou convosco; eu resisto”; chegareis ao limiar dos desafios e direis “não volto atrás, eu enfrento.”

Ireis até os poetas e aos loucos, aos andarilhos e aos sem-nada e lhes estendereis as mãos, gritando: “Venham, vamos bater juntos na porta do céu.”

Porque o céu não está nas alturas. Ele está nas ruas, nas praças e nas casas, nos becos e nas favelas. O céu está dentro de cada um de vós. Vosso céu é vossa revolta, descontentamento e indignação. Vosso céu é vossa luta. É vossa coragem e ousadia. Vosso céu é vosso gesto. Vosso céu é vosso não!

O céu é a juventude luminosa em vossas frontes, o brilho do olhar, a vontade do futuro. Vosso céu são também vossos brindes, alegrias e celebrações. E deveis também enfrentar os que não querem que as pessoas sejam felizes. Os preconceituosos, os de mente escura e sombria. Abaixo todos eles.

Agora, jamais ide a um lugar longe demais. A um lugar aonde não tenhais coragem da imensidão. Pois é preciso ter coragem da imensidão para chamar a si os desafios. Mas, sei que tendes essa coragem. Não é à toa que sois jornalistas, publicitários e radialistas.

E sabeis porque confio tanto em vós? Muito simples: porque para cá só vem quem é feito da argamassa poderosa dos tijolos que constroem as muralhas; do ferro que ergue pontes sobre abismos; do ouro que reluz em vossos corações como medalhas de vitória. Sintetizando: para cá só vem quem é feito de vida!

Agradeço a honra de aqui estar, agradeço a generosidade do convite. Estendo aos colegas professores o meu abraço e os convido também a bater à porta do céu e da grandiosa loucura que é existir em nosso tempo maravilhoso e ameaçador.

Desejo a todos e a todas sucesso, vitórias, realizações e reconhecimento. Desejo, acima de tudo, uma atividade profissional comprometida com os desafios históricos e com a ética.

E vos proponho uma utopia; a utopia que é o sonho corajoso. A utopia de lutar por um Brasil mais justo, numa sociedade mais honrada, mais crítica, mais forte. A utopia de o homem viver com grandeza sua louca aventura na face da Terra.

E afinal vos apresento as palavras poderosas de Antero de Quental, endoidecido de sonhos, quando dizia: “A galope, a galope, ó fantasia! Plantemos uma tenda em cada estrela!”
Muito obrigado.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

De como eu fui preso no meio do catimbó e virei "representante das almas e secretário do Cão"

Grande baderna na Pensão Calango


No ano de 1930 morava eu na Pensão Calango, na verdade Hotel Hospedaria S. Francisco das Boas Almas, numa ruela na Ribeira. Dadas as suas modestas acomodações a hospedaria havia recebido dos seus ocupantes aquele título bastante elucidativo como se vê. Ali se arranchavam estudantes como eu, caixeiros-viajantes, ocasionais visitantes da cidade e, algumas vezes, indivíduos de trato furtivo. Devo supor fossem fugitivos, falsários, vigaristas e que tais.
http://www.alemdaimaginacao.com/Noticias/o_homem_da_capa_preta.html

Pois bem, dentre esses tipos eis que chega um que se apresentou como "alta autoridade em coisas místicas". Era um tipo alto, magro, branco de cabelos avermelhados e crespos. Os olhos, muito pretos, completavam a figura. Levemente encurvado, era de poucas palavras e recebia pessoas que iam "pedir conselhos e fazer trabalhos". Quando isso acontecia ele fechava a porta do quarto a chave e se ouviam cantorias e loas numa língua estranha. Algumas vezes gritos horrendos; guinchos cortavam os ares e então silêncio total . Pouco depois o consulente saía dizendo "está bem. Agora está tudo bem."

Certa noite cheguei tarde das aulas. O quarto do tal sujeito ficava nos fundos do quintal da hospedaria e para lá me dirigi ao ouvir chorosa ladainha que aos poucos se transformou em um batecum pesado, em meio a grande falariço que virou cantar forte e rápido. Aproximei-me da janela lateral e, pela fresta, vi a seguinte cena: o tipo estava entonado numa capa preta que lhe chegava aos pés e tinha acendido uma fogueira no meio do quarto. A seu redor uma ciranda de mulheres dançava um samba de doidos.
Ao fundo sentava-se um homem de cabelos brancos, que gritava: "Ele vai chegar? Ele vai chegar?" 

E aquele círculo de dementes respondia:"Ele vai chegar! Ele vai chegar!" e continuava a dança. O da capa preta dava voltas rápidas e fortes fazendo o manto abrir-se, o que lhe dava poderosa aparência de taumaturgo do além. Continuemos: para melhor ver a cena subi ao telhado do quarto, afastei umas telhas e de lá continuei a acompanhar o amalucado espetáculo. 

Para completar, um amigo meu, colega de hospedaria, também fora atraído por aquela loucura, e ao ver-me encarapitado correu para perto e ficou a meu lado. Perguntou: "O que diabo é isso?, e eu espondi: "Só Deus sabe o que  é isso. É negócio de doido."
Nesse instante o homem de cabelos brancos insistiu: "Ele vai chegar? Ele vai chegar?", ao que turma toda respondia: "Sim! Ele vai chegar!, e o homem retornava: "E vai trazer o dinheiro? Vai trazer o dinheiro?!" 

E todos, no mesmo tom, garantiam: "Vai trazer o dinheiro!
Vai trazer o dinheiro!"

Aí, aconteceu outra loucura: as mulheres se apoderaram de latas cheias de água e jogavam no sujeito, dizendo: "Toma este banho de salvação! Fica limpo que a fortuna vem!". Encharcado, o pobre começou a dar saltos enormes e se dizia forte e poderoso e berrava: "Agora que ele chegue e traga o meu dinheiro! Estas fortes orações vão me fazer ficar rico!"

Então o mestre daquela cantilena apoderou-se de uma chibata e passou a surrar o infeliz que gritou: "O que diabo é isso? Pelo amor de Deus, o que diabo é isso?", enquanto a chibata ligeira o açoitava. O mestre respondeu que aquilo era a "limpeza" da alma. "A surra divina retira o pecado!" e lepo no lombo do coitado, que se desesperava e insistia com a pergunta: "Ele vai chegar? Ele vai chegar? Quero que chegue, e chegue logo com o meu dinheiro!"

Nesse momento meu amigo se mexeu. Foi o suficiente: as telhas se deslocaram, um caibro cedeu, outro também, uma ripa se partiu e o telhado veio abaixo. Caímos bem no meio da bagaceira. O feiticeiro gritou: "Pronto! Ele chegou: e veio logo dois. Veio logo dois, tá vendo?!" Diante disso o homem surrado não se fez de rogado e atirou-se ao meu pescoço perguntando "onde estava o dinheiro". Queria saber se eu "era o representante das almas" e como iria ajudá-lo a sair da falência de sua bodega.

De nada adiantava negar que fosse eu o representante das almas. O homem continuava sua inquirição e partia para cima de mim e do meu amigo. O mestre gargalhava alto e sua ciranda de mulheres loucas dançava sem parar. Nessa luta a fogueira cresceu e tomou conta do quarto. Todo o Hotel Hospedaria S. Francisco já estava desperto e correu para ver aquela cena de alucinados.  O corre-corre e o falariço tomavam conta de tudo. As chamas se espalhavam e assumiam proporções enormes e o homem lá: "Você é o representante? O representante da almas? Se é o representante, onde está o dinheiro? Cadê o dinheiro que Deus mandou, fila da puta?"

O dono da pensão e os moradores, vendo isso, partiram para cima de mim, do meu amigo e dos desmiolados, gritando: "Bando de catimbozeiros! Bando de catimbozeiros! Arreia o pau no lombo deles! Arreia o pau!" 

E o pau cantou. Uma velhinha, empunhando uma cruz e uma enorme vela, como se já não bastasse tanto fogo, cantava:

"Queremos Deus, homens ingratos
"Ao Pai supremo, ao redentor
"Zombam da fé os insensatos
"Erguem-se em vão contra o Senhor
"Dá nossa fé, oh! Virgem, o brado abençoai
"Queremos Deus que é nosso Rei
"Queremos Deus que é nosso Pai"

Para atiçar ainda mais a assembléia de dementes aconteceu o seguinte: nas imediações morava um padre que sofria de insônia. Quando ouviu toda aquela lamúria, cantilenas, loas e proclamas alucinados, veio ver o que era. Percebendo que o louco se atirava ao meu pescoço correu para me ajudar, gritando: "Em nome de Deus parem com isso!" E dizia: "Irmãos, vamos rezar em outro credo. Abaixo o catimbó!" 

Mas deu tudo errado. As pessoas pensaram que o padre fazia parte do magote e baixaram-lhe o pau, urrando: "O pade tá chamando Deus pra perto do Cão! O pade tá chamando Deus pra perto do Cão! O pade é do catimbó!" No meio da confusão o mestre de todo aquele pandemônio se evadiu, bradando: "Taí! Isso é a paga por terem prejudicado os trabalhos!" E sumiu junto com as mulheres loucas.

Para encerrar: o bodegueiro foi dominado e eu fui posto a ferros. O padre também foi preso. Meu amigo conseguiu escapulir. Logo depois a polícia chegava e fomos parar na delegacia.  Lá, o delegado, já quase duas horas da manhã, disse: "Bota todo mundo no xilindró: o comerciante que é desordeiro, o padre, que é padre catimbozeiro e esse aí, que é o secretário do Cão".

O "esse aí" era eu, e somente então fui perceber o motivo da acusação de ser o "secretário do Cão": no meio da desordem a capa preta tinha ficado presa ao meu pesçoco e eu estava, para aquelas pessoas, vestido de ajudante do capeta: dos pés à cabeça, literalmente. Passei uns dez dias preso só comendo pão e água, até que um tio meu foi me soltar. Quando me viu em estado tão lamentável, disse: "Que vergonha, meu filho, que vergonha. Que vergonha para a família. Além da cachaça, que eu soube que anda bebendo muito, agora deu pra catimbó... E pra que tá vestido de secretário do Cão?!!!!"

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Coisas terríveis e palavras fortes

A conversa de um velho amigo, a construção de um navio e o silêncio dos mistérios

Hoje encontrei-me com um amigo. Um amigo muito velho. Talvez tenha a idade de uma sequoia. Aliás, meus amigos são todos muito velhos, antigos homens-cedro que às vezes me caminham para uma conversa, algo assim. Às vezes nem falam. Pois tão velhos somos que já conhecemos todos os nossos assuntos. Os nossos e os de outras partes, países distantes, terras onde, como acá, também se planejam horrores e se os praticam com gênio de milagre terroroso. Assim sabemos que a rigor hoje já não há mais novidades. Só um lento e clamoroso langor da vida que se repete a cada reedição de um desastre, ao retorno de um furacão ou a morticínio idêntico ao seu predecessor.

Digo que sou velho e provo: por exemplo, fui menino, jovem e velho com Ramsés I e Ramsés II. Fui também menino com Marco Antônio e muito o aconselhei a não se meter com Cleópatra. Brinquei com Semíramis e, naquele tempo, como era arquiteto fui o principal a ajudá-la a erguer os seus jardins suspensos, aquela maravilha que passeia os sonhos de quem com ela gosta de sonhar.

Naquele tempo era assim: um homem podia nascer, crescer e viver ao lado de pessoas que seriam da sua e da próxima geração. Mistério a que jamais busquei abalançar-me e desvendar. É para isso que servem os mistérios: para funcionar como um leve devaneio, uma pluma, uma suave névoa na qual entramos mas a que não desejamos, de forma nenhuma solver, pois no íntimo sabemos que o mistério é uma verdade revelada mas não dita por que é ou para que é. E é aí que reside a grandeza do mistério: ser arcano; a ignorância que ilumina a perplexidade.

Mas hoje, suspeito, não há mais mistérios. Nada há de metafísico ou filosófico, aqui no sentido da ignorância revelada dos mistérios. Está tudo cibernético demais, racional demais, explicado demais para que haja mistérios a desafiar a inconclusão que deles queremos chegar. Minto: há mistérios sim, mas somente para quem deseje ser um pouco orvalho, um pouco manhã fria, um pouco silêncio, um pouco passos silenciosos numa casa habitada apenas por um casal. Aí o mistério ainda vive; escondido, guardado entre antigos, avoengos pertences a que os olhos do mundo não deve ter acesso. O mistério pertence a fantasmas muito queridos, sei disso.

Mas dizia que hoje encontrara um velho amigo. Homem acomodado - aqui no sentido espanhol do termo, quer dizer, de classe média - já criou os filhos e respira calmamente em sua vivenda ao lado da mulher. Uma vida calma como a sombra de um jardim por onde não passa ninguém. Aproximando-se, falou-me que agora quando já é um homem remoto e nada mais tem a temer pois nada tem o que perder a não ser o seu resto de vida, tomou grave decisão: construirá navio, enorme nau de muitas velas e pelo menos oitenta peças-de-fogo e se fará aos mares.

Garantiu que percorrerá o Atlântico e o Pacífico, o Índico, o Glacial Ártico e o Glacial Antártico. E descobrirá, assegurou, um novo oceano. Ele entende que o Homem ainda não descobriu todo o planeta, coisa em que com ele concordo plenamente. Revelou-me, falando baixinho como uma pequena brisa, que esse oceano será importantíssimo para quando os povos forem fugir espavoridos dos desastres climáticos que se avizinham com a destruição lenta, programada e assassina do Planeta.

Além disso, detalhou, enquanto seu navio não fica pronto em estaleiro muito bem escondido em alguma baía ou porto seguro, anunciará desordens e grandes desgraças e fará vaticínios incontestes. Disse que proclamará sedições e grandes movimentos e inaugurará uma nova religião. Qual, não sabe ainda. Mas que ela virá, virá, tranquilizou-me. 

Mais que isso, vai exortar o povo, o povo do mundo todo, a que comece a caminhar pelas ruas munido de urinóis e que esses urinóis sejam despejados diariamente em todos os Parlamentos e que os grandes senhores e senhoras desses parlamentos sejam obrigados a fazer suas abluções matinais com todo o conteúdo que lhes for destinado. E me disse que isso é algo muito bom, no que concordei plenamente. 

Asseverou que vai ruminar horrores e gritar palavras que ninguém compreenderá. E tará o poder de conjurar raios e coriscos, choques e grandes explosões oriundos das forças dos elementos. Enquanto assim falava os olhos do meu amigo injetavam-se de algo que se assemelhava ao que conhecemos por ódio, rancor ou vingança. Perdão: acho que estou sendo injusto: indignação era o que eu via naquele olhar irado e faiscante. Indignação justa, golpe fendente de espada.

Depois, acalmou-se. E, virando-se para mim, apascentou a minha própria indignação: "Amigo, não vamos nos apressar. Afinal, tudo isso de que acabo de lhe falar é apenas mistério. Um mistério que só uns poucos, como nós loucos e velhos, podem intuir." E saiu em direção à sua casa; uma casa feita de sombra de um jardim por onde não passa ninguém. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Uma história no sertão

"Quem é aquele rapaz? Será um africano?" *
Emanoel Barreto

Lembranças - Sertão central do Rio Grande do Norte. 1961. Encantado com a paisagem eriçada e rude, eu seguia montado no passo tardo de um cavalo manso, escolhido com cuidado pelo velho Patrocínio, tio da Minha Mãe. Ele não queria que o sobrinho praciano sofresse os percalços de montar um cavalo de vaqueiro. Chamou-me e disse: "Pode montar sem medo. Esse é Soberano. Vai para onde você mandar."

E lá fui eu, percorrendo os caminhinhos, sendas abertas a facão no meio da caatinga. Coisa de quatro da tarde. O vento era só pra dizer que tinha. O vento do sertão anda abraçado com o calor, para quem não sabe. Eu me sentia um verdadeiro caubói. Durango Kid. E imaginava, em meio aos galhos secos, espinhos e cro'as de frade, cardeiros e macambiras, existirem bandidos à espreita, prontos para ser acertados pelos meus tiros de infância.

Soberano andou, andou e, lá adiante, vi uma figura que vinha em minha direção. Era um velho. Negro, alto, o cabelo branquinho, a barba também. Lembrava a visão clássica do Pai Tomás. Puxei as rédeas de Soberano, quando o homem fez sinal como a mão. Queria que eu parasse. Aproximou-se e perguntou: "O minino é arguma coisa de Seu Patrocínio?" Respondi que sim. Ele disse: "Vim aqui pra falá cum ele, um negoço de umas vaca qui quero vendê."

Eu apontei, lá na poeira da distância, o rumo da casa-grande. E ele: "Então, vô pra lá."

E eu: "Vamo, que eu vou com o senhor." E saímos. Soberano mais parecia uma muralha, perto do cavalinho dele. No caminho, contou-me coisas de suas viagens, do tempo em que vivia longe daquelas terras.

Contou, como quem conta uma epopéia, um épico, uma canção de gesta. Os olhos da minha emoção estavam arregalados, pasmos com a vida daquele sertanejo. Por um momento, quase vi a meu lado Amadis de Gaula ou o próprio Aquiles, quem sabe Orlando Furioso. Aquele homem era feito de todas as lendas que povoavam meu imaginário infantil.

E ao final, já chegando à casa de Tio Patrocínio, ele revelou: "Minino, um dia ainda vô m'embora. Vou viajá, andá pelo mundo de novo. E aí, quando eu vortá, acho qui as pessoa vai perguntá: 'Quem é esse rapaz? Será um africano?'"

Aquela conversa, aquela figura, hoje fazem parte de lembranças que ficam guardadas em meio a memórias antigas, escondidas todas em alguma caverna de Polifemo, território traçado no mapa mais meu.

E hoje, às vezes me pergunto: "E se um dia eu viajar? Também quero viajar. Vou viajar. E espero que quando eu voltar as pessoas perguntem: quem será aquele rapaz? Será um africano?
*O homem da foto é incrivelmente parecido com o personagem desta crônica.

ZOORÓSCOPO

HIENA - Boas previsões para você, hiniana ou hieniano, pelo menos na fortuna. Ganhará rios de dinheiro, não será punido e poderá, sempre, se apresentar como pessoa respeitável. No amor, entretanto, as coisas não irão tão bem. Pelo seu caráter truculento e egoísta, somente poderá fazer par com os de Barata ou Tubarão. Mas, aí, ambos sairão perdendo, pois um tentará engolir o outro. No mais, vá em frente, que a estrada é larga e o caminho é bom.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A minha tipografia



A história do Grão-Louco do Almofariz
Emanoel Barreto

Nobre Senhor,
Sede bem-vindo.

Não sei o que vos trouxe aqui ou se precisais dos meus simples labores visto que os tempos são outros e ambientes como este estão em desuso ou simplesmente desapareceram. O ambiente modesto onde estais , devo informar, é uma tipografia; como já disse, superada e antiga. Era a acá mesmo que tínheis vindo?

Ao que vejo sim: era a acá mesmo que tínheis vindo. Entrai, pois. Sou, de profissão, tipógrafo. Aqui ainda trabalho com papel feito de trapos, sendo este o melhor que existe digo de passagem e com certo afã. Esta profissão se me foi herdada d'um velho monge, que há muito morreu, e que em seu monastério mantinha uma prensa d'onde tudo aprendi .

Mas, vinde, vinde. Vede os meus tesouros. Desculpai, a iluminação é baça; é que ainda uso velas, velas de sebo, pois este ambiente é antigo e assim o exige. É que os meus fantasmas, nobres impressores, seres pertinentes, jamais aceitaram que assim não o fosse.

Mas, eis os meus tesouros: as minhas caixas, aprumadas no cavalete. Caixa alta e caixa baixa e seus respectivos caixotins. Letras maíusculas, caixa alta; minúsculas, caixa baixa. Letras lapidadas pelos melhores artesãos de França. Letras das mais diversas e trabalhadas famílias tipográficas. Ricas, belas, expressivas. Muitas deles imprimiram Hugo, Balzac e Zola, tenho certeza. Quanta honra senhor, quanta honra, não é mesmo?

Mas, quereis algo? Alguma impressão a essa hora? Não? Apenas conhecer o que faço e como vivo? Dir-vos-ei: moro aqui, aqui vivo, aqui trabalho. Ali, minha enxerga, donde me alcanço estirado, altas horas da noite. Mais adiante, um velho e pequeno fogão. Ao lado da cama é onde guardo os meus andrajos.

E o que imprimo? Tolices, senhor, tolices. Como em tempos quase já imemoriais lanço ao papel corantos, avisos, gazetas. Neles conto histórias fabulosas: o dragão que surgiu do mar e devorou toda uma aldeia pesqueira; flamejante mulhar que voa em vassoura e atormenta alguma vila perdida em confins; batalhas de grandes cavaleiros, histórias de damas tão gentis, versos de menestréis e viandantes, contos para adormecer crianças e coisas de monstros horrendos. De tudo o que o humano engenho inventivo já imaginou aqui nasce na força destas letras.

Se alguém ainda os compra? Não, senhor. Ninguém. Ninguém compra o que escrevo. E assim depois de andar o dia inteiro sem ganhar sequer um só ceitil, retorno ao meu tugúrio. Antes porém, de voltar, ando por arrabaldes deserdados. Ali encontro quem me leia. Aproximam-se de mim os desprimorosos e os desvalidos, os aleijados, os tronchos, os alienados e os sem-destino, as súcias e os mandriões. Biltres e velhacos são o meu público.

A eles entrego de graça o que escrevo. E formam-se implausíveis clubes de leitura: cada um que queira ler mais alto e com entonações as estórias que redijo. E como em suas vozes noturnas tudo aquilo se torna galante e de bom feitio. Declamam e empostam os dizeres. Acendemos fogueiras, discutimos as lendas e os mitos, acreditamos em tudo o que escrevi e para nós está tudo muito bom; e após todo o falariço nos despedimos com mesuras e até amanhãs.

Volto então feliz e realizado. Chego, abro a forte porta que protege esta cave e então me tranco. Aqui vivo um silêncio antigo, pesado; silêncio que abraça e protege as coisas que ainda vou escrever.

Como?, o senhor quer um texto? Vou já, senhor, já vou compor. Demora um pouco, pois cada letra é retirada ao seu ninho, ao seu caixotim, para vir repousar na rama. Vou escrever-vos uma hstória: a história do Grão-Louco do Almofariz. O que isso quer dizer? Não, não sei: a ideia vai-me brotando aos poucos, ganha vida e dirige meus dedos. Confiai. Ficará boa a história, muito boa. Como disse, demora um pouco. Meus dedos já não têm tanta agilidade. Enquanto trabalho podeis achegar-vos ao catre e dormir. Quando acordardes, estará pronta a história. Boa noite, senhor. Boa noite. Grato por terdes vindo... Vou começar a escrever...