domingo, 18 de abril de 2021

Demora não é eternidade

Por Emanoel Barreto

A reclusão da pandemia trouxe-me algo de bom: transformei o sentimento de reclusão em ato de recolhimento. O quase desespero do silêncio transmutou-se na serena alegria de estar isolado mas perto da minha mulher, em tranquilo e longo instante de calma e paz.

Vivo a solitude sem expectativa de data, de saber quando tudo isso vai acabar. Todavia mantenho acesa a chama que aguarda a saída de cena dos seres humanos que, do alto do poder, contribuem decisivamente para a dramaticidade do quadro. Vai passar, tudo vai passar. Todos eles vão passar.

Enfatizo quanto ao tema central deste texto: estar em casa por motivo de sobrevivência não significa que você está preso – ao invés, você está a salvo; não quer dizer que a pessoa vai sucumbir ao tédio. Experienciar a solidão pode ser um excelente exercício de fortalecimento interno cuja prática pode fazer brotar maturidade, paciência e serenidade; convicção de que tal e terrível momento um dia terá fim – tudo tem fim.

Mais que um fim as coisas têm uma finalidade. Essa você a descobre desde, se e quando tiver estrutura interna psíquica e espiritual para superar a desgraça. Busque esse desenvolvimento agora, enquanto vivencia os cuidados para manter-se saudável.

Sei que as pessoas têm níveis diferentes de resiliência; uns são mais frágeis, se curvam com mais facilidade; outros, ao contrário, aprendem a desenvolver a resiliência tornando-a algo naturalizado a si mesmo. É como a coragem: também aprendemos a ser corajosos, a manejar problemas, superar situações adversas e até enfrentar e superar ameaças físicas.

Venho buscando isso desde que me conscientizei por completo da terribilidade de tal tempo. E foi bom. Sei que há perigo, há medo, mas existe também a força interior que nos permite viver nosso tempo com grandeza, mesmo que tal tempo esteja sob o domínio dos que em essência são minúsculos e cruéis, perversos e indignos.

Fique em silêncio. Mas, se preciso, não se omita. Não precisa agredir nem gritar. Resista. Todo mal se curva à resistência. A pandemia pode demorar, mas demora não é eternidade.

 

 

sábado, 17 de abril de 2021

 Os donos da chuva ácida

Por Emanoel Barreto

A evolução da pandemia se espalha como um manto de desolação sobre o país da mesma maneira como um dossel recobre um leito. Só que, no caso, trata-se do leito de morte dos muitos que tombaram sob o esmagamento da covid.

Ao que vi na imprensa o Brasil somente perde para a Índia em número de mortos diários. A cotidianidade do morticínio parece não haver sensibilizado certos setores da sociedade, especialmente os ligados à economia e ao protestantismo.

A eles somam-se os inconsequentes que promovem festas clandestinas, encontros grupais para conversar miolo de pote ou simplesmente marchar para academias – afinal é preciso viver o lema romano mens sana in corpore sano não é mesmo?

A marcha da insensatez começa a partir da chuva ácida que vem de Brasília e corre, caudalosa, a inundar corações e mentes de pessoas cuja ignorância e visão superficial, imediatista e rasa da realidade encontram na oração em público ou no comércio a qualquer risco solução da grave, terrível crise que vivemos.

Já somos proibidos de desembarcar em muitos países; chego a dizer que estamos deixando de ser um país para nos transformarmos numa doença. Somos, a bem dizer, um tipo de aterro sanitário social, cultural. Estamos nos tornando uma ameaça pública planetária.

A tudo isso junta-se a permanente ameaça à democracia, os destemperos da pessoa que tem o título de presidente da república e toda uma trupe de ajudantes, todos eles tomados pelo mesmo ânimo: promover o apoio aos propósitos de reeleição da citada pessoa e estabelecer um clima de dissenso e confusão social diária e intensa.

Sinto como se caminhássemos em meio a uma bruma, um fog de insegurança. Mas confiemos nos passos da História. A pandemia vai passar. E os donos da chuva ácida também.

 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

 O Satânico Dr. No e a pandemia no RN

Por Emanoel Barreto

O governo do Estado cedeu à pressão de grandes empresários, religiosos e rede privada de ensino e abriu as porteiras para que as pessoas possam, mas de maneira educada, cortês e com toda a finesse necessária, digamos assim, conviver com o perigo do coronavírus. Afinal, o corona é muito respeitoso das regras sociais, sabia?

As bondosas prescrições estão todas no decreto 30.458/2012.

A etiqueta para tal convivência com a ameaça, of course, reúne os ademanes e bons modos necessários a desestimular a covid de intentar a invasão de corpos, destroçá-los física e psicologicamente para, afinal, para lhes tirar a vida.

Tais primores de educação e respeito ao outro incluem: distanciamento social, limitação de horário de funcionamento de shoppings e academias e permissão de aulas até o quinto ano do ensino fundamental.

Sinceramente: qualquer pessoa minimamente capacitada a entender os perigos dessa pandemia sabe que isso não vai funcionar. Lembre que após a deflagração do Pacto pela Vida as coisas melhoraram um pouco. Agora, quando temos um mínimo de alento os mesmos atores voltam à carga e conseguem realizar seus intentos como se fosse possível negociar com um vírus fatal e em fase de mutação. Só que ninguém combinou com o corona.

Hipocrisia e má-fé. As tais medidas de segurança não asseguram, garantem ou impedem contaminações. As aglomerações são acontecimentos sociais dinâmicos e por si só  implicam em deslocamentos dos seus participantes, ampliando-se os riscos especialmente em ambientes fechados. Falando claro: ou enfrentamos essa covid com firmeza e coragem ou a pandemia somente será superada após muito tempo e mais perdas de vidas.

Acrescentemos o seguinte: a sociedade, por estupidez ou ignorância, comparece a tais locais públicos e tem sua parcela de culpa – na verdade grande culpa – uma vez que cada um nesse grande todo social deveria ter equilíbrio e juízo analítico para pensar em seus atos e nas consequências que advirão de tais comportamentos coletivos.

As flexibilizações vêm sempre com o carimbo de uma equipe científica, que avaliza e dá o imprimatur aos decretos que a rigor têm o mesmo conteúdo da soturna saudação dos gladiadores quando entravam no Coliseu, ou seja: “Ave César, os que vão morrer te saúdam.”

Lamento muito tudo isso. E chego a me permitir uma sombria e lúgubre licença poética e supor que os tais membros da equipe científica são nada menos que os tristemente famosos personagens Dr. Mabuse, Dr. Caligari, Dr. Frankenstein, o Satânico Dr. No e, claro, o Dr. Jekyll, de O médico e o monstro.

O decreto é hipócrita e deplorável. E todo mundo sabe disso.

sábado, 27 de março de 2021

 A máquina fotográfica e o gás aberto
Por Emanoel Barreto

 
Não gosto de lembrar que o Diário de Natal faliu. A redação funcionava na avenida Deodoro num local onde hoje para mim só existe saudade. Naquele tempo, quero dizer em 1974, o DN tinha um suplemento dominical, o Módulo 3,  onde os repórteres exercitavam seu lado mais criativo, com textos trabalhados, matérias escolhidas para uma boa leitura de fim de semana.

Pois bem, foi numa tarde qualquer que apareceu na redação, vindo-se sei lá de onde, o fotógrafo Paulo Saulo trazendo uma pequena escultura em vidro de lâmpada fluorescente. Uma pequena cegonha cheia de água colorida, que ele exibia todo orgulhoso. E contou, cheio de si: “Isso é feito à base de fogo. O cara, o artista que faz esses bichinhos, trabalha o vidro a quente e faz qualquer coisa com o vidro. Quer fazer uma matéria com ele?”

É claro que aceitei na hora. Seria uma bela matéria para o Módulo. E lá me fui eu, na sacolejante Kombi do jornal, rumo à Ribeira onde ficava a oficina do tal artista. Chegando, Paulo Saulo, hoje falecido, saltou rápido da Kombi e indicou onde iríamos fazer a matéria: “É ali. Naquela casa. Vamos fazer a matéria com o cara.”

Gostaria de lembrar que naquele tempo as máquinas fotográficas usavam filme.

Chegamos, nos apresentamos e o artista, alegre com a possibilidade de ficar conhecido, recebeu-nos de braços abertos. Eu perguntei: “Onde vai ser a entrevista?” Ele respondeu “ali” e apontou para a sua “oficina”. Olhei e confesso que não gostei do que vi: um quartinho apertado, quentíssimo, cheio de bujões de gás – lembre-se de que o homem trabalhava com fogo. Intimamente comecei a ficar preocupado com aquela reportagem.

Fogo, local apertado, gás, nenhuma segurança. Mas, afinal, eu estava ali para fazer a matéria. E entrei. O homem fechou a portinha do quarto, acendeu o maçarico, pegou uma lâmpada fluorescente de onde tinha retirado toda aquela tinta branca que recobre o vidro, que, assim, ficou completamente transparente. Claro, tinha que ser transparente, para ser possível ver a água colorida dentro da escultura.

Fez isso e começou a trabalhar. O calor foi aumentando até se tornar insuportável. O homem era realmente um mestre: tornava o vidro incandescente e trabalhava com rapidez. Paulo Saulo, encapetado, saltava de um lado para o outro, escolhia ângulos, colocava a objetiva em planos mais altos, mais baixos, fechava nas mãos do artesão, pegava planos gerais da cena.


Eu, que já havia feito um quem-é-quem com o homem, suava em bicas, até que ele afinal deu por concluído o seu trabalho, apresentando-nos uma estatueta de não-sei-lá-o-quê. Não lembro mais.

Terminamos tudo. Dei graças quando saí incólume do quartinho; até mesmo porque nos minutos finais pensei estar sentindo cheiro de gás. Agradecemos, fomos para a redação e fui preparar o texto. Ficou bom, bom mesmo, para a minha alegria de foca.

Saulo embrenhou-se no laboratório fotográfico do jornal e toca a demorar, a demorar, a demorar, até que, cansado de esperar, fui até lá e o encontrei: “E aí, Paulo, as fotos ficaram boas?”
“Não”, foi a resposta.
“Mas por que não ficaram?”

Ele olhou para mim com a cara mais lambida do mundo: “A máquina estava sem filme.”

sexta-feira, 12 de março de 2021

Carlos Eduardo e Eliseu Satanás
Por Emanoel Barreto

Quando muito jovem o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves teve passagem pela redação da Tribuna do Norte levado pelo seu pai, jornalista Agnelo Alves. Creio que foi em 1982, permanecendo no jornal mais alguns anos.


Eu ocupava a editoria de Cidades e lembro como se fosse hoje: eram mais ou menos três e meia da tarde quando Agnelo aproximou-se e me chamou: “Barreto.” 

Eu me virei e ele continuou: “Esse é meu filho Carlos Eduardo. Vai trabalhar aqui no jornal. Trate como você trata qualquer um dos outros repórteres.” Não conversou  mais e saiu.

Carlos Eduardo, que nesse tempo tinha o apelido de Tata, entrou em ação dia seguinte: como não tinha qualquer experiência foi enviado para cumprir pauta abordando assuntos mais simples.

Coisas como reclamações comunitárias, poste com lâmpadas queimadas, buraqueira em bairros distantes. À medida que ganhava experiência foi assumindo questões mais difíceis, que exigiam do repórter mais atenção e disposição para que os fatos ficassem bem apurados.

Uma dessas matérias envolveu a perigosíssima figura de um tipo conhecido como Eliseu Satanás. O apelido já diz tudo. Era famoso no noticiário policial: truculento e brutal, dizia não ter medo de nada. 

Vendia gasolina estocada ilegalmente em grandes tonéis, fazia desocupação violenta de terrenos por posseiros e reagia quando a polícia o buscava. Dizia não recuar nem mesmo diante do Mão Branca, o matador – ou matadores – de bandidos que quase diariamente abandonava corpos de criminosos em terrenos baldios de Natal.

Pois bem: Carlos entrevistou Eliseu Satanás a respeito de uma de suas tropelias. O enquadramento da matéria, como não poderia deixar de ser, era francamente desfavorável ao medonho entrevistado.

Pronto o texto foi publicado na página cinco. Foi assinado e ocupou a manchete do jornal. Dia seguinte Eliseu Satanás riscou na portaria da Tribuna. Perguntou:“Aqui tem um repórter chamado Carlos Eduardo?”

O rapaz da portaria confirmou: “Tem sim.”
Satanás quis saber: “E quem é ele?”
Resposta: “É o filho do dono do jornal.”

Diante da resposta a perigosa criatura preferiu não levar adiante seus certamente terríveis intentos contra o jovem repórter Tata e desabafou:“Diga a ele que escapou de boa!” – e foi-se embora. 

Somente vim a saber dessa história anos depois, Carlos já prefeito, primeiro ou segundo mandato. Encontramo-nos num shopping por acaso; ele falou a respeito e disse: “Rapaz, você quase que me põe num rabo de foguete...”




quarta-feira, 10 de março de 2021

 Lula está voltando e assombra Bolsonaro

Por Emanoel Barreto

A volta de Lula como potencial candidato à presidência da República está assombrando os becos mais escuros e os esconsos mais abjetos e viscosos do bolsonarismo. Desde seus mais brutos e ignorantes servidores e seguidores até os mais cínicos e mal-intencionados membros da sua elite.

Nunca nenhum governo levou este país a situação que chegasse a esse nível de indignidade: a morte literalmente se espalhando e um sujeito sem qualquer preparo no cargo de presidente.

O retorno de Lula ocorre em meio a uma conjuntura que foi sendo construída sob a liderança do então juiz Sérgio Moro, que como enxadrista do direito moveu as peças no tabuleiro político-jurídico até chegar à inelegibilidade e depois prisão do petista.

Quando, todavia, o jogo da democracia é usado contra a democracia a dialética do processo histórico entra em ação e termina por reverter o quadro, mesmo que pouco, ou pouco a pouco. E é isso o que está acontecendo: passo a passo caem os muros da Jericó de Moro, dando passagem a Lula.  

Junte-se a isso a desgraça da pandemia, a inação, as atitudes broncas de Bolsonaro e temos o quadro que hoje vivemos – a  hecatombe mais perfeitamente repulsiva porque bastante previsível e, portanto, evitável; o desespero de milhões, o medo de morrer. Tudo isso faz de Lula uma esperança.

Quanto à pandemia nada foi feito e tudo de ruim está acontecendo. Em meio a isso a política segue seu curso, Lula está voltando e assombra Bolsonaro. Pode até nem voltar ao fim do processo jurídico. Mas está dando um grande susto.

 

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

 Fim da era  Trump

Do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente

Por Emanoel Barreto

O título deste artigo, inspirado nos versos belíssimos de Juízo Final, composição de Nelson Cavaquinho, servem à perfeição para empalmar o fim da Era  Trump e uma possível mudança de rumos históricos dos Estados Unidos, superando-se a política de ódio, embuste e perversidade de Trump.

Ao ver a imagem do Minotauro seguindo para o helicóptero que o levaria da Casa branca me veio a sensação de um certo alívio. Sei que sua semente é forte, os loucos que o seguem não desistirão de repente. Mas o tempo, o seguir dos acontecimentos, fará com que seja queimada sua sementeira de horrores. Tudo passa...

O Minotauro tem seguidores no Brasil. Tanto que o mestre dos desastres, aquele que ocupa a presidência da República, o estima como a um ídolo e vê nele exemplo a ser imitado.

O mestre dos desastres transformou o país no grande, perigoso, profundo e escuro labirinto, com milhares de quilômetros de confusão de idiotices, desgraçadas idiotices.

 A última delas é o perigo de ficarmos ao léu, esperando a continuidade da vacinação, dependentes que somos da China contra quem o mestre dos desastres conseguiu construir uma muralha de desentendimentos.

A queda do Minotauro deverá ter consequências aqui. O novo presidente americano está em total desalinho com a pauta desvairada do mestre dos desastres, e já manifestou preocupação com a terrível realidade da Amazônia hoje sob ameaça de vir a ser terra arrasada.

Esperemos que com o início da um novo mandado, sob Joe Biden, tenha início também uma nova era, melhor, menos cáustica e turbulenta. Claro que os Estados Unidos não têm o Brasil como prioridade, somos geopoliticamente desimportantes.

A América do Sul como um todo é desimportante. Mas a mudança de presidente já é algo positivo. E quem sabe, com o fim do governo do mestre dos desastres o amor será eterno novamente.

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Vacina: o uso emergencial do direito à vida

Por Emanoel Barreto

Quando o Butantan pedia à Anvisa autorização emergencial para o uso da vacina pedia na verdade autorização para o uso emergencial do direito à vida. 

Quanto mais demorava a decisão maior eram a angústia e o temor das pessoas dignas de ser reconhecidas como seres humanos dotados de escrúpulos e respeito pelo seu semelhante. Enquanto isso a pandemia, a pandemia, a pandemia...

Por sua vez, o outro lado, a banda sombria, o flanco trevoso e lúgubre apostavam na improvável vinda de uma vacina originária da Índia – e deu no que deu: Bolsonaro falhou miseravelmente em seus planos e nada conseguiu pois o governo do país asiático negou-lhe qualquer apoio, prestígio ou apreço.

Sai pra lá. Índia acima de tudo, foi o que de alguma forma lhe foi atirado na cara. Se fosse por Bolsonaro estaríamos sem nada.

E mais: sem o Butantan estaríamos sem vacina. Temos tecnologia de ponta e ficamos mendigando como dalits, segmento social vigente na Índia e composto pelos últimos dos últimos, pelos intocáveis, mulheres e homens cercados de preconceitos e injusta rejeição.

Afinal, venceu o bom senso e o uso emergencial do direito à vida está em vigor. Bolsonaro vergou-se à realidade e cambaleou, foi derrotado.  

A vacinação é algo tão bom e tão justo que acolhe até mesmo os que defendem que sejamos como os dalits. Essa é outra face daquilo a que se chama democracia, ou ética, ou humanidade, ou solidariedade – você escolhe.

 Para encerrar: chegada a vez dos que defendem que sejamos como os  dalits tais indivíduos terão também direito à vacina, vale dizer terão direito à vida. Espero que vivam em paz.


domingo, 17 de janeiro de 2021

 A ética dos monstros

Por Emanoel Barreto

A ética dos monstros da pandemia tem por base o livre arbítrio e se manifesta em  sorrisos que explodem em gargalhadas noite adentro em festas monumentais. A alegria dos monstros lhes justifica qualquer coisa bastando invocar, insisto, o livre arbítrio.Ele escolhe ir ao rega-bofe e quem quiser que morra. Literalmente.

O monstro da pandemia é alguém que caminha pelas ruas calmamente, não tem os aleijões cinematográficas típicos, pode até ser afável, elegante e sabe todas as novidades do que seja fútil e lhe traga alguma forma de felicidade empacotada.

De dia a besta fera usa seus disfarces sociais de elegância e até finesse e ninguém a percebe como perigosa - até porque essências são invisíveis. Mas o monstro, a aberração, pode ser visto à noite. Sua brutalidade se manifesta quando vai a uma grande festa. Notou que estão muito em moda festas monumentais, acontecimentos extravagantes, gente correndo para aglomerações insanas e insólitas?

É nessas festas que os monstros são vistos em toda a sua crueza de alegria disparatada. A farra sempre é garantida como "segura e dentro das normas sanitárias", e aí vêm "informações" que todos sabemos hipócritas e mentirosas: haverá distanciamento social, álcool em gel para todos, medição de temperatura, blá-blá-blá. Tudo mentira.

É aí que entram as autoridades, ou melhor: é aí onde se omitem as autoridades – ninguém faz nada para impedir tais acontecimentos, como se vivêssemos o melhor dos tempos.

As autoridades omissas são parte cúmplice da ética dos monstros. Foi assim no Amazonas. Pode vir a ser aqui também. Depois não se poderá reclamar. Mas pode ser de tirar o fôlego.