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terça-feira, 2 de novembro de 2010

A mão que afaga...
Eamoel Barreto

A Folha sai hoje com editorial de mesuras à presidente Dilma. Como convém a um jornal que se pretende plural, apartidário e crítico - elogios e bom senso analítico são também manifestações de crítica, diga-se de passagem - o jornalão dos Frias concedeu à eleita dose homeopática de candura. Segue a transcrição, com um lembrete: a mão que afaga...

Boa impressão

Foi promissor o discurso proferido pela presidente eleita, Dilma Rousseff, na noite de domingo, após a confirmação de sua vitória eleitoral. O pronunciamento, que se revestiu de características de uma carta de intenções, convidou o país à conciliação, prestigiou a ordem democrática e sugeriu diretrizes de governo elogiáveis.

Como seria de esperar, a futura mandatária comprometeu-se com os direitos e garantias constitucionais. Incisivamente, com o intuito de dirimir suspeitas, prometeu zelar "pela mais irrestrita" liberdade de imprensa e de religião.

Na economia, foi além das promessas protocolares de responsabilidade, respeito a contratos e estímulo ao crescimento. Em considerações que poderiam ser endossadas por opositores e críticos dos atuais rumos do governo, fez questão de citar a "melhoria da qualidade do gasto público" e a "atenuação da tributação".

Não esqueceu também o respaldo às hoje aparelhadas agências reguladoras, para que atuem com "determinação e autonomia" na promoção da "saudável concorrência" -fraseologia que faz lembrar a influência do ex-ministro Antonio Palocci na campanha.
Ainda na área econômica, Dilma Rousseff referiu-se a cuidados com o ambiente, num aceno ao eleitorado de Marina Silva. E revelou ciência das dificuldades oferecidas pelo cenário global ainda marcado por sequelas da crise financeira -que exigirá de seu governo esforços para compensar a pouca pujança dos países ricos.

Nesse quadro, foi auspiciosa a menção às melhorias microeconômicas, com a valorização de "mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo".

No que tange à administração pública, comprometeu-se com a transparência e ecoou o discurso de seu adversário José Serra, ao falar em "meritocracia" e garantir que não terá "compromisso com o erro, o desvio e o malfeito".

A presidente eleita foi menos específica ao se referir ao tema estratégico da educação, bem como à saúde e à segurança. Haverá por certo oportunidade adequada para que esclareça em detalhes suas políticas para essas áreas.

No terreno das reformas, o discurso enfatizou a política, para "elevar padrões republicanos" e avançar "em nossa jovem democracia". É uma tecla na qual o presidente Lula passou a insistir depois do escândalo do mensalão.

É fato que o sistema partidário e eleitoral tem defeitos. Parece no entanto irrealista e inapropriado que se consuma capital político em demasia nessa questão, na esperança de que novas regras venham a evitar mazelas que dependem, na realidade, de vigilância pública e de evolução da cultura política para serem sanadas.

Embora não devam ser consideradas como mais do que são -declarações políticas de uma candidata vitoriosa, que precisa atrair simpatias na metade do eleitorado que não a sufragou-, as primeiras palavras da futura presidente deixaram boa impressão.

Foto: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh-6if0k0_OANl5943j7Lby9LcdXtFGe5yBpa5-StcNFE1bvOA__tRqjMD9MIvvAanGSB3L0AL_O5qfOlKsRlUtVivQgIp4cM-r-SfuNe3S5tp8BHINIHlsFeULSH_d0PBsrbB-/s400/pedras+1.jpg&imgrefurl=http://fatosnoespelho.blogspot.com/2010/08/o-pt-e-o-ira-mao-que-afaga-e-mesma-que.html&usg=__NlNnpZgzctlHW2NG8kvLOO-zaBI=&h=193&w=280&sz=17&hl=pt-br&start=62&sig2=puzz6_vi8CWgXENFURkPrA&zoom=1&

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A mão que balança o berço
Emanoel Barreto

Dilma não é uma boa oradora. Nisso, Serra, que  nesse quesito também não é nenhuma sumidade, a supera com reletiva facilidade. Por isso os pequenos atropelos nos debates, a aparência de indecisão do que dizer.

Esse nariz de cera é apenas para referir o pronunciamento da presidente eleita. Que, sem se utilizar de artifícios retóricos, frases de efeito, tentativa de figuração de carisma que não tem nem tentou encenar, apelou para uma fórmula mais simples e eficaz: narrar com argumentação objetiva o princípio de sua saga e expor o limiar do tempo a que dará partida.

O limiar, entendo, é uma fronteira de começo, o espaço que se alarga ante a visão do líder ou da líder, do ator político que irá lidar com o futuro que perscrutou. O limiar é o campo social a ser vivido, convivido, disputado. Ambiente complexo de avanços e recuos, paradas táticas e avanços decididos.

Foi assim que Dilma explicitou qual o seu limiar: incentivo à iniciativa privada, diálogo com segmentos religiosos, respeito à opinião da imprensa, manutenção dos programas sociais, fortalecimento da economia para que dispute os mercados internacionais.

Um discurso que aplaca qualquer dúvida, até mesmo dos mais renitentes adversários. E mesmo que não acalme os adversários, não lhes dará chances de afirmar que, logo de início, não lhes estendeu a mão. Refiro-me a Serra e a seu PSDB, onde já se pressente cizânia entre aquele e Aécio apontado por muitos como "culpado" de débâcle do serrismo.

Ao falar sobre a iniciativa privada deu a entender que não se colocará como adversária do capitalismo. Antes aproveitará seu potencial desenvolvimentista e empreendedorismo para gerar empregos e fazer mover-se a economia segundo as regras do mercado.

Ao abordar os segmentos religiosos deixou claro que entende esse estamento como parcela da sociedade civil. Foi bastante clara no último pleito a presença dos êmulos religiosos como integrantes da política. Não há como desconhecer que a religião, no Brasil, é um caso de política. Crenças, por mais obscurantistas que sejam, têm peso sim no processo político e isso não pode ser ignorado.

Mesmo no Estado laico os líderes religiosos, mesmo os sectários das seitas mais fundamentalistas, reivindicam ser ouvidos, pois o quadro histórico lhes confere legitimidade para opinar no conflituoso e emaranhado campo que mescla convicções de fé e manifestações dessa fé no quadro da busca de ocupação de espaços. Portanto, é preciso entendê-los como parte da sociedade civil. Sem capitulações, porém.

Quanto aos empresários, ficou claro o apoio e o incentivo à pequena e média empresas, buscando inserir tais negócios na formalidade - e nisso só têm a ganhar. As demais empresas, por sua própria compleição econômica, também terão apoio a que continuem a gerar emprego, renda e recolhimento de impostos.

Dilma foi clara com relação à imprensa, que lhe foi tão hostil ao longo de todo o processo de disputa: respeitará as opiniões e críticas, por compreender que o jornalismo é um dos pilares da democracia, sendo assim necessário que atue segundo o seu papel histórico.

Pronunciamento com maior dose de boa vontade, impossível. Tático, o discurso poderá ser recordado sempre que necessário como demonstrativo dessa boa vontade. Sincero, porque despido da oratória arrebatadora e salvacionista que caracteriza os pronunciamentos dos que se apresentam como taumaturgos e timoneiros de aventuras históricas.

Teria sido fácil, facílimo, acionar seu sistema de marketing para que produzisse peça voltada para uma espécie de colóquio monumental dirigido às massas, envergando a vencedora a armadura da guerreira. Antes, preferiu palavras simples que convocam à mobilização e ao encaminhamento naturalizado das ações do cotidiano nacional em seu processo de permanente vir a ser.

Creio que temos oportunidae ímpar para o exercício da grande política. Para tanto, será necessário uma oposição vigilante, mas sem o escudo e a lança do legionário agressivo; uma imprensa crítica, mas que escape ao jornalismo de ferocidade, ocultando no noticiário e na opinião as intenções de partidos políticos.

Dilma agora dará início às negociações para a composição ministerial. Passou a fase do enfrentamento, acabou a campanha e agora chega a hora da maternidade austera. E ela sabe que ela, só ela, é a mão que balança o berço.