Mostrando postagens com marcador guerrilha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador guerrilha. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de setembro de 2010


Em Bogotá é tempo de comemoração midiática: é preciso mostrar o inimigo morto
Emanoel Barreto

Bogotá - A primeira página de hoje de El Tiempo dá bem uma ideia da comemoração midiática em torno da morte do guerrilheiro Mono Jojoy. A manchete é incisiva: foi entregue, traído seria o termo, por parceiros, insinuado aí que o movimento Farc está em processo de falimentação.

A guerrilha, enquanto discurso violento de contestação a um determinado sistema, passou a carecer de legitimidade quando se envolver com os narcotraficantes, tornando-se assim organização temida, tanto quanto os comandos paramilitares de extrema direita e os traficantes mesmo.

Na primeira página autoridades comemoram, em destaque o presidente Juan Manuel Santos. Em foto abaixo, imagem do corpo do guerrilheiro morto. A contraposição é forte: é preciso exibir o troféu fúnebre. É preciso uma imagem-são-tomé para que se tenha dimensão da vitória alcançada.

No fundo o povo, sempre o povo, fica ao sabor dos interesses de quem tenha poder, de fogo inclusive, passando a viver uma situação-limite. E quando um grupo que escolheu as armas para supostamente defender o povo mas incide em situação de similaridade à violência das elites - violência que vai da assimetria de classes às manifestações de banditismo e brutalidade, tal grupo passa a ser apenas mais um drama na vida de quem vive na corda bamba.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Colômbia vive um vendaval de histeria ideológica
Emanoel Barreto


A Colômbia, onde estou para participar de congresso de estudiosos da comunicação, é varrida por um vendaval de esquizofrenia ideológica. As TVs comemoram a morte do guerrilheiro Mono Jojoy como se fora ganha uma espécie de Copa do Mundo ou algo assim. Nas ruas não há mobilizações festivas. Mas, todos com quem falei em táxis, restaurantes, calles, afirmam que foi uma grande vitória.

Militares deram hoje à TV Caracol a mais surrealista entrevista que já vi: o repórter fez uma pergunta generalista e os oficiais generais das três Forças, mais a polícia, ficaram trocando o microfone e mão em mão até acharem que tinham falado o suficiente.

Jornais deram edições extra. Pessoas foram entrevistadas nas ruas e a TV Caracol, a que mais vi, deu a "repercussão mundial" do acontecimento: entrevistas rápidas com presidentes de Honduras e Costa Rica, além de imagens de TVs da América do Sul.

A Colômbia tem inegavelmente uma dramática e histórica situação de sofrimento e pobreza do seu povo, daí o surgimento das Farc e sua posterior ligação com os narcotraficantes, imergindo o país numa tempestade de violência e brutalidade, atingindo especialmente os mais pobres.

A eliminação de Jojoy é o discurso que as elites precisam para aferrar-se ao poder, aparecendo como defensoras do povo. A guerrilha, pela forma como conduziu suas atitudes, terminou por esvaziar o discurso de salvação, passando a ser tida como um flagelo, mais um, na vida do povo daqui.

No fim, é lamentar o império da brutalidade vivido pelo país.

....

Término dos trabalhos acadêmicos e um passeio na Quinta de Bolívar
Apresentei hoje meu trabalho no Congresso da Associação Latinoamericana de Pesquisadores em Comunicação, na Universidade Javeriana. Volto ao Brasil nesta sexta. Se der, escrevo algo no Coisas de Jornal antes de voltar.

Na foto, um registro da Quinta de Bolívar, um dos lugares onde viveu O Libertador.
Local belíssimo e de intenso sentimento, cheio de uma aura de dignidade e sentido histórico da vida humana.

sábado, 14 de agosto de 2010

Como uma certa imprensa conta a nossa história




Dilma Vana Rousseff: deve ser considerada armada e perigosa
Emanoel Barreto

O excerto que publico logo após este parágrafo é de texto da mais nova edição da revista Época. Em reportagem de capa intitulada "O passado de Dilma"a revista, seguindo caminho já trilhado pela Veja e Folha de S. Paulo, busca construir a seguinte imagem: a candidata Dilma é uma criminosa, foi assaltante, andava armada. Mais claramente: utilizando-se do mais estúpido senso comum a revista busca estabelecer uma espécie de silogismo sonso: quem anda armado é criminoso; Dilma andava armada, logo Dilma é criminosa; logo não vote nela.

Leia o excerto: Em outubro de 1968, o Serviço Nacional de Informações (SNI) produziu um documento de 140 páginas sobre o estado da “guerra revolucionária no país”. Quatro anos após o golpe que instalou a ditadura militar no Brasil, grupos de esquerda promoviam ações armadas contra o regime. O relatório lista assaltos a bancos, atentados e mortes. Em Minas Gerais, o SNI se preocupava com um grupo dissidente da organização chamada Polop (Política Operária). O texto afirma que reuniões do grupo ocorriam em um apartamento na Rua João Pinheiro, 82, em Belo Horizonte, onde vivia Cláudio Galeno Linhares. Entre os militantes aparece Dilma Vana Rousseff Linhares, descrita como “esposa de Cláudio Galeno de Magalhães Linhares (‘Lobato’). É estudante da Faculdade de Ciências Econômicas e seus antecedentes estão sendo levantados”. Dilma e a máquina repressiva da ditadura começavam a se conhecer.
...

Aquele período da nossa história é contado de forma cambeta: usa-se de um reducionismo maniqueísta para sinalizar a ação dos grupos guerrilheiros como sendo o mal por oposição às forças da ordem, as forças do bem.

Não se fala que a ação de grupos de resistência surgiu em função mesmo de um estado de coisas opressivo; imposto por um golpe de estado perpetrado pelo estamento militar com aplauso das elites e voltado para manter, aí sim, a ordem que seus integrantes entendiam como normal e desejável: milhões de despossuídos no campo e nas cidades, concentração da riqueza, falta de perspectivas para as gerações jovens.

A participação da guerrilheira Dilma se deu nesse contexto, que serviu de pretexto para a criação de locais de tortura e mortes, ela própria barbaramente torturada. Um equívoco da minha geração foi o apelo à luta armada. Mas daí a classificar quem lutou politicamente como criminoso comum vai uma grande distância.

E quem usa de tal artifício, buscando nesse passado justificativa para desestabilizar a atual campanha, como se o país estivesse à beira de um abismo não tem, certamente, intenções democráticas. Quer no mínimo desviar o debate. Ou então... pede que haja um novo golpe.