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quarta-feira, 23 de março de 2011

Dá para comprar uma pedra

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Um leve tremor no corpo, as perninhas bambas escorregam pelo chão de areia do barraco, os pés encardidos pisando a própria miséria. A fome ronca na barriga que parece um buraco, um oco no meio do corpo do menino. Bandé caminha até a janela e a luz do sol - é manhã nascente -, estala em seus olhos um brilho de dor . Somente então, com a fome estalando na barriga oca, a tremedeira nas pernas, a cabeça funcionando mal, se dá conta de que está há três dias sem comer. 


Se vira para dentro do casebre e vê, num canto daquele pequeno antro que construiu só para si, a garrafa de plástico que o tem acompanhado nos últimos dias: nela, um resto de cola de sapateiro; mais adiante, o cachimbo de crack. Arranja forças não se sabe onde e caminha até lá. Cheira a cola e isso estranhamente lá dá um ânimo brutal. As forças retornam àquele corpo mirrado, àquela cabeça tonta. 

Vai à luta. Pega um caco de vidro e invade a casa vizinha,  de uma velha paralítica estirada em uma cama. Ali, ningúem mais que ele, o corajoso da miséria, e ela, a vítima a quem os filhos deixaram sozinha para ir trabalhar. Ele mete a mão sob o travesseiro para ver se tem dinheiro. A velha resiste e tenta segurar as mãos do menino. Ele se livra e num gesto brusco atira a mão armadae fende o pescoço da mulher. O sangue esguicha e ele sai. Havia encontrado cinco reais debaixo do travesseiro. Dá para comprar uma pedra.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A importância de cheirar crack: desenvolve a criatividade

A notícia abaixo, da Folha, dá-me uma sensação de náusea. A náusea de uma sociedade de consumo em sua mais degradante acepção: a criação de necessidades artificiais, o modo como se brinca com a criatura humana, a criação de novidades vendidas como essenciais para que se tenha uma boa vida moderna. Aí, pergunto: por que inalar sobremesas? Me responda: por quê? 

Por que ter um celular cheio de mequetrefes para você "falar com milhões de pessoas"? Você conhece, é amigo de milhões de pessoas? E se alguém é amigo de milhões de pessoas é amigo de alguém? 

Você deve falar inglês para crescimento pessoal, refinar sua sensibilidadede, ler bons autores no original ou apenas para ter "empregabilidade"? Você quer, quer mesmo, ser um bom profissional ou se contenta em ser apenas uma peça novinha, bem falante - e descartável - de um sistema social corrupto, brutal e muito doente?

Do modo como as coisas vão, se um dia o crack for descriminalizado -se for do interesse do capital, esteja certo, o crack será liberado - você receberá a recomendação de que crack é importante e muito bom para a criatividade; os neurônios ficam a mil, tá ligado? E aí virá o comercial na TV, magnificamente criado: "Cheire crack, depois cheire e sobremesa e seja feliz. Bem feliz."

Laboratório cria aparelho que permite inalar sobremesas

DA BBC BRASIL
Um laboratório francês de pesquisas na área gastronômica desenvolveu um aparelho que permite inalar sobremesas.
A máquina transforma os doces, inicialmente líquidos, em vapores que podem ser aspirados com um canudo de vidro, evitando a ingestão de calorias.
O aparelho, chamado Le Whaf, é um recipiente redondo de vidro com uma torneira, como um filtro de água.
Bruno Cogez/Divulgação
Máquina francesa transforma doces, inicialmente líquidos, em vapores que podem ser aspirados com um canudo de vidro
Máquina francesa transforma doces, inicialmente líquidos, em vapores que podem ser aspirados com um canudo de vidro

O líquido é colocado no Whaf e uma "nuvem" se forma no recipiente. A tecnologia integra o uso de ondas de ultrassom por cristais que se polarizam eletricamente ou se deformam em um campo elétrico. 

Minúsculas partículas são formadas e ficam suspensas no Whaf, formando vapores que podem ser inalados. 

A máquina havia sido criada no final de 2009, para três tipos de coquetéis, mas o projeto evoluiu e passou a incluir as sobremesas.
O Whaf foi criado pelo professor de Harvard David Edwards, fundador do Le Laboratoire, em Paris, que realiza projetos que misturam ciência, gastronomia e arte.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma história de rua

Tinha uma pedra no meio do caminho
Emanoel Barreto

Tinha uma pedra - de crack - no meio do caminho.
No meio do caminho tinha uma pedra - de crack - e era só o meio do caminho.

Tinha também uma bala no fim do caminho e, antes, uma pedra - de crack - no meio do caminho.
Houve um tiro no meio do caminho e aí foi o fim do caminho.

Imagem: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://saopaulosemalckmin.files.wordpress.com/2010/05/crianca-fumando-crack-no-rj-_-foto-o-globo2.