domingo, 16 de agosto de 2020

De como fazer a destruição do Brasil para termos um grande futuro

Por  Emanoel Barreto


Sou um gutemberguiano velho e antiquado. Poucos dão atenção à minha velha, anacrônica arte. Mesmo assim fui procurado em minha tipografia por excelente pessoa, que, pelos modos gentis e gestos refinados, logo vi tratar-se de um sapo. Homem viajado, elegante e de pensamentos elevados, disse-me que buscava um editor para uma grande obra intitulada De Mundis Terrificus e Preclarus. 

Detalhou-me que seus intentos, que serão mui bem expressos no livro, poderão em muito contribuir para a correta destruição do Brasil e do seu povo; obra que, entende, é urgente e necessária. 

Pedi informações a respeito e detalhou-me que trata-se de livro magnífico, onde se explicará a importância do uso correto das pedras redondas, aliando-se a isso narrativas a respeito do finis mortificus para o bem do Brasil. E garantiu-me: o melhor do Homem é a sua morte. Todo bom governo deve ter isso em mente, assegurou. 

Percebi imediatamente que é missão de alta relevância e coloquei-me à disposição. Isto posto, o sapo pediu permissão para convidar à tipografia dois outros grandes sábios. Atendi imediatamente e pouco depois desciam de um tílburi um jovem orangotango e um velho e digno papagaio, cavalheiros de estirpe e condições.

Informaram que o livro, cujos originais da peça introdutória me foram entregues, será uma larga e profunda reflexão sobre a condição do homo brasilis. Conversamos longamente e, ao fim, eles se retiraram. Eis o que diz o texto inicial que me foi entregue:

A questão humano-brasileira é de alta relevância. Assim, torna-se imperioso aprofundarmo-nos em seu estudo, uma vez que, historicamente, está comprovado que temos incrível tendência ao conflito e à nunca solução do conflito, e aí mesmo está a essência da nossa condição.

Sendo assim, é preciso dar condições ao brasileiro para que procure a sua própria destruição.

Para tanto devemos nos atilar a desenvolver processos autodestrutivos aliando a isso as intempéries naturais. Acontecidas estas, devemos mobilizar máquinas extraordinárias, enormes, ciclópicas, a fim de ampliar os resultados avassaladores da força dos elementos.

Devemos aproveitar a destruição decorrente de tempestades, para, a seguir, promover a construção de grandes buracos em todas as ruas, avenidas e vielas, a fim de que isso se torne obra d'arte grandiosa e apreciada.


Construídos os buracos será preciso criar imediatamente uma empresa que refaça tudo, ou seja: os buracos sejam tapados e, depois de tapados, sejam novamente refeitos e assim indefinidamente, já que é para isso que os governos foram criados.Tal filosofia é de grande valia.

Em caso de ação de elementos perigosos, como assaltantes e outros do mesmo tipo, será preciso criar linhas de financiamento de armas a fim de que os malfazejos possam executar com perícia e mestria sua grande arte de roubar e matar. 

Mais: os hospitais públicos devem ser fechados ou tornados ainda piores em seu funcionamento, a fim de estimular as pessoas a não adoecer. A culpa das doenças são os hospitais. E assim, eliminando-se a causa será extinta sua consequência, a doença, e por decorrência os doentes.

É preciso estimular o analfabetismo e os programas sociais de habitação levando-se as pessoas a procurar cavernas e tendas, que são mais baratas. E, sem saber ler e escrever, as pessoas não terão intentos danosos de formular ideias malsinadas, que só trazem o desespero e a desagregação social.

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Como vê o leitor, trata-se de obra de grande valia que, disseram-me o sapo, o orogangotango e o papagaio, irá orientar o brasileiro no sentido de um grande passo para o seu futuro. As bases estão construídas. Agora, resta-nos trabalhar em seu aperfeiçoamento


sábado, 8 de agosto de 2020


Brasil, há algo de podre neste reino da desgraça

Por Emanoel Barreto

O sol chama à praia, o bar convida ao chopp, a academia diz que ali tudo é saúde, os parques nem se fala e os shoppings são uma maravilha: alegria pura, vitória do consumo, momentos radiantes de futilidade, instantes de intensa, radiosa, solar e estúpida alegria. É como se em meio à tormenta da pandemia vivêssemos a sagração da primavera.

Comemoramos em epifania nojenta a nuvem suja e invisível que nos cerca e caminhamos contra o vento sem senso nem sentimento, sem pudor, desrespeitosos. 

Em alguma medida nos transformamos em um grande campo de concentração ao ar livre, numa festa desprimorosa que em alguma medida comemora a morte dos cem mil. Mas, esteja certo e confiante: ainda é possível matar mais – basta reabrir as escolas para dar início ao massacre dos inocentes. 

Eia, pessoal! Adiante! Vamos levar as crianças à escola. Só quero saber quem será o Herodes do Rio Grande do Norte. 

As  crianças podem morrer de Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica, que acomete crianças e adolescentes de zero a 19 anos, e que pode estar ligada à covid-19, li isso em matéria na Tribuna do Norte há uns três dias.

Mas, fora isso é festa; o grande campo de concentração é florido. O Brasil é um país de cores lindas e nem precisamos de ordem de prisão para seguir em direção ao abismo: estamos de braços dados com o fosso – amigos íntimos, irmãos, camaradas.

Pessoas morrem literalmente aos montes, mas os demais são como passantes; imunes, levianos. Embebidos de um deleite troncho e insensível querem diversão e fuga. 

Há algo de monstruoso nessa forma de existirmos enquanto nação. Há algo de imundo nas decisões de vivermos essa falsa normalidade, cavilosa hipocrisia de convivermos com aquilo que pode no matar. 

Há algo de podre neste reino da desgraça. Há algo de podre na pátria amada Brasil.

domingo, 2 de agosto de 2020

Conheça aqui a nova legislação trabalhista e garanta os seus direitos.
 
Lei de reforma da Previdência

Art. 1° Todo trabalhador brasileiro terá direito a aposentadoria.

Art. 2º A aposentadoria, entretanto, somente será concedida a quem tenha pelo menos cem anos de idade, duzentos de contribuição e manifeste sincera intenção de morrer o mais breve possível.

Art. 3º Se a sincera intenção de morrer não for percebida pelos peritos quando do pedido de aposentadoria o requerente será punido com mais quarenta anos de atividade laboral.

Art. 4° Após esse período o trabalhador será aposentado compulsoriamente.

Parágrafo único: Ser-lhe-á, todavia, nomeado tutor que o eliminará da folha de pagamento tão logo perceba intenções de continuar a viver por muitos anos, visando desfrutar de sua grande aposentadoria.

Art. 5° Trabalhadores com menos de cem anos de idade poderão aposentar-se em caráter excepcional, desde que e se cumprirem os seguintes requisitos, todos ao mesmo tempo: estar cego; encontrar-se paralítico; tenha perda completa de voz; apresente total ausência de audição e esteja respirando com a ajuda de aparelhos.

Art. 6º Caso o trabalhador tenha milagrosa recuperação de qualquer um dos males que o afligem deverá voltar imediatamente à ativa.

Art. 6º Voltando à ativa o trabalhador deverá devolver todo o dinheiro que ganhou indevidamente quando do período de inatividade.

Art. 7º O trabalhador ao aposentar-se e manifestar a supramencionada sincera intenção de morrer o mais breve possível terá direito de comprar um revólver calibre 38, a fim de suicidar-se, cumprindo assim sua intenção de morrer.

Art. 8º Caso não tenha condições de adquirir uma arma o Estado providenciará financiamento a juros baixos. Após sua morte a família ficará encarregada de continuar pagando a conta da arma adquirida. A arma será confiscada a fim de evitar acidentes de manuseio em ambiente doméstico.

Art. 8º Caso o trabalhador comprove judicialmente que não tem quaisquer condições para compra da arma poderá dirigir-se ao Setor Nacional de Providência de Armas onde lhe será facultado o uso de revólver calibre 38 a fim de que se suicide. 

Art. 9º O aposentado terá as seguintes regalias:
      Poderá respirar cem vezes por dia;
     Poderá caminhar o quanto quiser desde que esteja dentro de casa;
      Se estiver na rua somente poderá dar duzentos passos;
     Terá direito a uma refeição por dia;
     Poderá beber até dois copos de água diariamente; 
     Poderá ler esta lei quantas vezes quiser.

Art. 10º Aquele que não quiser aposentar-se será severamente punido – até mesmo com pena de morte – pois a aposentadoria é uma conquista e um direito de todo trabalhador brasileiro. 

Art. 11 Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogando-se todas as disposições em contrário. 

quinta-feira, 30 de julho de 2020


Como é difícil conviver com o próprio silêncio

Por Emanoel Barreto

A incapacidade de convivência consigo próprio, a experienciação de um momento interativo interno e tranquilo ou o compartilhamento de instantes com familiares em regime de isolamento durante a pandemia tem levado à formação de multidões de pessoas desesperadas; todas em busca de uma alegria passageira que muitas vezes resulta numa espécie de caminho para os umbrais do coronavírus. 

Em épocas já passadas a sensação de passagem do tempo sugeria uma certa lentidão na vivência diária. Ficar em casa era o comum, o normal de então. Hoje, com a velocidade imposta pelo estilo de vida pautado na pressa, na ultra velocidade da informação, na comunicação instantaneizada, criou-se a percepção de que é preciso agir, ou seja: fazer, fazer algo, fazer algo como estar num shopping center fazendo... nada.

É essa ilusão, essa manipulação da sociedade de mercado que tem colocado na agenda interna das pessoas a necessidade – falsificada – de sair, vale dizer fugir de pensar, ler um livro, conversar pausadamente, viver momentos de tranquilidade na aragem de uma tarde boa e mansa.

Em função disso, quando a situação exige que se tenha cautela, respeito por si e pelos outros, pela saúde de todos, o que inclui a mim e a você, surgem acontecimentos disruptivos como os que ocorreram em Ponta Negra há dias e, mais recentemente, em Pipa.

Pessoas vazias de si buscando bares e uma festança tocada a música eletrônica como que num protesto e insatisfação contra sua própria segurança já que essa segurança estava condicionada a um desconfortável ficar em casa, recolher-se proteger-se. Sendo assim, dane-se a segurança. 

O estranhamento de si, o distanciamento de si ocorre em pessoas que diante desse estranhamento – o fato de estar em casa – encaram essa situação como “estar presa em casa” em vez de “estou a salvo em casa.”

Junte-se esse tipo de pensamento às atitudes de muitas autoridades, que querem servir aos comerciantes abrindo o comércio e temos a mistura perfeita para que o coronavírus continue a se disseminar.

A desgraça banalizou-se, mas ainda há muitos que não querem ver – e quando veem já muito tarde.