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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Grande projeto de salvação nacional




PODER QUE TUDO PODE
NOTA OFICIAL
PLANO DE ADESÃO VOLUNTÁRIA À ESCRAVIDÃO

Comunicamos que, diante da situação nacional e frente à crise instalada a crise tornou o dinheiro extremamente raro.

 Sendo assim, e como tem sido visto em todos os noticiários o dinheiro foi desviado em transações entre grandes empresas, políticos e funcionários, tornando-se assim uma espécie de mercadoria de difícil senão impossível aquisição.
Mas o objetivo era nobre, uma vez que tais agentes, percebendo como o dinheiro corrompia as pessoas, passaram a desviá-lo a fim de que o pecado da usura fosse afastado do mundo. 
Mais claramente: o dinheiro volatilizou-se e hoje é uma miragem, algo imaterial. O dinheiro tornou-se a não-matéria. Quem vir dinheiro por aí deverá comunicar imediatamente às autoridades para que sejam feitos estudos místico-econômicos, pois trata-se de milagre.
Dinheiro é pecado e dele devemos nos afastar.
Sendo assim e após a proposição de planos de demissão voluntária, alteração nas leis trabalhistas e perda de direito de aposentadoria o Grande Poder que Tudo Pode vem a público apresentar sua mais nova invenção de caráter social: o Plano Nacional de Adesão Voluntária à Escravidão.
Trata-se de iniciativa de grande alcance social, político e econômico que revolucionará nossa sociedade: como o dinheiro desapareceu a única maneira de o sujeito trabalhar será voluntariando-se como escravo e penitente.
Tal situação é algo que se explica muito facilmente: se não há dinheiro como é que se vai pagar às pessoas? A única solução é o restabelecimento da escravidão. Nada mais lógico e racional. Eis as grandes vantagens da adesão voluntária à nova proposta:
1)    Tão logo seja admitido, o escravo passará a trabalhar e isso é muito bom;

2)   Com isso, a condição anterior de desempregado, se for o caso, estará superada pois o escravo estará trabalhando; por implicação, estará empregado. Muito bom;

3)   A escravidão propiciará, destarte, o almejado pleno emprego;

4)   Como escravo não tem direitos trabalhistas, nem horário fixo, poderá exercitar-se livremente em suas atividades laborais, ganhar músculos e, consequentemente, saúde e força;

5)   O escravo que tiver capacidade e talento será elevado à condição de feitor;

6)   O escravo poderá chicotear o companheiro que esteja à frente, e assim sucessivamente, de tal forma que a produção será grandemente acelerada, a partir do feitor.

7)   O feitor terá direito à autoflagelação, a fim de que todos tenham tratamento justo e equânime;

8)   O escravo que tiver baixa produtividade será automaticamente desligado, voltando à condição de desempregado.

9)   Desempregados serão presos por vadiagem;

10)  Quem for preso por vadiagem será imediatamente crucificado.

11)     O grande projeto final será a construção de pirâmides a fim de que nos séculos vindouros as gerações de então vejam tudo o que foi realizado pelo Poder que Tudo Pode.

Como visto, esta lei trará grandes benefícios e equilíbrio social. O Poder que Tudo Pode informa, outrossim, que serão desenvolvidas prospecções relativas à busca de dinheiro.
Mais claramente: haverá escavações de minas, já que grandes cientistas passaram a acreditar seriamente que o dinheiro hoje encontra-se a grande profundidade. Quando as escavações tiverem êxito as riquezas serão distribuídas e todos serão felizes. E não haverá mais o pecado da usura.
Mas, antes disso, vamos trabalhar. Vadiagem dá cadeia.


quarta-feira, 28 de julho de 2010

O DIÁRIO DE BICALHO: FRENTE A FRENTE COM OS FARAÓS


"...QUER MORRER? QUER MORRER AGORA MESMO?"

Prestimoso Diário,

Tive hoje marcante demonstração da força sinistra da Conspiração, que se alevanta contra a Augusta e Responsável Ordem dos Homens Bons, Frequentadores de Porões. Saía eu de preclara palestra no Porão Central, onde me houvera com nosso Deão, o Honorável Raçaça, quando fui atacado. Fui atacado!, Diário Amigo, atacado!

Sim, não se tratava de ilusão de paranóico, como costumam me dizer minha sogra e minha mulher, disfarçando seus reais intentos de me verem morto: "Bicalho, querido, acalme-se. Você não está sendo perseguido. Isso é coisa da sua cabeça". Certamente querem, assim , que eu saia de peito aberto e seja eliminado. Só pode ser.

Mas, voltemos ao solerte ataque. Caminhava eu em direção ao meu carro, quando senti um forte empurão. Já quase caía, e quatro velhacos, veja bem, velhacos!, se apoderaram de mim. Meteram-me acabeça abaixo um saco de aniagem que me chegava aos pés. Fiquei parecido com um tapete enrolado. Gritei, lutei, mas não tive condições de me livrar dos assaltantes.

Fui levado a um beco escuro, apesar de ser dia, e ali covardemente interrogado. Os celerados tiraram-me do saco e o mais tosco dele perguntou-me: - Procuramos o Embalsamador. Você é o Embalsamador? Temos ordens de achar o Embalsamador. Você é o Embalsamador?

Respondi aos berros: - Do que diabo vocês estão falando? Pensam que eu trabalho em alguma funerária, por acaso? Quem diabo é embalsamador aqui?

- Não é embalsamador. É o Embalsamador. O mestre dessa nobre e funérea arte. Logo que vimos você, soubemos que é o Embsalsamador. Desculpe-nos os maus tratos, mas era preciso levá-lo rapidamente.

- Eu não sou embalsamador. Detesto embalsamadores. Se pudesse, matava todos - respondi.

Esse, Diário, meu erro. Deixando transparecer em seus semblantes de ferro bruto toda a sua inclemência e sordidez, um deles me esmurrou: - Então é você que quer matar o Embalsamador, heim? Patife! Tome! Bem que os Cenaduladores avisaram: tem gente querendo matar o Embalsamador.

E desferiu-me outro soco. Uh!, doeu, Diário colendo. Nesse instante percebi: era a Conspiração agindo novamente. Os Cenaculadores, os políticos do Cenáculo, estavam por trás disso. Rápido como um raio, gritei: - Eu também sou um Cenadulador, idiotas! - e lhes mostrei meu diploma falso de Cenaculador.

Foi água na fervura. Imediatamente fizeram-se cheios de mesuras e pedidos de vênia, perdão e subserviência. Exigi ser levado imediatamente ao Cenáculo e lá, muito bem recebido, notei, pasmo, estranho ambiente: estavam todos vestidos de faraós. Com aquele chapelão de faraó, com aqueles dois pauzinhos cruzados e aquela barbicha na ponta do queixo.

Logo logo, duas mocinhas me vestiram de faraó também. Não entendia nada Caríssimo Diário. Então, fui forçado a perguntar: - O que se passa, meus nobres pares?

E o mais velho deles me disse: Vinde e vede - e puxou enorme cortina. Surgiu enorme panorama. Ao fundo viam-se enormes pirâmides em construção; e milhares de pobres seres trabalhavam puxando pedras colossais, erguendo as ciclópicas construções.

- O que diabo é isso, digno Cenaculator? Estamos num hospício? - perguntei.
- Por Osíris!, Cenaculator, não diga isso. Não ofenda os deuses. O que vedes são as obras de nossas vidas. Não vedes que o povo trabalha docemente? Não vedes que as pirâmides serão nossos túmulos? Assim, para a glória de Hórus no ninho, todos se dedicam a este piedoso trabalho: erguer nossas pirâmides. Para isso o Cenáculo existe, para construir túmulos. Túmulos. Grandiosos. E nada mais grandioso que uma pirâmide. Pirâmides impõem respeito. Por isso o Cenáculo é respeitado.

- Meu Deus, Cenaculador. Quem teve tão desastrada e monstruosa ideia? - quis saber imediatamente, Amicíssimo Diário. - E o que me responderam? O que responderam?

O seguinte: - Um grande empreiteiro, a quem muito favorecemos, nos deu todo esse terreno, vasto e lindo, a troco de nosso patrocínio político à sua causa: construir, construir enlouquecidamente. Em qualquer parte, qualquer coisa que der na telha, para o bem da nação. Muito nobre, muito nobre, não?

- Mas, Cenaculador - exigi uma explicação - e esse povo, esses trabalhadores, de onde vêm.
- Ah!, nobre colega. Dissestes bem: o povo. O povo nós compramos numa liquidação. Estavam vendendo povo aos magotes e compramos povo e preço de custo. Enfardamos, colocamos em portantosos caminhões e lá está o povo, trabalhando. O trabalho enobrece o homem, sabíeis? - respondeu ele com um leve sorriso.

- E o que o povo ganha com isso? - perguntei aterrado, Digno Diário.
Ele respondeu: - Chibata. O povo ganha chibata. Chibatadas, golpes de azorrague, de látego e de açoites. Látego, que palava imponente, não? Já pensou?: látego, látego, látego. É sonoro e tem ritmo. Látego, látego, látego,meu  digno par. É poético. Látego: um achado poético.

- E o Embalsamador, quem é?
- Ah, tocastes em ponto que nos é caríssimo, bondoso Cenadulador. É ele quem nos irá embalsamar quando morrermos. Quer morrer? Quer morrer? Terá exéquias de faraó. Quer morrer? Quer morrer agora mesmo? Será uma honra inaugurar nosso grande sítio fúnere com vossos respeitáveis despojos. E daqui a milhares de anos será descoberto como grande descoberta aquelógica por neoegiptólogos.

Com essa conversa entrei em pânico. A Conspiração, mesmo pensando que eu era Cenaculador, me propunha a morte Amigo Diário. A morte. Ao que vi, o Cenáculo só presta para matar.
E fiz a pergunta decisiva: - Quem é o Embalsamador?
(Continua na edição de amanhã).