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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O polvo, o lobo e o cordeiro; o povo vem depois, bem depois

Sob o falso argumento de que é contra o salário mínimo de 540 reais e dizendo à plateia que se insurgirá contra esse valor para melhorar a vida do trabalhador, o PMDB já está fazendo o que dele se esperava: arreganhar os dentes de fera política como se estivesse em protesto. Nonada. O que o velho e matreiro PMDB deseja mesmo são cargos, nacos, fatias de poder, área de manobra, empregabilidade política para os seus múltiplos tentáculos. 

Ocupação de espaços para a política dos negócios, o negócio como política, a política como negócio e tudo isso ao mesmo tempo.

Assim, engendrou-se a crise do salário mínimo: por que, antes, já não havia sido contra? Se o PMDB fosse mesmo contra deveria ter posto as cartas na mesa no momento apropriado. O que se pretende é criar uma crise midiática, explosão de manchetes que criam a falsa impressão de que o governo de Dilma começa em meio a uma forma de desequilíbrio. 

É mais ou menos como a fábula do lobo e do cordeiro, que bebia água na corrente de um rio logo abaixo do predador. Dentes de fora, ele ameaçava o cordeiro dizendo que o outro estava lhe toldando a água. Ante a afirmativa de que isso seria impossível já que estava depois do lobo e assim era esse e não aquele que toldava a água, respondeu o espertalhão lobo: "Eu só quero uma desculpa para te devorar."

É mais ou menos isso e serve também uma advertência: será assim o tempo todo. Lamentavelmente. Especialmente pelo fato de que, querendo ou não, o PMDB é parte orgânica do Poder. São as condições históricas deste país que fazem surgir uma aliança esdrúxula como essa de PT e PMDB: a aproximação de interesses inconciliáveis. Dilma não é aliada do PMDB. É, de alguma forma, sua refém.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um lamentável mal-entendido
Emanoel Barreto

"A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido". A assertiva é de Sérgio
Buarque de Holanda em seu Raízes do Brasil. E é. Se não, como explicar a formação do PMDB em guerra de movimento para apoderar-se de tudo o que "lhe fosse de direito" no butim da eleição de Dilma?


Ulysses Guimarães, nos páramos aonde esteja, deve estar em lágrimas. Chega a ser incrível, pior, lamentável, pior ainda, repulsivo, como um grupo se arroga o direito de dominar cargos e escalões a fim de lançar esse processo de empoderamento às alturas mais escusas. Por que tanta ânsia de poder? Para servir ao povo é que não é.

O Estado passa a ser tido como uma espécie de concha onde, a exemplo do caranguejo ermitão, o grupo se encastoa, toma posse e usa a seu bel prazer. Os grandes destinos nacionais, as questões históricas mais relevantes, são tratados como se fizessem parte de um conchavo, um mesquinho acerto de contas - e no fim é isso mesmo.

O blocão, como ficou chamado na imprensa o monólito peemedebista, foi uma orquestração visando garantir ao partido, outrora tão representativo, um largo e grosso naco de poder, com o intuito mesmo do poder. Às favas a democracia.

À falta um projeto historico-ideológico de assumir o poder, se busca uma solução fisiológica: garantir espaço, e espaço cômodo a pessoas, como se integrar um governo fosse praça de mercado onda bufarinheiros espertos buscam se aquinhoar.

Nossa cultura política está centrada nessa cordialidade, termo tão buarquiano, que confunde o público com o privado e priva o social de uma verdadeira democracia, já que resultante, tal situação, de um negócio, pior, uma chantagem: ou nos dá cargos ou providenciamos a ingovernabilidade.

Parece que o blocão não deu certo, foi implodido porque tinha face de escândalo. Parece que não deu certo. Parece... Nestas paragens brasílicas nunca se sabe...
Imagem:http://www.google.com/imgres?imgurl=http://4.bp.blogspot.com/_WpJy5x0xUSA/TECmMK01R