sábado, 27 de outubro de 2012




Dormindo com a mulher de César
Nos áureos tempos gregos os homens que tinham poder compareciam à praça, à ágora, para debater os destinos da cidade. Eram a elite pensante e o poder econômico e político conjugados em forma complexa. Em presença pública travavam os debates, erguiam a retórica, consumavam seus pontos de vista a partir de um pensamento essencial: a virtude guiava o discurso, voltado necessariamente para o bem-comum. 

A virtude, entende?, era ao mesmo princípio e fim da ação política, uma vez que do pronunciamento virtuoso brotavam ações e gestos positivos que, por sua vez, admitindo-se a virtude como essência daquela situação, gerariam uma sociedade melhor. Não sou tolo o suficiente para admitir que o mundo grego fosse o ideal –  eles eram uma sociedade escravocrata e discriminatória da mulher e dos estrangeiros –  mas, a partir da tese que exponho, quero dizer apenas que o pronunciamento público buscava a elevação do homem virtuoso, mesmo que isso fosse inatingível pela condição humana.

Então, saindo dos nevoentos tempos da ágora, parece-me que não há homens virtuosos na política, pelo menos não no sentido que deu abertura a este texto. O que prevalece é o sentido de busca de poder pelo grupo que ocasionalmente tenha se reunido para fazer essa investida: chegar ao poder em suas diversas manifestações e dali atender aos interesses grupais. 

Na eleição seguinte o grupo pode estar desfeito e seus membros integrados a outras facções, atacando-se e se interdenunciando. 

O pronunciamento político distanciou-se do sentido ético para aderir ao que prega e determina o marketing eleitoral; não há sentido de coerência entre o que diz o político e o que pensa de verdade. Vale o sentido de oportunidade, a “chance”, a esperteza, o lucro, a política também como negócio. 

É o que estamos vendo na campanha eleitoral que ontem se encerrou. Os dois candidatos, no debate da InterTV Cabugi, acusando-se mutuamente, cada um querendo se apresentar ao eleitorado como aquele homem virtuoso que habitava os longínquos tempos da Grécia antiga. Afinal, como diziam os romanos, não era suficiente que a mulher de Cesar fosse virtuosa, ela precisava ter fama de ser virtuosa. 

Os políticos seguem esse chavão. Os marqueteiros, profissionais pagos a peso de ouro, se encarregam de vesti-los com a púrpura da castidade eleitoral. Então, todos se apresentam como agindo em conformidade com o Bem, voltados para a excelência moral, donatários de conduta irretocável. 

E o eleitor, mesmo após anos e anos de viver esse espetáculo, simulacro, e encenação, torna às urnas e retorna ao voto, encabrestado pela alienação ao que seja política e pela opressão do voto obrigatório. 

O discurso é pregação de uma verdade postiça, mutável aos desejos e segundo a conveniência do momento. O político deseja apenas ganhar, todos sabemos. As promessas, eles sabem, são irrealizáveis, tal sua pirotecnia social e parcos recursos públicos. Mas ele insiste que sim, que fará acontecer, e tem o óbolo do voto depositado nas entranhas eletrônicas da urna. Assim, um deles vai ganhar.

E talvez, na emoção do discurso de vitória, tenha a petulância de dizer que dormiu com a mulher de Cesar. E como ela é virtuosa, a ele transmitiu, na troca de fluidos desse adultério cívico, todas as suas qualidades morais. Tanto é que ele venceu a disputa: pudera, isso foi resultado da fama de ser virtuoso.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Dura lex para os mensaleiros

Em editorial a Folha defende que os condenados do mensalão não sejam presos, mas submetidos a penas alternativas, como prestação de serviços comunitários ou perda de bens, por exemplo. Diz o jornalão dos Frias que eles não podem - nem devem - ser equiparados a criminosos autores de crimes violentos, os chamados crimes de sangue. Ou seja: o núcleo adversativo de seus atos é nocivo ao social tanto quanto o do bandido que mata ou estupra, mas as práticas, os comportamentos em estado de gesto, são diversos.
http://semonus.blogspot.com.br/2009/06/reu-sem-algemas-tenta-agredir-juiz.html

Ora, essa aparante questão de objeto, em sua manifestação fenomênica, é na verdade uma falsa questão. Os atos criminosos dos mensaleiros estão inscritos e tipificados no Código Penal. A questão, a verdadeira questão, é que os mensaleiros são homens ricos, fazem parte de uma elite, diferenciando-se assim do seu homônimo pobre, criminoso que qualquer inspetor de quarteirão pode prender, pois ao alcance da mão de baixa patente.

Afastar dos mensaleiros a pena de prisão é deixar tudo em panos quentes, esquecer, seria uma espécie de anistia branca. A sociedade ficaria terrificada se isso vier a acontecer. Os crimes dos mensaleiros tiveram consequências sociais graves. O dinheiro que amealharam faltou, tenho certeza, numa casa de parto de periferia, na merenda escolar, na segurança, na saúde. Sua periculosidade é sui generis, pois têm acesso ao poder. Assim, devem ser segregados do convívio social. Dura lex sed lex. 

Abaixo, o editorial da Folha:


Para quem precisa
Penas de prisão deveriam, em tese, caber a criminosos violentos; para os demais, como no mensalão, conviriam severas penas alternativas 
Os crimes são cometidos mediante violência ou fraude. No primeiro caso, só resta à sociedade prender os infratores -são perigosos demais para continuar à solta. Será adequado tratar todos os demais do mesmo modo?

Esta Folha tem argumentado que não. Há mais de dez anos, portanto muito antes do mensalão, sustenta-se aqui que a pena de prisão deveria ser destinada, em tese, aos que recorrem a violência física ou grave ameaça na consecução do delito de que são culpados.
As condições na maioria das cadeias brasileiras são abjetas. Mas a sociedade continua a abarrotá-las de indivíduos, condenados por juízes que fecham os olhos, como a efígie da Justiça, para a norma constitucional que proíbe "penas cruéis" e "tratamento degradante".

São mais de 514 mil presos no país, num sistema que comporta 306 mil. Ao mesmo tempo, 153 mil mandados de prisão aguardam ser cumpridos, conforme o eufemismo judicial. Celerados estão livres, enquanto uma parcela de criminosos que não oferece o mesmo risco está detida.

Dizer que a prisão deveria reeducar é outra falácia. Claro que é preciso aumentar o número de vagas nos presídios, torná-los compatíveis com um país civilizado e compelir os detentos a trabalhar. Mesmo na Suécia, porém, os cárceres fazem jus ao clichê de que toda prisão é uma universidade do crime.

Constatá-lo não implica complacência. Delinquentes violentos devem ser submetidos a longuíssima privação de liberdade, e a progressão dessas penas deveria ser até mais difícil do que é.

Quanto aos outros, não faltam medidas duras à disposição do juiz: impedimento duradouro de exercer cargo público ou determinada profissão, restituição dos valores subtraídos e prestação de serviços à comunidade, que podem se tornar encargos severos quando prolongados -e são verificáveis pelos recursos da tecnologia eletrônica.

A indignação pública perante o escândalo do mensalão se expressa, contudo, no legítimo anseio de ver os culpados atrás das grades.

Sempre houve corrupção política, mas o governo Lula a praticou em escala sistêmica, sob o comando da camarilha então incrustada no ápice do Executivo e do partido que o controla. As punições hão de ser drásticas, e seu efeito, exemplar, mas sem a predisposição vingadora que parece governar certas decisões (e equívocos) do ministro Joaquim Barbosa.
Tendo arrostado um partido que continua no poder e cujo chefe desfruta de imensa popularidade, seria decerto pedir demais ao Supremo Tribunal Federal que fosse ainda além, condenando nosso sistema prisional ao evitar que esses réus sejam despachados, sem motivo inarredável que não a letra da lei, para o inferno das cadeias.

Tal desfecho estaria sujeito a interpretações perniciosas. Ignorou-se a lei, tudo termina em pizza, diriam muitos. Evitou-se que os mensaleiros se façam de mártires encarcerados, diriam outros. Nem por isso a prisão desses criminosos terá sido necessária.

 



 

PACO DE LUCIA , John McLaughlin , AL DI MEOLA

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Que saudade de Djalma Maranhão




Aproxima-se o dia da eleição para prefeito. A data final para a escolha, o deadline, o prazo fatal. Escolhido Carlos Eduardo ou Hermano Morais terá início, espero, o processo de reconstrução da cidade. Por enquanto os tempos ainda são de promessas, alarde de grandes feitos, enunciação de sonhos, espalhar de anúncios de uma era fabulosa a ter começo com data marcada: a próxima administração.

Djalma Maranhão em foto encontrada no

blog de EDUARDO ALEXANDRE


Na essência o discurso dos candidatos está voltado para abarcar esse universo fictício - e que todos sabem inviável - de uma cidade perfeita, belíssima, com a presença do poder público chegando a todos e a cada um, atendendo a anseios sociais urgentes, tendo a promoção da cidadania como coisa sagrada ou quase isso.

Estamos na fase final do espetáculo da campanha. Os atores ataviados com as melhores roupagens da condição de líderes, adornados com os mais altos propósitos de servir sem de nada se servir. São palavras, apenas palavras. Depois da eleição virão os fatos, a vida social substantiva, os problemas escancarados, o cotidiano duro, até mesmo brutal dos que dependem, e muito, das ações advindas do poder público.

Uma coisa podemos depreender do discurso dos candidatos: ambos se apresentam como missionários, proponentes, proativos, ficando implícito que a sociedade seria algo passivo, uma espécie de ser coletivo que aguarda, recebe e aplaude o que se lhe dá. 

No fundo é isso mesmo: num país como o nosso, pobre de uma sociedade civil organizada e atuante, reivindicadora e visível, o que se tem é o povo, aqui na acepção de ente difuso e algo abobalhado, que aclama as benesses que o poder julga estar distribuindo. Pobre povo, que é obrigado a votar como se isso fosse um direito.

Então, já que é obrigatório, vamos votar. Que saudade de Djalma Maranhão.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Caros amigos, estou reorganizando meu tempo para voltar a escrever.

Um abraço,
Emanoel Barreto

domingo, 14 de outubro de 2012

Dois momentos de minha viagem à Europa, quando fui apresentar trabalho em colóquio de professores de jornalismo

Em frente ao Le Monde antes de seguir para Rennes, onde apresentei comunicação ao Colóquio de professores de jornalismo, a respeito do processo de legitimação do jornalista no Brasil

Em frente à Torre de Belém, Lisboa

O processo de legitimação do jornalista no Brasil

Trabalho apresentado no colloque Le “gouvernement” des journalistes, Rennes, França.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Olá, estou em Rennes, França, participando de um Colóquio de professores de jornalismo. Portanto, sem tempo para atualizar o blog.

Um abraço,
 Emanoel Barreto

sábado, 6 de outubro de 2012

O Colégio da Conceição vai fechar

Meu amigo, estou começando a ficar com medo: acabou-se o Diário de Natal, fechou o Bar de Lourival, o Machadão foi demolido, a Árvore da Cidade foi cortada há tempos, o viaduto do Baldo pode cair a qualquer momento, tem lixo pra todo lado, Ponta Negra afundou e agora vem a notícia de que o Colégio da Conceição vai falir. Quando o Colégio da Conceição diz que vai fechar é porque as coisas não andam boas.


Natal, parece, está se desmanchando. Natal, sem dúvida, está perdendo referentes históricos.

Só falta o seguinte: derrubar a casa de Câmara Cascudo e vender o Forte dos Reis Magos sob alegação de que é muito velho. Quando isso acontecer é melhor fugir. Nada poderá nos salvar e teremos o mais horrendo dos fins; cachorros começarão a miar, gatos a latir e canários vão virar aves de rapina.

Oremos, que isso só pode ser coisa de mau olhado.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Deu na Folha e compartilho com você

O dia que abalou a cultura pop

Há exatos 50 anos,em 5 de outubro de 1962, James Bond ganhava os cinemas e "Love Me Do", primeiro single dos Beatles, chegava às paradas de sucessos 

THALES DE MENEZES
EDITOR-ASSISTENTE DA “ILUSTRADA”


Em 1962, enquanto Estados Unidos e União Soviética brigavam pela conquista da Lua, os britânicos tratavam de conquistar a Terra. Pelo menos a parte dela que ficou conhecida como "cultura pop".
As armas dos súditos da rainha eram o agente James Bond, com armas de verdade e licença para matar, e os Beatles, com guitarras no lugar de metralhadoras.

No dia 5 de outubro daquele ano, 12 cinemas londrinos começaram a exibir "007 Contra o Satânico Dr. No", primeira aventura na tela grande de James Bond -em 1954, o livro "Cassino Royale" ganhara versão de uma hora para a TV inglesa, com Barry Nelson no papel do agente.
"Dr. No" encheu as salas. Ian Fleming tinha lançado dez romances com o herói desde 1953, um fenômeno de vendas. A certeza do sucesso era tanta que o produtor Albert R. Broccoli concebia uma franquia com cinco filmes.

Isso impediu que Gregory Peck assumisse o papel, por recusar um contrato longo. Roger Moore, galã da época, quase herdou a vaga, mas, considerado jovem demais, deu a chance a Sean Connery.
Moore foi protagonizar uma série de TV de espionagem, "O Santo", que curiosamente estreou em 4 de outubro, um dia antes de "Dr. No". Moore substituiria Connery como Bond a partir de 1973.

NOVIDADE NA PARADA

Lançado no mesmo dia do filme de Bond, o primeiro compacto dos Beatles, "Love Me Do", chegou ao 17º posto da parada inglesa. Na frieza dos números, não parece tão sensacional assim. Mas era uma tremenda novidade entre as músicas que dominavam as mais tocadas.
A mensagem de amor direta na letra e a frase de gaita tocada por John Lennon na abertura da música, um convite ao assobio, fisgaram os ouvintes. "Love Me Do" preparou o terreno para que, seis meses depois, o primeiro LP dos Beatles, "Please Please Me", alcançasse o topo das paradas britânicas.
Relançada em 1964 nos Estados Unidos, "Love Me Do" entrou direto em primeiro lugar entre os singles mais vendidos, destino de praticamente todos os singles posteriores dos Beatles.
O mesmo se deu com James Bond. Todos os filmes produzidos nos anos 1960 lideraram a bilheteria mundial.

BIQUÍNI HISTÓRICO

Se a gaita de Lennon é a marca de "Love Me Do", as cenas na praia formaram a imagem icônica de "Dr. No". Difícil esquecer James Bond saindo da água com a roupa de borracha de mergulhador e, ao tirá-la, exibir um smoking impecável, nem um pouco amarrotado.
Também na praia surgia a suíça Ursula Andress com um biquíni que entrou para a história. Belíssima, mas sofrível a ponto de ter suas falas no filme dubladas pela alemã Nikki van der Zyl, ela iniciou a linhagem das "Bond girls". Às vezes mocinhas, às vezes vilãs, eram sempre estonteantes.

O apelo sexual também é um laço entre Bond e os Beatles. Seu sucesso ilimitado com as mulheres foi peça fundamental na construção da revolução comportamental que se seguiu.
Enquanto os Beatles eram literalmente perseguidos pelas fãs nas ruas, Bond não deixava uma mulher passar a alguns metros de distância sem levá-la para a cama -vale também sofá, banco de carro, bote salva-vidas, submarino ou nave espacial.

A música, o cinema e a vida mudaram depois de 5 de outubro de 1962. Beatles e James Bond foram pioneiros de um estrelato global. Se hoje Madonna ou Lady Gaga são conhecidas na Albânia e na Malásia, é porque trilham o caminho pavimentado por 007 e pelos reis do iê-iê-iê.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De como passar no jornal e ser chamado a um inferno de água


A cobertura da enchente em S. Gonçalo, feita em lombo de cavalo. Eu sou o terceiro, da esquerda para a direita

A enchente que quase vira um rio de sangue

A história que vou contar aconteceu num dia qualquer de junho de 1976. Eu trabalhava na Tribuna do Norte e nesse dia, sem motivo algum, uma vez que minha pauta sempre era para a tarde, saí de casa e fui até a redação. Péssima ideia. Primeiro, porque chovia muito; segundo porque aquilo que seria uma passadinha rápida no jornal transformou-se numa cobertura exaustiva que quase acabou em cena de sangue num bar em São Gonçalo do Amarante.

Foi assim: logo que cheguei à redação, encharcado até à alma, encontrei Agnelo Alves, jornalista e um dos donos da Tribuna, procurando um repórter para ir a São Gonçalo. A chuva estava provocando uma arraso na cidade, especialmente na periferia. Não deu outra: na hora fui escalado para cobrir o assunto. Quem pedia a cobertura era um aliado dos Alves, opositor do prefeito de então.

Em minha companhia iria um fotógrafo conhecido como Anjinho. Seu nome era Antenor, Antenor não sei o quê, já que nunca lhe soube o sobrenome. Mas soube, muitíssimos anos após, que morrera, pobre e sofrido. Anjinho, como Ferdinando, aquele personagem dos quadrinhos, era enorme. Como o personagem tinha físico maciço, era de uma doçura sem limite, ou seja: era grande , poderoso e inofensivo. Inofensivo como um boi manso.

 Não era fotógrafo de campo. Trabalhava no laboratório, revelando e copiando as fotos. Não tinha – como Iremar Araújo, o Bárbaro a que me refiro em texto que você pode ler logo abaixo deste –, o fogo, a chama, o pipoco do profissional de talento. Anjinho era um Hércules atencioso, Iremar um capetinha de pouco mais de metro e meio de altura.
Pois bem: entramos no carro do tal aliado de Agnelo e partimos. Sequer tive tempo de telefonar para casa, avisando que como sempre não teria hora de voltar.

Chegando a São Gonçalo encontramos a cidade mergulhada. Demos uma geral no centro e nos bairros e em seguida fomos aos distritos, literalmente uma banheira. Pior: um grande atoleiro. Pois foi com esse atoleiro monumental que o carro 
teve de se haver até chegarmos às margens de um rio que aterrorizava os ribeirinhos.

A primeira cena foi desoladora: um casebre inclinado sobre a margem dava a impressão de desabar a qualquer momento. A água era torrente. O dono daquela lamentável habitação era desespero puro. Aproximei-me dele, apresentei-me e dei de cara com a mais inusitada resposta à minha pergunta. Eu queria saber quando a água começara a invadir a sua casa e ele disse no ato:
– Só respondo se você me garantir a construção de uma casa nova. Garante?

Ora, aquela pobre alma certamente não sabia que um repórter jamais poderia assumir aquele compromisso. Primeiro, porque o salário não dava; segundo, porque, sei lá porquê, só sei que não dava para fazer aquela promessa. Insisti com a pergunta e ele respondeu da mesma forma. Então entendi tudo: eu estava na companhia de um político. E como na visão de pobre político sempre é um tipo que promete coisas em troca de votos, deve ter pensado que eu queria extorquir seu voto como geralmente fazem os políticos.

Assim chegamos a um pequeno impasse. Usando de toda persuasão possível expliquei que aquilo era uma entrevista e que a denúncia da sua situação poderia provocar, da parte da prefeitura de São Gonçalo, alguma assistência. 

– Pior não pode ficar – argumentei. Ele então aceitou e contou sua tragédia. Pobre só conta tragédia. A chuva começara perto da meia-noite e fora engrossando até chegar àquele ponto: o rio cheio de barreira a barreira e a casa quase caindo, tal a força do aguaceiro.
Relatada a situação partimos para outro local. Aí a coisa estava realmente feia: as pessoas estavam ilhadas. Quer dizer: em situação bem pior que o pobre da casa quase caída. Aquele ainda poderia pedir algum tipo de ajuda, buscar abrigo ou receber comida; os que estavam ilhados viviam situação mais deplorável sem ter como escapar ou receber ajuda. 

O carro seguiu patinando na lama até chegarmos a outro impasse: dali para a frente o carro não ia. Era lama demais, água demais. Era entrar e atolar. Entrar e atolar, não: entrar e afundar. Então, não se sabe de onde, apareceu alguém com uns cavalos.
– Vamos? Vamos montar? – disse o sujeito que me havia atraído àquele enrascada. Fazer o quê? – respondi: – Vamos, não é? – e fomos. Detalhe: eu montara a cavalo somente uma vez, quando menino, ou seja: não tinha prática para aquelas investidas. Mas, enfim, montei no matungo que me foi destinado e aí começou um martírio. Veja bem: Anjinho fez a foto que você viu aí acima, esporeou sua montada e juntou-se ao grupo. 

Enquanto isso, o miserável animal que me fora destinado começou a fazer das suas: suspeito que aquele bicho tenha sido cavalo de carrossel, pois somente sabia rodar da direita para a esquerda e, quando estimulado por mim na tentativa de acompanhar a cavalgada, fazia o inverso. Quer dizer: eu estava metido numa situação dos diabos, pois os demais já de distanciavam. E o sórdido cavalo girando o tempo todo.

Quanto percebi que estava vivendo uma lamentável loucura, algo ridículo ou quase isso, gritei para que me esperassem. Certamente dominados por algum espírito bondoso, todos pararam. Enfim, meu medíocre animal aceitou seguir em linha reta e conseguir juntar-me ao bando. 

Caminhamos com água batendo no peito dos cavalos, fomos a vários locais devastados e prosseguimos adiante. Enfim, a coisa piorou de vez: chegamos a um ponto tão terrível que nem mesmo os cavalos poderiam ultrapassar. Se os cavalos se metessem, a lama, funcionando como terreno movediço ameaçava tragá-los. E a nós também. Certamente iríamos parar no centro da Terra, não tenha dúvida. Do mesmo modo como os cavalos nos tinham sido trazidos, alguém apareceu com um trator. Somente de trator poderíamos chegar adiante.

Seguimos naquela maquina monstruosa até paragens distantes. Pegamos depois umas canoas para ir mais adiante, pois a coisa mais e mais se complicava. Nesse ponto comecei a ficar com medo. Quem remava a canoa onde eu estava era Anjnho, do algo do seu metro e noventa pesando coisa de cem quilos ou mais. Seguinte: quando ele ficava de pé a precária embarcação adernava para um lado e para o outro. Afinal consegui convencê-lo a remar sentado a fim de evitar que a reportagem terminasse como notícia da morte do repórter. 

Agora, veja bem: tínhamos saído de Natal coisa de nove da manhã e já então era coisa de três da tarde. Sem comer e sem beber nada. Sabe o que é nada? Nada? Isso mesmo: nada. Por um momento tive a maldita ideia de pegar água do rio com as mãos e beber. Mas ante o temor de contrair alguma miserável doença e passar o resto dos meus dias largado num hospital me fez afastar-me de tão louco propósito. 

Mas, enfim: depois de muita luta terminou o trabalho de apuração, toda a situação fora registrada e aquela desconjuntada expedição resolveu voltar. Ainda bem. Mais mortos que vivos saímos das canoas, pegamos o trator, voltamos aos cavalos e afinal chegamos ao carro.

Estávamos cobertos de lama. Uma lama barrenta, que aderia às roupas e aos nossos corpos. Do jeito estávamos entramos no carro. Na volta, aos pedaços, paramos num restaurante.  Aí a coisa ficou assumiu aspecto aterrador.

Venha comigo e observe: o restaurante, popular, estava lotado. Entre as mesas inocente menina vendia votos para concurso de rainha do milho. Sabe como é: a menina que vender mais votos ganha o concurso de rainha do milho e dá o dinheiro à escola. Pois bem: depois de vender uns votinhos em varias mesas ela dirigiu-se a um grupo de homens de má aparência. Foi tratada princípio com desdém e depois com grosseria.

Eles não notaram, mas haviam feito muito mal: numa mesa próxima estava o pai da garota. Era um tipo alto, mais alto que Anjinho, mais forte que ele e, ao contrário do meu colega, era um bruto. O sujeito tinha um bigodão preto que descia de um lado ao outro do queixo. Sentado numa cadeira deixava à mostra, na cintura, às costas, o cabo de uma faca de doze polegadas, também conhecida nos ambientes de valentões sertanejos como viana ou santa-maria. Só que aquele tipo de santa, na mão do pai da menina, somente obraria milagres do mal.

 O minotauro percebeu o destrato da criança e ficou eriçado. A mão direita conferiu se a arma estava a postos, agarrou-a. Em seguida minotauro levantou-se e se preparou para avançar contra o grupo. Alguém a seu lado teve o bom-senso de agir rápido e o controlou a custo. A quase briga não passou de um susto.  Ainda bem, a nossa mesa estava a menos de dois metros da confusão. 

A caminho do jornal, o carro zunindo na pista molhada acudiu-me a seguinte ideia: ainda bem que eu estava apenas coberto de lama: como isso só acontece com jornalista, eu tinha ido cobrir uma enchente e podia ter voltado como testemunha de um rio de sangue e feito a reportagem ao vivo do crime. Por mais vermelho que seja, todo crime é sempre em preto e branco.