sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Admirável mundo novo ou de como pagar para sofrer



O magnífico plano de saúde e suas doenças maravilhosas

Depois de aderir a um plano de saúde o homem passou a torcer para ter alguma doença. Só para testar se o produto que havia adquirido era bom mesmo . Esperou muito tempo e não adoeceu; nem mesmo um singelo resfriado o acometeu. Preocupado com aquele surto de saúde dirigiu-se à sede da empresa gestora do plano e disse que, como não tinha adoecido, não tinha como atestar a qualidade do atendimento.

A moça que o atendeu disse: − Não tem problema. Este plano é tão bom que temos até um pacote de doenças a oferecer. Não leu isso quando assinou o contrato?
−Não, não li – o homem estranhava aquela conversa: “Pacote de doenças?”
A jovem disse: − Então o senhor não adquiriu o plano de doenças? 

−Não, não – ele disse: − Adquiri um plano de saúde.

− Mas – argumentou a moça – de que vale um plano de saúde sem a doença? Tem de comprar a doença também, entendeu?

− Não, não entendi – ele olhava fixamente a mulher.

Ela continuou: - Então, foi até bom o senhor ter vindo aqui. Já pensou se o senhor é acometido de uma doença não autorizada? Doente de doença não autorizada não é atendido, percebe? Se tiver doença não autorizada tem de ir ao atendimento público, que é péssimo. É pior que a doença.

O sujeito então quis saber: − E quais são as doenças que vocês vendem?
Ela respondeu: − Depende da qualidade da doença. Uma enxaqueca crônica, por exemplo, não sai por menos de dois mil reais.

− Meu Deus! – ele arregalou os olhos.

E ela: −Pois é. E uma gripe suína, que não fica por menos de sete mil? Agora, se o senhor quer uma tuberculose, que é doença já meio fora de moda, podemos fazer por quinhentos reais. Lepra também é barato: sai por duzentos. Mas se pretender quem sabe um ataque cardíaco, aí não podemos fazer por menos de 50 mil. E sem parcelamento. 

Diante de tão custosas doenças o homem arriscou: − E se eu me apresentar como cobaia? Posso ganhar minhas doenças gratuitamente? 

− Pode sim e até será pago para isso.

− É mesmo? – ele sorriu. – Quanto eu ganho para adoecer? 

Ela o alegrou ainda mais: − Milhões, milhões, milhões. Afinal, está colaborando com o progresso da ciência. 

−E o que faço para ser aceito como cobaia?

− Muito simples – ela garantiu: − Matricule-se no nosso Curso Oficial de Cobaias Autênticas. A mensalidade está fixada em cinco mil reais. Fazendo o curso de cobaia estará apto a ter doenças grátis e ganhar milhões mensalmente. Sim: o curso dura dez anos.

− Dez anos?

− Dez anos. É pegar ou largar essa oportunidade de ouro. 

− Não, não. Não tenho tanto dinheiro. Vou embora sem adoecer.

A mulher o agarrou: −Então compre pelo menos nosso plano de acidentes e desastres. Pagando apenas quatro mil por mês você e sua família estarão aptos a sofrer todo tipo de abalroamentos, viradas, incêndios e desabamentos e, claro, atropelamentos. Não quer? Sofrendo tais lamentáveis acontecimentos terão cobertura total do nosso plano, não é ótimo?

− Não, não – ele se desvencilhava da mulher: − Soube que o governo está promovendo uma liquidação de vacinas vencidas e remédios falsificados. Vou tomar uma para ver se faz efeito...

domingo, 10 de novembro de 2013

Uma história de fantasmaS



“Desculpe; não sabia que você tinha morrido”
Ontem encontrei com um amigo meu que havia morrido anteontem. Cumprimentou-me e agradeceu por eu haver comparecido a seu velório: “É nessas horas que a gente conhece um amigo”, afirmou em lágrimas. Respondi: “Que é isso, meu caro? Jamais deixaria de ir a seu enterro”, e o abracei.
 
https://www.google.com.br/search?q=mortos&client=firefox-a&hs=Whu&rls=org.
Ele agradeceu e seguiu em frente. Por puro instinto de repórter eu o segui. Mais adiante ele encontrou outro amigo. Meio sem jeito o cara disse: “Rapaz, desculpe: não pude comparecer a seu velório. Não deu, sabe? Precisava tomar uns uísques com Martins. Sabe Martins? Aquele que é representante de laboratórios, coisa de remédios, receitas, essas coisas? Ele me chamou para beber e não tive como recusar.”

O falecido respondeu: “Problema não, cara. O importante é que você ficou bêbado. Você ficou bêbado?”

O outro respondeu: “Claro. Fiquei bêbado. Bebíssimo! E até ergui um brinde a você. Isso não é importante?: levantar um brinde ao amigo que partiu?”

“Claro”, respondeu o falecido. “É nessas horas que a gente conhece quem nos quer bem.”

E o falecido continuou. A cada esquina encontrava quem não tinha ido a seu velório. As desculpas eram sempre as mesmas: tinha havido algo importante, sumamente importante, que havia impedido o comparecimento à cerimônia fúnebre.  O morto, serenamente, agradecia e dizia compreender: tinha problema não.

E seguiu adiante. Passou-se o tempo e sempre todos diziam que fora impossível comparecer à cerimônia, chorar, consolar a viúva. Na verdade não apenas passou-se o tempo: passaram-se anos. Anos, anos e anos. Até que enfim eu morri: quase ninguém esteve no meu velório. Fui levado ao túmulo. E, pelo menos os poucos que compareceram, tocaram numa velha vitrola de LP uma de minhas músicas favoritas: Paint it black. Que, você sabe, é dos Rolling Stones, não é mesmo?

Dia seguinte saí, do mesmo modo que o meu amigo morto, a caminhar pelas ruas. Em cada esquina havia sempre alguém a se desculpar e apresentar desculpas. Como ele, perdoei a todos e compreendi os seus motivos: um não tinha ido porque estava de férias; outro, porque tinha uma festa; mais um porque estava feliz demais para viver aquele momento de dor; e aqueloutro porquê, sei lá porquê...

Admitindo as limitações da natureza humana respeitei os motivos de cada um. Mas, no íntimo, sentia o desapreço, o esquecimento, o fora. Continuei a caminhar. Então, nos arrabaldes da cidade, encontrei meu amigo. Aquele que, no começo desta história, já havia morrido. 

Lembrei que ele também não havia comparecido a meu enterro. Olhei fixamente em seu olhar e perguntei: “Mas, até você? Até você? Você, que sabe o que é ser desprezado, esquecido, lastimavelmente esquecido? Você, que já morreu e foi miseravelmente abandonado? Você, que foi amigo, que emprestou dinheiro que nunca recebeu? Você, que foi solidário, protetor, corajoso, defensor de quem estava na cadeia por ser comunista nos tempos do golpe de 64? Não dá para entender... Eu sou desse tempo, e fui a seu enterro. Por que você não foi ao meu?”

Ele, olhando para o chão, disse: “Desculpe, estou morto. Quando a gente morre as coisas mudam. Eu tinha mais o que fazer...”

Eu disse: “Não dá para desculpar.”

E ele: “Dá sim. Você é que não entendeu: quando nascemos já estamos mortos. Apenas não percebemos.”

Nesse momento compreendi tudo, a efemeridade da vida, a vanidade do instante. Fui dominado por uma alegria escura e pesada. Peguei o cara pelo ombro e disse: “Tá oquei, bicho. Tá tudo certo. Vamos tomar uma cerveja. Vamos comemorar o que somos.”

Entramos num bar. Bebemos. Não pagamos a conta e saímos pela porta dos fundos. Éramos dois fantasmas. Não devíamos nada a ninguém e e fomos embora.


sábado, 9 de novembro de 2013

A astúcia do político corrupto

O  corrupto ficou livre e o doente ficou preso

https://www.google.com.br/search?q=pol%C3%ADticos&client=firefox
Político Corrupto havia sido preso. Após muitas falcatruas, descaminhos, tramas, tenebrosas transações não houvera mais como seus, digamos, pares, salvá-lo. E como os demais não queriam expor-se em ligações perigosas, meteram-no na cadeia. Alívio. Agora, poderiam trabalhar nas sombras, a salvo da presença malquista do companheiro em desgraça.

Mas, Político Corrupto não perdeu tempo. Após uns poucos meses reuniu a imprensa para anunciar: contrito, havia descoberto os valores morais a que antes não atentara e agora destinaria sua vida ao próximo. E detalhou: quem precisasse de doação de órgãos, ou mesmo partes do seu corpo, como pernas, braços, mãos, etc, poderia fazer contato, que ele os cederia de bom grado.

Acontece que um senhor idoso, homem honrado, mas de saúde debilitada desde a juventude, estava precisando, e muito, de doações. A cada dia seus médicos descobriam uma nova enfermidade que requeria transplante.

Político Corrupto sabia disso de antemão e era nele, naquele pobre sofredor, que focara seus projetos. Primeiro doou uma perna pedindo em retribuição que a perna doente lhe fosse implantada: queria martirizar-se, dizia, sentindo as dores e tudo de ruim que o outro havia sentido. Era uma forma de purgar seus pecados morais e cívicos. Foi atendido.

Depois, mandou a outra perna e recebeu nova perna doente. Mandou as mãos, os braços e o tronco. E assim sucessivamente. Somente faltava a cabeça. Então, os médicos descobriram que seu doente estava em vias de ter um derrame e Político Corrupto aceitou o sacrifício final: mandaria a própria cabeça para livrar a pobre criatura da moléstia.

Assim foi feito. Como você já deve percebido, Político Corrupto literalmente se transportou, conseguindo sair da cadeia. E como todo o seu corpo fora doado, não fora uma fuga e assim ele poderia iniciar vida nova, quer dizer, voltar à boa vida velha.

Foi o que fez. Como era período eleitoral comprou todos os votos que pôde, elegeu-se com votação recorde e foi recebido com gritos e fanfarra. Quanto ao velhinho doente, acordou numa cela e, depois, morreu.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Cuidado, ha perigo na esquina



Uma estranha realidade
Ao sair ontem de minha tipografia, mais de dez da noite, não supunha o que me aconteceria. Foi assim: caminhando pela rua mal iluminada pelos lampiões de gás, percebi que era seguido por um orangotango de má catadura. Nos últimos tempos era sempre assim: animais de todos os tipos nos assediavam, pediam esmolas, praticavam pequenos furtos, assaltavam, invadiam casas.
 
http://natgeotv.com/pt/eu-predador/galerias/animais-perigosos
Então, olhado para trás, notei que ele se aproximava rapidamente. Temendo pelo pior entrei num bar onde havia unicamente seres humanos. O orangotango, sentindo que estava em desvantagem, recuou, meteu-se na escuridão e sumiu. Comentei com uns homens a respeito e todos confirmaram: também sentiam-se perseguidos por bichos, como onças e antas, todos agressivos.

Um deles, aparentando ser o mais esperto de todos, disse que a presença dos bichos era decorrência da destruição das florestas pelo homem. Assim, bestas as mais variadas tinham vindo para a cidade, estabelecendo-se nos arredores e formando grandes povoados. 

 Agora, organizados em bandos, atacavam a todos os homens.
Saí do bar depois de uns quinze minutos. O macaco não estava perto. Eu temia que ele tivesse se escondido nas cercanias, numa espécie de gesto tático ou seja: fingira ter fugido, mas havia voltado para me pegar em momento oportuno. Mas, não: tinha mesmo ido embora.

Saí a caminhar e esperava chegar em casa o mais rápido possível. Após meia hora cheguei à casa e tive terrível surpresa: minha casa havia sido tomada por grande número de macacos, papagaios, quatis e um tigre. Entrei na sala e ali estava, sentado no sofá, um grande hipopótamo. Era o chefe do bando.

Perguntei-lhe o queria e ele: “Queremos apenas a sua casa. Somos animais sem teto. E saia logo daqui, por favor.”

Respondi que não iria deixar meu lar nas mãos ou melhor nas patas de tão temíveis invasores. Ouvindo isso ele gritou uma ordem e fui dominado por um gorila, que atirou-me ao meio da rua. Tentei voltar, mas fui expulso novamente, agora com grande violência. 

Uma onça perseguiu-me e corri o mais rápido que podia, até chegar a um bairro distante, um arrabalde. Ali encontrei uma multidão de humanos, todos também despejados de suas casas. E mais: a cada momento outros e outros seres humanos chegavam ao bairro, todos também atirados de suas moradias.

Ficamos a noite inteira ao relento, pois as casas haviam sido destruídas pelos animais. Dia seguinte reunimo-nos e resolvemos atacar os bichos e recuperar nossas habitações. Marchamos todos unidos, mas fomos recebidos pela tropa de choque dos bichos e dissolvida nossa manifestação a golpes de cassetete. 

Recuamos para nosso bairro periférico e passamos a morar em choupanas. Desde então temos tramado planos para voltar às nossas casas. Mas, sempre que intentamos uma surtida, somos repelidos pela polícia dos bichos. Não sei mais o que fazer: temo que doravante e humanidade tenha que correr para as florestas e ali tentar sobreviver.

Mas logo alguém me advertiu: não há mais florestas. Nós acabamos com todas, lembra? Entendi então que estamos perdidos: não temos mais casas ou matas. Diante disso, uma certeza: para sobreviver precisamos aprender a galopar.