quinta-feira, 12 de março de 2026

 Os sonhos foram a primeira

forma de cinema

Por Emanoel Barreto

 

Uma vez estava conversando comigo mesmo – gosto de falar comigo mesmo; afinal, preciso conversar com alguém em quem tenha total confiança. No meio da conversa eu e mim começamos a discorrer sobre cinema: chovia a cântaros, e, pela janela, observamos como estava bela a enevoada paisagem, apesar da poderosa e quase aterrorizante chuva. Da janela, vidros molhados, a vastidão campestre distorcida era espetáculo que lembrava uma pintura impressionista.

A tempestade envolvendo o campo poderia ser o cenário perfeito para um filme, dissemos. E então eu disse a mim, “sabia que a primeira forma do cinema foram os sonhos?”. Mim concordou imediatamente, começando por lembrar que aqueles, digamos, sonhos, devaneios, são histórias que surgem das brumas da mente e podem nos levar a momentos de maravilha, magia e encanto ou a abismos profundos, escondidos em nossa própria essência. “Somos nosso próprio terror no cinema embutido em nossas cabeças”.

“Do mesmo jeito que nos filmes de horror”, sugeri, e mim concordou, lembrando que às vezes temos sonhos que se repetem, sonhos que têm continuação, sonhos de que não nos lembramos. E mim disse a eu, “eu também. Veja como somos parecidos.”

Bons sonhos.

Os sonhos foram a primeira forma do cinema, estamos convictos, pois, da mesma forma que hoje o mundo se vale dos críticos dos festivais para divulgar o cinema – esse sonho das multidões –, os reis, os grandes, os  principais, os nobres e cortesãos se valiam de áugures, intérpretes de sonhos, e aqueles lhes atribuíam explicações, avaliações e justificativas para do onírico dizer se eram produções que prenunciavam terríveis acontecimentos futuros, ou auspiciosos momentos de festejos e pompa.

E hoje, em casa, temos também nossas superproduções quando adormecemos, da mesma forma que os potentados ou nossos mais distantes ancestres, reunidos à volta da fogueira, olhando a lua e contando dos terrores ou belezas que haviam visto ao dormir.

Eu e mim estamos certos de que, na verdade, vivemos imersos em sonhos, acordados ou dormindo: a ilusão da existência está desfocada e nos cerca de convicções que se revelam disformes e ambíguas; a realidade é uma mistura de manchas e labirintos, onde as verdades se esvaem.

E eu, mim e você caminhamos nos sonhos e no cinema e nos perdemos em tudo o que acreditamos, quando a realidade se desmancha em lufada de vento.

É tarde. Já vamos dormir. Achamos que caímos num desvão ilusivo e esse texto escapou de nossas mãos sem querer. Desculpe-nos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que show se texto. Assinado: Mim