Os sonhos foram a primeira
forma de cinema
Por Emanoel Barreto
Uma vez estava conversando comigo mesmo
– gosto de falar comigo mesmo; afinal, preciso conversar com alguém em quem tenha
total confiança. No meio da conversa eu e mim começamos a discorrer sobre
cinema: chovia a cântaros, e, pela janela, observamos como estava bela a enevoada
paisagem, apesar da poderosa e quase aterrorizante chuva. Da janela, vidros
molhados, a vastidão campestre distorcida era espetáculo que lembrava uma
pintura impressionista.
A tempestade envolvendo o campo
poderia ser o cenário perfeito para um filme, dissemos. E então eu disse a mim,
“sabia que a primeira forma do cinema foram os sonhos?”. Mim concordou imediatamente,
começando por lembrar que aqueles, digamos, sonhos, devaneios, são histórias
que surgem das brumas da mente e podem nos levar a momentos de maravilha, magia
e encanto ou a abismos profundos, escondidos em nossa própria essência. “Somos
nosso próprio terror no cinema embutido em nossas cabeças”.
“Do mesmo jeito que nos filmes de
horror”, sugeri, e mim concordou, lembrando que às vezes temos sonhos que se
repetem, sonhos que têm continuação, sonhos de que não nos lembramos. E mim disse
a eu, “eu também. Veja como somos parecidos.”
Bons sonhos.
Os sonhos foram a primeira forma
do cinema, estamos convictos, pois, da mesma forma que hoje o mundo se vale dos
críticos dos festivais para divulgar o cinema – esse sonho das multidões –, os
reis, os grandes, os principais, os nobres
e cortesãos se valiam de áugures, intérpretes de sonhos, e aqueles lhes atribuíam
explicações, avaliações e justificativas para do onírico dizer se eram
produções que prenunciavam terríveis acontecimentos futuros, ou auspiciosos
momentos de festejos e pompa.
E hoje, em casa, temos também nossas
superproduções quando adormecemos, da mesma forma que os potentados ou nossos
mais distantes ancestres, reunidos à volta da fogueira, olhando a lua e contando
dos terrores ou belezas que haviam visto ao dormir.
Eu e mim estamos certos de que,
na verdade, vivemos imersos em sonhos, acordados ou dormindo: a ilusão da existência
está desfocada e nos cerca de convicções que se revelam disformes e ambíguas; a
realidade é uma mistura de manchas e labirintos, onde as verdades se esvaem.
E eu, mim e você caminhamos nos sonhos
e no cinema e nos perdemos em tudo o que acreditamos, quando a realidade se desmancha
em lufada de vento.
É tarde. Já vamos dormir. Achamos
que caímos num desvão ilusivo e esse texto escapou de nossas mãos sem querer. Desculpe-nos.
Um comentário:
Que show se texto. Assinado: Mim
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