A mulher triste e
coisas de horror profundo
Por Emanoel Barreto
Estávamos nos anos 70. Era noite.
A sessão do cine Nordeste havia terminado. Entramos no carro minha mulher e eu.
Saí dirigindo como que sem destino. “Vamos
passear por aí”, disse – até que, não sei por que, tomei a direção da fortaleza
dos Reis Magos – a cidade já se embrulhando em seu sono, as ruas noturnas que não faziam
medo, o rádio tocando alguma coisa, o carro em velocidade baixa. Tudo ia bem.
Afinal chegamos ao forte. A praia
onde está plantado, completamente diferente de hoje, parecia ser algum ponto fora
de Natal, ainda meio selvagem e deserta àquela hora. Ao fundo a imponente
fortaleza e seus fantasmas portugueses, quem sabe esperando ataques de
indígenas ou de tropas de holandesas, num combate de velhas almas armadas de
arcabuzes barulhentos e canhões enferrujados.
A lua entrava como parte do cenário de algum filme noir. No mais,
silêncio.
O carro foi se aproximando de um
clube que havia por lá; a construção, às escuras, era como se fosse algo de há
muito abandonado. A única luz vinha da luminária de um poste onde divisei cena
que poderia muito bem compor o texto de um livro de realismo fantástico: bem perto
do poste havia um carrinho de cachorro-quente e refrigerante.
O vendedor era um senhor já
idoso, vestindo uniforme de uma empresa. O carrinho era de chamar a atenção:
nada desses feitos em casa: eram geringonças de flandre com duas rodonas de
bicicleta e pneus carecas; não, nada disso. O carrinho era pintado em vermelho,
demonstrava ser feito em material de primeira e, detalhe: nele havia, preso a
uma de suas laterais, um candeeiro daqueles que a gente acendia e ele reluzia
igual a uma lâmpada fluorescente. Caso fosse preciso a engenhosa coisa supriria
a escuridão.
Pregunta-se sobre aquela situação:
como aquele homem chegou àquelas lonjuras, superando a distância certamente existente
entre a empresa dona do carrinho e a areia da praia do Forte? Qual clientela
ele poderia esperar em naquele local ermo? Por que alguém faria tal
investimento? Por que um empresário pagaria a um funcionário para ficar ali, à
noite, num lugar deserto? Senti que vivia um instante torto, como se fosse alguém
caminhando no interior de uma paisagem
surrealista. Pacífica loucura. Momento diferenciado. Coisa esquisita sem ser
malfazeja.
Eu ainda estava sob os efeitos
daquela situação inusitada quando vi algo que rompeu o instante insolitamente onírico:
uma cena triste, tristíssima, cortou a esquisita beleza daquele momento em que
eu e minha mulher bebíamos Coca e comíamos cachorro-quente. Seguinte: ao fundo, divisei, caminhando pela areia, uma mulher que andava para lá e para cá, passos
tardos, cabeça baixa, afundada certamente em pensamentos terríveis e crivada de
sofrimentos de masmorra.
Fiquei paralisado e observei: ela
ia para um lado em linha reta, andava uns dez metros, virava e, logo após,
voltava, seguindo as pegadas que deixava na areia. Percebia-se seu sofrimento e
solidão. Emanava de si uma dor profunda e de sua alma espumava uma sincera
infelicidade, acompanhada de angústia confessional que demonstrava todo o seu
sofrimento.
Parecia estar vazia de tudo o que
significa estar vivo e, mais que isso, expunha estar despojada do que seja se
desejar viver. Havia ali um ser humano que se desfazia em sombras e silêncios
de catástrofe. Ela estava em momenmto de horror, perdida em seus próprios arrabaldes.
Desorientada de si. Alguém que queria se morrer. Um pedaço de nada. Algo ou alguém
havia destruído a mulher, arruinado a pessoa que habitava aquele corpo. Recusei-me a entendê-la
como coitada. Ela resplandecia de pungência. Assumira por completo a queda.
Fiquei parado um bom tempo
observando aquele tormentoso martírio até que não deu mais: parei de olhar a
cena desalentadora paguei a conta e saí, deixando para trás o velho, seu carrinho vermelho e aquela sereia devastada. O carro partiu para casa em
marcha lenta: ao dormir sonhei coisas de horror profundo.
2 comentários:
Que cena triste você presenciou.
Essa crônica me fez mergulhar nas cenas relatadas e nas situações que motivaram esses fatos.
Gostei muito do estilo e realismo que me levaram a várias imaginações
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