segunda-feira, 9 de março de 2026

 A mulher triste e

coisas de horror profundo

Por Emanoel Barreto

 

Estávamos nos anos 70. Era noite. A sessão do cine Nordeste havia terminado. Entramos no carro minha mulher e eu. Saí dirigindo como que sem destino.  “Vamos passear por aí”, disse – até que, não sei por que, tomei a direção da fortaleza dos Reis Magos – a cidade já se embrulhando em seu sono, as ruas noturnas que não faziam medo, o rádio tocando alguma coisa, o carro em velocidade baixa. Tudo ia bem.

Afinal chegamos ao forte. A praia onde está plantado, completamente diferente de hoje, parecia ser algum ponto fora de Natal, ainda meio selvagem e deserta àquela hora. Ao fundo a imponente fortaleza e seus fantasmas portugueses, quem sabe esperando ataques de indígenas ou de tropas de holandesas, num combate de velhas almas armadas de arcabuzes barulhentos e canhões enferrujados.  A lua entrava como parte do cenário de algum filme noir. No mais, silêncio.

O carro foi se aproximando de um clube que havia por lá; a construção, às escuras, era como se fosse algo de há muito abandonado. A única luz vinha da luminária de um poste onde divisei cena que poderia muito bem compor o texto de um livro de realismo fantástico: bem perto do poste havia um carrinho de cachorro-quente e refrigerante.

O vendedor era um senhor já idoso, vestindo uniforme de uma empresa. O carrinho era de chamar a atenção: nada desses feitos em casa: eram geringonças de flandre com duas rodonas de bicicleta e pneus carecas; não, nada disso. O carrinho era pintado em vermelho, demonstrava ser feito em material de primeira e, detalhe: nele havia, preso a uma de suas laterais, um candeeiro daqueles que a gente acendia e ele reluzia igual a uma lâmpada fluorescente. Caso fosse preciso a engenhosa coisa supriria a escuridão.

Pregunta-se sobre aquela situação: como aquele homem chegou àquelas lonjuras, superando a distância certamente existente entre a empresa dona do carrinho e a areia da praia do Forte? Qual clientela ele poderia esperar em naquele local ermo? Por que alguém faria tal investimento? Por que um empresário pagaria a um funcionário para ficar ali, à noite, num lugar deserto? Senti que vivia um instante torto, como se fosse alguém caminhando no  interior de uma paisagem surrealista. Pacífica loucura. Momento diferenciado. Coisa esquisita sem ser malfazeja.

Eu ainda estava sob os efeitos daquela situação inusitada quando vi algo que rompeu o instante insolitamente onírico: uma cena triste, tristíssima, cortou a esquisita beleza daquele momento em que eu e minha mulher bebíamos Coca e comíamos cachorro-quente. Seguinte: ao fundo, divisei, caminhando pela areia, uma mulher que andava para lá e para cá, passos tardos, cabeça baixa, afundada certamente em pensamentos terríveis e crivada de sofrimentos de masmorra.

Fiquei paralisado e observei: ela ia para um lado em linha reta, andava uns dez metros, virava e, logo após, voltava, seguindo as pegadas que deixava na areia. Percebia-se seu sofrimento e solidão. Emanava de si uma dor profunda e de sua alma espumava uma sincera infelicidade, acompanhada de angústia confessional que demonstrava todo o seu sofrimento.

Parecia estar vazia de tudo o que significa estar vivo e, mais que isso, expunha estar despojada do que seja se desejar viver. Havia ali um ser humano que se desfazia em sombras e silêncios de catástrofe. Ela estava em momenmto de horror, perdida em seus próprios arrabaldes. Desorientada de si. Alguém que queria se morrer. Um pedaço de nada. Algo ou alguém havia destruído a mulher, arruinado a pessoa que habitava aquele corpo. Recusei-me a entendê-la como coitada. Ela resplandecia de pungência. Assumira por completo a queda.

Fiquei parado um bom tempo observando aquele tormentoso martírio até que não deu mais: parei de olhar a cena desalentadora paguei a conta e saí, deixando para trás o velho, seu carrinho vermelho e aquela sereia devastada. O carro partiu para casa em marcha lenta: ao dormir sonhei coisas de horror profundo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Que cena triste você presenciou.

Anônimo disse...

Essa crônica me fez mergulhar nas cenas relatadas e nas situações que motivaram esses fatos.
Gostei muito do estilo e realismo que me levaram a várias imaginações