quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Terror no RN: a bandidagem é quem manda



Vivemos o pandemônio, ou seja: o pandeiro do demônio

Dia 14 de janeiro publiquei neste blog texto em que satirizava a situação de descalabro e de medo no Rio Grande do Norte, entregue à própria sorte no que diz respeito à segurança pública. O texto – que segue abaixo – de alguma forma antecipava o quadro de terror hoje instalado.

Os bandidos conseguiram paralisar o transporte público, apavorar as pessoas, causar grandes danos e já causam abalos econômicos. A lentidão da resposta das autoridades é alarmante. 

O uso de forças do Exército, adstrito a uma chocante burocracia, demonstra o quanto o Estado, aqui em compreensão mais larga, Estado como ente além e acima da designação de ente federado. O Estado, enquanto instituição formuladora de ações e decisões administrativas profundas, ações de caráter nacional, tem-se mantido letárgico, lento, quase omisso. 

Os bandidos fazem de tudo ou quase tudo e o Exército não chega, é o que quero dizer.

Entendo que as ações dos criminosos são terrorismo, mesmo que lhes faltem componentes ideológicos mais profundos, semelhantes aos dos grupos terroristas típicos, ou seja: atos de violência originados e sob a tutela de uma ideologia que se alega política, libertária e, portanto, contra-hegemônica.

Na verdade, os criminosos que agem no RN apenas se diferenciam do terrorismo ortodoxo, digamos assim, por dois fatores: o primeiro já foi mencionado: eles não almejam o poder político pela violência; o segundo diz respeito ao fato de que não atacam – pelo menos não por enquanto – pessoas inocentes, antes depredam patrimônio público ou privado. 

Mas tais circunstâncias não elidem o fato de que, sim, a sociedade está aterrorizada. Especialmente porque não se vê polícia na rua e isso passa a sensação de desamparo, ampliando a possibilidade dos atos de terror.

É preciso, porém, admitir: o trabalho de inteligência da polícia tem funcionado. Tanto, que bandidos que lideram as ações têm sido capturados.
O que se espera é que a segurança pública consiga debelar essa crise, mantenha o trabalho de instalação de aparelhos que bloqueiem os celulares nas penitenciárias e garanta ao cidadão o direito de viver em paz. 

Mas não confio que a Polícia Militar do Rio Grande do Norte aprenda com a lição e passe a agir como dela se espera: desenvolvendo enérgicas ações tático-estratégicas, ações diuturnas com resultados preventivo-repressivos à altura do que a situação cotidiana está a exigir. 

PS: segue abaixo a crônica mencionada no início deste texto.
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Sindicato dos Ladrões, Arrombadores,
Assaltantes e Similares-Silada/RN


NOTA OFICIAL

A entidade supramencionada vem a público convocar tal e operosa categoria para que empreenda esforços a fim de implantar no Rio Grande do Norte um regime de terror e dominação em 2016. 

Sabedores de que a Polícia Militar não dispõe de tropas, recursos ou número suficiente de viaturas para nos enfrentar, envidaremos esforços para que todos os nossos associados possam usufruir de tal estado de coisas com total liberdade e desenvoltura. 

As explosões de cofres em bancos em Natal e interior do estado são o comprovante exato do que acima afirmamos. Assim, bravos companheiros, não temamos: vamos agir com vigor e força a fim de assegurar a todos e a cada um de nós o que é de direito: assaltar, arrombar, roubar e agir sem temor já que a PM não tem condições, como supramencionado, de nos enfrentar. 

É imperioso notar que a falta de vigilância é indício fortíssimo de que especialmente Natal não dispõe de um sistema de ronda digno desse nome.
Assim, temos literalmente a obrigação de, como profissionais competentes e respeitáveis no mundo do crime, trabalhar para garantir nosso bom nome perante os demais membros de nossa comunidade, seja nacional ou internacionalmente. Sejamos, portanto, literalmente bons ladrões. 

O bom ladrão não descansa. O bom ladrão agride sempre; o bom ladrão não perde oportunidade seja domingo, feriado ou dia santo; o bom ladrão é atrevido; o bom ladrão, se preciso, mata. O bom ladrão, em suma, não está nem aí: faz e acontece. 

Assim sendo, colocamo-nos à disposição de todos os companheiros: que andam sempre bem armados e botem pra quebrar.
                                    
                                     A DIRETORIA


sábado, 25 de junho de 2016

Silêncio, vou matá-lo agora...

"Rio Grande do Norte,
rio grande da morte,
rio grande sem sorte."

(De um poema de Bosco Lopes in memoriam )
http://www.madworks.es/2012/09/botellas-veneno-madworks.html

Simplício sempre sempre fora assim: assíduo, trabalhador, correto; desempenho sem qualquer genialidade mas eficaz. Tudo na medida. E o reconhecimento pelo seu trabalho era, no máximo, um sorriso de satisfação do chefe, melhor dizendo, do dono da loja. Até que um dia Simplício descobriu: estava com câncer.

“Seu Simplício, vou ser muito sincero”, disse o médico, “o senhor tem, no máximo, seis meses de vida.” Ele encarou o doutor com seus olhos castanhos, deu uma tragada forte no cigarro sem filtro e somente disse: “Está bem.”

Saiu do consultório e um pensamento aliviado o acudiu: Seu Ascânio, o patrão, não iria lhe falhar naquele momento difícil. Afinal, nunca havia pedido nada e agora era chegado o momento. Nada disse à mulher, esperou passar uma semana, tomou coragem e falou com Ascânio. O homem, de vista baixa estava de vista baixa ficou, traçando rabiscos numa folha de papel.

Simplício, de pé, petrificado, esperava a resposta, como quem espera uma sentença: seria possível que, após sua morte, o patrão providenciasse a Dona Santa, a viúva (o casal não tinha filhos), o pagamento de uma espécie de pensão, uma ajuda, já que a Previdência iria pagar a ela uma miséria?

Ascânio esperou um minuto, pensou e disse, enquanto amassava o papel e o jogava no cesto: “Não, Simplício, não. As coisas não vão bem e..”, quando foi interrompido por Simplício: “Mas seu Ascânio, e esses anos todos, eu aqui, minha fidelidade ao negócio, minha vontade de ajudar... isso não vale nada? Não merece reconhecimento?”

O homem respondeu: “E já foi reconhecido. Você não tinha um salário mensal? Esse foi seu reconhecimento.” Simplício não retrucou e retirou-se, voltando a seus afazeres. Ressentido, trancou-se em sua dor. Enquanto isso tramava uma vingança: sabia que Seu Ascânio era diabético e muito descuidado com a saúde; sabia também que ele tinha o costume de guardar cheques em branco e assinados, sabe-se lá por quê.

Então, Simplício só precisava ajustar essas duas coisas no momento apropriado para garantir a sobrevivência de Santa: envenenar o patrão e apoderar-se de um cheque. 

Sentia que a doença o corroía por dentro e precisava agir rápido. Então, aconteceu: num sábado foi para casa e, pouco depois, Ascânio telefonou pedindo que ele voltasse à loja e ficasse em sua companhia para revisar umas tabelas de preços. Sentiu que estava ali sua chance e voltou correndo.

Ascânio tomava muito café, fumava muito e estava com as taxas elevadíssimas. Foi suficiente substituir o adoçante por açúcar às quatro da tarde e pouco depois ouvir o baque do corpo. Como ninguém sabia que ele estivera com o patrão, foi ao talonário de cheques preencheu um com a quantia de 60 milhões de reais. Pôs o cheque no bolso, fechou a loja e saiu quando a noite caía. Na segunda-feira o corpo foi encontrado e todos lamentavam a morte de Ascânio.

Simplício foi a um cartório onde depositou o cheque dizendo que, após a sua morte, o envelope onde este se encontrava deveria ser entregue a Dona Santa.  Simplício morreu quatro meses depois. Emocionada, a pobre recebeu o cheque que lhe garantiria o resto de vida. E foi chorando que murmurou: “Meu Deus, como era bom o patrão do meu marido.”

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Mercado quer parar a Lava Jato



Empresários safados,
políticos ladrões

Vi nas folhas que setores do mercado estão “preocupados” com a demora da Operação Lava Jato. Segundo diziam as notícias os elementos que assim haviam se pronunciado estavam “preocupados” com a “retomada do crescimento” do país. 
 

Em outras palavras: a Lava Jato seria fator de retardo do tal desenvolvimento, pois investidores internacionais estariam temerosos da “insegurança” aqui reinante e assim refugam em  aplicar seu rico dinheirinho, o mesmo se dizendo dos capitalistas indígenas. Por isso deveria a Lava Jato  ser encerrada imediatamente. 

Mas, temo, as verdadeiras intenções do tal mercado seriam as seguintes: “É bom pará, ó! Os caras querem voltar a ganhar money na mutreta e a gente não aguenta mais esse negó de empresário rico metido na gaiola. Pó pará! Pó pará!”

É isso, o mercado quer que a Lava Jato chegue ao fim porque veio perturbar os sonhos, projetos e propósitos; mais que isso, veio atrapalhar as perpetrações dos criminosos de colarinho branco. E perpetração é algo essencial a um certo tipo de empresário. Perpetrar é preciso, o povo não é preciso.

Mais: sobre o assunto corrupção cumpre acrescentar detalhe de importância jornalística: a grande imprensa, pelos seus diversos segmentos, dá grande destaque aos criminosos que ocupam cargos públicos; há saliência e ênfase ou seja: destaca-se o assunto (saliência) e dá-se sustentação ao noticiário a respeito (ênfase), mantendo-se bandidos como Cerveró ou Delcídio na berlinda das maldições e descompostura social. 

Acho justíssimo. Por mim tais elementos, que eram agentes públicos, pegariam prisão perpétua em cárcere comum junto a traficantes, estupradores e assaltantes. Comeriam a mesma comida, dormiriam no mesmo chão.

Mas também acharia justíssimo o desenvolvimento de um jornalismo voltado para explicitar de forma aprofundada a ação de Odebrecht, por exemplo. Melhor dizendo: acharia justíssimo que se fizesse jornalismo interpretativo e investigativo, deixando às claras o quanto as grandes empresas privadas já surrupiaram do povo brasileiro. 

Do jeito que as coisas são apresentadas tem-se a impressão de que o bandido público é o único culpado, ficando o empresário assaltante meio em segundo plano, quando, na verdade é tão culpado quanto o agente público que atuou na falcatrua. 

Ou seja: é preciso mostrar que entre o grande empresariado corruptor desenvolveu-se a cultura desse tipo de furto luxuoso, que existia em maio a proverbial impunidade. É preciso contar como isso vinha funcionando, como contaminava as relações entre o público e o privado e, acima de tudo, como retirava dinheiro que deveria ser aplicado em favor dos mais pobres.  

Por isso é importante que a Lava Jato não tenha prazo para terminar e incrimine, prenda e apresente ao país os perigosíssimos criminosos que o espoliam. 

É preciso intimidar funcionários públicos corruptos e políticos safados, bem como deixar avisados aos grandes empresários corruptores que eles não estão acima da lei. O barulhinho das algemas precisa assombrar o sono desses meliantes. 
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Ilustração: https://www.google.com.br/search?q=empresarios+ladr%C3%B5es&client=firefox-b&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwiVmuOy4cDNAhWHTZAKHd-QDSsQ_AUICCgB&biw=2144&bih=1030&dpr=0.9#imgrc=3yP-404XsIfeUM%3A

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Novos estudos brasilianos fazem grandes revelações



Nova História do Brasil -- 
Baseada em fatos reais -- (PARTE 1)

Caros Amigos, 
http://www.irdeb.ba.gov.br/multicultura/?p=10821
Era uma vez uma terra que um dia viria a ser chamada de Brasil. Os índios viviam lá mas como não sabiam que ali seria o Brasil, nada de mal acontecia. As florestas eram enormes, eles nem desconfiavam o que era poluição, não havia deputado, senador, presidente. Nem ao menos um vereadorzinho existia. E nada de mal acontecia.

Não havia fábricas fumacentas, salário mínimo, escolas sem funcionar, traficantes, assaltantes, empresários corruptos, juízes mancomunados com bandidos ou funcionários públicos bocejantes e safados. E, claro, nada de mal acontecia.

Não havia televisão berrando o dia todo que é preciso comprar celular, que celular é a coisa mais importante do mundo; não havia devastação das florestas, nem água com nitrato, nem meninas se prostituindo no calçadão.

Não havia sequestros, desvios de verbas públicas, operações espetaculares da polícia federal, caixa-dois, campanhas políticas, partidos, ONGs criminosas, sabidões sempre à espreita. E nada de mal acontecia.

Quando foi um dia, chegaram uns portugueses e disseram aos índios: "Índios, aqui é o Brasil."

Os índios ficaram assim, e disseram: "Não aqui não é Brasil. Aqui não é nada. É só terra da gente."

Os portugueses consultaram suas cartas náuticas, conferenciaram entre si e, após dias e dias de confabulações, chegaram à conclusão: aquilo era mesmo o Brasil, a única coisa que estava errada eram os índios. Os índios estavam errados porque não entendiam o sentido histórico de "Brasil".

"Vamos mudar esses índios", pensaram. "Mudando-se os índios, seja de seu lugar de morada, seja mudando suas cabeças, aí sim, começa o Brasil. O Brasil é um estado de espírito, entenderam?", disse o chefe dos portugueses, Pedro Álvares Cabral, com um sorrisinho infame e torcendo as mãos enquanto maquinava.

Cabral mandou contratou um terrorista chamado Diogo Álvares Corrreia, o Caramuru, para intimidar os índios. Caramuru percebeu que eles não tinham armas de fogo e disse: "Mim ser grande diabo. Mim saber dominar trovão. Mim ser dono do trovão. Mim ser diabo do fogo."

Os índios disseram: "Não, nós não acredita." Caramuru, então, bateu mão de um trabuco e atirou. A explosão apavorou os índios e eles foram dominados facilmente. Os selvagens correram, esconderam-se nas matas e Cabral começou a destruir florestas e a plantar cidades.

Ele parecia um louco. Onde seus grandes bulldozers chegavam já sabia: começava uma cidade; os índios fugiam, as índias se prostituíam, os meninos pegavam gripe. Morriam que era uma beleza. Sim, e os índios ainda aprendiam a beber cachaça. Até cair pra trás.

E assim, ao longo do tempo as coisas se passaram, até que um dia Cabral virou-se para o que restou de índios e disse: "Índios, isso agora é o Brasil, entenderam? Entenderam o que quer dizer Brasil? Vejam só a maravilha que é o Rio de Janeiro..., vejam o que é Brasília; nosso senado, a câmara dos deputados, o grande exemplo dos nossos políticos..."

Cabral insistia: E agora, já sabem o que Brasil?" Os poucos índios que sobraram responderam que sim, que agora sabiam o que era o Brasil. Estavam conscientizados e até já tinham formado quadrilha. E da pesada: assalto, tráfico e sequestro, mantinham contatos com autoridades corruptas e todo o mais. E aí um deles, virando-se para Cabral e portando um AK-47, disse: "Seguintche: vai levar o pó, ou não, ó Mané?" 

Cabral chorou de emoção: e viu que sua obra estava completa. E levou o pó.