Mostrando postagens com marcador feras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador feras. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de novembro de 2016

Uma crônica sonhada, real fantasia

Uma aventura em África: a mulher e seu elefante

Já disse neste coranto que tenho um avião, um biplano da Primeira Guerra Mundial. Preciosa máquina, ágil como uma garça em voo, tornou-se um grande parceiro que comigo compartilha momentos, horas, vida. Como moro em Natal e a cidade é o ponto mais próximo da África, e como tenho longeva admiração por aquele continente, costumo atirar-me até lá em voos que a licença poética me permite dizer que  duram meia hora, meia hora de alegria sobre mar reluzente.
http://www.google.com.br/search?q=mulher%20africana&oe=utf-8&rls=org.mozilla


Então, na travessia, vejo transatlânticos pesados, lerdos como arcas, passando ao lado de embarcações pequenas e corajosas. Observo grandes sombras afundadas se deslocando em meio a mar mítico e assombroso em sua plenitude de água. Imagino que sejam grandes monstros, os monstros que habitavam os mares tenebrosos, tão temidos pelos antigos navegantes.


Chegando à África passo a costear o continente. Grande, largo, misterioso, habitado por fauna primeva e basal, paraíso bruto, aquele mundo sempre me atraiu. Voando baixo, costeio suas bordas. Ali estão pessoas, pescadores chegando da luta, e, lá adiante, depois de muito voar, chego a praias desérticas, ausentes da presença humana, mas habitadas vez por outra por animais que estranhamente ali se chegam.


Elefantes e leões, por mais paradoxal que possa parecer, caminham aquelas paragens vazias de homens. Devo dizer que, de tanto viajar à África, de viajar a África, desenvolvi notável perícia em aterrissar em terreno tão difícil e hostil. Jamais enterrei as rodas na areia. Se isso acontecesse haveria desastre brutal e, em caso de fugir ao ataque de feras, jamais o conseguiria.


Ontem, quando por lá estive, parei numa praia bela, bela de uma beleza grande, agressiva e árida, intensa e desafiadora. Estava eu na companhia abençoada de um maço de cigarros e de uma garrafa de Bourbon, aquela sagrada bebida do Kentucky. Amparado do sol por um coqueiro de sombra bondosa e balouçante, fiquei a admirar a paisagem em que estava imerso.


De repente, saindo das verdejantes brenhas sai um elefante. Imponente ser vivo, grandioso e forte. Presas do mais puro marfim. A segui-lo, minutos após, uma núbia. Mulher de grande porte, seios opulentos, ancas suntuosas, coxas de Salomé, delicioso vértice fêmeo. Caminhou atrás do portentoso animal e gritou-lhe algo, uma ordem, coisa assim. Tão logo ouviu o grito primal o bicho ergueu-se nas patas traseiras e barriu poderosamente. Escultura imensa recortada contra o céu.


Devo dizer que jamais vi cena igual: dois seres básicos, plenos de beleza bárbara e grandiosa, convivendo momento indescritível. Acho que até o sol parou para homenagear. Em seguida, num salto ágil e preciso, ela agarrou-se à orelha esquerda do animal e postou-se escanchada naquela besta formidável. 

Depois gritou nova ordem. O elefante apressou o passo, virou-se e entrou na floresta novamente. Corri para o meu avião, liguei o motor e sobrevoei aquela cena. Ela viu o avião que subia, fez um gesto ao elefante e ambos desapareceram para sempre da minha vista, encobertos pelas ramagens altas da floresta densa.