http://revolucionaria.files.wordpress.com/2009/02/corrupcao.jpg
A falência dos corruptos
Emanoel Barreto
A jornalista Marta Salomon, da Folha, registra na edição de hoje que o governo federal pretende fechar empresas flagradas em atos de corrupção. Diz a matéria:
Projeto de lei enviado ontem pelo presidente Lula ao Congresso para reprimir a corrupção contra a administração pública prevê multas de até R$ 6 milhões e o fechamento de empresas, em casos mais graves.
Caso o projeto seja aprovado como foi proposto pelo governo, pela primeira vez o patrimônio de empresas poderá ser atingido para ressarcir os prejuízos causados em fraudes de licitações, pagamento de propina a servidores públicos ou maquiagem de serviços e produtos vendidos ao governo.
No caso do fechamento da empresa, a punição dependerá de decisão da Justiça. Tratada no projeto como "dissolução compulsória", a medida poderá atingir empresas criadas para lavar dinheiro, por exemplo. A maior parte das punições poderá ser aplicada administrativamente, pelo próprio governo.
"Atualmente, a legislação prevê multas, mas os valores são muito baixos, não inibem a corrupção", observou o ministro Jorge Hage (Controladoria-Geral da União), que participou da elaboração do projeto. Segundo ele, hoje é "quase impossível", alcançar uma empresa flagrada em corrupção para recuperar o dano causado à administração pública.
Hoje, a punição mais pesada é a declaração de inidoneidade da empresa -o que bloqueia novos negócios com a administração pública. Foi o que aconteceu em 2007, por exemplo, com a construtora Gautama, flagrada pela Polícia Federal por fraude em licitação.
A CGU reúne, em cadastro disponível na internet, o nome de cerca de 1.400 empresas inidôneas ou que não podem celebrar contratos com a administração pública.
O projeto permitirá ao governo bloquear o acesso a incentivos fiscais ou a empréstimos em bancos oficiais a empresas flagradas em corrupção -além da cobrança de multas pesadas, que variam de 1% a 30% do patrimônio das empresas ou de R$ 6 mil a R$ 6 milhões. Os valores são semelhantes aos previstos em casos de formação de cartel ou práticas contrárias à concorrência.
Hage disse que a tarefa de flagrar empresas corruptas continuará difícil. "A corrupção não deixa gotas de sangue ou impressão digital. A identificação depende de todo um arsenal de inteligência da CGU, da PF e do Ministério Público, e de autorizações de escutas telefônicas e de quebra de sigilo, com todas as dificuldades que encontramos para isso no Judiciário."
O projeto de lei também é uma resposta a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em convenções contra a corrupção. A proposta que segue para o Congresso é semelhante à já adotada em países como Estados Unidos, Itália e, mais recentemente, Chile.
O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse que haverá empenho para que o projeto seja aprovado em ano eleitoral. "A maioria dos empresários e dos financiadores de campanha não quer corrupção", afirmou.
Relatório da Transparência Internacional divulgado no final do ano passado calcula que o pagamento de propinas movimente entre US$ 20 bilhões e US$ 40 bilhões por ano no mundo. Duas a cada cinco empresas entrevistadas afirmaram que os executivos foram convidados a pagar propina ao lidar com instituições públicas.
A Folha procurou a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base, mas a entidade não se manifestou até a conclusão desta edição.
......
Ao que parece, trata-se de sábia e já muito tardia decisão. A corrupção não é algo que existe por si. Ela é uma relação social, um estado de ânimo cultural instalado historicamente e que historicamente naturalizou-se. Ou seja: tornou-se "normal" esse tipo de comportamento, uma extensão do jeitinho brasileiro.
A corrupção é crime grave, sujo. É uma crime social, um crime que tem desdobramentos os mais laastimáveis porque desvia dinheiro que deveria ser aplicado em ações administrativas, destinando-o aos sumidouros escusos de empresas dirigidas por salteadores.
Como é dito na matéria, porque não deixa rastros de sangue, dá a impressão de ser menos terrível que aqueles que envolvem matança ou dores físicas. Mas, o que se atinge, na verdade, é o coração social, o corpo coletivo que sofre nas filas e nos hospitais mal equipados e com médicos desmotivados.
O dinheiro que sobra para os corruptos, falta a esses setores essenciais, onde se incluem segurança, educação, urbanismo e políticas públicas em geral. Espero como alvíssaras o anúncio das medidas contra os corruptos, cuja falência é urgente, cuja cultura do oportunismo e impunidade os tem mantido acima da lei.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
http://1.bp.blogspot.com/_ssoFPFjpFJs/SvBq78NrIvI/AAAAAAAAAtY/mvNB-yKOCkg/s320/Tio+Patinhas.jpg
É preciso controlar Tio Patinhas
Emanoel Barreto
O editorial a seguir é da Folha: O SISTEMA financeiro do Brasil sairá reforçado com a normatização dos rendimentos dos altos executivos de bancos proposta pelo governo na semana passada.
Seguindo compromisso firmado pelos países do G20 (grupo dos principais países ricos e emergentes), o Banco Central brasileiro colocou em audiência pública uma sugestão de regulamentação do ganho variável dos administradores de instituições -os bônus dos executivos- com o objetivo de desestimular a assunção de riscos excessivos.
O sentido básico da proposta é vincular os rendimentos dos gestores ao desempenho das instituições a médio e longo prazos.
É verdade que a medida responde mais a situações verificadas em bancos europeus e americanos do que em brasileiros. Como se sabe, apostas em práticas altamente arriscadas na busca de lucros estiveram na raiz da crise financeira que culminou com a falência do banco de investimentos americano Lehman Brothers, em 2008. Trata-se, entretanto, de mudança bem-vinda pelo seu caráter preventivo.
O aspecto positivo da proposta não deve obscurecer o fato de que o principal problema a ser enfrentado pela regulação bancária são os custos que o funcionamento do sistema financeiro impõe ao país. No Brasil, os níveis de spread -diferença entre o custo pago na captação de recursos e os juros cobrados nas operações de empréstimos- ainda estão entre os mais elevados do mundo, o que representa uma desvantagem competitiva para as empresas nacionais.
As autoridades encarregadas de supervisionar os bancos ainda estão devendo medidas mais decisivas de intensificação da concorrência, que possam contribuir para que o custo financeiro do investimento se aproxime dos padrões internacionais.
...
A necessária regulamentação dos bancos é medida urgente, a fim de por cobro à ação notoriamente maligna que essas instituições têm sobre o social. Exemplo recente e gritante foram ministrados pelos bancos americanos, cujos executivos, movidos pelo mais puro e louco desejo de lucrar a qualquer preço, resultou no terror financeiro que afinal atingiu a economia real e trouxe ao mundo momentos de incerteza - para colocar, digamos assim, a coisa, sem que eu recorra a palavras mais fortes.
Os banqueiros precisam ter sobre si a mão pesada do Estado, rastreando suas operações, detectanto seus intentos e suas tenebrosas transações. As consequências são a quebradeira dos setores produtivos, safando-se os banqueiros de pagar o preço por tudo o que fizeram.
Em suma, o que o Estado deseja é impedir a concupiscência financeira que habita a alma usurária dos banqueiros e os leva sempre a buscar nos trinta dinheiros do mercado mais e mais lucros, impondo à sociedade seu padrão negocial antiético e antissocial.
É que, no fundo, Tio Patinhas é, amigo, muito amigo dos Irmãos Metralha.
É preciso controlar Tio Patinhas
Emanoel Barreto
O editorial a seguir é da Folha: O SISTEMA financeiro do Brasil sairá reforçado com a normatização dos rendimentos dos altos executivos de bancos proposta pelo governo na semana passada.
Seguindo compromisso firmado pelos países do G20 (grupo dos principais países ricos e emergentes), o Banco Central brasileiro colocou em audiência pública uma sugestão de regulamentação do ganho variável dos administradores de instituições -os bônus dos executivos- com o objetivo de desestimular a assunção de riscos excessivos.
O sentido básico da proposta é vincular os rendimentos dos gestores ao desempenho das instituições a médio e longo prazos.
É verdade que a medida responde mais a situações verificadas em bancos europeus e americanos do que em brasileiros. Como se sabe, apostas em práticas altamente arriscadas na busca de lucros estiveram na raiz da crise financeira que culminou com a falência do banco de investimentos americano Lehman Brothers, em 2008. Trata-se, entretanto, de mudança bem-vinda pelo seu caráter preventivo.
O aspecto positivo da proposta não deve obscurecer o fato de que o principal problema a ser enfrentado pela regulação bancária são os custos que o funcionamento do sistema financeiro impõe ao país. No Brasil, os níveis de spread -diferença entre o custo pago na captação de recursos e os juros cobrados nas operações de empréstimos- ainda estão entre os mais elevados do mundo, o que representa uma desvantagem competitiva para as empresas nacionais.
As autoridades encarregadas de supervisionar os bancos ainda estão devendo medidas mais decisivas de intensificação da concorrência, que possam contribuir para que o custo financeiro do investimento se aproxime dos padrões internacionais.
...
A necessária regulamentação dos bancos é medida urgente, a fim de por cobro à ação notoriamente maligna que essas instituições têm sobre o social. Exemplo recente e gritante foram ministrados pelos bancos americanos, cujos executivos, movidos pelo mais puro e louco desejo de lucrar a qualquer preço, resultou no terror financeiro que afinal atingiu a economia real e trouxe ao mundo momentos de incerteza - para colocar, digamos assim, a coisa, sem que eu recorra a palavras mais fortes.
Os banqueiros precisam ter sobre si a mão pesada do Estado, rastreando suas operações, detectanto seus intentos e suas tenebrosas transações. As consequências são a quebradeira dos setores produtivos, safando-se os banqueiros de pagar o preço por tudo o que fizeram.
Em suma, o que o Estado deseja é impedir a concupiscência financeira que habita a alma usurária dos banqueiros e os leva sempre a buscar nos trinta dinheiros do mercado mais e mais lucros, impondo à sociedade seu padrão negocial antiético e antissocial.
É que, no fundo, Tio Patinhas é, amigo, muito amigo dos Irmãos Metralha.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
http://www.hobbymodelismo.com.br/fotos/will72.jpg
Não sei se já lhe contei, mas tenho um aeroplano. Um biplano, que uso costumeiramente para atavessar o Atlântico e chegar à costa da África onde, com habilidade e um pouco de esforço, muitas vezes medo e um laivo de irresponsabilidade, aterrisso na praia - apesar de ser aquele tipo de pista totalmente irrecomendável às pessoas de bom senso, o que não é o meu caso. Tanto, que faço tais e insólitas proezas. Desnecessárias, porém essenciais ao meu paradoxal pensamento aeronáutico.
Outras tantas, cruzo longitudinalmente o continente e atiro-me à costa mais oriental, chegando muitas vezes à Somália, país perigosíssimo, uma vez que ali praticamente inexiste essa instituição a que chamamos Estado e piratas e outros quejandos podem ser encontrados pelas praias, aprestados a apresar navios. Não poucas vezes tive que arremeter, ante a iminência de ataques de tais turbas.
Mas, quando fixo-me em praias ocidentais daquele belo e sofrido continente, tenho especial preferência por Angola ou Senegal. Aqui, um detalhe interessante de minha história: não poucas vezes tenho encontrado por lá aterrissado, meu amigo - jornalista, fotógrafo, leitor e humanista - Giovanni Sérgio, a quem chamo de José.
Poeta da imagem como poucos, solidário e portador de um tipo de cavalheirismo que hoje quase já não mais existe, ele também tem um aeroplano e navega os ares com perícia que às vezes chego - é forçoso admitir - a invejar. E ficamos ali, e nas praias podem surgir elefantes desgarrados, leões que lutam inutilmente contra as ondas e horrendos crocodilos marinhos, em visão terrível e chocantemente bela.
Certa vez nos apareceu um soba, na costa sul da Angola, e nos contou os segredos do mundo, esses segredos que somente podem ser encontrados nos mistérios das florestas. Era noite. E, após sabermos de todas e tão grandes sabenças, das quais a rigor não entendemos nada, nos atiramos a voar cada um por si, à luz do mar e ao som do céu profundo.
Um grande abraço, José.
Meu aeroplano, meu amigo Giovanni e os ensinamentos de um soba
Emanoel BarretoNão sei se já lhe contei, mas tenho um aeroplano. Um biplano, que uso costumeiramente para atavessar o Atlântico e chegar à costa da África onde, com habilidade e um pouco de esforço, muitas vezes medo e um laivo de irresponsabilidade, aterrisso na praia - apesar de ser aquele tipo de pista totalmente irrecomendável às pessoas de bom senso, o que não é o meu caso. Tanto, que faço tais e insólitas proezas. Desnecessárias, porém essenciais ao meu paradoxal pensamento aeronáutico.
Outras tantas, cruzo longitudinalmente o continente e atiro-me à costa mais oriental, chegando muitas vezes à Somália, país perigosíssimo, uma vez que ali praticamente inexiste essa instituição a que chamamos Estado e piratas e outros quejandos podem ser encontrados pelas praias, aprestados a apresar navios. Não poucas vezes tive que arremeter, ante a iminência de ataques de tais turbas.
Mas, quando fixo-me em praias ocidentais daquele belo e sofrido continente, tenho especial preferência por Angola ou Senegal. Aqui, um detalhe interessante de minha história: não poucas vezes tenho encontrado por lá aterrissado, meu amigo - jornalista, fotógrafo, leitor e humanista - Giovanni Sérgio, a quem chamo de José.
Poeta da imagem como poucos, solidário e portador de um tipo de cavalheirismo que hoje quase já não mais existe, ele também tem um aeroplano e navega os ares com perícia que às vezes chego - é forçoso admitir - a invejar. E ficamos ali, e nas praias podem surgir elefantes desgarrados, leões que lutam inutilmente contra as ondas e horrendos crocodilos marinhos, em visão terrível e chocantemente bela.
Certa vez nos apareceu um soba, na costa sul da Angola, e nos contou os segredos do mundo, esses segredos que somente podem ser encontrados nos mistérios das florestas. Era noite. E, após sabermos de todas e tão grandes sabenças, das quais a rigor não entendemos nada, nos atiramos a voar cada um por si, à luz do mar e ao som do céu profundo.
Um grande abraço, José.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Foto ilustrativa: Fernando Figueiredo - http://3.bp.blogspot.com/_3XKWZphabuA/SwwRwYybMSI/AAAAAAAABOw/M3TUuJ0hGV4/s1600/pedras+by+fernando+figueiredo.jpg
O louco e um punhado de palhaEmanoel Barreto
Vejo às vezes, na Avenida Roberto Freire, um louco a caminhar a esmo. Magro, alto, pele escura e curtida de sol, cabeça rapada com rigor, veste-se apenas com calção. Certa vez, quando parei o carro em meio ao trânsito congestionado, dedicava-se com atenção incomum a escavar junto a arbustos um buraco que somente ele saberia onde iria dar.
Hoje, em circunspecção tão só dele, recolhia de um monte de palha punhados daquele mato que, ciosamente, guadava em um saco plástico. Havia gravidade em seu gesto. Tinha, naquele trabalho ritual, comportamento magistral talvez somente comparável ao que se espera de alguém que componha excelso colegiado que estivesse a decidir os destinos do mundo.
Alheio, entretanto, às reuniões de tais colegiados, que nada têm de excelso, pois discutem coisas como fabricação de armas, devastação de enormes áreas florestais, planos para guerras, ganhos na bolsa e exploração dos desvalidos, ele estava distante do mundo, distante de todos nós.
Sim, digo, a quem lê este texto: acho que hoje encontrei aquele homem que Diógenes procurava com seu archote aceso ao meio dia. Acho que encontrei um justo. Plenamente inserido em seu mundo paralelo, buscava, num amontoado de palha, a razão de ser de sua existência.
Enquanto isso, o mundo, o nosso mundo, o mundo objetivo, segue também seu rumo: o de buscar, em outras palhas, o motivo para acabar com o próprio mundo.
Foi bom o seu dia?
Emanoel Barreto
A charge de Laerte, na Folha, encaminhou-me à pergunta que de alguma forma a fazemos todos os dias, mesmo que sem disso nos apercebamos: o que me reserva o dia de hoje? Creio que, inconscientemente, temos a vontade de que o dia nos seja bom, ou, pelo menos, pacífico, até mesmo monótono serve - pois antes a monotonia que atrapalharmos nossa vida com acontecimentos incomuns, desses que desestabilizam a cotidianidade previsível da sequência besta da vida, de manhã, tarde, noite: trânsito enlouquecido, doenças repentinas, notícias de devastações, etc..., etc..., etc...
Em outras palavras, a saudável preguiça de saber que tudo está no seu lugar e nada nos ameaça. Pois bem, meu dia de ontem foi abençoado com algo bondosamente inesperado. Fui agraciado com um rápido porém grandioso encontro com o jornalista Ubirajara Macedo, decano encanecido do nosso jornalismo, fulgurante na beleza humana dos seus 90 anos.
Sua figura branca iluminou meu dia e foi bom e ele anunciou-me para breve a publicação de sua biografia, um exemplo, sob a responsabilidade impecável do texto belo de Nelson Patriota. Ainda não tem data para o lançamento da obra, mas será breve, garantiu para minha alegria.
Hoje, o dia reservou-me a ideia de falar a respeito de Ubirajara, o que também foi bom. E agora ouço a Rádio Brasília, com coleante seção de jazz. Que bom, que bom que o dia, nos últimos dias, tem sido bondoso para este velho Barreto. Que venham outros e iguais dias.
Emanoel Barreto
A charge de Laerte, na Folha, encaminhou-me à pergunta que de alguma forma a fazemos todos os dias, mesmo que sem disso nos apercebamos: o que me reserva o dia de hoje? Creio que, inconscientemente, temos a vontade de que o dia nos seja bom, ou, pelo menos, pacífico, até mesmo monótono serve - pois antes a monotonia que atrapalharmos nossa vida com acontecimentos incomuns, desses que desestabilizam a cotidianidade previsível da sequência besta da vida, de manhã, tarde, noite: trânsito enlouquecido, doenças repentinas, notícias de devastações, etc..., etc..., etc...
Em outras palavras, a saudável preguiça de saber que tudo está no seu lugar e nada nos ameaça. Pois bem, meu dia de ontem foi abençoado com algo bondosamente inesperado. Fui agraciado com um rápido porém grandioso encontro com o jornalista Ubirajara Macedo, decano encanecido do nosso jornalismo, fulgurante na beleza humana dos seus 90 anos.
Sua figura branca iluminou meu dia e foi bom e ele anunciou-me para breve a publicação de sua biografia, um exemplo, sob a responsabilidade impecável do texto belo de Nelson Patriota. Ainda não tem data para o lançamento da obra, mas será breve, garantiu para minha alegria.
Hoje, o dia reservou-me a ideia de falar a respeito de Ubirajara, o que também foi bom. E agora ouço a Rádio Brasília, com coleante seção de jazz. Que bom, que bom que o dia, nos últimos dias, tem sido bondoso para este velho Barreto. Que venham outros e iguais dias.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
O mundo político e o grito de goooooooooooooooooooooool!
Emanoel Barreto
O viscoso mundo político - seus acertos, comissões, omissões deliberadas, acordos e prebendas - é um vasto lodaçal onde crocodilos da coisa pública dormitam ferozmente. A primeira vítima, que na verdade é sempre um e se chama povo, será abocanhada mesmo que não passe por perto.
O mundo político é feito de entendimentos vorazes, alianças tisnadas, nódoas que se escondem nos becos dos conchavos. Tudo é e tudo se permite. E a honradez é atiada aos arrabaldes da decência.
O mundo político tem por base as fidelidades de ocasião; e as juras da lealdade barganhada são negociadas numa bolsa de valores escancarada de vícios, que tem a commodity do voto a futuro cotada a peso de ouro. Longe, muito longe, o povo ouve esse tilintar, mas não sabe bem o que significa; mas suspeita de que está sendo enganado.
Mas, no fim, o povo até aceita. E o mundo político se diverte com o povo que, agradecido, vibra e vai gritando: "Gooooooooooooooool!"
*A charge é de Glauco, na Folha.
Emanoel Barreto
O viscoso mundo político - seus acertos, comissões, omissões deliberadas, acordos e prebendas - é um vasto lodaçal onde crocodilos da coisa pública dormitam ferozmente. A primeira vítima, que na verdade é sempre um e se chama povo, será abocanhada mesmo que não passe por perto.
O mundo político é feito de entendimentos vorazes, alianças tisnadas, nódoas que se escondem nos becos dos conchavos. Tudo é e tudo se permite. E a honradez é atiada aos arrabaldes da decência.
O mundo político tem por base as fidelidades de ocasião; e as juras da lealdade barganhada são negociadas numa bolsa de valores escancarada de vícios, que tem a commodity do voto a futuro cotada a peso de ouro. Longe, muito longe, o povo ouve esse tilintar, mas não sabe bem o que significa; mas suspeita de que está sendo enganado.
Mas, no fim, o povo até aceita. E o mundo político se diverte com o povo que, agradecido, vibra e vai gritando: "Gooooooooooooooool!"
*A charge é de Glauco, na Folha.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Discurso, discurso, discurso...
Emanoel Barreto
O discurso, a mensagem como expressão sincera - nem sempre -, do falante, é preocupação desde a ágora dos gregos. Essa elocução, para efeito de convencimento, manifesta-se na retórica, no entusiasmo vigoroso que dá às palavras, às orações, seu sentido social mais forte de cativar e convencer. Conquistar aliados e eleitores.
A charge de Angeli dá bem uma ideia disso. A busca do PSDB por um discurso que se contraponha à larga figura presidencial de Lula, cuja simples presença, em si, já é significante. É que o líder, o príncipe, traz agregada à sua figura uma espécie de fala presencial que alude a tudo o que já disse ou fez. Quem não atingiu esse ápice sabe bem o que é buscar um discurso.
Os tucanos têm em José Serra seu possível candidato. Mas a este falta o discurso histórico, a memória social quanto a seus feitos, a relevância do seu vulto nas paredes do grande museu vivo que é o tempo histórico.
Daqui a cem anos, só para citar um exemplo, quem será lembrado e estudado por historiadores, cientistas políticos e cientistas sociais: Serra ou Lula? Nem preciso responder. É esse o discurso que falta a Serra, a falta de vínculos públicos com todo um passado recente, quando o País ainda se revolve ante os resquícios de memória relativos à ditadura.
Tanto é verdade, que mesmo incensado pelos seus correligionários, o governador de São Paulo até hoje não se atreveu a dizer-se candidato, o campeão do tucanato. Espera, pacientemente, o desenrolar das pesquisas que agora sinalizam Dilma como aquela que poderá, pelos artifícios do marketing e pelas mãos do seu pai eleitoral, se apresentar como vacacionada a vencer.
Emanoel Barreto
O discurso, a mensagem como expressão sincera - nem sempre -, do falante, é preocupação desde a ágora dos gregos. Essa elocução, para efeito de convencimento, manifesta-se na retórica, no entusiasmo vigoroso que dá às palavras, às orações, seu sentido social mais forte de cativar e convencer. Conquistar aliados e eleitores.
A charge de Angeli dá bem uma ideia disso. A busca do PSDB por um discurso que se contraponha à larga figura presidencial de Lula, cuja simples presença, em si, já é significante. É que o líder, o príncipe, traz agregada à sua figura uma espécie de fala presencial que alude a tudo o que já disse ou fez. Quem não atingiu esse ápice sabe bem o que é buscar um discurso.
Os tucanos têm em José Serra seu possível candidato. Mas a este falta o discurso histórico, a memória social quanto a seus feitos, a relevância do seu vulto nas paredes do grande museu vivo que é o tempo histórico.
Daqui a cem anos, só para citar um exemplo, quem será lembrado e estudado por historiadores, cientistas políticos e cientistas sociais: Serra ou Lula? Nem preciso responder. É esse o discurso que falta a Serra, a falta de vínculos públicos com todo um passado recente, quando o País ainda se revolve ante os resquícios de memória relativos à ditadura.
Tanto é verdade, que mesmo incensado pelos seus correligionários, o governador de São Paulo até hoje não se atreveu a dizer-se candidato, o campeão do tucanato. Espera, pacientemente, o desenrolar das pesquisas que agora sinalizam Dilma como aquela que poderá, pelos artifícios do marketing e pelas mãos do seu pai eleitoral, se apresentar como vacacionada a vencer.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
http://adevidacomedia.files.wordpress.com/2009/10/jornais-iv.jpeg
Como se (des)equilibra o jornalismo
Emanoel BarretoInformação que me chega tendo como fonte a publicação Meio&Mensagem indica que a circulação dos maiores jornais brasileiros caiu 6,9% em 2009. Abaixo:
1. Caiu 6,9% a circulação somada dos 20 maiores jornais diários brasileiros em 2009. Onze títulos viram seus números encolherem durante 2009. Os dois que mais caíram foram os do Grupo O Dia, do Rio de Janeiro: O Dia (-31,7%) e Meia Hora (-19,8%). Também tiveram quedas Diário de S. Paulo (-18,6%), Jornal da Tarde (-17,6%), Extra (-13,7%), O Estado de S. Paulo (-13,5%), Diário Gaúcho (-12%), O Globo (-8,6%), Folha de S. Paulo (-5%), Super Notícia (-4,5) e Estado de Minas (-2%).
2. A liderança continua com a Folha de S. Paulo (média diária incluindo domingo, de 295 mil exemplares), seguida por Super Notícia (289 mil), O Globo (257 mil) e Extra (248 mil). Em quinto lugar está O Estado de S. Paulo (213 mil), à frente do Meia Hora (186 mil) e dos gaúchos Zero Hora (183 mil), Correio do Povo (155 mil) e Diário Gaúcho (147 mil). O top 10 se completa com o Lance (125 mil).
3. Apenas seis conseguiram melhorar seus desempenhos de acordo com dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC). São eles: Daqui (31%), Expresso da Informação (15,7%), Lance (10%), Correio Braziliense (6,7%), Agora São Paulo (4,8%) e Zero Hora (2%). Mantiveram-se estáveis: Correio do Povo, A Tribuna e Valor Econômico, que encerraram o ano passado com circulações bem próximas às do fechamento de 2008.
.....
A crise que afeta o jornalismo diário traz à tona problema antigo, agora salientado em função de que os números tornam-se alarmantes. Somando-se as tiragens de todos os jornais chega-se ao total de 2.098.000, para uma população 192.430.790, segundo dados que obtive junto ao IBGE.
Trata-se de circulação mínima, sem dúvida propiciadora de preocupação. Primeiro, pelo fato mesmo de a imprensa diária não ter a penetração que deveria; segundo, em decorrência da inexistência de público leitor fidelizado, o que significa gente desinformada. Não levo em conta aqui questões ideológicas apensas às informações e opiniões ou seja: questionamento a respeito da qualidade informativa e opinativa e sua credibilidade.
Sei, todavia, que a imprensa, mesmo com todos os seus erros, é um dos pilares de qualquer sistema social organizado e democrático, ao lado do Direito, Medicina e Pedagogia.
Mas, o que revela não apenas a queda das circulações e o históricamente baixo número de leitores? Implica que, para milhões de brasileiros, a imprensa diária virtualmente não existe ou pior: nunca existiu.
O jornalismo, aqui entendido com as empresas, precisa e deve mobilizar-se em estratégias de marketing, que vão desde questões de conteúdo e forma, até o estabelecimento de uma política de credibilidade - este, sem dúvida, importante fator para que um jornal fidelize leitores.
Vale lembrar que o leitor de jornal não é apenas consumidor, mas, antes de tudo, cidadão. E jornal, ao lidar com a mercadoria notícia, dá trânsito também a conteúdo político-ideológico cujo tratamento ético deve ser o primeiro dentre os muitos que devem preocupar a uma boa imprensa.
Entendo que não estamos nos preâmbulos da morte do jornal impresso - como jornalista da área teria dificuldade em entender o mundo sem esse veículo ao qual dediquei toda a minha vida profissional -, mas temo que o mundo globalizado e os multimeios informativos, como esta internet da qual me valho, pode sim, em futuro distante, chegar a constituir-se em ameaça ao jornal impresso.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
O terror da ditadura
Emanoel Barreto
O amigo João Maria Alves, repórter-fotográfico e cidadão da vida, me envia ests texto da IstoÉ que tem como assunto o pungente depoimento do jornalista Dermi Azevedo, meu amigo. Trata-se de registro jornalístico que, mesmo com o passar dos anos, a memória nacional não pode esquecer. Talvez a leitura se torne até mesmo casnsativa, pois o artefato internet não incentiva a uma leitura demorada. Mas vale a pena. (EB)
Carlos Alexandre Azevedo, 37 anos, torturado quando era bebê
Solange Azevedo
Ele tem olhos de aflição e feições de dor. Suas palavras saem cadenciadas, são quase sussurros. “Minha família nunca conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura”, diz. “Os meus pais foram presos e eu fui usado para pressioná-los.” Carlos Alexandre Azevedo tinha 1 ano e 8 meses quando policiais invadiram a casa da família, na zona sul de São Paulo, e o levaram para a sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops). Era 15 de janeiro de 1974. Bem armados e truculentos, os agentes da repressão o encontraram na companhia da babá – uma moça de origem nordestina conhecida como Joana. Chegaram dando ordens. Exigiram que os dois permanecessem imóveis no sofá. Apenas Joana obedeceu. Como castigo pelo choro persistente, Carlos Alexandre levou uma bofetada tão forte que acabou com os lábios cortados. Foram mais de 15 horas de agonia. O drama de Carlos Alexandre – um dos mais surpreendentes dos anos de chumbo – veio à tona no momento em que o governo brasileiro discute a criação da Comissão Nacional da Verdade para apurar casos de tortura, sequestros, desaparecimentos e violações de direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985).
Carlos Alexandre decidiu revelar sua história, com exclusividade, à ISTOÉ depois que o seu processo de anistia foi julgado pelo Ministério da Justiça. No dia 13 de janeiro, ele foi declarado “anistiado político”. Deve receber uma indenização de R$ 100 mil por ter sido vítima dos militares. “Muita gente ainda acha que não houve ditadura nem tortura no Brasil. No julgamento, em Brasília, me senti compreendido.
As pessoas sabiam que o que eu vivi foi verdade”, alega. “A indenização não vai apagar nada do que aconteceu na minha vida. Mas a anistia é o reconhecimento oficial de que o Estado falhou comigo. Para mim, a ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social.” Fragmentos da vida de Carlos Alexandre, hoje com 37 anos, estão guardados na memória do pai, o jornalistae cientista político Dermi Azevedo. Outros ficaram entre as lembranças da mãe, a pedagoga Darcy Andozia. “Minha família sempre foi muito retraída, sem diálogo. Não costumávamos falar sobre tortura. Esse assunto sempre foi tabu entre nós”, conta Carlos Alexandre.
Ele descobriu o próprio passado ao remexer em gavetas, aos 10 ou 11 anos de idade. Misturado a fotografias antigas e a uma porção de papéis, encontrou o desenho de uma vaquinha, conhecida na época por simbolizar a “esperança”, com o seguinte recado: “Deops 1974: Quando você ficar mais velho, seus pais vão te contar a sua história.” Parte do sofrimento da infância lhe foi revelada pela mãe. “Cacá apanhou porque estava chorando de fome.
Os policiais falavam que, naquela idade, ele já era doutrinado e perigoso”, lamenta Darcy. Presas políticas disseram ao pai que o menino fora torturado no Deops. “Meses depois de sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vítima de choques elétricos e outras sevícias. Ele foi jogado no chão e bateu a cabeça”, afirma Dermi. “Maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade.” Quando os agentes levaram Carlos Alexandre e a babá, Darcy não estava em casa – seria trancafiada no Deops horas depois.
“Até hoje sofro os efeitos da ditadura. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social”
Ela havia saído cedo em busca de ajuda para o marido preso. Aquela era a segunda invasão à residência dos Azevedo. Na noite anterior, policiais vasculharam todos os cômodos em busca de “material subversivo”. Encontraram um livro intitulado “Educação Moral e Cívica & Escalada Fascista no Brasil” e o consideraram uma injúria às autoridades. Dermi, Darcy e a educadora Maria Nilde Mascellani foram processados – e absolvidos – sob a acusação de tentar difamar o Estado brasileiro. Dermi e Darcy eram ligados aos padres dominicanos e a uma das principais vozes que lutavam contra a ditadura, o então cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. Faziam parte da retaguarda do movimento de resistência – abrigavam militantes que se preparavam para embarcar para o Exterior.
O período de cárcere foi tenso e doloroso. Darcy permaneceu mais de 40 dias na cadeia. Foi pressionada psicologicamente, mas não sofreu violência física. Dermi ficou cerca de quatro meses no xadrez. Apanhou muito. Quando já não suportava mais a dor, invocava o nome d’Ele: “Ai, meu Deus. Meu Deus.” Enquanto Darcy esteve atrás das grades, Carlos Alexandre foi cuidado pelos avós – e continuou a sofrer as consequências de escolhas que não foram suas. “Em certos momentos, tive raiva porque meus pais expuseram os filhos. Mas depois senti orgulho porque eles lutaram contra os abusos dos militares e fazem parte da história do Brasil”, diz. Carlos Alexandre padece de um transtorno chamado pela ciência de fobia social: um medo excessivo e persistente de se expor à avaliação alheia. Quem tem esse distúrbio se esquiva sistematicamente de contatos interpessoais – principalmente com pessoas do sexo oposto, desconhecidas ou autoridades – porque teme ser humilhado ou rejeitado.
O diagnóstico foi mencionado pela psicóloga Ana Maria Falvino, que tratou de Carlos Alexandre, num documento encaminhado à Comissão de Anistia. No texto, a psicóloga detalha a evolução do transtorno no paciente e situações relatadas pela família Azevedo. Mas não afirma categoricamente que o problema dele é consequência direta de tortura. As situações vividas por CarlosAlexandre, no entanto, o inserem no grupo de risco descrito pela medicina. De acordo com o médico Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, cerca de 30% dos casos de fobia social têm origem genética. Os outros 70% se devem a vivências complexas.Os pais são o primeiro modelo para a criança.
Observar como eles lidam com as adversidades, se enxergam o ambiente social como fonte de prazer e alegria ou como algo desconfortável e ameaçador, se são tímidos ou têm muitos amigos, é de extrema importância para o bom desenvolvimento infantil. Bernik afirma que crianças provocadas e maltratadas por colegas e que vivem experiências marcantes de rejeição e de sofrimento são mais suscetíveis à fobia social na vida adulta. Logo que Dermi deixou a prisão, em maio de 1974, a família toda se mudou para a sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Primeiro foi para Currais Novos, no interior do Estado. Em seguida para a capital, Natal. A violência psicológica e as agressões físicas – como as intermináveis sessões no pau de arara e os repetidos golpes na cabeça, chamados nos porões da ditadura de “telefone” – derrubaram Dermi. Durante um bom período, ele não foi capaz sequer de sair da cama. Passava o tempo todo coberto. Teve crises de paranoia e medo de tudo. Não podia trabalhar. O aperto financeiro desestabilizava ainda mais a família. Ele foi recuperando devagar a coragem de se levantar, ir à esquina, andar sozinho.
“Dermi não se destruiu. Transformou o trauma numa batalha pela vida e continua lutando pela dignidade humana”, avalia a psicanalista Miriam Schnaiderman, codiretora do documentário “Sobreviventes”, que narra experiências de pessoas que passaram por situações-limite. Enquanto Dermi tentava se recuperar, Darcy tinha de se desdobrar para dar conta da casa e dos filhos – do primogênito e de dois meninos que vieram depois. Carlos Alexandre demonstrou os primeiros sinais de isolamento já em Currais Novos. Não interagia comoutras crianças, tornou-se agressivo e andava sempre triste.
Às vezes, acordava agitado procurando pela mãe: “Mamãe, onde é o barulho do trem?” A sede do Deops, onde ele esteve detido durante algumas horas, era na região da Estação da Luz. De lá, dava para ouvir o som do vai e vem das composições. Apesar de a família estar longe de São Paulo, onde a perseguição seria mais severa, os Azevedo eram constantemente vigiados pelos militares locais e discriminados pela vizinhança. Viviam sendo apontados como “bandidos”, “terroristas” e tratados como se tivessem alguma doença contagiosa. Carlos Alexandre cresceu sob intensa pressão, testemunhando as crises do pai e a inquietude da mãe. Chorava para não ir à escola. Não suportava ficar distante dos pais. A instabilidade e a dinâmica familiar contribuíram para aumentar o afastamento de Carlos Alexandre. “A perseguição afetou os outros filhos, mas não de maneira tão intensa quanto ele”, relata Dermi. As mudanças de casa e de cidade eram constantes a ponto de os meninos não serem capazes de criar laços de amizade ou se adaptar completamente à escola.
O único período de relativa calmaria e imobilidade durou cerca de quatro anos – entre 1981 e o início de 1985, quando os Azevedo moraram em Piracicaba, no interior paulista. A filha mais nova nasceu lá. Todos eram respeitados. Darcy e Dermi tinham vínculo com uma universidade do município – já não eram encarados como “bandidos” ou “terroristas”, mas como intelectuais. E a ditadura militar caminhava para o fim. A saída de Piracicaba foi traumática para Carlos Alexandre. “Era o único lugar em que eu tinha amigos. Foi aí que me isolei de vez. Parei de estudar e me tranquei em casa”, lembra. Carlos Alexandre tinha acabado de entrar na adolescência. No interior paulista, costumava brincar na rua, jogar bola e frequentar festinhas vestindo short e camiseta. Não se importava muito com o figurino.
Os novos desafios da cidade grande o fizeram submergir no medo. Ele já não era mais convidado para festas, se sentia incapaz de dançar com as meninas e apanhava dos garotos cotidianamente. Quando tentava revidar, era pior. Apanhava mais. “Por ser introvertido, não ser muito bonito nem me vestir como eles, eu era humilhado e vivia sendo alvo de chacotas”, afirma. Carlos Alexandre sucumbiu à crueldade adolescente e se enterrou nas próprias fragilidades. Afirma ter passado cerca de sete anos (dos 13 aos 20) praticamente sem sair de casa. Tentou frequentar a escola. Não conseguiu. Nos momentos de nervosismo intenso, quebrava tudo o que encontrasse pela frente. Engordou 40 quilos em seis meses. Tentou o suicídio “algumas vezes”. Quando decidiu enfrentar o medo da rua, trabalhou como auxiliar de escritório.
Ficou um ano no emprego – seu recorde com carteira assinada. Depois atuou como operador de microcomputador e diagramador. Interagir era tão penoso que Carlos Alexandre pediu demissão e foi demitido diversas vezes porque não suportava conviver com os colegas de trabalho. “As pessoas começavam a perguntar da minha vida: o que eu fazia, se tinha estudado, se tinha namorada, quem eu era, aonde eu ia. Acabava ficando um clima ruim”, conta. “Estar no meio de muitas pessoas é muito cansativo para mim. Falar também. Sair de casa e sentar num bar é um incômodo muito grande. Mas hoje já não entro em pânico porque estou em tratamento.” Um ou dois amigos visitam Carlos Alexandre esporadicamente. Vão ao apartamento que ele divide com a mãe na região central de São Paulo. Seus outros – raros – amigos são todos virtuais. Ao optar pela rede, ele se protege da sociedade.
“Quando rompo o ciclo vicioso, consigo até ter uma vida. Mas tenho muito medo de recaídas”, diz. Atualmente, ele costuma sair três vezes por semana para ir à academia. De vez em quando, vai à banca comprar gibis japoneses. Sua rotina é singela. Mas Carlos Alexandre quer mais. “Não sou feliz. Sinto vergonha de não trabalhar. Também gostaria de ter uma família minha, com mulher e filhos. Mas tenho consciência de que devo dar um passo de cada vez. Talvez, com um pouco de sorte, eu consiga recomeçar. Mesmo estando com 37 anos.”
sábado, 30 de janeiro de 2010
Dilma, Maquiavel e Branca de Neve
Emanoel Barreto
Maquiavel ensina que, na política, o Príncipe precisa de virtù e fortuna. Esta como conjunção de fatores históricos positivos que parecem conspirar favoravelmente àquele que deseja ganhar força ou graça perante o povo. Aquela, como atributos pessoais, o carisma, conjunto de competências que o fazem incrndiar as multidões com discurso candente e as alianças com outros poderosos. Simplificadamente, é isso.
No caso da sucessão presidencial, a ministra Dilma parece padecer de alguma falta de virtù, apesar de afortunadamente estar amparada pelo mais poderoso príncipe da nossa política - um ator que por muito tempo merecerá, queiram ou não seus adversários, estudos e análises quanto à sua vida na política brasileira.
O que o divino Maquiavel não previu, nem poderia, foi o surgimento de algo chamado marketing e especialmente marketing eleitoral, essa ferramenta de argumentação aplicada à publicidade e, especialmente no caso, à propaganda.
Não que o marketing seja algo milagroso, capaz de fazer e desfazer imaginários coletivos. Não, muito pelo contrário. Vide o caso do candidato tucano Alckmin, que patinou muito até perder para Lula no último pleito à presidência.
Mas o marketing, quando aplicado a certas situações potencialmente tendenciais, ou seja, quando lança sua semente junto a um determinado público passível de sensibilização, pode sim operar esse milagre comunicacional que é construir uma imagem de virtù.
Tendência significa "propensão a" e, em sua raiz marqueteira, inclui o despertar mesmo dessa tendência onde antes ela inexistia. Aí o grande segredo, aí a visão do marqueteiro como bruxo esquivo e invisível, tratador de fórmulas secretas, poções e tisanas de comunicação para restabelecer o paciente que padece de carência de virtù e fazer dele um novo príncipe.
A Ministra cresce paulatinamente, pela exposição midiática massiva, sempre à tiracolo do príncipe Lula. Se sua osmose política funcionar, é possível que ele a faça a princesa desse terrível conto de fadas que é a política. Sua Branca de Neve a sua sucessora.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O Haiti não é mais aqui
Emanoel Barreto
Ao contrário do que diz a letra da canção de Caetano Veloso, o Haiti, aos poucos, não está mais aqui. Jornalisticamente, não é mais aqui. Aos poucos, com lentidão que agrava o sentido de que aquele país começa a deixar de existir midiaticamente, sua tragédia e hecatombe começam a se esmaecer no noticiário.
A isso se juntará, não haja dúvida, o processo de decantação das emoções chocadas com a dor e o horror. E, passado o período de luto social, o mundo retornará à sua cotidianidade, à terrível normalidade da indiferença.
Aos poucos o Haiti irá se defazendo no ar das Redações, no ar dos gabinetes e governo e o Haiti não será mais aqui.
Emanoel Barreto
Ao contrário do que diz a letra da canção de Caetano Veloso, o Haiti, aos poucos, não está mais aqui. Jornalisticamente, não é mais aqui. Aos poucos, com lentidão que agrava o sentido de que aquele país começa a deixar de existir midiaticamente, sua tragédia e hecatombe começam a se esmaecer no noticiário.
A isso se juntará, não haja dúvida, o processo de decantação das emoções chocadas com a dor e o horror. E, passado o período de luto social, o mundo retornará à sua cotidianidade, à terrível normalidade da indiferença.
Aos poucos o Haiti irá se defazendo no ar das Redações, no ar dos gabinetes e governo e o Haiti não será mais aqui.
O povo à imagem e semelhança do poder
Emanoel Barreto
Dois momentos em charge. O primeiro no traço de Henfil, à época da ditadura. Angeli, em seguida, fixa o crescimento da urbanização em seu processo de desumanização. A ação desnaturante sobre a natureza. O hifen que une os dois momentos: a sociedade, o povo, no dizer de Henfil, sempre como massa de manobra num e noutro casos.
Antes a ditadura, representada pelo seu dadopolítico-capitalista, maquinando para eleições em que o povo é que será "escolhido", ou seja, ajustado pela legislação aos desejos dos poderosos. Hoje, a mesma massa humana domesticada ao consumismo, outra forma ditatorial que ensina como as pessoas devem ser.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Brasileiro teme ser esquecido em corredor da morte e presidente Lula apela ao Governo da Indonésia (Reuters)A morte como "pena para sempre'
Emanoel Barreto
Emanoel Barreto
A Folha traz matéria informando que o brasileiro Marco Archer Moreira, traficante de drogas, será executado na Indonésia. Abaixo:
RICARDO GALLO
da Folha de S.Paulo O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem um apelo ao governo da Indonésia a fim de evitar a execução do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, 48, condenado à pena de morte no país asiático.
Em carta, Lula pediu "generosidade" ao presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, e disse que a morte do brasileiro afetaria a relação entre os dois países.
"Peço licença para tratar de um assunto de interesse humanitário (...) Conto com a sua generosidade para que o assunto não crie uma reação na opinião pública brasileira que teria, possivelmente, efeitos no nosso relacionamento, que tanto queremos estreitar", disse o presidente, que classificou o caso de "especialmente urgente".
A carta, que exalta a boa relação entre Brasil e Indonésia, foi enviada após Marco pedir nova intervenção de Lula. "Vou cair no esquecimento aqui", disse ele à Folha no dia 17.
Trata-se de uma nova tentativa para que Yudhoyono dê clemência ao brasileiro. É a última chance de Marco escapar da execução --ele quer a conversão da pena para prisão perpétua ou para 20 anos.
Pelas leis locais, o condenado tem direito a dois pedidos de clemência -o presidente da Indonésia já negou o primeiro em 2006 e ainda não se pronunciou sobre o segundo. Na Justiça, não cabe mais recurso.
Yudhoyono foi reeleito em 2009 com posição favorável à pena de morte. A punição é apoiada pela maior parte dos políticos e pela população local.
O brasileiro foi preso em 2003 ao tentar entrar na Indonésia com 13,4 kg de cocaína escondidos em sua asa delta. A condenação de morte ocorreu no ano seguinte. Ele disse que aceitou o serviço em troca de dinheiro para pagar uma dívida; segundo Marco, foi a primeira vez que ele fez isso.
A Folha vem tentando falar com o governo da Indonésia, mas ainda não obteve resposta.
...........
A pena de morte, como tudo no direito penal, é retributiva. É uma espécie de olho por olho, dente por dente. Até mesmo no direito civil esse princípio, de alguma maneira, sobrevive. Se você não paga reiteradamente o aluguel da casa será despejado, no prazo legal.
Com a pena de morte dá-se o mesmo: aos olhos da sociedade indonésia o tráfico de drogas deve ser punido com a morte. De maioria muçulmana, religião cujos preceitos permitem larga dose de fundamentalismo e, consequentemente, intolerância, a Indonésia vê nas pessoas em tal situação alguém que deve ser, fisicamente, afastado do convívio social. É uma espécie de "pena para sempre".
Tenho ensinado a meus alunos que o jornalismo, em termos de noticiabilidade, se rege pelo princípio da proximidade espacial ou emocional-afetiva, em relação aos acontecimentos. Ou seja: acontecimento distante pode nos levar a interesse em função de um sentimento, uma ligação subjetiva que estabelece liame afetivo com o fato. No caso, um brasileiro condenado à pena de morte.
Entendo que um traficante é alguém perigoso. Alguém que distribui infelicidade e dor a muita gente. Que o diga quem tem um filho, um marido ou esposa ou parente viciado. Que o diga quem seja viciado. Mas uma reflexão, mesmo rápida, a respeito da pena de morte, nos leva a um limite angustiante: a eliminação a sangue frio de alguém, a execução de um ser humano pela mão inumana do Estado.
A pena de morte é uma espécie de degradação trazida à forma da lei. Representa um sentido de moral absoluta, que não reconhece limites à sua aplicação. Assim, é perigosa. Profundamente perigosa. Até mesmo porque, em caso de erro judicial, alguém falsamente culpado pode ser atingido por essa "pena para sempre".
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Artilharia da imprensa
Emanoel Barreto
Valho-me do título da obra clássica de James Reston para analisar as manchetes do Estadão e a Folha, encontrando no subtexto da segunda a ação do jornal como partido político. Gramsci deixava disso bem claro, quando enunciava que jornais podem inserir vilegiatura política em seu noticiário e opinião, desde que assumindo atitude proselitista, doutrinária, assemelhada à de partido político.
E isso a partir de uma constatação: o comportamento agressivo dos sem-terra, prática censurável é verdade, serve de deixa para que o jornal, que nos tempos da ditadura emprestava viaturas para ações repressivas de grupos paramilitares e parapoliciais, pratique ato de partido político. Como? Pelo simples fato de que, primeiro, nota-se um dado de júbilo na assertiva textual do título; segundo, essa asserção toma contornos opinativos, por consequência mesma do júbilo.
Trata-se de discurso que infere à existência de movimento popular contestador, cuja práxis, eivada de atos agressivos, permite aos setores da conservação emitir mensagens que se contrapõem a esse movimento. Que, a despeito da justeza de sua causa, incorre em falha que permite a adversários como a Folha obscurecerem a necessidade de uma reforma agrária, coocando o MST quase que em igualdade de contições com criminosos.
A isso acrescanta-se detalhe de relevo: o fato em si não mereceria jamais uma manchete de primeira página, em função de que jornalisticamente está distanciasdo no tempo (o tempo jornalístico é muito fugidio. Vide a situação do Haiti, que já começa a perder espaço editorial) e suas repercussões sociais foram bastante limitadas.
Quanto ao Estadão, a manchete está certíssima. A distribuição de lucros pelas empresas a seus funcionários, em percentual de cinco por cento (li isso no Estadão) gera evidentemente expectativa social generalizada quanto a seus possíveis desdobramentos.
Não que o Estadão também não seja de alguma forma um jornal com ação assemelhada à de partido político. Bem distante disso. Mas, tecnicamente, a escolha foi a mais acertada. Então, porque a Folha não divulgou com destaque o mesmo evento, deixando ao concorrente caminho livre para tratar de assunto efetivamente de importância?
Resposta: pela militância. Pela atitude de confronto jornalístico com os sem-terra. Por ver aí, na falha do método de ocupação, fator que permitirá, a longo prazo, o contínuo estilolar da imagem desse movimento, que é justo, mas metodicamente equivocado. Sua artilharia, sem dúvida, continuará com fogo pesado.
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