quarta-feira, 28 de maio de 2014

O povo como gladiador na arena das ruas




 Os que vão morrer te saúdam 

Prepara-se o país para a festiva tragédia da Copa do Mundo. De um lado o governo, os partidos políticos, os interesses da Fifa que nos trouxeram o mal-afortunado evento; do outro, manifestações de sociedade civil gritando, protestando, exibindo o flagrante erro que é a realização do torneio.

Ninguém em sã consciência pensará que tudo acontecerá às mil maravilhas. Mesmo os mais temerários, irresponsáveis, inconsequentes, devem estar sentindo que estamos às vésperas de ver as ruas a rugir. A questão é que não dá mais para recuar: já está tudo definido; agora é entrar na arena do asfalto e dizer como os gladiadores em Roma: “Ave Imperator, morituri te salutant.” 

 A tradução clássica da frase latina é: “Ave César, os que vão morrer te saúdam.” Sim, é isso: a arena das ruas terá o drama, enquanto as arenas decoradas e assépticas verão o festim dos gritos de gol. 

Tudo tão trágico, tão terrível, tão previsível. Tragicamente perfeita a trama histórica, o conflito de interesses, a desavença entre o que a sociedade quer e precisa e o que os interesses minoritários levaram a efeito. 

 Os que vão morrer, de alguma forma morrer em desencanto, em repúdio, em indignação, já avisam que haverá resistência e lamentosas procissões, gritos e sufocação à força de gás lacrimogêneo. E, de forma soturna, saúdam a sombria alegria daqueles que desencadearam toda a intentona.



segunda-feira, 19 de maio de 2014

Vou topar essa parada

E aí, vai encarar?
Emanoel Barreto

Moleque travesso, tinhoso, peralta.
Saiu da favela disposto a brigar.
Exibe sua força que é magra e rasteira.
Ele é um brasilzinho de muque raquítico.

Moleque travesso, pertinaz, assanhado.
Tem jogo de perna é bamba na vida.
De becos escuros briga com a fome.
Ele é um brasilzinho. Que dó que ele dá.
 

sábado, 17 de maio de 2014

A aventura de voar sem medo...




Nuvens e café com leite

Emanoel Barreto

“Aprendi a delirar aos poucos, por intuição e gosto.”
https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=20204364#editor/target=post;postID=320689843613524706
 Quem me disse isso foi um amigo a quem o vulgo gosta de chamar de louco. Não o chamam assim por considerá-lo louco na exatidão do termo. Nada disso. Chamam-no louco por entendê-lo como, digamos assim, discrepante, estranho, não-alinhado, incomum. Chamam-no de louco pela absoluta e rude incapacidade de chegar até aonde ele chegou em gesto e poesia.

O meu amigo é pintor e gosta de escrever. Escreve com pincéis quando lhe dá na telha e pinta com palavras quando assim o entende. É um homem realizado espiritualmente. E isso lhe dá condições de ser como é. 

Meu amigo é um senhor de grandes mestrias. É sensível, requintado, ético. Bebe licores finos, sabe tocar oboé e cravo. Sua mulher tem o nome de Charlotte. Disse-me ele que vive cada momento como uma pequena eternidade. Às vezes gosta de meter-se no ambiente dos comuns para deles ouvir as conversas ásperas e grosseiras. E, claro, concordar com tudo apenas acenando com a cabeça. Após, tem ataques de riso que controla à força de tragos de legítimo bourbon. 

Meu amigo é intenso e de alguma forma perigoso, pois desafia o senso comum, a mediocridade, as coisas tidas como algo que deve ser como é.

Acabou de informar-me que está na Tailândia. Charlote está encantada – acentuou. Comprou um biplano. Legítimo exemplar de avião do tempo da Primeira Guerra. Mais uma de suas extravagâncias. Pretende voar para algum local distante. De lá, prometeu, irá a algum ponto alto. Alto, muito, muito alto. Bem acima das nuvens... 

 “E depois?”, perguntei. 

Depois, depois não sabe. Mas, parece-me, vai descer, aterrissar num ponto remoto da África central e encontrar-se com uns sobas. Quer entender com eles o sentido da vida. 

Gostaria de ser como ele. 
Somente para saber como é pegar um pedaço de nuvem, misturá-lo com o ar frio das alturas e mastigar sem pressa aquele manjar inesperado. E saborear, na imensidão do espaço, nuvem e café com leite...