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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Violência contra a natureza em Acari


No Twitter recebo apelo de Rosália de Acari, onde árvores foram literalmente atacadas e com grande fúria.  Ela manifesta-se indignada com a agressão a algumas árvores daquela cidade, uma das mais belas do Estado e, se não me engano, durante muitos anos considerada como a mais limpa do Brasil. Limpeza urbana é civilidade. Mas, parece, as coisas estão refluindo.

Ela não informa quem foi o responsável pela ação, mas suponho que seja obra de alguma autoridade local a serviço do bom senso.  Se não foi uma autoridade, deve-se à falta disso.

Lamentável sob todos os aspectos; espera-se agora que deixem as árvores em paz e que voltem à sua antiga beleza.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

História de um menino que passou


Já fui rico; já fui muito rico
Emanoel Barreto

Já fui rico; já fui muito rico. Tinha o quintal da minha casa, enorme aos meus olhos infantes. Ali existia uma grande floresta: misteriosa, desafiadora, impenetrável. A grande mangueira desapareceu um dia sob os golpes de machados, mas em seu lugar brotaram um coqueiro, um belo pé de limão e bananeiras.

E eu era o senhor daquelas terras e em meio a elas cavalgava meu cavalo invisível. Já fui rico; já fui muito rico. Em meio às sombras, às palhas do coqueiro, aos galhos espinhentos do limoeiro, travei enormes batalhas contra gigantes, monstros de todo o tipo, feiticeiros  e cavaleiros desalmados. Vencia sempre. E voltava para casa, entrando pela cozinha, coberto de arranhões e de glórias.

Certa vez, num natal, ganhei de presente uma pequenina enxada e um ancinho. Não tive dúvidas: tornei-me um latifundiário; latifundiário não: agricultor. O suave declive entre o limoeiro e o coqueiro levou-me à realização de monumental obra: escavei um canal unindo uma árvore à outra e comecei o que me parecia enorme irrigação.

Todos os dias então minhas manhãs eram assim: encher baldes e baldes, derramar a água no limoeiro e vê-la descer, alumbrado, em direção ao coqueiro. Além das árvores era dono também de todas as lagartixas e formigas que por lá habitavam.

As largatixa, uma ou outra eram abatidas com tiros certeiros de baladeira. Afinal, eram dragões e dragões são perigosíssimos seres. Quanto às formigas, essas eram gladiadores. Enormes formigas de roça, formigas cabeçudas, eu as levava à arena imaginária do quintal e lá travavam combates encarniçados. E havia também Rone, meu cachorro vira-lata. Belo e de bom porte, era meu grande amigo.

Tudo era meu, tudo me pertencia. Já fui rico; já fui muito rico.

As bananeiras, essas eram  índios. Índios de uma tribo inimiga. Assim, ao lado do meu primo Bastião, fazia grandes ataques a tais inimigos. Armados com poderosos arcos e flechas feitos de palito de palha de coqueiro não foram poucas as vezes em que nos defrontamos com elas, ardilosas e traiçoeiras árvores. Vencemos sempre, porém.

Depois a vida me levou da casa e distanciou-me do meu quintal. E hoje, quando lá volto, o vejo tão pequenino, estreito, apertadinho. Mas não: o meu quintal ainda existe. Está lá: grandioso, enorme, cheio de árvores, segredos, mistérios; habitado por monstros e duendes. Eu sei, o meu quintal não morreu: agora ele está dentro de mim. Então, ainda sou rico; ainda sou muito rico.