quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Coisas terríveis para salvar o Brasil

De como fazer a destruição para termos um grande futuro

Sou um gutenberguiano velho e antiquado. Poucos dão atenção à minha velha e anacrônica arte. Mesmo assim, fui procurado em minha tipografia por excelente pessoa, que, pelos modos gentis e gestos refinados, logo vi tratar-se de um sapo. Homem viajado, elegante e de pensamentos elevados, disse-me que buscava um editor para grande obra intitulada De Mundis Terrificus e Preclarus. 

Detalhou-me que seus intentos, que serão mui bem expressos no livro, poderão em muito contribuir para a correta destruição do Brasil e de seu povo, obra que, entende, é urgente e necessária. 

Pedi informações a respeito e informou-me que trata-se de livro magnífico, onde se explicará a importância do uso correto das pedras redondas, aliando-se a isso narrativas a respeito do finis mortificus para o bem do Brasil. E garantiu-me: o melhor do Homem é a sua morte. Todo bom governo, como é o caso do governo brasileiro, deve ter isso em mente, assegurou. 

Percebi imediatamente que é missão de alta relevância e coloquei-me à disposição. Isto posto, o sapo pediu permissão para convidar à tipografia dois outros grandes sábios. Atendi imediatamente e pouco depois desciam de um tílburi um jovem orogangotango e um velho e digno papagaio, cavalheiros de estirpe e condições.

Informaram que o livro, cujos originais da peça introdutória me foram entregues, será uma larga e profunda reflexão sobre a condição do homo brasilis. Conversamos longamente e, ao fim, eles se retiraram. Eis o que diz o texto inicial que me foi entregue:

A questão humano-brasileira é de alta relevância. Assim, torna-se imperioso aprofundarmo-nos em seu estudo, uma vez que, historicamente, está comprovado que temos incrível tendência ao conflito e à nunca solução do conflito, e aí mesmo está a essência da nossa condição.
Sendo assim, é preciso dar condições ao brasileiro para que procure a sua própria destruição.

Para tanto, devemos nos atilar a desenvolver processos autodestrutivos aliando a isso as intempéries naturais. Acontecidas estas, devemos mobilizar máquinas extraordinárias, enormes, ciclópicas, a fim de ampliar os resultados avassaladores da força dos elementos.

Devemos aproveitar a destruição decorrente de tempestades, para, a seguir, promover a construção de grandes buracos em todas as ruas, avenidas e vielas, a fim de que isso se torne obra d'arte grandiosa e apreciada.


Construídos os buracos será preciso criar imediatamente uma empresa que refaça tudo, ou seja: os buracos sejam tapados e, depois de tapados, sejam novamente refeitos e assim indefinidamente, já que é para isso que os governos foram criados.Tal filosofia é de grande valia.

Em caso de ação de elementos perigosos, como assaltantes e outros do mesmo tipo, será preciso criar linhas de financiamento de armas a fim de que os malfazejos possam executar com perícia e mestria sua grande arte de roubar e matar. 

Mais: os hospitais públicos devem ser fechados ou tornados ainda piores em seu funcionamento, a fim de estimular as pessoas a não adoecer. A culpa das doenças são os hospitais. E assim, eliminando-se a causa, será extinta sua consequência, a doença e, por decorrência, os doentes.

É preciso estimular o analfabetismo e os programas sociais de habitação levando-se as pessoas a procurar cavernas e tendas, que são mais baratas. E, sem saber ler e escrever, as pessoas não terão intentos danosos de formular ideias malsinadas, que só trazem o desespero e a desagregação social.

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Como vê o leitor, trata-se de obra de grande valia que, disseram-me o sapo, o orogangotango e o papagaio, irá orientar o brasileiro no sentido de um grande passo para o seu futuro. As bases estão construídas. Agora, resta-nos trabalhar em seu aperfeiçoamento.

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