sábado, 30 de maio de 2015

Um momento terrível com Luís da Câmara Cascudo

O Mestre delirava e dizia: "Você é um dos mais jovens?"

http://www.elfikurten.com.br/2012/04/camara-cascudo-uma-conversa-sobre.html

Quando a Tribuna do Norte passou a offset, em 79, a direção do Segundo Caderno ficou comigo, chefiando uma equipe que tinha entre seus talentos o colunista Franklin Jorge e uma jovem aluna de jornalismo, Christiana Coeli, filha da poetisa e jornalista Miriam Coeli e do jornalista Celso da Silveira. Quer dizer, a menina tinha a quem puxar. Mas Christiana ainda era muito jovem e inexperiente; não estava pronta para matérias mais difíceis.



Veja só o que aconteceu: certo dia eu a pautei para fazer uma entrevista com o Mestre Cascudo sobre não-sei-o-quê. A princípio não seria algo mais desafiador. Seria uma conversa sobre cultura, opiniões do Mestre, imersão no universo cascudiano. Pois bem: ela foi e voltou como uma flecha. Fiquei surpreso com a rapidez, mas ela me explicou, dizendo, com a ingenuidade dos focas: “Barreto, não deu para entrevistar o Professor porque ele estava com uma dor de cabeça fortíssima, estava tonto e mal se aguentava em pé.”

Foi o suficiente para disparar em mim o alerta vermelho. Eu respondi: “Christiana, uma dor de cabeça desse tipo, em mim preocupa a minha família e talvez a algumas outras pessoas. Só isso. Mas, uma dor de cabeça dessas, em Cascudo, com ele não podendo nem ao mesmo ficar de pé, no mínimo preocupa o Estado inteiro."

Disse isso e parti para o estacionamento do jornal em busca de um carro. Ia fazer a matéria pois vi que não era coisa para iniciante. Mas não havia carro. Chamei uns táxis, ninguém parou. Então, saí quase correndo da Tribuna até a casa do Professor; o fotógrafo, esbaforido, correndo atrás.

Quem conhece Natal sabe que a casa onde morava Cascudo fica razoalmente próxima à Tribuna do Norte, na Ribeira. Mas, ir correndo até lá... Bom, mas cheguei à casa do Mestre. Fui atendido por
sua mulher, Dona Dhália,  que me disse: “Emanoel , venha cá depressa. Me ajude a cuidar de Cascudo, ele não está bem."

Mandei que o fotógrafo esperasse e fui com ela ao quarto onde o Professor estava. Fiz isso a fim de respeitar a privacidade do Mestre. Eu não queria um drama sensacional. Somente chamaria o fotógrafo caso o bom senso assim o indicasse, e sob permissão de Dona Dhália.

Quando entrei vi a seguinte cena: Cascudo estava de pijama, deitado numa cama imensa, com os olhos semicerrados; delirava. O quarto ficava do lado do sol e, dentro, como num forno, o Mestre fervia a uma temperatura africana.

Dona Dália estava quase em pânico. Parecia não haver mais ninguém em casa além de nós. Ela lamentava o terrível calor a que o marido estava submetido. Temia que isso fosse deixá-lo ainda pior. Disse-me: “Segure a cabeça dele, enquanto dou os comprimidos.” 


O Mestre não me reconheceu. Quando me aproximei, ele disse: “Quem é você? Você é um dos mais jovens não é ? É um dos engenheiros?”

A pergunta deu-me a dimensão exata da gravidade da situação. Senti que tinha de agir com muita prudência e sensibilidade pois ali eu era dois: era um jornalista mas, antes disso, uma pessoa que estava prestando socorro a ninguém menos que Luís da Câmara Cascudo. Era preciso um respeito sagrado.

Mas, respondendo à pergunta dele, eu disse: “Sim, Professor, eu sou um dos mais jovens. Sou um dos engenheiros. Vim aqui ajudar.”

Ele continuou a murmurar, agora baixinho, coisas que eu não compreendia. Observei os esforços dedicados de Dona Dhália nos cuidados com o marido. Ela trouxe enormes, redondos e vermelhos comprimidos que ele engolia um a um, deitado. A cada um deles eu erguia sua cabeça para que engolisse os comprimidos. Creio que o total foi de quatro comprimidos. A água era servida num
copo grande .

Ele tomou a medicação, fez mais alguns comentários sem nexo e reclinou a cabeça, dormindo em seguida. Quanto a mim, vivendo aquele momento, ao mesmo tempo em que ajudava no atendimento anotava mentalmente os nomes dos comprimidos, observando os rótulos das caixas onde estavam os frascos. 


Como fiz uma espécie de jornalismo participante, ou seja, integrei a cena do começo ao fim, tinha plenas condições de cumprir a missão de relatar o fato.

Dona Dhália me agradeceu, eu dei uma última olhada no Mestre e saí do quarto onde ele estava. Perguntei a Dona Dhália se poderia publicar aquilo e ela disse que sim. Desci ao jornal sem uma foto e sem qualquer anotação. 


O assunto era sério e devia ser tratado com grande contenção no texto. Fiz uma matéria seca, direta, de forma a não passar ao leitor a impressão de que Cascudo estava à beira da morte e entreguei o texto à editoria de Geral, pois, como notícia, não era tema do Segundo Caderno. Horas depois, todavia, a família recuava e chegava ao jornal um pedido para nada ser publicado. Jornalismo às vezes é isso: um grande silêncio vivido pelo repórter.