O ninho da serpente ou
de como a cobra boitatá ilumina a Arena das Dunas
OK,
está pronto o ninho da serpente. A Arena das Dunas abriu ontem seu vulcão de
luzes e urrou seu ronco de ferro luzidio, dizendo a que veio: chegou para se
mostrar como uma espécie de chaga colorida, uma ferida enfeitada, um enclave de
enganação e de quimera.
Chegou para
dizer a Natal e ao Rio Grande do Norte que os interesses dos poderosos serão
sempre os interesses de todos e não importa o preço; chegou para informar que
continuará a faltar sim medicação no Walfredo, segurança nas ruas, escolas na periferia,
bem estar para quem vive de salário mínimo. Chegou para reafirmar que haverá
dinheiro – e muito – para garantir o pão e o circo da Copa.
A
serpente; namba negra, naja mortal, já está acomodada e dormita por entre as
fendas das cadeiras, se espoja no gramado verdinho. Quem for bom de vista
poderá até vê-la coleando, enovelada àquelas enormes armações laterais, as
armações que protegem e em essência formam o ninho da nova boitatá.
Boitatá?
Eu disse boitatá? Sim, eu disse. Meu Deus, como não percebi antes? Sim! É isso! Saquei! Eu estava errado. Mas agora
ocorreu-me: a serpente da Arena não é uma naja ou namba negra.
A cobra
gigante é a brasileiríssima boitatá. Aquela cobra das nossas lendas, a cobra
que comeu os olhos dos animais e tornou-se brilhante com o refulgir dos
milhares olhinhos que devorou, tornando-se assim um prodígio resplendente, o
bucho inchado de fogaréu.
A
boitatá comeu os olhos de Natal e agora explica-se o mistério, o fulgor das
luzes daquele ninho: o brilho não é dos holofotes, dos fachos. O relumbrar que
alucina a todos os cegos dessa cidade é o fulgurar da visão tirada a todos os
que não tiveram olhos para ver a monumental, monstruosa obra então em
construção e agora pronta.
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http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/Boitat%C3%A1 |
Pronto:
desfeito o mistério. Explicada está a iluminação da Arena. Boitatá chegou,
explodindo de clarões. Depois virá o dragão Fifa e aí o circo vai pegar fogo
nos berros de goooooooooooooooool!
Depois,
passada a Copa, ficarão as cinzas do festim e uma grande ressaca. Boitatá estará
bem gorda e dirá: “Gostaram? Gostaram mesmo? Agora chegou a hora da conta.
Paguem! Paguem! Paguem! Eu não sou um estádio, seus tolos: eu sou um furacão!”