terça-feira, 6 de setembro de 2016

Promessas sérias e atos altaneiros



Como construir uma cidade chamada Natal

Ó pobres, ansiosos e sofridos moradores desta cidade do Natal à beira-mar plantada. Eis que aqui venho e anuncio minha candidatura a prefeito, o que representa sem dúvida salvação e curso para este burgo. Faço o comunicado após muito meditar e receber chamamentos e convocatórias; e como sempre estive à disposição do povo assumo esta missão.

E o faço com um grandioso programa de metas à semelhança do fez o saudoso presidente Juscelino Kubitschek. São, todas, metas monumentais, que muito atenderão aos reclamos de uma cidade grande e saudável como aqui a veremos. 

Teremos quatrocentos anos em quatro, o que levará nossa cidade à condição de grande metrópole que é o seu destino. Isto posto, seguem minhas metas e propostas:

1) Farei a inauguração de uma grande construção que se chamará Forte dos Reis Magos;

2) Da mesma forma mandarei cavar um grande buraco que será cheio de água. Esse buraco terá o nome de mar. Assim que der, vou inaugurar o mar;

3) Para conforto da nossa população o mar será dividido em praias. Praia do Forte, Praia dos Artistas, Redinha, Areia Preta, Ponta Negra e por aí vai;

4) Haverá grande festa quando, na praia de Ponta Negra, eu descerrar a fita de abertura de uma obra chamada Morro do Careca. Por minha própria conta já mandei buscar no deserto do Saara a areia para a construção do citado Morro;

5) Chegando a noite vou inaugurar a escuridão; 

6) Determinarei que se junte um bocado de cajueiros em Pirangi –  que não é de Natal; mas declararei guerra a quem quer que seja dono e o tomarei para nossa cidade. E que ali seja plantado o maior cajueiro do mundo. Informo que este será inaugurado em seis meses de gestão. Meu primeiro ano de governo será comemorado com batida de caju;

7) Cavarei um buracão em forma de estrada, mandarei encher de água à semelhança do mar, e ali será chamado de rio Potengi;

8) Criarei uma grande instituição que será chamada Câmara Municipal de Natal para trabalhar em prol dos natalenses; 

9) No centro da cidade haverá um grande templo, chamado de catedral. Vamos rezar para que tudo dê certo;

10) Sempre que chover, acredite, será obra de minha realização. E funcionários públicos estarão nas ruas e acompanharão as pessoas com guarda-chuvas para que ninguém se molhe;

11) Serão inaugurados o sol e as nuvens. As nuvens e o sol serão customizados e atrairão novos e mais turistas. O sol e as nuvens serão inaugurados a devido tempo;

12) E em todas essas ruas farei implantar uma coisa chamada buraqueira para auxiliar o tráfego; 

13) Criarei algo importantíssimo chamado placa. Placas são objetos planos e largos onde se escrevem coisas. E em cada local onde houver obra de minha administração será colocada uma placa. E isso comprovará a tese de que placas também são grandes obras;

14)  Farei inaugurar uma coisa chamada chão. E haverá um grande programa de casas populares. A prefeitura dará o chão gratuitamente a cada morador. É só passar a pegar o seu;

15) Vou inaugurar também a maré e o mangue e construirei grande quantidade de buracos. 

16) Afinal, vou mandar derrubar o Forte dos Reis Magos e em seu lugar construir as pirâmides do Egito. Tenho dito. 

Caríssimo, confio em você e em sua capacidade de escolher o melhor para nossa cidade. Afinal, serão obras assim que nos levarão ao futuro. Como prova de que quero botar para quebrar já derrubei o Machadão – não sei se você viu como ficou bacana. Não acredite em nenhum outro candidato. Tudo o que este disser serão mentiras e fabulações. Precisamos dar um banho de realidade em nossa cidade Natal.


sábado, 3 de setembro de 2016

O PSDB é quem manda



O presidente terceirizado

O ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer deixou tal situação para enveredar por caminho agora mais vexatório: ele, você deve se lembrar, havia se queixado em carta a Dilma quanto à sua condição de “vice-presidente decorativo”. Agora ficou pior. Agora o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer deixou de ser decorativo para ser presidente terceirizado.

Bem pior, não é mesmo? Agora o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer é caudatário do PSDB, que não brinca em serviço. Sim, e ele também deverá atender aos puxões de orelha do centrão. A terceirização implica obediência. Ou faz ou racha. 

Como se deu a terceirização: o partido tucano, como não pôde assumir o protagonismo com o golpe terceirizou ao ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer encargo e label de passar uma vassoura nos direitos trabalhistas e fazer escoar a Petrobras ao capital internacional, além de garantir ao capital rentista mais lucros e gorduras.  

Mais claramente: o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer é aquele sujeito que vai passar à história como o obediente mandatário, o obreiro do desmonte, o jardineiro da desertificação. 

Assim, como presidente terceirizado, cuja parceria com o PSDB tem data certa para acabar – 2018 está ali na esquina e o PSDB vai demiti-lo – o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer sabe que vai arrostar todos os desgastes decorrentes dos ataques aos trabalhadores, enquanto o tucanato ficará à espreita e – não tenha dúvida –, lhe fará oposição oportunista e tática sempre que julgar necessário. 

Resumo: o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer continua como decorativo ao assumir sua condição de presidente terceirizado. E o que é pior: não tem mais a quem mandar carta lamentando sua desdita.
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Foto: https://www.google.com.br/search?q=temer&client=firefox-b&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwiLlcfIi_POAhUHgpAKHeO1C-8Q_AUICSgC&biw=1920&bih=922#imgrc=XkAFAFXVcWx--M%3A


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Lembranças do sertão



http://www.flickr.com/photos/gustavopenteado/sets/72157621789524333/detail/


Saudade de Ti Zé Guilherme
Este rosto de vaqueiro lembrou-me fortemente a imagem de Ti Zé Guilherme, na verdade tio de Minha Mãe. Senhor das terras da Fazenda Jordão, acres de terra seca e nordestina, região central do Rio Grande do Norte.

Rijo como um cardeiro, forte como um lajedo, tinha no corpo espigado a marca do sertanejo. Tomava rapé e fumava cigarros de fumo bruto. Pai de Zé Guilherme Moço, Lurdinha e Mariinha. Luquinha, filho mais novo, lidava com o gado e o roçado.

Seu cavalo chamava-se Soberano. Era bicho arisco e difícil de selar e enredear. Cavalo bom de gado e ligeiro; zanho que só ele. Eu era doido por aquele cavalo. Bicho castanho, alto de cernelha, crina preta. Espantadiço, olho de coisa braba, jeito de cangaceiro.

Fui à fazenda acho que só umas duas vezes. Ali vi Vovó Lulu, mulher de Ti Zé Guilherme, pilando café. Colhido não sei como naquelas terras bravias. Passei a chamar Vovó Lulu de Vovó Lulu porque todos os meninos d fazenda a tinham nessa conta: vovó de todos, abraço gostoso em colo de mulher grande, matrona, dessas que amparam, protegem, refugam medo de tudo. Ô, Vovó Lulu, que saudade...

Ela era assim: sertaneja gorda, bonachona, o cabelo preto mesclado de fios alvos. Tudo puxado para trás, enfeixado num totó. A pele branca de há muito recoberta por um bronzeado entranhado, como somente o sol do sertão ferrenho pode fazer. Se você não é nordestino não sabe do que eu falo.

Lá no Jordão tinha também uma vaca de quem eu gostava muito: chamava-se Mangaba e dava um leite bom que só o cão. Naquele tempo, idos de 1959, era assim: quando uma coisa era mesmo muito boa, a gente dizia que era “boa que só o cão”. Não era “bom que só Deus”, mas bom que só o cão. Esquisito, né? Mas era assim mesmo: bom que só o cão...

A Fazenda Jordão me veio hoje à mente . Mexendo nessas coisas da net vi a foto deste vaqueiro. E me chegou também, de repente e num minuto, uma saudade tardia daqueles tempos. Saudade esquecida nas gavetas avoengas da memória de um menino que ainda teima em morar em mim

Às vezes esse menino me chama e me diz: "Rapaz, Soberano ainda espera ser montado; para que você e ele somados se metam na caatinga à procura de Mangaba: é hora de tirar  leite. O leite dos peitos fartos daquela vaca sertaneja."

Mas isso é só lembrança. Hoje eu vivo o meu hoje e digo: Ave, Maria, que tempo é esse? Mas, dai-me Senhora Mãe, coragem, espora e sela; coragem e decisão, que o tempo é de seca é pó. E que vez por outra, Senhora, me venham as lembranças de Ti Zé e do cavalo Soberano


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Faça um bom negócio



https://www.google.com.br/search?q=brasil&client=firefox-b&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjejLf68dfMAhXK6SYKHTTFCSoQ_AUICSgD&biw=1920&bih=922#imgrc=TZekceEgSRFA1M%3A
 Vende-se 
um país



Em política não há gratidão
nem reconhecimento."

(Majó Theodorico Bezerra, político da velha guarda, filiado ao antigo PSD)

Vende-se um país, largo, bem montado. Vende-se um país, bom de se morar. Vende-se um país, alto, florestado; vende-se uma terra, boa de plantar. Ah! Vende-se mais. Vende-se tudinho, dá-se até que seja; só que, lá por trás, vem minha gorjeta.Vende-se esta terra, pode olhar seu moço. Já viste maior, rica, mais ornada? Viste rios maiores, grossos, caudalosos, todos bem bonitos, prontos pra pescar?

Vende-se um país. Vende, vinde, veja. É aqui mesmo, entende? Começa na praia, vai até lá longe, onde bem de noite, sempre o sol se esconde. Tem índio, tem bicho, tem folha e tem mato. Também tem cidade, que vale se ver.

Vende-se um país. Já tem quem o queira. Se tu não te apressas, perdes a pechincha. A venda é ligeira, por baixo do pano. Sem rastros, caneta, papel assinado. Me pagas primeiro, depois vamos ver... O povo é ordeiro, ganha uma miséria, só olha TV. Besteira, nem liga o que tu vais fazer. Pagou, tem direito: pagou, vai entrar. Tu entras sozinho. Tu vais me dizer: "Valeu velho amigo, é terra pra valer.

Vende-se um país. Todo, por inteiro. Mas venhas depressa ou se entrega tudo.Compra este país, tá muito barato, tá de preço baixo, abaixo do mercado. Se não compras agora...mau negócio fazes.
É uma pechincha, muito conservado. Vende-se um país. Bato-lhe o martelo. Dou ao cavalheiro que lá no cantinho, fez gesto discreto e dobrou o preço.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Terror no RN: a bandidagem é quem manda



Vivemos o pandemônio, ou seja: o pandeiro do demônio

Dia 14 de janeiro publiquei neste blog texto em que satirizava a situação de descalabro e de medo no Rio Grande do Norte, entregue à própria sorte no que diz respeito à segurança pública. O texto – que segue abaixo – de alguma forma antecipava o quadro de terror hoje instalado.

Os bandidos conseguiram paralisar o transporte público, apavorar as pessoas, causar grandes danos e já causam abalos econômicos. A lentidão da resposta das autoridades é alarmante. 

O uso de forças do Exército, adstrito a uma chocante burocracia, demonstra o quanto o Estado, aqui em compreensão mais larga, Estado como ente além e acima da designação de ente federado. O Estado, enquanto instituição formuladora de ações e decisões administrativas profundas, ações de caráter nacional, tem-se mantido letárgico, lento, quase omisso. 

Os bandidos fazem de tudo ou quase tudo e o Exército não chega, é o que quero dizer.

Entendo que as ações dos criminosos são terrorismo, mesmo que lhes faltem componentes ideológicos mais profundos, semelhantes aos dos grupos terroristas típicos, ou seja: atos de violência originados e sob a tutela de uma ideologia que se alega política, libertária e, portanto, contra-hegemônica.

Na verdade, os criminosos que agem no RN apenas se diferenciam do terrorismo ortodoxo, digamos assim, por dois fatores: o primeiro já foi mencionado: eles não almejam o poder político pela violência; o segundo diz respeito ao fato de que não atacam – pelo menos não por enquanto – pessoas inocentes, antes depredam patrimônio público ou privado. 

Mas tais circunstâncias não elidem o fato de que, sim, a sociedade está aterrorizada. Especialmente porque não se vê polícia na rua e isso passa a sensação de desamparo, ampliando a possibilidade dos atos de terror.

É preciso, porém, admitir: o trabalho de inteligência da polícia tem funcionado. Tanto, que bandidos que lideram as ações têm sido capturados.
O que se espera é que a segurança pública consiga debelar essa crise, mantenha o trabalho de instalação de aparelhos que bloqueiem os celulares nas penitenciárias e garanta ao cidadão o direito de viver em paz. 

Mas não confio que a Polícia Militar do Rio Grande do Norte aprenda com a lição e passe a agir como dela se espera: desenvolvendo enérgicas ações tático-estratégicas, ações diuturnas com resultados preventivo-repressivos à altura do que a situação cotidiana está a exigir. 

PS: segue abaixo a crônica mencionada no início deste texto.
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Sindicato dos Ladrões, Arrombadores,
Assaltantes e Similares-Silada/RN


NOTA OFICIAL

A entidade supramencionada vem a público convocar tal e operosa categoria para que empreenda esforços a fim de implantar no Rio Grande do Norte um regime de terror e dominação em 2016. 

Sabedores de que a Polícia Militar não dispõe de tropas, recursos ou número suficiente de viaturas para nos enfrentar, envidaremos esforços para que todos os nossos associados possam usufruir de tal estado de coisas com total liberdade e desenvoltura. 

As explosões de cofres em bancos em Natal e interior do estado são o comprovante exato do que acima afirmamos. Assim, bravos companheiros, não temamos: vamos agir com vigor e força a fim de assegurar a todos e a cada um de nós o que é de direito: assaltar, arrombar, roubar e agir sem temor já que a PM não tem condições, como supramencionado, de nos enfrentar. 

É imperioso notar que a falta de vigilância é indício fortíssimo de que especialmente Natal não dispõe de um sistema de ronda digno desse nome.
Assim, temos literalmente a obrigação de, como profissionais competentes e respeitáveis no mundo do crime, trabalhar para garantir nosso bom nome perante os demais membros de nossa comunidade, seja nacional ou internacionalmente. Sejamos, portanto, literalmente bons ladrões. 

O bom ladrão não descansa. O bom ladrão agride sempre; o bom ladrão não perde oportunidade seja domingo, feriado ou dia santo; o bom ladrão é atrevido; o bom ladrão, se preciso, mata. O bom ladrão, em suma, não está nem aí: faz e acontece. 

Assim sendo, colocamo-nos à disposição de todos os companheiros: que andam sempre bem armados e botem pra quebrar.
                                    
                                     A DIRETORIA