sábado, 10 de setembro de 2011

O empresário que quer vender lágrimas

Várias vezes já fui procurado por pessoas que me pediam opinião a respeito de projetos pessoais. Coisas tipo projeto de vida, sabe? Sempre questionei o motivo da minha escolha e todos me diziam: você é jornalista. Continuei sem entender, mas...

Pois bem: há muitos anos um cidadão que se considerava poeta procurou-me na redação onde eu trabalhava para que estimasse seu talento para ser publicitário, uma vez que, como dizia, era um sensível vate; assim, completava, teria meio caminho andado para ser uma brilhante mente criativo-publicitária.
"Você sabe, né? Sou poeta. Poeta, né? Então..."

Claro que, diante de tal argumento, não tive dúvidas em dizer que ele deveria assumir seu lado publicista e arcar com a responsabilidade de tentar vender bens, serviços e ideias. Pois bem: de outra feita, um rapaz apareceu e indagou-me o seguinte: ele poderia ser um grande escritor? Perguntei por que a dúvida. Respondeu-me que pensara em escrever um livro contando o sofrimento de uma jovem que queria ser freira mas o pai, ateu, não deixava. 

Ergui-me da cadeira e aplaudi de pé, dizendo que ali estava uma grande ideia para um livro estrondoso. Ele saiu e até hoje não consegui encontrar seu livro, embora sinceramente o tenha procurado em muitas livrarias. Hoje, afinal, fui procurado por um outro amigo, com pedido assemelhado aos dois exemplos: só que agora a coisa ficou mais séria: um cidadão veio à minha casa e disse-me que, diante do quadro instalado no Brasil, especialmente em Natal, quadro digno de lágrimas, resolveu botar uma fábrica exatamente disso: uma fábrica de lágrimas. Lágrimas vendidas em casa, lágrimas entregues em casa. Igualzinho a água mineral. Alegou que chegamos a situação insustentável. Concordei. A tendência é piorar.
Não tenho dúvidas. Já está piorando. Admito. Vai ficar pior. Não questiono.

Mas então, perguntei: o que tem a haver essa fábrica? Como poderá ter sucesso? Explicou: as pessoas já choraram tanto nesse Brasil de meu Deus, tanto na Natal de Nossa Senhora, que já não têm mais lágrimas. Como assim, não têm mais lágrimas? E ele insistiu: não têm mais lágrimas por causa disso mesmo que já falei: excesso de uso das lágrimas, extinção dos mananciais lacrimais. 

Resolvi fazer um teste: li notícia policial num jornal. A morte de um cidadão pobre por notório desordeiro. Fomos à casa, em arrabalde sofrido e lamentável, e aí constatei: as pessoas lamentavam, estavam em estado de pranto, olhos vermelhos mas não choravam. As pessoas haviam esgotado seu estoque de lágrimas.

Aí compreendi o sentido da expressão "vale de lágrimas" da Salve, Rainha. Lembra?: diz que estamos "vivendo e chorando neste vale de lágrimas". E então, virei-me para o futuro e vitorioso empresário e assegurei: "Amigo, abra já sua fábrica de lágrimas. Lágrimas a domicílio serão um sucesso."
Ministério Público quer gasolina mais barata em Natal

O Novo Jornal traz notícia alentadora: o Ministério Público deu entrada no Tribunal de Justiça a ação direta de inconstitucionalidade contra a lei dos postos aprovada pela Câmara Municipal. Ou seja: quer permitir que supermercados e empresas semelhantes possam fazer funcionar postos de gasolina em suas instalações. Com isso se espera que o cartel dos postos seja desfeito, passando a viger a lei do mercado: vende mais quem tiver o melhor preço.

Os empresários do setor estavam temerosos de se verem obrigados a se curvar ao determinsmo do que eles defendem: a concorrência, alma do capitalismo. Com a iniciativa do Ministério Público, caso venha a ser acatada pelo Tribunal, terão que tornar-se ágeis e competitivos, colocando seu serviço ao dispor da sociedade em vez da sociedade ao dispor do seu lucro.

A Câmara Municipal - matéria abaixo -, postou-se contra o interesse social ao derrubar projeto de lei que obrigava os empresários a curvar-se ante a lei do mercado. Estimando-se que a Justiça tenha bom senso e também compromisso com o natalense a lei será declarada inconstitucional, uma vez que os vereadores legislaram em área que não é da sua competência. 

O Novo Jornal diz também que os empresários do setor de postos irão reagir no plano jurídico caso se vejam na iminência de dobrar-se ao imperativo social. Espero que, no fim, prevaleça o interesse coletivo.

sábado, 3 de setembro de 2011


Deu no Novo Jornal: "Decisão contra lei dos postos fere constituição".  Segue matéria e, abaixo, comento.

Um dia após os vereadores de Natal rejeitarem a mudança da lei que proíbe a instalação de postos de combustíveis em supermercados de Natal, especialistas em direito constitucional, consultados pelo NOVO JORNAL, argumentam que a questão da livre concorrência de mercado e a regulação econômica do varejo de combustíveis não são da competência da Câmara Municipal. Desde ontem, aliás, está nas mãos do procurador geral de Justiça, Manoel Onofre de Souza Neto, a deliberação sobre se irá ajuizar ação direta de inconstitucionalidade contra a lei 4.986/98. 


Segundo o advogado Erick Pereira, professor de direito constitucional da Universidade Potiguar (UnP), “a decisão dos vereadores contra a livre concorrência no varejo de combustíveis foi um voto pela manutenção do cartel do setor”. O advogado argumenta que a decisão contra a mudança na legislação, por 10 votos a 9, feriu o princípio constitucional da moralidade. “A população de Natal foi prejudicada pelos próprios vereadores que não permitiram a diminuição de preços dos combustíveis”, comentou.

Não acabou ainda

A atitude de ajuizar ação contrária à deliberação da Câmara deixa óbvio que a decisão da Câmara é parte de luta que não acabou. É claríssimo que atitude dos vereadores vai de encontro às prescrições da livre iniciativa, tendo ao fundo o interesse social. Acrescenta-se a isso a questão jurídica: deliberação em área cuja competência extrapola o disciplinamento local e se choca com a lei maior, a Constituição.

A configuração de cartel perfila comportamento ilegal e configura o domínio de segmento econômico que impõe seus preços e estabelece um mercado que como tal se distancia de regra básica, a concorrência. 

É preciso que esta reserva seja suplantada, colocando-se em seu lugar um espaço de disputa pelo cliente, que antes de tudo é cidadão e deve ter seus direitos respeitados.

BB King-You Done Lost Your Good Thing Now

Faces   Faces   Faces  Faces Faces  Faces  Faces  Faces Faces  Faces  Faces  Faces  

Vincent Price
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Leio esta matéria na Folha e comento abaixo.

Documentos mostram ligação de Gaddafi com serviço secreto dos EUA


DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS



Documentos descobertos em um prédio do governo líbio revelam ligações estreitas entre os serviços secretos dos Estados Unidos, a CIA, e do Reino Unido, o MI-6, e os serviços de inteligência do regime do ditador Muammar Gaddafi. 


Segundo informações publicadas pelo jornal "The New York Times", os documentos, achados na sede de um órgão de segurança em Trípoli, apontam que em ao menos oito ocasiões o serviço de inteligência americano enviou suspeitos de terrorismo para serem interrogados na Líbia -- país famoso por sua reputação com torturas -- dentro do controverso programa de "rendição". 


Em 2004, durante o governo de George W. Bush (2001-2009), a CIA estabeleceu "uma presença permanente" na Líbia, diz uma mensagem de Stephen Kappes, um dirigente da CIA, dirigida a Mussa Kussa, chefe dos serviços de inteligência líbios entre 1994 e 2009.

Segundo o jornal "The Wall Street Journal", a mensagem começa com "Querido Mussa" e está assinada por "Steve". 


Em Londres, o jornal "The Independent" publicou informações similares sobre ligações entre os serviços líbios e britânicos na mesma época. 


OPONENTES DO DITADOR
 

Segundo o diário britânico, os documentos revelam, entre outras coisas, como detalhes privados de oponentes do ditador líbio exilados na Inglaterra foram passados ao regime de Gaddafi pelo MI-6.

Além disso, autoridades britânicas teriam ajudado a redigir a minuta de um discurso para Gaddafi quando este decidiu há alguns anos abandonar o apoio a grupo terroristas e colaborar com o Ocidente. 


Outros documentos revelam que EUA e Reino Unido atuaram em nome da Líbia nas negociações deste país com a Agência Internacional da Energia Atômica (AIEA).

Os despachos secretos foram descobertos na sexta-feira por membros da Human Rights Watch (HRW), que o entregaram à imprensa. Segundo o "New York Times", a maioria está escrito em árabe, mas alguns estão em inglês, com as marcas da CIA e do MI-6. O jornal admite que não foi possível verificar a autenticidade dos documentos. 


Procurada pelo "New York Times", a porta-voz da CIA, Jennifer Youngblood, não quis comentar o conteúdo dos documentos. Mas disse que não é surpresa que a agência de inteligência "trabalhe com outros governos para ajudar a proteger [os EUA] de terrorismo e outras ameaças mortais". 

Acordos secretos, ações reprováveis
A descoberta dos documentos comprova a hipocrisia, os acertos às escondidas. Coisas que, na politica, na política como ação voltada para a ascensão ou manutenção do poder, é marca registrada: seja na mesquinharia da disputa por um carguinho de terceiro escalão, seja no campo amplo, plural - e brutal - do que deveria ser a grande política: as decisõe nacionais, o compromisso ético e histórico com o destino do Homem.

Fica exposta, ao que parece,  as ligações de potências ocidentais com um ditador que tinha a tortura como prática em sua política. Todavia, o discurso do Ocidente está sempre alinhavado a assertivas que têm como valores-mestres coisas como a Liberdade, a manutenção de um status quo de aparente defesa da Vida, a Equidade. 

Ledo engano: a questão de fundo pode ser encontrada tão-somente na garantia de interesses das nações poderosas, que não se recusam a alinhar-se com sistemas de poder mais atrasados e sanguinários. E temos revelada, tudo indica, a ligação com a Líbia de Kadaffi.

Na sequência veio o apoio à luta contra o mesmo Kadaffi, agora alegando-se a necessidade de proteger os direitos humanos, quando se sabe que o fim é o ambicionado petróleo do solo líbio. É isso: em nome da Liberdade garante-se a escravidão. E a política, que deveria ser fator de civilidade, se transforma e se transtorna em opressão, acordos e negociatas. Aqui e, premita-me, algures. Na mesquinharia mais rasteira da nomeação de um parente ou na escala mais alta dos conflitos. É a condição humana. Arre!
O preço da gasolina

O foco da questão a respeito da Lei dos Postos foi desviada ideologicamente a fim de garantir a continuidade impune do cartel dos cobsutíveis em Natal. Explico: o problema não está no confronto entre o empresariado da gasolina e o poderio econômico do Carrefour, empresa multinacional que, dizem as coisas de jornal da imprensa local, entraria nesse setor ameaçando o cartel. Na verdade, a questão de fundo, a intenção da lei, era beneficiar o consumidor e isso não foi levado em conta.
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O problema, ou seja o benefício social, foi levado para o campo da iniciativa privada, colocando-se os donos de postos como "vítimas" da predação de uma multinacional. O velho e surrado nacionalismo, a patriotada foi colocada acima dos interesses sociais como falso argumento para, no final das contas, atender aos interesses dos donos de postos. Trata-se de artifício ideológico para cuja consecução contribuiu muito a omissão de um movimento de sociedade civil que mantivesse os vereadores expostos ao olhar social e os recriminasse publicamente. 

Se a caso a lei tivesse sido aprovada - e aí teríamos mesmo a realidade de um confronto mercadológico - existem duas coisas, dois mecanismos de ação que o empresariado conhece muito bem para contrabalançar a presença de um concorrente poderoso: primeiro, baixar o preço e competir, o que termina sendo saudável; segundo, uso de marketing e publicidade, construindo a imagem de cada empresa. Os postos poderiam, como já é tendêndia do setor, se constituir em segmento multiserviço, ganhando espaço e alargando o potencial dos negócios.

O que não se queria, contudo, era exatamente isso: a concorrência; o cartel quer continuar exercendo seu poder e praticando os preços que quiser, solto de canga e corda. Esperemos que próximo ano o projeto seja reenviado à Câmara e, dessa vez, haja maior compromisso dos vereadores com a sociedade.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Empresários mandam claques à Câmara Municipal; é a pressão para manter cartel dos postos

A Câmara de Natal precisa aprovar a lei que permite o funcionamento de postos de combustível em supermercados. É parte da livre iniciativa a concorrência. É salutar e permite a prática de preços que atendam ao consumidor. Vejo no Twitter que os donos de postos mandaram claques fazer manifestações em protesto à liberdade de empreendimento. Querem manter o cartel e lucrar sem limites.

É preciso que a lei seja aprovada. Natal está de olho. Cada vereador está à vista da cidade.

 

Angeli, na Folha: o poder de síntese da charge muda

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O elegante salafrário

O elegante playboy queria um brinquedo novo. Já estava cansado do Porshe, do iate, da lancha offshore, dos passeios em ilhas de fantasia e mágica, prazeres e champanhe. Queria algo inesperado, instigante, perfeito. E o pai deu-lhe o presente. Deu mas não disse o que era. Somente depois de decorrido um prazo, após um certo dia, o rapaz iria saber da maravilha que estava a seu dispor. 
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O pai o enviou a viagem aos mares do sul; mas, antes, o fez assinar documento que não leu. Leu apenas uma palavra: "candidato". Sem entender, firmou o documento e viajou. Três meses depois foi trazido de volta e o pai, felicíssimo, o abraçou firmemente e o parabenizava. Lá fora, à frente da mansão, ouvia-se alarido. "O que é isso, papai?"; e o pai respondeu: "Seu presente, meu filho."

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Dito isso, o pai pegou o playboy pelo braço e o levou à janela mais alta da casa. Ao fundo movia-se grande multidão, urrando e gritando ao sol impiedoso. "E o que é isso, papai?". Ao que o velho respondeu: "Isso, meu filho, é o povo. O povo é o teu novo presente. Foste eleito deputado federal sem sequer precisar de te campanha, pois estavas em viagem, e agora tens tua paga merecida: dou-te o povo de presente. Faz com ele o que quiseres."

Emocionado o playboy perguntou: "Posso falar? Posso fazer um discurso?" - é claro que podia. Deputado ganha mesmo, e muito bem, para falar e fazer discurso. E o notável mandrião anunciou ao povo tudo o que pretendia fazer em seus próximos oitenta mandatos: "Meu povo. Estejam certos de uma coisa: não vim para trabalhar. Nasci para cometer!"


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O ocaso do bárbaro

A queda de Muammar Kadaffi é mais um exemplo do quanto um ditador pode ser odiado - e é - pelas entranhas da sociedade oprimida. O homem ditador, em sua arrogância louca, é levado a supor em si a condição de superioridade, domínio e direção. Aí está o seu erro: no âmago profundo do social, nas entranhas do povo, ferve a insatisfação alimentada pelo medo impotente até que um dia explode tudo no tiro do fuzil.

Foi assim com Kadaffi, foi assim com Mussolini, cadáver exposto em praça pública ao lado do corpo dilacerado da amante Claretta Petacci. Sem esquecer as mortes morais e humilhantes como as de Pinochet e dos generais-ditadores da Argentina. Todo tirano cultiva uma maré montante de inimigos.

E afinal mandar nos outros com poder de vida e de morte é assinar a própria morte, cultivada nos porões mais fundos da história que se faz.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011


 A história do buraco que nasceu de geração espontânea e agora quer ser uma floresta

Na minha rua surgiu há poucos dias um jovial e malandro buraco. "Geração espontânea", garantiu-me. Como se vê, trata-se de buraco, além de tudo, metafísico, filósofo e positivista. 

Perguntei-lhe sobre os seus planos, pois na minha rua já vivi momentos trepidantes com enchentes ameaçadoras e o meio-fio mais alto que a calçada e sei o que é lutar contra acidentes topográficos mal-humorados e tempos chuvosos furibundos. 
Quando surgiu, o buraco era humilde e nada ameaçador

Respondeu-me que pretende, se não conseguir ser elevado ao elegante status de piscina, transformar-se em cratera, chegar à condição de charco e, se possível, atingir o ponto de ser um pântano, onde habitarão cobras gigantescas e crocodilos que mandará vir de onde existirem tais e tamanhos animais enormes e nocivos. 
Agora já se tornou uma bocarra pronta a nos engolir

Percebi que teria problemas. Pedi licença e retirei-me, temeroso do que estaria por vir. A minha conversa com o buraco fora de manhã e, à noite, terrificado, percebi a ocorrência de estranhos fenômenos à luz do poste madrugador: curiosos movimentos de seres arredondados que se mexiam colados ao pavimento da rua: eram buracos de outras partes da cidade que tinham vindo em socorro daquele malefício que brotava da rua. 

Conferenciavam e ouvi que intentariam até mesmo tornar-se um buraco tão grande e tão profundo que, além de se tornarem pântano, chegariam à China onde promoveriam grandes tumultos e enormes desacertos. Continuei prestando atenção até que ouvi: antes de tudo, antes do pântano e dos charcos, das piscinas ou seja lá do que for, uniriam forças, se juntariam num só ente lesivo e dariam origem a uma grande floresta, dominando todas aquelas paragens. 

Finalmente aqui o início da grande floresta em  que se tornará
Isto posto, houve como que um vendaval e os buracos se tornaram um. E de repente uma folhagem desprendeu-se de enorme nuvem de poeira; dia seguinte minha rua tinha a primeira manifestação do mundo - geração espontânea vale salientar - de um matagal que, temo, virá em breve vai se espalhar em toda Natal e nos transformar não sei exatamente em quê. Mas não tenho dúvida: boa coisa não será.


domingo, 28 de agosto de 2011

Flores do dia a dia
--- Walter Medeiros - 26.08.2011

Caminho do trabalho,
Chovem-nos flores de ipê;
Roxas, claras, perfumadas, belas,
No pé de uma vasta duna.

Bela cena encanta,
Qual dia em Starnberg -
Ilha das Rosas, chuva de lírios
Brancos, perfumados, belos.

Qual encanto no chão,
Chuva de flores de jambo
Roxas, vivas, deslumbrantes,
Na esquina da minha rua.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Deu na Folha: Escritor potiguar ganha prêmio nacional

João Almino vence prêmio literário Zaffari Bourbon

DE SÃO PAULO - O escritor potiguar João Almino, autor do romance "Cidade Livre" (editora Record), é o vencedor do prêmio Zaffari Bourbon de Literatura 2011.
O anúncio foi feito ontem, durante o primeiro dia da 14ª Jornada Nacional de Literatura, que acontece na Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul.
Lamino receberá R$ 150 mil do prêmio que é considerado um dos maiores do país.
Seu livro concorreu com 228 inscritos e venceu obras de grandes autores como Rubens Figueiredo, Cristovão Tezza e Luiz Ruffato.

sábado, 20 de agosto de 2011

Espaço aberto: Estamira, presente!
Escrito por César Fernandes   

Ontem a tarde (27 de julho de 2011) Estamira Gomes de Souza, mulher negra da classe trabalhadora, catadora de lixo no Aterro do Gramacho (Rio de Janeiro) nasceu ao contrário.Tinha 72 anos e morreu cansada, mal cuidada e principalmente: não ouvida (paradoxalmente tão escutada no mundo inteiro).

A protagonista do filme que leva seu nome, dirigido por Marcos Prado e lançado em 2004 agonizou por horas no Hospital Miguel Couto, na Gávea, desassistida pelo SUS e incapaz – como a imensa maioria dos trabalhadores – de comprar sua assistência em um hospital particular.

Estamira: http://paposepitacos.blogspot.com/2011/06/530-estamira.html
Os trocadilhos apontam que a razão de sua morte se chama 'septicemia', uma infecção generalizada. Poderiam dizer que por ter transtornos mentais, Estamira deveria ter sido assistida em um asilo, ou um hospital/hospício psiquiátrico para que de lá não saísse e morresse em paz, longe do lixo, das moscas, longe da família, longe daquele mar que lhe era tão importante.

Do outro lado, os que acreditam cegamente nos governos, acreditam que a construção da rede de atenção psicossocial substitutiva à lógica manicomial está consolidada, amplificada e atuante. Não desconsideramos os avanços da instalação da rede, determinada pela lei 10216/2001. Mas, como Estamira nos alertou: existe esperteza ao contrário, não inocência.

De toda forma, Estamira passou sua vida em pé, trabalhando, replicando sua existência dentro dum lixão, desatenta aos levantes manicomiais de empresários-da-saúde-mental que discorrem trocadilhos sobre técnicas arcaicas repaginadas, assistência integral, novos medicamentos, cuspindo cifras. Alheia aos professores de Psicologia que passam o filme nas aulas e todos saem das salas com mal estar, surpresos, com pena. No ano que vem, uma nova turma assistirá sua história. Tudo bem: esta arte nos permite a distância, a contemplação, o não envolver-se e o não implicar-se.

Escutamos Estamira e observamos mais uma que sofre numa massa de trabalhadores negros, homens e mulheres que apodrecem todos os dias. Estamira é apenas mais uma entre os milhares de loucos da classe trabalhadora que já não valem mais nada ao sistema do capital e que por isto – e só por isto – são jogados no lixo para se confundirem ao inútil e ao descuido nos aterros e favelas do país.
O cinismo deste sistema traveste seu discurso delirante, denunciativo, agressivo e violento em “poesia”, “uma forma atípica de expressão”, “obra de arte”. Esta forma de arte não nos importa. Não queremos lembrar de Estamira apenas quando seu filme recebe mais um prêmio internacional. Acreditamos que não basta lamentar sua morte em cento e quarenta caracteres, num pio. Reivindicamos a vida e obra produzida ao longo dos dias de vida de Estamira. Com todos os seus direitos humanos negados, todos os serviços de saúde de má qualidade, sua péssima condição de moradia, seu trabalho precarizado, a educação negada. Seus e de todos os trabalhadores.

Não nos interessa a mera constatação de que algo vai errado. Interessa a luta pela efetividade da atenção à saúde mental no Brasil. Interessa a consolidação de equipes multidisplinares, a efetivação da Reforma Psiquiátrica, a redução de danos, a porta aberta nos equipamentos, a defesa intransigente de uma vida digna e sem desigualdade social para todos os trabalhadores. Lutando, honramos Estamira e todos os seus irmãos e companheiros desconhecidos, que nunca estrelarão um filme mas que também querem visitar o mar.

Estamira! Mulher negra, resistente, trabalhadora!
Presente!

César Fernandes é psicólogo militante da luta contra os manicômios e pela construção do socialismo.
--Texto obtido no site do /sintest/RN.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Quem matou Norma ou porque o crime compensa

Vez por outra sofremos o que se poderia chamar de abalos de folhetim: a vida nacional é invadida por ocorrência ficcional de novela da Globo quando algum personagem polêmico é morto. Até hoje se fala na morte de Odete Roitman. Da mesma forma, muitas vezes o país é varrido por noticiário envolvendo escândalos e mortes.

O que há de proximidade entre a tragédia interpretada por atores e as tragédias reais, as tragédias políticas, os escândalos familiares quando filhos matam os pais ou pais são suspeitos de assassinar filhos? Primeiro, o hífen midiático que une os dois tipos de produção: jornalismo e novela são resultantes do mesmo processo de comunicação de massa. Outra coisa: em ambos os casos trata-se da enunciação de ocorrências de impacto, com acerto em cheio no emocional coletivo via TV.

O escândalo político, a  morte de alguém por familiar atingem, de forma poderosa, o senso comum e ativam o mecanismo sequencial entre novela e noticiário. Por exemplo, os irmãos Cravinhos e o casal que supostamente matou sua filha tiveram o noticiário sequencial, acompanhamento dia a dia, como se fosse uma novela. O caso do goleiro Bruno idem. 

Assim, quando numa novela alguém morre em circunstâncias misteriosas, o caso assume um certo paralelismo ao noticiário. Só que - e aí está a grande diferença - na novela há prazo para acabar e na vida não. Na novela o autor do crime será punido mesmo que tenha matado alguém terrível como La Roitman. Dura lex sed lex. Isso dá início ao processo de catarse; Há uma compensação, viabilizada pela novela em sua enunciação, da frustração social ao ver por exemplo a libertação de criminosos de colarinho brando poucos dias ou poucas horas depois de sua captura. A novela purga frustrações pessoais ou dramas sociais, purifica de sofrimentos íntimos o telespectador que num dado capítulo vê, para sua alegria, o mau, o criminoso, o usurpador, o traidor ser punido. 

Mas termina aí a proximidade entre novela e jornalismo: a primeira engana e encanta; o outro termina por mostrar que, no fim, o crime compensa. Pelo menos parece que.

Quem matou Norma em "Insensato Coração"? Veja cinco palpites

Folha de S. Paulo
DE SÃO PAULO
A morte misteriosa da personagem Norma deixou todo mundo com a pulga atrás da orelha.
A personagem de "Insensato Coração" (Globo) morreu depois de uma discussão com Léo (Gabriel Braga Nunes), na qual sacou uma arma. Após uma luta física, o revólver caiu longe dos dois e Léo fugiu pela janela.
Momentos depois, uma pessoa misteriosa entra na sala e aponta para Norma. Ela só tem tempo de dizer "não faça uma besteira dessas" antes de ser atingida.
Entre os suspeitos mostrados no capítulo estão Raul (Antônio Fagundes), Eunice (Deborah Evelyn), Ismael (Juliano Cazarré), Fabíola (Roberta Rodrigues) e Tia Neném (Ana Lúcia Torres).
Mas, afinal, quem teria motivos para assassinar a ex-auxiliar de enfermagem que ficou rica só para se vingar do homem que a humilhou?
O F5 perguntou a cinco pessoas que trabalham com televisão ou são noveleiros de plantão.
Leia os palpites:
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João Miguel Junior/Divulgação/TV Globo
Wanda (Natalia do Vale)
Wanda (Natalia do Vale)

Norma foi assassinada por Wanda (Natália do Vale).
A mãe do Léo não enxerga os desmandos do vilão e faz de tudo por ele.
Matou Norma para que Léo não fosse prejudicado pela mulher.'
Alberto Pereira Jr., colunista do "Agora"
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Reprodução
Jandira (Cristina Galvão)
Jandira (Cristina Galvão)

Quem matou a Norma foi a Jandira (Cristina Galvão) por amor, por ciúme do Léo.
Ela sempre foi completamente apaixonada pela Norma.
Keila Jimenez, colunista da Folha
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Renato Rocha Miranda/Divulgação/TV Globo
Fabíola (Roberta Rodrigues)
Fabíola (Roberta Rodrigues)

A assassina é a Fabíola.
Ela matou a Norma porque descobriu que ela estava por trás da morte de Milton (José de Abreu).
Roberto de Oliveira, editor da sãopaulo
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Marcio Nunes/Divulgação/TV Globo
Léo (Gabriel Braga Nunes)
Léo (Gabriel Braga Nunes)

Provavelmente é alguém que eles nem mostraram.
Aliás, adorei enfiarem a tia Neném no rol dos suspeitos... Que motivos ela teria?
Mas no fundo acho que foi mesmo o Léo. De raiva dela, e para não ir em cana. Bem óbvio.
Tony Goes, colunista do F5
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Renato Rocha Miranda/Divulgação/TV Globo
Gilda (Helena Fernandes)
Gilda (Helena Fernandes)

Dá para descartar, pelas dicas que os autores já deram, algumas pessoas.
A tia Neném, por exemplo, morria na sinopse original, logo não poderia ser ela.
Outros personagens já tiveram seus finais divulgados, como a Eunice e o Raul.
Como os autores gostam de surpreender, aposto em alguém bem inesperado, como a Gilda (Helena Fernandes).
Vitor Moreno, repórter do F5