"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sexta-feira, 12 de março de 2021
quarta-feira, 10 de março de 2021
Lula está voltando e assombra Bolsonaro
Por Emanoel Barreto
A volta de Lula como potencial candidato à presidência da República está assombrando os becos mais escuros e os esconsos mais abjetos e viscosos do bolsonarismo. Desde seus mais brutos e ignorantes servidores e seguidores até os mais cínicos e mal-intencionados membros da sua elite.
Nunca nenhum governo levou este país a situação que chegasse a esse nível de indignidade: a morte literalmente se espalhando e um sujeito sem qualquer preparo no cargo de presidente.
O retorno de Lula ocorre em meio a uma conjuntura que foi sendo construída sob a liderança do então juiz Sérgio Moro, que como enxadrista do direito moveu as peças no tabuleiro político-jurídico até chegar à inelegibilidade e depois prisão do petista.
Quando, todavia, o jogo da democracia é usado contra a democracia a dialética do processo histórico entra em ação e termina por reverter o quadro, mesmo que pouco, ou pouco a pouco. E é isso o que está acontecendo: passo a passo caem os muros da Jericó de Moro, dando passagem a Lula.
Junte-se a isso a desgraça da pandemia, a inação, as atitudes broncas de Bolsonaro e temos o quadro que hoje vivemos – a hecatombe mais perfeitamente repulsiva porque bastante previsível e, portanto, evitável; o desespero de milhões, o medo de morrer. Tudo isso faz de Lula uma esperança.
Quanto à pandemia nada foi feito e tudo de ruim está acontecendo. Em meio a isso a política segue seu curso, Lula está voltando e assombra Bolsonaro. Pode até nem voltar ao fim do processo jurídico. Mas está dando um grande susto.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Fim da era Trump
Do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente
Por Emanoel Barreto
O título deste artigo, inspirado nos versos belíssimos de Juízo Final, composição de Nelson Cavaquinho, servem à perfeição para empalmar o fim da Era Trump e uma possível mudança de rumos históricos dos Estados Unidos, superando-se a política de ódio, embuste e perversidade de Trump.
Ao ver a imagem do Minotauro seguindo para o helicóptero que o levaria da Casa branca me veio a sensação de um certo alívio. Sei que sua semente é forte, os loucos que o seguem não desistirão de repente. Mas o tempo, o seguir dos acontecimentos, fará com que seja queimada sua sementeira de horrores. Tudo passa...
O Minotauro tem seguidores no Brasil. Tanto que o mestre dos desastres, aquele que ocupa a presidência da República, o estima como a um ídolo e vê nele exemplo a ser imitado.
O mestre dos desastres transformou o país no grande, perigoso, profundo e escuro labirinto, com milhares de quilômetros de confusão de idiotices, desgraçadas idiotices.
A última delas é o perigo de ficarmos ao léu, esperando a continuidade da vacinação, dependentes que somos da China contra quem o mestre dos desastres conseguiu construir uma muralha de desentendimentos.
A queda do Minotauro deverá ter consequências aqui. O novo presidente americano está em total desalinho com a pauta desvairada do mestre dos desastres, e já manifestou preocupação com a terrível realidade da Amazônia hoje sob ameaça de vir a ser terra arrasada.
Esperemos que com o início da um novo mandado, sob Joe Biden, tenha início também uma nova era, melhor, menos cáustica e turbulenta. Claro que os Estados Unidos não têm o Brasil como prioridade, somos geopoliticamente desimportantes.
A América do Sul como um todo é desimportante. Mas a mudança de presidente já é algo positivo. E quem sabe, com o fim do governo do mestre dos desastres o amor será eterno novamente.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
Vacina: o uso emergencial do direito à vida
Por Emanoel Barreto
Quando o Butantan pedia à Anvisa autorização emergencial para o uso da vacina pedia na verdade autorização para o uso emergencial do direito à vida.
Quanto mais demorava a decisão maior eram a angústia e o temor das pessoas dignas de ser reconhecidas como seres humanos dotados de escrúpulos e respeito pelo seu semelhante. Enquanto isso a pandemia, a pandemia, a pandemia...
Por sua vez, o outro lado, a banda sombria, o flanco trevoso e lúgubre apostavam na improvável vinda de uma vacina originária da Índia – e deu no que deu: Bolsonaro falhou miseravelmente em seus planos e nada conseguiu pois o governo do país asiático negou-lhe qualquer apoio, prestígio ou apreço.
Sai pra lá. Índia acima de tudo, foi o que de alguma forma lhe foi atirado na cara. Se fosse por Bolsonaro estaríamos sem nada.
E mais: sem o Butantan estaríamos sem vacina. Temos tecnologia de ponta e ficamos mendigando como dalits, segmento social vigente na Índia e composto pelos últimos dos últimos, pelos intocáveis, mulheres e homens cercados de preconceitos e injusta rejeição.
Afinal, venceu o bom senso e o uso emergencial do direito à vida está em vigor. Bolsonaro vergou-se à realidade e cambaleou, foi derrotado.
A vacinação é algo tão bom e tão justo que acolhe até mesmo os que defendem que sejamos como os dalits. Essa é outra face daquilo a que se chama democracia, ou ética, ou humanidade, ou solidariedade – você escolhe.
Para encerrar: chegada a vez dos que defendem que sejamos como os dalits tais indivíduos terão também direito à vacina, vale dizer terão direito à vida. Espero que vivam em paz.
domingo, 17 de janeiro de 2021
A ética dos monstros
Por Emanoel Barreto
A ética dos monstros da pandemia tem por base
o livre arbítrio e se manifesta em sorrisos que explodem em gargalhadas noite adentro em festas monumentais. A alegria dos monstros lhes justifica qualquer coisa bastando invocar, insisto, o livre arbítrio.Ele escolhe ir ao rega-bofe e quem quiser que morra. Literalmente.
O monstro da pandemia é alguém que caminha pelas ruas calmamente, não tem os aleijões cinematográficas típicos, pode até ser afável, elegante e sabe todas as novidades do que seja fútil e lhe traga alguma forma de felicidade empacotada.
De dia a besta fera usa seus disfarces sociais de elegância e até finesse e ninguém a percebe como perigosa - até porque essências são invisíveis. Mas o monstro, a aberração, pode ser visto à noite. Sua brutalidade se manifesta quando vai a uma grande festa. Notou que estão muito em moda festas monumentais, acontecimentos extravagantes, gente correndo para aglomerações insanas e insólitas?
É nessas festas que os monstros são vistos em toda a sua crueza de alegria disparatada. A farra sempre é garantida como "segura e dentro das normas sanitárias", e aí vêm "informações" que todos sabemos hipócritas e mentirosas: haverá distanciamento social, álcool em gel para todos, medição de temperatura, blá-blá-blá. Tudo mentira.
É aí que entram as autoridades, ou melhor: é aí onde se omitem as autoridades – ninguém faz nada para impedir tais acontecimentos, como se vivêssemos o melhor dos tempos.
As autoridades omissas são parte cúmplice da ética dos monstros. Foi assim no Amazonas. Pode vir a ser aqui também. Depois não se poderá reclamar. Mas pode ser de tirar o fôlego.
sábado, 16 de janeiro de 2021
Ave César, os que vão morrer te saúdam
Por Emanoel Barreto
Há os loucos sublimes e maravilhosos, há os poetas; existem os caminhantes noturnos e os visionários – são alegres ou tristes de uma alegria de magnífica alucinação de fazer e produzir, ou tristes da tristeza de descobrir no Homem a fera de si mesmo, a besta que fere e mata e canta – e se alegra em ferir e matar e por isso mesmo matou e cantou.
Há também os loucos da loucura irada, da fúria bruta e vil, acoitados nas tocas e nos buracos e esgotos, de onde saem para fazer o mal a quem vier. E não são poucos.
Vivemos no Brasil a insana realidade da morte misturada a festas sujas, instantes da mais sórdida manifestação do que somos como humanidade.
Pior: o País está entregue a tipos da mais baixa estatura moral, insensíveis, cruéis e deploráveis. Para lhes fazer frente, afinal começaram os gritos pelo impeachment de Bolsonaro.
É preciso vencer essa loucura. Há como que um plano de psicopatas, ansiosos pelo descalabro como forma de vida em sociedade, dementes que acreditam em sua própria monstruosidade como manifestação de algum tipo de crença depravada e mórbida.
No ponto mais escuro do abismo temos a realidade de Manaus que chegou a tal ponto em decorrência de fatos que convergiram para chegarmos à situação desesperadora atualmente vivida.
Primeiro, a atitude de fraqueza do governador do Amazonas, Wilson Lima, que se dobrou aos empresários e reabriu o comércio mesmo frente à visível iminência do desastre; depois, a participação da sociedade que acorreu às ruas também querendo o comércio funcionando, e afinal a inegável e estúpida omissão do governo federal frente ao agravamento da situação.
Foi o caldo perfeito para que o desplante e o desastre se instalassem. Infelizmente isso é o Brasil. No Rio Grande do Norte parece que estamos no mesmo caminho.
A morte comanda a festança enquanto os bacantes parecem cantar a plenos pulmões o soturno lema dos gladiadores, que na Roma antiga faziam para as elites a festa da morte e diziam: “Ave César, os que vão morrer te saúdam.”
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
O gol do centrefó
Por Emanoel Barreto
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
Brasil: país odioso, lamentável, cruel e muito podre
Por Emanoel Barreto
O Brasil superou 200 mil mortos pela covid ante um constrangedor silêncio de entidades da sociedade civil como OAB, ABI E CNBB, tradicionais bastiões da defesa das grandes causas nacionais.
Por outra parte, multidões em festa reúnem bacantes frívolos e a estas se juntam negacionistas alucinados e descrentes do perigo da pandemia; um indivíduo amalucado preside o país, incentiva decididamente a aglomeração de pessoas, zomba da ciência e do bom senso e agride os que ousam contrapor-se às suas atitudes escrachadas.
Temos um pandemônio. Reina a desinformação. Mortes se acumulam.
As vergonhosas multidões que acorreram ao chamamento da festa e da esculhambação são o resultado dessa situação de incúria e má-fé. Não há mais como ficar em silêncio covarde e conivente. É preciso uma ação de sociedade civil vigorosa e altiva, é preciso que alguém diga: “Eu acuso!” e parta para o enfrentamento da barbárie como fez Émile Zola em defesa jornalística do capitão Alfred Dreyfus – judeu e por isso vítima de perseguição pela nobreza militar francesa.
No caso, é preciso que alguém faça a acusação da ominosa omissão das autoridades de Brasília, uma vez que não há mais como esperar que cresça tanto sofrimento.
Nada justifica que o país continue postergando uma solução. É hipócrita e sórdida a atitude de quem se posta contra a exigência de que somente funcionem as atividades essenciais. O manto esfarrapado que serve de bandeira à alusão da perda de empregos e possibilidade de fechamento de empresas rasteja ante a perda de vidas, essas sim importantes e insubstituíveis.
O silêncio será sinônimo de conivência e o disfarce da tibieza, o silêncio será a supressão do gesto corajoso de desatar os nós e fazer navegar a nau da denúncia e da acusação. Mas há uma verdade que se faz presente e tal verdade é esta: não há como continuar nessa marcha louca de mortes sobre mortes.
Em Manaus o inferno da covid voltou. O jornal El País noticiou: “Cento e dez pessoas foram sepultadas em um único dia em Manaus. A marca, 233% maior que a média de antes da pandemia, foi atingida nesta quarta-feira (ontem) após quatro meses de registros de aumento no número de internações por covid-19 na cidade. Dezenove pessoas morreram em casa. As mortes fora do ambiente hospitalar mostram o tamanho do problema: sem vagas na rede privada e com a rede pública operando com média acima de 90% de taxa de ocupação de leitos de UTI e leitos clínicos nas duas últimas semanas, a capital amazonense enfrenta a segunda onda da pandemia, iniciando o ano de 2021 na fase mais grave do plano de contingenciamento da doença: a fase roxa, onde a previsão de esgotamento de leitos de UTI é em até seis dias.”
É muito horror e grande o número de mãos que se lavam diante das vidas perdidas. O comércio em Manaus só foi fechado por ordem judicial pois o governo local havia se ajoelhado à pressão dos empresários. É deplorável e nojento o espetáculo. É muito sujo o silêncio omisso da sociedade civil.
Citando Zola enfatizo o que ele escreveu antes do prefácio de J’accuse! Disse ele “a verdade está em marcha e nada a deterá.” No Brasil que pode se confundir com uma espécie de campo de concentração a céu aberto a verdade fará o julgamento histórico. E haverá a constatação de que aqui se passou algo de odioso, lamentável, cruel e muito podre. Mas já será muito tarde. O silêncio foi o cúmplice feroz e calado de tudo o que se passou.
Sou apenas um cidadão. Mas eu acuso!
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
O compasso dos pés faz o caminho
Por Emanoel Barreto
Talvez seja difícil encontrar caminhos, mas havendo pés existirá sempre a possibilidade de uma partida e uma chegada. O que estiver no meio da caminhada é o caminho: e ele será sempre será único para cada um, para cada tipo de situação, para cada instante, cada pequena eternidade da espera até que se cumpra a intenção de chegar.
Caminho não é estrada; a vereda que cada um percorre pode ser alterada a qualquer instante; basta mudar de ponto de vista, quebrar o compromisso inicial da viagem e pronto: muda-se o caminho, esse destino incerto e não sabido.
Estrada é diferente de caminho. Na estrada há um caudal de rodas, há pressa, velocidade, ânsia de chegar. Já o trajeto feito a pé, o andar, é coisa de cada um, tem a haver com o que é vivido na solidão humana, no pensamento calado, no que foi superado ou perdido e precisa ser substituído ou mudado.
Os caminhos, especialmente aqueles que fazem ziguezague num terreno largo, são mapas, registros, latitude e longitude de pessoas que se passaram, gente que foi ou está voltando.
A senda, na floresta ou em campo aberto é desafio, chamamento ou escolha. É a vida mesma que se vive ao compasso dos pés e da coragem.
sábado, 2 de janeiro de 2021
O Brasil é uma sala escura
e sua História
um pano sujo exposto no varal
Por Emanoel Barreto
Ingresso em 2021 como quem chega a uma sala escura e grande. E sem saber exatamente como combater/enfrentar/conviver/superar/aceitar o que já existe lá dentro.
Sei somente que há restos a pagar de 2020, dívidas humanas contraídas por equívocos tão nossos, dúvidas quanto ao que virá, a certeza da incerteza, o possível passo em falso na escuridão que nos cerca, a vida rasurada e encardida, gente morrendo, pano sujo exposto no varal da História.
Ao que tenho visto não vão se abrandar os ânimos nem se acalmar os intentos ou se aclarar no Homem o sentido de humanidade, aqui proposta como alguma forma respeitosa de convivência de contrários. Entendo que até inimigos podem ser leais.
E por entender essa forma de lealdade – e defendê-la –, lembro John Lennon e cito verso de Imagine, sua composição mais emblemática da fase pós-Beatles: “You may say I’m a dreamer/ But I’m not the only one”.
Sei, todavia, que estamos num tempo de cólera e ódios sinceros. Espero que a sala escura vá aos poucos se aclarando e os passos venham a se encaminhar a um rumo certo e a navegação a um bom porto. Espero, não tenho certeza. Na verdade, desejo; e em vez de esperar prefiro esperançar mesmo sabendo o quão difícil será chegarmos a algo de bom e de justo.
Mas volto ao meu acorde em tom maior e insisto, com a pequena ajuda de Lennon: “You may say I’m a dreamer/ But I’m not the only one.”
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
A quarta-feira de cinzas do réveillon
Por Emanoel Barreto
Hoje é a quarta-feira de cinzas do réveillon. Muitos dos que festejaram o Ano-Novo estão espichados nas areias das praias ou espojados em suas camas, enevoados pela ressaca da insensatez. Depois vão acordar para a realidade.
E a realidade é a seguinte: em mais alguns dias muitas dessas pessoas estarão nas redes sociais alarmadas com os sintomas da covid, pedindo orações e clamores para escapar das previsíveis consequências de ajuntamentos em tempos de peste.
As multidões que acorreram ao chamamento pelos festejos são explicáveis, enquanto fenômeno, por múltiplos conhecimentos acadêmicos que vão da sociologia à psicologia social, da antropologia social às teorias de comunicação e, claro, dos estudos sobre ideologia.
Não é o caso deste artigo tratar do fenômeno da alegria descontrolada e aluada enquanto objeto de interesse acadêmico. Estou aqui para expressar não só indignação com tal comportamento – e lamentar a omissão das autoridades de todo o país na repressão aos ajuntamentos – mas especialmente para manifestar minha perplexidade.
E faço uma pergunta: por que uma pessoa adulta e informada a respeito do perigo busca esse perigo? Vale a pena morrer por uma taça de champanhe, uma caneca de chopp, uma boa dose de cachaça, um uísque, um brinde?
Creio que os valores de uma sociedade voltada para o ter acredita de forma difusa que esse ter significa possuir até mesmo o tempo – o tempo da festa, no caso – como se fosse possível, nesse tempo, haver felicidade e segurança na busca do estar alegre e sentir-se indomável e vencedor: senhor da vida, parelha da mesquinha eternidade daquela glória boba e seus momentos de euforia que tanto iludiram o inebriado herói de Baco.
O pior é que o preço a pagar será cobrado também aos que não foram às festanças, a conta irá aos que vão lotar hospitais e UTIs, às famílias que perderão filhos, pais, mães e avós.
As multidões de pessoas vazias se desfizeram. A festa acabou. O estado socialmente líquido de tais encontros escorreu pelo esgoto do cansaço e da exaustão dos bacantes e agora eles dormem.
O tempo não para e amanhã vai ser outro dia. E esteja certo: por causa do réveillon cuidado, há perigo na esquina.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Vamos viver ao sol da Vida
Por Emanoel Barreto
Observando nossa vida em perspectiva reversa, ou seja, olhando o nosso passado e o que fizemos ao longo do percurso podemos perceber o quanto tudo se modificou depressa. Em nós e à nossa volta tudo mudou muito rápido – talvez depressa demais, para desespero de alguns.
A incapacidade de aceitar a impermanência das coisas, a mutação silenciosa e implacável dos nossos corpos no envelhecimento diário, o desfazimento de laços de afeto, a perda de bens materiais, o fracasso de sonhos – só para citar alguns casos – tudo isso pode trazer sofrimento e dor a quem não se preparou para perdas e mudanças que a imaturidade de muitos entende como inaceitáveis.
A mutabilidade de tudo em direção ao fim é o grande problema. Somos impotentes, não conseguimos impedir de mudar aquilo que foi feito para se desfazer e finar.
O inverso desses apegos a coisas e pessoas a quem desejamos ter a nosso lado diz respeito ao apego a coisas e pessoas que nos fazem mal.
Refiro ao quanto é difícil nos livrarmos do ódio a alguém, do ciúme de alguém, do medo do outro, da submissão ao opressor – aqui não no plano ideológico, mas pessoal – da falta de atitude frente àqueles que nos ferem ou ameaçam.
O apego à saudade, o acorrentar-se a velhas ofensas, a insistência em não perdoar são formas terríveis e ilusórias de experienciar nosso processo existencial na cotidianidade do pó que escorre na ampulheta da vida. Pura perda de tempo.
Suspeito, todavia, que talvez seja mais fácil superar a perda de alguém a quem amamos que nos desvencilharmos do ódio pelo outro. O abraço ao ódio é terrível e faz mal, muito mais mal a quem o sente do que àquele a quem é dirigido. Porque o ódio é vivido somente por quem o interiorizou. É impossível fazê-lo chegar em essência ou toque corporal àquele que é alvo de tal sentimento. O ódio é um sofrimento em vão. Mas, quanto apego existe por ele.
Essa valorização do negativo é mero fruto de construções mentais. A pessoa passa a acreditar na importância do ódio como objetivo de vida e no despeito como forma de compensação. O mesmo se diz da inveja, da frustração, do sentimento de culpa por não ter atingido um certo propósito, seja sucesso pessoal ou vingança a quem o magoou.
Tudo isso porém, analisado friamente, revela-se como algo tolo e desnecessário, pueril e gerador de mais sofrimento aos que têm no negativo seu referente e o carrega como coisa própria e essencial. Mas esse sofrimento é passível e possível de superação. Basta refletir. Com método e decisão é possível livrarmo-nos de tais situações e viver cada dia com consciência de cada momento.
Viver passo a passo creio que seja o melhor caminho para ficar em paz. A idade, para quem já envelheceu, deve ser tida como resultado de todo um processo de vivências e aprendizados.
Se a idade nos sinaliza a proximidade do ocaso não é preciso apegar-se à saudade. Mas sorrir às lembranças de tudo o que nos fez chegar até onde chegamos e ao tudo que somos. Sem medo, sem lamentar tempo perdido. Não há perda de tempo quando se soube viver ao sol da Vida.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
Os monstros não têm medo
Por Emanoel Barreto
É verdade, os monstros não têm medo. Os monstros são arrogantes, atrevidos, insolentes, brutais, descarados; afrontam a tudo e a todos desde que satisfaçam os seus mais baixos instintos: no caso, desacreditar a ciência, estimular a estupidez das festas e aglomerações, brindar enquanto tantos morrem. A pandemia tem mostrado o quanto os monstros são tudo isso: de ruim e de pior.
Há, contudo, um aspecto a salientar: se os monstros não têm medo não significa que tenham coragem. Insolência não é coragem; estupidez não é bravura; desrespeito não é brio; barbaridade distancia-se de atitude resoluta; ofensa nada tem a haver com a serenidade firme da pessoa digna.
Explica-se: o monstro, a besta humana, não tendo medo de agredir não o faz por ser valoroso, mas por ser apenas monstro.
Mesquinho, brande seus desvarios e zomba do sofrimento de milhares; baixo, apequena-se mais ainda com a sórdida alegria de gritar de alegria. Como Neymar, que realiza um festim lamentável reunindo quinhentas pessoas.
Mais um exemplo: a brutalidade bolsonariana estagnou a vacinação e até hoje vivemos um limbo e uma pergunta: quando, quando as pessoas começarão a ser vacinadas? No Brasil, ninguém sabe.
O pior é que muitos já foram contaminados pela monstruosidade e estão se preparando para o réveillon. É uma espécie de comemoração de Nero, que tocava harpa e bebia enquanto Roma ardia em meio às chamas que ele mesmo havia provocado.
O monstro não tem medo porque em seu lugar tem ferocidade. E tem ferocidade porque se julga invencível, blindado, intocável. Na verdade, é apenas um ignorante, alguém tosco e perverso.
Vêm aí as festas finais do ano e depois delas chegarão as dores e os desesperos de muitos – dos que foram às dionisíacas comemorações despidos de qualquer senso de dignidade e dos que de alguma forma serão por eles contaminados.
Os monstros não têm medo pois já estão na lama até o pescoço. Os demais devem continuar deles distantes, evitando a sua baba. Vade retro.
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
“Hey, Joe! You are a good guy!”
Por Emanoel Barreto
As consequências de falhas no processo de comunicação podem ser desastrosas, notadamente se o comunicador se apresenta de forma exacerbada e se expõe entre o ridículo e o grotesco.
Quando afinal se percebem o grotesco e o ridículo desmonta-se o espetáculo e fica difícil fechar a cortina.
Foi exatamente isso o que aconteceu com Bolsonaro em sua renitente necessidade de expressar sucumbência e vassalagem a Donald Trump. Com isso passou a seu público a sensação de que eram muito próximos, mais que isso: aliados. Na verdade, porém, para o minotauro americano o brasileiro não passava de um sujeito de mínima importância.
Mas as mesuras, para o senso comum de seus seguidores, terminaram por criar para Bolsonaro um liame ilusório mas poderoso com Trump, como se verdadeiramente fossem aliados, amigos, quem sabe. Ou você não via nas manifestações bolsonaristas as bandeiras cheias de estrelas e listras ladeando o verde-amarelo nacional?
O imaginário espelhamento entre Bolsonaro e Trump forjou o simulacro da aliança e proximidade pessoal e deu no que deu ao fim do processo eleitoral americano: com a derrota do minotauro ficou muito difícil ao brasileiro admitir que de alguma maneira ele também foi metaforicamente derrotado e arrastado na enxurrada da queda trumpista.
Com isso tornou-se complicado saudar o vencedor. Parabenizar Joe Biden, na situação de Bolso, ficou muito além e muito acima do gesto cordial e diplomático de cumprimentar um presidente eleito.
Para ele isso passou a significar uma forma de humilhação, pois seu ídolo dos pés de barro ruiu, devagar, mas ruiu; teve expressiva votação, mas está prestes a ser retirado da Casa Branca.
Tivesse Bolso a capacidade de compreender os meandros e as questões complexas da geopolítica jamais teria se apresentado como animadíssimo admirador de Trump, nunca teria envergado a libré para respeitosamente dele se aproximar.
A política é um jogo, é algo de teatral e retórico, tem muito de encenação e fantasia. Mas no fundo é algo muito sério, pois se no palco do mundo valem o jogo de palavras e a gestualidade de grandeza ou humildade, na essência da política há que ser sério e ter consciência de com quem se está lidando.
Agora ficou difícil. Parabenizar Joe Biden, comportamento que seria unicamente um cumprimento simbólico foi transformado por Bolso num ato de política internacional. Superável, passageiro, mas, no momento, ridículo.
E lembrar que bastava ter pedido a alguém para ensiná-lo a dizer: “Hey, Joe! You are a good guy!” – simples assim.