sábado, 16 de janeiro de 2021

 Ave César, os que vão morrer te saúdam

Por Emanoel Barreto

Há os loucos sublimes e maravilhosos, há os poetas; existem os caminhantes  noturnos e os visionários – são alegres ou tristes de uma alegria de magnífica alucinação de fazer e produzir, ou tristes da tristeza de descobrir no Homem a fera de si mesmo, a besta que fere e mata e canta – e  se alegra em ferir e matar e por isso mesmo matou e cantou.

Há também os loucos da loucura irada, da fúria bruta e vil, acoitados nas tocas e nos buracos e esgotos, de onde saem para fazer o mal a quem vier. E não são poucos.

Vivemos no Brasil a insana realidade da morte misturada a festas sujas, instantes da mais sórdida manifestação do que somos como humanidade.

Pior: o País está entregue a tipos da mais baixa estatura moral, insensíveis, cruéis e deploráveis. Para lhes fazer frente, afinal começaram os gritos pelo impeachment de Bolsonaro.

É preciso vencer essa loucura. Há como que um plano de psicopatas, ansiosos pelo descalabro como forma de vida em sociedade, dementes que acreditam em sua própria monstruosidade como manifestação de algum tipo de crença depravada e mórbida.

No ponto mais escuro do abismo temos a realidade de Manaus que chegou a tal ponto em decorrência de fatos que convergiram para chegarmos à situação desesperadora atualmente vivida.

Primeiro, a atitude de fraqueza do governador do Amazonas, Wilson Lima, que se dobrou aos empresários e reabriu o comércio mesmo frente à visível iminência do desastre; depois, a participação da sociedade que acorreu às ruas também querendo  o comércio funcionando, e afinal a  inegável e estúpida omissão do governo federal frente ao agravamento da situação.

Foi o caldo perfeito para que o desplante e o desastre se instalassem. Infelizmente isso é o Brasil. No Rio Grande do Norte parece que estamos no mesmo caminho.

A morte comanda a festança enquanto os bacantes parecem cantar a plenos pulmões o soturno lema dos gladiadores, que na Roma antiga faziam para as elites a festa da morte e diziam: “Ave César, os que vão morrer te saúdam.”

 

 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

 O gol do centrefó

Por Emanoel Barreto 

De repente veio a lembrança do Colégio São João. O colégio e seus dois campos de futebol. Anos 60. O colégio era uma lembrança grande, larga como o passado. O primeiro campo, verdadeiro forno com seu chão de areia calcinada, servia para partidas improvisadas. O outro campo, não: gramado, com medidas oficiais, era usado para prélios renhidos, jogadores com posições definidas. Os professores eram os técnicos. 

Era o tempo de Pelé, Vavá, Zagalo, Garrincha, Gilmar, Djalma Santos, Didi, Nilton Santos. O Brasil bicampeão. Goleiros eram chamados de goalkeeper, valendo também guarda-valas, mas também se aceitava dizer arqueiros. 

O menino tinha uma decisão: entrar para o time da classe e disputar o campeonato do colégio. Munido de uma vontade secreta e firme começou a treinar. Depois de muito esforço foi aceito no time. E mais: ia ser o “centrefó”. Quando o professor anunciou sua posição no time, ele quase caiu. Já pensou? Ele ia ser o centrefó. Era o máximo. 
 
A expressão inglesa center for ward, absolutamente impronunciável para aqueles meninos dos anos 60 acabou virando isso mesmo, centrefó. Ele jamais imaginaria que, anos depois, todos estariam chamando centrefó de... centro-avante.

E ele ia ser o centrefó. A posição na equipe, vista como algo quase heróico, o jogador avançado que rompia defesas com seus dribles mágicos, era o sonho afinal realizado. Chegou em casa, contou aos pais, riu e, na rua, com os colegas, gritou: – Eu sou o centrefó! Eu sou o centrefó! Era o sonho calçando chuteiras. Sentiu-se completo. A vitória antecipada. O gol, guardado na gaveta das vontades, afinal iria brotar dos seus pés.

Veio então o jogo. Antes de entrar para a equipe principal ele somente havia jogado no campo de areia. Era o que os meninos chamavam de futebol de poeira. Ali, ninguém tinha posição definida, os pés afundavam e cada chute levantava uma nuvem, daí o nome futebol de poeira. Detalhe: naquele campinho de areia, ele jamais havia marcado o “seu gol.” Mas agora, não: faria muitos gols, e gols de classe, gols marcados num campo de verdade.

Afinal veio o jogo. O juiz apitou. Na tela das lembranças a partida foi lembrada quadro a quadro. Os lances duros, as jogadas corajosas, até mesmo aquela bicicleta que quase vira um gol. Tudo, tudo foi devidamente revisto com os olhar retrasado da saudade. Seu time ganhou. Cinco a um. Mas não deu para ele fazer o “seu gol”. Nem naquele jogo, nem nos outros. Jogava bem, mas não conseguiu o gol.

A vida escorreu sob os seus pés, acabou o ano, acabou-se o tempo de colégio, tudo passou. O colégio São João virou aquela lembrança travada na alma. Um dia tomou uma decisão: aquele gol não podia ser apenas uma vontade com sabor de derrota, um passe malfeito num jogo que dentro dele nunca tinha fim. Então, num final de tarde entrou numa loja de material esportivo, comprou a melhor bola e dirigiu-se ao colégio.

Ali todos estranharam ao ver aquele senhor: paletó e gravata, cabelos grisalhos, entrando colégio adentro, segurando uma bola. Ele escolhera o momento de maior movimentação no colégio. Era final de aula. Centenas de meninos deixavam as salas em meio a gritos de estopim, livres de professores chatíssimos.

Ele cruzou a curiosidade geral como um tiro de meta batido por Bellini em 1962 e dirigiu-se ao campo. Todos o acompanharam. Mais e mais meninos o seguiam. Ele passou pelo campo de futebol de poeira, já seguido por uma multidão e pronto: chegou ao campo gramado.

Dirigiu-se à marca do pênalti e ajeitou a bola. Os meninos ficaram ao redor, deixando a trave ao fundo. Ele estava em meio a um largo círculo de expectativa. Todos perceberam que viviam ali um momento especial e intenso. O rigor na face severa daquele homem, a luz do crepúsculo, a seriedade de cada gesto seu, tudo dava à cena uma composição litúrgica, ritual. Todos respiravam compassadamente; ninguém entendia nada, mas havia respeito em todos os olhares.

Ele afastou-se da bola, esperou um pouco e correu. O chute bateu na bola com força, uma força de raiva alegre e solene. A bola partiu. Como se fosse em câmera lenta cravou o gol no ângulo direito. Balançou a rede e desceu, belíssima, até se esconder lá no fundo.

O estranho saltou e deu um soco no ar. Nesse instante explodiu uma fagulha de emoção feito rastilho de pólvora. Fascinados, todos os meninos gritaram: – Gooooooooool! – e se abraçaram. Em silêncio, tal como chegara, o homem retirou-se. Deixou a bola lá, no cantinho da rede. Ao sair, ouvia aplausos, aplausos antigos, ecos que somente agora chegavam, tão tarde, depois de tanto tempo...

Nunca mais foi visto no Colégio São João; mas agora estava realizado; agora ele era realmente o centrefó.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

 Brasil: país odioso, lamentável, cruel e muito podre

Por Emanoel Barreto

O Brasil superou 200 mil mortos pela covid ante um constrangedor silêncio de entidades da sociedade civil como OAB, ABI E CNBB, tradicionais bastiões da defesa das grandes causas nacionais.

Por outra parte, multidões em festa reúnem bacantes frívolos e a estas se juntam negacionistas alucinados e descrentes do perigo da pandemia; um indivíduo amalucado preside o país, incentiva decididamente a aglomeração de pessoas, zomba da ciência e do bom senso e   agride os que ousam contrapor-se às suas atitudes escrachadas.

Temos um pandemônio. Reina a desinformação. Mortes se acumulam.

As vergonhosas multidões que acorreram ao chamamento da festa e da esculhambação são o resultado dessa situação de incúria e má-fé. Não há mais como ficar em silêncio covarde e conivente. É preciso uma ação de sociedade civil vigorosa e altiva, é preciso que alguém diga: “Eu acuso!” e parta para o enfrentamento da barbárie como fez Émile Zola em defesa jornalística do capitão Alfred Dreyfus – judeu e por isso vítima de perseguição pela nobreza militar francesa.

No caso, é preciso que alguém faça a acusação da ominosa omissão das autoridades de Brasília, uma vez que não há mais como esperar que cresça tanto sofrimento.

Nada justifica que o país continue postergando uma solução. É hipócrita e sórdida a atitude de quem se posta contra a exigência de que somente funcionem as atividades essenciais. O manto esfarrapado que serve de bandeira à alusão da perda de empregos e possibilidade de fechamento de empresas rasteja ante a perda de vidas, essas sim importantes e insubstituíveis.

O silêncio será sinônimo de conivência e o disfarce da tibieza, o silêncio será a supressão do gesto corajoso de desatar os nós e fazer navegar a nau da denúncia e da acusação. Mas há uma verdade que se faz presente e tal verdade é esta: não há como continuar nessa marcha louca de mortes sobre mortes.

Em Manaus o inferno da covid voltou. O jornal El País noticiou: “Cento e dez pessoas foram sepultadas em um único dia em Manaus. A marca, 233% maior que a média de antes da pandemia, foi atingida nesta quarta-feira (ontem) após quatro meses de registros de aumento no número de internações por covid-19 na cidade. Dezenove pessoas morreram em casa. As mortes fora do ambiente hospitalar mostram o tamanho do problema: sem vagas na rede privada e com a rede pública operando com média acima de 90% de taxa de ocupação de leitos de UTI e leitos clínicos nas duas últimas semanas, a capital amazonense enfrenta a segunda onda da pandemia, iniciando o ano de 2021 na fase mais grave do plano de contingenciamento da doença: a fase roxa, onde a previsão de esgotamento de leitos de UTI é em até seis dias.”

É muito horror e grande o número de mãos que se lavam diante das vidas perdidas. O comércio em Manaus só foi fechado por ordem judicial pois o governo local havia se ajoelhado à pressão dos empresários. É deplorável e nojento o espetáculo. É muito sujo o silêncio omisso da sociedade civil.

Citando Zola enfatizo o que ele escreveu antes do prefácio de J’accuse! Disse ele “a verdade está em marcha e nada a deterá.” No Brasil que pode se confundir com uma espécie de campo de concentração a céu aberto a verdade fará o julgamento histórico. E haverá a constatação de que aqui se passou algo de odioso, lamentável, cruel e muito podre. Mas já será muito tarde. O silêncio foi o cúmplice feroz e calado de tudo o que se passou.

Sou apenas um cidadão. Mas eu acuso!

 

 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O compasso dos pés faz o caminho

Por Emanoel Barreto

Talvez seja difícil encontrar caminhos, mas havendo pés existirá sempre a possibilidade de uma partida e uma chegada. O que estiver no meio da caminhada é o caminho: e ele será sempre será único para cada um, para cada tipo de situação, para cada instante, cada pequena eternidade da espera até que se cumpra a intenção de chegar.

Caminho não é estrada; a vereda que cada um percorre pode ser alterada a qualquer instante; basta mudar de ponto de vista, quebrar o compromisso inicial da viagem e pronto: muda-se o caminho, esse destino incerto e não sabido.

Estrada é diferente de caminho. Na estrada há um caudal de rodas, há pressa, velocidade, ânsia de chegar. Já o trajeto feito a pé, o andar, é coisa de cada um, tem a haver com o que é vivido na solidão humana, no pensamento calado, no que foi superado ou perdido e precisa ser substituído ou mudado.

Os caminhos, especialmente aqueles que fazem ziguezague num terreno largo, são mapas, registros, latitude e longitude de pessoas que se passaram, gente que foi ou está voltando.

A senda, na floresta ou em campo aberto é desafio, chamamento ou escolha. É a vida mesma que se vive ao compasso dos pés e da coragem.

sábado, 2 de janeiro de 2021

O Brasil é uma sala escura

e sua História 

um pano sujo exposto no varal


Por Emanoel Barreto

Ingresso em 2021 como quem chega a uma sala escura e grande.  E sem saber exatamente como combater/enfrentar/conviver/superar/aceitar o que já existe lá dentro.

Sei somente que há restos a pagar de 2020, dívidas humanas contraídas por equívocos tão nossos, dúvidas quanto ao que virá, a certeza da incerteza, o possível passo em falso na escuridão que nos cerca, a vida rasurada e encardida, gente morrendo, pano sujo exposto no varal da História.

Ao que tenho visto não vão se abrandar os ânimos nem se acalmar os intentos ou se aclarar no Homem o sentido de humanidade, aqui proposta como alguma forma respeitosa de convivência de contrários. Entendo que até inimigos podem ser leais.

E por entender essa forma de lealdade – e defendê-la –, lembro John Lennon e cito verso de Imagine, sua composição mais emblemática da fase pós-Beatles: “You may say I’m a dreamer/ But I’m not the only one”.

Sei, todavia, que estamos num tempo de cólera e ódios sinceros. Espero que a sala escura vá aos poucos se aclarando e os passos venham a se encaminhar a um rumo certo e a navegação a um bom porto. Espero, não tenho certeza. Na verdade, desejo; e em vez de esperar prefiro esperançar mesmo sabendo o quão difícil será chegarmos a algo de bom e de justo.

Mas volto ao meu acorde em tom maior e insisto, com a pequena ajuda de Lennon: “You may say I’m a  dreamer/ But I’m not the only one.”

 

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

A quarta-feira de cinzas do réveillon

Por Emanoel Barreto

Hoje é a quarta-feira de cinzas do réveillon. Muitos dos que festejaram o Ano-Novo estão espichados nas areias das praias ou espojados em suas camas, enevoados pela  ressaca da insensatez. Depois vão acordar para a realidade.

E a realidade é a seguinte: em mais alguns dias muitas dessas pessoas estarão nas redes sociais alarmadas com os sintomas da covid, pedindo orações e clamores para escapar das previsíveis consequências de ajuntamentos em tempos de peste.

As multidões que acorreram ao chamamento pelos festejos são explicáveis, enquanto fenômeno, por múltiplos conhecimentos acadêmicos que vão da sociologia à psicologia social, da antropologia social às teorias de comunicação e, claro, dos estudos sobre ideologia.

Não é o caso deste artigo tratar do fenômeno da alegria descontrolada e aluada enquanto objeto de interesse acadêmico. Estou aqui para expressar não só  indignação com  tal comportamento – e lamentar a omissão das autoridades de todo o país na repressão aos ajuntamentos – mas especialmente para manifestar minha perplexidade.

E faço uma pergunta: por que uma pessoa adulta e informada a respeito do perigo busca esse perigo? Vale a pena morrer por uma taça de champanhe, uma caneca de chopp, uma boa dose de cachaça, um uísque, um brinde?

Creio que os valores de uma sociedade voltada para o ter acredita de forma difusa que esse ter significa possuir até mesmo o tempo – o tempo da festa, no caso – como se fosse possível, nesse tempo, haver felicidade e segurança na busca do estar alegre e sentir-se indomável e vencedor: senhor da vida, parelha da mesquinha  eternidade daquela glória boba e seus momentos de euforia que tanto iludiram o inebriado herói de Baco.

O pior é que o preço a pagar será cobrado também aos que não foram às festanças, a conta irá aos que vão lotar hospitais e UTIs, às famílias que perderão filhos, pais, mães e avós.

As multidões de pessoas vazias se desfizeram. A festa acabou. O estado socialmente líquido de tais encontros escorreu pelo esgoto do cansaço e da exaustão dos bacantes e agora eles dormem.

O tempo não para e amanhã vai ser outro dia. E esteja certo: por causa do réveillon cuidado, há perigo na esquina.

 

 

 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

 Vamos viver ao sol da Vida

Por Emanoel Barreto

Observando nossa vida em perspectiva reversa, ou seja, olhando o nosso passado e o que fizemos ao longo do percurso podemos perceber o quanto tudo se modificou depressa. Em nós e à nossa volta tudo mudou muito rápido – talvez depressa demais, para desespero de alguns.

A incapacidade de aceitar a impermanência das coisas, a mutação silenciosa e implacável dos nossos corpos no envelhecimento diário, o desfazimento de laços de afeto, a perda de bens materiais, o fracasso de sonhos – só para citar alguns casos – tudo isso pode trazer sofrimento e dor a quem não se preparou para perdas e mudanças que a imaturidade de muitos entende como inaceitáveis.

A mutabilidade de tudo em direção ao fim é o grande problema. Somos impotentes, não conseguimos impedir de mudar aquilo que foi feito para se desfazer e finar.

O inverso desses apegos a coisas e pessoas a quem desejamos ter a nosso lado diz respeito ao apego a coisas e pessoas que nos fazem mal.

Refiro ao quanto é difícil nos livrarmos do ódio a alguém, do ciúme de alguém, do medo do outro, da submissão ao opressor – aqui não no plano ideológico, mas pessoal – da falta de atitude frente àqueles que nos ferem ou ameaçam. 

O apego à saudade, o acorrentar-se a velhas ofensas, a insistência em não perdoar são formas terríveis e ilusórias de experienciar nosso processo existencial na cotidianidade do pó que escorre na ampulheta da vida. Pura perda de tempo.

Suspeito, todavia, que talvez seja mais fácil superar a perda de alguém a quem amamos que nos desvencilharmos do ódio pelo outro. O abraço ao ódio é terrível e faz mal, muito mais mal a quem o sente do que àquele a quem é dirigido. Porque o ódio é vivido somente por quem o interiorizou. É impossível fazê-lo chegar em essência ou  toque corporal àquele que é alvo de tal sentimento. O ódio é um sofrimento em vão. Mas, quanto apego existe por ele.

Essa valorização do negativo é mero fruto de construções mentais. A pessoa passa a acreditar na importância do ódio como objetivo de vida e no despeito como forma de compensação. O mesmo se diz da inveja, da frustração, do sentimento de culpa por não ter atingido um certo propósito, seja sucesso pessoal ou vingança a quem o magoou.

Tudo isso porém, analisado friamente, revela-se como algo tolo e desnecessário, pueril e gerador de mais sofrimento aos que têm no negativo seu referente e o carrega como coisa própria e essencial. Mas esse sofrimento é passível e possível de superação. Basta refletir. Com método e decisão é possível livrarmo-nos de tais situações e viver cada dia com consciência de cada momento.

Viver passo a passo creio que seja o melhor caminho para ficar em paz. A idade, para quem já envelheceu, deve ser tida como resultado de todo um processo de vivências e aprendizados.

Se a idade nos sinaliza a proximidade do ocaso não é preciso apegar-se à saudade. Mas sorrir às lembranças de tudo o que nos fez chegar até onde chegamos e ao tudo que somos. Sem medo, sem lamentar tempo perdido. Não há perda de tempo quando se soube viver ao sol da Vida.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

      Os monstros não têm medo

Por Emanoel Barreto

É verdade, os monstros não têm medo. Os monstros são arrogantes, atrevidos, insolentes, brutais, descarados; afrontam a tudo e a todos desde que satisfaçam os seus mais baixos instintos: no caso, desacreditar a ciência, estimular a estupidez das festas e aglomerações, brindar enquanto tantos morrem. A pandemia tem mostrado o quanto os monstros são tudo isso: de ruim e de pior.

Há, contudo, um aspecto a salientar: se os monstros não têm medo não significa que tenham coragem. Insolência não é coragem; estupidez não é bravura; desrespeito não é brio; barbaridade distancia-se de  atitude resoluta; ofensa nada tem a haver com a serenidade firme da pessoa digna.

Explica-se: o monstro, a besta humana, não tendo medo de agredir não o faz por ser valoroso, mas por ser apenas monstro.

Mesquinho, brande seus desvarios e zomba do sofrimento de milhares; baixo, apequena-se mais ainda com a sórdida alegria de gritar de alegria. Como Neymar, que realiza um festim lamentável reunindo quinhentas pessoas.

Mais um exemplo: a brutalidade bolsonariana estagnou a vacinação e até hoje vivemos um limbo e uma pergunta: quando, quando as pessoas começarão a ser vacinadas? No Brasil, ninguém sabe.

O pior é que muitos já foram contaminados pela monstruosidade e estão se preparando para o réveillon. É uma espécie de comemoração de Nero, que tocava harpa e bebia enquanto Roma ardia em meio às chamas que ele mesmo havia provocado.

O monstro não tem medo porque em seu lugar tem ferocidade. E tem ferocidade porque se julga invencível, blindado, intocável. Na verdade, é apenas um ignorante, alguém tosco e perverso.

Vêm aí as festas finais do ano e depois delas chegarão as dores e os desesperos de muitos – dos que foram às dionisíacas comemorações despidos de qualquer senso de dignidade e dos que de alguma forma serão por eles contaminados.

Os monstros não têm medo pois já estão na lama até o pescoço. Os demais devem continuar deles distantes, evitando a sua baba. Vade retro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

 “Hey, Joe! You are a good guy!”

Por Emanoel Barreto

As consequências de falhas no processo de comunicação podem ser desastrosas, notadamente se o comunicador se apresenta de forma exacerbada e se expõe entre o ridículo e o grotesco.

Quando afinal se percebem o grotesco e o ridículo desmonta-se o espetáculo e fica difícil fechar a cortina.

Foi exatamente isso o que aconteceu com Bolsonaro em sua renitente necessidade de expressar sucumbência e vassalagem a  Donald  Trump. Com isso passou a seu público a sensação de que eram muito próximos, mais que isso: aliados. Na verdade, porém, para o minotauro americano o brasileiro não passava de um sujeito de mínima importância.

Mas as mesuras, para o senso comum de seus seguidores, terminaram por criar para Bolsonaro um liame ilusório mas poderoso com   Trump, como se verdadeiramente fossem aliados, amigos, quem sabe.  Ou você não via nas manifestações bolsonaristas as bandeiras cheias de estrelas e listras ladeando o verde-amarelo nacional?

O imaginário espelhamento entre Bolsonaro e Trump forjou o simulacro da aliança e proximidade pessoal e deu no que deu ao fim do processo eleitoral americano: com a derrota do minotauro ficou muito difícil ao brasileiro admitir que de alguma maneira ele também foi metaforicamente derrotado e arrastado na enxurrada da queda trumpista.

Com isso tornou-se complicado saudar o vencedor. Parabenizar Joe Biden, na situação de Bolso, ficou muito além e muito acima do gesto cordial e diplomático de cumprimentar um presidente eleito.

Para ele isso passou a significar uma forma de humilhação, pois seu ídolo dos pés de barro ruiu, devagar, mas ruiu; teve expressiva votação, mas está prestes a ser retirado da Casa Branca.

Tivesse Bolso a capacidade de compreender os meandros e as questões complexas da geopolítica jamais teria se apresentado como animadíssimo admirador de Trump, nunca teria envergado a libré para respeitosamente dele se aproximar.

A política é um jogo, é algo de teatral e retórico, tem muito de encenação e fantasia. Mas no fundo é algo muito sério, pois se no palco do mundo valem o jogo de palavras e a gestualidade de grandeza  ou humildade, na essência da política há que ser sério e ter consciência de com quem se está lidando.

Agora ficou difícil. Parabenizar Joe Biden, comportamento que seria unicamente um cumprimento simbólico foi transformado por Bolso num ato de política internacional. Superável, passageiro, mas, no momento, ridículo.

 E lembrar que bastava ter pedido a alguém para ensiná-lo a dizer: “Hey, Joe! You are a good guy!” – simples assim.

domingo, 25 de outubro de 2020

 OK, escreva uma bobagem e eles não irão compreender

Por Emanoel Barreto

Escreva até mesmo uma bobagem e nem isso eles não irão compreender. Porque para compreender o que seja uma bobagem é preciso saber o que seja mais que a bobagem; porque compreender é um ato, é pensar como atitude, e isso tem antecedente e consequente. Isso significa mudança e eles querem que tudo fique como está.

Escreva até mesmo uma bobagem e nem isso eles não irão compreender. Porque para compreender o que seja uma bobagem é preciso saber o que seja mais que a bobagem; porque compreender é um ato, é pensar como atitude, e isso tem antecedente e consequente. Isso significa mudança e eles querem que tudo fique como está.

Escreva até mesmo uma bobagem e nem isso eles não irão compreender. Porque para compreender o que seja uma bobagem é preciso saber o que seja mais que a bobagem; porque compreender é um ato, é pensar como atitude, e isso tem antecedente e consequente. Isso significa mudança e eles querem que tudo fique como está.

Escreva até mesmo uma bobagem e nem isso eles não irão compreender. Porque para compreender o que seja uma bobagem é preciso saber o que seja mais que a bobagem; porque compreender é um ato, é pensar como atitude, e isso tem antecedente e consequente. Isso significa mudança e eles querem que tudo fique como está.

Escreva até mesmo uma bobagem e nem isso eles não irão compreender. Porque para compreender o que seja uma bobagem é preciso saber o que seja mais que a bobagem; porque compreender é um ato, é pensar como atitude, e isso tem antecedente e consequente. Isso significa mudança e eles querem que tudo fique como está.

Escreva até mesmo uma bobagem e nem isso eles não irão compreender. Porque para compreender o que seja uma bobagem é preciso saber o que seja mais que a bobagem; porque compreender é um ato, é pensar como atitude, e isso tem antecedente e consequente. Isso significa mudança e eles querem que tudo fique como está.

E para encerrar: eles jamais irão compreender porque eu repeti o texto de lá até aqui.  

E mais uma vez: Escreva até mesmo uma bobagem e nem isso eles não irão compreender. Porque para compreender o que seja uma bobagem é preciso saber o que seja mais que a bobagem; porque compreender é um ato, é pensar como atitude, e isso tem antecedente e consequente. Isso significa mudança e eles querem que tudo fique como está.

 

 

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

 Dinheiro sujo na opereta bufa do Brasil

Por Emanoel Barreto

O dinheiro sujo sempre enlameou as mãos de políticos, a alma dos escroques do mandato, a vida de muitíssimos dos que se dedicam ao ofício de fazer-se eleger desde vereador até presidente da república.

Mas o senador Chico Rodrigues superou em tudo as metáforas para corrupção: ele, literalmente, tinha dinheiro sujo não nas mãos, mas no fosso ao sul do seu corpo.

O papel-moeda, que no momento do vexame não cumpria ato de corriqueira ação higiênica transformou-se em documento acusatório, folha-corrida, possibilidade de ordem de prisão e, em toda a extensão do termo, papel safado.

E o senador, na opereta bufa da vida pública nacional transformou-se no mais escarrado exemplo do quanto um ser humano pode descer até chegar ao mais profundo da indignidade.

Deixou atrás de si um péssimo exemplo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

 Urgente! Nova lei disciplina a cultura

Por Emanoel Barreto

A legislação abaixo é documento de conhecimento obrigatório e dele todos deverão tomar ciência.  

Art. 1º É proibido ler este documento que impõe a ignorância como matéria obrigatória nas escolas pois trata-se de lei ultrassecreta cujo cumprimento obriga a todos.

Art. 2° Todos os indivíduos que porventura lerem as palavras aqui contidas serão levados a um país distante e de hábitos bárbaros chamado Brasil e ali serão açoitados com pelo menos setecentos golpes.

Art. 3º Da mesma forma é proibido informar que é proibido ler esta lei, uma vez que para que tenhamos pessoas a serem punidas será necessário que desta escritura tomem conhecimento incorrendo assim no crime de leitura.

Art. 4º Os maus elementos que detiverem seus olhos sobre este texto serão levados ao supramencionado país distante porque ali impera a ordem mais desejável de todo o Universo: toda cultura é tida como deplorável e quem lê e pensa é visto como elemento de perniciosa influência.

Art. 5º Para que a proibição de leitura desta douta legislação seja eficaz será preciso que ninguém saiba ler.

Art. 6° Destarte, as escolas somente ensinarão a não-ler, explicando aos alunos que os livros somente ensinam coisas feias.

Art. 7º Quando todos souberem não-ler teremos alcançado o mais alto patamar da cultura e seremos como o Brasil, onde estupidez e ignorância têm o mais amplo e irrestrito apoio do Estado.

Adendo: O presidente da República não assinou a lei porque não sabe ler nem escrever. E se soubesse ler seria preso nos termos da lei acima. Por isso mesmo tornou-se presidente.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Porque acho que não

 existe o tempo

Por Emanoel Barreto

Não creio na existência do tempo; não o vejo como algo que tenha consistência própria, uma espécie de fato metafísico, uma realidade suprassensível, espécie de régua que mede o passar da vida e das coisas e com a qual podemos mensurar e valorar a sequência de tudo o que perpetramos na vida enquanto a vivemos.

Suponho que o tempo seja apenas uma ilusão de ótica histórica gerada pela percepção dos fatos, sua memorização, encaixe nessa memória e posterior recordação. Essa montagem dos episódios seria então o tempo.

Os dias e noites, as alterações que ocorrem na face da Terra, nosso envelhecimento, nossa memorização e lembranças ajudam a fortalecer a visão desse fantasma a quem chamamos tempo.

Veja bem: se uma pedra qualquer mantiver-se íntegra por um  trilhão de anos, ou seja, se não for partida ao meio ou algo que de qualquer forma a altere, será a mesma pedra ao final desse um trilhão de anos. E, portanto, o tempo não terá passado para ela. E por quê? Porque não haverá memória relativa a essa quebra ou alteração. Não havendo memória não haverá tempo, pois falta referência a esse fato.

As alterações se dão no mundo e, memorizadas, insisto, geram a sensação de tempo. O problema é que não podemos dizer enquanto esperamos aquele atendimento médico e o doutor nunca chega: “Estou aqui há dois fatos, três acontecimentos, duas ocorrências e quatro esperas.”

Em substituição dizemos: “Estou aqui há duas horas e nada de o médico chegar.” Isso faz sentido em nossa convenção social de fala e na parte relativa ao que chamamos tempo, e facilita a manifestação de nossa indignação.

E mais: a marcação do relógio, para onde olhamos desesperados e ansiosos ajuda na sensação de tempo perdido, e tal situação se amplia sob a lupa da impaciência. E é mesmo terrível esperar por médico, não acha?

Enfeixando tudo o que eu disse: a temporalidade, a aceitar-se meus argumentos, seria então uma espécie de metonímia, aquela figura de linguagem “marcada pela substituição de um termo por outro que guardam entre si uma relação de contiguidade, ou seja, um faz parte do outro”, segundo registro dicionarizado.

Sendo assim, substituímos a sequência de fatos e nossa inserção emocional naquelas pelo termo “tempo” e pronto. A vida passa. Depois viramos esquecimento que também é uma forma de tempo. Mesmo que o tempo não exista.

.........

PS: talvez algum grande filósofo ou físico ou matemático ou sei lá o quê, possa provar que estou errado. Então eu perdi meu tempo escrevendo essa crônica (termo que também tem a haver com tempo) e você perdeu o seu lendo este texto. Mas acho que valeu a pena, não valeu?