segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Coisas terríveis para salvar o mundo



 De como fazer a destruição para termos um grande futuro

Fui procurado hoje em minha tipografia por excelente pessoa, que pelos modos gentis e gestos refinados logo vi tratar-se de um sapo. Homem viajado, elegante e de pensamentos elevados, disse-me que buscava um editor para grande obra intitulada De Mundis Terrificus e Preclarus.
Pedi informações a respeito e informou-me que trata-se de livro magnífico onde se explicará a importância do uso correto das pedras redondas, aliadas às exposições discretas do finis concertus para o bem da humanidade.

Percebi imediatamente que é missão de alta relevância e coloquei-me à disposição. Isto posto, o sapo pediu permissão para convidar à tipografia dois outros grandes sábios. Atendi imediatamente e pouco depois desciam de um tílburi um jovem orogangotango e um velho e digno papagaio, cavalheiros de estirpe e condições. 

Informaram que o livro, cujos originais da peça introdutória me foram entregues, é uma larga e profunda reflexão sobre a condição humana. Conversamos longamente e eles se retiraram. Eis o que diz o texto que me foi entregue:

A questão humana é de alta relevância. Assim, torna-se imperioso aprofundarmo-nos em seu estudo, uma vez que, historicamente, está comprovado que temos incrível tendência ao conflito e à nunca solução do conflito e aí está mesmo a essência da nossa condição.
Sendo assim, é preciso dar condições à humanidade para que procure a sua própria destruição.

Para tanto, devemos nos atilar a desenvolver processos autodestrutivos, aliando a isso as intempéries naturais. Acontecidas estas, devemos mobilizar máquinas extraordinárias, enormes, ciclópicas, a fim de ampliar os resultados da força dos elementos. 

No texto está também explicado que, por exemplo, devemos aproveitar o abandono da orla de Ponta Negra, promovendo, a partir dali, a construção de grandes buracos em todas as ruas, avenidas e vielas, a fim de que isso se torne obra d'arte grandiosa e apreciada.

Percebi que há nisso grande saber e poderosa filosofia. Construídos os buracos, será preciso criar imediatamente uma empresa que refaça tudo, ou seja: os buracos sejam tapados e depois de tapados sejam novamente refeitos e assim indefinidamente, já que é para isso que os governos foram criados. 

Claro, notei que tal filosofia é de grande valia.
Em caso de ação de elementos perigosos, como assaltantes e outros do mesmo tipo, será preciso criar linhas de financiamento de armas, a fim de que os malfazejos possam executar com perícia e mestria suas grandes artes de roubar e matar. 

Mais: os hospitais públicos devem ser fechados ou tornados ainda piores em seu funcionamento a fim de estimular as pessoas a não adoecer. A culpa das doenças são os hospitais, está dito no texto. E assim, eliminando-se a causa será extinta sua consequência: a doença e os doentes.

O documento fala em muitas e muitas outras cousas extraordinárias, como estimular o analfabetismo e fim dos programas sociais de casas populares, levando-se as pessoas a procurar cavernas e tendas, que são mais baratas. E, sem saber ler e escrever não terão intentos danosos de formular ideias malsinadas, que só trazem o desespero e desagregação social.

Como vê o leitor, trata-se de obra de grande valia que, disseram-me o sapo, o orangotango e o papagaio, irá orientar o natalense no sentido de um grande passo para o seu futuro. As bases estão construídas. Agora, resta-nos trabalhar em seu aperfeiçoamento.

domingo, 20 de novembro de 2016

Uma crônica sonhada, real fantasia

Uma aventura em África: a mulher e seu elefante

Já disse neste coranto que tenho um avião, um biplano da Primeira Guerra Mundial. Preciosa máquina, ágil como uma garça em voo, tornou-se um grande parceiro que comigo compartilha momentos, horas, vida. Como moro em Natal e a cidade é o ponto mais próximo da África, e como tenho longeva admiração por aquele continente, costumo atirar-me até lá em voos que a licença poética me permite dizer que  duram meia hora, meia hora de alegria sobre mar reluzente.
http://www.google.com.br/search?q=mulher%20africana&oe=utf-8&rls=org.mozilla


Então, na travessia, vejo transatlânticos pesados, lerdos como arcas, passando ao lado de embarcações pequenas e corajosas. Observo grandes sombras afundadas se deslocando em meio a mar mítico e assombroso em sua plenitude de água. Imagino que sejam grandes monstros, os monstros que habitavam os mares tenebrosos, tão temidos pelos antigos navegantes.


Chegando à África passo a costear o continente. Grande, largo, misterioso, habitado por fauna primeva e basal, paraíso bruto, aquele mundo sempre me atraiu. Voando baixo, costeio suas bordas. Ali estão pessoas, pescadores chegando da luta, e, lá adiante, depois de muito voar, chego a praias desérticas, ausentes da presença humana, mas habitadas vez por outra por animais que estranhamente ali se chegam.


Elefantes e leões, por mais paradoxal que possa parecer, caminham aquelas paragens vazias de homens. Devo dizer que, de tanto viajar à África, de viajar a África, desenvolvi notável perícia em aterrissar em terreno tão difícil e hostil. Jamais enterrei as rodas na areia. Se isso acontecesse haveria desastre brutal e, em caso de fugir ao ataque de feras, jamais o conseguiria.


Ontem, quando por lá estive, parei numa praia bela, bela de uma beleza grande, agressiva e árida, intensa e desafiadora. Estava eu na companhia abençoada de um maço de cigarros e de uma garrafa de Bourbon, aquela sagrada bebida do Kentucky. Amparado do sol por um coqueiro de sombra bondosa e balouçante, fiquei a admirar a paisagem em que estava imerso.


De repente, saindo das verdejantes brenhas sai um elefante. Imponente ser vivo, grandioso e forte. Presas do mais puro marfim. A segui-lo, minutos após, uma núbia. Mulher de grande porte, seios opulentos, ancas suntuosas, coxas de Salomé, delicioso vértice fêmeo. Caminhou atrás do portentoso animal e gritou-lhe algo, uma ordem, coisa assim. Tão logo ouviu o grito primal o bicho ergueu-se nas patas traseiras e barriu poderosamente. Escultura imensa recortada contra o céu.


Devo dizer que jamais vi cena igual: dois seres básicos, plenos de beleza bárbara e grandiosa, convivendo momento indescritível. Acho que até o sol parou para homenagear. Em seguida, num salto ágil e preciso, ela agarrou-se à orelha esquerda do animal e postou-se escanchada naquela besta formidável. 

Depois gritou nova ordem. O elefante apressou o passo, virou-se e entrou na floresta novamente. Corri para o meu avião, liguei o motor e sobrevoei aquela cena. Ela viu o avião que subia, fez um gesto ao elefante e ambos desapareceram para sempre da minha vista, encobertos pelas ramagens altas da floresta densa.

sábado, 19 de novembro de 2016

O apartamento de Geddel



Quando a imprensa joga sujo
Esclarecido o motivo da saída de Marcelo Calero do Ministério da Cultura: retirou-se, segundo disse à Folha, para não ceder a pressões do ministro de Governo, Geddel Vieira Lima, que queria porque queria obter aprovação de edifício a ser construído em área tombada em Salvador, base política de Geddel.
Segundo Calero, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-Iphan, havia permitido a construção do edifício com 13 andares; mas Geddel, homem forte do governo Temer, havia comprado apartamento do trigésimo andar e isso não lhe interessava. Afinal, a tecnologia ainda não criou o apartamento flutuante.
Então Calero, ante pressão insuportável e visando preservar-se de envolvimento em negócio sujo renunciou ao cargo, segundo assegurou à Folha. Geddel, garantiu Calero, estaria preparando uma manobra via Advocacia Geral da União a fim de validar o negócio –
Desse episódio registro algo mais: a lamentável omissão da imprensa em detalhar o sórdido episódio. Somente a Folha expôs o fato com destaque de primeira página; o Estadão falou algo como briga entre Geddel e seu desafeto ocasional; o Globo praticamente a mesma coisa, mas em notinha mínima de primeira página. Já o Correio Braziliense deu uma chamada de título, ou seja: disse que Calero saiu e informou a página onde a notícia poderia ser encontrada. Só isso.
Fica bastante claro que a dita grande imprensa quer escurecer o caso, colocando-0 apenas como uma rusga, um arrufo entre homens do Poder.
Pelo que foi denunciado, não foi bem assim. E fica um lembrete, registrando como a corrupção é firme e seus praticantes atrevidos: mesmo com as prisões anunciadas quase todos os dias e a Lava Jato funcionando a todo vapor – mesmo que até agora tenha pegado bastante leve com o PSDB – Geddel teve a coragem de peitar um colega de ministério a fim de satisfazer a seus apetites.
É que as coisas no Brasil são lentas para punir os mais ricos. Há uma isenção de classe, uma impunidade presumida. Lamentável.
..........
Menino birrento – E garotinho, menino birrento, tinhoso e recalcitrante ganhou um prêmio aos seus maus feitos. Não é que já foi retirado da prisão e ganhou hospital particular para se tratar da doença oportuna que o acometeu ao ser capturado? Esse povo rico fica tão doentinho quando é preso, não é mesmo?
Aqui, nada – Tenho notado que a captura de figurões fica só lá para o Sudeste. Corruptos federais, digamos assim. Aqui, não. É tudo uma grande pasmaceira. Deve ser porque são corruptos estaduais ou municipais, coisa de pequena monta. Aí os bichinhos ficam todos soltos.
 ......................
 
 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Crença na brutalidade



Nosso Dom Sebastião pode ser Jair Bolsonaro

A invasão ontem do plenário da Câmara dos Deputados por um grupo movido por alguma espécie de histeria política sugere algo preocupante: a existência de setores da sociedade que acreditam sinceramente que somente com a “presença de um general” na presidência da República teremos o país no rumo  certo.


Estimada como composta por cinquenta pessoas, a turba seria algo como uma pequeníssima ponta de iceberg da insatisfação manifesta pelos que, dotados de pensamento político tosco, desejariam o retorno do país à ditadura. 

Creio que tal fato deva ser levado a sério. Temos no congresso espécimes políticos como os Bolsonaro, além da bancada protestante, que defendem as piores ideias, as mais obscuras propostas políticas. Esses tipos, não se duvide, apoiariam qualquer intentona antidemocrática. 

Para quem pensa numa solução ditatorial a conjuntura parece justificar tal “solução”. 

Vejamos: a chamada classe política está em frangalhos; temos um judiciário lento, com processos caros e salários altíssimos; o alto empresariado afundado até o pescoço na fossa que ele mesmo cavou e funcionários públicos agem como facínoras. 

Somado tudo isso fica a indagação: em quem acreditar?

Não podemos esquecer outro dado: a onda de criminalidade que varre o país, aterrorizando uma sociedade indefesa. Somemos tal quadro a uma polícia ausente ou pelo menos tardia e adicionamos à receita a pusilanimidade do Estado no enfrentamento aos criminosos e pronto: temos o prato feito para que nos surja a turba querendo mudanças na marra. E que mudanças!

Detalhe importante: a malta que invadiu o plenário da Câmara é de atitude bem diversa daqueles que, impulsionados pelos patinhos da Fiesp pediam o golpe que depôs Dilma. 

Ali se viam famílias arrumadíssimas, carrões possantes, casais com filhos em carrinhos de bebê e a pretinha empurrando os lindos rebentos. Havia era uma espécie de convescote que validava o golpe que viria. Uma brincadeira de madames posando, de uma hora para outra, de dona de casa engajada e consciente da dura vida do povo. Só isso.  

Ontem não: eram pessoas dispostas a se arriscar. Gente de luta, tropa de frente, disposta a peitar políticos poderosos, milionários detentores de mandatos, graúdos que desafiam normas morais, justiça, o que der e vier. Foram, meteram o pé e tomaram o plenário. 

Percebo naquela mobilização algo da força essencial que, por exemplo, mobilizou os estudantes na ocupação de escolas e universidades. São essências diferentes, mas são uma força, uma convicção.
Tenho certeza de que podem, sem dúvida, gerar um movimento forte. E muito perigoso. 

Na contraface temos o PT. Aquele partido – pelo menos na quadra histórica que vivemos – falhou ao assumir o comando pois não representou de forma convincente os trabalhadores. Isso tirou à classe trabalhadora esperanças de que aquele partido pudesse efetivamente e literalmente vocalizar o seu discurso

O PT aliou-se ao que há de pior na política brasileira, aderiu às suas práticas e esvaziou discurso, imagem e proximidade com as classes populares. 

Tudo isso tem consequências lamentáveis – e poderosas – para minar a democracia, permitindo a setores idelogicamente rudes a propagação de suas ideias aparentemente salvacionistas. 

E o que é pior: pode ser que o nosso Dom Sebastião, o salvador esperado, seja Jair Bolsonaro, brotado dessa Alcácer Quibir em que o país foi transformado.
...........................
ZOORÓSCOPO
Mosca – os nascidos em tal signo têm à sua frente um futuro glorioso. Devem casar-se com nascidos em aedes aegypti, formando um par perfeito. No Brasil os mosquianos dão-se muito bem. Especialmente agora, com a iminente aprovação da PEC do fim do mundo, você, mosquiano amigo, terá amplo terreno para agir. O monturo a ser criado é todo seu.

..........................