quinta-feira, 12 de julho de 2012

Natal ganhará lixo italiano legítimo. Leviatã garante
Leviatã apoxima-se de Natal e aqui obrará grandes cousas

Fui procurado ontem, enquanto caminhava pelas ruas do centro, por respeitável iguana. Homem de muitos bons modos, fez profunda reverência e disse-me que um cavalheiro gostaria de falar comigo. Acompanhei-o à mansão daquela nobre figura e vi à minha frente ninguém menos que Leviatã, confortavelmente instalado em cadeira colossal . Perguntei a que devia tão honroso convite, vez que sou apenas um tipógrafo, que edita esta gazeta e esperei a resposta.

 Servimo-nos de vinho e ele me explicou: será candidato a prefeito de Natal. Devo mencionar que tremi intimamente. Ato contínuo, detalhou suas prioridades: dar continuidade ao processo de arrasamento de Ponta Negra, ampliar o número de buracos, que deverão atingir todas, todas enfatizou, as ruas da cidade e piorar o máximo possível os serviços municipais. Todos.


Ademais, firmará convênio com as grandes potências para que venham a despejar aqui todos os seus resíduos atômicos e abrirá as portas da cidade ao despejo de lixo tóxico de todos os tipos, além do recebimento de restos de computadores, lixo eletrônico, entende? Sim: remédio velho, fora de validade também será muito bem-vindo.


Perguntou o que eu achava disso e respondi que jamais ouvira coisa mais descabida. Então, em defesa de sua tese, acentuou: "Pois então, saiba que isso representará grande valia para esta cidade. Explico: traremos, para completar o quadro de descalabro, todo o lixo de Nápoles, lixo italiano, sabia? Lixo de primeiro mundo, para adornar as nossas ruas. E faremos aqui grandes experiências: a criação em laboratório de ratos gigantes, o Projeto Mickey, que contará com todo o apoio da Disneylândia. Os ratos gigantes serão uma grande atração turística. Não é o turismo o que queremos? Pois então, teremos turistas. Aos montes, como aos montes será o nosso lixo."

E o que mais ele estaria planejando para adornar a cidade? Leviatã fez-se de difícil e, meneando a cabeça, despachou: "Isso é segredo. Somente após eleito e empossado revelarei os outros grandes planos. Mas uma coisa antecipo: a Arena das Dunas ficará ótima como depósito provisório do lixo que importaremos da Itália.

Mais que depressa saí da mansão de Leviatã. Tive e estranha sensação de que acabara de ver, num canto escuro da sala, os olhos enormes de um camundongo descomunal me observando...





 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Recebo e divulgo

Rota Cultural Caminhos do Frio
Na região serrana do Brejo da Paraíba, as cidades de Areia, Bananeiras, Serraria, Pilões, Alagoa Nova e Alagoa Grande movimentam a cultura e o turismo paraibanos, entre os meses de julho e agosto. No período é realizada a ‘Rota Cultural Caminhos do Frio’, oportunidade em que são apresentadas manifestações culturais regionais. De 16 de julho e até o dia 26 de agosto, a Rota Cultural vai oferecer aos turistas apresentações culturais, festivais gastronômicos, oficinas de artes, atividades de ecoturismo e esportivas, feira de artesanato, exposições culturais, entre outras atrações.

A expectativa, segundo os organizadores do evento, é de que cerca de 30 mil turistas devem participar das atividades do projeto que chega este ano a sua sétima edição. Um dos diferenciais do roteiro é o clima frio, já que o inverno na Paraíba tem início em junho e se prolonga até setembro. Em julho, a temperatura na região do Brejo fica em torno de 12° graus, um fenômeno atípico no Nordeste. Outro fator positivo é a sua localização estratégica, próxima de duas principais cidades-pólos: João Pessoa e Campina Grande.

A rota cultural Caminhos do Frio é uma realização Fórum do Turismo Sustentável do Brejo, entidade que atua na promoção da cadeia do turismo na região. O projeto tem parceria do Sebrae Paraíba, apoio do Governo do Estado, Banco do Nordeste e das prefeituras dos municípios que fazem parte da ação.

Rota cultural - Cada uma das seis cidades que integram o ‘Caminhos do Frio’ tem uma rota cultural específica para oferecer aos turistas e à comunidade local. Areia é o município que inicia as atividades do projeto com a programação “Areia: Frio, Cachaça e Arte”, de 16 a 22 de julho. A abertura acontecerá com apresentação da Filarmônica Abdón Milanez, no dia 16, a partir das 17h, no Adro do Solar José Rufino. Na cidade serão oferecidas oficinas, apresentações culturais, como o espetáculo de dança do grupo Tradições Folclóricas Moenda (Areia), shows, entre eles, o das ‘Bastianas’, corrida de bike, Encontro de Capoeira e Troca de Cordéis, visitação à casa de doce ‘A Bagaceira’, entre outras atividades.

O município de Bananeiras vai oferecer a programação “Aventuras e Arte na Serra”, entre os dias 23 e 29 de julho. Na cidade, os turistas poderão participar do ‘Festival Gastronômico’ (26 de julho), de trilhas ecológicas, de apresentações teatrais e musicais, como a orquestra Sanfônica e show da banda Cabruêra.

Já entre os dias 6 e 12 de agosto, a rota cultural será realizada em duas cidades: Serraria (Natureza, Seresta e Engenhos) e Pilões (Festa das Flores, Banana e Artes). Em Serraria serão realizadas oficinas culturais, apresentações artísticas e shows, como o dos 3 do Nordeste, do ‘Paraíba Sim Sinhô’, além de sanfoneiros e seresteiros da região. O roteiro da cidade conta ainda com espetáculo de circo, com a Cavalgada da Fé e visita a engenhos.

Em Pilões, também serão realizadas oficinas artísticas, apresentações de culturais de grupos de dança Caetés e Acauã da Serra (UEPB), da orquestra ‘Sanfônica do Cariri’ e literatura de cordel “Gilberto Baraúna”, além de trilhas ecológicas na Pedra do Espinho, Cachoeira do Ouricuri e na área de floricultura.

Tributos a Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro - Em Alagoa Nova, as atividades têm inicio no dia 13 de agosto e seguem até o dia 19 de agosto, com a “Festa da Civilização do Açúcar”. Na abertura, no teatro municipal, a partir das 19h, será realizado um “Tributo aos 100 anos do Rei do Baião”. A rota de Alagoa Nova vai contar com oficinas, como a de Berimbau Terapia, apresentações culturais, exibição de filmes, espetáculo circense, festival gastronômico, visita ao Engenho Vaca Brava, shows do Clã Brasil, de Vinicius e Sobral, Forró e Gastronomia entre outros. Estão programadas ainda a realização do VII Salão de Artesanato e o Encontro de Quadrilhas.

O Caminhos do Frio será encerrado com a rota cultural de Alagoa Grande, com a programação do “Festival de Artes Populares Jackson do Padeiro”, entre os dias 20 e 26 de agosto. Na cidade serão realizadas apresentações culturais, como a “Um olhar Jacksoniano” do grupo Outros; teatro infantil, shows com Boby e Amanda, Márcio Jr e Robério, desfile da banda marcial Paraybana. Vai acontecer ainda a abertura oficial do ‘Festival de Artes Populares Jackson do Pandeiro’ com Oliveira de Panelas, apresentações da Orquestra Cônego Firmino Cavalcante ,”A Maravilhosa Música de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga” e das Cirandeiras do Povoado Caiana dos Criolos, além do show com a banda Jackson Envenenado.

Alagoa Grande ainda vai promover a apresentação do Coco de Embolada de Manoel Batista, o Encontro dos Filhos e Amigos de Alagoa Grande, oficinas de Xilogravura, de Hip Hop e de elaboração de Projetos, a 6ª Trilha de Moto dos Engenhos, 1º Passeio Ciclístico, 1ª Exposição de Agronegócios, 12ª Cavalgada de Alagoa Grande, 2º Encontro dos Blogueiros e o VI Encontro de Dança de Rua.

Confira a distâncias dos municípios até a Capital
Estrada - A principal via de acesso ao Brejo – saindo de João Pessoa – se dá pela BR-230. A rodovia é duplicada e disponibiliza serviços como postos de gasolina, restaurantes, lanchonetes. As seis cidades envolvidas neste projeto ficam localizadas em um raio de aproximadamente 130 km de João Pessoa, e se destacam pela beleza, patrimônio histórico, artístico e arquitetônico, além da hospitalidade do seu povo.

Aérea - A Região também é atendida pelos aeroportos Internacional Presidente Castro Pinto, localizado no município de Bayeux, distante a 8 km do centro de João Pessoa, e o João Suassuna, em Campina Grande. Outra opção é viajar de ônibus de linha. Diariamente, a cada duas horas, partem ônibus do terminal rodoviário de João Pessoa e de Campina Grande.

João Pessoa
Distância
Areia
118 km
Alagoa Grande
111 km
Alagoa Nova
138 km
Bananeiras
116 km
Pilões
106 km
Serraria
123 km

sábado, 7 de julho de 2012

Buracos de Natal, uma tradição que se renova. Matéria produzida por estudantes da disciplina Reportagem, Pesquisa e Entrevista em 2011; parece que, até hoje, nada mudou

Crimes de Imprensa no RN: Depoimento do Professor Emanoel Barreto -- Entrevista realizada em maio de 2012 para compor apresentação de seminário na disciplina Legislação Jornalística do curso de comunicação social/UFRN.

Obra de (des)mobilidade urbana - a evolução de um absurdo

Um buraco no meio do caminho

Quase fazendo aniversário de um ano, existe um buraco na rua Industrial João Motta, em frente à minha casa, proximidades do Condomínio Liberdade, Capim Macio. Clique aqui e aqui.  A distância que une o descaso da Prefeitura e o Governo do Estado é de aproximadamente dois metros, a mesma distância entre a galeria e a boca de lobo.

Como se poderá notar, o buraco vem crescendo e se desenvolvendo. Chego mesmo a supor que seja uma espécie de obra da mobilidade urbana às avessas; engenharia reversa, entende?, desconstrução preparatória à intentona da Copa do Mundo . 

A cratera oferece perigo real ao tráfego e, a depender das chuvas, poderá mesmo danificar a calçada. Espero que pare por aí. Já pensou se o buraco resolve englobar a calçada e depois da calçada as casas? Veja as fotos e a evolução quadro a quadro.



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Recebo e repasso

O lingüista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.
Fonte: http://www.institutojoaogoulart.org Via: ongCEA

terça-feira, 3 de julho de 2012

Entre a alucinação e o delírio sempre cabe o pesadelo

Tenho acompanhado com crescente preocupação a propaganda do governo do estado. Na TV vivemos em situação de éden ou quase isso. Minha preocupação deve-se ao fato de que, pelo otimismo televisivo, sou levado a supor que alguém no governo esteja oscilado entre a alucinação e o delírio, o que é muito perigoso uma vez que trata-se de alguém com poder. Tanto que decidiu e pôs a público o processo de propaganda.

Detalhando: alucinação é quando você pensa que está vendo algo pomposo, grandioso, fora do comum para o bem ou para o mal e está plenamente convicto de que tem razão; delírio se dá quando o sujeito ingressa no território da fabulação, pensa adiante e vê diante de si um futuro glorioso, doce: um futuro rosado, delicioso. Em se tratando de um governo, insisto, é algo perigoso.

Sou tomado de suspeição exatamente em função do quadro de descalabro instalado, por exemplo, no Hospital Walfredo Gurgel, plenamente contrastante com os anúncios megalomaníacos. 


Minha preocupação aumenta, e muito, quando sou tomado por outro temor: se a situação, que já é ruim, é vista pelo governo como maravilhosa, o que será de nós se de repente as cabeças pensantes entrarem em processo de pesadelo, transferirem o pesadelo para a prática e quiserem que seu pesadelo seja a nossa realidade?


Se isso ocorrer é melhor chamar os holandeses de volta, pedir falência, instalar a recolonização batava e pedir a Deus que algum dia Natal volte a ser Nova Amsterdã. Caso contrário, é esperar o agravamento do quadro, até que o delírio e a alucinação se transformem em pesadelo. Depois, prepare-se: virá, tenho certeza, a Santa Inquisição.

sábado, 30 de junho de 2012

Atirar a primeira pedra

É preciso esperar, é preciso apurar. Tenho esse lema no jornalismo. O caso do humorista Mução tornou-se clássico: acusado de integrar rede de pedófilos, muitos foram os que o acusaram, apontando-o. Agora vem a Polícia Federal e anuncia que era um irmão dele quem se utilizava do seu nome para acessar sites criminosos. 

http://www.lastfm.com.br/music/Pegadinhas+do+Mu%C3%A7%C3%A3o
Em jornal não se deve escrever com raiva ou apressadamente. A raiva tolda o raciocínio, pode ser motivada por simples antipatia pessoal ou algum sentimento baixo; redigir apressadamente revela falta de acurácia ou pior que isso, inconsequência, maledicência. 

Ter pressa, para mim, é saber cumprir com precisão o deadline, a hora-limite de fechamento do jornal; é como um drible perfeito no tempo exato. Mas ser apressado é fazer de qualquer jeito e fim. É tascar um título, quem sabe uma manchete e acabar com a vida pública de um cidadão. 


Claro que o fato envolvendo Mução era noticiável, qualquer foca sabe disso. Mas é preciso dosar o texto, conter em rédea curta a emissão da mensagem. E a polícia não deve agir sob o signo do primeiro indício. É todo um complexo de fatos, ações e gestos, o que inclui a sociedade, que não deve reagir de forma cruel - e apressada - quando de repente surge alguém em quem se possa atirar a primeira pedra.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Coisas de Jornal agora está aceitando anúncios. Veja e aproveite os maravilhosos produtos:

Uma estranha realidade

Cansado de notar que o que chamamos de realidade nos reserva unicamente a sazonal repetição de fatos como as eleições, quando os discursos anunciam que o Paraíso está próximo, narro aqui a visita que recebi ontem de um ornitorrinco, notável e sábia criatura que teve a generosidade de visitar-me em minha oficina tipográfica. 


Segundo me disse, estou sob séria ameaça de ser preso devido a atividades de subversão e atos conspiratórios. Estranhei, pois não sou dado a conluios ou conchavos de qualquer natureza, nem atento contra a lei ou contra a ordem. Mas, para não cansar meu ocasional leitor, digo que após horas de edificante e elucidativa conversa aquele bom homem retirou-se, não sem antes advertir-me de que poderia ser preso a qualquer momento. 

Após sua saída voltei a trabalhar com meus tipos, compondo este coranto, quando ouço poderosas, raivosas batidas à porta. Corri a atender àquela confusão e eis que entram oficina adentro uns dez escaravelhos, todos homens de má catadura e péssimos modos, que em poucos minutos me manietaram e me puseram a ferros, levando-me em seguida a uma masmorra. 

Naquele miserável ambiente estavam recolhidos outros homens, todos acusados de sedição e ódio, motim e outras desobediências. Nenhum de nós entendeu nada daquelas acusações, a não ser quando  a figura alta de um magistrado nos apareceu. Era ele grande, um macaco-prego, e se dizia de ascendência alemã, coisa muito comum a tais símios. Explicou que todos estávamos ali - sendo aquele tempo o ano de 1795 -, sob suspeição de haver inventado o computador e o telefone, a energia elétrica e outras cousas malsinadas como o automóvel e a bomba atômica.

Todos os que estavam recolhidos dissemos que se travava da mais pura inverdade, uma vez que tais e perigosas maravilhas somente seriam criadas muitos anos depois, conforme explicamos. Contrariando as nossas palavras eis que chega o Sr. Ornitorrinco, para minha surpresa. Tão logo adentrou aquele lúgubre ambiente apresentou-se como espião e mostrou fotografias da minha oficina, fotografias tomadas à sorrelfa, onde eu era visto preparando uma bomba atômica. E todos os demais infelizes também eram vistos em seu ambiente de trabalho criando engenhos danosos e coisas terrificantes; as fotos eram a prova maior. 

Sob o choque das fotografias ficamos perplexos, uma vez que aquelas imagens eram inverídicas; sendo, claro, fruto de algum truque que desconhecíamos, uma vez que sequer sabíamos da existência da fotografia, que nem ao menos fora inventada. Em desespero pedimos para confabular, o que nos foi permitido, surgindo assim a nossa defesa: 1) nada daquilo existia; portanto, não poderíamos ser autores de tais e perigosos portentos; 2) sendo assim, deveríamos ser soltos imediatamente. 


O ornitorrinco e o macaco-prego, homens tinhosos, rebateram. Comprovando o que diziam abriram as portas da masmorra e nos atiraram em meio ao mundo. E o que vimos foi o que o leitor também vê: o descalabro, a loucura das ruas, o computador onde você lê este coranto. Atônitos, recuamos, voltando à masmorra. E agora, o que fazer? Não criamos nada disso, mas tudo o que não criamos está aqui. Até que ponto essa irrealidade vai nos assediar?


Sem resposta, corremos masmorra adentro, fugimos. Ao sair, num ponto bem distante, batemos e trancamos a porta. O futuro e todo o seu horror havia ficado para trás. Eu voltei à minha oficina, a fim de terminar este texto. Mas, para meu desespero, eis que está à minha porta um novo e estranho personagem: um grande, gigantesco mosquito se apresenta e temo que traga algo terrível em suas palavras.


sábado, 23 de junho de 2012

BARROCO SEVERINO
---Walter Medeiros –
 waltermedeiros@supercabo.com.br 
 
    O professor José Willington Germano falava para uma plateia que ocupava o espaço de lançamento de livros da Cooperativa Cultural Universitária da UFRN, nesta quinta-feira, 21 de Junho de 2012, aludindo a um novo livro que seria lançado, com o título “O Teatro da Morte e da vida – A Escrita Barroca de João Cabral de Melo Neto”. Ouvi atentamente, observando todos os presentes – intelectuais, professores, doutores, artistas e outras pessoas, que aguardava para aplacar a curiosidade do lançamento.
 
    Naquele momento fiz uma viagem no tempo, para lembrar de um amigo de turma do Ginásio Industrial que cursamos na Escola Industrial Federal do Rio Grande do Norte, de 1967 a 1970. Um colega humilde, simples, tímido, estudioso e caprichoso, que não revelava maiores sonhos para a sua vida, que não ambientados naquela realidade de pobreza estampada na maioria da nossa sala de aula, onde alguém com melhores condições de vida era exceção.
 
    Olhávamos para os amigos de turma e sabíamos das dificuldades que a maioria tinha para estudar, muitos deles com fardas surradas, famintos e andando quilômetros a pé para aprender a ser gente. Aí retornei àquele ambiente de elite cultural, onde ouvia um doutor explicar para o público as bases daquele novo trabalho, que descobria certas ligações nunca mostradas na literatura brasileira e nordestina, especificamente.
 
    O professor Willington falava de um novo trabalho que pode ter repercussão internacional, haja vista a abordagem que foi feita, mostrando importantes entrelinhas do poema de João Cabral de Melo Neto. E não poupava elogios ao seu autor, presente e ao seu lado, ouvindo atentamente as palavras do professor, que situava também todos sobre o conteúdo do novo trabalho.
 
    Quantas pessoas não gostariam de estar naquele lugar, recebendo menções elogiosas e vivendo momentos gloriosos, com respaldo de amigos e da sociedade, valorizando a nova obra acadêmica... Uma obra importante, de qualidade, cujo valor não tenho maiores qualidades para aquilatar que os membros da mesa de avaliação; mas basta estes terem aprovado e elogiado, como fizeram, ao analisarem o seu conteúdo.
 
    Estava ali como convidado e senti uma grande emoção ao participar do brilhante momento de lançamento daquele livro, com longa fila para autógrafos e uma performance onde o poema de João Cabral de Melo Neto – Morte e Vida Severina foi declamado, ao som de “Funeral do Lavrador”. Fui também à mesa buscar o autógrafo para o meu exemplar. E o autógrafo foi dado por um homem também muito emocionado, o autor: Francisco Israel de Carvalho. Aquela figura destacada no meio acadêmico vem a ser aquele mesmo menino da minha turma de ginásio industrial - humilde, simples, tímido, estudioso e caprichoso – como sempre. Parabéns, Israel!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

PT e Maluf, quem é o mais sujo?

A aliança entre PT e Paulo Maluf, além de revelar como funciona o Partido dos Trabalhadores em termos de prática política, pode resultar num erro tático: não levou-se em consideração um efeito não-pretendido, qual seja o repúdio social a esse arranjo. Ao que parece, Lula valorizou apenas o suposto potencial de Maluf, o de grande eleitor que traria no vácuo de sua presença votação que garantiria a eleição do candidato Fernando Haddad.

http://o-mascate.blogspot.com.br/2011/09/stf-acata-denuncia-contra-paulo-maluf.html
O partido atira no lixo da história uma trajetória que, de resto, já vinha sendo arranhada interna corpore. Agora, o velho homem da pequena política dá sua contribuição para que o PT não possa mais de arrogar como representante dos trabalhadores. Perde-se legitimidade de sigla. 

O acerto como Maluf, que fez questão de posar ao lado de Lula, registrando a preço de manchete sua aliança com os antigos e figadais adversários, não dá garantia alguma de aporte de votos. A aliança não é um gatilho que automaticamente dispararia certeiro no alvo que é a prefeitura paulistana. 

Pode somar?, talvez possa. Mas da mesma maneira, e de forma exponencial, essa arrumação é também um ato de comunicação, cuja compreensão pública mais parece indicar em direção a perplexidade e repúdio que em favor de crescimento do capital político do partido. 

Sem dúvida o encontro de águas entre petistas e Maluf é, formalmente, um conluio de forças, mas, como no caso dos rios Negro e Amazonas, nota-se perfeitamente a divisão de águas. No caso da política, o que não se sabe é quem é o mais sujo.

terça-feira, 19 de junho de 2012

A pequena política, aquela mesquinhazinha, sorrateirazinha, bem estampada na foto de Moacir Lopes Jr. para a Folha. Lula e Maluf, lamentável forma de fazer a vida pública deste país.

Abaixo, a matéria da Folha:

Haddad sela apoio de Maluf e promete cargos na prefeitura

Para anunciar adesão à chapa petista, ex-prefeito exigiu foto ao lado de Lula
Erundina ataca aliança e diz que passado de Maluf é 'abominável'; Haddad chama pepista de 'nosso ilustre Maluf'

Moacyr Lopes Júnior/Folhapress
Lula observa cumprimento entre Haddad e Maluf; ao lado, o vereador Wadih Mutran (PP), vice-líder da gestão Celso Pitta (97-2000)
Lula observa cumprimento entre Haddad e Maluf; ao lado, o vereador Wadih Mutran (PP), vice-líder da gestão Celso Pitta (97-2000) 
 
BERNARDO MELLO FRANCO
DIÓGENES CAMPANHA
DE SÃO PAULO


Com foto conjunta, promessa de cargos e feijoada, o PT e o deputado Paulo Maluf (PP-SP) selaram ontem uma aliança inédita em apoio a Fernando Haddad na corrida à Prefeitura de São Paulo. 

O anúncio teve direito a pose do ex-prefeito com o ex-presidente Lula e terminou com o pré-candidato chamando malufistas históricos de "companheiros", em discurso na sede estadual do PP.
A vice de Haddad, deputada Luiza Erundina (PSB-SP), ameaçou abandonar a chapa em protesto. Ela afirmou que o passado de Maluf é "abominável" e disse que o petista vai perder votos por se aliar a ele. 

A aliança entre Maluf e PT já no primeiro turno (em 2002 e 2004 ele declarou apoio a petistas no segundo turno) foi formalizada três dias após o Ministério das Cidades nomear Osvaldo Garcia (apontado por pepistas como afilhado de Maluf) para a Secretaria de Saneamento Ambiental.
O ex-prefeito negou a troca do cargo por apoio. "Não conheço ele. Parece que é do Paraná. É do PP do Paraná." 

Maluf, que ensaiava apoiar José Serra (PSDB) e tem cargos no governo Alckmin, disse ter mudado de ideia pela ligação do petista com o governo Dilma: "É o nosso candidato porque eu amo São Paulo. E por amor a São Paulo eu tenho plena convicção de que São Paulo vai precisar do governo federal para resolver seus problemas".
"Não tem mais no mundo esquerda e direita", acrescentou Maluf. "O que tem hoje é "efficacité" [eficiência em francês]. Eu fiz a minha opção por uma parceria estratégica com o governo federal." 

O deputado disputou cinco das seis últimas eleições municipais. A exceção foi em 1996, quando apoiou Celso Pitta [1946-2009] pedindo a seu eleitor que não votasse mais nele caso o afilhado não fosse um bom prefeito. 

Ao ser lembrado da frase, ele deu risada e afirmou: "Este rapaz tem boa memória". Em seguida, foi questionado se Haddad seria melhor do que Pitta. Não respondeu.
Haddad justificou a aliança como "um pacto pela cidade". "Divergência é natural na política, mas também é natural buscar convergência." 

FEIJOADA
De última hora, Maluf exigiu a presença de Lula em sua casa, no Jardim América, para selar o acordo. "Ele disse que a foto fazia parte do pacote", relatou um petista. O ex-presidente ficou contrariado, mas foi. Posou para fotos e saiu sem dar entrevista. 

Haddad e Rui Falcão ficaram para o almoço. O ex-prefeito serviu feijoada ("prato internacional do Brasil", segundo ele), refrigerantes e pudim como sobremesa.
À mesa, malufistas históricos como o vereador Wadih Mutran (PP), vice-líder de Pitta na Câmara, e o deputado estadual Antonio Salim Curiati (PP), que foi prefeito nomeado na ditadura militar. 

Mais tarde, Haddad foi à sede do PP, onde chamou o ex-prefeito de "nosso ilustre Maluf" e seus aliados de "companheiros do PP".
O presidente do PT, Rui Falcão, disse aos malufistas que eles terão cargos na prefeitura em caso de vitória: "Vamos fazer campanha juntos, e como já me disse o Haddad, vamos fazer um governo juntos. Ele já me disse que quer fazer um governo de coalizão". 

Mutran saiu em defesa de Maluf e ironizou as críticas da imprensa à negociação de cargos: "Tenho certeza que o senhor acertou com quem dá mais... para São Paulo!"

Recebo e divulgo

Caos na saúde do RN continua sem solução

A população do Rio Grande do Norte continua sofrendo com o descaso da saúde pública no estado. O caos se espalha por todos os setores, faltam leitos, insumos e profissionais para atender as demandas nos hospitais. Os médicos continuam em greve (50 dias) e não recebem uma resposta do governo.

Hoje, 19/06, a situação gravíssima pôde ser vista no hospital psiquiátrico João Machado, onde existem 35 leitos e 50 pacientes internados. Fazendo as contas, sobram 15 pacientes sem leitos aguardando vaga. Enquanto isso, estes pacientes estão no conhecido leito-chão, deitados em colchão no chão.

A médica plantonista Louise Seabra entrou em contato com o Sinmed para denunciar a problemática enfrentada pelos profissionais que querem atender aos pacientes, mas não tem as condições necessárias para isto.

Hoje, devido a movimentação no hospital João Machado, a médica fechou as portas do pronto-socorro, atendendo apenas as emergências. “É difícil tomar uma atitude dessas, sei que quem procura o hospital realmente necessita de atendimento, mas não tenho como atender a tantos pacientes sozinha”, disse Louise.

A médica informou que nos turnos da manhã e noite só tem um plantonista e a tarde são dois. Segundo ela, número insuficiente de profissionais para atender a demanda. “Além disso, alguns pacientes poderiam estar em unidades clínicas, mas são trazidos para cá, superlotando o hospital”, relata.

Além dos fatos já relatados, foi informado ainda que até o momento foram encaminhados apenas 10 lençóis para a unidade hospitalar (para 50 pacientes) e não tem toalha ou sabão para os pacientes tomarem banho.

A situação que está acontecendo hoje tem se tornado rotina e é possível ser flagrada, no mínimo, duas vezes ao mês, de acordo com Louise Seabra.

O Sinmed está estudando o caso para identificar quais as medidas devem ser tomadas para dar suporte aos médicos e aos pacientes do João Machado.

domingo, 17 de junho de 2012

A louca e grandiosa construção do Estádio Monumental

Depois de haver tomado a decisão de que todos deveriam ter saúde e de que a prática de um esporte é a melhor maneira manter-se saudável, O Governo determinou por ato legal a construção do Estádio Monumental, a fim de que todos os cidadãos, também por lei, deveriam comparecer para a prática desportiva. 

Da mesma forma, foi estatuído que todos os recursos públicos deveriam ser aplicados na construção do Estádio Monumental, sendo portanto dispensáveis todos os hospitais. Apensa a tal fato, legislação especificou que todo aquele que apresentasse sintomas de doença seria preso, considerando-se, em consequência, hospitais como "casas suspeitas" de propagar o mal, a doença e os maus costumes.

Ou seja: se o cidadão estivesse doente o era em função de que não estava comparecendo ao Estádio Monumental, negligenciando assim os cuidados com a saúde. O Estado, ficava bem claro, estava cumprindo o seu papel; as pessoas, por implicação, é que estavam se inserindo em tipificação criminosa. 

Foram proibidas as faculdades de medicina, consultórios, postos de saúde e serviços de emergência. Enquanto isso, o Estádio Monumental crescia e se apresentava como obra magnífica. E as pessoas, apesar de comparecer ao esporte, continuavam a adoecer, e o que é pior: como todos eram obrigados à prática esportiva, logo juntaram-se grandes multidões e não havia como atender a todos, pois os campos não comportavam tanta gente.

O Governo anunciou então a inauguração do Estádio Monumental como solução para o problema, mas, antes, deveria haver a Copa do Mundo, para comemorar tão necessária obra. E veio a Copa e houve festejos. Todos, segundo a lei, compareceram ao Estádio Monumental, mas entre eles havia doentes, e competia à polícia sua captura segundo o que determinava a lei. Mas os doentes tentavam se esconder entre os que estavam sãos, e com isso estabeleceu-se grande tumulto.

A polícia foi obrigada a abrir fogo. As metralhadoras zumbiram durante muito tempo até que não restou ninguém de pé. Feito isso, tiveram início os jogos.

sábado, 16 de junho de 2012


CADÊ O FORRÓ?
Leide Franco

Tradição cultural deveria ser lei irrevogável. Patrimônio histórico que ninguém tem o direito de meter a mão. Deveria existir uma lei que protegesse todos os direitos da memória de um povo. Falo do forró [o legítimo]. Mas isso só seria coisa séria se morássemos em outro país. Ao falar em forró, por todo esse texto, leia-se ritmo musical típico da região Nordeste do Brasil, tirado do som da sanfona, zabumba e triângulo. Um som alegre com influências do xote, baião e xaxado, que tornou-se mais popular no Brasil por volta de 1950.

Brasil é um país sem memória. Por que? Porque vive reinventando os costumes numa tentativa de "neorrepaginar" o que existe. É impossível manter as origens. Inventou-se, na década de 90, o forró universitário. Pelo amor de Luiz Gonzaga, se o Sudeste quer curtir o forró, respeite-nos! Ah, é feio para o Sudeste, lado desenvolvido do país, reproduzir a cultura de nordestinos, é? Que seja ou não. Agora é inaceitável que peguem o nosso forró, arrasta-pé, bate-chinela e transformem nesse ritmo cheio de som de bateria e guitarra e ainda fazer a gente consumir esse produto industrialmente fabricado é um tanto demais. E ainda chamar de revitalização do forró é dar na cara da gente.

O pior não é ver o produto chegar enlatado de lá. Cruel é ver que nós mesmos reproduzimos. Junho é mês festeiro. É mês de festas juninas ou joaninas em homenagem a São João. É uma celebração trazida pelos portugueses, ainda durante o período colonial (época em que o Brasil foi colonizado e governado por Portugal). Danças, fogueira, fogos de artifício, comidas típicas, alegria e Zezé di Camargo e Luciano, Luan Santana, Leonardo, César Menotti e Fabiano, Fernando e Sorocaba e os Aviões do Forró e o Forró do Pegado, Cavaleiros do Forró, Calcinha Preta e o Grafith tocando nas principais cidades festeiras do Nordeste. 

O que diria Câmara Cascudo sobre o nosso presente?
Ah, meu povo, é triste ver como estamos perdendo o rumo, perdendo a noção e a importância que a força cultural de um povo exerce sobre a nossa história. Que memórias irá guardar a geração jovem? Serão lembranças descartáveis. 

Quem me conhece sabe que não tolero nenhum desses cantores/bandas citados acima, mas até respeito, pelo menos tenho tentado respeitar quem gosta. Impossível é aceitar a descaracterização da tradição e empurrar esse tipo de música goela abaixo quando o mês é do forró, é brincar com a nossa paciência. É só um mês, temos outros onze para todos os "tecnoneosertanejos" do mundo. Ah, mas as coisas mudam, avançam, evoluem. O que é evolução?

Produto bom é produto que vende. É claro. Essa é a prática adotada nesse sistema queorganiza as festas juninas. Prática fomentada pela mídia que visa o lucro. O forró autêntico, pé-de-serra, aquele que faz arrastar os pés parece não caber entre as atrações. É feio. Antigo. Ultrapassado. Démodé. Dançar forró hoje é fazer cambalhotas, pinotear. Ouvimos solos mal feitos na guitarra. Nem vou falar da qualidade das letras musicais, rende outro texto inteiro. Cadê as sanfonas de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca? Cadê o ritmo de Elino Julião, Elba Ramalho, Genival Lacerda, Jackson do Pandeiro. Cadê o forró?
 
 Sindicato dos Corruptos
Nota Oficial

Ficam todos os associados a esta entidade avisados que a todo bom corrupto assiste o direito de corromper, usufruir, fraudar e desviar fundos públicos, sendo-se-lhes garantida impunidade absoluta, bem como o direito de não produzir provas contra si. 
 
Tal direito é consuetudinário e, portanto, o corrupto pode e acima tudo deve exigir seu cumprimento. Advertimos que qualquer corrupto que não exigir o que lhe é de direito será alvo de ação por parte deste Sindicato, que zela pelo bom nome e integridade das normas e bons procedimentos que assistem à nossa profissão. 

Enfatizamos que o descumprimento das leis é norma pétrea e basilar da corrupção e que o descumprimento do descumprimento é passível de punição, exigindo-se de cada associado adesão irrestrita a tais formalidades. A corrupção tem contribuído enormemente para a construção de obras faraônicas e atos conexos, o que comprova a importância de nossa presença na vida pública e na manutenção do bem-estar social. 

Destarte, este Sindicato reafirma seu apoio aos associados que estejam na mira da Justiça a fim de que, ao final do processo, saiam todos ilesos e bem dispostos, aptos, portanto, a dar continuidade a seus necessários e urgentes misteres.

A Presidência

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Candidato a vereador anuncia: Natal e todo o Estado serão transformados em gigantesco e formidável hospício

Fui procurado ontem em minha tipografia por um elegante corvo– informo que tipógrafo sou, tendo cumprido aprendizado com o mestre Gutenberg. 

Como cavalheiro elegante, aquele nobre homem vestia-se a caráter: fraque pretíssimo impecável, cartola e monóculo. Procurou-me para anunciar sua candidatura a vereador nas próximas eleições, garantindo que seu mandato muito enobrecerá a já muito nobre Câmara Municipal de Natal, este infeliz burgo.
http://arquivosdoinsolito.blogspot.com.br/2009/05/inteligencia-de-corvos-intriga.html
 Segundo disse, sua proposta gira em torno de dois projetos essenciais: a transmigração da ambiência legislativa e a transformação do Rio Grande do Norte em um hospício, onde, por efeito de alucinação midiática, todos os moradores serão felizes e viverão em paz e conforto.

Pedi-lhe explicação a respeito de tão doutas intentonas e mo explicou com graves ademanes jurídico-comunicacionais. Fiquei pasmo, como você, leitor deste pobre coranto, também o ficará. Eis o que me disse:

1)      Transmigração da ambiência legislativa é a nova doutrina jurídica a ser implementada por ele, quando eleito. Isso significa, explicou, que as leis que proporá terão âmbito ampliado para todo o Estado, deixando, portanto, de inscrever-se na jurisdição de Natal, disciplinando, assim, a esfera estadual;
2)    Isto feito, proporá a Lei da Alucinação Midiática e a imediata transformação de todo o Estado no almejado hospício.

Detalho agora: com a aplicação da doutrina da Transmigração da Ambiência Legislativa, e com sua vigência em todo o Estado, será determinada a criação do Hospício Único de Saúde. Com isso, todo o Rio Grande do Norte será cercado por altíssima muralha a fim de que nenhum, ninguém ou alguém possa escapar.

Isto feito, a propaganda oficial dos governos passará a ser a realidade oficial a ser aceita, proclamada e juridicamente imposta pela Lei da Alucinação Midiática.

Como todos estarão legalmente loucos, a alucinação será a verdade instituída e a ela todos estarão adstritos sob as penas da lei, penas essas que são: 1) Envio de todos os dissidentes a sala especial onde serão obrigados a assistir 24 horas por dia à propaganda oficial. 2) Os recalcitrantes serão lobotomizados. 3) E se mesmo assim os lobotomizados insistirem em que a propaganda oficial não é a verdade serão levados à pena capital. Após a execução, serão mandados ao Haiti, onde competente junta de feiticeiros os transformará em zumbis.

Somente após tal tratamento terão autorização para voltar a Natal ou, resistindo ainda, encaminhados a Hollywood a fim de que trabalhem em filmes de terror tipo “B”, proibidos eternamente de regressar à nossa cidade, então a mais feliz das metrópoles no mais feliz dos Estados.

A transmigração da ambiência legislativa, garantiu-me o corvo, será a maior prestação de serviço que a Câmara Municipal de Natal prestará ao infeliz Estado do Rio Grande do Norte, dentre tudo o que já fez de bom e de justo.

Ao perceber que ele me parecia um homem completamente louco, o corvo anunciou que, para cumprir seus intentos, conta com o magnífico apoio de grupos de pressão, cuja presença financeira garantirá que venha a ser eleito.

Argumentando em favor de suas pretensões disse, teorizando: “A realidade é complexa. Nela coabitam a realidade mesma, aquela onde estamos inseridos, e a realidade virtual, aquela dos anúncios. E sendo esta parte daquela, é realidade em si, uma vez que a propaganda nada mais é do que a simbolização do real. Ou seja: é verdade que a propaganda existe e, existindo dentro do real, é o real que deve imperar e orientar, viger e ser vivido.”

Quando argumentei que isso é loucura, rebateu: “Mas a loucura, a alucinação, será o real vivo. A alucinação que proponho será a realidade; realidade invertida, mas realidade vigente: portanto, a realidade melhor. E como quero o melhor para o povo, de Natal e do Rio Grande do Norte, devemos escolher o melhor: a loucura será esse melhor. E como todos os loucos devem ser confinados a bem da ordem pública, o Estado será elevado à condição de hospício, já que os loucos não podem ser soltos sob risco de graves transgressões, não concorda?.”

Dito isto, bateu asas e voou.

Tentei voltar a trabalhar, não consegui. Com muita dificuldade consegui compor este coranto. Por momentos temi pela minha sanidade mental. Teria eu visto mesmo um corvo em minha tipografia? Teria mesmo aquele elegante cavalheiro comparecido com tamanhas proposituras?
Então, liguei a TV e vi um anúncio oficial, garantindo que tudo está bem e que nossa realidade é a melhor, no melhor dos mundos.

Não, concluí. Não estou louco: o plano do Corvo é que já está em ação. Há muito tempo.  Eu é que não havia percebido...