sábado, 31 de março de 2012

Deu na Tribuna

Desembargadores são confirmados


Isaac Lira e Ricardo Araújo - repórteres

Carla Ubarana e George Leal confirmaram ontem à Justiça o teor dos depoimentos de delação premiada prestadas ao Ministério Público Estadual, indicando os desembargadores Rafael Godeiro e Osvaldo Cruz como co-autores dos desvios de recursos na Divisão de Precatórios do Tribunal de Justiça e dando mais detalhes sobre como o pagamento era realizado. O MPE disse, em nota enviada à imprensa, que a acusação "se coaduna com o conjunto probatório até o momento coletado". Ou seja, há provas. Os promotores do patrimônio público irão enviar cópias integrais dos autos para o Superior Tribunal de Justiça, o Conselho Nacional de Justiça e a Procuradoria-geral da República.

Júnior SantosApós depoimento, Carla e George voltaram à prisão domiciliar e não quiseram comentar seus depoimentos no dia de ontemApós depoimento, Carla e George voltaram à prisão domiciliar e não quiseram comentar seus depoimentos no dia de ontem

O conteúdo dos diários de Carla Ubarana foi quase que inteiramente confirmado durante os depoimentos realizados ontem. Contudo, Carla Ubarana deu mais detalhes. Rafael Godeiro e Osvaldo Cruz foram apontados como co-autores dos crimes. Judite Nunes, presidente do Tribunal de Justiça, foi apontada por Carla como responsável pelo desmantelamento do esquema. O relato da ex-chefe da Divisão de Precatórios do TJ descreveu o pagamento para Rafael Godeiro: era feito em espécie e dentro do prédio do Tribunal, como adiantou ontem a TRIBUNA DO NORTE. Mais especificamente, segundo Carla, o dinheiro era repassado na sala da presidência, não muito longe da vista dos demais servidores.

Fontes da TRIBUNA DO NORTE revelaram que Carla explicou detalhadamente como era feito o suposto repasse. Ela juntava notas de R$ 100 em maços e colocava dentro de envelopes originalmente utilizados para guardar papéis. Os maços eram organizados dentro do pacote de forma a não deixá-lo muito "gordo" e não levantar suspeitas. Feito isso, o envelope de dinheiro era entregue dentro do próprio gabinete da presidência. Em algumas situações, servidores do Tribunal viram pacotes de dinheiro dentro da bolsa de Ubarana, o que causou estranheza.

Ao mesmo tempo, fontes do jornal esclareceram a questão das provas existentes no curso do processo. Carla Ubarana não apresentou - ela mesma - provas acerca do que contou à Justiça. Contudo, a inspeção realizada no âmbito do Tribunal e a investigação da promotoria do patrimônio público encontraram cheques e ofícios de liberação de pagamento assinados pelos desembargadores, alguns inclusive seriam nominais para a própria Carla Ubarana e para a Gles Empreendimentos, empresa de George Leal. Como a própria nota do MPE aponta, o depoimento do casal Ubarana "se coaduna com o conjunto probatório até o momento coletado".

Para confirmar a delação premiada, e ter direito aos benefícios de redução de pena ou perdão judicial, Carla Ubarana e George Leal tiveram de abrir mão de quase a totalidade de seus bens e dinheiro em conta. A avaliação  de todo o patrimônio do casal, divulgada na nota enviada pelo MPE, foi de R$ 4,9 milhões. A casa em Baía Formosa vale R$ 3 milhões; os seis veículos (dois Mercedes Benz, dois Omegas/GM, um Pajero Full e um selvagem) em R$ 1 milhão; e o apartamento na rua Maria Auxiliadora, em Petrópolis, vale R$ 700 mil. Além disso foram apreendidas R$ 170 mil em espécie e 18.870 Euros e 5.050 Francos suíços.

Os valores em espécie foram entregues à Justiça ontem mesmo. O advogado Marcos Braga foi o responsável por resgatar a quantia, acompanhado de Policiais Militares e de uma viatura do Bope. Os bens de Carla Ubarana  e George Leal serão leiloados pela Justiça e o dinheiro revertido para cobrir o "rombo" deixado pelos desvios no Tribunal de Justiça. Carla e George ficaram unicamente com a casa que também fica na rua Maria Auxiliadora. Trata-se de um bem de família, cuja aquisição é anterior às fraudes no Tribunal de Justiça.

Os promotores solicitaram, na audiência de hoje à tarde, a revogação da prisão preventiva dos acusados Carlos Alberto Fasanaro Junior e Carlos Eduardo Cabral de Palhares de Carvalho. O motivo foi o término da instrução,  "com a conseqüente aplicação de medida cautelar de comparecimento a Juízo, entre outras condições", diz a nota do MPE. O juiz José Armando Ponte, da 7.ª Vara Criminal, deferiu o pedido. Já Carla e George foram mantidos em prisão domiciliar.

MPE envia autos para instâncias superiores

Com a delação premiada e o depoimento prestado à Justiça onde Carla Ubarana envolve os desembargadores Rafael Godeiro e Osvaldo Cruz no esquema de fraudes de precatórios, a investigação atinge um outro nível. A nota enviada pelo Ministério Público Estadual confirma o envio dos autos para Brasília, em três instâncias superiores: o Superior Tribunal de Justiça, o Conselho Nacional de Justiça e a Procuradoria-geral da República. Até o presente momento, a ação penal contra Carla Ubarana, George Leal, Carlos Fasanaro, Cláudia Sueli e Carlos Eduardo Palhares continua na 7a. Vara Criminal.

Os autos do processo serão enviados para o STJ, o CNJ e a Procuradoria da República por se tratar de denúncia contra desembargadores. Os promotores do patrimônio público não têm atribuição para investigar desembargadores, assim como a justiça de primeira instância não pode julgá-los. A partir disso, um subprocurador da República - integrante do Ministério Público Federal - assumirá a investigação, enquanto os ministros do STJ serão os responsáveis por julgar o processo. Nesse nível, todas as medidas empreendidas anteriormente para esclarecer a participação dos acusados comuns podem ser tomadas, como as quebras de sigilo, por exemplo, caso as autoridades considerem cabível e necessário.

Além disso, a atuação do Conselho Nacional de Justiça é bastante aguardada. No último mês, o Supremo Tribunal Federal chancelou a possibilidade de investigar e punir do Conselho perante os magistrados sem a necessidade de atuação das corregedorias. A decisão do STF foi considerada uma vitória para o CNJ. Com isso, a corregedora Eliana Calmon tem poderes para, inclusive, afastar qualquer magistrado. No meio jurídico circula a informação que o conteúdo da investigação já está no CNJ desde a última semana, quando a presidente do TJ, Judite Nunes, visitou Eliana Calmon. Mas nada foi confirmado oficialmente.

Uma outra questão é o destino da ação penal já em progresso contra o casal Ubarana e seus laranjas. A nota do MPE explica: "A referida ação penal prosseguirá normalmente perante o Juízo de Direito da 7.ª Vara Criminal da Comarca de Natal/RN". Dessa forma, os acusados sem foro privilegiado serão julgados na primeira instância, enquanto os demais devem ser investigados e, caso haja denúncia, julgados pelo tribunal superior.

Contudo, entre as várias fontes do meio jurídico consultadas pela TRIBUNA DO NORTE a tendência de que a ação penal contra Carla ficará na primeira instância não é tão garantida. As avaliações são contraditórias. Desde que as informações sobre a citação de desembargadores por Carla Ubarana começaram a circular, mesmo sem confirmação oficial, o jornal procurou várias pessoas para obter explicações técnicas acerca do destino do processo. Algumas acreditam que deva ser julgado pelo STJ, outros que a denúncia sem relação com o foro privilegiado irá continuar na primeira instância.

Com a continuidade do processo na 7ª Vara Criminal, a perspectiva de julgamento é para breve. A instrução foi finalizada ontem com todos os depoimentos. Depois de algumas diligências, será a hora das alegações finais. É nesse ponto onde o MP pede a diminuição da pena ou o perdão total. A expectativa está centrada em quanto o casal Ubarana pode ser beneficiado pela delação premiada.

Osvaldo Cruz nega envolvimento

 A reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com os desembargadores Osvaldo Cruz e Rafael Godeiro, tanto por telefone quanto pessoalmente nos respectivos gabinetes, para ouvir as duas versões sobre os fatos narrados por Carla Ubarana. O desembargador Rafael Godeiro passou o dia com o celular desligado e, na manhã de ontem, não foi ao prédio do Tribunal.

Osvaldo Cruz atendeu a reportagem da TRIBUNA DO NORTE. Ele disse: "Estou surpreso com a inclusão do meu nome nessas porcarias. Mas não tenho medo porque sei que sou inocente e o esclarecimento dos fatos irá mostrar isso. Não tenho mais nada para declarar".

Da mesma forma, os outros desembargadores citados nos diários de Carla Ubarana foram procurados pela TRIBUNA DO NORTE em seus gabinetes. Zeneide Bezerra e João Rebouças não foram encontrados. Caio Alencar está viajando e também não comentou o conteúdo da publicação.

Os diários citam seis desembargadores em situações distintas. Osvaldo Cruz e Rafael Godeiro, como confirmado ontem, são colocados como beneficiários do esquema. Judite Nunes e João Rebouças como omissos. De Caio Alencar, diz-se: "dois pesos, duas medidas". Acerca de Zeneide Bezerra, Carla cita a fila de precatórios.

Presidente do TJ não se pronuncia

A presidência do Tribuna de Justiça do Rio Grande do Norte vai se ater ao formalismo processual e não deverá fazer qualquer comentário sobre as anotações dos "diários da prisão" de Carla Ubarana. A presidente, desembargadora Judite Nunes, está em Manaus (AM) desde a ultima quarta-feira, participando do Encontro do Colégio Permanente de Presidentes dos Tribunais de Justiça do Brasil, e só deverá voltar a Natal neste fim de semana.

Qualquer pronunciamento, mesmo após a volta da desembargadora Judite Nunes, será através de nota ofocial. Assessores relacionados à presidência do TJRN, extra-oficialmente, comentaram o noticiário sobre os "diários" de Carla Ubarana. Para um deles, as anotações não têm valor judicial e são apenas "divagações" da ex-chefe da Divisão de Precatórios do tribunal. Esse assessor chama a atenção para um detalhe: "a forma incompleta da linha de raciocínio e até algumas frases". Isso comprovaria que as anotações "não passam disso e não podem ser tidas como provas".

Os "diários" de Carla Ubarana, até onde a TRIBUNA DO NORTE pode apurar não foram incluídos nos autos do processo pelos advogados de defesa nem pelo Ministério Público.

Chegada de réus mostrou contraste

Visivelmente mais magra, com os cabelos mais claros, maquiada e de óculos escuros modelo "Ray Ban", a imagem de Carla Ubarana ao deixar sua residência em Petrópolis nem de longe lembrava aquela mulher que precisou ser amparada por policiais civis no dia quem foi presa, em 31 de janeiro passado. Para um desavisado, os últimos 49 dias que se dividiram em internações hospitalares, na detenção em uma cela especial de um presídio comum, das indas e vindas aos hospitais, além das mudanças na coloração do cabelo, deram uma nova e rejuvenescedora imagem à principal acusada de desviar recursos do Setor de Precatórios do Tribunal de Justiça (TJRN).

 Carla Ubarana deixou sua casa na manhã de ontem vestindo um conjunto de calça e blusa em tons de cinza com detalhes brilhosos.  George Leal, vestia uma camisa azul, calças jeans e sapato preto. Seu semblante era de serenidade, aparentemente alheio ao aparato de segurança montado e à presença da imprensa na porta da sua casa. Nenhum deles usava algemas. O casal foi conduzido ao Fórum Miguel Seabra Fagundes, em Lagoa Nova, pelos advogados José Maria Rodrigues Bezerra e Marcos Aurélio Santiago Braga. Este último foi o condutor do carro de luxo com bancos de couro, vidros fumê e ar condicionado, que os levou ao Fórum.

 O veículo foi escoltado por duas viaturas do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Uma na frente, abrindo o trânsito, e a outra fazendo a segurança na retaguarda. Ao longo do percurso, mesmo com o sinal sonoro das sirenes desligado, o comboio chamou a atenção da população. Ninguém conseguia enxergar quem ocupava o banco traseiro do carro ladeado pelas viaturas da Polícia Militar.

 Ao chegarem ao Fórum Miguel Seabra Fagundes, o casal foi conduzido à entrada destinada somente aos juízes. Sem permissão oficial, Carla Ubarana, George Leal e os advogados José Maria Rodrigues Bezerra e Marcos Aurélio Santiago Braga, utilizaram o elevador exclusivo dos magistrados para terem acesso preferencial ao primeiro andar do prédio.

 Uma hora depois, sem o conforto dos principais acusados de comandarem o esquema de desvio de recursos dos precatórios, Carlos Alberto Fasanaro Júnior e Carlos Eduardo Cabral Palhares de Carvalho, custodiados no Presídio Provisório Raimundo Nonato, na zona Norte, chegam ao Fórum Miguel Seabra Fagundes. Os réus foram conduzidos à Sala de Audiências da 7ª Vara Criminal algemados e escoltados por agentes penitenciários do Grupo de Escolta Penal (GEP).

 Visivelmente abatidos, nenhum deles falou com a imprensa. Carlos Eduardo Cabral, que dividiu a mesma cela com George Leal por quase dois meses, transpirava e aparentava nervosismo. De barba e cabelos crescidos, Carlos Alberto Fasanaro  chegou ao primeiro andar do Fórum de cabeça baixa e calado. Os agentes penitenciários e os policiais militares que realizaram o traslado e escolta dos reús, preferiram não comentar os motivos pelos quais existia uma distinção de tratamento entre Ubarana e George em relação a Fasanaro e a Palhares. Na entrada e na saída do Fórum, o processo de condução de todos eles seguiu a mesma cartilha.

 A diferença, porém, é que o juiz Armando Ponte aprovou a expedição de alvará de soltura favorável a Carlos Alberto Fasanaro e Carlos Eduardo Palhares. Eles poderão responder ao processo em liberdade condicional. Ontem à noite, porém, eles ainda voltaram ao presídio onde aguardariam a chegada do alvará de soltura. Nenhum deles comentou o resultado da audiência.

Frankie MarconeCasal acusado de comandar as fraudes no setor de precatórios do TJRN chega ao Fórum sem algemas e demonstrando calmaCasal acusado de comandar as fraudes no setor de precatórios do TJRN chega ao Fórum sem algemas e demonstrando calma
Armas da coleção do casal são apreendidas

 No início da noite da quinta-feira passada, os policiais militares que fazem a guarda do casal Ubarana Leal, recolheram pelo menos três armas que estavam sob o poder dos réus presos em domicílio. De acordo com informações do comandante geral da Polícia Militar, coronel Francisco Araújo, todos os armamentos estão devidamente cadastrados na Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) através do Sistema Infoseg. As armas estão registradas tanto no nome de Carla quanto no de George.

 "Apesar das armas estarem legais e registradas, elas não podem permanecer em poder deles. Os armamentos foram recolhidos e encaminhados para a 7ª Vara Criminal. Por eles estarem presos em domicílio, esta atitude foi tomada", explicou o comandante. Ele não informou, porém, o total de armas curtas e armas longas que foram recolhidas, nem o calibre delas. Carla e George são cadastrados como  colecionadores do artefato.

Bate papo

Marcelo Varella, vice-presidente Amarn

"É preciso lembrar que tudo isso precisa ser confirmado"

A Associação dos Magistrados do Rio Grande do Norte divulgou na manhã de ontem nota comentando as denúncias contra desembargadores nas investigações sobre as fraudes nos precatórios do TJ. Na nota, assinada pelo vice-presidente Marcelo Varella, a instituição afirma que é a favor das investigações "doa a quem doer", mas "repudia qualquer acusação sem provas, constante apenas de anotações, opiniões ou conclusões de pessoa sob suspeita, que venha a denegrir a imagem dos Magistrados ou imputar-lhes levianamente prática delituosa".

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com outras entidades representativas. A OAB não pôde se posicionar porque o presidente e o vice estavam fora da cidade. O CNJ informou que está concentrado, até o momento, somente na reorganização administrativa do setor de precatórios. Já o Tribunal de Justiça, principal atingido, só irá se pronunciar na próxima segunda-feira. A presidente, Judite Nunes, estava viajando ontem, segundo informações da Assessoria de Comunicação.

O vice-presidente da Amarn, Marcelo Varella, conversou por telefone com a reportagem da TRIBUNA DO NORTE, antes da confirmação em juízo do conteúdo dos diários de Carla Ubarana. Veja:

A Amarn considera duvidoso o relato de Carla Ubarana?

Não é bem isso. A Amarn teme que o conteúdo desses relatos seja tomado como verdade absoluta. É preciso lembrar que tudo isso precisa ser confirmado pelo conteúdo probatório da investigação. Do contrário, corremos o risco de fazer um pré-julgamento. Quando a imprensa divulga um conteúdo como o que foi divulgado, grande parte da população tende a tomar como verdade. Mas é preciso cuidado. O que está ali não é a verdade absoluta. É preciso esclarecer.

O senhor teme que o caso prejudique a imagem do Tribunal e da Justiça?

É uma situação preocupante. A investigação se fixa dentro de um ramo do judiciário, então é bastante preocupante. A Amarn espera um judiciário limpo, sem contar com aqueles que não têm uma atitude correta. Contudo, é preciso ser cuidadoso para não fazer um pré-julgamento.

Memória

A crise no Tribunal de Justiça, gerada a partir de fortes indícios de desvio de recursos no Setor de Precatórios, começou em janeiro passado, com a exoneração da então chefe do Setor, Carla de Paiva Ubarana Araújo Leal. Carla  é a principal suspeita de ter desviado dinheiro repassado por prefeituras, pelo Governo do Estado, além da União. Uma Comissão de Sindicância formada por desembargadores e juízes auxiliares dos Tribunal de Justiça foi instalada no dia 10 de janeiro para averiguar o que de fato havia acontecido.

Treze dias depois, a presidenta do Tribunal de Justiça, desembargadora Judite Nunes, entregou ao Ministério Público Estadual e ao Tribunal de Contas do Estado, um relatório que serviria de base para uma investigação mais aprofundada. Além do MPE e do próprio TJ, o Tribunal de Contas do Estado realiza uma inspeção extraordinária para quantificar o montante final dos desvios. Cerca de sete mil processos foram analisados.

A investigação iniciada pela desembargadora Judite Nunes ainda em setembro do ano passado culminou na Operação Judas, realizada pela Promotoria de Defesa do Patrimônio Público na última semana de janeiro. O Ministério Público Estadual, com auxílio dos agentes da Polícia Civil cumpriu seis mandados de prisão, busca e apreensão.

Os mandados foram expedidos pelo juiz Armando Pontes, em substituição na 5ª Vara Criminal, contra a servidora do TJ, Carla  Ubarana; George Luís de Araújo Leal, esposo de Carla; Cláudia Sueli  Silva de Oliveira Costa, ex-funcionária particular de Carla e George; Carlos Eduardo Cabral Palhares de Carvalho, amigo do casal; Pedro Luís Silva Neto, servidor do Banco do Brasil e Carlos Alberto Fasanaro Júnior, amigo do casal.

 Pedro Luís Neto não foi incluído na denúncia. Foi considerado inocente, portanto. Cláudia Sueli é apontada como suspeita de participar da quadrilha coordenada por Carla Ubarana e George Leal, mas teve sua prisão preventiva foi relaxada através do deferimento de um habeas corpus pela Justiça estadual. Carla e George cumprem prisão domiciliar. Fasanaro e Palhares cumpriam prisão preventiva no Presídio Provisório Raimundo Nonato e obtiveram alvará de soltura ontem, ao final da primeira audiência de instrução realizada na 7ª Vara Criminal.

quarta-feira, 28 de março de 2012

De como uma orca invadiu a redação da Tribuna do Norte

Sendo hoje o Dia do Diagramador quero prestar minha homenagem a esses jornalistas. São eles que fazem a programação visual das edições. Homenageio os colegas na figura de dois dos grandes monstros com quem já trabalhei: Moacir Oliveira, o Moaça, a velha Orca, e Enéas Peixoto, o velho Zé de Ena. Temperamentais, sérios, competentes, trabalhadores, talentosíssimos. E dignos, muito dignos.

Vou contar como Moacir ganhou o apelido de orca. Naquele tempo jornal era redigido a máquina de escrever e diagramado em papel e régua. As redações eram ambientes esfumaçados, regidos a gritos e imprecações, encharcados de café e estresse. Não podia haver melhor inferno do que esse.

Pois bem: foi em meio a essa loucura que um dia, coisa de seis da noite, máquinas disparadas, fotógrafos correndo para o laboratório, a redação a um grau de loucura, que Moaça começou com um estranho hábito que nos atormentou por vários dias: de repente, tomado por algum espírito zombeteiro, emitiu um alto, longo, forte, agudíssimo e poderoso guincho, que se sustentou no ar com a intensidade de um saca-rolha entrando em seu ouvido. 

Enquanto ele despachava seu terrível som a redação começava a parar. Cigarros eram depositados nos cinzeiros, carros de máquina silenciavam. Alguns de nós chegavam a tapar os ouvidos. E o velho Moaça, firme: "Innnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn...!!!"

Só parou quando acabou o fôlego. E ele ria, ria muito da temível sonoridade que há pouco havia perpetrado.

Mas, enfim, terminada aquela ópera dos infernos, suspenso o guincho até a tarde seguinte, Enéas disse, procurando Moaça que havia saído da redação: "Cadê a orca?"

E foi assim que a velha redação da Tribuna do Norte ganhou, além do aquário do editor, a presença, a grande presença daquela orca no nosso mar tribulado de mil momentos, como só se viam naqueles tempos de grandes navegações.

Leio no Globo e compartilho

Morre aos 91 anos a cantora Ademilde Fonseca

Rainha do chorinho’ sofreu um mal súbito


Ademilde Fonseca, a rainha do chorinho, continuava em atividade
Foto: Simone Marinho
Ademilde Fonseca, a rainha do chorinho, continuava em atividade - Foto Simone Marinho
RIO - A cantora Ademilde Fonseca, a “Rainha do Chorinho”, morreu no final da noite desta terça-feira. Ademilde tinha 91 anos, e segundo sua família, sofreu um mal súbito. A cantora faleceu em sua casa, na Lagoa. Sua família informou que Ademilde sofria do coração, mas que enfrentava uma boa fase. No último final de semana ela fez shows em Porto Alegre e nesta terça-feira gravou dois programas de televisão. A família informou que o enterro será no Cemitério São João Batista, em Botafogo, mas o horário ainda não foi definido.

Ademilde nasceu em Pirituba, no município de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte. Suas interpretações a consagraram como a maior intérprete do choro. Trabalhou por mais de dez anos na extinta TV Tupi. Seus seis discos renderam mais de meio milhão de cópias. Ela ainda atuou muitos anos nas rádios Tupi e Nacional. Além de fazer sucesso no Brasil, regravou grandes sucessos internacionais e se apresentou em outros países. Ela é considerada a criadora do choro cantado e também foi a primeira cantora nordestina a encantar o país com esse gênero..
Tem fuá no BBB

Ontem, enquanto esperava para ser atendido por uma caixa do correio, ouço conversa entre uma mulher na fila ao lado: falava alto, dizia ser telespectadora assídua do BBB e "disso não se envergonhava". Garantia que muita gente assiste o programa mas diz que não vê. 
http://www.bigbrotherbrasil.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/mulheres-bbb-12.jpg

Teorizando, explicava que que o BBB "era como a gente estar vendo a vida", e mais: "Aquilo ali é a vida mesmo. É um jogo, quem sabe jogo, ganha. É matar um leão por dia". 

Acho que não deixa de ter alguma razão. O BBB representa de alguma forma o tipo de sociedade que criamos, cuja valoração da esperteza e da ética relativa são uma espécie de padrão. 

As humilhações sofridas pelos participantes, como se fossem "competições" para tentar ganhar um milhão ao fim da disputa, são algo que realmente as pessoas enfrentam no cotidiano, só que nas filas dos ônibus, no péssimo atendimento da rede de saúda pública, no trabalhador que aceita não receber hora-extra como jeitinho de não ser demitido, essas coisas..., você sabe... De alguma forma há sim um BBB no mundo. 

Mas, voltando à falastrona: defendia a necessidade de haver aquele tipo de programa como "um bom passa-tempo" e atraía a si a atenção de mais umas duas ou três mulheres, todas concordando com o bravo pronunciamento. Afinal, encerrando a conversa, disse: "O que eu gosto mesmo é de ver o fuxico; o que eu gosto mesmo é de ver o fuá."

Concordo: no Brasil o que precisamos mesmo é de ver o fuá. Qualquer candidato a vereador sabe disso. Ele também, se eleito, vai fazer muito fuá.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Chico Anísio: saudade em superlativo absoluto sintético

Não, não morreu apenas um homem, no sentido de um único homem, especial, inteiro, irrepetível. Com ele morreram muitos. Chico era muitos. Seu talento abrigava, como uma vasta casa sertaneja, aquelas de alpendrada larga, a vida de muitos personagens, todos vivos, vivíssimos, em sua verve vivacíssima - isso mesmo, superlativo absoluto sintético.
Folha de S. Paulo

Então, Chico era isso: superlativo absoluto sintético. Reunia em si coisa muita, uma brasilidade inteira, um grande samba exaltação do que seja ser brasileiro; brasileiro, esse modo de vida, estilo de ser: intenso e forte, pianíssimo em cada gargalhada. 

Vá. E onde quer que esteja, incorpore  agora o novo personagem: a saudade, torne-se saudade, seja saudade. Mas, veja só: ser saudade é coisa difícil, para você, não? Digo isso porque saudade, esse substantivo feminino fusco e pardo, cheio de meios tons e desvãos de cinza, sempre tendente à tristeza, tem o dom da despedida e isso não combina com o seu humor.

Mas, enfim, é isso: o Brasil está meio sem graça. Essa a grande realidade. Não tem graça nenhuma perder Chico Anísio. E o pior, Chico, é que o Brasil é uma piada, na verdade, uma grande piada. E você, como ninguém, soube nos fazer ser essa piada. E rir de nós mesmo. E o salário mínimo, ó....

Encerrando, digo: "Adeus, Chico. No mínimo, você era o máximo." 
E como no máximo meu texto é mínimo para dizer o que penso, penso que é melhor não pensar que perdemos o que a gente não devia, não podia perder: você e todos os personagens que moravam em você.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Dia mundial da água
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj6fUYeqz5gN0kxpcnpfaipORsyrqxd4ZLJGwpjC86J0EAve-FRJwLWMnL3fSgwNvCCYn7fNlVp6qoTA55XZKPPHELRFiFzxdNY0GpfRk9OIn16PHTb0Cg7IMhEUiTU1roX5ziw/s1600/pl%C3%A1stico+no+mar.jpg

quarta-feira, 21 de março de 2012


http://www.google.com.br/imgres?hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-
Sem mácula, apesar da Manxa

Leio no Novo Jornal a morte de Manxa, escultor e entalhador. Morreu aos 64 anos, problemas renais, em pleno ostracismo. Até que ponto as atitudes de esbanjamento do artista o levaram à distância de um sítio no interior, onde cultivava e vendia hortaliças, e daí ao esquecimento, e até que ponto quem é muito grande não deve viver com gente pequena, não saberia fazer a diferença, uma vez que com ele não convivia.


Mas, certa tarde, em Ponta Negra, num alpendre amigo, conversamos longamente. Revelava seu amor à arquitetura e às imagens magistrais que criava. Tinha admiração por Le Corbusier. Era encantado com o que suas mãos produziam.

Ontem, na Reitoria da UFRN, olhava sua magistral  - e monumental - escultura Guernica Nordestina, espalhada para cima e para os lados em frente em espelho d'água. Hoje, de alguma forma sinto saudade.

terça-feira, 20 de março de 2012

Fórum de Professores quer readmissão
de docente afastado da FaCásper

A diretoria do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ) manifesta, neste documento, sua insatisfação pública com a recente demissão do professor Edson Flosi da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Jornalista com décadas de experiência profissional, Flosi trabalhava no Curso de Jornalismo da Instituição havia 16 anos e, mesmo doente e afastado para tratamento médico, foi demitido da Escola.

Independentemente da motivação oficial que tenha levado à demissão do professor, a diretoria do FNPJ defende e solicita que a direção da FaCasper reveja tal decisão e mantenha o professor em seu quadro profissional. A educação superior não pode ser tratada como simples mercadoria, nem seus profissionais podem ser considerados meras peças aleatoriamente descartáveis.

A manutenção do afastamento do professor Flosi constituiria-se num mau exemplo para as demais instituições de ensino superior, que poderiam se sentir desobrigadas dos cuidados humanos e éticos no tratamento de situações semelhantes. O peso e a tradição da Faculdade Cásper Líbero, nesse caso, estariam colocados em prol de uma péssima causa. Para o bem do professor e da preservação do nome da própria Faculdade, torna-se indispensável, num primeiro momento, o reconhecimento do equívoco e da gravidade do ato.

A justificativa, além da solidariedade humana que qualquer pessoa tem direito em caso de doença e quando precisa de tratamento médico, refere-se ao fato de a Faculdade Cásper ser a mais antiga instituição universitária do País a ofertar Curso de Jornalismo (desde1947). E, portanto, era de esperar, no mínimo, que conseguisse manter o respeito humano e profissional a seu quadro docente.

A direção do FNPJ reforça, aqui, seu apoio à iniciativa de manifestação estudantil, realizada desde a sexta-feira (16/03/2012), contra a demissão do professor Flosi. É preciso, mesmo, que outras entidades e membros da comunidade acadêmica venham a público solicitar a imediata revisão de tal decisão administrativa. Afinal, tamanha injustiça é inaceitável em qualquer momento ou local e, portanto, estranha o fato de que a diretoria da FaCásper – com um histórico de prestígio na manutenção de um respeitado Curso de graduação em Jornalismo – tome tal atitude, que foge ao respeito que tal instituição registra, ao longo das últimas seis décadas. Uma ação impensada de gestor não pode colocar em risco a imagem de uma Fundação que mantém o mais antigo Curso de Jornalismo do Brasil e da América Latina.

Por isso mesmo, a diretoria do Fórum de Professores de Jornalismo (FNPJ) faz, aqui, um apelo público em defesa da qualidade do ensino universitário, que não se faz apenas com estrutura física, mas também com respeito humano, solidariedade e respeito profissional. E, neste momento, tal gesto pode se expressar na imediata readmissão do professor Edson Flosi.


Diretoria do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ)
Gestão Em Defesa da Formação Jornalística (2010-2012)


Brasília/DF, 20 de Março de 2012

domingo, 18 de março de 2012

Memorial do Guerrilheiro Glênio Sá - Cidadão Natalense
 Walter Medeiros*

Último dia do ano de 1999. Uma jovem repórter percorre os arredores da Torre de TV de Brasília. Olhar atento, ela observa cada pessoa, dos turistas aos hippyes, principalmente olhando para os seus braços esquerdos e mãos direitas. Procurava alguém que tivesse um cordão amarrado no braço esquerdo e uma Bíblia na mão direita. Aproximava-se da meia-noite. Em menos de uma hora chegaria o ano 2000, que tanto trabalho deu para entenderem tratar-se do último ano do Século XX e não o início do novo século. Ela procurava não dar na vista, mas olhava para todos que encontrava, preocupada em não deixar de enxergar ninguém. Se aquela pessoa que procurava estivesse no local ela não poderia deixar de localizá-la. 

O frio era grande, mas ela era acostumada com aquelas temperaturas do cerrado e sempre saía de casa com o agasalho certo; não teria nenhum problema. Não tinha perigo de deixar de ver a pessoa que procurava, se ela estivesse no local, pois ela conhecia cada canto da torre. Estava acostumada a fazer reportagens e visitas ao local, às vezes até para almoçar no seu restaurante. Ou mesmo para levar amigos de outros estados a fazerem compras na tradicional feirinha do local. Havia uma ansiedade muito grande, pois o encontro com aquela pessoa poderia ser emocionante. Ela queria saber aonde e como teria sido a vida da outra pessoa nos últimos 26 anos. 

A ansiedade aumentava na medida em que aproximava-se da meia-noite. Seria a passagem  do ano e início do reveillon de Brasília. Através de um pequeno televisor a pilha, ela vira de relance festejos da chegada do ano em outras partes do mundo. Na solidão de sua missão jornalística, via a beleza dos fogos de artifício iluminando o céu da sua amada cidade. Correu do seu rosto uma lágrima. Era a emoção da chegada do ano 2000, a frustração por não ter encontrado a pessoa que esperava e o calor anônimo das pessoas que a cumprimentavam e desejavam “Feliz Ano Novo!” e “Feliz Ano 2000!”. Não encontrou o homem do cordão no braço e a Bíblia na mão. Mesmo assim aproveitou aquele ambiente que viu e juntou dados para uma matéria, na qual contaria o que tinha ido fazer na Torre de TV naquela hora e revelaria para seus leitores tudo que sabia a respeito do homem que fora esperar.  

A imprensa nacional atentou para o encontro marcado por Glênio Sá, ex-guerrilheiro do Araguaia, com um ex-companheiro de cela. Eles combinaram que passariam o réveillon juntos na Torre de TV de Brasília. Um jornal da cidade registrou a história em grande reportagem com a chamada: “Torre de TV: local em que dois ex-presos do regime militar marcaram um encontro 25 anos atrás para comemorar a liberdade”.  Glênio sobreviveu ao regime militar, sem dedurar ninguém, mas não pôde contar ao amigo sobre a nova etapa da sua vida, quando reestruturou o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Natal, casou-se, teve um casal de filhos, acreditava na revolução. Não conseguiu encontrar o amigo para falar de coisas boas. Seus contatos resumiram-se ao período da prisão, havia tantos anos.
Enquanto Glênio estava preso por motivos políticos, o outro fora parar no Pelotão de Investigações Criminais (PIC), no Setor Militar Urbano acusado de desviar armas do Exército. Era um recruta, preso num cela vizinha. Ninguém sabia o seu nome. Constava que era paranaense e fazia contato com o vizinho de cela, apavorado com os gritos vindos das sessões de tortura. A Torre de TV era a única vista externa que os dois tinham a partir da prisão. Eles subiam numa pia para contemplá-la, enquanto sonhavam com a liberdade. 

A forma de se identificarem depois de tantos anos seria usar um cordão amarrado no braço esquerdo e conduzir uma Bíblia na mão direita. Mesmo Glênio tendo vivido fora de atividades religiosas, demonstrava grande respeito pelas Igrejas e o uso da Bíblia no encontro não seria totalmente despropositado, pois o seu amigo era evangélico.  Todos estavam atentos no dia. Mas Glênio não poderia estar lá. Seu amigo também não foi ao encontro. Talvez jamais saibamos porquê. A jornalista lançou um olhar no infinito, para onde mandava em pensamento suas homenagens a Glênio e dava por encerrada a busca pelo encontro que o tempo e a vida desfizeram.
*Jornalista

sábado, 17 de março de 2012


A persistirem os sintomas, procure um médico...

Na televisão são muito comuns anúncios de medicamentos, seguidos da advertência que dá título a este artigo. No Brasil, a TV assumiu um papel de grande relevo especialmente por dois motivos: primeiro, o televisor é um bem de consumo durável, ao contrário do jornal que, após lido o que interessa, não terá mais qualquer utilidade; segundo, porque a maioria dos brasileiros não tem dinheiro para outra forma de lazer que não seja assistir televisão.
http://www.google.com.br/imgres?hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-a&hs
 Isso atribuiu ao veículo TV, em nosso país, um grande poder uma vez que a televisão, com seu discurso de apelo direto, assumiu o papel de instituição prescritiva, ou seja: de alguma forma determina formas de comportamento, dita moda, induz compreensões de mundo.

Resultado: a publicidade médica tomou a televisão como parceira e a transformou em consultório. Mais resultado: celebridades como Pelé passam a recomendar esse ou aquele produto de uso medicinal, pelo simples fato de que estão associados à sua figura. Pelé anunciava um composto chamado Vitasay, como se fora Vitasay o elemento responsável por sua excelente forma física, o elemento potente que havia garantido a seus músculos a capacidade para chegar onde chegou. Não era verdade. Pelé tinha talento e exercitou-se muito para se manter em forma.

Atores e atrizes mais ou menos famosos também exercitam esse tipo de medicina televisiva. E até anônimos também fazem esses anúncios. É que o poder televisivo foi de tal forma construído, que a publicidade médica, mesmo feita por anônimos, passa por serviço; aquele remédio não está sendo "vendido", você está sendo "informado" de que comprando um determinado comprimido ou xarope ou qualquer-coisa-por-aí, estará tomando um bom medicamento. 

É aí que entra, muitas vezes, a advertência, na verdade uma matreirice para livrar o fabricante de qualquer responsabilidade: "A persistirem os sintomas procure um médico". Espere aí: você é induzido a tomar uma beberagem qualquer para se curar, depois a tal beberagem não faz efeito e somente então você deve ir ao médico? Há aí algo que varia entre o insano, o surrealista e o perverso.

O insano é você ser induzido ao consumo de uma droga por alguém não qualificado; o surrealista é a forma com que a dramaturgia publicitária envolve numa atmosfera quase que de sonho a promessa de cura; o perverso é que muitas vezes a pessoa vai mesmo comprar aquilo simplesmente porque não tem plano de saúde, o sistema público de saúde não funciona e o coitado não tem dinheiro para uma consulta particular.

Estranho país esse, onde medicina é vendida pela TV. Não foi proibido anúncio de cigarro e de bebidas alcoólicas fortes? Por que também não se proíbe essa medicina televisiva?

Concluindo: não é porque Xuxa é apresentada como rainha dos baixinhos que tenha qualquer autoridade para falar a respeito do bem estar e qualidade de vida das crianças. Xuxa transformou-se numa marca, ela própria é um produto, um produto que gera outros produtos. Não tem qualquer autoridade ou autorização para dizer o que é bom ou não para as crianças. Ela apenas induz meninas a comprar coisinhas e mais coisinhas com o dinheirinho dos papais e mamães. Instrutivo, não?
E se você tem mania de ver e acreditar em tudo que se passa na televisão, a persistirem esses sintomas procure um médico...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Caçuá do tempo

--- Walter Medeiros

Vivi lá pelo sertão,
No cheiro do aveloz,
Pelo espinho do cardeiro,
Vendo a boneca do milho
E a Rosinha do amor.

Nada mais belo que as pedras,
Areia, poeira seca,
O entrançado das cercas,
O colorido do mato
E os bichos fazendo som.

Na sombra do umbuzeiro
Ouvi muitos passarinhos,
Vi um luar tão branquinho
Inda menino buchudo
Levava a vida a sonhar.

Agora o sonho é saudade
Do tempo que já se foi
Dentro de um carro de boi
Trancado num caçuá
Cheio de felicidade.

Caatinga adentro encontrava
Pelas plantas do destino
A mais bela flor vermelha
E vasos com mel de abelha;
Como meu mundo cheirava!

Mas ninguém faz o que quer
Fui parar noutros lugares
E aqueles belos luares
Agora apertam meu peito
Mas fazem a minha fé.

Acabou de chegar uma chuva de sertão: a bença, minha vozinha

Acabou de chegar uma chuva de sertão. Chuva grande, poderosa. Chuva do tempo velho, quando o sertão era terra de bicho brabo: onça esturrando alto no meio da noite densa. Chuva antiga, muito antiga, tempo em que as mulheres da casa usavam cabelo alto, arrumado num totó. Chuva boa, criadeira, plantadeira de chão, trabalhadeira da terra. De enxada e brotação. 
Arte do livro Asa Branca feita com nanquim e guache - Maurício Pereira

Não sei porquê, mas essa chuva me trouxe essa lembrança de tempo que não vivi. Dá-me a impressão, essa chuva, de uma alegre chegada de avós que moravam nos escondidos da serra, apeando na capital. E de lá me contando muito do trovão explodindo a noite, o corisco vigoroso fatiando o ar na foice, na foice da luz do céu. 

E na noite a cruviana, o frio largo do sertão, faz o homem se arranchar bem firme em cima da sela, puxar a veste de couro e esporear o cavalo em direção da morada. 

Sua bença, minha chuva, chuva velha que me manda, menino que inda sou, sair do meio do paito mode num pegar um difruço. Sua bença, chuva antiga. Sua bença, chuva antiga.

domingo, 11 de março de 2012

Louvemos os ladrões

Louvemos os ladrões. São raça antiga, universais sujeitos. Louvemos os ladrões. 
Guto Cassiano

Como os bons médicos, os bons engenheiros, os bons pedreiros, os advogados plenos, há também os bons ladrões. Aqueles que se destacam pela agilidade mental, pelos gestos perfeitos, pelo conhecimento que têm, louvemos os ladrões. Mais justamente aqueles que, sob o título genérico de políticos, roubam à tripa forra e nada lhes acontece. 


São injustos, cruéis, perversos, malsinados; mas são ladrões, acima de tudo ladrões. São encontradiços desde o governo federal aos governos estaduais, câmara dos deputados, assembleias legislativas, vereadores e gabinetes os mais secretos. Louvemos os ladrões.


São astutos, ligeiros, não têm alma. São ladinos, persistentes, afilados. Astuciosos, fazem leis e essas leis jamais os punem. Louvemos os ladrões, esses sabidos.

 Roncam alto, como roncam. Mas estão sempre acordados nos acordos que perpetram. São ladrões, são miseráveis; que nos roubam, nos assaltam com palavras e com gestos. E assim, fiquemos pasmos, perplexos, cansados. Louvemos os ladrões, pois, afinal, como ladrões, apesar de tudo ainda não nos roubaram a última coisa, o grito que devemos dar: vocês são ladrões e sabem disso. E sabem que nós sabemos que vocês sabem que nós sabemos que vocês são ladrões.