http://obrarestauracao.files.wordpress.com/2009/02/4-cavalos-do-apocalipse.jpg
Apocalypse now contra o Dia da Natureza
Emanoel Barreto
E lá se vão eles. Eles sempre vão.
Se são semi-loucos, se são depravados,
em vão implora que parem por fim.
P'ra que tudo cessem enquanto há tempo.
Mas seguem sinistros insana intenção. Competência
louca, tocada de gris. Com as cinzas se entendem - jamais querem menos.
Projetam os males, malificam o ar.
Intentos molestos conduzem seus feitos.
Seus feitos, inglórios, povoam desertos
onde havia, havia mesmo o quê?
Molestos, malvados, sicários do lucro,
terríveis, cruéis, dementes perfeitos.
De qualquer maneira há sempre esperança.
De que uma flor ainda vença o canhão.
"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sábado, 5 de junho de 2010
Menos mal
Emanoel Barreto
As notícias, as coisas de jornal, dizem que o navio irlandês com ajuda humanitária foi interceptado pelas forças israelitas. Dessa vez tem tiros. Dessa vez sem mortos. Menos mal.
Emanoel Barreto
As notícias, as coisas de jornal, dizem que o navio irlandês com ajuda humanitária foi interceptado pelas forças israelitas. Dessa vez tem tiros. Dessa vez sem mortos. Menos mal.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Uma imagem, sutil instante que contém estranha eternidade - Emanoel Barreto
Charge: New York Times
Na vida real, nenhuma bala deixa de matarEmanoel Barreto
Diz a Folha: O navio irlandês Rachel Corrie prossegue com seu objetivo de tentar furar o bloqueio a Gaza para entregar ajuda humanitária aos palestinos, mas deve atingir a zona de proibição de navegação de 20 milhas (32 km) somente no sábado pela manhã, informou a ONG "Free Gaza" em comunicado. O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, já informou que o navio "não chegará" a atracar.
.......
O parágrafo de abertura da matéria, que em jornal chamamos de lead, há muito aportuguesado para lide, se apresenta tecnicamente como a redação conhecida como "lide de confronto". Expõe claramente posições de antítese. No caso, antecedidas pelo deslocamento do navio em direção a forças hostis. Ou seja: o lide passa ideia de tensão, suspense ante o presumível massacre que os fuzis israelenses farão aos ocupantes da embarcação, desarmados e indefesos.
Como num filme, as vítimas presuntivas se encaminham ao clímax da tragédia, mesmo sabendo do seu possível destino sob mãos agressoras. Martírio ante os olhos da humanidade perplexa. Ou não: seria possível, creio, a comandos treinados assumir o comando do navio sem disparos, apenas no corpo-a-corpo. Não desejo a primeira opção ou a segunda. Entendo que o socorro humanitário deveria passar sem maiores incômodos, mas, das duas situações, a segunda seria a menos ruim.
Mas, na verdade, o que quero dizer é o seguinte: o confronto entre israelitas e palestinos se perde nas areias do tempo, para usar uma expressão já gasta. São ódios, digamos assim, essenciais. Integram já o coletivo pensante das duas partes, que somente se entendem dentro de um processo de mútua exclusão - melhor diria supressão, eliminação física daquele a quem elegeu historicamente como oponente.
São ódios tão intensos, tão insanos, que nublam qualquer tentativa de aproximação civilizada. A isso junta-se o fundamentalismo religioso. E quando religiões são determinantes para o comportamento dos povos, a insânia impera suas ordens, e as ações decorrentes de tais ordens.
O judeu se define acima de tudo por uma condição religiosa que cimenta um povo. O palestino segue o mesmo dito, uma vez que o islão comanda todos os seus atos. Sejam políticos ou privados, sexuais ou civis.
Trata-se de um confronto movido pela estupidez.
Todavia, na objetividade dos acontecimentos a que refiro, do ponto de vista do Homem, é insustentável a posição de Israel. O argumento de seus líderes para a ação que há poucos dias resultou em mortes é frágil, se não cínica. Hitlerianamente imoral. Armas pesadas contra alimentos e remédios.
Agora, o espetáculo midiático está focado na aproximação do navio à zona de exclusão. O que acontecerá? Mais mortes? Sangue? Como disse, é tal qual um filme. Só que se passa na chamada vida real. E, na vida real, nenhuma bala deixa de matar.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOQSWUkTZFZTIUXhMZdkhgMiQrmDKXSD-0goc8PvDxMkWdbvZifyQ1YWyagMRkHmAp_nDCS7-GM9wdh9kplh4I-2jXFiQkItV08zW29TLIa8TuDZKkb7I1CwzOjBs2TPnPJce42A/s400/0,,11012769-EX,00.jpg
O dossiê do PT, a revista Veja e a vida sexual da princesa Diana
Emanoel Barreto
Antonio Gramsci dizia que os jornais - e as revistas, claro - são a escola dos adultos. Lembrava também que, da mesma forma, cumprem papel de partidos políticos quando atuam de forma doutrinária. Ou seja: permanentemente são escola e partido, já que sua ação nesse sentido é contínua. Juntando tudo isso e mais a disposição de agregar público e firmar-se editorial e economicamente e chegamos ao que ele chamava de jornalismo integral.
Um jornal como a Folha e uma revista como a Veja, por exemplo, seriam então autores de jornalismo integral conservador, no mínimo.
Vejamos, com trocadilho mesmo, o caso da Veja: sua equipe soube de rumores sobre eventuais dossiês que estariam por ser preparados por segmentos do PT contra Serra e alardeou essa situação presuntiva como coisa dada e feita - mesmo mantendo suas matérias no condicional, o que por si já demonstra a fragilidade argumentativa do texto.
Perceba como eu coloquei todo o terceiro parágrafo como se fora uma situação volátil, gasosa, uma espécie de universo evocativo, um mundo de probabilidades ao mesmo tempo feérico e imponderável, cuja divulgação, todavia, causa rumor social. Ou seja: programa-se uma situação jornalística, cria-se um poliedro de especulações e temos uma notícia.
Em suma, temos um factoide. Temos, por isso mesmo, um boato. Um e outro são apenas palavras para definir o mesmo objeto social. Boato, diz John B. Thompson, é notícia não confirmada. Vindo a confirmação, é notícia mesmo. Faço um acréscimo às palavras de Thompson: o boato, o factoide, têm algo de urdidura, distorção de fato primário ou até mesmo fabricação de falso fato primário.
Como toda notícia tem em si algo de sensacionalismo - se não fosse assim não seria notícia -, mesmo as mais sérias e tanto quanto possível objetivas, resulta que o boato/factoide, elevados à condição de notícia, têm sempre, e de forma prevalecente, esse dado de sordidez bem típico do sensacionalismo.
E onde encontramos o sensacionalismo? Este é encontrado em sua face de desnudamento, exposição de terceiro a situação vexatória, como alguém que é indevidamente flagrado em momento íntimo. Esse momento íntimo pode ser algo lícito e comum à nossa condição humana, como o caso da princesa Diana. Na companhia do seu amante, seguia em carro que foi perseguido por parapazzi até à morte dela.
Os fotógrafos queriam expor aos olhos da curiosidade pública, voraz por assuntos de denotação sexual, a intimidade da vida erótica daquela mulher, trazida à tona como aquela que deixara de ser a princesinha de contos de fada para viver sua condição de fêmea. E fêmea lasciva, diga-se.
Outro caso de intimidade é a intimidade viciosa, aquela que tem laivos de imoralidade. Pronto. Foi aí que a Veja, veja só, investiu todo o seu cacife: a partir de verbos no condicional montou toda a matéria dos dossiês do PT contra Serra, como que dizendo: "Olhe só como eles são crueis e malvados. Como eles são aéticos e imorais. Foram flagrados em pleno ato de planejamento de campanha difamatória."
Só que, em processo metalinguistico, a campanha difamatória estava mesmo nos atos frasais da revista, que louvou-se em em fatos facciosos, factícios e de ouvi dizer para montar, aí sim, campanha de difamação. Veja só... Veja só...
quarta-feira, 2 de junho de 2010
http://farm4.static.flickr.com/3047/2617581664_507acff442.jpg
Louca coragemEmanoel Barreto
Acerca-te de mim
Louca coragem.
E deixa que eu siga em selvagam cavalgada.
E então depois, quando chegar
Ao fim da raia escurecida,
Saberei que houve valor naquele galopar inecessário.
Hitler, o professor de IsraelEmanoel Barreto
Sim, sim, Israel aprendeu bem com as lições de Hitler. Matar, trucidar, oprimir, proscrever. Os judeus reeditam na vida, no instante corrente, o que a História já lhes havia ensinado. O que é a Faixa de Gaza, senão uma forma de campo de concentração, quem sabe de extermínio? Éisso e é também a faixa de gaze, com que são pensadas as dolorosas feridas do povo palestino.
A guerra em si, entre Israel e os palestinos, é algo absurdo. Nem mesmo as mais elaboradas palavras surrealistas ou brotadas de Jean Genet conseguiriam fazer sua paródia. Ódio. A rigor, insanos os dois lados. Mas um, Israel, chega à beira do genocídio. Ecos de Hitler, ecos do soturno professor.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
http://farm1.static.flickr.com/173/388493855_46be7ace6d.jpg
JORNAL INÚTIL - (\.0./)
Unindo o sutil ao fútil
A vantagem de ser um homem sem alma é que, quando morrer, não vai para o inferno.
Fez um curso de zumbi por correspondência porque era pobre. Matou de susto um magnata e ficou rico. Depois, pós-graduação com o próprio Drácula na Transilvânia. Afinal se elegeu senador e tornou-se um monstro completo.
É bobo e se engana quem pensa que engana quem se faz de bobo.
O vinho brigou com o leite. Disse o leite: "Eu sou nutritivo." Rebateu o vinho: "Grande coisa: minha mãe é uma uva. A sua é uma vaca."
Na Roma antiga eles já sabiam que o mundo seria dominado pelos computadores. Tanto que diziam, já naquele tempo: "Deleta Cartago. Deleta Cartago."
Até que ele não era tão ruim assim: distribuía generosamente sua crueldade.
Se quando jovem você era incendiário e hoje se tornou um cara chato e rabugento, olhe para trás e respeite as suas cinzas.
A morte é um acontecimento privado. O doente não precisa ser assistido.
Quando Adão saiu do Paraíso um magote de desocupados caçoou do rapaz, dizendo assim: "Ave, Adão. Ave, Adão..."
De tanto acreditar, a fé ficou cega e hoje fica amolando quem diz que não acredita em Deus.
Uma vez um cardeal aproximou-se de um grande líder comunista e perguntou: "Aqui pra nós: Marx existe?"
Em terra de cego quem tem olho vê as cegas trocando de roupa.
Apressado come cru. Mas come primeiro o seu sushi.
Quem corre alcança. Quem anda nem precisa entrar na corrida.
Se você é jovem e faz algo errado na rua; se um estranho lhe dá um conselho para se regenerar e o chama de "meu filho", não tem outra: está querendo que você morra para ele ter parte na herança.
Se o cavalo é dado não lhe olhe os dentes. É claro: dado não tem dente.
domingo, 30 de maio de 2010
http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2009/05/324_2343-alt-tipografia.jpg
JORNAL INÚTIL
Não buscamos o tempo perdido. Fazemos você perder seu tempo
Ao levantar escove os dentes. Mas não use ácido muriático. Dizem que faz mal.
Após o banho enxugue-se. Mas prefira toalhas em vez de folhas de urtiga. Eva fez isso e se deu mal depois de lavar a boca vermelha de maçã.
Ao atravessar a rua olhe para os três lados. De cima pode cair um piano.
Máximo cuidado ao votar - votar é muito perigoso. Pensando bem, o melhor seria não votar. Você evita efeitos colaterais.
Não ajude os inimigos. Eles podem se acostumar, passam a ser seus amigos, e logo logo vão querer viver às suas custas - o que é bem pior, convenhamos, que a velha e boa inimizade.
Desconfie se alguém diz não ter segundas intenções. Ele pode ter terceiras.
Se é mentira que é mentira pode também não ser verdade.
Lampião era corajoso porque nunca foi ao dentista, dizem.
O sujo fala do mal lavado porque é vendedor de sabonete.
Disse o corrupto à CPI: "Lavo minhas mãos do sangue de todos os justos."
Alta indagação: "Diz-me com quem falas e te direi se és mudo."
No dentista todos ficamos boquiabertos.
Hoje tem Igreja que não serve a Deus, mas ao Cão de cada dia.
Na Argentina quando alguém queria falar mal de Perón logo outro dizia: "Evita."
Se você é desonesto pague o que deve e sua vida perdará qualquer sentido. Está cientificamente comprovado.
Estava louco para se internar num asilo. Foi, internou-se, tomou Lexotan e a brincadeira ficou sem graça.
Alta filosofia
Acredito que não creio que possa não acreditar que não seja possível não ajudar alguém que precise e, ainda assim, não me sentir culpado por não ter sido alguém que não se comoveu com outro alguém que não tinha o que eu tinha, porque ele não tinha o que eu tinha porque eu, para ficar rico, tinha que ter o que ele não tinha e eu tinha feito todos os esforços para tirar tudo de quem pouco tinha , porque, para eu ter muito eu nada tinha que fazer, a não ser tomar tudo que ele tinha.
sábado, 29 de maio de 2010
Hopper, à esquerda da foto, Fonda e, quase oculto, Nicholson. (Divulgação)
Good Bye, Dennis Hopper
Emanoel Barreto
Morreu hoje o ator Dennis Hopper, que os da minha geração lembram como o motorider que corria as estradas dos Estados Unidos ao lado de Peter Fonda e Jack Nicholson no clássico Easy Rider, 1969. Então, o sonho estava acabando e nós não percebíamos. A onda de protestos que varria o mundo dava a todos os jovens a ideia de que havia algo de internacional, melhor dizendo universal, à condição de jovem. Ou seja: havia o ingênuo consenso de que todos nós éramos jovens, ao invés de estarmos passageiramente jovens.
A ilusão do ser jovem, aliada à também fantasiosa circunstância de que o mundo juvenil era o mundo mesmo, uma espécie de mundo à parte daquele outro mundo, o mundo dos velhos, se completava e nos unia a partir dos Estados Unidos, de onde o vagalhão de protestos contra o status quo irmanava a polifonia de rebeldia na verdade infante.
E a juventude se transformava em causa, e aqui havia mesmo uma canção de Marcos e Paulo César Valle que dizia "Não confie em ninguém com mais de 30 anos". Em Paris, Daniel Cohn-Bendit proclamava, em 1968, no grande motim de maio: "Seja realista: peça o impossível". E todos queríamos esse maravilhoso impossível, esse não-sei-quê que, mesmo antes de nós, havia iluminado, por exemplo, Proust em sua busca pelo tempo perdido.
Mas, era de Hopper que falava. Trabalhou em mais de 200 produções em TV e cinema. Agora, um velhinho, ele se foi, partiu. E nós, os que ocasionalmente ficamos, estamos, proustianamente, em busca do tempo perdido. Good Bye, Dennis Hopper, os que ainda estão e ainda vão morrer te saúdam.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
http://arrastao.weblog.com.pt/arquivo/burning-n05.jpg
O refúgio dos canalhas
Emanoel Barreto
Diz a Folha: Além da cúpula tucana, empresários paulistas ligados ao pré-candidato José Serra querem tentar convencer o ex-governador Aécio Neves a desistir da candidatura ao Senado e ser o vice na chapa do PSDB à Presidência.
Em conversas reservadas, empresários disseram que vão enviar recados ao ex-governador mineiro sobre a "importância" de ele aceitar o convite para formar chapa puro-sangue com Serra.
Alguns chegam a dizer que seria "falta de patriotismo" de Aécio não sair candidato a vice, principalmente num momento em que a candidatura precisa de fôlego novo.
........
A Pátria é sempre lembrada quando os dominantes se sentem em perigo. A Pátria é o elemento invisível, imponderável, inefável, o soluto social usado ocasionalmente para tornar equiparadas, por hipóstase, as classes sociais. Sempre que se quer mandar um trabalhador para a guerra ele está "a serviço da pátria".
O que os empresários querem dizer, na verdade, é que Aécio está traindo não a Pátria, mas os sacros interesses do lucro e do mercado que o PSDB representa. A Pátria entra, fetichizada, como elemento de valor universal para o apassivamento espetacular das lutas de classe.
É quando lembro de Samuel Johnson, dizendo ainda no Século 18: "A pátria é o último refúgio dos canalhas."
Tinha toda razão.
O refúgio dos canalhas
Emanoel Barreto
Diz a Folha: Além da cúpula tucana, empresários paulistas ligados ao pré-candidato José Serra querem tentar convencer o ex-governador Aécio Neves a desistir da candidatura ao Senado e ser o vice na chapa do PSDB à Presidência.
Em conversas reservadas, empresários disseram que vão enviar recados ao ex-governador mineiro sobre a "importância" de ele aceitar o convite para formar chapa puro-sangue com Serra.
Alguns chegam a dizer que seria "falta de patriotismo" de Aécio não sair candidato a vice, principalmente num momento em que a candidatura precisa de fôlego novo.
........
A Pátria é sempre lembrada quando os dominantes se sentem em perigo. A Pátria é o elemento invisível, imponderável, inefável, o soluto social usado ocasionalmente para tornar equiparadas, por hipóstase, as classes sociais. Sempre que se quer mandar um trabalhador para a guerra ele está "a serviço da pátria".
O que os empresários querem dizer, na verdade, é que Aécio está traindo não a Pátria, mas os sacros interesses do lucro e do mercado que o PSDB representa. A Pátria entra, fetichizada, como elemento de valor universal para o apassivamento espetacular das lutas de classe.
É quando lembro de Samuel Johnson, dizendo ainda no Século 18: "A pátria é o último refúgio dos canalhas."
Tinha toda razão.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Fotos: Blog do Senadinho
Às vezes penso conversar com mortos
Emanoel Barreto
Às vezes penso conversar com mortos. Mas não me intimido. São amigos meus, fantasmas cordiais que me chegam à noite ao escritório, assentam-se e ficam a me olhar, como que deles cobrando as lembranças - querem saber se não os esqueci. Há pouco chegou-me o Majó Theodorico Bezerra, rajado gato do mato sertanejo, homem do velho PSD. Perguntou-me então do que dele me lembrava.
Contei que um dia, ele, já então sem mandato, a política dobrada para sempre em seu embornal catingueiro, aparentava ter a memória abalada pelo outono pesado e denso da velhice. Caminhava pelo salão nobre do então Palácio Potengi apoiado em rústico cajado. A seu lado, um jovem carrancudo e de de aspecto agreste lhe servia de amparo e guia. O Majó balbuciava uma algaravia de sons sem sentido. Perguntei se se lembrava daquilo: fez que sim com a cabeça, um sorriso irônico pintado em sua boca, como que dizendo: fantasmas, ao contrário dos vivos, nunca ficam caducos.
Mas, voltemos ao assunto: eu era repórter político da Tribuna do Norte e o segui naquela caminhada. O ano em que isso aconteceu não lembro. Mas recordo que ele estava muito velho. O Imperador do Sertão andava cambaleante. O título lhe fora concedido em 1978 pela Rede Globo, num documentário de Eduardo Coutinho. Mas o Imperador não mais tinha aquele pisar rijo, de velho feito de aroeira-do-sertão. O Majó riu muito quando lembrei do fato: - É verdade, é verdade...
Ele deambulava pelo salão, olhava os lustres, observava o assoalho de madeira nobre. Chegou-se a uma janela e de lá esteve olhando a Ribeira onde vivia encastelado no Grande Hotel, que dirigira há muit'anos, pagando ao Estado uma ninharia de arrendamento. Sorriu outra vez. Um sorriso névoas. Coisa que a que só um espectro é dada.
Depois foi a um salão menor, onde um enigmático piano repousava mudo. Nunca entendi aquele piano no Palácio Potengi. Talvez tocasse, à noite, sonatas para a escuridão do poder que dormia. O Majó aproximou-se do grande instrumento e percutiu uma de suas teclas. Foi o único som que ouvi daquele ser solitário, todo feito de madeira preta, criteriosamente preta.
Após, apoiando-se no seu servo, ele caminhou passos tardos até a larga escada de madeira, forte passarela que dava acesso ao Poder. Desceu-a e perdeu-se para sempre da minha visão. Morreu dia 4 de setembro de 1994.
E hoje, quando a mim chegou, como outros fantasmas, que são mais relembranças que espectros, pude afinal com ele fazer a última entrevista:
- Majó, o que o senhor fazia naquele dia, lá no Palácio?
E ele, com um riso de meia-lua, olhou-me bem nos olhos e respondeu placidamente:
- Barreto, fui homem que teve de tudo, fui a Paris e lá estive em Pigalle e no Moulin Rouge, andei pela Índia e por outros cantos do mundo. Aqui, fui de tudo: fui Majó e Imperador, mandei e desmandei nas minhas festas na fazenda Irapuru, o povo dançando com a minha banda de música. Irapuru é o pássaro que canta e Tangará, cidade também minha, é o pássaro que dança. Também mandei em Natal e mandei ali, ali mesmo, no Palácio Potengi. Sabe o que eu estava fazendo lá, Barreto? Lá, naquele dia em que você, notando que eu estava caduco, me acompanhou calado?
- Não, Majó - respondi.
- Eu estava procurando o meu passado, Barreto. Um homem tem que ser dono do seu passado. Eu estava olhando ali se o passado tinha parado no tempo. Se não tinham bulido naquelas coisas, naquele salão, naqueles cortinados, nos lustres, naquele piano, na porta que dava para o gabinete do governador. No chiado do chão de madeira. Eu estava vendo, Barreto, se o passado estava em dia.
- E estava, Majó?
Estava, Barreto, estava. O passado estava em dia. Estava tudo no seu lugar. E outra coisa: em política não há gratidão nem reconhecimento. Em política é o acerto, é o acordo e é o dinheiro. Depois, é andar ligeiro. Em política, aprenda, o passado sempre está em dia...
Deu boa noite e esfumaçou-se no silêncio do meu jardim. Um vento frio invadiu o escritório e me gelou a alma. Fui obrigado a beber um dose de uísque caubói.
Às vezes penso conversar com mortos
Emanoel Barreto
Às vezes penso conversar com mortos. Mas não me intimido. São amigos meus, fantasmas cordiais que me chegam à noite ao escritório, assentam-se e ficam a me olhar, como que deles cobrando as lembranças - querem saber se não os esqueci. Há pouco chegou-me o Majó Theodorico Bezerra, rajado gato do mato sertanejo, homem do velho PSD. Perguntou-me então do que dele me lembrava.
Contei que um dia, ele, já então sem mandato, a política dobrada para sempre em seu embornal catingueiro, aparentava ter a memória abalada pelo outono pesado e denso da velhice. Caminhava pelo salão nobre do então Palácio Potengi apoiado em rústico cajado. A seu lado, um jovem carrancudo e de de aspecto agreste lhe servia de amparo e guia. O Majó balbuciava uma algaravia de sons sem sentido. Perguntei se se lembrava daquilo: fez que sim com a cabeça, um sorriso irônico pintado em sua boca, como que dizendo: fantasmas, ao contrário dos vivos, nunca ficam caducos.
Mas, voltemos ao assunto: eu era repórter político da Tribuna do Norte e o segui naquela caminhada. O ano em que isso aconteceu não lembro. Mas recordo que ele estava muito velho. O Imperador do Sertão andava cambaleante. O título lhe fora concedido em 1978 pela Rede Globo, num documentário de Eduardo Coutinho. Mas o Imperador não mais tinha aquele pisar rijo, de velho feito de aroeira-do-sertão. O Majó riu muito quando lembrei do fato: - É verdade, é verdade...
Ele deambulava pelo salão, olhava os lustres, observava o assoalho de madeira nobre. Chegou-se a uma janela e de lá esteve olhando a Ribeira onde vivia encastelado no Grande Hotel, que dirigira há muit'anos, pagando ao Estado uma ninharia de arrendamento. Sorriu outra vez. Um sorriso névoas. Coisa que a que só um espectro é dada.
Depois foi a um salão menor, onde um enigmático piano repousava mudo. Nunca entendi aquele piano no Palácio Potengi. Talvez tocasse, à noite, sonatas para a escuridão do poder que dormia. O Majó aproximou-se do grande instrumento e percutiu uma de suas teclas. Foi o único som que ouvi daquele ser solitário, todo feito de madeira preta, criteriosamente preta.
Após, apoiando-se no seu servo, ele caminhou passos tardos até a larga escada de madeira, forte passarela que dava acesso ao Poder. Desceu-a e perdeu-se para sempre da minha visão. Morreu dia 4 de setembro de 1994.
E hoje, quando a mim chegou, como outros fantasmas, que são mais relembranças que espectros, pude afinal com ele fazer a última entrevista:
- Majó, o que o senhor fazia naquele dia, lá no Palácio?
E ele, com um riso de meia-lua, olhou-me bem nos olhos e respondeu placidamente:
- Barreto, fui homem que teve de tudo, fui a Paris e lá estive em Pigalle e no Moulin Rouge, andei pela Índia e por outros cantos do mundo. Aqui, fui de tudo: fui Majó e Imperador, mandei e desmandei nas minhas festas na fazenda Irapuru, o povo dançando com a minha banda de música. Irapuru é o pássaro que canta e Tangará, cidade também minha, é o pássaro que dança. Também mandei em Natal e mandei ali, ali mesmo, no Palácio Potengi. Sabe o que eu estava fazendo lá, Barreto? Lá, naquele dia em que você, notando que eu estava caduco, me acompanhou calado?
- Não, Majó - respondi.
- Eu estava procurando o meu passado, Barreto. Um homem tem que ser dono do seu passado. Eu estava olhando ali se o passado tinha parado no tempo. Se não tinham bulido naquelas coisas, naquele salão, naqueles cortinados, nos lustres, naquele piano, na porta que dava para o gabinete do governador. No chiado do chão de madeira. Eu estava vendo, Barreto, se o passado estava em dia.
- E estava, Majó?
Estava, Barreto, estava. O passado estava em dia. Estava tudo no seu lugar. E outra coisa: em política não há gratidão nem reconhecimento. Em política é o acerto, é o acordo e é o dinheiro. Depois, é andar ligeiro. Em política, aprenda, o passado sempre está em dia...
Deu boa noite e esfumaçou-se no silêncio do meu jardim. Um vento frio invadiu o escritório e me gelou a alma. Fui obrigado a beber um dose de uísque caubói.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
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Um cálice de vinho
Emanoel Barreto
Derrame um cálice de vinho
E você jamais saberá
As Alegrias que ali estavam postas.
Prepare um cálice de pétalas
E descrobrirá
Um cálice de vinho.
Um cálice de vinho
Emanoel Barreto
Derrame um cálice de vinho
E você jamais saberá
As Alegrias que ali estavam postas.
Prepare um cálice de pétalas
E descrobrirá
Um cálice de vinho.
domingo, 23 de maio de 2010
Folha: mudança de hábito
Emanoel Barreto
A Folha está de roupagem visual nova. Ainda não vi a edição de papel, mas, pelo que o jornal anunciou e comentei aqui, as mudanças serão na forma e no conteúdo - que ganhará contornos analíticos ao lado de textos informativos mais curtos, afirma o jornal.
A Folha antes e depois, graficamente, você vê nos símiles de duas edições. Note e diferença na tipologia. Sem entrar em detalhismos técnicos, note a diferença visual entre as letras dos títulos "Governo perde.." e "Lula articula seu...". Títulos, ou melhor letras, digo isso sempre a meus alunos, também são imagem. Tanto quanto uma foto podem puxar o olhar do leitor. Assim, na nova Folha, veja a diferença: a nova tipagem é mais cheia, portanto mais chamativa.
Outra coisa: a diagramação anterior era mais horizontal. Isso prejudica de alguma forma a leitura. Na versão de agora está veticalizada e ganhou uma bossa: vê aquele ponto de interrogação na matéria logo abaixo da notícia sobre a Al Qaeda? A última palavra da frase está maior que o restante do título, outra forma de fortalecer a visualidade. O jornal faz concessões gráficas sem perder o ar sisudo que se exige a uma publicação "séria".
Vou esperar para ler. O conteúdo será mesmo mais analítico? E o que significa esse analítico num jornal que esconde dos leitores as intenções desse mesmo conteúdo? É sabido que a Folha é tida como um ninho da mídia tucana. Não creio que isso mude de uma hora para outra. Vamos observar.
sábado, 22 de maio de 2010
Foto: Cartier Bresson. https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh2lwSWDnzUcnogIjPaLmm1jk3FBKnYMuYmrW7vF52FY_K5j90MDeo-fUIU2nOTkB8LkSDrLQLTw2W0KbibRjUxVc0YQfXz_ps_JpfL3_eNOYvEDz4dAbtwz68nn8vSB7LM4hEP/s400/cartie+bresson+rudnik,+servia+jugosl%C3%A1via+1965.jpg
O olhar do século
Emanoel Barreto
Leio "Cartier Bresson: o olhar do século", obra-prima de Pierre Assouline a respeito do gênio poderoso do grande fotógrafo francês, autor daquilo que chamam de "teoria do momento decisivo" na foto. O instante perfeito, sintético, de um momento maior. Captado na ação das lentes pelo olhar perplexo, extasiado ou alumbrado do fotógrafo.
Recomendo a todos os que se interessam por jornalismo, teoria da comunicação ou fotografia. Além do texto primoroso, precioso, exato - e que por ser exato é total e completo de infinitude - há o registro da biografia daquele complexo ser humano, que captou como ninguém o século 20 em toda a sua paleta de maravilhas e loucuras, perversidades e grandezas.
O livro contém têmpera como se fosse pintura. Afinal, palavras são, à sua maneira, quando combinadas em arranjo de interlocução sensível, uma espécie de grande pintura. Um mural. Uma conversa, quando vai além e acima do que se espera desse ato trivial, cotidiano, banal, se transforma em escultura intátil. Pulsação.
Pois bem: para mim, que costumo conversar com livros, encontrar nas páginas o autor, a autora, o ator daquelas palavras, esse trabalho de letras emotivas está sendo um grande momento. Aventura. Estou ainda começando a leitura. Mas já piloto minha máquina do tempo para visitar todo o território narrado por Assouline.
O olhar do século
Emanoel Barreto
Leio "Cartier Bresson: o olhar do século", obra-prima de Pierre Assouline a respeito do gênio poderoso do grande fotógrafo francês, autor daquilo que chamam de "teoria do momento decisivo" na foto. O instante perfeito, sintético, de um momento maior. Captado na ação das lentes pelo olhar perplexo, extasiado ou alumbrado do fotógrafo.
Recomendo a todos os que se interessam por jornalismo, teoria da comunicação ou fotografia. Além do texto primoroso, precioso, exato - e que por ser exato é total e completo de infinitude - há o registro da biografia daquele complexo ser humano, que captou como ninguém o século 20 em toda a sua paleta de maravilhas e loucuras, perversidades e grandezas.
O livro contém têmpera como se fosse pintura. Afinal, palavras são, à sua maneira, quando combinadas em arranjo de interlocução sensível, uma espécie de grande pintura. Um mural. Uma conversa, quando vai além e acima do que se espera desse ato trivial, cotidiano, banal, se transforma em escultura intátil. Pulsação.
Pois bem: para mim, que costumo conversar com livros, encontrar nas páginas o autor, a autora, o ator daquelas palavras, esse trabalho de letras emotivas está sendo um grande momento. Aventura. Estou ainda começando a leitura. Mas já piloto minha máquina do tempo para visitar todo o território narrado por Assouline.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
http://user.img.todaoferta.uol.com.br/Q/B/IA/IBLUZM/1240786759448_bigPhoto_0.jpg
Televisão, câncer e um traficante morto em confronto com a polícia
Emanoel Barreto
Como todo dia ela saiu de casa para trabalhar. Diarista, Maria passava o dia todo fora, somente voltando ao cair da noite. Chegando em casa, deu por falta do televisor. Velho, imagem em preto e branco, antena cheia de buchas de bombril. Como alguém iria roubar aquilo? Mas roubaram. O tempo fechou, choveu, a noite cobriu tudo.
De sua casa, no escuro, Maria viu, do outro lado da rua enlameada, que na casa de Dona Quininha estava clom TV ligada. Mas Dona Quininha não tinha televisão. Aquele miserável mistério foi logo resolvido. Maria correu até a casa da velha. Na sala, ela via novela. E a TV era a TV de Maria.
- Dona Quininha, o que é isso?
- É a sua televisão, minha filha. Mandei roubar.
- Mandou o quê?
- Roubar. Não tinha televisão em casa, nem dinheiro para comprar, mandei roubar.
- E quem...
- Roubou? Meu filho. Josedéquio. Ele até hoje só me deu tristeza com roubos, droga e brigas. Assim, pedi a ele para fazer um roubo bom. Um roubo do bem.
- A senhora chama a isso de roubo do bem?
- Sim...
- Não!
- Sim...
- Não!
- Sim, porque ele roubou a televisão para mim, que estou doente de câncer e devo viver no máximo mais um ano, no máximo. Como estou desenganada, pedi a ele um presente e o presente foi sua televisão. Ele nunca tinha me dado um presente. Agora eu tenho o que fazer, enquanto espero a morte.
- Mas, a senhora não sabe que roubou apenas a minha TV.
- O que mais eu lhe roubei?
- A senhora roubou todos os meus amigos: os atores das novelas, os jornalistas, o povo das propagandas, os apresentadores dos programas de domingo. Eu perdi meus amigos, entende?
A confusão, todavia, não rendeu muito. Acabou-se logo que Maria concordou em ficar, toda noite, assistindo TV na casa da velha senhora.
Uma noite, a novela em cena tensa. De repente o programa é suspenso para edição extraordinária do Jornal do Povo: era anunciado que o perigoso traficante Josedéquio Silva Lima, conhecido como Francão, havia sido morto em confronto com a polícia.
Maria ficou parada, trêmula. Dona Quininha, gelada.
Pouco depois o televisor pifou.
-
Televisão, câncer e um traficante morto em confronto com a polícia
Emanoel Barreto
Como todo dia ela saiu de casa para trabalhar. Diarista, Maria passava o dia todo fora, somente voltando ao cair da noite. Chegando em casa, deu por falta do televisor. Velho, imagem em preto e branco, antena cheia de buchas de bombril. Como alguém iria roubar aquilo? Mas roubaram. O tempo fechou, choveu, a noite cobriu tudo.
De sua casa, no escuro, Maria viu, do outro lado da rua enlameada, que na casa de Dona Quininha estava clom TV ligada. Mas Dona Quininha não tinha televisão. Aquele miserável mistério foi logo resolvido. Maria correu até a casa da velha. Na sala, ela via novela. E a TV era a TV de Maria.
- Dona Quininha, o que é isso?
- É a sua televisão, minha filha. Mandei roubar.
- Mandou o quê?
- Roubar. Não tinha televisão em casa, nem dinheiro para comprar, mandei roubar.
- E quem...
- Roubou? Meu filho. Josedéquio. Ele até hoje só me deu tristeza com roubos, droga e brigas. Assim, pedi a ele para fazer um roubo bom. Um roubo do bem.
- A senhora chama a isso de roubo do bem?
- Sim...
- Não!
- Sim...
- Não!
- Sim, porque ele roubou a televisão para mim, que estou doente de câncer e devo viver no máximo mais um ano, no máximo. Como estou desenganada, pedi a ele um presente e o presente foi sua televisão. Ele nunca tinha me dado um presente. Agora eu tenho o que fazer, enquanto espero a morte.
- Mas, a senhora não sabe que roubou apenas a minha TV.
- O que mais eu lhe roubei?
- A senhora roubou todos os meus amigos: os atores das novelas, os jornalistas, o povo das propagandas, os apresentadores dos programas de domingo. Eu perdi meus amigos, entende?
A confusão, todavia, não rendeu muito. Acabou-se logo que Maria concordou em ficar, toda noite, assistindo TV na casa da velha senhora.
Uma noite, a novela em cena tensa. De repente o programa é suspenso para edição extraordinária do Jornal do Povo: era anunciado que o perigoso traficante Josedéquio Silva Lima, conhecido como Francão, havia sido morto em confronto com a polícia.
Maria ficou parada, trêmula. Dona Quininha, gelada.
Pouco depois o televisor pifou.
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quinta-feira, 20 de maio de 2010
http://www.cyrilstudio.ch/photos/05-5bn-4.jpg
Um poema de Neruda
Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.
Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.
Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!
Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.
http://evangelizafuerte.com.mx/wp-content/uploads/2010/02/odio-salvador-dali-fd.jpg
A Folha e a perversa política editorial do amor/odio
Emanoel Barreto
Transcrevo e abaixo comento parte de notícia da Folha, em que anuncia reforma gráfico-editorial para este fim de semana.
A partir de domingo, quando estreia o novo projeto gráfico e editorial da Folha, o jornal passa a contar com um grande elenco de novos colunistas. Cadernos estão sendo reformulados e alguns deles também terão novos nomes.
O atual caderno Brasil passa a se chamar Poder. Dedicado aos interesses do cidadão e à esfera pública, o caderno faz a cobertura dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de tratar de assuntos relacionados à religião, ao meio ambiente, aos movimentos sociais e às diversas organizações da sociedade civil.
Este ano, Poder, editado pela jornalista Vera Magalhães, tem na cobertura das eleições gerais (para presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual) o seu principal foco de atenção.
A atriz Fernanda Torres, que estreou como dramaturga em 2009 com a peça "Deus É Química", passa a escrever em Poder quinzenalmente, aos sábados, sobre as eleições. Dividirá o espaço com o diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo.
O caderno Dinheiro, editado pelo jornalista Raul Juste Lores, passa a se chamar Mercado. E vai receber 15 novos colunistas em suas páginas.
Entre eles, o empresário Eike Batista, empreendedor das áreas de mineração e siderurgia, hoje o brasileiro mais rico segundo a revista "Forbes", que escreverá mensalmente.
Como ele, também escreverão todo mês Fábio Barbosa, presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e do Banco Santander no Brasil, e o deputado Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda do governo Luiz Inácio Lula da Silva e coordenador da campanha de Dilma Rousseff à Presidência.[...]
........
A Folha é jornal nacional de referência que mais tem procupação em crescer e afirmar-se como hegemônico em seu campo. O Projeto Folha é bem sucedido em termos de marketing e sob o aspecto político. É o jornal mais influente do país. Seleciona cuidadosamente articulistas de renome e, frente a um mercado que se torna dia a dia mais difícil para o jornalismo impresso, começa a dar destaque mitigado ao noticiário policial. Claro, para abarcar o leque de leitorado que se interessa por esse tipo de informação.
O jornal vive, entretanto, um paradoxismo: é o mais lido e o mais odiado do país. Como? Simples: faz parte da política editorial a manutenção desse vínculo esquizofrênico com o leitorado. O professor Carlos Eduardo Lins da Silva, um dos epígonos do Projeto Folha, detalha como isso se dá no livro "Mil dias, seis mil dias depois".
A política do amor/ódio funciona assim: o jornal publica notícias que "ofendam" determinados segmentos do seu público de forma deliberada - está no livro. Exemplo: quando foi exibido no Brasil o filme "Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard, abriu espaços para não só noticiar como expor textos de crítica favorável à fita, com o objetivo programado de susitar sentimentos de insatisfação junto a leitores católicos conservadores. Na mosca! Houve uma enxurrada de protestos.
Era isso mesmo o pretendido - também está no livro de Silva. O leitor, revoltado, repudia o jornal mas não deixa de continuar lendo suas edições, numa espécie de efeito reverso. Isso a fim de manter-se informado a respeito de como o impresso contesta seus valores. Idem, no livro. Mas, diz Silva, tal é cumprido de forma cautelosa, a fim de não afrontar em demasia o leitor perdendo-se mercado.
E, como uma fênix, a Folha se renova a cada seis anos mais ou menos. Com isso passa a ideia de entidade que não se ossifica, escapa aos rigores do envelhecimento editorial, é arrojada e deve ser assim acompanhada em suas mutações.
O projeto é tático enquanto proposta editorial e mercadológica, e estratégico em termos de grande política, já que seus controladores buscam influir historicamente no processo comunicacional e ideológico vivivo por esta pátria amada, salve, salve.
A Folha e a perversa política editorial do amor/odio
Emanoel Barreto
Transcrevo e abaixo comento parte de notícia da Folha, em que anuncia reforma gráfico-editorial para este fim de semana.
A partir de domingo, quando estreia o novo projeto gráfico e editorial da Folha, o jornal passa a contar com um grande elenco de novos colunistas. Cadernos estão sendo reformulados e alguns deles também terão novos nomes.
O atual caderno Brasil passa a se chamar Poder. Dedicado aos interesses do cidadão e à esfera pública, o caderno faz a cobertura dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de tratar de assuntos relacionados à religião, ao meio ambiente, aos movimentos sociais e às diversas organizações da sociedade civil.
Este ano, Poder, editado pela jornalista Vera Magalhães, tem na cobertura das eleições gerais (para presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual) o seu principal foco de atenção.
A atriz Fernanda Torres, que estreou como dramaturga em 2009 com a peça "Deus É Química", passa a escrever em Poder quinzenalmente, aos sábados, sobre as eleições. Dividirá o espaço com o diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo.
O caderno Dinheiro, editado pelo jornalista Raul Juste Lores, passa a se chamar Mercado. E vai receber 15 novos colunistas em suas páginas.
Entre eles, o empresário Eike Batista, empreendedor das áreas de mineração e siderurgia, hoje o brasileiro mais rico segundo a revista "Forbes", que escreverá mensalmente.
Como ele, também escreverão todo mês Fábio Barbosa, presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e do Banco Santander no Brasil, e o deputado Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda do governo Luiz Inácio Lula da Silva e coordenador da campanha de Dilma Rousseff à Presidência.[...]
........
A Folha é jornal nacional de referência que mais tem procupação em crescer e afirmar-se como hegemônico em seu campo. O Projeto Folha é bem sucedido em termos de marketing e sob o aspecto político. É o jornal mais influente do país. Seleciona cuidadosamente articulistas de renome e, frente a um mercado que se torna dia a dia mais difícil para o jornalismo impresso, começa a dar destaque mitigado ao noticiário policial. Claro, para abarcar o leque de leitorado que se interessa por esse tipo de informação.
O jornal vive, entretanto, um paradoxismo: é o mais lido e o mais odiado do país. Como? Simples: faz parte da política editorial a manutenção desse vínculo esquizofrênico com o leitorado. O professor Carlos Eduardo Lins da Silva, um dos epígonos do Projeto Folha, detalha como isso se dá no livro "Mil dias, seis mil dias depois".
A política do amor/ódio funciona assim: o jornal publica notícias que "ofendam" determinados segmentos do seu público de forma deliberada - está no livro. Exemplo: quando foi exibido no Brasil o filme "Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard, abriu espaços para não só noticiar como expor textos de crítica favorável à fita, com o objetivo programado de susitar sentimentos de insatisfação junto a leitores católicos conservadores. Na mosca! Houve uma enxurrada de protestos.
Era isso mesmo o pretendido - também está no livro de Silva. O leitor, revoltado, repudia o jornal mas não deixa de continuar lendo suas edições, numa espécie de efeito reverso. Isso a fim de manter-se informado a respeito de como o impresso contesta seus valores. Idem, no livro. Mas, diz Silva, tal é cumprido de forma cautelosa, a fim de não afrontar em demasia o leitor perdendo-se mercado.
E, como uma fênix, a Folha se renova a cada seis anos mais ou menos. Com isso passa a ideia de entidade que não se ossifica, escapa aos rigores do envelhecimento editorial, é arrojada e deve ser assim acompanhada em suas mutações.
O projeto é tático enquanto proposta editorial e mercadológica, e estratégico em termos de grande política, já que seus controladores buscam influir historicamente no processo comunicacional e ideológico vivivo por esta pátria amada, salve, salve.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
http://media.photobucket.com/image/cam%25C3%25B5es/ameliapais/autores/CAMOES/camoes3-1.jpg
Louvor camoniano à lei do ficha limpa
Emanoel Barreto
De Camões o canto mais sentido,os Lusíadas, poema épico-guerreiro,
Diz ao mundo que d'agora por diante no Brasil, pátria merencória de inglórios navegantes
Só com ficha limpa pode o político impetrar rompante e lograr assumir douto mandato.
Rui Barbosa proclama hosana nas alturas e diz que destarte o honrado poderá gabar-se de não mais ser servil ao vil vilão.
(Abaixo, a versão revista e contextualizada dos Novos Lusíadas)
As armas dos ladrões assinalados
Que da Ocidental praia Brasiliana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Propaganda,
Em perigos e marketings esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Velho Reino, que tanto solaparam;
Mas agora as memórias ingloriosas
Daqueles Corruptos que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
Da Pátria, de África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras tenebrosas
Se vão à lei da Morte acorrentando
Cantando os encarcerarei por toda a parte
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Louvor camoniano à lei do ficha limpa
Emanoel Barreto
De Camões o canto mais sentido,os Lusíadas, poema épico-guerreiro,
Diz ao mundo que d'agora por diante no Brasil, pátria merencória de inglórios navegantes
Só com ficha limpa pode o político impetrar rompante e lograr assumir douto mandato.
Rui Barbosa proclama hosana nas alturas e diz que destarte o honrado poderá gabar-se de não mais ser servil ao vil vilão.
(Abaixo, a versão revista e contextualizada dos Novos Lusíadas)
As armas dos ladrões assinalados
Que da Ocidental praia Brasiliana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Propaganda,
Em perigos e marketings esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Velho Reino, que tanto solaparam;
Mas agora as memórias ingloriosas
Daqueles Corruptos que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
Da Pátria, de África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras tenebrosas
Se vão à lei da Morte acorrentando
Cantando os encarcerarei por toda a parte
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://ebicuba.drealentejo.pt/ebicuba/jornal/jornal07/fotos
Um belo poema de Florbela Espanca.
Princesa desalento
Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!
É frágil como o sonho dum momento,
Soturna como preces d'agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh'alma é a Princesa Desalento…
Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!
O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta…
Um belo poema de Florbela Espanca.
Princesa desalento
Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!
É frágil como o sonho dum momento,
Soturna como preces d'agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh'alma é a Princesa Desalento…
Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!
O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta…
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Eternamente instante
Emanoel Barreto
Inesperada forma de beleza fêmea,
Instigante desafio a uma nova porta.
Marfim guardado em gaveta secreta,
Anil branco a tilintar.
Não, não é.
Não sei se não é.
E, não sendo, é aquilo que não sei.
Noturno para Tânia
Transcrevo poema de Walflan de Queiroz, exposto no Azulão da UFRN.
Noturno para Tânia
"Se, durante a noite, não sentires,
Cair sobre a tua face, uma lágrima,
Não, não sou eu.
Se, durante a noite, não ouvires,
O grito do pássaro pousando em tuas mãos,
Não, não sou eu.
Mas, se caminhares, pelo invisível,
E vires então o anjo inclinar-se sobre ti,
Sou eu, Tânia, sou eu."
.........
Walflan de Queiroz (1930 - 1995)
Nasceu em São Miguel (RN). Influenciado por Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Hart Crane, sua obra se inscreve na tradição da poesia mística ocidental, dotada de permanente inquietude metafísica, advinda de uma alma angustiada. Seus últimos anos foram passados em hospital.
domingo, 16 de maio de 2010
http://1.bp.blogspot.com/_0ru2ybbVen0/SISOOauhUSI/AAAAAAAAAEk/CtWsOvBWGDU/s400/luta_livre.jpg
Obscena violência
Emanoel Barreto
Só um registro, pouco mais que uma legenda: obscena em toda a exatidão da palavra, a violência ganha foros de esporte, gera milhões em lucro, desperta os sentidos mais baixos. Dois machos atracados, suarentos, sórdidos. Imorais na mais forte acepção que tenha a imoralidade, exultada pelos violentos e seu pegajoso resfolegar.
Obscena violência
Emanoel Barreto
Só um registro, pouco mais que uma legenda: obscena em toda a exatidão da palavra, a violência ganha foros de esporte, gera milhões em lucro, desperta os sentidos mais baixos. Dois machos atracados, suarentos, sórdidos. Imorais na mais forte acepção que tenha a imoralidade, exultada pelos violentos e seu pegajoso resfolegar.
http://www.sertao24horas.com.br/cute/data/upimages/marina-da-silva.jpg
A vida de Marina Silva ou, com Serra na presidência, não
Emanoel Barreto
Leio na Folha ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1605201016.htm ) pungente matéria que aborda perfil da senadora Marina Silva, candidata do PV à presidência da República. Cidadã norte-rio-grandense e natalense há poucos dias agraciada, trata-se de ser humano incomparável. Na Câmara Municipal de Natal recordou suas origens nordestinas, recitou poemas, falou de improviso, num pronunciamento comovente.
Disse que ela, Lula, Pelé, pelas suas origens sociais humílimas, são exceções. Não, não foi ato de autolouvação. Apenas constatou histórias de vida ímpares, querendo dizer que tais casos, atributos personalíssimos, devem ser compensados com políticas públicas de inclusão, não se deixando ao destino, essa entidade aleatória e implausível, a vida de milhares, talvez de milhões que não têm, como os três personagens citados, resiliênia suficiente para a superação dos descaminhos da existência, suas dores e incertezas.
Temo que matéria da Folha não tenha intenção de dar o destaque - merecido - a uma candidata, digamos assim, de esquerda - com licença desse jargão já surrado. Não: creio que há uma intenção de agendamento, quem sabe o início de processo de ênfase da figura respeitável de Marina visando tirar votos da candidata do PT, o que redundaria em voto útil a José Serra.
De qualquer forma foi válida a publicação, trazendo a público o vulto de uma mulher que é um ser universal, digno, honrado, confiável e, sem dúvida, capacitado a ocupar a presidência. Entenda, por favor, que estas linhas são apenas abordagens ao sabor do momento. Especulação, no melhor sentido do termo, ante os fatos que estão a correr.
Não sou sectário, partidário, no sentido de seguir organicamente uma linha ou discurso partidário. Não voto em Serra pelo fato de ser um neoliberal - com todas as acepções e decorrências negativas que esse tipo de político e de política traz para os trabalhadores.
A campanha está em fase inicial. Que venham os discursos e os embates de campo. Numa coisa concordo com Serra: o Brasil pode mais. Pode sim. Mas, com ele na presidência, não.
A vida de Marina Silva ou, com Serra na presidência, não
Emanoel Barreto
Leio na Folha ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1605201016.htm ) pungente matéria que aborda perfil da senadora Marina Silva, candidata do PV à presidência da República. Cidadã norte-rio-grandense e natalense há poucos dias agraciada, trata-se de ser humano incomparável. Na Câmara Municipal de Natal recordou suas origens nordestinas, recitou poemas, falou de improviso, num pronunciamento comovente.
Disse que ela, Lula, Pelé, pelas suas origens sociais humílimas, são exceções. Não, não foi ato de autolouvação. Apenas constatou histórias de vida ímpares, querendo dizer que tais casos, atributos personalíssimos, devem ser compensados com políticas públicas de inclusão, não se deixando ao destino, essa entidade aleatória e implausível, a vida de milhares, talvez de milhões que não têm, como os três personagens citados, resiliênia suficiente para a superação dos descaminhos da existência, suas dores e incertezas.
Temo que matéria da Folha não tenha intenção de dar o destaque - merecido - a uma candidata, digamos assim, de esquerda - com licença desse jargão já surrado. Não: creio que há uma intenção de agendamento, quem sabe o início de processo de ênfase da figura respeitável de Marina visando tirar votos da candidata do PT, o que redundaria em voto útil a José Serra.
De qualquer forma foi válida a publicação, trazendo a público o vulto de uma mulher que é um ser universal, digno, honrado, confiável e, sem dúvida, capacitado a ocupar a presidência. Entenda, por favor, que estas linhas são apenas abordagens ao sabor do momento. Especulação, no melhor sentido do termo, ante os fatos que estão a correr.
Não sou sectário, partidário, no sentido de seguir organicamente uma linha ou discurso partidário. Não voto em Serra pelo fato de ser um neoliberal - com todas as acepções e decorrências negativas que esse tipo de político e de política traz para os trabalhadores.
A campanha está em fase inicial. Que venham os discursos e os embates de campo. Numa coisa concordo com Serra: o Brasil pode mais. Pode sim. Mas, com ele na presidência, não.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
http://agualisa.blogs.sapo.pt/arquivo/tumulo%5B1%5D.jpg
A mulher que queria me vender um túmulo
Emanoel Barreto
Caminhando hoje pelo Centro ouvi, a meu lado, uma voz de mulher: "O senhor já tem seu túmulo?". A pergunta, inesperada e louca, me fez gelar. Já vivi muitas situações, digamos, estranhas nesses mais de 30 anos de jornalismo - como o caso de um sujeito que quase era linchado na redação da Tribuna do Norte após ser perseguido por multidão enfurecida. Ele havia surrado o pai e tinha corrido das Rocas até o jornal, em busca de abrigo. Depois conto em detalhes.
Mas essa de alguém querer me vender um lugarzinho em cemitério... Mal refeito do susto, a corretora da morte não me deu trégua. Entregou-me um folder e mostrou-me a conveniência de uma atitude "precavida e sábia", dizia ela.
Muito séria, compenetrada em sua soturna missão, continuou dissertando sobre o assunto com tanta e tamanha autoridade que quase pensei em aderir a um de seus planos de financiamento. Dizia que o terreno "era bom e muito bem situado".
Retomando o fôlego e o bom senso disse-lhe que não, que ainda não estava pensando em assunto de tão grande e profunda relevância e, a muito custo, consegui dela me desvencilhar. Apressei o passo, olhei firme para a frente, mas ainda ouvi, enquanto me afastava: "Olhe, se comprar seu túmulo, nós lhe daremos de graça um caixão."
A mulher que queria me vender um túmulo
Emanoel Barreto
Caminhando hoje pelo Centro ouvi, a meu lado, uma voz de mulher: "O senhor já tem seu túmulo?". A pergunta, inesperada e louca, me fez gelar. Já vivi muitas situações, digamos, estranhas nesses mais de 30 anos de jornalismo - como o caso de um sujeito que quase era linchado na redação da Tribuna do Norte após ser perseguido por multidão enfurecida. Ele havia surrado o pai e tinha corrido das Rocas até o jornal, em busca de abrigo. Depois conto em detalhes.
Mas essa de alguém querer me vender um lugarzinho em cemitério... Mal refeito do susto, a corretora da morte não me deu trégua. Entregou-me um folder e mostrou-me a conveniência de uma atitude "precavida e sábia", dizia ela.
Muito séria, compenetrada em sua soturna missão, continuou dissertando sobre o assunto com tanta e tamanha autoridade que quase pensei em aderir a um de seus planos de financiamento. Dizia que o terreno "era bom e muito bem situado".
Retomando o fôlego e o bom senso disse-lhe que não, que ainda não estava pensando em assunto de tão grande e profunda relevância e, a muito custo, consegui dela me desvencilhar. Apressei o passo, olhei firme para a frente, mas ainda ouvi, enquanto me afastava: "Olhe, se comprar seu túmulo, nós lhe daremos de graça um caixão."
quinta-feira, 13 de maio de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEix7LorOeInDbkvxRHWeRyEACNFQ67U9BZEd7VmNEuri0QdJYnjyOyicEhX1VQLAo6g9kb2Et8o8E6nRGwpzWxX_8FyZcXON7Ikde4Iqvy3FkJnljUmb4YLfSLJsWmOvKx7Kw/s400/povo_.jpg
O resto é pleonasmo
Emanoel Barreto
Em texto de Kenneth Maxwell, sob o título "Resgate", diz a Folha a respeito da crise na Grécia:
OS "MERCADOS" se recuperaram depois do anúncio do imenso pacote europeu de assistência aos membros do sul do continente que vêm encontrando dificuldades.
A despeito das medidas de austeridade anunciadas pelo governo grego, dos tumultos nas ruas de Atenas e da morte de três funcionários em um banco atacado com coquetéis molotov, os membros da UE que usam o euro não haviam conseguido entrar em acordo quanto a medidas para conter a crise financeira. Os alemães, especialmente, se opunham a qualquer "resgate".
O problema básico era a crescente incapacidade da Grécia para manter o serviço de sua imensa dívida pública pagando juros de mercado. Os europeus e o FMI, sob intensa pressão, aprovaram um resgate que oferecerá US$ 140 bilhões à Grécia em prazo de três anos.
Com apoio relutante da Alemanha, os ministros das Finanças da UE, agindo com o apoio do FMI e do banco central dos Estados Unidos, aprovaram também o equivalente a quase US$ 1 trilhão em garantias de empréstimos, o que inclui um compromisso de aquisição de títulos de dívida nacionais pelo Banco Central Europeu a fim de impedir que o "contágio" se expanda e de ajudar a sustentar a situação financeira da Grécia, bem como a de Portugal e Espanha.
Vai funcionar? A Grécia assumiu o compromisso de reduzir as bonificações de Páscoa, verão e Natal de seus funcionários públicos e aposentados, vai elevar os impostos sobre combustível, tabaco e álcool, elevar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos e impor o uso de medicamentos genéricos no sistema estatal de saúde.
Mas o "Washington Post" relata que uma avaliação interna do FMI é pessimista. O estudo aponta que o choque social ainda não se fez sentir no país em toda a sua profundidade.
Até mesmo ligeiras variações de comportamento no crescimento, inflação, medidas de austeridade e elevação de impostos farão com que a carga da dívida grega aumente, a despeito dos esforços internacionais para reduzi-la. O FMI projeta anos de queda nos salários e padrões de vida e desemprego ampliado. O quadro não é bonito.
Já diante da crescente indignação quanto ao acordo, a chanceler alemã, Angela Merkel, sofreu sério revés em eleições regionais importantes e foi forçada a abandonar seus planos de cortar impostos.
Josef Schlarmann, líder regional da União Democrata Cristã, partido de centro-direita de Merkel, acusou a chanceler de "fazer pouco para resistir ao resgate à Grécia".
Seria desnecessário dizer que os bancos continuam a ser pagos.
.........
O autor, que nem de longe poderia ser "acusado" de "ser de esquerda", portanto um perigoso ser que pensa de forma de forma "divergente", acentua em observação irônica no final do texto que os bancos continuarão a ser pagos.
Mais claramente eu digo que os bancos, leia-se as elites do dinheiro, do capital improdutivo, rapinante, os parasitas do trabalho dos outros, serão mantidos em seus panteões de exploradores, ricos e gozando do ócio e do negócio.
Continuarão a fomentar crises, levar pessoas ao desespero, à fome, à depressão, ao suicídio. E também continuarão impunes e premiados pelos governos, que em hipótese alguma se voltam contra as elites. E por um simples motivo: o Estado é povoado por esses tipos, o Estado coloca-se a serviço do privado.
Quanto ao povo, esse ser coletivo que às vezes vai às ruas protestar quando as coisas estão acima do insuportável, continuará a sofrer os efeitos históricos de atos que não praticou. E a apanhar, apanhar muito da polícia - que também é povo mas disso parece não se dar conta.
Então, o povo se cala e vai sucumbir a algum soluço trôpego, escondido no fundo de sua alma desesperançada. Depois, bom, depois é o povo e o resto é pleonasmo...
O resto é pleonasmo
Emanoel Barreto
Em texto de Kenneth Maxwell, sob o título "Resgate", diz a Folha a respeito da crise na Grécia:
OS "MERCADOS" se recuperaram depois do anúncio do imenso pacote europeu de assistência aos membros do sul do continente que vêm encontrando dificuldades.
A despeito das medidas de austeridade anunciadas pelo governo grego, dos tumultos nas ruas de Atenas e da morte de três funcionários em um banco atacado com coquetéis molotov, os membros da UE que usam o euro não haviam conseguido entrar em acordo quanto a medidas para conter a crise financeira. Os alemães, especialmente, se opunham a qualquer "resgate".
O problema básico era a crescente incapacidade da Grécia para manter o serviço de sua imensa dívida pública pagando juros de mercado. Os europeus e o FMI, sob intensa pressão, aprovaram um resgate que oferecerá US$ 140 bilhões à Grécia em prazo de três anos.
Com apoio relutante da Alemanha, os ministros das Finanças da UE, agindo com o apoio do FMI e do banco central dos Estados Unidos, aprovaram também o equivalente a quase US$ 1 trilhão em garantias de empréstimos, o que inclui um compromisso de aquisição de títulos de dívida nacionais pelo Banco Central Europeu a fim de impedir que o "contágio" se expanda e de ajudar a sustentar a situação financeira da Grécia, bem como a de Portugal e Espanha.
Vai funcionar? A Grécia assumiu o compromisso de reduzir as bonificações de Páscoa, verão e Natal de seus funcionários públicos e aposentados, vai elevar os impostos sobre combustível, tabaco e álcool, elevar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos e impor o uso de medicamentos genéricos no sistema estatal de saúde.
Mas o "Washington Post" relata que uma avaliação interna do FMI é pessimista. O estudo aponta que o choque social ainda não se fez sentir no país em toda a sua profundidade.
Até mesmo ligeiras variações de comportamento no crescimento, inflação, medidas de austeridade e elevação de impostos farão com que a carga da dívida grega aumente, a despeito dos esforços internacionais para reduzi-la. O FMI projeta anos de queda nos salários e padrões de vida e desemprego ampliado. O quadro não é bonito.
Já diante da crescente indignação quanto ao acordo, a chanceler alemã, Angela Merkel, sofreu sério revés em eleições regionais importantes e foi forçada a abandonar seus planos de cortar impostos.
Josef Schlarmann, líder regional da União Democrata Cristã, partido de centro-direita de Merkel, acusou a chanceler de "fazer pouco para resistir ao resgate à Grécia".
Seria desnecessário dizer que os bancos continuam a ser pagos.
.........
O autor, que nem de longe poderia ser "acusado" de "ser de esquerda", portanto um perigoso ser que pensa de forma de forma "divergente", acentua em observação irônica no final do texto que os bancos continuarão a ser pagos.
Mais claramente eu digo que os bancos, leia-se as elites do dinheiro, do capital improdutivo, rapinante, os parasitas do trabalho dos outros, serão mantidos em seus panteões de exploradores, ricos e gozando do ócio e do negócio.
Continuarão a fomentar crises, levar pessoas ao desespero, à fome, à depressão, ao suicídio. E também continuarão impunes e premiados pelos governos, que em hipótese alguma se voltam contra as elites. E por um simples motivo: o Estado é povoado por esses tipos, o Estado coloca-se a serviço do privado.
Quanto ao povo, esse ser coletivo que às vezes vai às ruas protestar quando as coisas estão acima do insuportável, continuará a sofrer os efeitos históricos de atos que não praticou. E a apanhar, apanhar muito da polícia - que também é povo mas disso parece não se dar conta.
Então, o povo se cala e vai sucumbir a algum soluço trôpego, escondido no fundo de sua alma desesperançada. Depois, bom, depois é o povo e o resto é pleonasmo...
quarta-feira, 12 de maio de 2010
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Cuidado com os alienígenas
Emanoel Barreto
Deu na Folha, em texto de Ranier Bragon:
As associações que representam os maiores jornais e canais de TV do país anunciaram ontem ter ingressado na Procuradoria-Geral da República com representação em que pedem investigação e adoção de medidas contra o possível controle, por empresas estrangeiras, de órgãos de comunicação no país.
A ANJ (Associação Nacional de Jornais) e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) pedem que o Ministério Público adote providências para que o governo faça cumprir a determinação constitucional que limita a 30% a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação e reserva a brasileiros natos (ou naturalizados há mais de dez anos) a responsabilidade administrativa e editorial.
O presidente da Abert, Daniel Slaviero, afirmou haver dezenas de casos de violação da regra constitucional. "Há dezenas de casos, mas os mais notórios são o portal Terra e o portal iG, que têm conteúdo jornalístico operando na internet", afirmou Slaviero.
"Entramos com a representação com base em duas premissas: que a internet não é uma terra sem lei e que algum órgão público tem que fazer valer uma regra constitucional que está sendo flagrantemente desrespeitada", disse Slaviero, em entrevista antes de seminário no Congresso que discutiu direito autoral na internet.
Material distribuído pela Abert durante o evento aponta também outros órgãos de imprensa, como o jornal "Brasil Econômico", lançado no país pelo grupo português Ongoing.
"Acreditamos que o Ministério Público irá adotar a iniciativa de defender a execução do artigo 222 da Constituição, flagrantemente desrespeitado", afirmou Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ.
..........
É correta e urgente a ação dos órgãos de comunicação. O manejo de conteúdo em qualquer veículo, especialmente no que diz respeito à ênfase, ou seja à contínua veiculação de um determinado tipo de mensagem, é algo que pode ser preocupante, em função exatamente dos enquadramentos trabalhados em caráter contínuo.
Uma determinada forma de representação de mundo, mais claramente, um certo tipo de noticiário que favorece assuntos ou temas, pode terminar não apenas determinando sobre o que pensar, mas, especialmente, como pensar.
Isso em função de que o auditório desprovido de um determinado tipo de informação em proveito de outro pode ser encaminhado a supor que o certo, a verdade é aquilo que está em processo de veiculação continuada e ressaltada.
A, digamos, invasão de grupos multinacionais, seja em território jornalístico ou em aspectos diversionais, termina por formular uma determinada imagem que interessa aos que detêm esse poder de elaborar e veicular símbolos.
Em suma, trata-se de questão também política, também de poder. Já basta o domínio, por exemplo, que os EUA têm no segmento de filmes em cinema e TV. Tal situação favorece a predominância de mensagens que privilegiam interesses alienígenas, obscurecendo a paisagem e os temas nacionais.
Trata-se de atitude que vem a tempo. De uma mobilização que precisa e deve continuar.
Cuidado com os alienígenas
Emanoel Barreto
Deu na Folha, em texto de Ranier Bragon:
As associações que representam os maiores jornais e canais de TV do país anunciaram ontem ter ingressado na Procuradoria-Geral da República com representação em que pedem investigação e adoção de medidas contra o possível controle, por empresas estrangeiras, de órgãos de comunicação no país.
A ANJ (Associação Nacional de Jornais) e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) pedem que o Ministério Público adote providências para que o governo faça cumprir a determinação constitucional que limita a 30% a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação e reserva a brasileiros natos (ou naturalizados há mais de dez anos) a responsabilidade administrativa e editorial.
O presidente da Abert, Daniel Slaviero, afirmou haver dezenas de casos de violação da regra constitucional. "Há dezenas de casos, mas os mais notórios são o portal Terra e o portal iG, que têm conteúdo jornalístico operando na internet", afirmou Slaviero.
"Entramos com a representação com base em duas premissas: que a internet não é uma terra sem lei e que algum órgão público tem que fazer valer uma regra constitucional que está sendo flagrantemente desrespeitada", disse Slaviero, em entrevista antes de seminário no Congresso que discutiu direito autoral na internet.
Material distribuído pela Abert durante o evento aponta também outros órgãos de imprensa, como o jornal "Brasil Econômico", lançado no país pelo grupo português Ongoing.
"Acreditamos que o Ministério Público irá adotar a iniciativa de defender a execução do artigo 222 da Constituição, flagrantemente desrespeitado", afirmou Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ.
..........
É correta e urgente a ação dos órgãos de comunicação. O manejo de conteúdo em qualquer veículo, especialmente no que diz respeito à ênfase, ou seja à contínua veiculação de um determinado tipo de mensagem, é algo que pode ser preocupante, em função exatamente dos enquadramentos trabalhados em caráter contínuo.
Uma determinada forma de representação de mundo, mais claramente, um certo tipo de noticiário que favorece assuntos ou temas, pode terminar não apenas determinando sobre o que pensar, mas, especialmente, como pensar.
Isso em função de que o auditório desprovido de um determinado tipo de informação em proveito de outro pode ser encaminhado a supor que o certo, a verdade é aquilo que está em processo de veiculação continuada e ressaltada.
A, digamos, invasão de grupos multinacionais, seja em território jornalístico ou em aspectos diversionais, termina por formular uma determinada imagem que interessa aos que detêm esse poder de elaborar e veicular símbolos.
Em suma, trata-se de questão também política, também de poder. Já basta o domínio, por exemplo, que os EUA têm no segmento de filmes em cinema e TV. Tal situação favorece a predominância de mensagens que privilegiam interesses alienígenas, obscurecendo a paisagem e os temas nacionais.
Trata-se de atitude que vem a tempo. De uma mobilização que precisa e deve continuar.
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