quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Mistérios para seus olhos

De como se criar um mundo novo e tornar magnífico um grão de areia

Sendo eu homem de poucas luzes, afeito a trabalhos básicos e elementais, sempre procurei aproximar-me de quem poderia ensinar algo a meu parco saber. Assim, no ano de 1201, trabalhando como lenhador nas brenhas mais profundas de floresta vasta, dali levando às aldeias meu pobre lavor que servia de aceso aos casebres por onde perambulava com meu cavalo carregado travei conhecimento com velho de muitas sabenças, tido como esquisito e morador de distâncias, garantidas em sua inacessibilidade pelos longes da citada floresta. Ensinou-me ele a escrever, a ler e a contar.


Em gratidão, passei a colaborar com seus inventos. Como o velho era homem arredio às gentes e não tendo outro a o servir, por uns tempos afastei-me do trabalho de lenhar a fim de ajudá-lo. Naquele tempo ele desenvolvia experiências com a arte vidreira, criando ciosamente ora vidro plano ora encurvado. 

O primeiro tipo de vidro era aplicado às janelas de sua grande e tosca moradia, deixando entrar a radiosa luz solar; o segundo tipo permitia-nos a sensação miraculosa de observar coisas distantes, tornando-as aparentemente perto. Destarte, podíamos observar o sol através de vidros curvos, pretíssimos, sem que isso nos cegasse os olhos. Ou a lua, vista com lentes transparentes, encontrando assim todos os mistérios daquele ser do cosmo. Olhávamos também grãos de areia que se nos apareciam tão grandes como se fossem outros mundos. 

Assim, com a visão de detalhes aumentada, cada grão, era isso o que se nos aparentava, tinha montanhas e vales inóspitos, planícies, cavernas e artimanhas geográficas como o existem na Terra. O velho então decidiu: iria criar uma maneira de tornar-se tão pequeno, tão formidavelmente minúsculo, que seria capaz de explorar um grão de areia a fim de saber se ali havia vida humana ou a isso parecida. Perguntei porque não tentávamos chegar à lua, empresa que a mim pareceu mais fácil, já que não seria necessário a inversão do nosso tamanho.

Ele preferiu não. Explicou que o que se poderia encontrar na lua também o seria no grão, sem a necessidade de voo tão arriscado a local tão distante. Como era aprendiz concordei com o mestre e nos atiramos a experimentos de beberagens e poções que, antes, ele ministrava a porcos, pássaros e outros seres viventes. Maravilhosamente, o velho começou a conseguir o encolhimento dos bichos até que um dia um enorme cavalo tornou-se tão pequeno que só o pudemos enxergar graças a vidro miraculosamente poderoso que amplificou a  visão do animal caminhando num grão de areia. 

O velho exultou: passou a aspergir suas poções sobre plantas, a largas porções de florestas, a lagos e a rios e todos se tornavam microcóspicos; e ele, em bandeja de vidro majestoso, os levava ao grão onde já estava o cavalo e ali criava um outro mundo, em tudo semelhante à Terra.

Afinal, um dia fomos examinar nossa criação e vimos que pululava de vida. O velho então disse que deveríamos nos separar, pois iria habitar aquele mundo antes grão seco e hoje planeta maravilhoso e pleno. Quis saber se o acompanharia à empreitada, mas recusei: "Não, mestre; não mereço tal honraria. Deixo-me ficar aqui no mundo grande, para ver o que acontece."

E assim foi: ele bebeu sua poção prodigiosa e pouco depois foi sumindo, sumindo, sumindo. Observei seu encolhimento em possante lupa, até que o vi, pequenino, caminhando em vale verdejante. Como já era versado na arte da vidraria, apressei-me a criar preciosa ampola de cristal de alta pureza, enchendo-a com o mais delicado ar da floresta para que ali flutuasse aquele novo mundo. 

Desde aquela data até hoje, quando tornei-me tipógrafo de ofício, guardo a ampola e, vez por outra, dou-me a olhar aquela minúscula perfeição e vejo que o velho está feliz. Ontem me disse que vai começar um grande ciclo de navegações, para conhecer o seu planeta...


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Tenho nojo da Copa

Brasil vai gastar uma nota preta com o regabofe da Fifa

Leio no Estadão que o Brasil vai gastar um bilhão e seiscentos mil reais só em segurança com a Copa. Quatro vezes mais que a África do Sul. Tanto lá quanto cá exigência da Fifa, que nos tornou seu protetorado.
 
http://www.google.com.br/imgres?imgurl

Em termos práticos o povo sul africano tirou de sua pobreza todo esse dinheiro para garantir que 250 mil policiais, 7 mil soldados e 20 mil homens de empresas privadas garantissem a segurança do evento. Medo de terroristas,  é óbvio.

Não há dúvida de que segurança é essencial. Do ponto de vista operacional seria um insensatez não mobilizar tal contingente. Mas, que tal se, em  vez da Copa houvesse no Brasil ações, políticas públicas sérias, voltadas para o social?

Não dá mais para nossa sociedade continuar aceitando coisas como a Copa e a Olimpíada, caríssimas, como se fossem, como se tivessem um mínimo de prioridade, decência histórica, urgência, carência social.

Às vezes nosso país me dá nojo. Tenho, tenho sim, nojo da Copa e de todos os políticos que colaboraram para sua idealização e realização. Tenho, da mesma forma, nojo da Olimpíada que vamos custear.

Lamento, especialmente, o fato de o nosso Rio Grande do Norte empenhar tanto dinheiro nessa farra. Lamento a falta de uma sociedade civil atenta, poderosa, representativa, e, por isso mesmo, apta a repudiar, ainda no nascedouro, a malsinada ideia de Lula: trazer ao país a Copa.

Os custos históricos dessa intentona são altíssimos. Toda a dinheirama seria melhor empregada em finalidades sociais. Com o patrocínio do torneio futebolístico áreas essenciais como segurança, saúde e educação, setor viário e aparelhamento das Forças Armadas perdem apoio e incentivo. É triste. É terrível. é podre. Será motivo para a perplexidade das gerações que hoje se formam.

É o motivo do meu nojo.



sábado, 1 de fevereiro de 2014

Você sabe com quem está falando?


O meu rolezinho

Há alguns dias acompanhei minha mulher às compras; lojas do centro de Natal. Numa delas, de roupas femininas, entramos e fiquei parado nas imediações da porta enquanto ela procurava por vestidos.

Nossa atitude foi o suficiente para que um funcionário da segurança entrasse imediatamente em ação: ao que tudo parecia indicar – notei logo suas manhas – ele estava pensando algo mais ou menos assim: “Esse casal de trambiqueiros está armando algum golpe.” Mais claramente: ele começou a andar em círculos, olhos cravados em  mim.

Ia de um ponto a outro da loja tentando disfarçar sua imperícia como vigia, digamos assim, não caracterizado. Não usava arma aparente nem uniforme. Devia estar se achando o máximo. E eu, claro, seria um terrível elemento que a qualquer momento iria afanar alguma peça de roupa e sair, na companhia da minha mulher, correndo feito dois loucos pela Princesa Isabel.

Notando os olhares do indivíduo caminhei até o centro da loja e ali parei. Não toquei em nenhuma roupa, não examinei nada. Cruzei os braços e permaneci estático. Em seguida voltei para junto da porta. Com isso quis sinalizar ao elemento que eu nada queria, a não ser exercer o direito de estar num local aberto ao público.

Ele continuou a me rondar, chegando ao ponto de seguir-me quando fui em direção dos provadores de roupa acompanhando minha mulher que queria experimentar um vestido. O rapaz chegou bem perto de mim. Quase me tocou. Minha mulher não se interessou por nada e desistiu. Agradeceu às atendentes e deixamos a loja.

Saímos. La fora, rimos bastante da lamentável atitude, da bizarrice, da estupidez do vigia. Devo dizer que a situação foi constrangedora. Por instantes deu-me vontade de reagir, mesmo com serenidade, às atitudes do sujeito. Mas eu queria ver até aonde ele iria. Queria perceber até aonde iria a ação daquele ignorante.

Agi com calma até pelo seguinte: àqueles dias estava em alta a ação dos jovens que praticam rolezinhos. Na prática, resolvera dar o meu rolezinho: invadir aquele espaço onde era tido como ameaçadador. E resolvi sofrer o preconceito sem manifestar maiores repúdios. Arquei com as consequências emocionais daquela situação que oscilava entre o ridículo vigilantismo e o patético ato de alguém ser, por motivo apenas indicial, comparado a um criminoso, a um ser de periculosidade nascida de suspeita infundada.

Devo dizer: não foi fácil. É terrível você sentir-se observado, analisado, visto, examinado por um óculo torto e desfocado. Não vou entrar a fundo na questão do rolezinho: é coisa para outro artigo. Mas é lamentável, é perigoso – e até bastante perigoso – alguém ser visto previamente como “mau elemento” sem que tenha efetivamente manifestado periculosidade.

Controlei-me acima de tudo para não humilhar nem dirigir-me àquele trabalhador mal qualificado, recebedor de salário mínimo e perguntar: “Você sabe com quem está falando?”

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Quem é que vai pagar por isso?



Cai em campo a bola
OK, bobinhos, temos a nossa sétima maravilha. A Arena das Dunas já teve jogos e, pelas contas que andei vendo por aí, nos vinte anos em que será explorada pela iniciativa privada terá custo de mais de um bilhão. Tudo isso devidamente repassado à sociedade, é obvio. Repasse de prejuízo mais especificamente aos que mais precisam de hospitais, escolas públicas e segurança em seus bairros periféricos. 
http://www.diariodolitoral.com.br/conteudo

E o mais terrível é que são essas mesmas pessoas aquelas que são induzidas pela imprensa a achar a Arena o máximo. E aplaudem como zumbis, como tolos, numa espécie de demência orquestrada e alegre. 

Outra coisa: soube que a Fifa, mediante contratos aditivos aos termos que firmou para a realização da Copa no Brasil, repassou à sociedade todos os custos que teria com a realização do torneio internacional.

Mas a verdade é que o ninho da serpente está ali, plantado em área nobre, acomodado na dormência da nossa sociedade civil, espreguiçando-se na incúria dos nossos governantes. Mas creio que, passado o encanto, cessada a mesmerização, será um, mais um mastodonte inútil.

Gostaria muito de estar errado. E que pelo menos os serviços que, dizem, vão funcionar por lá; coisas como praça de alimentação e, parece, lojas, tenham sucesso. Será também importante um severo e contínuo trabalho de manutenção daquelas ferragens, as tais pétalas. Você acredita nisso? 

Na verdade gostaria era de ver um Walfredo Gurgel funcionando a contento, escolas públicas dignas desse nome, transporte público que valesse a pena. Qualquer pessoa que entram num ônibus em Natal sente-se, no mínimo, ultrajada. Qualquer estudante sabe que recebe uma educação chinfrim. O Walfredo é uma área de risco. 

Mas, ok, ok, ok: temos agora nosso grande nada, feito de cimento e ferro. O quanto isso pesa, as gerações vindouras saberão dizer. A bola já está rolando.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Coisas terríveis para salvar o mundo

De como fazer a destruição para termos um grande futuro

Fui procurado hoje em minha tipografia por excelente pessoa, que pelos modos gentis e gestos refinados logo vi tratar-se de um sapo. Homem viajado, elegante e de pensamentos elevados, disse-me que buscava um editor para grande obra intitulada De Mundis Terrificus e Preclarus. Pedi informações a respeito e informou-me que trata-se de livro magnífico onde se explicará a importância do uso correto das pedras redondas, aliadas às exposições discretas do finis concertus para o bem da humanidade.

Percebi imediatamente que é missão de alta relevância e coloquei-me à disposição. Isto posto, o sapo pediu permissão para convidar à tipografia dois outros grandes sábios. Atendi imediatamente e pouco depois desciam de um tílburi um jovem orogangotango e um velho e digno papagaio, cavalheiros de estirpe e condições.

Informaram que o livro, cujos originais da peça introdutória me foram entregues, é uma larga e profunda reflexão sobre a condição humana. Conversamos longamente e eles se retiraram. Eis o que diz o texto que me foi entregue:

A questão humana é de alta relevância. Assim, torna-se imperioso aprofundarmo-nos em seu estudo, uma vez que, historicamente, está comprovado que temos incrível tendência ao conflito e à nunca solução do conflito e aí está mesmo a essência da nossa condição.
Sendo assim, é preciso dar condições à humanidade para que procure a sua própria destruição.

Para tanto, devemos nos atilar a desenvolver processos autodestrutivos, aliando a isso as intempéries naturais. Acontecidas estas, devemos mobilizar máquinas extraordinárias, enormes, ciclópicas, a fim de ampliar os resultados da força dos elementos.

No texto está também explicado que, por exemplo, devemos aproveitar a destruição da orla de Ponta Negra, promovendo, a partir dali, a construção de grandes buracos em todas as ruas, avenidas e vielas, a fim de que isso se torne obra d'arte grandiosa e apreciada.

Percebi que há nisso grande saber e poderosa filosofia. Construídos os buracos, será preciso criar imediatamente uma empresa que refaça tudo, ou seja: os buracos sejam tapados e depois de tapados sejam novamente refeitos e assim indefinidamente, já que é para isso que os governos foram criados. Claro, notei que tal filosofia é de grande valia.

Em caso de ação de elementos perigosos, como assaltantes e outros do mesmo tipo, será preciso criar linhas de financiamento de armas, a fim de que os malfazejos possam executar com perícia e mestria suas grandes artes de roubar e matar. Mais: os hospitais públicos devem ser fechados ou tornados ainda piores em seu funcionamento, a fim de desestimular as pessoas a não adoecerem. A culpa das doenças são os hospitais, está dito no texto. E assim, eliminando-se a causa, será extinta sua consequência, a doença e os doentes.

O documento fala em muitas e muitas outras cousas extraordinárias, como estimular o analfabetismo e os programas sociais de casas populares, levando-se as pessoas a procurar cavernas e tendas, que são mais baratas. E, sem saber ler e escrever, as pessoas não terão intentos danosos de formular ideias malsinadas, que só trazem o desespero e a desagregação social.

Como vê o leitor, trata-se de obra de grande valia que, disseram-me o sapo, o orogangotango e o papagaio, irá orientar o natalense no sentido de um grande passo para o seu futuro. As bases estão construídas. Agora, resta-nos trabalhar em seu aperfeiçoamento. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

O debate sobre as drogas



Neusa, onde 
está você, Neusa?

Vi recentemente vídeo em que uma jovem completamente drogada, experienciando uma espécie de alucinação ou algo que o valha, diz não saber aonde está e procura desesperadamente por uma mulher chamada Neusa. Tem movimentos descontrolados e recebe ajuda de um rapaz para recompor a saia. Esse, aliás, é o único gesto de solidariedade que recebe: no mais, o que se ouve são vozes de rapazes e moças que, sem manifestar qualquer atitude de amparo ou compaixão, ficam, como se diz hoje, zoando a moça.

Ouve-se claramente a voz de uma jovem que pergunta “quem é você guria, quem é você?”, mas não notei, digamos assim, da parte dela, comunhão com o ser humano ali fragilizado. Não ouvi ninguém dizer, por exemplo, “vamos pegar essa menina e levar a um hospital.” Em síntese: se não recebeu violência física, pelo menos até aonde o vídeo mostra, ficou como que sendo jogada de um lado para o outro.

Essa a situação de um drogado. Essa a situação de quem perde o controle sobre si próprio e fica nas mãos de desconhecidos. Fui repórter policial por cerca de onze meses e vi nas delegacias homens presos por uso de drogas. Pessoas largadas ao chão, tremendo, encolhidas. Isso foi em 1975, época em que não havia qualquer movimento pedindo a liberação de drogas. 

Creio que isso não seria uma boa medida. Os discursos de hoje, chamados de anti-proibicionistas, são, tenho certeza, bem intencionados. São pronúncias de intelectuais, pessoas com capacidade crítica. São assertivas bem assentadas teoricamente e têm, não resta dúvida, a intenção de atitude humanista e libertária. 

Mas, quem já tem ou teve um parente ou amigo dominado pelas drogas sabe bem que a realidade é muito diversa do discurso. Na vida de cada casa, na intimidade dos relacionamentos, é possível perceber a devastadora ação das drogas quando levadas às últimas consequências: desde o álcool à cocaína, da maconha ao crack e por aí vai. Nessa convivência afundam o viciado e toda a família. 

Ao longo de meus 39 anos de jornalismo acompanhei vários casos. Pelo menos dois morreram em situação miserável ou quase isso. Tenho plena consciência de que há alguma tendência social favorável à liberação das drogas, ou seja, há um consenso parcial em processo o que indicia claramente uma crise no modelo da proibição.

Sei que o assunto, de forma inescusável, já está em debate no fórum da cotidianidade, no ritmo das ruas, nas festas, no hedonismo que, no fundo, é um direito. A questão também é o fato de que a droga está entranhada ao crime organizado e, parece-me, o simples fato de liberar sua venda não irá inibir a ação dos traficantes. 

Acato o direito às decisões individuais. Espero que a humanidade saiba lidar com os desafios que ela própria criou. Mas tenho medo, tenho muito medo, de ver outros jovens à procura de Neusa. Esse o grande problema: aonde está Neusa.