sábado, 19 de junho de 2010

O DIÁRIO DE BICALHO
Diário confessor,

Ontem fui ao cardiologista, que garantiu-me que está tudo bem. Sorri para ele, mas não acreditei. Manifestei uma alegria mitigada e saí. De repente, taquicardia. Eu não disse? Agora meu coração se volta contra mim. Meu coração quer me morrer.

Penso às vezes em deixar este corpo tão traiçoeiro. Em vão. Tentei milhões de vezes, estudei com zen budistas, meditei com um baba indiano que me apareceu, fiz terapia de vidas passadas tentando encontrar algum corpo meu de antigamente para nele me abrigar. Inútil.

É impossível sair-se de si. Você pode livrar-se de alguém, mas nunca poderá escapar de si mesmo. Que pena. Logo agora, que estou com grandes planos para o futuro, o passado que em mim me habita, o passado que é meu corpo, diz que não. E tenho que continuar morando nesse sarcófago que a vida me deu.

E agora veio-me uma terrível dor de cabeça.
Desisto. Vou continuar preso ao que restou de mim.

Um abraço,
Bicalho
O jornal envelhecido
Emanoel Barreto

A leitura da manchete da Folha dá-me a sensação real do perigo que corre o jornalismo impresso de perder espaço e presença histórica. Motivo? Muito simples: no espaço mínimo de 24 horas a notícia da morte de Saramago já está jornalisticamente envelhecida. A internet, a TV e o rádio já a haviam esgotado enquanto acontecimento noticiável. Especialmente a internet, esse inimigo não-intencionado do jornalismo impresso dá-me reforço à sensação 

E isso apesar da belíssima capa da Folnha, com Saramago em foto de tom blasée, um flâneur em pleno exercício de sua flanerie; um homem vivenciando sua senectude rejuvenscida e desafiadora, impávida ao vento e às tempestades da vida. Tormenta ele próprio, viajor, português, homem do mar.

O que faltou ao jornal? Faltou dar a informação adiantada, o dia seguinte, o hoje, a contextualização, o processo de vida em torno da figura carismo-turbulenta do autor, a representatividade da obra. Claro que teria que haver uma manchete. Mas não, não seria o anúncio episódico de uma morte já anunciada 24 horas antes.

Creio que deveria ter havido, mesmo de forma simplista, ou o anúncio de onde será ele cremado ou os lamentos carpideiros do povo português, a comoção, o luto. Dizer ao mundo apenas que Saramago morreu é no mínimo um equívoco.

Mas a falha não é da Folha, com trocadilho e tudo. É do jornalismo impresso de um modo geral. Que precisa se tornar analítico e antecipar fatos novos a partir de um grande acontecimento matricial, aprofundando-o.




sexta-feira, 18 de junho de 2010

gaia ciencia
Emilio Naranjo/EFE
A nave vai
Emanoel Barreto

E partiu então a nau de Saramago
a navegar mares tão distantes.
Ao léu do seu próprio infinto.

Para onde foi, por que foi?
Não voltará?

Ao vento vai  A nau insone e feita de marfim.
E parte, digo e respondo: parte para não mais voltar.

quinta-feira, 17 de junho de 2010


O DIÁRIO DE BICALHO
Amigo Diário,

Estou no meu escritório, após ter escapado do atentado perpetrado contra mim pela minha mulher. Meu escritório é um bunker. Aqui, nem micróbios gigantes ou qualquer outro agente mortífero conseguirá me capturar. O problema é que está chegando o fim do expediente e vou ter que voltar para casa e enfrentar minha mulher e a mãe dela. Acho que estão conluiadas. Conluiadas, entende? Percebe o terrível peso desta palavra?

Um conluio, amigo diário, é uma coisa cretina. Li certa vez que um conluio acabou com os celtas. Não sei bem o que isso significa, mas, pelo sim pelo não, vou me precatar. Agora, preciso ir embora: todos os empregados já foram embora. Até o chefe sumiu. Mas, espere, o chefe sou eu! Na verdade EU sou o dono do escritório! Estou tão atemorizado que tinha me esquecido...

Vou fazer o seguinte: entro no carro sorrateiramente para evitar de ser visto. Pronto. Entrei. Agora, dirigir para casa. Sei que aquela viatura da polícia parece me seguir. Estou no sinal. Noto que o flanelinha se aproxima e finge pedir dinheiro, mas, na verdade quer me atacar para tomar o carro. Vou arrancar daqui.

Agora, em frente. Pergunto a você, velho diário: por que será que todos me querem mal? Será que eu sou mau e todos são os bons? Mas, se todos são bons, porque querem me afligir? Então, agora, já sei: assumo que sou maléfico, tétrico e rancoroso; desumano, cruel e lancinante. Fico igual a todos e me livro da perseguição infame. Essa é a realidade.

Deve ser por isso que, de repente, muitas vezes penso que o mundo é real demais. Que realidade é essa, que mete medo?

Direto para casa. Cheguei.
 Estranho, minha mulher me recebeu com um lindo, terno e doce abraço. Minha sogra brinca alegremente com meus adoráveis filhos e me dá boa noite. Peraí, será que não percebo que as pessoas me querem bem?
As tornozeleiras eletrônicas e a conta do mentiroso
Emanoel Barreto

Leio no Estadão: BRASÍLIA - Foi publicada nesta quarta-feira, 16, no Diário Oficial da União, a Lei nº 12.258, que autoriza o monitoramento eletrônico de condenados nos casos de saída temporária no regime semiaberto e de prisão domiciliar. Esse tipo de monitoramento poderá ser feito, por exemplo, por meio de pulseiras ou tornozeleiras.



A lei determina que se o preso remover ou danificar o instrumento de monitoramento eletrônico poderá ter a autorização de saída temporária ou prisão domiciliar revogada, além de regressão do regime e advertência por escrito.

Quem estiver sob monitoramento eletrônico será informado das regras a serem seguidas. Também receberá as visitas do servidor responsável pelo monitoramento, terá de responder aos seus contatos e cumprir suas orientações.

A lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva altera o Código Penal e a Lei de Execução Penal para prever a possibilidade desse tipo monitoramento.
...........

Faz de conta que sou um numerólogo cínico que fez um cálculo e descobriu que essa lei não vai pegar. Quem vai pegar as algemas eletrônicas serão os bandidos. Vão pegar a jogar fora.

Veja os meus cálculos: a lei tem o número 12.258. Somando-se 1 + 2 temos 3. Este, por sua vez, somado com 2 dá 5. Esse 5 você adiciona ao outro 5 e temos 10. O mesmo 10 junte ao 8 e temos 18. Faça a subtração do 1 ao 8 e temos 7.

Sete é a conta do mentiroso. Entendeu por que a lei não vai dar certo?

Agora, deixando de lado a ironia - mas não tanto -, veja o seguinte: com a cultura que temos no país - somos a terra do jeintinho, lembra? - você acha mesmo que um sujeito que está na cadeia, um criminoso, vai respeitar uma geringonça, uma prótese policial apensa a seu corpo? Ora, se ele está preso porque exatamente é um bandido, porque iria dispensar essa fuga patrocinada?

E as punições?, você prestou atenção às punições? Algum preso vai se intimidar de receber uma simples advertência por escrito? Devem estar brincando...

Esse negócio de tornozeleira só funciona em filme de seriado americano. Lá os presos são bem-educados, são presos de Primeiro Mundo, sabia? É, é isso mesmo. Eles têm até "agentes de condicional". Os bandidos são deferentes, respeitosos. Em suma, são presos gentis, cheios de ademanes e salamaleques, entende?

Aqui, não. Aqui, a cambada vai dar im jeito de transformar as tornozeleiras em celular e criar um novo mercado negro para o setor. Pode esperar.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O DIÁRIO DE BICALHO

Caríssimo Diário,

Tenho a ligeira impressão de que estou sendo seguido por perigosos micróbios. Tenho a impressão não, tenho certeza de que eles estão me seguindo, aonde quer que eu vá. Hoje de manhã, ao tomar café, percebi uma nuvem de malíssimas micro-criaturas se acercando da minha xícara de café. Solertes, fugiram para dentro do frizer e lá os ataquei com um  extintor de incêndio, conforme vi no filme A Bolha Assassina.

Consegui matá-los a todos. Mas, quando já me preparava para um alegre desjejum, eis que ouço um horrível barulho do lado de fora da minha casa. Notei que um grupo de agentes microbianos tentava tomar minha casa de assalto. Deus meu!, gritei, quando vi que um deles, uma enorme ameba, de mais de quatro metros de envergadura, havia subido ao muro. E olhe que o muro da minha casa tem dez metros, eu disse dez metros, dez metros de altura.

Corri para a porta da frente, para ver se estava trancada. Estava. Sei que amebas são elementos perigosíssimos, especialmente amebas gigantes. Os piores micróbios são os micróbios gigantes, sabia? Jamais se meta com um micróbio gigante.

Pois bem: como disse, a porta estava tancada, mas a ameba estava tentando passar por baixo da porta. Amebas são peritas nesses atos ofensivos. Quando ela finalmente entrou, corri em direção à escada do primeiro andar. Foi pior: fiquei acuado: minha sogra descia de lá, munida de formidável clava e estava disposta a me golpear o crânio. Ela estava mancomunada com a ameba gigante, imagine então como é terrível aquela mente criminosa.

Minha sorte foi que, no exato momento em que a ameba ia me fagocitar eu acordei. Era um pesadelo. Mas, logo ao acordar, percebi que minha mulher afinal havia se resolvido a me matar. Escapei por pouco e fugi para o escritório, onde montei um bunker. Agora, meu problema é voltar para casa.
PS: Acredita que agora mesmo vi aquela ameba rondando o escritório?
(Leia amanhã a continuação deste diário)





Estão baixando o pau em Galvão. É bueno, muy bueno
Emanoel Barreto

Deu na Folha: Exibida com destaque logo que a bola começou a rolar para a estreia brasileira na Copa do Mundo, contra a Coreia do Norte, em Johannesburgo, uma faixa com a frase "Cala a boca, Galvão!" foi recolhida rapidamente nas arquibancadas do estádio Ellis Park, nesta terça-feira.

O adereço estava colocado exatamente no centro do campo, pouco acima das placas de publicidade, e endossava campanha iniciada no Twitter, desde a última sexta.

Bastou começar o jogo inaugural do Mundial na África do Sul, entre a equipe da casa e o México, que os temas ligados ao torneio já estavam entre os dez mais comentados no famoso microblog. E o assunto que liderava o ranking era justamente "Cala boca Galvão", referindo-se ao locutor esportivo da "Rede Globo".


..........

O REPÚDIO a Galvão Bueno "é a maior manifestação, desde as Diretas-Já", é o que andam dizendo no Twitter. A comparação, plena de ironia, de sarcasmo nascido de uma certa repulsa à figura imperial-ridícula do locutor da Globo, tem um quê de político em sua matriz profunda.

Figura icônica da hegemonia global, Bueno terminou por representar, com seus comentários cínicos, falaciosos, toda a essência perversa da rede dos Marinho. Não é ele quem, mesmo a Seleção fazendo jogos lamentáveis, insiste em que tudo está bem? Não é ele quem endeusava Ronaldinho, apesar de apresentações abaixo da crítica? Afinal, não é a Globo a emissora que inverte realidades, apresenta um país de faz-de-conta, alegre e fagueiro?

Na ditadura, o general Médici - isso está registrado historicamente - dizia que, ao assistir o Jornal Nacional via um mundo cheio de problemas, guerras, insurgências, fome e desolação, enquanto no Brasil "tudo ia bem", e isso o "tranquilizava".

Agora, com a campanha anti-Bueno, pode-se perceber o quanto aquele locutor é mal-visto. E o é exatamente porque as pessoas de alguma forma percebem difusamente que sua presença representa os interesses e a desfaçatez da Globo.
A mesma Globo que na campanha das Diretas-Já, após ocultar aquele movimento de massa, foi alvo do repúdio popular, quando as pessoas gritavam "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo", e atacavam viaturas da emissora. A Globo, enfim, divulgou o movimento, mas dentro do seu padrão manipulatório: um repórter, em São Paulo, mostrava grande manifestação de apoio às Diretas como parte das comemorações do aniversário da cidade.

Parece que a figura icônica de Bueno está mesmo sob fogo pesado. Mas, não creio que a emissora o vá dispensar, até mesmo porque deve ter um contrato milionário e com alguma custosa cláusula penal, que desanimaria tal iniciativa.

Mas é bom que isso aconteça. Bueno, muy bueno.

terça-feira, 15 de junho de 2010

http://www.fcmessina.us/images/naked_women_soccer_team.JPG
So tem véia, só tem véia, no forró da Coreia
Emanoel Barreto

Só tem véia, só tem véia, no forró da Coreia.
A burocrática Seleção fez um baile tipo dois-pra-la-dois-pra-cá.
Nada parecido com um forró autêntico: quente, vibrante, remelexo, bate-coxa.

O previsível bolero resultou numa festa que, afinal, teve lá uma alegriazinha.
Assim: a moça aceitou dançar, mas botou macaco - aquela mão no ombro que impedia o rapaz de, digamos, chegar perto demais como se dizia no tempo em que se dançava bolero.

Esperemos que, na próxima, seja, no mínimo o Bolero de Ravel.
E com uma moça bonita. Dançando samba. Com Deus no coração e o Diabo no quadril.
http://rmtonline.globo.com/banco_imagens_novo/noticias/%7B38A2661F-A0F9-4B15-BC8B-4D7AA7599683%7D_futebol_gol.jpg
A sagrada oração do gol
Emanoel Barreto

 A Pátria de Chuteiras vai entrar em campo.
Oremos para que a alegria do gol, se houver,
abençoe e proteja os que gritam as exultantes lágrimas de cerveja.

Oremos todos no templo dessa emoção - sagrada e meio vadia.
Oremos por uma vitória envolvida no manto da Bandeira.
E saibamos que a nossa molecagem é também ritual de fé.

Adoremos a bola, essa matreira, e peçamos que ela,
como Deusa, nos ajude a comer, dia seguinte,
o pão amargo que a todos nós nos cabe.

Oremos, oremos muito,
pois nem só de gol vive o homem,
mas de tudo aquilo que lhe dá a Vida.

E, nessa vida, que a Vida nos dê em dobro
tudo aquilo que o futebol promete.

GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!


O DIÁRIO DE BICALHO

Querido Diário,

Estranho, muito estranho. Mas, hoje, amanheci incapacitado de pensar. Os pensamentos existem, sabia? Têm vida própria. Assim: os pensamentos, penso eu, são uns bichos que moram na nossa cabeça . Ééééééééééé... Ficam escondidos naquelas dobras do cérebro, na verdade cavernas onde se metem os pensamentos e, quando a gente menos espera, pá!, eles chegam e se apoderam de sua mente.

E, como hoje amanheci sem capacidade de pensar, temo que tenha acontecido o seguinte: os pensamentos são guardados pelo cérebro nas cavernas. Uma espécie de estoque, se  que me entende. E, se você pensa demais, se não economiza os pensamentos, plim!, os pensamentos... se acabam. Assim, acho que esgotei a minha capacidade de pensar. Gastei todos os meus pensamentos com planos e táticas inúteis para enfrentar as surtidas de meus inimigos. E, quando isso acontece, quem surta sou eu.

De qualquer maneira, penso que não pensar é uma forma de pensar. É isso! Matei charada. laAchei a pedra-de-toque: quando você pensa que não pensa você está pensando! Pronto! Voltei a pensar, entende? Voltei a pensar, Querido Diário!

E agora, dotado de minhas faculdades mentais plenas e argutas digo na sua cara: descobri uma coisa a respeito de você. Mais claramente, temo que não seja de confiança e esteja passando a algum louco as coisas que escrevo e que esse louco esteja publicando minhas dúvidas e incertezas.

E então, dotados dessas informações sigilosas, insidiosos indivíduos tratam de me atacar subrepticiamente. Se não fosse assim, como teria sido possível aquele atentado de ontem, quando um cadeirante investiu contra mim, brandindo infame punhal? Foi você, foi você, Diário, quem tramou o plano com o cadeirante!

Mas você não contava com a minha astúcia: ontem, sonhei com Dom Sebastião. E sabe o que ele me disse? Garantiu que não morreu naquela batalha de Alcácer Quibir. Aha-haaa!
Peguei você. Agora, quando notar que está traficando pérfidas informações a meu respeito, chamarei por Dom Sebastião. Sou um sebástico, sabia? E, se você e minha sogra me armarem emboscadas  e patranhas, gritarei a plenos pulmões: "A mim, d'El Rey! A mim, d'El Rey!"

Pensando bem, é melhor prevenir que remediar: "Socorro, Dom Sebastião! Socorro! Socorro, Dom Sebastião! Meu Diário quer me pegar!"




segunda-feira, 14 de junho de 2010


O DIÁRIO DE BICALHO

Querido Diário,

Cheguei ao escritório. Graças a Deus. Todos no trânsito queriam me assassinar. Primeiro um motoqueiro como cara de serial killer - devidamente encoberta pelo capacete, como é típico dos mal intencionados; depois, uma freira que atravessou a faixa de pedestres fingindo estar cabisbaixa. Na verdade, me olhava com o rabo-do-olho. Afinal uma babá me perseguiu, correndo como uma louca pela calçada, em paralelo. Certamente no carrinho de bebê não havia bebê, mas arma de grosso calibre, munição especial e alto poder mortífero. Escapei por pouco.

Neste exato momento meu chefe me olha fixamente. Deve estar premeditando a minha morte. Mas, pensando melhor, eu, EU! estou vendo a mim mesmo, refletido num enorme espelho decorativo que tem no escritório. Meu Deus! Eu, EU mesmo!, estou me olhando fixamente. Será que estou pensando em me suicidar?

O aniversário de Minha Filha Mirna

Hoje é o aniversário de Minha Filha Mirna. Jovem mulher feita de azul e paz, ela e Edgar, genro com atos de filho, deram-me como netos Eduarda e Murilo, dois pinguinhos de luz que encantam a meu olhar. Bela, altiva, digna e corajosa, tem alumbrado meu caminho.
Um beijo, Mirna.
Papai

domingo, 13 de junho de 2010

O disse-me-disse no jornalismo pró-Serra
Emanoel Barreto

Uma das coisas que mais debato com meus alunos em sala de aula é quanto à diferença entre fato de ação e fato de declaração. O primeiro é substantivo, é aquele acontecimento com começo meio e fim, é relativamnte imprevisível e dotado de carga dramática que intervém no quadro geral de valores de uma sociedade, em função de que proporciona quebra da cotidianidade: um acidente, um crime, um jogo de futebol.

Quanto ao fato declaratório é eivado de substância ideológica e, não estando preso a alguma forma de comprovação, exaure-se na sua simples assertiva. É caracterizado pelo verbo "dizer", como ocorreu com a manchete da Folha de hoje: "Governo banca esquadrão de militantes, diz Serra". Pronto. Está aí um fato declaratório clássico: alguém afirma, mas não prova, alguma coisa.

E o jornal, por aliança implícita com o candidato, o eleva à condição de manchete da primeira página. O acontecimento de assertiva, sem aquele vínculo com algum tipo de prova é uma ocorrência oca, vazia de maior sentido social, mas de qualquer maneira guinchado à manchete.

Isso não quer dizer que uma afirmativa não tenha em si valor jornalístico intrínseco. Mas isso somente se dá quando o ato frasal está enriquecido por circunstâncias graves, como a leitura de um veredicto, o discurso de ator social em momento histórico grandioso, como a conclamação pública contra um sistema ditatorial ou contestando alguma outra forma perversa de realidade sociopolítica.

No caso da Folha o pronunciamento de Serra foi apenas uma bravata, engravatando sua candidatura à presidência da República. Se o PT fizesse alguma acusação contra ele teria o mesmo destaque? Se você é aluno de jornalismo, pense a respeito.

O DIÁRIO DE BICALHO

Querido Diário,

Desde alguns dias venho notando estranhas transformações em minha sogra. Velhota arisca, espantadiça. Eu já vinha desconfiando de seus comportamentos há muitos anos, mas, ontem, tive a confirmação: a louca quer me matar, imagine só. Tarde da noite, quando saí do quarto para tomar água, flagrei a virago segurando enorme faca, igualzinha àquela usada no filme Psicose. Tremi.

Quando ela me viu, escondeu rapidamente a terrível arma em seu horroroso xale e deu-me um sorrizinho falso, sabe? Um sorrizinho de serpente. Não sei se você sabia, mas as serpentes sorriem antes de atacar suas vítimas. E eu, que sou uma vítima incorrigível, tomei cá minhas precauções.

Primeiro: não bebo mais café servido por ela. Pode ter veneno. Segundo: quando saio à noite pelos corredores de minha casa, uso sempre um colete à prova de balas velho que me foi dado por um amigo da polícia. Pode ser que ela tenha comprado um revólver. Terceiro: como não tenho em quem confiar para pedir conselhos sobre tais fatos ameaçadores, vou agora mesmo falar com a minha sogra.

Sabe por quê? Simples: somente um criminoso pode nos ajudar quando se trata de pedir socorro contra os criminosos. Vou perguntar: "Querida sogrinha, se a senhora fosse me matar como faria?". Espero que ela tenha a bondade de me informar. Afinal, isso demonstra o quando confio em sua inteligência e, claro, capacidade de me matar.

Respeitosamente,
Bicalho

sábado, 12 de junho de 2010

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQa72ToAeVM9CU2oWXvyvPR_W-7fMpHlYvxN-tngntY9dSg2qWKoVaPAav0NQaHcSyhxWx1RVoh7mk6DRR4W3mlW9zZf9d82X1vMJA4-Do5M6fsieK_nJTTtpl56LjfXvkPftQJQ/s320/fuufighters.jpg
O voto ideológico ou de como fazer o povo de besta
Emanoel Barreto

Leio nas coisas de jornal da net que o professor César Romero, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, chegou a uma conclusão que, entendo, é, no mínimo, desabonadora do seu professorado. A ser verdade, é uma lástima.

 Acompanhe o raciocínio: segundo li, o professor afirma que, após pesquisar o processo eleitoral para a presidência da República desde 1989, verificou que saiu vencedor quem foi mais pragmático que ideológico. Ou seja: venceu quem efetivou a prática clientelisto-populista, usou de artifícios para atrair eleitorado, fez promessas, mentiu, fraudou a consciência social.


Ou seja novamente: foi eleito quem produziu falsa representação da realidade, substituindo o discurso da explicitação das questões sociais estruturais e conjunturais pelo dizer emotivo e aliciante das promessas típicas de um certo tipo de marketing eleitoral. Outro ou seja: Aquele que se utilizou ideologicamente de um pronunciamento diversivo para ocultar seus intendos demagógicos, dizendo que seus atos enunciativos não tinham conteúdo ideológico. Tinham sim.

Conclusão: não existe voto "ideológico" e voto "não-ideológico", voto advindo do "pragmatismo" do candidato. A afirmativa do professor talvez tenha tido a intenção de dizer que o tal pragmatismo na verdade refere a compreensão de candidatoque optou por desviar seu discurso de uma abordagem que explicite a questão das classes em presença por entender que o "povo", na sua "ignorância" não está apto a compreender um dizer de esclarecimento. 

Assim, taticamente, é melhor a utilização do emotivo em detrimento do racional, a mentira em vez da verdade denunciadora. É claro que as atitudes retóricas integram necessariamente o discurso na polis. É a argumentação que traz a claro a questão social, a gestão dos destinos da Cidade. Isso já era debatido na ágora pelos gregos. E como.

 Desta forma, é possível, sim, fazer-se a abordagem direta, a denúncia da exploração dos trabalhadores de forma emotiva, demonstrando, em discurso ideológico objetivo, a dor e o drama históricos, do mesmo modo que o discurso "pragmático", portador de anúncios de eras fabulosas de prosperidade e felicidade geral. Este, é pura enganação.

Equivoca-se o professor. Valeu-se do senso comum para abordar questão complexa ao dizer que há voto ideológico e voto não-ideológico. Sem sentir, foi, ele próprio, dominado pelo ideológico e misturou o real pelo aparente. Elementar, meu caro Watson.

 O DIÁRIO DE BICALHO
A partir de hoje publicarei o Diário de Bicalho, o paranóico. Trata-se de instigante texto produzido por um ser urbanóide, levemente oligóide e, é preciso admitir, bonifrate. Diz ele:

Querido Diário,


Hoje, ao acordar, descobri que estou sendo seguido por zumbis. Zumbis venusianos, o que é pior. São eles os mais terríveis da sua espécie. Perseguiram até à morte um velho e querido amigo, veja só. Logo ao sair de casa, dois deles me olharam de soslaio e falaram em rádios, comunicando aos outros zumbis os meus temerosos passos.


Senti um calafrio na espinha, mas fui adiante. Acelerei o carro, mas logo percebi que me seguiam em sinistra e negra viatura. Ao chegar ao trabalho descobri que todos se haviam transformado em zumbis. Em desespero corri para a rua, mas lá também havia muitos zumbis misturados à multidão.


Não sei, querido diário, mas tenho a impressão de que alguém está transmitindo as minhas palavras a um louco que, neste exato momento, as está publicando. Assim, aviso ao leitor, à leitora: fiquem atentos; agora mesmo alguém os está observando. O louco que publica minhas palavras é, ele próprio um zumbi. Perigosíssimo.
 Para encerrar, digo: estão forçando a minha porta. Pior: arrombaram a minha porta. Estou sendo atacado e acho que vou, vou morrer! Mas, uma coisa garanto: se eu morrer, vou virar espírito de encruzilhada...


Até amanhã.
Sinceramente,
Bicalho.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

http://www.bicodocorvo.com.br/wp-content/gallery/tubarao-branco/foto-tubarao-branco-06.jpg

E o homem foi.
Viajando o léu, o acaso, o improvável possível.
E se era possível virou realidade.
A Fera Vida o acossou e veio.
E o homem...



http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL1545630-17084,00.html
A quem interessa essa alegria?
Emanoel Barreto

A visão rápida que temos do povo da África do Sul, nas matérias televisivas, é a de uma população pobre, mas surrealmente alegre. Cantam e dançam como se suas vidas se fossem transformar à causa de jogos de futebol. Grande coisa. Já vi em algumas coisas de jornal gente levada a morar em casas rústicas, feitas, pareceu-me, de alumínio ou coisa assim.

Foram retiradas de perto do espetáculo. Afinal, é feio mostrar a realidade da África do Sul ante tão elegante competição. O glamour da Copa não combina com a pobreza. Naquele país, como de resto em boa parte do continente que já foi chamado de Continente Negro a aids é um sério, melhor, grave, pior, gravíssimo problema de saúde pública - só para ficar nesse exemplo.

Enquanto isso, os pobres comemoram. Depois de encerrados os jogos, o que ficará para eles? Nada, ab-so-lu-ta-men-te nada. A não ser lembranças de que viram jogadores riquíssimos, que passearam sua presença por aqueles longes do mundo como uma espécie de dádiva visual.

Afinal, a quem interessa tanta alegria? A um pequeníssimo grupo, a uma elite financeira que tem no futebol uma fábrica de dinheiro. Mas é preciso passar ao povo instantes de fragor efusivo e fazê-lo acreditar-se participante. O povo não vai ao espetáculo: o povo é o espetáculo. Seus aplausos, gritos de goooool! são imprescindíveis para as fotos e para as câmeras televisivas.

Afinal, se o povo não tem pão que coma brioche. E como isso também nunca terá, que venha o circo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

 http://www.bicodocorvo.com.br/wp-content/uploads/2009/06/cerveja-com-viagra.jpg
Viagra pra dentro, pinto pra fora
Emanoel Barreto

Vivemos o pleno da sociedade do espetáculo. Espetáculo que não está, é preciso que se entenda, apenas nos diversos palcos do teatro da vida: TV, revistas, jornais, internet, rádio e todas as quinquilharias digitais. O espetáculo está na vida mesmo, nos relacionamentos do cotidiano, na obediência a padrões de necessidades artificiais, criadas para vender produtos, geradas para provocar comportamentos.

O espetáculo está no exibicionismo de uns para os outros: veja só meus peitos, olhe só minha bunda, estou com tudo em cima.

Por exemplo, tornou-se senso comum que a mulher tem de ser magra e ser peituda. Então, silicone nela.
Quanto ao homem, tem de estar sempre atento e forte. Se não dá, Viagra nele. Perigosamente, um medicamento passa a ser mercadoria no sentido mais vulgar e a performance sexual do macho passa a ser elemento de mercado.

A partir de amanhã o Viagra estará mais barato. Registra o Estadão: "A partir desta quarta-feira, 9, o preço do Viagra (citrato de sildenafila), medicamento indicado para o tratamento da disfunção erétil produzido pela Pfizer, será 50% menor do que o praticado até agora em todas as suas apresentações. Com essa redução de preço pela metade, o Viagra será mais barato do que sua versão genérica, uma vez que o valor médio de cada comprimido será de aproximadamente R$ 15. Além disso, a companhia lançará apresentação em embalagem com um único comprimido de 50 mg."

A naturalização de um medicamento como artefato sexo-recreativo é tamanha que o texto do jornal torna-se eminentemente propagandístico-exultante. Veja só a frase "Além disso, a companhia lançará apresentação em embalagem com um único comprimido de 50 mg.". Percebe como fica insinuado que você, homem, não deve perder a "promoção"?

O restante da notícia segue a retórica publicitária, sem levar em conta efeitos coleterais que a droga possa produzir, quais os sinais que indicam realmente disfunção erétil, dosagem do remédio, etc..., etc..., etc... O jornal agora é médico.

Então, é isso: mulher, barriga para dentro, peito para fora; homem, Viagra pra dentro, pinto pra fora.


Serra e a Lei de Murphy
Emanoel Barreto

A charge de Angeli, na Folha de hoje, dá bem uma ideia da situação de Serra: é um candidato à presidência de quem ningém, ninguém, que ser vice. Estranho, não?

O senador José Agripino foi o último a declinar da honra. Ou estou muito enganado ou está em ação a Lei de Murphy. Aquela que diz: "Se uma coisa pode dar errado ela vai dar errado."

Retraduzindo: se alguém pode ser serrado ele vai ser serrado. Mesmo que a serra seja ele. Ou dele. Tanto faz...



segunda-feira, 7 de junho de 2010


 
 
JORNAL INÚTIL
Unindo o sutil ao fútil

 
Eu vi a lua saindo
por detrás da bananeira.
 
Não é lua, não é nada,
é somente a bandalheira.
  • Estado de espírito é quando você descobre que acabou de morrer.
  • Estado de graça é quando você paga um mico e todo mundo cai na risada mais escrachada.
  • A palavra elefante não é um substantivo. Na verdade é uma grande formulação filosófica. Veja só: a palavra elefante diz que o éle (usei esse acento para facilitar sua compreensão) na verdade é um  fante. Como ninguém sabe o que seja um fante, ficou sendo o nome de um bicho.
  • Para bom pensador meia cabeça basta.
  • Para mau bebedor meia ressaca basta.
  • Quem corre, cansa. Quem vai de avião chega primeiro.
  • Língua de trapo é quando o dono da fábrica de tecidos vai à falência.
  • Não existe o co-piloto? Pois bem: da mesma forma, existe o co-rupto. É a ordem natural das coisas.
  • Ao bom filho Deus ajuda. Ao mau filho basta a carteira do pai.
  • É verdade que o Papa é o pai do Bicho Papão?
  • B-a, bá; B-e, bebo - muito bebo.


A coerência entre título e texto
Emanoel Barreto

Em jornal,  a coerência entre título e texto é, no mínimo, essencial. E a coerência interna do título, seu fator de mensagem, também precisa ser respeitado. Caso contrário, gera mais dúvida que esclarecimento. Havendo disparidade, dependendo do caso, a notícia pode perder todo o seu poder informativo. O caso que vou comentar não é dos mais graves, mas, mesmo assim, é o registro de uma incoerência.

Diz a Tribuna do Norte em sua edição de domingo: "DPVAT é hoje uma grande indústria de indenizações". Primeiro, o DPVAT tem mesmo essa finalidade: indenizar por acidentes com automóveis. Já a partir daí o título falha. Segundo, no texto, revela-se a "indústria": pessoas se colocam como intermediárias entre o segurado e a seguradora, ganhando dinheiro com isso.

A matéria tem a intenção de criticar essa prática, já que os intermediários são totalmente desnecessários. O próprio segurado pode receber sua indenização. O texto está correto em seu propósito. O equívoco do título se dá em função de que, por falha de redação, fica insinuado que o seguro estaria sendo desviado de suas funções originárias.

domingo, 6 de junho de 2010

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Meu Tii Zé Guilherme e o dinheiro na mão do bruguês
Emanoel Barreto

"O dinheiro tá na mão do bruguês." O vendedor de frutas disse isso, imagine só, eu tinha uns dez anos. As palavras chamaram a minha atenção e fiquei olhando aquele homem.  Era um cabra do sertão. Magro como um cardeiro, olhos azuis - sim, no sertão há homens de olhos azuis - e rijo como galho de macambira. A pele, que já havia sido branca, agora era trigueira como couro cru; cabelos brancos, face angulosa, queixo agudo como ponta de faca santa-maria - santa-maria, a famosa peixeira de doze polegadas. Sagrada armaria que bem fazia parte da virilidade dos cabras catingueiros.

Mas ele repetiu: "O dinheiro tá na mão do bruguês.". Em seguida, olhou para os abacaxis que tinha para vender, amontoados não chão sujo da feira do Alecrim, Natal dos anos 1960. E ninguém comprava. Daí sua afirmativa, cortante como um libelo, ferina como um talho de santa-maria.

Eu não tinha o que depois seria chamado de consciência social, mas já acendia o pequeno fogo da perplexidade com as coisas da vida. E jamais esqueci aquele discurso, aquele senador da terra piando sua elegia ao destino do povo: "O dinheiro tá na mão do bruguês."

A figura lembrou-me muito meu Tii Zé Guilherme. É, é isso mesmo: "Tii Zé Guilherme", como se o "i" fosse esticado, alargado; só um pouquinho, mas alargado. Escandido, é a palavra certa.

Sobre essa pronúncia posso dizer: hoje não, mas os de minha geração, ainda influenciados quando crianças pelo falar sertanejo, visto que a maioria dos nossos país eram das terras do sol, chamavam tio de tii. Ti com o i largo.

Mas, do que falava mesmo? Sim, do dinheiro na mão do bruguês, mas acabei tomando um atalho para me meter nas terras da Fazenda Jordão, do Tii Zé Guilherme. Então, vou fazer o seguinte: deixa pra lá o brugês e sua ansiedade argentária. Esse povo se entende bem.

Encerro com a saudade de Tii Zé Guilherme, sertanejo feito de pau-ferro, casado com Vovó Lulu.  Dono da vaca Mangaba e do cavalo Soberano, senhor de terras que encantavam meu olhar, quando ficava anuviado de aventuras no paito da fazenda ou esquipando nas quebradas espinhosas do chão de tabuleiro.

Assim, ao diabo com o bruguês e o seu dinheiro. Um abraço em Tii Zé Guilherme, Vovó Lulu e aos meus sonhos de cavalgadas. Um abraço àquele velho da feira, a quem lamento responder: "O senhor tinha razão: o dinheiro ainda tá na mão do bruguês."

Quanto a mim, graças a Deus, continuo habitante dos meus sonhos.

sábado, 5 de junho de 2010

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Apocalypse now contra o Dia da Natureza
Emanoel Barreto

E lá se vão eles. Eles sempre vão.
Se são semi-loucos, se são depravados,
em vão implora que parem por fim.
P'ra que tudo cessem enquanto há tempo.

Mas seguem sinistros insana intenção. Competência
louca, tocada de gris. Com as cinzas se entendem - jamais querem menos.
Projetam os males, malificam o ar.
Intentos molestos conduzem seus feitos.

Seus feitos, inglórios, povoam desertos
onde havia, havia mesmo o quê?
Molestos, malvados, sicários do lucro,
terríveis, cruéis, dementes perfeitos.

De qualquer maneira há sempre esperança.
De que uma flor ainda vença o canhão.
Menos mal
Emanoel Barreto

As notícias, as coisas de jornal, dizem que o navio irlandês com ajuda humanitária foi interceptado pelas forças israelitas. Dessa vez tem tiros. Dessa vez sem mortos. Menos mal.

sexta-feira, 4 de junho de 2010




Uma imagem, sutil instante que contém estranha eternidade - Emanoel Barreto

Charge: New York Times
Na vida real, nenhuma bala deixa de matar
Emanoel Barreto

Diz a Folha: O navio irlandês Rachel Corrie prossegue com seu objetivo de tentar furar o bloqueio a Gaza para entregar ajuda humanitária aos palestinos, mas deve atingir a zona de proibição de navegação de 20 milhas (32 km) somente no sábado pela manhã, informou a ONG "Free Gaza" em comunicado. O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, já informou que o navio "não chegará" a atracar.

.......

O parágrafo de abertura da matéria, que em jornal chamamos de lead, há muito aportuguesado para lide, se apresenta tecnicamente como a redação conhecida como "lide de confronto". Expõe claramente posições de antítese. No caso, antecedidas pelo deslocamento do navio em direção a forças hostis. Ou seja: o lide passa ideia de tensão, suspense ante o presumível massacre que os fuzis israelenses farão aos ocupantes da embarcação, desarmados e indefesos.

Como num filme, as vítimas presuntivas se encaminham ao clímax da tragédia, mesmo sabendo do seu possível destino sob mãos agressoras. Martírio ante os olhos da humanidade perplexa. Ou não: seria possível, creio, a comandos treinados assumir o comando do navio sem disparos, apenas no corpo-a-corpo. Não desejo a primeira opção ou a segunda. Entendo que o socorro humanitário deveria passar sem maiores incômodos, mas, das duas situações, a segunda seria a menos ruim.

Mas, na verdade, o que quero dizer é o seguinte:  o confronto entre israelitas e palestinos se perde nas areias do tempo, para usar uma expressão já gasta. São ódios, digamos assim, essenciais. Integram já o coletivo pensante das duas partes, que somente se entendem dentro de um processo de mútua exclusão - melhor diria supressão, eliminação física daquele a quem elegeu historicamente como oponente.

São ódios tão intensos, tão insanos, que nublam qualquer tentativa de aproximação civilizada. A isso junta-se o fundamentalismo religioso. E quando religiões são determinantes para o comportamento dos povos, a insânia impera suas ordens, e as ações decorrentes de tais ordens.

O judeu se define acima de tudo por uma condição religiosa que cimenta um povo. O palestino segue o mesmo dito, uma vez que o islão comanda todos os seus atos. Sejam políticos ou privados, sexuais ou civis.
Trata-se de um confronto movido pela estupidez.

Todavia, na objetividade dos acontecimentos a que refiro, do ponto de vista do Homem, é insustentável a posição de Israel. O argumento de seus líderes para a ação que há poucos dias resultou em mortes é frágil, se não cínica. Hitlerianamente imoral. Armas pesadas contra alimentos e remédios.

Agora, o espetáculo midiático está focado na aproximação do navio à zona de exclusão. O que acontecerá? Mais mortes? Sangue? Como disse, é tal qual um filme. Só que se passa na chamada vida real. E, na vida real, nenhuma bala deixa de matar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010


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O dossiê do PT, a revista Veja e a vida sexual da princesa Diana
Emanoel Barreto

Antonio Gramsci dizia que os jornais - e as revistas, claro - são a escola dos adultos. Lembrava também que, da mesma forma, cumprem papel de partidos políticos quando atuam de forma doutrinária. Ou seja: permanentemente são escola e partido, já que sua ação nesse sentido é contínua. Juntando tudo isso e mais a disposição de agregar público e firmar-se editorial e economicamente e chegamos ao que ele chamava de jornalismo integral.

Um jornal como a Folha e uma revista como a Veja, por exemplo, seriam então autores de jornalismo integral conservador, no mínimo.

Vejamos, com trocadilho mesmo, o caso da Veja: sua equipe soube de rumores sobre eventuais dossiês que estariam por ser preparados por segmentos do PT contra Serra e alardeou essa situação presuntiva como coisa dada e feita - mesmo mantendo suas matérias no condicional, o que por si já demonstra a fragilidade argumentativa do texto.

Perceba como eu coloquei todo o terceiro parágrafo como se fora uma situação volátil, gasosa, uma espécie de universo evocativo, um mundo de probabilidades ao mesmo tempo feérico e imponderável, cuja divulgação, todavia, causa rumor social. Ou seja: programa-se uma situação jornalística, cria-se um poliedro de especulações e temos uma notícia.

Em suma, temos um factoide. Temos, por isso mesmo, um boato. Um e outro são apenas palavras para definir o mesmo objeto social. Boato, diz John B. Thompson, é notícia não confirmada. Vindo a confirmação, é notícia mesmo. Faço um acréscimo às palavras de Thompson: o boato, o factoide, têm algo de urdidura, distorção de fato primário ou até mesmo fabricação de falso fato primário.

Como toda notícia tem em si algo de sensacionalismo - se não fosse assim não seria notícia -, mesmo as mais sérias e tanto quanto possível objetivas, resulta que o boato/factoide, elevados à condição de notícia, têm sempre, e de forma prevalecente, esse dado de sordidez bem típico do sensacionalismo.

E onde encontramos o sensacionalismo? Este é encontrado em sua face de desnudamento, exposição de terceiro a situação vexatória, como alguém que é indevidamente flagrado em momento íntimo. Esse momento íntimo pode ser algo lícito e comum à nossa condição humana, como o caso da princesa Diana. Na companhia do seu amante, seguia em carro que foi perseguido por parapazzi até à morte dela.

Os fotógrafos queriam expor aos olhos da curiosidade pública, voraz por assuntos de denotação sexual, a intimidade da vida erótica daquela mulher, trazida à tona como aquela que deixara de ser a princesinha de contos de fada para viver sua condição de fêmea. E fêmea lasciva, diga-se.

Outro caso de intimidade é a intimidade viciosa, aquela que tem laivos de imoralidade. Pronto. Foi aí que a Veja, veja só, investiu todo o seu cacife: a partir de verbos no condicional montou toda a matéria dos dossiês do PT contra Serra, como que dizendo: "Olhe só como eles são crueis e malvados. Como eles são aéticos e imorais. Foram flagrados em pleno ato de planejamento de campanha difamatória."

Só que, em processo metalinguistico, a campanha difamatória estava mesmo nos atos frasais da revista, que louvou-se em em fatos facciosos, factícios e de ouvi dizer para montar, aí sim, campanha de difamação. Veja só... Veja só...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

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Louca coragem
Emanoel Barreto

Acerca-te de mim
Louca coragem.
E deixa que eu siga em selvagam cavalgada.

E então depois, quando chegar
Ao fim da raia escurecida,
Saberei que houve valor naquele galopar inecessário.
Hitler, o professor de Israel
Emanoel Barreto

Sim, sim, Israel aprendeu bem com as lições de Hitler. Matar, trucidar, oprimir, proscrever. Os judeus reeditam na vida, no instante corrente, o que a História já lhes havia ensinado. O que é a Faixa de Gaza, senão uma forma de campo de concentração, quem sabe de extermínio? Éisso e é também a faixa de gaze, com que são pensadas as dolorosas feridas do povo palestino.


A guerra em si, entre Israel e os palestinos, é algo absurdo. Nem mesmo as mais elaboradas palavras surrealistas ou brotadas de Jean Genet conseguiriam fazer sua paródia. Ódio. A rigor, insanos os dois lados. Mas um, Israel, chega à beira do genocídio. Ecos de Hitler, ecos do soturno professor.

segunda-feira, 31 de maio de 2010


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JORNAL INÚTIL - (\.0./)
Unindo o sutil ao fútil


  • A vantagem de ser um homem sem alma é que, quando morrer, não vai para o inferno.


  • Fez um curso de zumbi por correspondência porque era pobre. Matou de susto um magnata e ficou rico. Depois, pós-graduação com o próprio Drácula na Transilvânia. Afinal se elegeu senador e tornou-se um monstro completo.


  • É bobo e se engana quem pensa que engana quem se faz de bobo.


  • O vinho brigou com o leite. Disse o leite: "Eu sou nutritivo." Rebateu o vinho: "Grande coisa: minha mãe é uma uva. A sua é uma vaca."


  • Na Roma antiga eles já sabiam que o mundo seria dominado pelos computadores. Tanto que diziam, já naquele tempo: "Deleta Cartago. Deleta Cartago."


  • Até que ele não era tão ruim assim: distribuía generosamente sua crueldade.


  • Se quando jovem você era incendiário e hoje se tornou um cara chato e rabugento, olhe para trás e respeite as suas cinzas.


  • A morte é um acontecimento privado. O doente não precisa ser assistido.


  • Quando Adão saiu do Paraíso um magote de desocupados caçoou do rapaz, dizendo assim: "Ave, Adão. Ave, Adão..."


  • De tanto acreditar, a fé ficou cega e hoje fica amolando quem diz que não acredita em Deus.


  • Uma vez um cardeal aproximou-se de um grande líder comunista e perguntou: "Aqui pra nós: Marx existe?"


  • Em terra de cego quem tem olho vê as cegas trocando de roupa.


  • Apressado come cru. Mas come primeiro o seu sushi.


  • Quem corre alcança. Quem anda nem precisa entrar na corrida.


  • Se você é jovem e faz algo errado na rua; se um estranho lhe dá um conselho para se regenerar e o chama de "meu filho", não tem outra: está querendo que você morra para ele ter parte na herança.


  • Se o cavalo é dado não lhe olhe os dentes. É claro: dado não tem dente.






domingo, 30 de maio de 2010

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JORNAL INÚTIL 
Não buscamos o tempo perdido. Fazemos você perder seu tempo

  • Ao levantar escove os dentes. Mas não use ácido muriático. Dizem que faz mal.

  • Após o banho enxugue-se. Mas prefira toalhas em vez de folhas de urtiga. Eva fez isso e se deu mal depois de lavar a boca vermelha de maçã.

  • Ao atravessar a rua olhe para os três lados. De cima pode cair um piano.

  • Máximo cuidado ao votar - votar é muito perigoso. Pensando bem, o melhor seria não votar. Você evita efeitos colaterais.

  • Não ajude os inimigos. Eles podem se acostumar, passam a ser seus amigos, e logo logo vão querer viver às suas custas - o que é bem pior, convenhamos, que a velha e boa inimizade.

  • Desconfie se alguém diz não ter segundas intenções. Ele pode ter terceiras.

  • Se é mentira que é mentira pode também não ser verdade.

  • Lampião era corajoso porque nunca foi ao dentista, dizem.

  •  O sujo fala do mal lavado porque é vendedor de sabonete.

  • Disse o corrupto à CPI: "Lavo minhas mãos do sangue de todos os justos."

  • Alta indagação: "Diz-me com quem falas e te direi se és mudo."

  • No dentista todos ficamos boquiabertos.

  • Hoje tem Igreja que não serve a Deus, mas ao Cão de cada dia.

  • Na Argentina quando alguém queria falar mal de Perón logo outro dizia: "Evita."

  • Se você é desonesto pague o que deve e sua vida perdará qualquer sentido. Está cientificamente comprovado.

  • Estava louco para se internar num asilo. Foi, internou-se, tomou Lexotan e a brincadeira ficou sem graça.

 Alta filosofia

Acredito que não creio que possa não acreditar que não seja possível não ajudar alguém que precise e, ainda assim, não me sentir culpado por não ter sido alguém que não se comoveu com outro alguém que não tinha o que eu tinha, porque ele não tinha o que eu tinha porque eu, para ficar rico, tinha que ter o que ele não tinha e eu tinha feito todos os esforços para tirar tudo de quem pouco tinha , porque, para eu ter muito eu nada tinha que fazer, a não ser tomar tudo  que ele tinha.