sábado, 28 de junho de 2008

O-bama! Pá-pá-pá! O-bama! Pá-pá-pá!

Caras Amigas,
Caros Amigos,
De repente, eu me vi torcento por Obama. Aí, alguém pode me perguntar: mas, porquê? Ele não é brasileiro, sua eleição não terá qualquer importância para o Brasil, etc... etc...

Seguinte: primeiro, a eleição de um novo presidente dos Estados Unidos terá, sim, reflexos para a nossa sociedade. Qualquer presidente americano tem importância relativa, maior ou menor, para qualquer país do mundo.

Segundo: torço por ele pelo fato de ser negro. Sua eleição significará uma quebra do paradigma americano - uma sociedade racista, onde até os anos 1960 negros não podiam votar, tinham de ceder lugar a brancos em ônibus e não usavam instalações sanitárias publicas destinadas a brancos; escolas, idem. Isso, para não me aprofundar demais no assunto.

Essa quebra de paradigma tem um alto valor simbólico e literalmente fere e realça uma contradição profunda para aquele povo: Obama vem de família africana e seus ascendentes eram... islâmicos. Fica assim um dilema: votar num homem de origem afro e ainda mais provindo de praticanes de uma religião que, para os americanos, é sinônimo perfeito de barbárie e forjadora de terroristas. Sim, e ainda há um detalhe: Obama é um nome muito parecido com o inimigo público número um dos amricanos: Osama.

Tenho consciência perfeita de que ele não será "bonzinho" com o Brasil, assim como não o será com relação a nenhuma nação; a não ser que, conjunturalmente, isso venha a atender aos interesses do seu país.

Meu interesse em sua eleição, em suma, é em função do dado humano, a lancinante questão para a extrema direita americana: ser governada por um negro. Interessa-me a perplexidade, o olhar de pânico dessas pessoas, ao ver um neguinho presidindo a América. É uma questão que coloca a esse segmento social um impasse, um drama, um conflito. Eles terão que curvar-se à evidência de que um negro é igual ou humanamente melhor que todos os que o discriminam.

Creio que, quebrado o paradigma da etnia (não gosto da palavra raça aplicada a seres humanos), vai se abrir, lá, uma nova janela, inaugurar-se um novo olhar, talvez um pouco melhor do que os americanos têm dos seus próprios compatriotas negros. Algo, mesmo que pequenamente, mudará.

É claro que Obama, para ser eleito, o será em função de que não introduzirá qualquer estatuto que venha a se contrapor ao establishment, à ordem. Ele é um negro perfeitamente assimilado, ou que assimilou, os valores brancos e pode como estes proceder. É um negro confiável aos interesses do poder americano; que não está somente na presidência, mas encravado também nas poderosas empresas do capital monopolista e imperialista dos Estados Unidos.

Ao que escrevi até agora, vocês podem perceber que há toda uma série de contradições: ele é e não é negro; ele é e não é uma reposição da ordem estabelecida. Creio que, somente por isso, pelo repertório de incoerências, vale a pena aguardar sua vitória. Depois, caso eleito, é esperar que a história seja escrita.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Um sinistro concurso

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Há vinte anos um grupo de tontos reúne-se nos Estados Unidos para promover um concurso que escolhe o cão mais feio do mundo. Esse ano o ganhador foi esse aí; só tem três pernas, sofre de câncer na pele e perdeu um olho em briga com um gato. A dona recebeu cerca de dois mil reais e disse que vai usar no tratamento da doença do animal.

Seguinte: como os humanos somos estranhos. Tanto nos envolvemos com o belo, o magnífico, o tranqüilo, a paisem de paraíso, quanto com o que há de pior no horror, no deplorável, no insondável, tenebroso e maléfico que existe no homem e no mundo.

É esse aspecto sombrio da nossa essência que me intriga: o deliciar-se com o sofrimento, a derrota, a humilhação, a queda pública e publicada. Como nossas mentes podem sentir prazer com espetáculos, abertos ou privados, de contatos doentios e relacionamentos escabrosos.

É próprio da condição humana esse pendular movimento entre o amor e o ódio, a serenidade e a ira; mas é acabrunhante a situação social enfermiça, essa forma de buscar prazer e satisfação na curiosidade mórbida; a deprimente descida os círculos mais abissais do inferno que habita o ser humano.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Agora, é tarde...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Nesses meus mais de 30 anos de jornalismo, uma coisa sempre me impressionou na imprensa: muitas vezes, quando alguém morre, alguém que os noticiários entendem como sendo pesssoa importante, a cobertura do falecimento é muito maior do que se dera a tal pessoa quando em vida. A morte da antropóloga Ruth Cardoso é um caso típico.

Primeiro, porque ela não era tratada pela imprensa como antropóloga, alguém com alto nível intelectual e acadêmico, mas como "primeira dama" e agora "ex-primeira dama". Segundo, porque, mesmo quando ainda não fora primeira dama, desconheço qualquer ênfase em sua presença na vida pública nacional. Nenhuma matéria em que falasse a respeito de assunto ou tema relevante ou fosse chamada a comentar fatos de destaque.

Agora, quando morre, as coberturas chegam a ser lamuriosas e mostram o ex-presidente Fernando Henrique lacrimoso, olhar abatido, semblante de dor. Sei que o jornalismo se baliza por enfoques que dizem respeito a atores sociais relevantes, autoridades pelo cargo que ocupam ou por domínio científico, artístico ou empresarial, para ficarmos somente por aqui.

O problema do jornalismo, em referendar acontecimentos de peso gera essa distorção: como ela era, além de intelectual reconhedica internacionalmente e casada com político de renome ganha essa cobertura. Mas, em vida, insisto, pouco espaço ocupou. A noticiabilidade (potencial que alguém tem de ser notícia) a seu respeito em tipo low profile, ou seja: baixo perfil. Não se inseria à tensão jornalística e assim ela era um ator secundário na vida nacional, perante o jornalismo. Mais claramente, ela não gerava assuntos, acontecimentos que atraíssem para si câmeras e texto. Como não havia expectativa, inexistia noticiário.

Agora, morta, ganha destaque: é o velho enfoque do dado humano; o marido choroso, que ao fim de um longo casamento, encara o desenlace do seu tempo de casado por efeito da morte da companheira. E isso dá notícia. Para o chamado grande público, ela era, antes disso, literalmente desconhecida. Agora, morta, torna-se famosa pelos quinze minutos da dor espetacularizada.
Emanoel Barreto

Não podemos atravessar os Alpes

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Não, não podemos atravessar os Alpes, como o fez o grande Aníbal. Não temos elefantes, exércitos, provisões ou máquinas de guerra para atacar Roma.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes.


Como também não temos generais, estrategos, infantaria ou coortes para tais embates.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes,


Não vivemos aquele sonho de enfrentar o Poder, vergar seus limites e encontrar, ao fim e ao cabo do tempo azado, os louros e o vinho da vitória.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes.


Somos apenas caminhantes noturnos, pasmos com a força da Força, e seguimos.

E, ao final das contas,
não
podemos
atravessar
os
Alpes.

Emanoel Barreto

terça-feira, 24 de junho de 2008

A lua elétrica

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Estamos no ano de 2700. O mundo devastado, transformado em sórdido planeta, tem um mar feito de lodo escuro e malcheiroso, árvores serão mostradas em museus, a barbárie impera e uns poucos, pouquíssimos, terão vida digna de assim ser chamada. E um detalhe a mais: a poluição chegou a tal ponto que grudou na lua. A lua não mais é branca: está coberta de fuligem. Como solução, foi eletrificada e somente assim pode ser vista no céu. Uma gloriosa cor artificial foi-lhe jogada por enormes refletores, lá mesmo instalados, e dão a ilusão de beleza.

Todavia, um grupo de subversivos luta contra o poder central do mundo, na busca de convocar a população da Terra a se libertar, para a tentativa de um desesperado recomeço. Eles são poucos, são caçados noite e dia. Espalham panfletos, invadem emissoras de TV e rádio, imprimem jornais insurretos e resistem o quanto podem.

Então, num ato extremo, formularam um plano para mostrar aos senhores do mundo que eles podem, sim, ser enfrentados. Trabalharam meses nos detalhes, muniram-se de todo o aparato necessário e levaram adiante a sua investida. Certa noite, pavor, os olhos dos dominadores quedaram estarrecidos quando miraram o céu e nadaviram: os subversivos haviam apagado a lua elétrica. Talvez começasse ali o início de um tempo novo.

E quanto a hoje, tenho certeza: em nossos dias, será preciso também apagar a lua elétrica.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Um poema de Lord Byron

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Deixo vocês com um poema de Lord Byron.
O texto é muito complexo, mesmo que escrito em português. O autor usa muitas palavras de forma poética, o que dificulta a tradução literal. Mas aí vai uma tradução.
Emanoel Barreto

Ela anda na beleza, igual à noite
De tempos sem nuvens e céus estrelados
E tudo isto é o melhor da escuridão e da claridade
Encontre-a seus aspecto e olhos
Assim admirado por aquela luz quente
No qual o céu???? Recusa
Uma sombra a mais, um raio a menos
Tido meio deficiente o sem nome graciosidade
Que ondas em todos corvo madeixa
Ou suavemente clareia o seu rosto
Onde idéias serenamente doce expressa
Quão puro , quão caro o seu habitando

E nessa bochecha , e acima de essa sobrancelha
Tão macio , tão calmo , ainda eloqüente
Os sorrisos que ganhamos , as matizes desse brilho
Mas falar de dias de bondade usufruídos
Uma mente em paz com todos abaixo
Um coração cujo amar é inocente!

sábado, 21 de junho de 2008

Todo enriquecimento de Urânio é ilícito*

Caras Amigas,
Caros amigos,
Israel acusa o Irã de estar enriquecendo Urânio. Está nas coisas de jornal hoje e de quase todos os dias. Acho que Israel está certo. Urânio é um tipo do sujeito que deve permanecer pobre; se possível, abaixo da liha de pobreza. Senão, quando fica rico, dedica-se a contribuir com a indústria bélico-nuclear. E fica valente; valente que só ele. Não vêem os Estados Unidos? Estão valentes assim porque firmaram um pacto com Urânio, o homem ficou rico e agora os americanos ameaçam o mundo todo.

É um perigo. No Brasil, uma vez me encontrei com Urânio. Aqui, parece, ele é pobre. Sinceramente, não tenho certeza. Mas esse Urânio que encontrei era pobre e veio me pedir um dinheiro para "tomar conta do meu carro". Eu expliquei que estava sem trocado. Mentira: eu sabia que ele era Urânio e, de qualquer moedinha que ele tivesse, iria fazer algum tipo de investimento, enriquecer e aí, ou seja, aqui, as coisas poderiam ficar piores do que já estão.

Resulado: quando voltei, meu carro estava todo arranhado e ele ainda escreveu, a ponta de canivete: "Minha vingança será maligna."

Vendo aqui, pensei: será que estão enriquecendo Urânio aqui? Será por isso que todo dia a Polícia Federal prende magotes e mais magotes de corruptos? Será que os corruptos estão enriquecendo Urânio, num plano sinistro para dominar tudo? Agora, sinceramente, fiquei com medo. Vou tentar importar uma máquina de surras para aplicar nesses corruptos.
Emanoel Barreto

*Agora, falando sério: já pensaram, num país como o nosso, se houver algum problema - grave - com aquelas usinas de Angra, no Rio? Não pensem. Não pensem.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A máquina de surras

Caras Amigas,
Caros amigos,
O período pré-eleitoral lembrou-me viagem que fiz há anos a um país onde a corrupção foi banida, literalmente, do seu mapa. Lá se fala um idioma absolutamente incompreensível à maioria dos mortais, mas que eu, não me perguntem como, aprendi a falar. Assim, convidado por um amigo desse país, passei lá uns quinze dias.

Logo que cheguei li no jornal a seguinte manchete: "oo8989nfjuu2nn!".

A tradução é o seguinte: "Estamos há 50 anos, 32 dias, 7 minutos e 14 segundos sem corrupção!

Encantado e ao mesmo tempo perplexo, perguntei ao meu amigo: "kkmjinin.leirunim?"

Ele me respondeu: "njkçç51313,,mjuueu..aksoiuienonn[==9931zx....8585fhfhwt43==-,k88jmamsmkmemdjujmadikdkdmmmm."

E eu: .ç´ç.çlikmiuekmiu9aolemroelsmi,mlkoiomlia?"

Resposta: "utjm kkkk juuyqtbdnkdçdpdã[a.ça]]]açaa,l".".."

Tradução de tudo: o amigo explicou-me que, quando a corrupção chegou a níveis insuportáveis, um grupo de parlamentares honestos conseguiu aprovar uma lei instituindo a máquina de surras. Um complexo e ciclópico instrumento onde eram metidas as pessoas que votavam em corruptos - a foto vocês viram, na abertrura desta matéria. Incrível, não?

E isso, a partir de um raciocínio simples: os corruptos são eleitos pelo povo. Sempre os mesmos, sempre para os mesmos cargos; às vezes até para cargos mais elevados. Resultado: de quem é a culpa da corrupção? Do povo, claro. Todos são sabedores dos atos de corrupção, no entanto, ajudam a manter os corruptos no poder.

Então, com a máquina de surras, sempre que se noticiava um caso de corrupção, um sofisticado sistema de informática indicava os eleitores do corrupto e todos eram levados à máquina de surras. Lá dentro, com todos bem trancados, braços robotizados baixavam a lenha nos eleitores, de forma que todos eram punidos, e bem punidos, por colaborar para com a corrupção. Quanto aos corruptos, eram deportados para regiões polares e lá ficavam para o resto dos seus dias.

Ao longo do tempo, e com o funcionamento ininterrupto da máquina de surras, acabou-se a corrupção. Parlamento e governo funcionam que é uma beleza. Entretanto, um dia antes de eu voltar, fui informado: "io,murunnbgre4232=-08k,dkkkk"."

Perplexo, quis saber o porquê daquilo. "Aquilo", aquelas garatujas que vocês viram acima, dizia o seguinte: um sujeito iria logo mais ser levado à máquina de surras. Motivo? Fora descoberto que ele havia forjado documentos que permitiriam a imigração de grandes contingentes de corruptos, dotados de gênio assombroso em práticas de malversação de recursos públicos, chantagens, suborno, peculato e formação de quadrilhas de colarinho-branco. O objetivo era beneficiar uma multinacional, notória poluidora do meio ambiente.

Fui assistir ao ato. O sujeito chegou e foi jogado lá dentro. Depois de mais de meia hora perdido nos corredores da máquina de surras, saiu só o bagaço. E quando ele, cambaleando, perguntou: "Aonde fica o Brasil? Preciso ir para lá", parei, perplexo. Dei um jeito de escapulir de mansinho, peguei o primeiro avião e fugi. Não queria me meter em confusão.

Aqui chegando, surprise! O tipo havia chegado antes de mim e já estava fazendo comício. Era candidato a senador. E com grandes chances de ser eleito.

Em silencioso pânico pedi: "Deus, mandai-nos uma máquina de surras..."

Emanoel Barreto

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Não há liberdade

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A imagem da Liberdade guiando o povo, tela de Delacroix.
O mundo, velho mundo, sempre esperou e espera por esse momento.

O mundo, diga-se, é o turbilhão de gente que se curva ao peso da opressão em suas mais diversas e perversas formas.

Não há liberdade quando jovens são levados por militares para ser assassinados num morro carioca.

Não há liberdade quando alguém precisa e não tem recursos para o remédio, o atendimento, a escola, a vida, a sobrevivência.

Não há liberdade quando o tempo passa, o trabalhador verga ao peso da idade e das desilusões e tem somente de seu a pobre condição humana.

Não há liberdade quando grupos monopolistas dominam a economia e espalham a democracia da fome.

Não liberdade quando as lágrimas habitam os olhos e impedem o olhar de descobrir horizontes, pois também não há horizontes.

Não há liberdade, não há liberdade, não há liberdade. Isso os jornais dizem todos os dias. Mas ninguém entende, nem mesmo os jornais; que estão emaranhados à ordem estabelecida e que diz: "Não há liberdade."
Emanoel Barreto

terça-feira, 17 de junho de 2008

Passarão e passarinhos

Caras Amigas,
Caros amigos,
Hoje, um bilhetíssimo na poesia de Mário Quintana, com Poeminha do Contra. Vejo vocês amanhã.
Emanoel Barreto

POEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Foto:
http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=20204364

domingo, 15 de junho de 2008

Se lembra de Pobre, o zumbi? Hoje, é funcionário-fantasma...

Caras Amigas,
Caros amigos,
Há uns dias publiquei a história de Pobre, que morreu, e sem atestado de óbito não foi aceito Do Outro Lado. Assim, voltou, e na qualidade de zumbi, foi preso. Segundo acordo internacional de que o Brasil é signatário, zumbis somente são aceitos no Haiti, que detém a propriedade intelectual no assunto.

Preso, Pobre ficou sozinho na cela. Os companheiros tinham medo dele e preferiram ficar amontoados em outro cubículo. Da cela onde estava, Pobre podia acompahar o som dos noticiários de TV e em poucos meses formulou uma espécie de vocabulário de crimes como: corrupção ativa e passiva, peculato, concussão, prevaricação, suborno e outros típicos dos chamados crimes de colarinho-branco.

Prestando muita atenção, percebeu que as penas anunciadas para tais criminosos eram altas, fora devolução de dinheiro, multa... Conversou com um advogado de porta de cadeia, que atendia a um preso que ficava na cela ao lado, e soube: esse negócio de ser zumbi era apenas um acordo entre Brasil e Haiti. Não havia penalidade específica. Unicamente, o Brasil se comprometia a não produzir zumbis, do mesmo modo que os haitianos não fabricariam bebida alcoólica com o nome de cachaça. Só isso.

Então, quando foi um dia, Pobre aproveitou-se da manifestação de uma dessas ONGs de direitos humanos e falou a um dos seus integrantes a respeito do seu problema. Ele era um sem-vida, o único no Brasil e estava preso por isso. Enquanto isso, os peculatários e quejandos estava aí, soltos e zombando de todos. Pronto: foi o suficiente para que os ongueiros se mobilizassem. Partiram para a passeata: um sem-vida era um achado. Valia uma passeata.

Outros grupos juntaram-se a eles e logo Pobre estava solto. Houve um gigantesco comício em comemoração. E foi lançada uma campanha: a promoção de suicídio coletivo entre os pobres dos mais pobres; nenhum teria atestado de óbito, todos voltariam à Terra e formariam o grande movimento dos sem-vida.

O Governo enlouqueceu: não ia dar para dar um Bolsa Vida aos mortos, já que os vivos iriam reclamar. Iriam dizer que o dinheiro do Bolsa Vida bem poderia ser usado com os... vivos, é claro. Bolsa Vida é para os vivos, não para os mortos, diziam os vivos.

Estabelecido o contencioso jurídico, reuniram-se os luminares do Direito e formou-se uma comissão de alto nível, cujo resultado foi o seguinte: convidar Pobre para uma reunião sigilosa. Ele foi; chegando lá, foi-lhe proposto um alto cargo, o cargo de Funcionário-Fantasma. Ele esquecia esse negócio de Bolsa Vida e viveria, ou melhor, morreria eternamente, ganhando um bom dinheiro.

Pobre aceitou na hora e até hoje seus descendentes - ele casou-se com uma múmia elegantíssima da Terceira Dinastia - estão aí, infestando as repartições desta patria amada, salve salve; brasileira, brasileira; do Brasil nacional.
Emanoel Barreto

sábado, 14 de junho de 2008

Porque ficou em você

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Abaixo, uma definição de saudade.

Saudade é a gota do teu perfume,
O primeiro raio de sol,
A noite feita de brisa
e um calmo escurecer.


É o cheiro do teu cabelo,
Teus passos de maciez,
O silêncio de nossas coisas,
o nosso mundo, marfim.


Saudade é a alegria,
que antecipa a volta
de alguém que nunca partiu,
porque ficou em você.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A Melancia e a opereta bufa

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A dançarina Andressa Soares, que tornou-se mais conhecida como Mulher Melancia, está batendo recorde de vendas da "Playboy". A indústria cultural sempre se utilizou do corpo feminino para alavancar vendas; desde cerveja a automóveis, de roupas a produtos de beleza. As chamadas revistas masculinas, que tratam a mulher como produto, matéria-prima de seu conteúdo, quando é preciso apelam para a vulgaridade e a nudez chula.

O exemplo mais forte é o de Melancia, uma jovem de beleza, digamos, burlesca; algo grosseira e muito bufa. Vulgar e gravemente espalhafatosa, Melancia já anunciou que compôs uma certamente bela canção, intitulada "Baba, cachorrão". Em seus shows, o hit será grande sucesso, convenhamos.

Vivemos, nos meios de comunicação voltados para consumo de massa, especialmente aqueles que se voltam para entretenimento, uma fase de muita grosseria, baixeza; uma realidade de mídia caricata e que atende a um público tipo senso comum. As TVs de todo o mundo exploram esse tipo de atração e têm em troca grande audiência, que é vendida aos anunciantes. Faustão que o diga.

O ser humano, como na Playboy, como em todo o sistema da indústria cultural, é usado como elemento de venda, mirando o mercado que absorve esse tipo de material. Ao que parece, é uma tendência em toda a TV aberta, com repercussões na mídia impressa e, também na net. Essa repercussão se dá mediante comentários críticos ou em aplausos e incentivo a tais produções.

Fala-se que tudo é um esquema, um sistema: as TVs abertas aderem abertamente ao mau gosto, obrigando o público de maior poder aquisitivo a comprar programação a cabo. Isso em nível mundial. Faz sentido, faz sentido.

No mais, ao Brasil, minhas comiserações. A divulgação de Melancia servirá para consolidar ainda mais nossa imagem de país de orgias, uma terra de bacantes, de mulheres fáceis e semi-nuas - ou nuas mesmo - a dançar e a cantar por aí. Talvez sejamos mesmo uma opereta bufa.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Todo mundo de quatro pé... Já!

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A colunista Mônica Bérgamo, da Folha, dá a seguinte informação: "Claudia Matarazzo, responsável pelo cerimonial do Palácio dos Bandeirantes, reforçou as aulas de alongamento para preparar os assessores do governador José Serra para a visita do príncipe Naruhito, do Japão, no dia 21. É que o protocolo japonês exige que se curve até mais de 90 graus - "quase encostando a testa no joelho" - para cumprimentar o herdeiro do trono. Sem nunca olhá-lo nos olhos ou estender-lhe as mãos. A regra só não vale para o governador."

Sabem o que acho? Acho muito errado. Fazer uma reverência ao Príncipe, de apenas 90 graus? Que absurdo! Acho que é até uma ofensa, um insulto, mais que isso: um ultraje!
Temos que estar cientes de que somos um povo inferior, mestiço, muitas etnias juntas ao longo da história para no fim dar esse povinho brasileiro, ralé e chulapa... Não... para o Príncipe, deveríamos, todos, nos estirar no chão ou, como se dizia antigamente no sertão, ficar todo mundo de quatro pé, para o Príncipe passar sobre nossos espinhaços.
Deixo aqui o meu protesto e digo: se já nos curvamos tanto, bem podemos descer mais...
Emanoel Barreto

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Demos graças a Deus...

Caras Amigas,
Caros amigos,
Graças a Deus o Governo conseguiu que os deputados aprovassem a recriação da CPMF, agora sob o codinome de Contribuição Social para a Saúde. Graças a Deus.

Vocês se lembram de que, quando havia a CPMF, tudo funcionava bem, os médicos iam aos postos de saúde e hospitais públicos, havia medicamentos para todos, respeito e atendimento a qualquer hora? E de que, quando a CPMF acabou, tudo ficou ruim, com filas como essa da foto se alastrando quarteirão afora? Não quero nem pensar.

Graças a Deus, tudo vai voltar. Tudo vai ficar bem, tudo ficará como sempre devera. A contribuição que todos pagaremos vai garantir que os pobres, os desvalidos, terão atendimento digno de um ser humano.

As coisas de jornal andam dizendo que o Governo, para garantir a aprovação, irrigou com verbas os alqueires parlamentares. Não acredito. O Governo, fazer isso? Jamais. A retidão ética não o permitiria. Assim, confiemos que agora a Saúde terá atendimento de qualidade e o povo, sofrido que só ele, ficará muito mais feliz.
Emanoel Barreto

terça-feira, 10 de junho de 2008

"Heil, Hitler!"

Caras Amigas,
Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que nos últimos dez anos os gastos militares cresceram 45 por cento no mundo. Não tenho idéia do quanto cresceu a fome; acredito que mais, muito mais que este percentual.

Então, vem-me a pergunta: por que gastar tanto dinheiro com o aperfeiçoamento de material letal; por que as fábricas de armamentos se esmeram tanto em produzir máquinas que matam com precisão magnificada? Por que não mandar ajuda a refugiados, comida a favelados, civilização e uma cultura de paz ao mundo?

Os humanos somos os únicos animais na Terra que trucidam, matam por esporte, assassinam para manter o poder, torturam, esganam, oprimem, especializam-se em competições de violência.

A insanidade instala e instila o medo, provoca o pavor nas crianças, usa tecnologia mortal. Então, vem-me a certeza: Hitler vive. Aliás, sempre viveu. Hitler não era um homem: representava um modo de pensar e de viver. Hitler continua, in memoriam, matando vidas e solapando a paz. Hitler está em cada bala, bomba, mina ou arma que atira e destrói. E cada vez que um comandante determina: "Fogo!", está na verdade gritando: "Heil, Hitler!"
Emanoel Barreto

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Chuck Berry quer comer

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O velho (81 anos) e sempre bom Chucvk Berry, está em São Paulo para um show. As coisas de jornal estão registrando, o que é muito bom. O artista é parte da história da música do século 20 e tem um estilo inconfundível. Traz a seu lado um filho, o Jr., guitarrista, e a filha Ingrid Berry Clay, na gaita.

Tudo isso a Ilustrada, da Folha, anotou, mas, precisava dizer que o astro quer comer costeletas de porco após o show, e que duas pizzas devem chegar ao camarim 40 minutos antes de o espetáculo terminar?

São essas coisas que nao entendo, nas coisas de jornal. Essa necessidade que os jornalistas temos de trazer às páginas essas tolices, esses faits divers, que em nada contribuem para a compreensão da matéria ou realce de sua importância.

Jornalismo deveria se voltar mesmo era para os casos importantes, respeitando-se os respectivos nichos das informações. Mas dizer que alguém, só por ser célebre quer comer costeletas já é um certo exagero, não? Ou, admitamos, tietagem do repórter.
Emanoel Barreto

domingo, 8 de junho de 2008

A chuva e a carpideira

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Chove lá fora.
Natal estranha o sol que não chegou.
E a chuva cai como pesado pranto,
não sabe bem porquê.

Talvez pela própria vida.
Talvez pelo não-viver.

Quem sabe pela existência
que se finda em todos nós

E a chuva é o choro antes
da carpideira, agourenta,
dizendo que vai chegar.
Chove.
Emanoel Barreto

sábado, 7 de junho de 2008

A Globo e sua globalização



Caras Amigas,
Caros Amigos,
Uma informação que recebi diz que "há alguns dias uma nota publicada no boletim Relatório Reservado, especializado em economia e finanças, dizia que a família Frias estaria preocupada com a proposta de compra das Organizações Globo a um jornal de São Paulo. A proposta das Organizações Globo teria sido feita a partir da InfoGlobo, que já mantém negócios conjuntos com o grupo O Estado de S. Paulo. Seria uma das aquisições mais significativas e simbólicas do processo de concentração midiática no Brasil."

A confirmar-se, o fato será de notável gravidade. As Organizações Globo já representam um poderio de comunicação, portanto ideológico, de grande potência; agregando-se ao império um jornal como o Estadão, que reformulado gráfica, editorial e do ponto de vista de Marketing, resultaria em algo parecido - só que milhões de vezes mais forte - com os Diários Associados do visionário Assis Chateaubriand, lembram?
Vemos em todo o mundo um processo de concentração do poder de comunicação. Grupos milionários investem pesado nesse segmento, que influencia direta e diariamente milhões de pessoas; são difundidos modos de vida, concepções de mundo, processos de dominação pela disseminação de comportamento coletivo, interesses de magnatas de todos os setores e por aí, vai, até o infinito.
Comunicação é poder, já se diz há muito tempo. E se a Globo realmente efetivar a transação, dará um passo, mais um, gigantesco, para o domínio da comunicação de massa no Brasil. É a globalização, em seu sentido mais brasileiro.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O pobre Pensador

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A figurinha baixa, plana, esvaecida, não é só a visão de um menino d'África. É a prova mais viva, triste, e de má sina, dos que estão no mundo e cumprem fado acabrunhado.
Ele ele não tem o talhe, o porte, o enigma silente; a dúvida elegante da estátua de Rodin; mas conta toda a história das gentes encardidas, sujadas que foram pelas mãos do invasor.
O pobre Pensador traz a fome tatuada na boca e espera, só espera. Sabe que as feras caminham soltas e não há como escapar à patada rija, o grito quieto, preso em tanto medo.
O pobre Pensador talvez nem pense. Sua alma está cansada demais, até de respirar. E fica ali parado, curvo e sem esteios, pois nem ao menos sabe o que é saber.
Seu presente diluiu-se, seu futuro foi descaminhado, seu passado nunca houve. Talvez ele seja só uma alucinação. Mas é tão forte no olhar perdido que, não, ele é uma verdade. Uma verdade exausta e fome, que já nem percebe o que é padecer.
Pensemos.
Emanoel Barreto

Cavaleiro do Apocalipse

Caros Amigos,
Horas tardias.
O tempo fugiu; escondeu-se, lá longe, no passado.
O ser humano já não pensa no futuro.
Que futuro?

O silêncio ocupa
até as menores frinchas da memória.

Trevas dominam os dias
que jamais serão amanhã.

O tempo parou.
A eternidade começou há um minuto.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O dia em que a Terra parou...






Caros Amigos,
As coisas de jornal de todo o mundo prestam reverência à nominação de Barack Obama como candidato dos Democratas à presidência dos Estados Unidos, país cujo nome é sinônimo de poder.
Uma das definições mais simples e mais objetivas de poder é aquela que diz: poder é a capacidade que alguém, um grupo, uma instituição, têm de impor-se aos demais.
Os Estados Unidos são de tal forma poderosos que a maré montante Obama, que já se prenuncia como uma perspectiva de poder, consegue que jornais em todo o mundo acompanhem com grande ênfase o decorrer de suas campanhas eleitorais à presidência. É que todos, sabem de alguma forma, que os destinos do mundo estarão sendo decididos pelos próximos quatro ou oito anos seguintes. Senão mais, em função de como o mandatário americano dirija sua política externa e sua economia.
O poder tem algo mais a dizer-se a seu respeito: impõe-se pela simples possibilidade de vir a ser exercido mediante a força. Pessoas e povos curvam-se ante o poder à simples possibilidade de que venha a movimentar sua máquina punitiva. O poder existe potencialmente. É isso que faz dele uma entidade invisível, intangível, incorpórea, mas potente.
O poder também resulta da crença que nele se tem, e na submissão que daí resulta. Obama está surfando numa onda de prestígio - ou de perplexidade para muitos - lá e no restante do mundo, pelo fato de que é negro, tem origens muçulmanas e até seu nome é parecido com o do inimigo número um dos Estados Unidos, Osama.
Levou de roldão todas as expectativas em contrário e, ao que parece, tudo se une para que ele seja o sucessor de Bush. A sociedade americana branca, anglo-saxã, que escolheu um negro para disputar o poder, é a mesma, diga-se, que eliminou Martin Luther King. Historicamente, isso foi ontem.
Agora, o paradoxo: o negro se encaminha firmemente para a Casa... Branca. O mundo dá muitas voltas. E os senhores aplaudem aqueles a quem haviam subjgado.
Emanoel Barreto

terça-feira, 3 de junho de 2008

Coisas das cores

Caros Amigos,
Pensar nas cores e perceber sol.
Pensar nas cores e sentir a luz.
Saber as cores e entrar penumbras.
As cores cantam: festa, plenilúnio, melancolia.
As cores dizem: às vezes paz; muitas vezes explosão.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 2 de junho de 2008

TV: a liberdade de ver

Caros Amigos,
A imperatividade dos controladores de meios de comunicação eletrônica, leia-se TV aberta ou por assinatura, é para eles como um tesouro. Isso porque, na ponta do processo, estão os telespectadores, a audiência, que é vendida aos anunciantes. Os donos das TVs pagas estão se mobilizando contra a projeto de lei que as obriga a veicular programação nacional e produção independente.

A intenção da lei, seu espírito diriam os juristas, é enovelar ao material que vem dos EUA alguma coisa que esteja mais próxima de nós, tropicais. É a tentativa de permitir o acesso a paisagens e tipos humanos, situações e coisas que de alguma forma reflitam nossa realidade.

Já notou que muitos comerciais brasileiros estão adaptados a cenários para parecer que tudo foi feito nos Estados Unidos? Não? Pois preste atenção e verá. É surrealista: tudo para vender um produto a brasileiros, mas a paisagem urbana é... americana.

Posicionando-se contra o projeto, a Associação Brasileira das TVs por Assinatura (ABTA) colocou no ar uma campanha de descredibilização.

A campanha, ardilosamente, diz que estão querendo decidir o que nós vamos ver. Como se isso já não fosse uma realidade. Quantas vezes você já escolheu, escolheu mesmo, o que quer ver numa TV paga? Ou mesmo na TV aberta? Você "escolhe" a partir do cardápio, vamos dizer assim, que a emissora automaticamente lhe apresenta. A escolha é somente a mudança de canal. Nada mais.

A imposição de mídia é um processo poderosíssimo, complexo e mobiliza interesses. Muitos deles não muito nobres. Acho que vale a pena esse projeto ser aprovado. Afinal, o Brasil precisa se reconhecer na TV. Não apenas ver o pessoal do CSI.
Emanoel Barreto

sábado, 31 de maio de 2008

O corcel negro, a morte e o amor

Caros Amigos,
Deixo vocês com Antero de Quental.
Nada comento,
pois em não dizendo,
muito se diz nos traços do poema.
Emanoel Barreto

Mors-amor
Esse negro corcel, cujas passadas

Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele?
Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável mas plácido no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:


E o corcel negro diz «Eu sou a morte»,
Responde o cavaleiro: «Eu sou o Amor».

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A beleza bruta e forte dos índios reage ao homem branco

Caros Amigos,
A tribo indígena encontrada em sobrevôo da Funai no Acre, alegrou-me de alguma maneira. São eles, os primitivos, os atrasados, arcaicos e ágrafos, aistóricos e de tecnologia elementar, quase nus e agresivos, que representam o futuro da humanidade, quem sabe. Eles são seres humanos em estado natural: vivem intensamente a e com a natureza; não a defraudam, não a insultam com a sua presença. Antes, estão imersos nela.

Querem a natureza protegida, boa, cheia, perigosa em sua beleza primal. E quando viram o avião de onde eram fotografados, responderam prontamente, atirando flechas. Fizeram muito bem. Quanto à Funai, pelo que seus representantes disseram às coisas de jornal (pelo menos foi isso o que li), não divulgará a localização da tribo. Assim eles estarão, desejo, protegidos de nós.

Nós, tecnologizados, internetizados, globalizados, envoltos num processo insensato de belicismo e busca de hegemonia política, militar e econômica a qualquer custo, estamos fazendo o que já se sabe: destruindo as florestas, arrasando o Ártico, contaminando rios, experimentando uma vida materialista, hedonista e catastrófica. Queremos bombas, acumulamos fortunas que servirão para comprar poderosos armamentos e vivemos a nos ameaçar.

Temos miséria, fome, dominação, crueldade, crises financeiras, loucura e veneração pelo dinheiro e todos os prazerosos vícios que ele pode nos dar; entre eles, o desejo de ganhar mais dinheiro.

Na verdade, não temos nada. Na verdade, quando o mundo chegar à hecatombe, se eles, os índios, não tiverem sido mortos por nós, certamente serão os únicos aptos a continuar com a humanidade sobre a face da Terra. Só tenho uma dúvida: ainda haverá Terra?
Emanoel Barreto

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Soturno

Caros Amigos,
Não me faço de metal,
sou mais instantes.

E depois do negror do tempo,
infinito.

Quando os becos
se aproximam
das espadas,
eis hora
de chamar:
O quê?
Emanoel Barreto

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Os trinta dinheiros: quando o lucro é imoral

Caros Amigos,
Recebi o texto abaixo, que trata do degelo do Ártico. Redigido em estilo jornalístico é frio, objetivo, não emite juízos de valor. Entretanto, em seu subtexto, nas entrelinhas, diriam outros, encontrei todo um libelo: como é que homens, líderes ou representantes nacionais, ao invés de estar preocupados com o degelo, reunem-se na verdade para tomar providências prévias a essa catástrofe planetária, com o único objetivo de garantir... dinheiro?


Esse é o retrato mais puro, ou melhor, impuro, da depravação ética a que a humanidade chegou; a destruição do nosso mundo será levada adiante, mesmo que isso signifique o apocalipse. É irracional mas é verdade: os homens sabem o que virá; mas, antes, que lhes sejam dadas as trinta moedas do capitalismo demencial.
Emanoel Barreto

Segue o texto:
Depois do degelo, a exploração: a quem pertence o Ártico?

Países vizinhos do Ártico discutem na Groenlândia divisão territorial do continente. Devido às mudanças climáticas, rápido degelo da região polar pode abrir caminho para exploração comercial de suas reservas minerais.

Os cinco países vizinhos do continente Ártico - Rússia, Canadá, EUA, Dinamarca e Noruega - realizaram conferência na cidade groenlandesa de Ilulissat, nesta terça e quarta-feira, para discutir as controversas pretensões territoriais na região polar. Embora autônoma, a Groenlândia é parte do Reino da Dinamarca.

Isto explica a vizinhança dinamarquesa do Ártico, cujo degelo ocorre mais rapidamente do que previsto nos modelos das mudanças climáticas. O aquecimento global permitiria uma prospecção mais fácil das reservas minerais da região polar.

Cientistas americanos calculam que nela se encontra um quarto das reservas mundiais de petróleo e gás natural. No Ártico, não existe terra. Há somente gelo e água. A conferência na Groenlândia pretende discutir a quem pertence esta água gelada, que segundo prognósticos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) poderá, até o final deste século, derreter durante o verão polar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O beijo quente da Morte

Caros Amigos,
A Morte, não existe. Não existe enquanto ente, coisa ou situação objetivamente situada em relação ao ser humano. A morte é unicamente ausência da vida num ser que já a teve. Mas, estranhamente, pela construção arcaica, legado de místico pavor que o suceder de gerações ao longo dos milênios da presença humana na Terra criou, a morte ganhou sua condição de Morte. A Morte ganhou... vida.

O comentário é a propósito da próxima campanha anti-tabagismo a que o Governo dará seqüência. A foto distribuída à imprensa é parte da divulgação da campanha.

Poderosa, a imagem expressa bem a perplexidade perante a dor do fumante reduzido à condição de doente, frágil, abandonado em si mesmo, apesar da presença da família. O rosto tenso da mulher, o olhar inocente e balbuciante do menino, nos levam ao pesaroso mundo dos que estão presos ao vício do cigarro.

É pelo cigarro que se mata a Vida; aos poucos, silenciosamente. No cigarro, a Morte vem com o seu beijo quente e garante que um dia aqueles lábios estarão cerrados.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Luz, mais luz...

Caros Amigos,
Vivemos um tempo em que
o olhar sinistro mira
seus olhos sem que você perceba.

Depois, a hipnose do Mal
nos encaminha ao abismo,
que de há muito estava a nos fitar.

Mas, se a luz da manhã
mais clara vir,
Você inteiro em meio ao sol,
caminhe seguro em
direção a tal fulgor.
Emanoel Barreto

sábado, 24 de maio de 2008

Vinde e orai...


Caros Amigos,
Mônica Bérgamo, da Folha, informa que o bispo Edir Macedo está em negociações visando expandir os interesses da Igreja Universal do Reino de Deus. Diz a colunista: "Depois da Record e da RecordNews, o bispo Edir Macedo pode internacionalizar os negócios televisivos da Igreja Universal: em sigilo, já iniciou o projeto para uma nova TV com sede em Miami, nos EUA. O orçamento previsto do projeto gira em torno de US$ 40 milhões e inclui a compra de um satélite exclusivo A nova emissora deve começar a operar no início de 2010. O plano é ambicioso: fazer da nova TV uma espécie de "CNN" em português, que poderá ser captada por parabólica em qualquer lugar do mundo."

Macedo, uma figura capaz de fascinar multidões carantes (no sentido pleno da palavra), consegue estabelecer um nexo indestrutível entre religião e lucro, a partir de um princípio bíblico afirmativo: Deus quer que todos tenham vida e vida em abundância.

Estabelecido esse vínculo mediante uma interpretação literal do discurso, todas aquelas pessoas, fragilizadas emocional, fisica ou financeiramente, são tomada de paixão intensa pela promessa de salvação, e não se recusam a acatar, sem pensar, as prédicas, dele e de seus representantes.

A relação protestantismo e capitalismo está bem expressa no clássico "A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber. Ali, se expõe o entrelaçamento histórico entre a religião e a prosperidade. A ação do homem capitalista é analisada e mostrada como missionária, dedicada, daí resultando os frutos do seu progresso enquanto indivíduo que investiu e auferiou os resultados predendidos.

Ou por outra: poupador, austero, severo, dotado de um sentimento místico envolvendo o trabalho e o comportamento rigoroso na vida civil, o augusto crente, sem dúvida, teria a recompensa material a lhe servir de comenda, exposição do quanto estava ligado ao superior, sobrenatural e divino.

Utilizando-se de um discurso simplista e, portanto, compreensível, penetrante, claro e arrebatador de multidões socialmente enfermas, Macedo consegue sua adesão. Não se lhe pode negar força retórica, poder de convencimento, sua condição taumartúrgica e comunicacional-dramática. Sob tais aspectos, não há como negar, é um gênio da comunicação de massa. E, sendo assim, recebe tudo o que é de César.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A honradez está de luto


Caros amigos,
Uma das figuras mais preeminentes do senado, Jefferson Peres teve a vida tomada por certeiro enfarte. Austero, duro, forjou na mídia, nas coisas de jornal, a imagem de um catão. Com fria e essencial imparcialidade esgrimia no plenário o florete mais pontiagudo da ética, sem tergiversar; tinha como que uma espécie de ferocidade cívica contra ladrões e dseordeiros da moralidade.

Dizia: "Canalhas de todos os matizes: eu não sou como vocês. Ética para mim não é pose, não é bandeira eleitoral, não é construção artificial de imagem para uso externo. Ética para mim é compromisso de vida. Agir eticamente para mim é tão natural quanto o ato de respirar."

E mais: "Talvez eu tenha no máximo cinco dedos da mão de pessoas amigas. Mas tenho milhares de inimigos rancorosos. Todos os canalhas são desinibidos. Nada incomoda mais um canalha que uma pessoa de bem. Fere a auto-estima do canalha saber que há pessoas honestas."

Com a vida tomada de assalto, foi-se, com Jefferson Peres, uma daquelas figuras de liberal, honradas e probas. Sem a sua voz, sem seu carisma espartano e eriçado perde a vida pública um exemplo de homem e de parlamentar.

Dizia que este seria seu último mandato; não conseguia mais conviver no mesmo plenário - a arena donde desafiava a imoralidade - com tipos decaídos, perversos, cheios de impiedade, bárbaros habitantes da tenda dos negócios com a coisa pública.
Estamos mais pobres. A honradez está de luto.
Emanoel Barreto
Foto:http://video.globo.com/GMC/foto/0,,11724634,00.jpg

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A sombria e opressa proteção de Gothan

Caros Amigos,
O sombrio Batman está para voltar, na produção Batman, o Cavaleiro das Trevas. Ao personagem, que nos anos 1960 era uma espécie de salvador bom-moço de Gothan City, retirou-se o companheiro Robin, um efebo que o ajudava em sua luta contra o Mal, leia-se o Pinguim, Charada e Coringa. Após, a versão do herói ganhou algo, senão de sinistro, com certeza sombrio, soturno, existencial.

Batman passou a ser mostrado como um ser tenebroso, cabisbaixo, a longa capa negra drapejando, com um brilho escuro, a cor proferindo medo. É como um ser que tivesse sobre os ombros todos os pesos, pecados e crimes da nossa condição condição humana e viciosa.
Um bom estudo de semiótica permitiria belas conclusões a respeito do discurso visual-e-de-ação de Batman. Um estudioso mais curioso poderia escrever, e escrever muito, a respeito da sua figura de assombro e sua representação do inconsciente coletivo.
Ele parece dizer, com sua face fria, recoberta pelo enigma da máscara funesta, que vem do escuro para combater a treva e que voltará ao mais oculto, secreto, pressago mundo que habita o coração trêmulo do homem. Vertigem.
Ele chega para nos dizer: "Não vim salvar a vida. Mas, resgatar despojos" - como faz com o corpo do Robin morto, na imagem que ilustra nosso texto. Batman caminha em meio a uma humanidade pesarosa. E ajuda a carpir o choro dos espectros.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O mais puro terror

Caros Amigos,
As coisas de jornal dizem de gente que ficou soterrada até por nove dias, com o terremoto na China. É a condição humana experimentando, suponho, seus medos mais horrendos. O contato íntimo, interno, abraço mais terrível com a dor, morte rondando perto seu rosnado de sombras e abatimento; queda. Uma coisa assim, é a angústia elevada ao requinte, desespero opressivo: alguém emparedado gera gritos que não pode dar e espera que mãos venham de cima, para, quem sabe, salvar a vida que se debate, paralisada do mais puro terror.
Emanoel Barreto
Foto: http://www.club.lacarasur.com/mimages/terremoto1.jpg

terça-feira, 20 de maio de 2008

Versos sofridos

Caros Amigos,
O poeta e jornalista Walter Medeiros é uma dessas pessoas que se incumbiram como missão trabalhar, fazer o bem. Velho amigo de redação e trabalho, tem o perfil exato dos que podem ser definidos por uma só palavra: integridade. Recebi email informando que poema de sua autoria foi incluído em publicação didática. Transcrevo para vocês e mando um abraço a Walter.
Emanoel Barreto

Cordel de Walter Medeiros é
incluído em novo livro didático

“Versos sofridos para um açude triste”, cordel de autoria do jornalista potiguar Walter Medeiros terá trechos incluídos no livro didático-pedagógico “Rio Grande do Norte: geografia e paisagens potiguares”.

A publicação será feita pela Base Editora, de Curitiba e já se encontra no prelo. O poema retrata uma cena chocante: ao seguir de Tangará para Santa Cruz pela BR, o cidadão surpreendeu-se ao ver o açude - que sempre via cheio - completamente sem água.

Uma das estrofes do cordel diz: "O açude tão bonito/ Cheio de água limpinha/ Perdeu a água que tinha,/ Quase que não acredito; /Pois eu vi pela tardinha/ Aquela terra sequinha/ E não segurei meu grito."

A representante da Base Editora, Vera Barbosa. ressalta que o livro citado “é material didático-pedagógico, para utilização com alunos do Ensino Fundamental, que tem basicamente o objetivo de facilitar a aquisição de conhecimentos da disciplina de Geografia”.

Vera acrescenta que “Versos sofridos para um açude triste” vai ser colocado no capítulo Campo e cidade: paisagens e interdependência e considera que “o cordel vai auxiliar as crianças na percepção das diferenças entre esses espaços”.

Outros cordéis do autor já foram utilizados em atividades didático-pedagógicas, como a prova do concurso do CEFET/RN, há três anos, que incluiu o cordel “A peleja do cordel de feira com a Internet”, sobre o qual foram formuladas duas questões. Também o livro do Programa de Educação de Jovens e Adultos incluiu aquele cordel, ao tratar de “Tecnologia e trabalho”.

Os cordéis de Walter Medeiros podem ser acessados no site “Poemas de Cordel”, através do link http://www.rnsites.com.br/cordeis.htm .
Foto:http://www.cearacultural.com.br/Imagens/Sertao1.jpg