segunda-feira, 10 de maio de 2021

E aí eu me virei para o morto e disse: 

"Rapaz, eu não garanti que ia arranjar o seu emprego?”

Por Emanoel Barreto

O homem entrou na redação coisa de nove da manhã com um pedido triste: precisava de um emprego agora que se havia aposentado.

 Na verdade, eu jamais vira aquele homem, mas ele me buscou com grande desenvoltura. Desenvoltura que depois compreendi era a expressão do desespero de alguém angustiado com o pagamento insignificante a que estava acorrentado agora que estava fora do mercado de trabalho.


 

Elele Ele me disse seu nome, revelou saber que eu era jornalista e informou que era gráfico: estava em fim de carreira e fora aposentado quando trabalhava n'A República, o jornal do governo do estado. Pedia que eu tentasse algo para ele em alguma gráfica ou, quem sabe, num dos jornais de Natal. Eu disse que iria tentar, que faria todo o possível.

O homem, baixinho, agradeceu-me muito. Não percebi no prolongado aperto de mão da despedida um outro pedido: silencioso e angustiado esse pedido não era um pedido de emprego, mas o grito de um desiludido, alguém perdido, um homem que só tinha passado. 

Conforme o prometido passei a disparar telefonemas e torto e a direito, mas a resposta era inevitavelmente a mesma: não. Ninguém tinha emprego, ninguém precisava de um novo funcionário em gráfica ou jornais. Já estava quase desistindo, quando afinal um sim: naquela gráfica precisavam de alguém experiente. 

Estava garantido o emprego daquele inesperado visitante. Isso se deu uns dez dias depois de sua vinda. Quando bati o telefone no gancho, depois de agradecer pelo emprego conseguido, bati também o olho na página policial do Diário de Natal e ali estava: o homem tinha se suicidado dia anterior, tinha se afogado no mar, no grande mar da Via Costeira. 

Descendo de um ônibus, diziam as testemunhas, ele seguiu direto para a água e começou a entrar. Não atendeu a gritos ou pedidos para que voltasse. Afundou e somente dias depois o corpo foi encontrado. 

Gelado, tremendo um pouco, fiquei olhando o jornal como quem estivesse vendo um filme, um videoteipe delirante de tragédia. Era como se ele tivesse saído dali há pouco. Um minuto e pronto: logo depois, morto; encharcado da angústia de estar vivo e sentir-se amortecendo. Ausente de um emprego que complementasse a aposentadoria de celetista.

Fechei o jornal. E olhando fixamente a figura inexistente e morta, parada em frente a mim, eu disse: "Mas rapaz, eu não lhe disse que ia arranjar o seu emprego?"

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