quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

 Deu ruim:

A PF estava no Diário de Natal;

a turma “queria falar comigo”

Por Emanoel Barreto

O ano era 1985 ou 1986. Eu era repórter de política do Diário de Natal. Certo dia ao entrar na Redação vindo da Assembleia Legislativa fui surpreendido pelo hoje saudoso jornalista Luciano Herbert, com a seguinte informação: “Barreto, Albimar – Albimar Furtado, diretor do jornal – me disse que dois agentes da Polícia Federal estiveram na sala dele para saber se você trabalha mesmo aqui. Mas disse também que os policiais o tranquilizaram dizendo que está tudo bem, era só para saber, não há problema algum...”

A informação me soou no mínimo estranha: dois caras da PF terem o trabalho de ir a um jornal só para garantir a um repórter que as cosas estavam bem é meio esquisito, não é?  Pelo menos eu acho. Porque, até onde sei, não é papel da polícia acalmar os cidadãos dizendo que está tudo bem quando você já sabe que está tudo bem.

Diante de tão esquisita situação fui à sala de Albimar. Ele afirmou praticamente a mesma coisa que Luciano: “Não; se preocupe não: realmente eles estiveram aqui, falaram comigo, confirmaram que você é do jornal, mas disseram que está tudo bem e foram embora. Não se preocupe.”

Respondi: “Se você está dizendo...” e fui para a Redação preparar minhas matérias. Mas, fiquei pensando: como é que dois experientes jornalistas são tão ingênuos a ponto de não perceber que havia algo a mais no ar?

Diante da candura dos meus colegas dei também o caso por encerrado e fui trabalhar. Dias depois uma surpresa: o mesmo Luciano informou, agora com cara de preocupação: “Barreto, um oficial de justiça veio aqui lhe procurar. Você está sendo processado não sei por qual crime e precisa assinar um documento oficializando que sabe do processo.”

Eu disse “o quê?!!!!” E ele: “É verdade.”                                                   

Pensei: “Eu num disse? Não estava tudo bem: Luciano é realmente um ingênuo e Albimar é mesmo doido.” Mas, não sei por que, não dei muita importância ao fato e fui preparar meu material. Dois dias depois o oficial de justiça procurou-me novamente, eu não estava e ele se foi. Mais uns três dias e repetiu-se tudo: o sujeito me procurava  - e eu sempre fora, cumprindo pauta.

Dessa vez, porém, deixou uma ameaça: eu deveria dirigir-me à repartição onde ele trabalhava e assinar o documento de citação. Era isso ou o processo ia correr à minha revelia. Em suma: eu estava  lascado.

Então  caiu a ficha. Sabe Kafka? Já leu O processo? Foi assim que me senti: estava sendo processado e não sabia o motivo, igualzinho ao livro. Mas, diante da mudança de quadro peguei o carro e fui procurar o tal funcionário. Encontrei-o, tomei conhecimento do crime pelo qual era acusado, assinei o papel, peguei a minha cópia da citação e fui embora. Agora eu era, literalmente, um homem sob a mira da lei.

E o meu crime: ter publicado uma notinha na coluna Roda Viva, de Cassiano Arruda que estivera fora alguns dias e eu fora seu substituto. A tal nota, minúscula, na parte inferior da coluna, informava a respeito do resultado de uma pesquisa sobre intenção de voto numa cidade do alto-oeste potiguar. Especificamente o crime estava no fato de que a pesquisa não havia sido registrada no Tribunal Regional Eleitoral. Eu não sabia disso e publiquei.

Alguém, que nunca soube quem foi, representou contra mim a partir desse fato. Suspeito que tenha sido algum dos candidatos que ficaram em segundo e terceiro lugares.

A informação sobre a pesquisa me fora passada por um colega jornalista, velho conhecido meu. Não perguntei se o material fora autorizado pela Justiça para publicação, ele não tocou no assunto  e deu no que deu: uma mera informação, sem qualquer propósito de beneficiar qualquer lado, estava me levando às barras da Justiça.

Mais uns dias e fui prestar depoimento à Polícia Federal. Cheguei e disse: “Boa tarde. Vim aqui para ser interrogado.” O recepcionista, muito atencioso, disse: “Tudo bem. Venha por aqui.” Novamente o “tudo bem”, percebeu?

Pensei: por que tudo o que vem para me lascar vem precedido de um “tudo bem”? E caminhei ao lado do rapaz da PF.

Fui levado a uma grande sala cheia de birôs onde fui recebido por dois senhores de gravata, as mangas das camisas sociais arregaçadas. Eu supunha que ia ser um interrogatório truculento, cheio de perguntas capciosas, mas não. Foram feitas perguntas objetivas visando saber se eu tinha interesse na eleição de alguém e se era filiado a algum partido político. Tudo nesse tom. Jogo limpo.

Sim, ao chegar já encontrei Albimar me esperando ao lado de um advogado do jornal. Tinham vindo dar-me assistência jurídica e eu nem havia pedido. Claro, o jornal tinha obrigação de me apoiar, mas eu sequer havia pensado nisso. Imediatamente agradeci o gesto. Uns 20 anos nos depois, em cerimônia na UFRN, agradeci a Albimar publicamente durante o lançamento de um ebook com os perfis biográficos de jornalistas, eu e ele citados no livro.

Bom, passada essa fase da PF viria a etapa em que eu seria inquirido por um juiz e um promotor. E lá fui eu, o colega jornalista como minha testemunha de defesa. Aí o juiz disse: “Já li muitas das suas matérias, gosto muito das suas crônicas, mas vou ter de processá-lo, certo?”

Respondi solenemente: “Sem problema. Estamos aqui para isso, Excelência.” O magistrado seguiu um roteiro mais ou menos idêntico ao dos delegados da PF. O problema para ele é que praticamente não havia base para a acusação, a não ser a questão técnica de a pesquisa não ter sido registrada. E as perguntas , assim, não me levavam ao canto do ringue, digamos assim.

Explico: eu não morava na cidade, ali não tinha qualquer vínculo político ou familiar, sequer conhecia os candidatos, na verdade não conhecia ninguém lá e a notinha era graficamente insignificante: tinha uns dois centímetros de altura por dois centímetros de largura, publicada no rodapé da coluna. Para fechar: eu não tinha qualquer interesse no resultado da eleição nem buscaria beneficiar a quem quer que fosse utilizando o jornal onde trabalhava.

Em minha defesa tive o cuidado de apresentar aos autos uma declaração formal do chefe do setor de circulação do jornal atestando quantos exemplares haviam sido vendidos na cidade: cinco. Miseravelmente cinco exemplares estavam me jogando naquela situação. Uma briga paroquiana e mesquinha tinha virado um imbróglio para mim.

O problema, na sequência dos depoimentos, foi quando o colega jornalista foi chamado. O juiz jogou uma isca e ele caiu. Foi feita a seguinte pergunta: “O Sr. acha que o articulista deveria ter publicado essa nota, mesmo a pesquisa não tendo registro?”

Em vez de engatar uma resposta que me defendesse ele agiu como um jogador de várzea: ele que tem tudo para fazer o gol, a trave está aberta, o goleiro batido, mas, em vez de chutar a bola o sujeito chuta o chão.

Sabe o que minha testemunha disse? O seguinte: “É... pela experiência dele, né?...” Ou seja, eu deveria ter tido precaução. Eu pensei, “meu Deus, mas foi ele quem me passou a informação. Podia ter dito que me conhecia, que eu jamais iria usar do jornalismo com finalidades escusas.” Mas fez a pixotada e por um momento senti as coisas se complicando.

Eu já estava começando a pensar que ia sair dali algemado e com um saco preto na cabeça quando o juiz encerrou o interrogatório. O promotor também fez umas perguntas, deu-se por satisfeito e aquela cena terminou. Claro que não sai algemado nem nada.

Dias depois saía a sentença: além do meu advogado até o promotor pedia a minha absolvição. Às vezes comento sobre esse assunto com minha mulher e digo, brincando: “Minha filha, eu espero que os caras não se arrependam e reabram o processo. Já pensou se, de repente, chega aqui uma dupla de policiais federais procurando por mim e avisando que está tudo bem?”

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